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Artigos Educacionais

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SAUDAÇÕES AO ANO LETIVO

Izabel Sadalla Grispino *

Convidada a proferir a aula inaugural de uma escola normal, teci considerações que, hoje, trago a você professor, num gesto de atenção, desejando, num grande abraço, abranger todo o magistério desta cidade.

Março é o mês em que a escola, já organizada, dá a sua largada ritmada, rumo ao cumprimento do dever que o ano letivo lhe impõe. Fevereiro é o mês dos preâmbulos, dos planejamentos, dos acertos, dos ajustes. Então, neste momento, quero dar aos professores, ao diretor da escola e a todos os seus funcionários as boas-vindas, desejar-lhes um trabalho auspicioso, produtivo, que tenham, ao longo do ano, força renovada, alento e apoio nas sinceras e procedentes reivindicações.

Em cada grau da pirâmide educacional, o professor correspondente tem uma importância capital, formando no conjunto a gleba florida. O professor das primeiras letras, o nosso querido professor primário, é marco nessa escalada da aprendizagem. Sua importância é grande e com os avanços da psicologia genética a educação infantil firma-se e se mantém como a grande fase formadora do alicerce educacional do indivíduo.

A educação infantil está sendo cada vez mais valorizada; sua ausência repercutirá desfavoravelmente em todo o percurso escolar posterior. Cabe ao professor primário a séria responsabilidade de, ao introduzir a criança no mundo da leitura e da escrita, torná-la um estudante animado, encorajado, confiante. A postura do professor, diante da criança, é bem mais representativa que o seu próprio saber. São a atenção, o cuidado, o carinho que levam essas crianças ao bom termo final. É o amor o maior ingrediente da educação, ou como dizia Pestalozzi, seu maior instrumento.

O início da atividade intelectual tanto pode fazer do aluno um continuador incentivado ou um ser desanimado, inculcado, com vícios de aprendizagem. Esse professor será ou a escada rolante, que o conduzirá ao topo, ou o chicote, a cortar-lhe durante todo o trajeto, e a escolinha primária ou uma colméia em que se fabricam as primeiras  gotas de mel, ou um vespeiro agitando a caminhada.

Escola é um organismo vivo, acompanha a evolução dos tempos e se modifica com ela. Não é uma entidade estática; cabe a nós, professores, atualizá-la, torná-la competente para responder à altura ao mundo tecnológico dos nossos dias.

A educação moderna vem exigindo competência e dedicação crescentes por parte do professor. Manda que se atenda à realidade do aluno, da comunidade em que se insere e que, ao lado da instrução, ministre a educação. Na instrução, o aluno abrange o saber; na educação, torna-se um ser consciente de suas responsabilidades morais, sociais, religiosas, torna-se um estudante que se desenvolve nas capacidades cognitivas de caráter geral.

A orientação pedagógica pede, hoje, bem mais ao professor. Ele não pode se descuidar da educação integral, porque só ela vai ajudar o aluno a vencer as barreiras do avanço científico-cultural. O aluno bem formado nos aspectos conceituais, atitudinais e comportamentais chega por si só à informação.

Dizemos que a atuação do professor é complexa, singular, contextualizada. Complexa, porque envolve vários fatores: exigências sociais, experiências de vida dos alunos, apropriação do conhecimento, desenvolvimento de habilidades e de atitudes; singular, porque não há duas classes, dois professores ou dois alunos iguais; e contextualizada, porque tem que abordar um currículo adequado ao contexto sócio-cultural.

Vimos que escola não é só “razão instrumental”, ela está comprometida com o pensar, com as relações humanas, o pensar com os outros dentro de um contexto intersubjetivo que proporciona a autonomia dos educandos.

O que é feito com amor, com entusiasmo, produz o melhor resultado. A decadência do ensino público afeta a todos nós, a todos diz respeito. Nenhum educador fica indiferente a esse quadro empobrecido do ensino público e o que mais queremos é vê-lo prosperar, abraçar patamares que dignifiquem o magistério de nossa terra. O que mais queremos é que ele seja coroado, porque nenhuma coroa pesa mais, nenhuma significa mais que a coroa do saber. Somos conscientes de que educação não é variável isolada. Com o aumento da marginalidade, do desemprego, da exclusão social, não se pode esperar milagres da educação. Contudo, com criatividade, com espírito de solidariedade, a escola pode muito colaborar.

O professor é uma necessidade social e ele deve tomar consciência desse seu papel. Ele é, no dizer poético, “o guieiro dos filhos da Pátria”. Quanto mais elevado o grau de instrução, de educação, mais forte será a cadeia da nacionalidade. A escola, juntamente com a família, é o núcleo da sociedade. Nelas aprimoram-se as virtudes, amolda-se o caráter, que é a expressão da alma. A escola continua o lar e ambas, unidas, lutam pela formação de homens honrados, idealistas, úteis à família, à sociedade, à Pátria e a Deus.

Professor caminhe firme em direção ao saber, mas não despreze as boas normas de conduta. Cultive a alma, atue com sabedoria e eqüidade social,  influenciando toda a comunidade escolar e, em especial, seu aluno. Ninguém é grande ou pequeno pela vida pomposa que ostenta ou pela vida simples que leva. A categoria em que temos de classificar a importância dos homens deduz-se do valor dos atos que eles praticam, das idéias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes.

Que Deus e a Pátria os protejam!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2001)

A ESCOLA EM SUA MACRO-ORGANIZAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

O sucesso não ocorre por acaso. Escolas, que vêm mantendo a vanguarda do conhecimento e de sucesso escolar, organizam-se em funcionais princípios, baseados em uma moderna gestão educacional.

Elas fazem valer o espírito de equipe. O espírito de grupo cresce e alcança o de equipe, envolvendo toda a instituição. É o todo a favor das partes, é a unidade de pensamentos e atitudes, alicerçada na filosofia educacional adotada pela escola.

O foco da educação centraliza-se na qualidade do ensino e na sua utilidade. As avaliações de todo o processo estão em reavaliações contínuas, seja do ensino-aprendizagem, seja do sistema.

A macro-organização vai gerir a formulação de currículos interdisciplinares, norteados para o desenvolvimento de habilidades, numa visão ampla do conhecimento e não para fazer provas. Vai, na escola como um todo, mudar o olhar do sentido da educação, sustentado pelo momento atual, pelas exigências da sociedade, no equilíbrio do olhar interno com o externo, com o recinto da escola e o seu entorno. Expande o olhar em direção ao mundo globalizado.

A escola, interessando-se pelo seu entorno, buscando conhecer a sua comunidade, a sua região, vai melhor contextualizar o seu conhecimento, trazer matéria mais significativa para o aluno. Muito do que se ensina na escola não tem nada a ver com a realidade do aluno e nem relação com o mercado de trabalho e isso a desloca de seu eixo.

Conhecimento não é só para dentro da escola, mas, também, para fora dela. Esse entendimento começa a ganhar terreno. Para mudar o País, a escola precisa primeiro querer mudar o entorno de onde se insere, preocupar-se com a comunidade. Ao levar conhecimento à comunidade, a escola fortifica-se. Defende a idéia de trabalho comunitário, quando o jovem aprende a conhecer e a lidar com sua realidade, aprende a entendê-la e, através do conhecimento, passa a modificá-la.

A escola cria uma conscientização, que se inicia com ela e chega à sociedade, da importância da educação para viabilizar o crescimento geral da Nação.Melhorando o ambiente, o meio social, ela torna a educação uma realidade concreta a todos os alunos, pobres ou ricos.

O entorno mais esclarecido vai se encarregar de empurrar a educação para cima. O seu envolvimento, a sua participação interessada, chegam ao aluno, à organização da escola e engrossam as fileiras em favor de uma educação mais contextualizada, de qualidade.

A escola, funcionando como equipe, ganha armas, ganha força. Vai lutar, com unanimidade, pelos mesmos princípios educacionais e filosóficos, por ela implantados, surtindo, pelo conjunto, resultados animadores. É a união caminhando em direção aos valores ressaltados pelo momento educacional.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em agosto de 2006)

CRIANÇA HIPERATIVA

Izabel Sadalla Grispino *

Múltiplas são as funções da escola. Educar para a vida todas as crianças que acolhe em sua instituição é para ela um desafio, que se acentua pela complexidade que resulta da diversidade que marca a clientela escolar. A escola precisa compreender e atender os alunos em suas diferentes especificidades.

