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Artigos Educacionais

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MATÉRIAS HUMANÍSTICAS PARA O ENSINO MÉDIO

Izabel Sadalla Grispino *

O currículo do ensino médio passa por reformulação. Em novembro de 2002, a Secretaria da Educação estipulou um acréscimo na grade curricular do 2.º e do 3.º ano, das escolas da rede pública estadual, incluindo as disciplinas: filosofia, sociologia e psicologia. As escolas incluirão pelo menos uma dessas três disciplinas. A decisão sobre as matérias a acrescentar cabe à própria escola.

O aumento do número de disciplinas, de 9 para 12, não é, contudo, acompanhado do aumento da carga horária, que continuará sendo de 5 horas no período diurno e 4 horas no noturno. As escolas passarão a ter menos aulas das disciplinas tradicionais, como língua portuguesa, matemática, história, geografia ou inglês.

A inclusão das novas disciplinas contempla uma reivindicação da classe do magistério, que defende o enriquecimento do currículo, em matérias que ajudam a formar consciência de cidadania e a desenvolver  criticidade. Louva a inclusão, mas lamenta a diminuição da carga de outras disciplinas. Esperava que ela fosse acompanhada de uma hora a mais na carga diária. Considera as matérias filosofia, sociologia e psicologia importantes para a formação integral dos alunos, mas não concorda com a proposta de diminuir a carga das outras disciplinas. Entende que essa redução vai afetar o montante da aprendizagem. Sugere a volta da grade curricular de 1997, quando os alunos tinham 6 aulas de 50 minutos no diurno e 5 no noturno.

O secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita, contra-argumenta, dizendo que a redução no número de aulas das outras disciplinas, de 5 para 4, é muito pequena e em nada interferirá na qualidade do ensino.

A Secretaria ainda define uma cota mínima de horas-aula para 2003 das matérias tradicionais, um valor que seja suficiente para não prejudicar os alunos, diz ela. Para o Ministério da Educação, a mudança não vai atrapalhar as outras matérias, podendo, inclusive, ajudar na compreensão geral. “Os alunos poderão melhorar o seu desempenho em outras matérias porque passarão a ter uma compreensão melhor dos assuntos”, diz a diretora do Ensino Médio, Maria Beatriz Gomes da Silva.

As escolas, pela legislação, têm autonomia para definir como incluir novas disciplinas. A lei exige, apenas, que sejam dadas no mínimo 800 horas anuais e 200 dias letivos.

A concepção atual de currículo é formulá-lo, não por disciplinas estanques, mas englobadas, atadas em áreas de conhecimento, favorecendo o método interdisciplinar. Para abraçar a reforma, precisam-se derrubar as paredes do individualismo das escolas. Formar uma comunidade de professores que discuta o entrelaçamento de suas disciplinas, evitando a compartimentalização. Hoje, a idéia é do profissionalismo interativo, o de atuar em conjunto, melhorando o ensino, não por partes, mas no todo, como uma comunidade. O conteúdo de uma disciplina completa o da outra, liga-se um no outro, numa amplitude de conhecimentos. Os professores precisam aprender a trabalhar mais unidos, tanto no aspecto conceitual, como no atitudinal e no comportamental. Portanto, o número de aulas não é o grande fator preponderante, mas, sim, como essas aulas são dadas, como se entrosam, se complementam, enriquecendo-se mutuamente. A qualidade não provém apenas da quantidade de aulas, mas da capacitação do professor, do compromisso com o ensino, dos investimentos empregados.

Na tentativa de melhorar a atuação do professor, criam-se movimentos paralelos que venham contribuir com a escola. Foi lançada em 26 de novembro de 2002, no encontro “A Escola dos Nossos Sonhos”, a idéia da criação de um espaço permanente de debates e sugestões para a melhoria da escola pública. Espaço que teria o caráter de fórum permanente da educação, com a participação de sindicalistas, empresários, pais de alunos, jornalistas, organizações não-governamentais entre outros setores da sociedade.

A partir de fevereiro, a cada 2 meses, um grupo de convidados se reúne na capital e apresenta suas idéias. Simultaneamente, a Secretaria deseja estimular encontros semelhantes, de pais, associações de amigos de bairros e líderes comunitários, nas 89 diretorias de ensino do Estado. A proposta é de que os encontros reunam, de preferência, pessoas de fora da escola, para tratar de assuntos referentes a ela.

Segundo o pensamento da Secretaria, os educadores já são ouvidos em outras instâncias. Quer, a cada 2 meses, 20 pessoas, que não sejam da rede pública, atuando como um conselho, cujo peso de suas opiniões será de alto alcance.

Será um peso ao lado do grande peso que é o Conselho Estadual de Educação. Um Conselho que forme canais de discussões sociais, levante questões, proponha soluções em aspectos relevantes, esquecidos ou desconsiderados pela Secretaria da Educação.

Arregimentam-se forças  a fim de tornar a escola uma alavanca da nacionalidade. Espera-se que se leve a sério tal iniciativa, que lhe dê consistência e a estimule à continuidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2003)

EDUCAÇÃO INFANTIL, PRIORIDADE EDUCACIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

O Brasil é uma terra de contrastes; cresce desordenadamente. Frisante desigualdade entre o Sul, o Norte e o Nordeste, entre a opulência de poucos e a cruel, a extrema pobreza de muitos!

No Nordeste, a desnutrição infantil, largamente denunciada, alcança considerável parcela dessa população e vem gerando o nanismo. Crianças mal nutridas, sofrivelmente alimentadas, acabam degenerando-se, sucumbindo-se ou tornando-se nanicas. Perdas de vitaminas, na alimentação das primeiras idades, não se repõem jamais, dizem os especialistas do assunto. De nada adianta alimentá-las bem, depois dessa fase; o que se perdeu não se recupera mais. A criança atingida pelo nanismo está prejudicada de modo irreversível.

Transferindo-se essas perdas para a área educacional, do mesmo modo, a estimulação precoce perdida da primeira infância, desassistida da pedagogia, acarreta deficiências de aprendizagem, dificilmente superadas. O nosso País privilegia o ensino fundamental, e descuida-se da educação infantil, fase mais importante do desenvolvimento da criança, comprometendo o futuro de toda uma geração.  As vagas preenchidas nas creches e nas pré-escolas não são consideradas, pelo governo, para efeito de cálculo e repasse do Fundef (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental).

A ciência, em sua descoberta, mostrou que o cérebro é muito mais elástico do que se imaginava e tem sua capacidade definida nos primeiros anos de vida, fase em que a quantidade de sinapses (conexões neurais) depende de estímulos, do trato pedagógico recebido.

O cientista Carl Seagan, já falecido, pôs em xeque o modelo educacional adotado no Brasil pela negligência com que se atua, em relação às nossas crianças. Lançou, à reflexão, o desafio da necessidade da abrangência da educação infantil. Disse ele: “A principal revolução das primeiras décadas do novo século não estará no uso da informática, mas, sim, na educação das nossas crianças de muito pequena idade”.

No meu artigo sobre o exame vestibular eu dizia: O vestibular se constitui na última etapa de uma seleção que começou bem antes, na aprendizagem das primeiras letras. Seu afunilamento é preenchido por alunos que receberam a melhor educação, que freqüentaram a melhor escola. Ele é um termostato de todo o conhecimento adquirido anteriormente. Nesse contexto, escola particular tornou-se, praticamente, “pré-requisito” para se entrar em uma universidade pública e, esta a melhor do País -- a que oferece melhores empregos no mercado de trabalho – fica reservada aos ricos.

Essa discrepância vem de longa caminhada, quando poucos têm o privilégio de freqüentar o ensino infantil. É aí, nessa fase inicial de estimulação às primeiras aprendizagens, que se inicia a grande defasagem cultural das classes menos favorecidas. É aí, nessa faixa etária, que as crianças de famílias de baixa renda ficam, costumeiramente, de fora.  A ausência desse ensino, pelas crianças pobres, completa o ciclo da desigualdade escolar dessas crianças, futuros adultos, futuros concorrentes à marginalização profissional.

Felizmente, a educação desperta para a importância da pré-escola. Iniciar a aprendizagem formal de uma criança pelo ensino fundamental, pulando a pré-escola, é o mesmo que construir uma casa sem a consistência de um bom alicerce.

É preciso, pois, lutar pela educação infantil e pelo educador infantil, defendendo políticas públicas que priorizem esta etapa da educação. A nossa rede pública atende, hoje, apenas 9% da população  de zero a três anos nas creches e 48% das crianças de idade entre 4 a 6 anos, nas escolas de educação infantil.