Educar, atendendo as diferenças individuais, requer muita dedicação, habilidade, competência e predisposição ao trabalho educativo. Vejamos o caso de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), uma doença infantil conhecida apenas por hiperatividade.

Os sintomas das crianças hiperativas podem ser observados desde os primeiros anos de vida. Segundo recentes estudos, mães de crianças hiperativas relatam que seus filhos se mexiam muito, mesmo antes do nascimento, sentiam uma certa agitação da criança no útero materno.

As escolas confirmam seu diagnóstico conversando com as mães. Desde pequeninhas, essas crianças mostram-se irritadiças, choram muito nos primeiros anos de vida e apresentam sono agitado. São crianças que precisam de vigilância redobrada, expõem-se, constantemente, a riscos de acidentes. Elas quebram, com freqüência, seus brinquedos, perdem rapidamente o interesse por brincadeiras ou situações, necessitando, sempre, de novos estímulos.

Muitas mães chegam a se queixar de esgotamento. São crianças indisciplinadas, problemáticas, por vezes, avoadas e malcriadas. Em determinados momentos parecem estar “no mundo da lua” e têm seus relacionamentos agravados pela impulsividade.

Quando o hiperativo vai à escola, a situação se complica. Ele dá muito trabalho, tem grande dificuldade de permanecer no lugar, agita pés e mãos em demasia, corre ou fala demais, não respeita os momentos da aprendizagem. Chamar a atenção, castigar, não resultam efeito, ao contrário, geram conflitos nas relações pessoais.

A hiperatividade é mais freqüente no gênero masculino e os estudos mostram influência dos fatores genéticos. Vem demonstrando que o hiperativo apresenta essa característica ao longo da vida, com acentuadas melhoras se atendido corretamente em termos comportamentais, educacionais, ambientais e, quando necessário, medicamentosos.

A hiperatividade é uma doença que causa, pela constante agitação, pela dificuldade de concentração e instabilidade emocional, transtorno à aprendizagem. Os psicólogos a definem como doença neuropsiquiátrica, que traz dificuldade de atenção, de percepção, planejamento, organização, com falhas de comportamento. A criança se distrai com tudo, não consegue avaliar o que é mais importante, porque o cérebro trabalha mais lentamente.

Aconselha-se aos pais que a encaminhe a um tratamento que, geralmente, envolve a administração de medicamentos estimulantes, para que o cérebro volte à atividade normal, diz o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, do Hospital das Clínicas da USP/São Paulo.

Escolas despreparadas para lidar com o problema agravam a situação. Precisam utilizar-se de uma metodologia específica, com professores treinados para trabalhar com o quadro hiperativo.


* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em março/2007)



 

 

SÍNDROME DA DESISTÊNCIA SIMBÓLICA DO EDUCADOR

Izabel Sadalla Grispino *

Os resultados da avaliação da educação básica, nos últimos anos, registram sistematicamente um nível crítico de ensino. Os resultados do último Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), realizado em 2001, revelam que a grande maioria dos alunos, que termina a 3.ª série do ensino médio, sai sem saber Matemática e Língua Portuguesa. Em Português, apenas 5,34% revelam um nível satisfatório e em Matemática, 5,99%.

Essa situação agrava-se nas regiões pobres do País. Alunos classificados nos estágios crítico e muito crítico, no Nordeste, sobe para 76,4% e no Norte, 83,1%, enquanto a média nacional fica em 67%. Segundo o relatório, o nível dos alunos é mais compatível com o da 8.ª série do que com o da 3.ª série do ensino médio. Os alunos não conseguem assimilar conhecimentos novos e os baixos resultados da 3.ª série mostram a ineficiência de toda a educação básica. Do mesmo modo, a última edição do Saeb revelou que 59% da 4.ª série apresentaram desempenho crítico.

As provas do Saeb de 2003 foram feitas no início de novembro, em todo o País. Abrangeram as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática e foram aplicadas por amostragem a alunos de 4.ª e 8.ª séries do ensino fundamental e 3.ª série do ensino médio, tanto da rede pública quanto da particular. Os alunos responderam também um questionário sobre a situação socioeconômica de suas famílias. O Saeb incluiu outros questionários, enviados a professores e diretores das escolas envolvidas. Na edição deste ano, quer coletar dados sobre a exaustão emocional e o baixo comprometimento dos profissionais da educação com seu trabalho, problema batizado por Síndrome da Desistência Simbólica do Educador. O que se quer saber é a influência dessa síndrome no desempenho dos alunos.

A educação se vê cercada por “n” fatores impedidores de qualificação e um grave fator é o desestímulo que toma conta do corpo docente, a ponto de ser caracterizado, por pesquisadores, como “exaustão emocional”. Exaustão carregando consigo a baixa estima, o desânimo, a sensação de impotência. A cada resultado denegridor do ensino cogitam-se das causas. Pesquisas e avaliações sobre a fraca atuação da escola vão se avolumando.  Agora  é  a vez da Avaliação Nacional do Ensino Básico (Saeb) lançar questionário sobre o negativo envolvimento do professor com seu trabalho.

Nada é em vão. Avaliar e dar o resultado da avaliação ajudam a se conscientizar, a rever posição e tentar reformulação. Contudo, as causas do cansaço emocional do professor, seu desapego à instituição escolar, não são senão  resultado de anos de descuido ao magistério. A situação vem pesando mais e mais a cada ano. O professor tem que lutar com as próprias armas, diante de classes superlotadas, com a violência se infiltrando na sala de aula, com segurança mínima ou segurança zero. Lutar para sobreviver com os parcos salários, acumulando aulas em três períodos e enfrentando, nesses períodos, classes numerosas.

A Síndrome da Desistência Simbólica do Educador afeta o humor, a vontade de progredir tanto do educador quanto do educando. A gangorra se forma, emissor e receptor naufragando no mesmo barco. A síndrome constatada é, sem dúvida, uma forte causa da decadência do ensino. Se quisermos pensar na boa colheita, temos que, antes de cuidar dos frutos, cuidar da árvore, adubá-la, regá-la, instrumentá-la, para que a planta, revigorada, frutifique a contento.

Se não se melhorarem as condições de ensino, assistindo às escolas técnica e financeiramente, se não se elevar significativamente o salário dos professores, se não se diminuir o número de alunos por classe, nem o cogitado período integral da rede oficial, para alunos de 1.ª à 8.ª série do ensino fundamental, devolverá à sociedade o padrão de ensino desejável, porque ele será desenvolvido nos mesmo moldes precários atuais.

O período integral, merecedor de aplausos, se não vier acompanhado de pré-requisitos estruturais, será benéfico apenas para a sociabilidade, para o combate à violência infantil, com suas atividades extracurriculares, em que deixará o aluno ocupado, afastando-o do perigo das ruas, mas pouco efeito terá na melhoria da qualidade do ensino.

Aliado à falta de compromisso do corpo docente com o ensino, um outro fator extramuro, que concorre para o fracasso da escolaridade, é a pobreza. O último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) confirma o que há tempos já se sabia: o nível socioeconômico das famílias interfere diretamente no nível de ensino. Os alunos da rede particular, com baixa renda familiar mensal, alcançaram a média de 48,11. Já os que têm alta renda ficaram com 70,59. O Enem tem reiteradamente mostrado que os alunos das escolas particulares têm sempre desempenho superior aos da rede pública, mesmo quando o seu perfil é semelhante, como, por exemplo, brancos, que na escola pública têm nota média de 47,10, na particular, o número sobe para 65,78.

Essa análise vem comprovar que apenas o acesso à escola não garante igualdade de oportunidades, é insuficiente para alcançar a desigualdade. As condições sociais em que vivem os alunos têm forte influência no desempenho escolar. A questão salarial não deixa de ser crucial.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em novembro/2003)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em novembro/2003)

POR QUE PROFESSORAS E NÃO “TIAS”?

Izabel Sadalla Grispino *

A escola caminha pelos olhares intrínsecos da pedagogia, pelos avanços científicos. A “tia” da escola infantil, forma de se dirigir à professora, teve seus dias contados, abolida pela linha socioconstrutivista.

Os pedagogos afirmam que o resgate do termo professora não é uma simples questão semântica. As escolas, que adotaram métodos das modernas práticas pedagógicas, ponderaram que a professora representa um novo modelo na vida da criança – ela não é, realmente, uma extensão familiar – e como tal deve ser preservada.

Paulo Freire, em seu livro “Professora sim, tia não”, escreve: “Ser professora implica assumir uma profissão, enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Chamar a professora de tia é no fundo uma ideologia que trabalha contra o rigor da profissionalização da educadora, como se para ser boa professora fosse necessário ser pura afetividade”.

O professor é uma imagem importante para o aluno; ele não substitui afetos familiares. O componente afetivo deve existir, mas nunca como ideologia. A criança precisa de alguém que a oriente com firmeza, que lhe transmita os valores de vida, e o professor é o mentor desse processo de criação.

O costume de chamar a professora de “tia” vem da década de 60. As mulheres, ao buscar afirmação profissional, recorriam às escolas para cuidar de seus filhos e, de certa forma, segundo relato de mães, entregar os filhos à tia e não à professora lhes aliviava a culpa. Contudo, esse tratamento dissimula a relação de autoridade. A criança precisa diferenciar universos e perceber que cada espaço tem seus próprios valores, concluíram os pedagogos. Assim, as então chamadas escolas alternativas, hoje socioconstrutivistas, começaram a rever o tratamento nos anos 70.

A relação de aprendizado é uma nova aquisição na vida da criança. A professora é portadora de um conhecimento, abre as portas de um novo mundo, não estando, portanto, em situação de igualdade com as crianças. O psiquiatra infantil Haim Grunspun completa a análise: “Como “tia” a profissional acaba não considerando o seu próprio processo, do qual é proprietária. Existe uma ideologia de desprofissionalização do educador. A afirmação profissional emerge da conquista dos direitos do exercício pleno da função. O aluno aprende a respeitar a partir do próprio respeito. Pergunta: “Como as crianças podem entender 10 mil “tias” em greve?”

As crianças acabam percebendo por si que professora é a pessoa que educa, ensina brincadeiras, criar, inventar; tia é a irmão da mãe ou do pai. Hoje, se a dúvida persiste, ela está entre aqueles que escolhem a escola de acordo com suas convicções. Voltando a Paulo Freire, ele disse (1993): “Uma das características básicas do construtivismo é não estar demasiado certo da certeza. Se você absolutiza não tem oportunidade de crescer. Tenho 72 anos e estou aberto. Tenho este gesto da incerteza do certo”.

Porém, no caso da denominação professora ou “tia”, fica evidente que a primeira é um procedimento bem mais saudável e real.

No processo de ensino-aprendizagem, o importante é a escolha, por parte dos pais, de uma instituição idônea, capaz de oferecer aos seus alunos o que de melhor a época exige. Como escolher uma boa escola infantil?

A escolha deve partir primeiramente de sua situação legal, isto é, deve ser regularizada, com autorização do município para funcionar. A escola tem de estar dentro da lei. Ela deve aproveitar o potencial enorme que a criança tem em aprender, estimulá-la corretamente e oferecer-lhe espaços para que possa brincar. Há muitas especificidades na educação de crianças de 0 a 6 anos e professores não capacitados e ausência de um projeto pedagógico podem impedir esse processo. As crianças precisam brincar e se movimentar, os espaços não podem ser pequenos e pouco arejados. O imóvel precisa ser adequado para receber crianças: mesas com cantos arredondados não deve ter  escadas e tomadas de luz aparentes.

Só depois da Constituição de 1998 a educação passou a ser direito das crianças com menos de 7 anos. Até então, a criança brasileira não tinha direito a educação. A Constituição de 1998 reconheceu a Educação Infantil como direito da criança e dever do Estado. Assim, deixou de ser vinculada à assistência social. A exigência do registro no município por parte do estabelecimento de ensino infantil veio apenas em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Esta lei definiu o município como responsável pelo ensino infantil e exigiu formação mínima de nível médio para os professores. Porém, até 2007 este professor deve possuir licenciatura de nível superior. O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2001, dá prazo até 2006 para que os estabelecimentos de ensino infantil cumpram padrões de infra-estrutura para funcionamento.

Todos esses aspectos legais, estruturais, para o bom funcionamento de uma escola, são importantes, mas a tudo sobreleva, a atuação do professor. Um bom método de trabalho, consciência profissional, competência e afetividade são ingredientes indispensáveis à educação. O professor que trabalhar mais como um facilitador da aprendizagem será insubstituível e inesquecível como é, para qualquer um de nós, a figura da primeira professora.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2003)

MUDANÇAS NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

As deficiências do nosso sistema de ensino, no que se refere aos níveis de aprendizagem, são detectadas a cada passo das avaliações realizadas. Há uma queda geral em todos os indicadores de desempenho do sistema. Algumas escolas procuram se recuperar, extrapolando, rompendo barreiras tradicionais, buscando novos modelos que possam vir em socorro à instituição. Elas se apóiam na imaginação pedagógica, como queria Anísio Teixeira, vêm descobrindo e inspirando-se em novos referenciais. Revolucionam e transformam todo o seu paradigma. As que possuem professores melhor formados conseguem aplicar com êxito métodos de ensino diferenciados.

O espaço físico modifica-se. Derrubam-se as paredes das salas de aula e agrupam os alunos em amplos salões. Os alunos estudam em grupos de 5, escolhem, eles mesmos, as atividades da semana, ouvem música clássica, diminuindo a atenção voltada ao professor. As provas são eliminadas, assim como as aulas expositivas. Modifica-se o tipo de organização da escola, abolindo a segmentação em anos de escolaridade. O fim da série significa individualização, por isso não faz sentido fazer testes ao mesmo tempo para todos os alunos. A avaliação da aprendizagem não é igual para todos e nem aplicada globalmente. Não há uma padronização de horário. É uma avaliação individual e é o aluno que diz quando está pronto para ser avaliado.

Cada criança tem um ritmo próprio, diferente de aprendizagem e é respeitado pela escola. Os objetivos, as tarefas e os deveres dos alunos são decididos por eles mesmos numa assembléia, porém sempre ajudados pelo professor. Não há salas de aula, nem séries, um salão agrupa, por exemplo, três quintas séries, numa média de 105 alunos e têm três professores à sua disposição. O professor vai aprendendo a tornar-se polivalente, procura orientar o aluno fornecendo-lhe bibliografia e espera que ele conclua o assunto, não dá a ele a resposta.

Esses alunos realizam atividades de diferentes disciplinas, não há explanação da matéria por parte dos professores que passam pelos grupos, tirando dúvidas e acompanhando o raciocínio do aluno. Uma música suave ajuda-os na concentração. O aluno liberta-se da superproteção e caminha para a autonomia na aprendizagem, fazendo suas atividades, mesmo na ausência do professor. Ele tem, contudo, acompanhamento individual e avaliações contínuas, ajustadas a seu perfil.

Essas escolas fogem do modelo convencional, aproximam-se da proposta, que surgiu nos anos 20, com a escola inglesa Summerhill, fechada depois de mais de 70 anos.

A educação é o melhor empreendimento para operar transformações efetivas na sociedade, diminuindo a distância entre as classes e desenvolvendo o potencial dos indivíduos. Mas, é preciso que seja uma educação de qualidade, exigindo compromisso e envolvimento honesto por parte dos professores. Quando a escola acredita que pode melhorar, ela busca o caminho, fazendo um estudo realista sobre o porquê da ocorrência negativa. Uma outra estratégia, que vem sendo posta em prática e surtindo bom efeito na melhoria do ensino, é a elaboração de um plano envolvendo a comunidade. A comunidade como um todo, todos os funcionários, líderes comunitários, líderes das empresas, da Igreja e do governo, entre outros. Nessa situação, a escola passa a ser importante para toda a comunidade que se aprimora nessa direção, fazendo intervenções proveitosas. Passa a confiar mais na escola, participando dela com mais freqüência, criando vários tipos de eventos.