A desatenção ao desenvolvimento integral das crianças na primeira infância responde pelas significativas taxas de evasão e repetência na escolaridade básica. As creches não se caracterizam mais como reservatório de crianças. Hoje, elas têm um conteúdo educacional, critérios curriculares, transformam o contato das crianças com os educadores em relações de aprendizado. Desenvolvem na criança os aspectos físicos, cognitivos, afetivos, éticos, as relações interpessoais e sociais.

A educação começa no berço e os primeiros anos têm peso fundamental para o resto da vida escolar. A educação que a pessoa teve no “período de molde” (de 1 a 7 anos) vai influenciar todo o seu comportamento futuro. O tratamento pedagógico de uma criança não é igual ao de um adolescente, que, por sua vez, é diferente do de um adulto.

A criança precisa ser atendida nos próprios interesses, sem imposição, para que libere o seu potencial, desenvolva a auto-educação, a autonomia na aprendizagem. Com a educação infantil, iniciam-se as fases específicas do desenvolvimento mental, que começam com a mais tenra idade e vão até a adolescência. Aos 14 anos, a criança está madura para raciocinar hipoteticamente – fase operatória formal ou hipotética – quando se completa, segundo Jean Piaget, o processo intelectual da criança.

Ao deixar de freqüentar a pré-escola, a criança perde, em estimulação e correspondente aprendizagem, as fases: sensório-motor (ou motora), pré-operatória e a iniciante operatória concreta,  produzindo  considerável  lacuna no desenvolvimento de sua inteligência e de sua formação integral.

A criança é um ser que interage com a realidade, formando, nessa interação, suas estruturas mentais e, se conduzida pedagogicamente, terá um desenvolvimento bem mais significativo. O potencial da criança está relacionado à estimulação ambiental e o encontro desses dois fatores realiza-se na pré-escola,  conferindo a esta um papel primordial.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em julho/2001)

EXAME NACIONAL DE CERTIFICAÇÃO DE PROFESSORES

Izabel Sadalla Grispino *

O Ministério da Educação e Cultura (MEC), implementando a cultura de avaliação, lança a proposição, que, se confirmada e estendida a todo magistério, poderá reverter em real benefício à educação, no sentido de trazer a tão desejada melhoria da qualidade do ensino. Trata-se do Exame Nacional de Certificação de Professores da Educação Básica, no qual, em calendário já determinado, janeiro e fevereiro de 2004, os professores da 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental serão submetidos a teste de avaliação de seu desempenho profissional.

O Ministério, por essa linha de conduta, abraça um procedimento concreto, capaz de atingir uma suculenta raiz do fracasso do ensino público, qual seja, a precária formação docente. Pelo encaminhamento desse Exame, conforme especifico abaixo, o professor será estimulado a uma atualização e reforço do conhecimento, numa seqüência que abarga um caráter permanente da educação. O MEC fala em uma rede de formação continuada, com apoio de universidades, para atingir o aperfeiçoamento profissional.

A participação dos professores será voluntária e os que participarem e forem aprovados receberão do Ministério da Educação uma bolsa mensal no valor de R$ 100,00. Segundo o anunciado, a partir de 2005, todos os formandos de cursos de licenciatura deverão passar pelo Exame Nacional de Certificação para a obtenção do diploma. Renata Braga Santos, chefe do gabinete da Secretaria do Ensino Fundamental do MEC, pronunciou-se dizendo que “todos os aprovados terão um documento do Estado brasileiro atestando sua qualidade diferenciada”.

O abono mensal de R$ 100,00, embora de pouca monta, não deixa de ser um atrativo na adesão ao Exame para um profissional que ganha pouco,  e a estimativa inicial do MEC é que 40% dos docentes, cerca de 500 mil  professores, compareçam à primeira prova. A  aprovação  do  professor  ao  teste  dar-lhe-á  gabarito, auto-estima, atributos perdidos nos últimos anos. A proposta do MEC é que o certificado obtido nesse exame tenha validade por 5 anos e a nota seja utilizada como critério em processos seletivos e de promoção no magistério.

A adesão do magistério ao Exame é um grande passo no caminho da escola renovada, capitaneada por profissionais qualificados. É uma pedra enfincada no alicerce do saber, o único verdadeiramente capaz de formar um aluno competente, premiá-lo com um ensino de qualidade. Esse processo traz esperança de que o penoso resultado das pesquisas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), referente ao ano 2001, venha, a médio e longo prazo, trazer alento ao falido sistema educacional vigente. Essas pesquisas mostraram que cerca de 1 milhão de alunos (980 mil) da 4.ª série não sabe ler e mais de 1,6 milhão são apenas capazes de ler frases simples. Os alunos da 4.ª série, na grande maioria, não adquiriram competências básicas de leitura.

O Exame Nacional de Certificação de Professores da Educação Básica, se acompanhado de outros reforços educacionais, principalmente de um significativo aumento de salário dos professores, da diminuição de alunos por classe, poderá trazer de volta o nível das antigas escolas públicas dos idos anos 30 a 60. O número elevado de alunos em sala de aula prejudica, sobremaneira, a atuação didática do docente, dificulta a interação professor/aluno, centro irradiador de todo processo de ensino-aprendizagem.

A iniciativa do Ministério da Educação (MEC) de se implantar formas de avaliação do trabalho docente, reforçando a cultura da avaliação, mostra que o ponto mais nevrálgico da educação brasileira está sendo tocado. O analfabetismo é um dos nossos problemas sérios, quer o absoluto, quer o funcional. O MEC divulgou, recentemente, que a cada ano cerca de 1 milhão de pessoas é alfabetizada sem nenhuma participação do poder público, com o esforço de entidades não-governamentais, igrejas e instituições, com eficiência de difícil mensuração.

Por sua vez, o ministro Cristovam Buarque entregou ao Senado um resumo dos dados sobre a situação na educação básica do País. Mais de 15 milhões de brasileiros com mais de 15 anos são analfabetos; 2,2 milhões de jovens entre 14 e 17 anos estão fora da escola; 57% das crianças com 10 anos não sabem ler e 34% lêem, mas não conseguem interpretar o texto; 52% dos alunos da 4.ª série não têm noções elementares de matemática; 30% dos alunos têm idade superior à adequada para a série que cursam; 41% dos alunos abandonam a escola.

A este quadro preocupante, acresce-se o resultado do campeonato mundial da ciência em que o Brasil aparece colocado na segunda divisão, afastando-se da divisão especial onde estão, entre outros, Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha e Coréia do Sul. O pesquisador Antonio Carlos Martins de Camargo, professor titular de farmacologia da USP, desabafou, dizendo: “Não temos uma cultura de que conhecimento gera riqueza. Aqui, conhecimento só gera conhecimento”.

Ainda temos muito o que fazer para mudar a mentalidade reinante, na compreensão de que não há crescimento sem investir na educação, no aperfeiçoamento da ciência, da tecnologia.

Vamos torcer para que o governo consiga erradicar o analfabetismo, implantar a “escola ideal”, conforme palavras do ministro, escola onde o aluno receba um ensino de qualidade, através de um profissional competente, atualizado. A formação do professor tem estreita relação com o aproveitamento escolar do aluno.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em julho/2003)

O TRANSTORNO DA HIPERATIVIDADE NA CRIANÇA

Izabel Sadalla Grispino *

Na segunda década do século XX, houve um forte despertar sobre o estudo da criança. Sua forma de agir, sua evolução psíquica, aspectos fundamentais da personalidade. A cada dia, a ciência, a psicopedagogia, nos enviam recados. Registrei alguns aspectos que devem fazer parte do conhecimento da educação infantil, quer pela família, quer pela escola.

Vejamos o caso de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), uma doença infantil, conhecida apenas como hiperatividade. É uma doença que causa uma agitação acima do normal, transtornos de aprendizagem, dificuldade de concentração e instabilidade emocional, entre outros sintomas. Os psicólogos a definem como doença neuropsiquiátrica, caracterizada, essencialmente, por distração, inquietação e baixa tolerância à frustração, que, geralmente, vem associada à impulsividade comportamental.

É comum essas crianças apresentarem dificuldades de atenção, percepção, planejamento e organização, além de falhas de comportamento. Essas dificuldades podem causar prejuízos na formulação de sentenças, tarefas que envolvem memória seqüencial, percepção viso-especial, síntese de idéias e coordenação motora.