Todo educador sabe que quanto mais rico o aluno maior a probabilidade de se sair bem na escola, quanto mais pobre, pior o desempenho. Os pobres, isentos ou de poucos bens culturais, são os mais atingidos pelo insucesso na escolaridade. A escola precisa, entretanto, suprir as deficiências do aluno carente, fazendo-o alcançar o sucesso. Alargar as suas competências, oferecer-lhe experiências diversas, alternativas de aprendizagem, incorporar ao currículo atividades extracurriculares, formando mais que informando. Sem condições financeiras para consumir os bens culturais, o aluno pobre fica muito limitado quanto à amplitude do conhecimento.

Vimos, através dos jornais, que alunos de alta renda  tiveram pontuação 70% superior à de pobres no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O estudo foi realizado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, divulgado em julho. “No Enem, se sai melhor quem está exposto a uma maior quantidade de informação”, diz o reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Henrique de Brito Cruz.

O Enem é um exame aplicado desde 1998 para os concluintes do ensino médio. No ano passado, teve a participação de 1,3 milhão de estudantes. A média geral na prova objetiva, que tem 63 testes, foi de 49,5. Essa é a primeira vez que se quantifica a diferença nas notas dos alunos de acordo com suas classes sociais. Estudantes de famílias de até um salário mínimo distanciam-se até 30 pontos daqueles de mais de 50 salários. O estudo do Inep mostrou que jovens cujas famílias têm bens como computador, internet e TV por assinatura tiveram média de 63 pontos na prova, numa escala de 0 a 100. Quem não tem nenhum desses bens ou pouco deles ficou com média de 41 pontos no Enem. A diferença de notas entre alunos que nunca lêem jornais, revistas, livros e leitores assíduos ficou em 7 pontos.

A escola, ao elaborar seus projetos, deve ter presente dados de avaliações, situar-se no plano real, pisar em terra firme e abraçar com vontade e honestidade o seu propósito de avançar com acertos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2004)

AO JORNAL “PRIMEIRA PÁGINA”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “Primeira Página”, deste valioso instrumento de comunicação que São Carlos aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, venho, há vários meses, publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporcionou-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade são-carlense, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Neste ano que se finda, propus-me a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional do ensino vigente.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Inúmeros conceitos nele passei, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida, a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “Primeira Página” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e clareie a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em São Carlos, já vem se tornando habitual, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “Primeira Página”, nas pessoas de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população.  O jornal “Primeira Página” cresce com São Carlos, coloca-se na vanguarda jornalística. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente, que  vem se tornando marca consagrada. Pessoas que lutam por ideais salvaguardam a humanidade. Onde há uma vontade, há um caminho. Parabéns!

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de São Carlos. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos.

A todos vocês, queridos leitores,/ Que esse dois mil e um lhes seja risonho,/ Caminhos abertos, muitos amores,/ Que se realize seu mais lindo sonho.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em dezembro/2000)

VENCENDO O PRECONCEITO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma resolução de 2003, aprovada pela Assembléia Parlamentar do Conselho Europeu, que agrupa 44 países do continente, determina que a linguagem dos sinais utilizada pelas pessoas surdas seja reconhecida oficialmente como idioma. O reconhecimento, feito através da inclusão dessa linguagem na Carta das Línguas Regionais e Minoritárias, dá-lhe status de “idioma sem nacionalidade”.

São 44 línguas dos sinais na Europa, desenvolvidas nos diversos países europeus com base nas variáveis regionais, étnicas e sociais. As línguas dos sinais podem não ser as mesmas dos idiomas nacionais. No Reino Unido, Estados Unidos e Irlanda, onde se fala inglês, há três línguas de gestos diferentes. Os surdos finlandeses e suecos usam os mesmos sinais.

São mais de 1,6 milhão de surdos na União Européia e pelo menos o dobro em toda a Europa. O objetivo do reconhecimento oficial como idioma é atenuar a discriminação e os problemas enfrentados pelos surdos. Destina-se a evitar situações chocantes como a de um surdo que ficou uma semana preso sem motivo porque não se conseguia achar um intérprete.

As leis sobre a linguagem dos sinais variam entre os povos europeus. Não são todos os países que possuem leis específicas. Na Finlândia, a língua de gestos é reconhecida e protegida na Constituição como “idioma minoritário”, constituindo a “língua materna” de mais de 5 mil finlandeses. Na Finlândia, na Suécia, na Noruega e na Dinamarca, os sinais são ensinados nas escolas como 2.º idioma, junto ao inglês, francês e alemão.

O exemplo avança e no resto da Europa há a preocupação de introduzir a língua de gestos nas escolas. Na Irlanda, Reino Unido, França, Espanha, Grécia e Portugal, as autoridades de ensino adotaram programas para estimular professores a aprender a língua dos sinais e a promover a formação de intérpretes.

Esse comportamento deveria se estender a todos os continentes do planeta. As escolas deveriam abraçar, com entusiasmo, a aprendizagem da língua de gestos, repassá-la aos seus alunos, introduzindo solidariedade e humanização no ambiente escolar.

Uma outra grande vitória alcançando os portadores de deficiência é o espaço que começam a achar no mercado de trabalho. Sempre houve sério preconceito – e ainda há – no setor empregatício. Eram rejeitados, tidos como incapazes, trazendo incômodo ao local de trabalho. Hoje, por força de lei, a inclusão profissional do deficiente torna-se realidade. Antes, uma vida limitada, agora maiores possibilidades de realização. O estudo era difícil pela dificuldade de locomoção – ainda é;  no trabalho, não eram contratados porque não os consideravam capazes.

Uma Lei, contudo, de n.º 8.213/91, prevê a obrigação de contratar deficientes e abrange empresas com mais de 100 empregados. As cotas variam de 1 a 5% do quadro de funcionários, de acordo com o tamanho das mesmas. Essa obrigação já tem mais de 10 anos, mas sua regulamentação só veio em 1999. Uma ação articulada, em 2004, da Delegacia Regional do Trabalho (DRT/SP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) traz resultados consideráveis quanto ao aumento da contratação.

A partir de outubro de 2004, a Delegacia Regional do Trabalho (DRT) de São Paulo fiscalizou no Estado 1,3 mil empresas com mais de 100 funcionários. Constatou a necessidade da criação de 19 mil cargos para deficientes. Até o final do corrente ano, a DRT programa chamar todas as 7.544 empresas desse porte, com a previsão da

criação de 57 mil postos.

Ao que parece, a contratação se dá bem mais por obrigatoriedade que por consciência. Segundo o Ministério Público do Trabalho, as empresas só agem depois de compelidas pelo Ministério, com raríssimas exceções. Após firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPT, a empresa tem dois anos para cumprir a lei. Prazo flexível, porque a lei não obriga a empresa demitir empregados para incluir deficientes e nem que ela deva aumentar o quadro funcional. A determinação é dar prioridade aos deficientes, quando houver novas vagas. O prazo é negociável: se a empresa ficar dois anos com o mesmo número de empregados, não tem como cumprir a lei de cotas.

As empresas argumentam que a contratação de deficientes é difícil porque não há profissionais capacitados, mas, na verdade, só querem pessoas com a chamada deficiência leve. É preciso que as empresas se preparem para receber pessoas portadoras de deficiência, como acontece com o Itaú. O banco, desde o ano 2000, quando fez acordo com o Ministério Público do Trabalho, vem cumprindo as metas. Tem 900 deficientes trabalhando no banco (2% do total de funcionários) e espera atingir a cota em 2007. O Itaú é exemplo de empresa que expande o olhar, se ajusta para acolher o diferente, dar-lhe perspectiva de futuro.

Em setembro de 2004, o relatório “Monitoramento Internacional dos Direitos dos Deficientes”, elaborado pela Rede Internacional de Deficientes e pelo Centro para a Reabilitação Internacional, entre 24 países pesquisados, coloca o Brasil como o País das Américas que assegura a melhor proteção e tratamento aos deficientes físicos. Esse resultado, entretanto, foi influenciado pela legislação que, entre outros fatores, assegura cotas de contratação nas empresas, garantias constitucionais de apoio financeiro e proibição da discriminação no trabalho.

Mas, a realidade comprova que pouco se faz no cumprimento dessas vantagens para que o País seja realmente inclusivo no trato do deficiente. A reserva de mercado aos deficientes nem sempre é cumprida, as condições de acesso à educação e ao mercado  são dificultadas, havendo o obstáculo da locomoção que impede a chegada e a permanência do deficiente na escola e no emprego.

Contudo, estamos avançando, grandes passos já foram dados e permanecendo vigilantes, melhores condições de realização surgirão aos portadores de deficiência.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2005)

RESERVA DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

Já, há algum tempo, escrevi a respeito da reserva de 50% das vagas nas universidades públicas para alunos oriundos do ensino médio das escolas oficiais. Na ocasião, o projeto tramitava na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, é a vez do Estado de São Paulo passar pela mesma situação.

Tramita, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um projeto apresentado pelo deputado Celso Tanaui, do PTB, que destina 50% das vagas das universidades do Estado a estudantes que tenham cursado o ensino médio em escola pública.

O ingresso à universidade não seria, pois, por mérito acadêmico, mas por destinação prévia de vagas, o que viria acarretar perda da qualidade de ensino da universidade. A argumentação do deputado é de que o acesso às universidades públicas é privilégio dos ricos e que os pobres, os que mais precisam, só conseguem entrar em universidades pagas. Realmente, é uma verdade e configura um contra-senso, um desequilíbrio da balança social. Acontece que os ricos freqüentam escolas particulares de boa qualidade, tornam-se melhores preparados, melhores capacitados e competem com vantagem, conseguindo melhores posições em tudo.

Mas, será a destinação pura e simples de vagas, sem o seu principal componente, a boa formação, o caminho para se consertar essa injustiça? As diferenças educacionais estariam resolvidas pela aprovação de um decreto? Convenhamos ser esse um pensamento equivocado, pois o processo é bem mais amplo, bem mais complexo, envolvendo mudanças estruturais de base, significativas.

A reversão do quadro acima descrito não é tão simples assim. É preciso, antes, melhorar o estudo do pobre, dar-lhe armas intelectuais para enfrentar, em par de igualdade, a concorrência com o rico. Investir maciçamente na escola pública é a saída correta para esse impasse. Aparelhá-la, instrumentalizá-la, reciclar os seus professores, dotá-los de competência, nivelando o ensino por cima.

A reserva de vagas é uma farsa, só camufla a situação e trabalha contra o próprio aluno pobre, que continuará defasado no conhecimento e marginalizado na sociedade, por falta de formação adequada. Essa reserva de vagas levará a um desnível do ensino superior, a um sucateamento, como já aconteceu com a educação básica pública, pois a tendência é baixar o nível, para não excluir os menos preparados.

Abriram-se vagas, no ensino fundamental, para todos, abargando alunos das mais diferentes camadas sociais, mas não foram dadas condições efetivas de um bom trabalho pedagógico. Não se preparou o professorado, que se vê meio perdido a tanta inovação, não se investiu num ensino de qualidade. Hoje, o aluno sai da escola, com algumas exceções, semi-analfabeto. A universalização da oferta de vagas não foi acompanhada da universalização da oferta de educação de qualidade para todos. Deixou-se inclusive de priorizar a educação infantil.

Garantir vagas, ao aluno pobre, nas universidades públicas,  de boa qualidade, requer estender essa boa qualidade a toda a educação básica. Requer que as metas quantitativas sejam juntadas às qualitativas. É um processo que demanda tempo, mas, quando chegar lá, será com consistência, com validade e sem discriminação. Esse é o trajeto a se percorrer para se garantir o acesso às universidades públicas a quem não tem recursos para pagar uma instituição particular.

Com a reserva de vagas, a USP abrigará dois segmentos de alunos, de formação e de capacitação, bem diferentes, o que comprometerá o bom ensino. Terá dois grupos de ingressantes, com perfis muito distintos um do outro. “Um deles não conseguirá acompanhar as disciplinas previstas para o 1.º ano do curso, já que poderá haver aprovados com nota zero em matérias fundamentais”, esclarece Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, e acrescenta: “O preparo de um possível candidato beneficiado não estaria dentro dos padrões desejáveis para uma universidade de excelência como a USP”.

A médio prazo esse ensino sofrerá um forte impacto negativo, refletindo-se na graduação, com repercussão na pós-graduação e na pesquisa. Como ficará o conhecimento científico? Como acelerar nosso desenvolvimento tecnológico? Seremos os dependentes, cada vez mais acentuados, da tecnologia importada?

Pelo Índice de Avanço Tecnológico das Nações Unidas, o Brasil que ocupa o 43.º lugar, atrás da Tailândia, da Argentina, da Costa Rica e do México, ficará mais abaixo ainda!

É preciso olhar para mais longe, desapegar-se do aqui, agora. A tecnologia avançada surge do conhecimento das pessoas, dos profissionais em ação. O aluno pobre, defasado no conhecimento, não terá seu problema resolvido por uma reserva de vagas. Ele, marginalizado, marginalizará o conhecimento tecnológico, prejudicando o nível de excelência que as universidades públicas vêm mantendo. Por esse processo de facilitação, estaremos arrastando a pobreza científica e tecnológica do País.

O deputado Celso Tanaui, ao ser questionado sobre seu projeto, respondeu: “Inteligência não é atributo exclusivo dos ricos”. O desavisado deputado misturou alhos com bugalhos. Inteligência todos têm, a diferença está no encaminhamento dessa inteligência, na assistência, no trato psico-pedagógico de seu desenvolvimento, que é o que, justamente, falta ao aluno pobre na fase anterior ao ingresso do nível superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

UMA PARADA PARA MEDITAR

Izabel Sadalla Grispino *

A situação precária em que o Brasil se encontra no terreno educacional vem de décadas e se acentuando com o passar do tempo. Não é falta de alerta, não são vozes isoladas que se manifestam, mas a seriedade norteadora de ações governamentais, fortes e abrangentes, continua diminuta.

São análises internas que se encontram e se completam nas análises de organismos externos. O quadro que se apresenta da educação brasileira é desolador, deprimente, revelam-nos recentes pesquisas do Pnad e da Unesco. A que ponto chegou o tão conceituado magistério do passado! E pensar que se fala em desenvolvimento, em crescimento da economia, como se o Brasil tivesse se pautando por princípios sustentadores dessa evolução!

O ponto forte de todo desenvolvimento, ninguém hoje ignora, é um povo qualificado, portador de ferramentas educacionais consistentes; é a formação escolar das novas gerações, gerações estas, que, no País, não estão sendo educadas para enfrentar o mercado de trabalho do amanhã.

A pesquisa que o IBGE acaba de divulgar, abril de 2006, sobre dados relativos a 2004 do Plano Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), mostra a ineficiência do nosso sistema educacional. Ineficiência que recai sobre a população brasileira, apresentando uma larga margem de analfabetos e analfabetos funcionais.

De acordo com a pesquisa, um quarto da população com idade igual ou superior a 15 anos tinha menos de 4 anos completos de estudo, em 2004. São pessoas que só sabem escrever o nome e têm dificuldade em operações matemáticas, em ler manuais de instrução. São os chamados analfabetos funcionais.

Revela a pesquisa que jovens na faixa etária entre 18 e 24 anos, idade em que deveriam cursar uma faculdade, 58,5% continuam no ensino fundamental ou no ensino médio. Com relação à população adulta, pessoas com 25 anos ou mais, a situação piora. Em 2004, 27,9% tinham, no máximo, 3 anos de estudo e só 7,8% haviam concluído 15 anos ou mais de escolaridade.

O Norte e o Nordeste apresentam maiores ineficiências que o Sudeste. No Norte, os analfabetos funcionais correspondiam a 29,1% da população com mais de 15 anos, em 2004. No Nordeste, a proporção era de 37,6%, contra 18,1% do Sudeste e 13,6% na região metropolitana de São Paulo, a mais industrializada do País.