O psiquiatra Ênio Roberto de Andrade diz que a criança se distrai com tudo, não consegue avaliar o que é mais importante, porque o cérebro trabalha mais lentamente. Ele é o fundador do Ambulatório para TDAH do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), primeiro ambulatório especializado no Brasil. Nesse serviço, a criança é encaminhada para tratamento, que, geralmente, envolve a administração de medicamentos estimulantes, para que o cérebro volte à atividade normal. “Dependendo do caso, também é indicada terapia individual, familiar ou acompanhamento de um fonoaudiólogo”.

Segundo Dr. Ênio, o TDAH atinge de 3 a 5% da população mundial, de acordo com os estudos internacionais. Acomete, porém, mais em meninos que em meninas. No ambulatório do HC, são nove casos em meninos, contra uma ocorrência no sexo feminino (out. de 2004). Por definição, esse distúrbio aparece por volta dos 7 anos e afeta pelo menos duas outras áreas da vida infantil escolar, como o convívio social e familiar.

Hiperatividade não é uma doença associada à deficiência na inteligência. Há casos de hiperativos com inteligência bem desenvolvida. A principal causa apontada por especialistas é o fator genético. Geralmente, o pai da criança hiperativa também já apresentou a doença. Raramente, o TDAH pode estar relacionado a traumas no sistema nervoso, devido a algum acidente em que a criança tenha sofrido um choque na cabeça. Tabagismo e álcool durante a gravidez aumentam o risco, de duas ou três vezes, de a criança, já propensa, adquirir a doença, diz o Dr. Ênio.

A necessidade de medicamentos deve ser avaliada individualmente por profissionais credenciados, para não produzir efeitos negativos, quando o humor da criança pode vacilar da euforia alegre para um estado de muita tristeza, beirando à depressão. A gravidade também se acentua em escolas despreparadas para lidar com o problema. Escolas que, por desconhecer a doença e a melhor forma de educar essa criança, através de broncas e constantes observações pejorativas, acabam por provocar queda na sua auto-estima.

A escola com atendimento às crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) deve ter uma metodologia especial, professores preparados para lidar com o quadro hiperativo.

Há casos de descontrole emocional da criança, que embora, às vezes, beira ao patológico, geralmente não têm nada a ver com anomalias de comportamento. É o caso da birra, crianças que se jogam no chão aos berros por querer algo que a mãe está negando, seja em casa, numa loja de brinquedos ou na rua. Provoca constrangimentos aos pais, quando a criança grita cada vez mais alto, chora, soluça.

Em muitas situações, a birra é comum e inevitável. Logicamente que há motivações, graus e dimensões diferentes, mas, normalmente, faz parte do processo de desenvolvimento da criança. Dizem os psicólogos que é errado seguir para o lado da avaliação moral, acusando a criança de ser mal-educada. Estamos no domínio do sofrimento psicológico. Não mimar muito a criança, ponderar, dialogar em diversas situações são aconselháveis. A birra expressa o sentimento de impotência perante o adulto, é conseqüência da intolerância. Através da birra é possível avaliar a capacidade da criança para tolerar a contrariedade, até que ponto ela sabe lidar com as frustrações. Quando ajudada a resolver o sentimento frustrante, a birra passa.

A psicologia fala nos primeiros desafios à autoridade, aos 18 meses. Nesse período, a criança é totalmente egocêntrica, não sabe dividir seus pertences, nem seu espaço com ninguém. Não deve ser forçada a dividir, porque ainda ela não entende. É momento para se começar a apresentar alternativas, como trocar um brinquedo por outro, fazer um desenho, ao invés de jogar, mas de uma maneira que não pareça uma substituição. Com um ano e meio, a capacidade de concentração da criança é muito pequena. Diante da birra, não adianta forçar ou colocá-la de castigo, porque ela não entende. O melhor a fazer é explicar o que se faz, o que não se faz e dar o porquê.

Aos dois anos, a criança já entende o que o adulto lhe diz e aos três anos já sabe distinguir o certo do errado. Mas, se a birra continuar, dos três aos cinco anos as estratégias das crianças, para enfrentar os adultos, são intensificadas. Diante da contrariedade, crianças explodem e chegam a bater nos adultos. Tornam-se temperamentais e descontrolam os pais.

Os pais ao ceder fortalecem, na criança, a capacidade da manipulação, afastando-a da capacidade de aceitação, de equilíbrio. A birra pode traduzir situações delicadas que devem ser encaradas com naturalidade e ponderação, ensinando a criança a lidar com o sentimento de frustração.

A hiperatividade e a birra são dois aspectos importantes a serem considerados no desenvolvimento da criança pela Educação Infantil.

ACERTANDO OS PASSOS COM A MODERNIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona a novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, incluindo, aí, o aproveitamento das vocações despertadas.

Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da sociedade, a incorporação de atitudes na linha da “parceria” “co-gestão”, “co-autoria”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”, “trabalho em equipe”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiências, conteúdos afins, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em “transmissão do conhecimento”, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em “construção do conhecimento”, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor-aluno; o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber erudito e em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis.

Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão.

Várias são as possibilidades de participação. A escola, ao lado da participação intrínseca – características de vida, de conduta, condições socioeconômicas – há a extrínseca: as comemorações cívicas ou sociais, eventos preestabelecidos, apresentações em acontecimentos de importância – e da comunidade para a escola, em datas oficiais – plano escolar, reuniões de pais e mestres, reuniões do Conselho de série/classe, eventual formação de colegiado. Participa, ainda, de exposições, encontros literários, artísticos, campanhas, das já tradicionais festas juninas, mutirões... numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só se chamava o pai para reclamar do filho, por alguma falta cometida.

Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé...

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno.

Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

A parceria propicia o exercício da cidadania, abre a escola para a crítica, permitindo participação consciente, tomada de decisão co-responsável, maior engajamento de todos. Culmina com uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam experiências e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em agosto/2005)

ALCA DO ENSINO SUPERIOR

Izabel Sadalla Grispino *

Os avanços tecnológicos ocorrem de maneira vertiginosa. É praticamente impossível prever-se as próximas evoluções. Não se pode mais trabalhar isoladamente e a integração de forças, em busca do novo, do conhecimento atualizado é pensado e desejado indistintamente, não importa em que setor da atividade humana.

Cogita-se de que num futuro breve, 10 ou 15 anos, as universidades serão “uma só”, interligadas pela internet. Pode-se, por exemplo, estando no Brasil fazer um curso na Universidade do México ou de Portugal e, estando lá, fazer disciplinas aqui. Apoiado nessa visão, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, propôs a embaixadores da América Latina, de Portugal e da Espanha, durante um encontro realizado em junho de 2003, criar a “Alca do Ensino Superior”. Ele defende um projeto comum de universidade na América Latina.

O ministro lança a idéia de que, em vez de integração só por meio do comércio, os parceiros do Mercosul e da Alca desenvolvam meios para integrar as universidades. “Fala-se na Alca do comércio, mas não se fala da Alca do ensino superior”, frisou o ministro, e marcou um novo encontro, para discutir o assunto. O seu grande desejo é que se construa, ao lado do Mercosul da economia, a “Universidade Sul”, analisando ser mais fácil a criação dessa universidade que a unificação comercial, porque as contradições são menores.

Uma universidade em conjunto não tiraria as especificidades locais, só ampliaria a visão de mundo, daria amplitude ao conhecimento, aumentando possibilidades de aperfeiçoamento e intercâmbio cultura e profissional.

Hoje, estamos aqui, mas presos ao mundo, antenados numa rede mundial de conhecimento e acontecimento, que nos mostra que é preciso avançar, alargar as perspectivas, para se situar no mundo globalizado.

2004 bate à nossa porta. Que haja um pacto para a evolução do conhecimento científico, mas que 2004 consiga, também, um pacto para a cultura humanística. Só esta, abraçando a espiritualidade, educando a mente e a alma para o amor, poderá conseguir o que a ciência até hoje não conseguiu, reverter os caminhos sombrios da violência, da guerra, os caminhos mortíferos das drogas, aniquilando nossos jovens, anulando a revolução tecnológica, zerando a esperança de vida. A decadência do sentido moral na sociedade, acarretando perdas de valores, evidencia-se mais e mais, numa conseqüência desastrosa para a vida humana. Os lares brasileiros hospedam, hoje, o desassossego, a inquietação, o medo. Já diziam os antigos filósofos gregos: “A alma de toda cultura é a cultura da própria alma”. Cultura que faz chegar a Deus e modificar o interior do homem.

Na luz da alma, a paz universal; na luz do amor, a semente e a preservação da vida. Um feliz Ano Novo a todos vocês, prezados leitores, com votos de saúde, paz e prosperidade. Minhas reflexões, na poesia abaixo:

ANO  DE  2004

Fim de ano, balanço de atividades,
Para uns, 2003 foi auspicioso, um ano de realizações,
Para outros, transcorreu na normalidade,
E para outros, ainda, foi marcado de dor, de desolação,
Na minha família, aconteceu uma perda muito sentida,
Apagou-se a luz da vida de uma pessoa querida.

2004 inicia-se sem o Jorge, um amado irmão,
Inicia-se triste, por essa sua ausência,
Sua vida produtiva, porém, não foi em vão,
Deixou um legado de ensinamentos, de experiências,
Que englobamos em nossa caminhada,
E nos ajudam a transpor os percalços da jornada.

Neste raiar de ano, nos exaltamos e choramos,
Exaltamos, pedindo a Deus uma era de paz à humanidade,
Que haja mais amor entre os homens, suplicamos,
Que façam profissão de fé na luta pela desigualdade,
A luz do sol é farta, nasce para todos,
Por que não dividi-la, afastando caminhos rotos?

Choramos pela ausência dos nossos saudosos entes,
Só as lágrimas lavam a alma da dor,
A herança recebida engrossa a corrente,
A vida segue em frente, avança sem retrovisor,
Que 2004 injete a vacina da caridade,
Caminho por onde transita a felicidade.

A flor carrega, em suas pétalas coloridas,
O gérmen da semente que lhe deu origem,
Assim, o homem leva, dentro de si, por toda a vida,
Um pouco de sua infância, sua fase virgem;
Somos os grãos humanos reprodutores da existência,
Somente dentro de nós, a ética da vida, sua consciência!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2003)

O CAMINHO DA REABILITAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Diante de um mercado de trabalho cada vez mais exigente, a qualificação é chave para a profissão. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo IBGE, em setembro de 2006, dá, novamente, seu sinal de alerta: “A educação brasileira continua muito abaixo dos padrões necessários a uma economia dinâmica e competitiva – capaz de aumentar sua presença no mercado mundial, condição básica para a geração de emprego e redução da desigualdade social”.

A cada passo da avaliação da educação básica, mais a presença da necessidade da intervenção nessa educação. São fatos mensurados pelas estatísticas, revelando um ensino sem qualidade, cujos efeitos negativos se espalham pelas atividades sociais, essenciais ou secundárias, comprovando uma política educacional ineficaz.

Ajudas parciais às escolas, por parte da sociedade civil, vêm acontecendo, há algum tempo. São ajudas limitadas, destinadas a algumas e que trazem benefícios educacionais comprovados pelas avaliações oficiais. Porém, a grande maioria das escolas fica restrita ao debilitado sistema oficial, sem chances de crescer.

Dentre essas ajudas está a Fundação Abrinq. Essa Fundação abriga um programa “Crer para Ver”, que tem como objetivo apoiar iniciativas e dar meios para a criatividade florescer dentro das escolas públicas.

Fundações há que fazem parcerias com escolas públicas, fornecendo equipamentos, material de apoio didático-pedagógico, promovem a reciclagem de estudos dos professores, acompanham, passo a passo, a atuação da escola, o nível de aprendizagem dos alunos, as avaliações e exigem dela uma performance primorosa.

O movimento empresarial “Todos pela Educação”, lançado em setembro de 2006, quer alcançar a consciência nacional de ajuda à educação. O propósito é criar uma mobilização social em favor da educação, ensinar a sociedade cobrar educação e educação de qualidade.

São movimentos auxiliares, com resultados parcelados, porque não conseguem uma unanimidade, um alcance global da educação básica.

A idéia lançada pelo professor Eduardo Giannetti da Fonseca, propondo um exame nacional unificado, no final do ensino fundamental, que venha credenciar a certificação desse ensino, é, no mínimo, digna de ser considerada. É uma proposta compacta, plausível, objetiva, que deve ir formando o imaginário dos educadores. É um caminho aberto, em que, certamente, sugestões virão, virão outras propostas, que, na confrontação, surgirá a melhor proposição.

Algo de concreto precisa acontecer. O ensino básico, ensino de alicerce, é prioridade na pirâmide educacional. Temos, para um País que se quer desenvolvido, uma educação descontrolada, anacrônica, decadente, precisando ser encarada. A exclusão social, que vem acontecendo em larga escala, é provocada, não pelos anos de escolaridade, mas pelo péssimo ensino público.

Constatar a ineficiência do sistema educacional, deixando de fazer as mudanças necessárias, significa permanecer na discussão inútil, estéril, sem avançar na prática educativa, no acesso à profissão de qualidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(publicado em novembro/2006)

A EDUCAÇÃO BRASILEIRA NO CONTEXTO SOCIOECONÔMICO-CULTURAL

Izabel Sadalla Grispino *

O momento presente vem demonstrando, através dos mais diferentes meios de comunicação, dos vários setores da economia brasileira, significativas manifestações em prol da educação. Parece estar havendo a grande conscientização do peso da educação na nova realidade que vem remodelando o mundo.

Por décadas, o País descuidou-se da educação de seu povo. Os alertas de educadores, de intelectuais, passavam como que despercebidos pelos governantes. Os ilustrados discursos políticos  ficavam, grandemente, no papel, não se transmutavam em ações efetivas. A educação, relegada a um plano inferior, foi deteriorando-se, caindo na grave e significativa defasagem dos dias atuais. A escola, que deveria representar portas abertas à ascensão social, tornara-se obsoleta pelo desajuste entre sua fraca atuação e a alta competitividade do mercado de trabalho, que exige qualificação profissional. Na verdade, encontramos, em termos de ensino fundamental e médio, boas escolas privadas para os ricos e, infelizmente, más escolas públicas para os pobres, com exceções.

A professora Luciana Velo, ganhadora do concurso “O professor escreve sua história”, desabafou, dizendo: “O professor é discriminado e tratado com descaso pelo governo e pela sociedade e não tem chance de evoluir”.

Até ontem, a repercussão e as conseqüências dessa defasagem tinham seu reflexo voltado, quase que exclusivamente, para o interior do País. Hoje, com a globalização, com o País plugado ao mundo, lidando com novos referenciais, o baixo nível de escolaridade de sua população afeta a sua imagem externa e a sua credibilidade. A qualidade de mão-de-obra se tornou essencial para assegurar condições mínimas de competitividade à economia da nação. Os centros internacionais, com sua economia forte de mercado, regem, em massificação, destinos dos demais países, sendo mais prejudicados os que menos aparelhados estão.

Em tempos em que o conhecimento não tem fronteiras, não há como conviver com padrões de escolaridade baixos; são incompatíveis com essa realidade. No impacto da competitividade, o mercado já exige fluência em dois ou mais idiomas, conhecimentos aprimorados da informática e uma cultura geral ampla. O consultor francês Olivier Bertrand reforça esta análise, dizendo: “A competitividade das nações depende cada vez mais da qualidade de seus recursos humanos e não da quantidade de seus recursos naturais”.

No Brasil, as deficiências do sistema educacional perpassam os três níveis de ensino, atingindo o quarto grau, que é o da pós-graduação.

A educação passa, no presente, por amplas reformas. Mexem-se nos currículos do ensino fundamental e médio, em seus amplos aspectos informativos e formativos. O MEC formulou as “Diretrizes Curriculares Nacionais” (DCN), que fixam o currículo mínimo obrigatório e a carga horária a ser seguida por todas as escolas do território nacional. Elaborou os “Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para a educação básica, que são de grande ajuda ao professor, em sala de aula. São uma referência do que seria uma boa escola. Os “Parâmetros Curriculares Nacionais” não têm caráter obrigatório e abordam sugestões de currículos com conteúdos renovados que levam o aluno a “aprender a aprender”, onde informação e formação caminham em movimento circular.