No País, o tempo médio para a conclusão do ensino fundamental é de 9,9 anos, porém, em 6 dos 9 Estados do Nordeste, ele é de 11 anos ou mais, contra 8,7 anos em São Paulo. Constata-se, ainda, que no Nordeste 73,2% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos ainda cursavam o ensino fundamental ou médio, em 2004, e só 16,4% estavam matriculados no ensino superior. No Sudeste, a proporção chegava a 43,7%.

Como pensar num País gigante com uma geração de jovens tão despreparada? Com esse penoso cenário da educação brasileira e sua má qualidade de ensino, fica evidente o tamanho do desafio que o País enfrenta, quer na inclusão, em termos de escolaridade, quer no avanço profissional.

Para reforçar e comprovar a nossa ineficiência educacional, o relatório “Educação para Todos 2006 – Professores  e Educação de Qualidade”, lançado em 25 de abril de 2006 pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, mostra que o Brasil é, na América Latina, um dos países com menor grau de formação de seus professores.

Segundo o relatório, os professores de 1.ª à 4.ª série (92%) têm apenas o magistério, definido pela Unesco como ensino médio completo, mais 1 ou 2 anos de estudo. Apenas Nicarágua e Panamá, entre os países da América Latina, estão na mesma situação que o Brasil. A Argentina tem 67% dos seus professores do primário com ensino superior; o Chile, 92%.

Embora a qualificação dos professores vem crescendo, a pesquisa coloca o País junto com a Indonésia e Egito, países que precisam de um grande esforço para garantir que os professores primários tenham ensino superior.

O Brasil continua entre os países com maiores taxas de repetência do mundo, 21%, igual à da Eritréia e Moçambique, maior que a de Ruanda e Lesoto. “A repetência reflete más condições de ensino e aprendizagem e aumenta a pressão sobre os professores e sobre os recursos nacionais”, diz o relatório.

Dar uma boa formação aos professores para melhorar o nível de ensino continua sendo uma batalha nacional. O Brasil vai precisar de mais 396 mil professores até 2015 para manter o atendimento no ensino básico, para assegurar a universalização. O que se constata é que o número de alunos no ensino básico vem diminuindo, assim como a quantidade de crianças em idade escolar, por causa da queda da mortalidade.

Quanto ao salário dos professores, encontramos problemas, embora, quando comparado com outros 11 países da América Latina e Caribe, que têm dados nacionais, o Brasil não está mal, mas perde de longe para o México, país que tem economia semelhante à nossa.

O relatório da Unesco conclui que os professores são poucos, ganham pouco e sabem pouco. Esse relatório é um estudo comparativo sobre a qualidade de ensino e as necessidades globais, que se enfrentarão até 2015. Dos 142 países avaliados, o Brasil está entre os que apresentam os piores resultados, abaixo do Haiti, tido como a nação mais atrasada das Américas.

A distância do preparo que necessitam as novas gerações, para colocar o País em condições de vencer, é muito grande, tornando-se, a cada passo, mais complexas!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2006)

O DIFÍCIL EQUILÍBRIO DA BALANÇA

Izabel Sadalla Grispino *

Pobre Brasil, País em desenvolvimento. Sem o respaldo da boa educação, deste setor estratégico do desenvolvimento, continuará como País de terceiro mundo, ainda por muito tempo!

O nosso sistema educacional evolui sofrivelmente, não oferece, em todos os graus de ensino, uma educação com um mínimo de qualidade. Não está conseguindo formar mão-de-obra qualificada para o mercado interno e externo, enfraquecendo-se à competição globalizada.

A falta de prioridade à área educacional, que vem de longa data, foi se acentuando no tempo, chegando, hoje, a possuir um déficit de aproximadamente 250 mil professores no ensino médio e ensino fundamental de 5.ª à 8.ª série. Situação caótica, denominada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) de apagão educacional.

Esses dados foram fornecidos, recentemente, pelo relatório Escassez de Professores no Ensino Médio: Soluções Estruturais e Emergenciais, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Faltam professores graduados em Licenciaturas de Física, Química, Biologia, Matemática e outras, professores que precisariam ser contratados em caráter emergencial. A situação se agrava nas disciplinas Física e Química. Apenas 9% de professores de Física, que atuam nas escolas públicas brasileiras, têm formação específica na área.

Como conseguir esses professores? Pela linha da competência, da boa formação não é fácil, pois a carreira do magistério não é, hoje, nada atraente.

Com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), é provável que haja a universalização do acesso ao ensino médio, que será esbarrado pela falta de oferta de professores. O número diminuto de professores não atenderá a crescente demanda ao curso e esse déficit é realidade em todos os Estados do País.

Professores de outras áreas, já há algum tempo, vêm assumindo as turmas afetadas pela ausência de professores especialistas na matéria, especialmente áreas de Física, Química e Biologia. Eles são, contudo, apenas “tapa-buracos”, não têm formação para suprir o conteúdo das disciplinas afetadas. O comum é o aluno terminar o curso analfabeto na área científica.

O que se ressalta na atualidade, e mesmo em décadas atrás, é a preocupação dos governantes mostrar estatísticas como troféu. Na pressa de aparecer em números, descuidam-se dos métodos educacionais e insistem em programas contingenciais. É quando o tiro sai pela culatra.

Já se diz que é preciso reinventar o professor. Este continua ministrando aulas nos mesmos moldes da linha tradicional, usando programas de ensino idênticos, não importa em que região do País. Programas distanciados das localidades, das realidades da vida do aluno.

Continua mantendo um sistema, em que o professor fala, transmite o conteúdo, e o aluno responde da mesma maneira, seja no Amazonas, no Pará, ou no sul do País. Em nome de uma formação básica comum, caminha-se para um currículo único, divorciado de contexto da escola, ao invés da adoção de currículos abrangentes e precisos.

Em situações problemáticas como o apagão de professores, criam-se medidas emergenciais, que são apenas paliativos, não sustentando, de forma alguma, a posição desejável para a boa escola.

Negligenciaram o professor. Ouve-se, comumente, dizer que lecionar para crianças e adolescentes se proletarizou.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

VALORIZANDO O DEFICIENTE

Izabel Sadalla Grispino *

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae-SP) lançou, em começo de abril, um selo que estimula o emprego de deficientes. A Apae trabalha em parceria com empresas que apoiam a inserção de deficientes no mercado de trabalho. Essa parceria resultou em 240 postos de trabalho, em poucos meses. A mensagem passada pela Apae é de que, em vez de valorizarmos a deficiência, valorizemos a potencialidade do deficiente, que, embora não sendo igual ao mais evoluído, tem um alcance que é dele. Há muitas tarefas que ele pode cumprir e bem. Os deficientes passam por um período de aprendizado antes de ser ou não contratados como funcionários das empresas que fizer a parceria com a Apae.

Embora trabalha-se muito o preconceito, ele ainda é bastante forte na sociedade. Um estudo encomendado pelas Olimpíadas Especiais mostra resistência à integração de deficientes mentais. A pesquisa, envolvendo 8 mil pessoas no Brasil, China, Egito, Alemanha, Japão, Nigéria, República da Irlanda,  Irlanda  do Norte, Rússia e Estados Unidos, constata que a maioria das pessoas entrevistadas tem visão preconceituosa do deficiente. O preconceito impede que os portadores de deficiência mental tenham melhores oportunidades na sociedade.

As pessoas opinam achando que os deficientes devem estar em escolas segregadas, não em escolas regulares, e que eles não têm condições de lidar com as situações do dia-a-dia. Stephen Corbindeão, da Universidade Olimpíadas Especiais, que patrocinou o trabalho, diz que a visão pejorativa do passado persiste, mesmo nos Estados Unidos, que se mostram como um país avançado nessa área. Termos pejorativos, como idiota e retardado, são freqüentes na pesquisa, que revelou uma enorme oposição à integração do deficiente. Apenas 14% dos entrevistados acham que os deficientes podem praticar esportes com atletas “normais”. Só 25% acreditam que possam viver por conta própria ou em casa com supervisão e 21% aceitam a idéia de que eles freqüentem escolas regulares.