Questionam-se, também, o currículo do 3º grau – a desatualização da Universidade diante do mercado globalizado dos nossos dias – e a formação do professor. Na relevante questão da repetência e da evasão escolares, desloca-se do aluno o foco do problema e passa-se a corrigir as falhas do sistema. Através de uma avaliação processual contínua do sistema: “Avaliação da Educação Básica” (Saeb), procura-se situar o nível de aprendizagem dos alunos e ajustar o sistema nos aspectos necessários. Ao avaliar o 2º grau, deu-se início ao projeto de Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), exame nacional de final do ensino médio, criado em 1998, pelo MEC, com a finalidade de avaliar as habilidades e as competências adquiridas pelos estudantes no fim da educação básica e também com o propósito de oferecer às universidades um outro critério de seleção do aluno. Ele é, ao lado do vestibular, uma outra modalidade, de ingresso à universidade, uma vez que pela última Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei n.º 9.394/96), sancionada em 20/12/1996, o vestibular – a tradicional prova de ingresso ao ensino superior, que no Brasil remonta a 1911 – deixou de ser obrigatório. Hoje, as universidades têm liberdade de escolher seu próprio sistema de avaliação, de decidir qual a melhor opção para sua estrutura educacional.

Instituiu-se o Exame Nacional de Cursos (ENC), o provão, em que, através do desempenho dos alunos, se avalia a qualidade do ensino superior, o 3º grau. Esse exame servirá de base para a concessão do recadastramento dos cursos superiores, a cada cinco anos. O Exame Nacional de Cursos (ENC) conseguiu colocar na pauta da discussão o problema da qualidade dos cursos de graduação.

O aperfeiçoamento educacional e cultural nunca foi tão necessário. Não basta a criança ser educada, precisa ser bem educada. Estamos vivendo um processo de revolução tecnológica e industrial que introduz mudanças rápidas e importantes nos métodos e na organização da produção. A escola precisa criar no aluno a mentalidade tecnológica e científica, a fim de ajustá-lo aos novos tipos de competitividade.

A estagnação, a domesticação da escola, levam ao insucesso, ao desemprego. O professor Anísio Teixeira, em sua famosa palestra na Associação Brasileira de Educação (1952), já dizia: “O que importa na cultura de um povo é o atrito, a oposição, pois esses são os elementos que promovem o revigoramento e a vida de suas instituições e maneiras de ser”.

Buscar, através do atrito, a mudança. Mudar para se instrumentar, para não se ter dificuldades em competir no mercado globalizado do presente e do próximo século XXI.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2000)

A EDUCAÇÃO DO RICO VERSUS A EDUCAÇÃO DO POBRE

Izabel  Sadalla  Grispino *

A realidade educacional no Brasil é tema inquietante, a ser refletido por toda a sociedade brasileira. Realidade de duas faces: a boa educação para os ricos e a má educação para os pobres. Há décadas, Demerval Saviani, em seus livros, já denunciava a equivocada escola assistencialista, merendeira. São freqüentes e periódicas as citações de especialistas da educação sobre o decadente ensino das classes menos favorecidas.

O objetivo de toda escola deve ser o de tornar o aluno competente. A escola deve lutar, buscar os meios para realizar este objetivo, para dar aos alunos as ferramentas mentais de ação, a fim de que possam enfrentar o mercado de trabalho, hoje tão exigente. Nunca o livro didático foi tão necessário ao professor. A escolha de um bom livro poderá amenizar a situação do ensino público. Um livro que traga ao professor  instruções detalhadas, que propicie experiências abertas, exercícios práticos, onde se possa praticar o construtivismo. A criança precisa freqüentar a boa escola, desde os primeiros anos de alfabetização, porque a aprendizagem é um processo em que uma etapa influi e explica a outra. A construção do conhecimento exige tempo, é preparação sistemática, gradual, encadeada, ligando os diferentes graus de ensino. Não é um simples “depósito bancário”, usando a expressão do educador Paulo Freire. Não adianta avançar etapas, se a aprendizagem não se concretizou. Hoje, temos bem clara a noção de que o importante não é a quantidade do que se ensina ao aluno, mas a qualidade do que ele aprende.

O desinteresse oficial por uma escola pública de qualidade se constitui em mecanismo de reprodução das desigualdades. Concursos de ingresso ao magistério público há, em que Secretarias de Estado observam com rigor a porcentagem de acertos e erros, aprovando os realmente capazes – como o recente concurso, realizado no Rio Grande do Sul, onde 70% dos candidatos foram reprovados, ou o concurso de ingresso na Bahia, em 97/98, que reprovou cerca de 90% dos candidatos. Secretarias há em que, desconsiderando a má formação, rebaixam o nível de conhecimento, aceitam uma porcentagem de acertos inferior ou bem inferior ao que seria a média das questões, facilitando o acesso  para abarcar o maior número de candidatos, mas não garantem, depois, a qualificação necessária ao padrão requerido pela época. Nessa acomodação política, o aluno pobre é o maior prejudicado, pois que tem aula com professores mal preparados, cuja efetividade não foi fruto de competência. O ensino fica, assim, nivelado por baixo.

Em recente publicação do texto: “Duas experiências de ensino estruturado”, Cláudio de Moura Castro, assessor da Divisão de Programas Sociais do Banco Interamericano do Desenvolvimento, faz uma análise sociológica, cultural do Brasil, das últimas décadas e compara-o aos Estados Unidos. Ambos, diz ele, encontram dificuldades em “criar escolas capazes de oferecer um ensino de boa qualidade aos mais pobres e mais vulneráveis... têm escolas péssimas servindo a essa população”. Ambos têm grande desigualdade na distribuição de renda. Sendo que nos Estados Unidos “a maioria esmagadora é imensamente rica, embora tenha muitos bolsões de pobreza, sobretudo, nos centros urbanos”. No Brasil, ao contrário, temos “uma minoria muito rica e uma grande camada de pobreza, incompatível com nossa renda per capita”. O contraste entre Brasil e Estados Unidos está na grande diferença entre população rica e pobre. Se aqui poucos têm boa escola, lá a grande maioria a tem.

Cada povo tem  a educação que o espelha e a nossa pouco nos engrandece.

O magistério é  vocação sublime,  abre caminhos de esperança, de sonhos, de realizações. O professor é pedra angular, a fundamental na construção do ser humano. Batalhar a educação é batalhar a vida no seu grau supremo da promoção humana e social. Ela é essência, ultrapassa a dimensão circundante do Homem, alcança a dimensão cósmica, quando então, entra em comunhão com a obra do Criador e se torna a grande responsável pelo desenvolvimento sustentável do planeta, pela continuidade de nossa mãe-Terra, em sua missão de gerar novas vidas. “O que acontece à terra, acontece aos filhos da terra” – Seattle, chefe das tribos indígenas Duwarnish – Canadá.

Vimos, em seqüência, espalhando sementinhas, que a seu tempo – esperamos – se revertam no nascimento de árvores frondosas. Outras sementes, juntando-se a estas, romper-se-ão em outras árvores, que, no seu conjunto, formarão o cerne, a frente robustecida de combate, com núcleos de influência, semeando permanentemente. Se cada um fizer a sua parte, o grande encontro virá e coroado da salvadora redenção. Completo essas considerações com meus versos “O sono da combalida educação”.

O SONO DA COMBALIDA EDUCAÇÃO

A educação dorme no leito do atraso,
Sono do descaso, da assistência falida,
Da oscilante ideologia do acaso,
Brotando uma atuação didática abolida.

Quantos caminhos perdidos em sua dormência!
Enquanto dorme, o mau ensino perdura,
A criança se embrenha na estrada da falência,
Os pais choram a perda da visão futura!

Educação é luz, terra em maternidade,
Gera o alimento para o corpo e para a alma,
Sacia o sonho, a desigualdade acalma.

Desperte “Consciência”, alce a vontade política,
Faça da sociedade uma análise crítica,
Distribua o saber em social eqüidade.!

 

O DIFÍCIL EQUILÍBRIO DA BALANÇA

Izabel Sadalla Grispino *

Pobre Brasil, País em desenvolvimento. Sem o respaldo da boa educação, deste setor estratégico do desenvolvimento, continuará como País de terceiro mundo, ainda por muito tempo!

O nosso sistema educacional evolui sofrivelmente, não oferece, em todos os graus de ensino, uma educação com um mínimo de qualidade. Não está conseguindo formar mão-de-obra qualificada para o mercado interno e externo, enfraquecendo-se à competição globalizada.

A falta de prioridade à área educacional, que vem de longa data, foi se acentuando no tempo, chegando, hoje, a possuir um déficit de aproximadamente 250 mil professores no ensino médio e ensino fundamental de 5.ª à 8.ª série. Situação caótica, denominada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) de apagão educacional.

Esses dados foram fornecidos, recentemente, pelo relatório Escassez de Professores no Ensino Médio: Soluções Estruturais e Emergenciais, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Faltam professores graduados em Licenciaturas de Física, Química, Biologia, Matemática e outras, professores que precisariam ser contratados em caráter emergencial. A situação se agrava nas disciplinas Física e Química. Apenas 9% de professores de Física, que atuam nas escolas públicas brasileiras, têm formação específica na área.

Como conseguir esses professores? Pela linha da competência, da boa formação não é fácil, pois a carreira do magistério não é, hoje, nada atraente.

Com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), é provável que haja a universalização do acesso ao ensino médio, que será esbarrado pela falta de oferta de professores. O número diminuto de professores não atenderá a crescente demanda ao curso e esse déficit é realidade em todos os Estados do País.

Professores de outras áreas, já há algum tempo, vêm assumindo as turmas afetadas pela ausência de professores especialistas na matéria, especialmente áreas de Física, Química e Biologia. Eles são, contudo, apenas “tapa-buracos”, não têm formação para suprir o conteúdo das disciplinas afetadas. O comum é o aluno terminar o curso analfabeto na área científica.

O que se ressalta na atualidade, e mesmo em décadas atrás, é a preocupação dos governantes mostrar estatísticas como troféu. Na pressa de aparecer em números, descuidam-se dos métodos educacionais e insistem em programas contingenciais. É quando o tiro sai pela culatra.

Já se diz que é preciso reinventar o professor. Este continua ministrando aulas nos mesmos moldes da linha tradicional, usando programas de ensino idênticos, não importa em que região do País. Programas distanciados das localidades, das realidades da vida do aluno.

Continua mantendo um sistema, em que o professor fala, transmite o conteúdo, e o aluno responde da mesma maneira, seja no Amazonas, no Pará, ou no sul do País. Em nome de uma formação básica comum, caminha-se para um currículo único, divorciado de contexto da escola, ao invés da adoção de currículos abrangentes e precisos.

Em situações problemáticas como o apagão de professores, criam-se medidas emergenciais, que são apenas paliativos, não sustentando, de forma alguma, a posição desejável para a boa escola.

Negligenciaram o professor. Ouve-se, comumente, dizer que lecionar para crianças e adolescentes se proletarizou.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

GERAÇÕES DE BRASILEIROS SEM-DOCUMENTOS

Izabel Sadalla Grispino *

Um ponto sério de reflexão é a geração, que o País tem formado, dos sem-documentos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) manifestou-se, em janeiro de 2003, dizendo não ter idéia de quantos brasileiros estão nessa situação. O Instituto não tem dados sobre quantas são essas pessoas; oficialmente elas não existem. São pessoas que não têm nenhum documento, nem mesmo o registro de nascimento. Não têm carteira de identidade, CPF, carteira de trabalho, PIS, nem título de eleitor. São adultos e crianças sem documentos! É desumanidade sem tamanho!

O demógrafo da pesquisa estatística sobre os registros civis, Antônio Tadeu de Oliveira, diz que o IBGE não tem um dado sobre os brasileiros adultos sem documentos. “Essa é uma estatística inexistente e é justamente entre os adultos que o problema é mais difícil de ser combatido”. Sem documentos, uma pessoa não pode votar, fazer o alistamento militar, receber qualquer benefício, como aposentadoria ou pensão. Também não pode ser incluída nos programas sociais do governo federal.

O cadastro único para identificar os beneficiários de programas do governo federal exige pelo menos um documento para que a pessoa possa ser inscrita. A orientação dada para as prefeituras é de registrar em arquivos à parte, para quem não tem documentos e de como regularizar a documentação. Exige-se pelo menos um documento para evitar pessoas fictícias ou duplicidade. Até o fim de dezembro de 2002, havia 5,5 milhões de famílias cadastradas e 5.400 pessoas notificadas como sem nenhum documento.

Os dados mais aproximados são os dos cartórios, mostrados pelo IBGE em “Estatísticas do Registro Civil”, em dezembro de 2000, quando 21,3% das crianças nascidas no País não foram registradas no mesmo ano, o que equivale entre 700 mil e 1 milhão de crianças. Em 2000, a estimativa era de 3,4 milhões de nascimentos. Cerca de 3,2 milhões de crianças nasceram em hospitais, mas houve apenas 2,5 milhões de registros. Poderiam  ter sido registradas pelo menos mais 700 mil crianças nascidas em hospitais, fora as que nasceram em casa.

Os chamados sub-registros afetam não só os dados de nascimento, mas também os óbitos. O IBGE, em seu levantamento de 16 de dezembro de 2002, estima que, nas regiões Norte e Nordeste, 48,2% e 35,6% dos nascimentos não foram registrados em 2000. O sub-registro de mortes tem proporções semelhantes, 33,2% para o Norte e 42,7% para o Nordeste. Essa ausência de registros interfere negativamente em outras estatísticas que são calculadas, baseando-se nos registros. É o caso da taxa de mortalidade infantil, com cálculo que surge estimado pelo IBGE, pela falta de dados reais. Em alguns Estados do Nordeste, o sub-registro de óbitos chega a 60%!

São nas regiões mais pobres do País que se encontram as maiores taxas de sub-registro de crianças. No Sudeste, a taxa cai para 6,3%, no Sul é de 11,3% e no Centro-Oeste, 19,7%.

Os dados do Registro Civil divulgados mostram que, na década de 90, houve aumento dos registros tardios, aqueles feitos depois de 3 meses do nascimento do bebê. Registros com até 10 anos de atraso eram de 25,6% em 1991. Subiu para 30,3% em 2000. Mas, mesmo notificando com atraso, muitos brasileiros passaram a registrar seus filhos. Essa situação evidencia-se melhor, segundo o IBGE, em anos de eleição, quando os políticos têm interesse em ampliar o eleitorado, ou em anos em que há campanhas de registro civil gratuito, como ocorreu em 1999.

A lei 9.534, de dezembro de 1997, determina que sejam gratuitos os registros de nascimento e morte. Outra lei, a 6.015, determina que a criança seja registrada até 15 dias depois do nascimento, sendo que o prazo é ampliado para 3 meses, em lugares que estejam a mais de 30 km da sede do cartório.

Embora ainda altas, as taxas de sub-registro melhoraram nos últimos anos. Em 1991, 29,2% das crianças brasileiras não eram registradas. Até 12 anos de idade, a certidão pode ser tirada sem problemas, desde que os pais estejam com os documentos em ordem. Depois há dificuldades suplementares.

O sub-registro é uma questão que precisa ser tratada com muito interesse pelos organismos competentes. É uma parte triste de nossa história, onde a miséria e a ignorância se completam. O sub-registro envolve o problema da cidadania. Quem não tem certidão de nascimento não existe oficialmente e não pode exercer seus direitos. Sobrevive sem existir legalmente, dependendo de favores para qualquer atividade formal.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em janeiro/2004)

UNIVERSITÁRIOS EM EXEMPLO DE AMOR AO PRÓXIMO

Izabel Sadalla Grispino *

Nunca é demais repetir que educação é mola-mestra do desenvolvimento humano e social, embrião que se ramifica por todas as atividades do saber. Por isso, a escola mais que um centro de estudo deve transformar-se num centro educativo de formação, de diálogo, de orientação, de convivência comunitária. É preciso resgatar a importância da escola na abrangência de ações que envolvem todo o comportamento humano.

A Síntese de Indicadores Sociais de 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em abril de 2004, assinala que educação influi no índice de morte na infância. O IBGE encontrou em 2000, entre mulheres com nível de instrução superior a 8 anos, uma taxa de 20 óbitos por mil nascidos vivos; no grupo com até 3 anos de estudo, a mortalidade foi muito maior: 49,3 por mil.

O Nordeste apresentou quadro mais revelador: a taxa, entre os filhos de mulheres de baixa escolaridade, chegou a 70,3 mortes por mil, uma diferença de 151% em relação às crianças de mães com mais de 8 anos de instrução. Mostra o relatório que no Brasil as taxas de mortalidade infantil – menores de 1 ano – e  na infância estão muito acima do nível considerado “civilizado”, ou seja, 5 óbitos por mil nascidos vivos. Em 2002, o índice entre crianças de 1 a 364 dias foi de 27,8 por mil. Já entre os menores de 5 anos, o indicador foi ainda mais elevado: 34 por mil.

Conclui o estudo do IBGE que o caminho para a redução de mortes na infância – menores de 5 anos – passa pela educação da mãe. O nível educacional influencia a atitude da mulher em relação ao acompanhamento da gravidez, à higiene e à saúde da criança.