Essas opiniões negativas repercutem desfavoravelmente à integração e à realização do deficiente na sociedade. A visão da maioria dos entrevistados é de que os deficientes têm condições de cuidar de sua higiene pessoal e vestir-se sozinhos, mas acham que eles não conseguem lidar com situações de emergência, nem entender o noticiário. Acreditam, também, que a presença de deficientes mentais em escolas e locais de trabalho aumenta o risco de acidentes.

A pesquisa conclui que esses dados “têm conseqüências graves e negativas para os 170 milhões de deficientes mentais do planeta. A atitude em relação aos deficientes é mais dura nos países menos desenvolvidos, onde os recursos para educação e apoio são reduzidos”.

2003 é o 1.º ano que as Olimpíadas Especiais se realizaram fora dos Estados Unidos. Mais de 7 mil atletas com deficiência de mais de 160 países passaram 4 dias em junho, em eventos culturais, em cidades e aldeias da Irlanda.

Estímulos à reintegração de deficientes surgem em amplos setores. A Biblioteca Braille, por exemplo, permite acesso à internet aos deficientes visuais. Uma exposição, em julho p. passado, denominada Olhos da Alma – Artes Plásticas para Deficientes Visuais, no Centro Cultural São Paulo, composta por 12 quadros em alto-relevo e instalações sensoriais que estimulam os sentidos e a imaginação das pessoas portadoras de deficiência visual, surpreendeu pelo número de visitantes que normalmente não freqüenta o centro cultural. O diretor do Centro, Augusto Calil, diz que “é realmente comovente acompanhar a emoção da descoberta quando eles tocam as obras”.

A exposição foi sugestão da IBM do Brasil que fez parceria com o Centro Cultural de São Paulo. A IBM organizou a mostra e doou à Biblioteca Braille um servidor, 17 computadores NetVista, uma impressora, que agiliza a produção de livros em Braille, e um software especial, Home Page Reader, que permite aos deficientes visuais navegarem pela internet. A impressora é um aparelho importado dos Estados Unidos, que permite tanto a impressão em apenas um lado da folha como também na frente e no verso. Isso vem de encontro às necessidades de certos deficientes que não conseguem uma boa leitura em livros com caracteres impressos em todas as páginas.

Os computadores que permitem acesso à internet tornaram-se motivo de encontro de deficientes. Antes, eles passavam pelo Centro Cultural apenas para levar material para casa; agora, torna-se extensão de sua casa, observa Augusto Calil. Criou-se uma boa integração entre eles, os freqüentadores e os funcionários da biblioteca.

Os deficientes são orientados a navegar na rede mundial por meio de diferentes vozes, que narram o que estão visualizando na tela naquele momento e indicam os próximos caminhos a serem seguidos. A freqüência à biblioteca facilita a inclusão digital e social dos deficientes visuais, abrindo-lhes ampla visão do mundo.

A internet abre caminhos que despertam o deficiente para um melhor se conhecer, acorda-o para horizontes mais floridos, numa individualidade que lhe dá o direito de pensar e escolher dentro de valores intrínsecos de sua potencialidade. Em projetos de colaboração, os deficientes podem se conectar com outros de diferentes regiões e isso causa impacto na aprendizagem e na estimulação. Cria-se desse modo um novo modelo de política educacional e social.

Que cada um jogue a sementinha do esclarecimento, que passe avante o que aprendeu a respeito, facilitando a compreensão, afastando o preconceito e dando aos deficientes a oportunidade de um lugar ao sol a que fazem jus.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2003)

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A época atual tem sua atenção voltada para a sociedade. A desordem social, o alarmante desnível econômico, estão hoje, mais do que nunca, exigindo a necessidade de formar cidadãos conscientes. Uma comunidade consciente de seus direitos passa a agir na sociedade que, articulada, se mobiliza em direção à participação, à solidariedade, à inclusão. O indivíduo começa a entender que sua responsabilidade vai além do pessoal, do familiar, a ter consciência de que a sociedade não é compromisso só do governo e que todo cidadão é governo. A ter consciência de que sociedade é um organismo vivo, mutável, de desejo de realização, de auto-afirmação. A ter consciência da ajuda que necessita para se auto-realizar, criando recursos, meios, condições para isso e não, apenas, estender-lhe a mão, no sentido de filantropia, de paternalismo.

O indivíduo entende que a responsabilidade social deve se traduzir em crescimento para a cidade, em comunidades de sucesso. Entende que pode e deve agir na sociedade, dentro de seu universo, desenvolvendo o sentido de cidadania. Passa a viver no entendimento de que todos têm direitos, assim como têm deveres, igualdade de oportunidades, condenando regalias e privilégios.

O cidadão se forma desde que nasce. A criança, sentindo-se respeitada pelo adulto, tendo suas necessidades atendidas, vai adquirindo a noção de respeito e o respeito vai fazer parte de sua vida. Uma criança que vive, por exemplo, o drama de ter que se afastar da escola para trabalhar e poder comer, como vai entender democracia ou cidadania? Se gritar, apelar, não será ouvida e, não sendo ouvida, não ouvirá também, transgredirá. Essa criança que se vê anulada em seus direitos, em suas necessidades básicas, não entenderá de respeito.

Conceituar cidadania e não praticá-la é perder, para o aprendiz, o seu significado. São pelas atitudes dos adultos que as crianças passam a entender o conceito de justiça. Quando ouvidas, atendidas, vão se colocar na sociedade democraticamente, desenvolver a sociabilidade. É a experiência de vida quem vai lhe ditar a idéia de cidadania e, como reflexo dessa idéia, ela repetirá as atitudes, passando-as avante. O exemplo do adulto é fundamental. Se o adulto é respeitoso, solidário, a criança o terá como referência.

A chave da responsabilidade social está nos atos praticados pelos adultos; se esses atos passarem uma imagem favorável à prática do bem comum, do compromisso com o outro, essa imagem propagar-se-á, do mesmo modo o seu contrário. Além da ação consciente, o adulto deve aprender a ouvir, principalmente em contato com os jovens. Conversar, dialogar, formular normas conjuntamente, não impondo, mas conscientizando, para que esses jovens se sintam responsáveis por suas atitudes. O contato com o adulto determinará sua visão de mundo, seu relacionamento com a sociedade.

A escola contribui com a responsabilidade social, desenvolvendo a consciência crítica da realidade, a compreensão de que o interesse social é mais importante que o individual, a fazer o aluno ver a realização como fruto do esforço comum. Ela deve se tornar um espaço de realização, criar formas de intervenção social, despertando interesse por atividades sociais.

A adolescência é uma fase em que o jovem é idealista, tem necessidade de acreditar em alguma coisa, a fase em que quer mudar o mundo, quando abraça os ideais de liberdade e de igualdade em profundidade. É o momento de a escola canalizar essa energia para ações produtivas no seio da comunidade, montando projetos que o envolva nessas ações. O jovem na adolescência, como diz a psicologia, deixa de ser filho do casal para ser ele próprio e as instituições de ensino devem ser catalisadoras desse potencial juvenil.

Cidadania é reflexo, é vivência, cabe aos pais, aos educadores dar o exemplo no entendimento de que só existe cidadania praticando-a. Começa em casa, na escola, com a educação recebida e vai para a rua com a prática do respeito. Educar para agir com consciência todos os dias; cobrando deveres das autoridades, cuidando da cidade, respeitando as regras sociais. Assim, a criança compreenderá que nasceu para viver e não sobreviver, tendo seus direitos respeitados.

Um aspecto que fere a consciência e imprime fortemente o traço da injustiça social é o trabalho infantil. Crianças e adolescentes que trabalham freqüentam menos a escola. No passado, esse número foi maior, mas, mesmo assim, hoje ainda é grande. Há trabalhadores infantis nas áreas urbanas e rurais. Pesquisas têm mostrado que cerca de metade das crianças e adolescentes que estão trabalhando utiliza produtos químicos, máquinas e ferramentas, com riscos constantes de sofrer acidentes. Esta parcela é maior entre os trabalhadores do campo, que somam 43% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que têm alguma atividade.