A consciência do valor da educação toma vulto. Parece que estamos conseguindo despertar os estudantes para a realidade social. A reativação do Projeto Rondon, abordado por mim no último artigo, partiu da União Nacional dos Estudantes (UNE). A visão de mundo está se alargando, as necessidades sociais se visualizando e os estudantes começam a chegar às comunidades carentes. Ao querer ser-lhes útil, idealizam projetos, no sentido de colaborar com elas, desenvolvendo ações educativas, preventivas de áreas, como da saúde.

Tomamos conhecimento, através da mídia, de jovens universitários, alunos da Faculdade de Farmácia de Araraquara (Unesp), que se embrenham pelas sendas das comunidades carentes. Sentem que a faculdade propicia pouco contato com a realidade e elaboraram, eles mesmos, programação de intervenção social. Receberam treinamento no Centro de Referência do Jovem e do Adolescente, da Prefeitura, e entenderam que esse projeto não poderia ser confundido com os programas assistencialistas, como, por exemplo, doação de alimentos. Interessam-se pela saúde da população e, num grande gesto de humanidade, colocam, com dificuldade no projeto, recursos próprios. Visitam as famílias no último domingo de cada mês, utilizando-se do ônibus da Unesp. Orientam sobre remédios, saúde, higiene e medem a pressão arterial. Na faculdade, promovem exibição de filmes, debates para jovens, abordando temas como drogas, sexualidade e cidadania.

Essas ações sociais são voluntárias e praticadas com entusiasmo e dedicação, tanto que não existe problema de continuidade. Os alunos do 1.º ano aderem maciçamente, substituindo os que vão se formando, criando uma corrente ininterrupta.

O projeto surgiu em 2001, através do Centro Acadêmico, com o nome de Atenção Farmacêutica Estudantil Permanente (Afep), fez parceria com a Associação Amigos da Vida, que trabalha com dependentes químicos.

Aguardamos que estudantes de outras faculdades se mirem no exemplo desses beneméritos universitários e partam para novas ações de utilidade pública, dando sua parcela de contribuição na construção de um mundo  mais igual, mais justo.

A esperança de um mundo melhor no amanhã surge, hoje, com as crianças da educação infantil, dando a elas não só um bom alicerce cognitivo, mas formando-as para a solidariedade, para a compreensão, no enfraquecimento da competição, para o exercício da cidadania. Essas crianças, abrigando valores, serão jovens mais participativos, mais solidários ao sofrimento humano, e estenderão, sem dúvida, seu olhar à comunidade necessitada. São esses jovens que, preparados para o sentido de humanidade, abraçam também, com vontade, o trabalho. Alegra-nos tomar conhecimento de jovens, na idade entre 15 e 24, que cursaram pelo menos o ensino médio,  estarem entrando no mercado de trabalho com carteira assinada. É o que mostra um levantamento feito pela Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo, com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Esse levantamento considera as 827 mil vagas formais criadas nos cinco  primeiros meses de 2004 em todo o País, tidas como recorde, desde 1992. Mostra que 60% dos novos empregos são ocupados por jovens de 15 a 24 anos, com, pelo menos, 8 anos de escolaridade.

Esses jovens fazem parte de uma juventude que nos passa novo alento, na crença de um futuro melhor para a humanidade. É preciso crer para ver. Continuemos implantando na criança e no jovem valores éticos, morais, humanos, comportamento solidário, participativo e, assim, poderemos esperar um mundo mais produtivo, de mais paz, de mais justiça social.

As crianças de hoje serão os comandantes serenos ou atropelados do amanhã. Elas são as sementes do futuro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2004)

ANALFABETISMO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

São vários os aspectos a serem enfocados sobre o analfabetismo no País, em crianças na faixa de 10 anos. Ressaltaremos alguns. Segundo pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgadas em 29 de novembro de 2002, 11,4% da população infantil são analfabetos. As cidades de médio porte levam grande desvantagem no quesito educação. São 383 mil crianças, dos sexos masculino e feminino, de 10 anos, a maioria de municípios de médio porte.

Considera-se um dos melhores indicadores para medir o nível educacional a taxa de analfabetismo das crianças de 10 anos. O índice varia de 5,4% nas grandes cidades, percentual considerado aceitável pelas Nações Unidas, até 18,7% nas cidades que têm entre 20 mil e 50 mil habitantes. O IBGE demonstrou que os municípios pequenos têm taxas de alfabetização infantil melhores que os médios, porque as prefeituras conseguem controlar com mais facilidade seus moradores. As baixíssimas taxas de analfabetismo no Sul contribuem, segundo o IBGE, para diminuir a média nacional.

O analfabetismo infantil varia de taxas altas, como 33% em Alagoas, para baixíssimos, como 1,7% em Santa Catarina. Em nível de escolaridade, a média vai de 8,1 anos de estudos em Brasília, a apenas 1,8 ano nas cidades de até 5 mil habitantes no Piauí. Há diferença entre municípios de um mesmo Estado, como no Maranhão, onde na capital a média de escolaridade é de 7,5 anos de estudos e nas cidades com até 5 mil habitantes cai para apenas 2 anos de estudos.

Em termos de analfabetismo infantil, temos ainda muito que avançar, que quebrar barreiras. O analfabetismo condena milhares de pessoas a uma vida sem perspectivas, vivendo miseravelmente.

Além do analfabetismo, temos ainda que considerar a má qualidade do ensino. O exame do Ministério da Educação, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), não mostra melhora significativa no desempenho médio dos alunos desde 1991, e piorou nos dois últimos anos. O Saeb mostrou que os alunos de 8.ª série dominam, na média, os conteúdos esperados dos da 4.ª série, e os da 4.ª série mal sabem decodificar as palavras que lêem.

Um teste aplicado pela Fundação Carlos Chagas em escolas de 52 municípios de 25 Estados demonstrou que os conhecimentos dos professores são próximos dos esperados dos alunos da 4.ª série.

Uma pesquisa que nos coloca na realidade brutal do nosso processo educacional é a intitulada “A Escola vista por dentro”, feita pelo ex-secretário do Ministério da Educação, João Batista Araújo e Oliveira, e pelo ex-presidente do IBGE, Simon Schwartzman. Estes autores sintetizaram, pelas respostas dadas a um questionário, o que é considerado “normal” entre professores, escolas e sistemas de ensino. Para os que não tomaram conhecimento da pesquisa, vale a pena conferir: “É normal não cumprir o ano letivo; é normal perder de 30 a 40% dos alunos sem que eles adquiram os conhecimentos para prosseguir os estudos; é normal enturmar alunos em classes onde eles não conseguem acompanhar o conteúdo e os ritmos dos trabalhos; é normal passar dever de casa que necessita de ajuda dos pais, mesmo sabendo que eles não podem ajudar; é normal começar o ano letivo sem professores designados para as turmas; é normal destacar professores sem habilitação para lecionar e sem conhecimentos elementares de português ou matemática; é normal operar escolas sem coordenação pedagógica, sem bibliotecas; é normal culpar os alunos e pais pelo fracasso dos filhos”.

O Brasil vem perdendo conceito geral e o trágico desempenho das escolas públicas ameaça o futuro do País, afirmam os especialistas. Não é redundante relembrar o vexame sofrido em 2000, quando os estudantes brasileiros, entre alunos de 15 anos de 32 países, ficaram em último lugar em capacidade de ler e escrever, na avaliação feita pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris. O exame foi supervisionado por uma técnica brasileira, que observou que muito dos alunos brasileiros nem sequer conseguiam ler as perguntas.

Diante do quadro exposto, como promover justiça social dentro de tanta desigualdade educacional? Soluções para as deficiências das escolas não são simples e nem rápidas. Educação boa é cara, é preciso real investimento, acompanhado de real mobilização da vontade política. Melhorar o ensino público é ponto capital para promover a justiça social. A má qualidade de ensino atinge gerações de jovens, leva-os a uma vida de apagado horizonte.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em janeiro/2003)

O ENSINO DE CIÊNCIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Constata-se uma crise mundial do ensino de ciência. Especialistas da área começam a discutir, mais freqüentemente, como melhorar o aprendizado dessa disciplina.

Na revisão, a ciência sai da abstração das salas de aula e parte para um processo mais ativo, mais especulativo, desenvolvendo na criança a curiosidade pela informação.

O ensino de ciências cria condições para estabelecer critérios de riscos e benefícios, no trato da realidade das coisas, preparando o indivíduo a não acreditar demais e também a não desacreditar. É o enfoque da ciência real. É um ensino que leva ao exercício da reflexão pelo domínio do conhecimento científico, intrinsição relacionado aos riscos enfrentados pela sociedade, como aids, vaca louca, buraco na camada de ozônio, destruição nuclear...

Estudos têm mostrado que a diminuição da habilidade em ciências leva à perda, no ensino médio, de ganhos acadêmicos obtidos no fundamental.

Assinalam os especialistas que a ciência, às vezes, se torna difícil de ensinar, porque os resultados são exatos, sem interpretações. A ênfase fica em passar informações, sem anular a discussão das idéias. Deve levar os alunos a formular hipóteses, fazer pesquisas e registrar suas conclusões. Um ponto que  vem sendo ressaltado é não fazer ciência só no laboratório, mas fora dele, para que a criança perceba que ela faz parte da vida do dia-a-dia.

O ensino de ciências agrava-se pela falta de professores bem formados e interessados na disciplina. Em decorrência, o que se verifica é o número de cientistas cada vez menor. Ademais, pessoas que têm bons conhecimentos em física, química ou biologia enveredam-se por outras oportunidades de emprego, bem mais vantajosas economicamente.

Surge no momento uma grande expectativa com a avaliação internacional de educação o Pisa, previsto para agosto, em 57 países, incluindo o Brasil.

O Pisa, realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é feito a cada três anos, por vários países. Avalia habilidades de leitura, matemática e ciência. Cada ano o foco é uma delas. Este ano será ciência. A prova é feita por alunos de 15 anos, que estejam pelo menos na 7.ª série.

No Brasil serão 633 escolas de todos os Estados, escolhidos por sorteio. Nossas escolas não são bem equipadas em materiais e os professores não foram bem formados e não incentivam o ensino na rede pública. Levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), só 5,4% das escolas públicas de ensino fundamental e 37% das do ensino médio têm laboratório de ciências. No setor privado, os índices são de 31% e 66%, respectivamente.

O resultado do Pisa, que já preocupa o mundo todo, sairá em 2007. Este ano, os alunos responderão questões sobre assuntos, como a razão da escuridão e da claridade na Terra e sobre clonagem. Nos exames anteriores, o Brasil foi o último colocado em leitura e matemática.

Esse resultado nos fere sobremaneira, especialmente por sabermos que há uma estreita relação entre escolaridade, nível de conhecimento e taxa de desenvolvimento de um país. É preciso pensar em educação também como desenvolvimento. Hoje, de acordo com o IBGE, a escolaridade dos trabalhadores brasileiros é de menos 5,4%.

Lembrando a Coréia do Sul, país assolado por uma longa guerra civil, há 30 anos, registrava a mesma média brasileira de escolarização formal dos trabalhadores, 4,7 anos. Nessas três décadas, a Coréia do Sul investiu fortemente na educação, elevando esse índice para 12 anos, saltando em disparada ao indicador brasileiro.

Um outro agravante fator da baixa escolaridade é a violência, rondando, sobretudo, as periferias das grandes cidades.

No processo da educação, é indispensável acompanhar as novas descobertas de ensino, avaliar as informações, sempre na mira de uma pedagogia transformadora, a serviço do social.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em setembro/2006)

O QUE SIGNIFICA ALFABETIZAR?

Izabel Sadalla Grispino *

Em 2002, o Instituto Paulo Montenegro, entidade ligada ao grupo Ibope que se dedica a projetos sociais na área de educação, em parceria com a organização não-governamental Ação Educativa, divulgou dados de uma pesquisa sobre o alfabetismo. Só 26% dos brasileiros, entre 15 e 64 anos, dominam bem a leitura e a escrita. Outros 65% são alfabetizados, mas têm deficiências nas habilidades de leitura e de escrita e 9% da população são completamente analfabetos. Quadro nada abonador, visto que, num total de 100%, apenas 26% têm um bom domínio de leitura e escrita.

Foram entrevistados e avaliados duas mil pessoas em todo o País, amostragem com representatividade nacional. A idéia é fazer pesquisas a cada ano, para avaliar a evolução da alfabetização.

Os dados compõem o 1.º Indicador de Alfabetismo Funcional do País. A pesquisa dividiu o alfabetismo em três níveis:

Nível 1 – quem só consegue ler textos muito curtos, como títulos ou anúncios;

Nível 2 – inclui essa habilidade e a capacidade de compreender textos maiores, como uma reportagem pequena de jornal;

Nível 3 – o indivíduo domina a leitura de textos longos.

O ensino fundamental deveria proporcionar ao educando condição a que ele dominasse as habilidades de escrita e leitura e se enquadrasse no nível 3. Contudo, a pesquisa revelou que apenas 42% das pessoas com ensino fundamental completo ou ensino médio incompleto dominam escrita e leitura. O restante, 13%, se enquadra no alfabetismo nível 1 e 44% no nível 2.

Na aplicação dos testes, os pesquisadores elaboraram uma revista para a pesquisa. Dentre as tarefas, uma das mais simples era identificar, em um anúncio, a data de início de uma campanha de vacinação. Numa tarefa mais difícil, a pessoa tinha de saber consultar a programação de filmes na TV. A avaliação da pesquisa revela que quem está no nível 1 ou no nível 2 é analfabeto funcional. São pessoas que usam o que sabem no dia-a-dia, conseguem acompanhar a leitura de um texto simples ou ler um pequeno recado. Porém, o uso das habilidades fica muito restrito em algumas situações, comprometendo o grau mínimo que a pessoa precisa ter, para continuar se aprimorando.

A grande lição que tiramos desta pesquisa é de que não basta erradicar o analfabetismo. É preciso avançar o olhar sobre a alfabetização, trabalhar as habilidades reais dos estudantes e investir na correção das deficiências. O importante não é apenas freqüentar uma escola; é sair dela com qualificação suficiente para enfrentar as condições de vida e de trabalho, para o aluno aprender a usar o que sabe nas situações do cotidiano, na resolução de problemas. Alfabetizar não é só ensinar a ler, a escrever, a contar. É desenvolver a habilidade de pensar, de raciocinar, de criticar, é levar o aluno a uma leitura de mundo, com sua interpretação e sua participação efetiva. Essa leitura se faz pela palavra, por isso o professor deve aperfeiçoar no aluno a comunicação, definir as habilidades que espera ver definidas, privilegiar a interpretação e o raciocínio.

Essa pesquisa sobre alfabetismo explica o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicado em adolescentes de 15 anos de 32 países, trazido ao conhecimento do público no início de 2002. O Brasil ficou em último lugar, em leitura e interpretação de texto, e, também, em matemática e Ciências. Os alunos brasileiros mostraram que não entendem o que lêem.

O que conta não é a quantidade de alunos que freqüenta a escola, mas a qualidade dos formados que dela saem. É a baixa qualidade do ensino público que gera a quantidade de analfabetos funcionais, a grande responsável pela exclusão social.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), na pág. 276, eu digo: “A escola precisa reservar em sua organização curricular, em seu projeto pedagógico, um lugar especial para a leitura, para a literatura... Criar, inovar formas de tratar o texto literário. Idealizar espaços para a leitura, enriquecer o acervo de sua biblioteca, com variedade de textos que sejam representativos das diferentes faixas etárias e da cultura heterogênea de nosso povo. Emprestar os livros não só para os alunos, mas também para seus pais e para toda a comunidade, melhorando o seu ambiente, elevando o grau de cultura geral”. Essa leitura deve ser assistida pelo professor, acompanhada de interpretação, de reflexão, sobre o texto lido. A leitura é parte integrante do processo de alfabetização.

Consideramos a alfabetização como um processo no qual o indivíduo não só aprende como aprende a aprender, aprende a pensar. É como se diz: “Ser camelô de badulaque é fácil”. O difícil é o trabalho sistematizado, a aprendizagem cumulativa, adquirida ao longo do tempo. Há um tempo de maturação para se chegar a um estilo, a uma mudança de comportamento.

Haverá verdadeira mudança na estrada da educação, quando o professor se conscientizar da humanização, da individualização, no processo de ensino-aprendizagem. Guardo na memória um pensamento que vem de encontro ao meu conceito de educação: “O professor não deve considerar o aluno apenas como aprendiz de textos, mas, principalmente, como a pessoa que precisa aprender também a conviver melhor consigo mesma e com seus semelhantes, aprender a descobrir nos textos que lê a mensagem de vida que freqüentemente se encontra encoberta”.

O mestre deve ser a pessoa que ajuda seus alunos a desvendarem os caminhos de suas existências, dentro da fisicamente pequena, mas, vivencialmente, do imenso espaço de uma sala de aula.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2005)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

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