Também, serviço doméstico, distância e falta de vagas são outros motivos que afastam crianças e jovens da escola. Segundo O IBGE, o nível de escolaridade, entre pessoas de 5 a 17 anos, cresce de acordo com a faixa do rendimento familiar. Em famílias que ganham até ½ salário mínimo, esta faixa ficou em 83,1%. Já em famílias com rendimento até 10 salários mínimos ou mais, o nível de escolaridade sobe para 97,9%.

A má distribuição de renda responde pela sofrida desigualdade social. Crianças que deveriam estar na escola ou brincando arcam, prematuramente, com a responsabilidade de sustentar-se e ajudar no sustento da família.

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos, a menos que seja na condição de aprendiz. São aprendizes os adolescentes que recebem formação técnico-profissional, que deve ser dada sem prejudicar o ensino regular. Os maiores de 14 anos que trabalham têm assegurado o seu estudo. Os aprendizes maiores de 14 anos devem receber direitos trabalhistas como os adultos. Nenhuma criança ou adolescente pode trabalhar à noite, nem realizar atividades perigosas ou em ambientes que sejam prejudiciais ao seu desenvolvimento. O Estatuto também garante o direito à educação: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, o direito de ser respeitado pelos educadores, o acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.

A realidade social é pesada, profundamente desigual. Entre nós, um terço da população vive na miséria. O pressuposto da cidadania é a igualdade de direitos e diante de tamanha desigualdade, para conquistá-la, haverá ainda muitas léguas a percorrer, muita estrada pela frente. Contudo, estaremos dando uma grande contribuição se educarmos a criança e o jovem dentro dos princípios de justiça, de ética, de solidariedade, se os ensinarmos a enfronhar-se nas causas sociais, aprendendo, na prática, o sentido de democracia e de cidadania.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2003)

O NÍVEL SOCIOECONÔMICO E A APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

Comprovadamente, o nível socioeconômico dos alunos repercute no seu desempenho escolar. A condição social e familiar são fatores que influenciam a aprendizagem.

O Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), de 2004, anexou à prova de leitura um questionário aos alunos da 3.ª série, sobre sua condição de vida, dedicação à escola e escolaridade dos pais.

O desempenho geral da série, sem levar em conta a condição dos estudantes, foi de 0,3% no nível ótimo de leitura, 5,8% no muito bom, 27,1% no bom, 37,7% no regular, 12,1% no insuficiente e 17,1% no abaixo do insuficiente. Os alunos da 3.ª série tiveram resultados semelhantes aos apresentados nas demais séries.

Um cruzamento de dados revelou que mais de 60% dos alunos que vivem em casas sem luz elétrica, por exemplo, ficaram em níveis de leitura insuficiente ou abaixo de insuficiente. As notas ruins se repetem entre os que moram em ruas sem calçamento ou casas que não têm água encanada.

A escolaridade dos pais também revelou conseqüência ao desempenho do aluno na prova. Mais de 54% das crianças cujas mães ou pais nunca estudaram estão nos piores níveis, significando que elas não são capazes de ler qualquer tipo de texto apresentado no exame, mesmo tendo, no mínimo, 9 anos de idade; a maioria tem mais.

Quando os pais cursaram o ensino superior ou mesmo o ensino médio, mais de 40% dos filhos estão nos níveis bom, muito bom e ótimo de leitura. Já compreendem trechos de reportagens, fábulas, propagandas em histórias em quadrinhos.

A tabulação mostrou, ainda, a influência negativa de defasagem entre idade e série. Mais de 67% das crianças que têm 13 anos ou mais e continuam na 3.ª série se encontram nos níveis insuficientes ou abaixo de insuficiente. Entre os que estão com 9 anos, 24,4% tiveram esse desempenho e 75,6% ficaram acima do nível regular, isto é, acertaram mais de 50% das questões.

Um grande princípio pedagógico é a escola aproximar-se da vida de seus alunos. Conhecer a realidade que os cerca e suprir, de alguma forma, as deficiências encontradas. Alunos marcados pela pobreza, pela ausência de bens culturais, devem encontrar na escola meios de suprir suas necessidades. Se moram em localidades onde não há eletricidade em casa, não têm, nessas condições, acesso à TV, ao vídeo, ao computador, sem falar das condições financeiras que não permitem tais comodidades.

A escola pública oferece a possibilidade de reposição desses recursos, que auxiliam a aprendizagem? O professor não pode se valer da idéia de que o aluno não vai aprender porque é pobre. Não pode se apoiar em suas condições de pobreza para justificar seu atraso. A escola tem que se preparar para desenvolver esses alunos, chegar até eles, reconhecer suas falhas, suas dificuldades e trabalhar as deficiências apresentadas.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), no tópico “A inclusão do aluno à escola”  (pág. 55) eu digo: “Um dos objetivos prioritários da escola refere-se à inclusão do aluno no ambiente escolar. Em muitas localidades, especialmente nas periferias, é necessário incentivar o aluno a ir à escola, fazê-lo trocar o cotidiano das ruas pelo da escola. Nessas regiões, a escola compete com a rua... A escola precisa adotar projetos que resgatem a cultura popular da região. A construção da identidade, com base na educação que leva em conta as raízes, ajuda as novas gerações a manter o vínculo com a terra, sua gente, suas tradições.

O nível socioeconômico é um forte ponto a se considerar, tem séria influência, séria repercussão no andamento do projeto pedagógico e a ele deve ser ajustado...

O objetivo maior da educação é o aluno, ajustar-se a ele, conquistá-lo, ajudá-lo no desenvolvimento de sua personalidade, significa ganhar esse aluno para a escola... Tudo em educação gira em torno do aluno, em torno de sua boa formação... A escola não pula etapas, não tem como “fazer de conta”; a realidade é seu espelho, seu suporte, sua consistência. Ela parte do nível encontrado, seja do mais elementar e busca atingir um nível mais elevado, numa progressão continuada. Vale-se da conceituação de que a sala de aula é uma comunidade de investigação, um espaço de relações humanas, um lugar de interação social, zona de desenvolvimento proximal (Vigotsky). O grupo é sempre heterogêneo. O professor deve ficar atento às diferenças individuais, às diversidades e valorizá-las...

A escola vale-se da alternativa de que a escolaridade é a variável capaz de eliminar as diferenças sociais. “Educação é um ato de amor, de conexão, um ato de responsabilidade, de compromisso, de consciência social”.

A escola, imbuída desses conceitos, saberá encontrar o caminho da realização do aluno carente. Saberá programar ações, currículos, capazes de alcançar esse aluno. Saberá prever-lhe em seus projetos pedagógicos um lugar de tratamento adequado, definindo instrumentos que cheguem até ele. A escola abraçará o desafio de vencer a crise de aprendizagem, descobrindo o potencial do aluno, indo a ele não pelas deficiências, mas pelo que ele pode oferecer.

Esse comportamento da escola é inevitável. Com pesar vemos a divulgação da avaliação do Saresp, em que o maior contingente  dos alunos das escolas estaduais de São Paulo tem nível regular de leitura. Isso significa que muitos deles, dependendo da série, não são capazes de interpretar um texto, se os conteúdos não forem explícitos, identificar a seqüência dos fatos em uma reportagem ou perceber a ironia na literatura, informa o resultado do Sistema de Avaliação do Estado de São Paulo (Saresp).

O Saresp assinalou que a maioria das crianças que não freqüentou pré-escola se saiu pior e isso reforça a importância da educação infantil.

Quando uma boa parte dos alunos não aprende a falha é da escola. É ela quem precisa mudar, rever seus métodos de trabalho e atuar de maneira mais eficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2005)

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: MOMENTOS DA AVALIAÇÃO

Izabel  Sadalla  Grispino*

No artigo anterior, constatamos que aspectos amplos do desenvolvimento do aluno devem ser avaliados. O professor busca informações para obter a compreensão do comportamento demonstrado pelo aluno. Essas informações, para efeito de organização, foram classificadas em três aspectos: físico e motor, social e afetivo e intelectual.

Para se avaliar hábitos de trabalho, responsabilidade, participação, relacionamento com colegas etc., deve-se levar em conta que as provas onde o aluno utiliza lápis e papel não são suficientes para dar informações sobre os aspectos do desenvolvimento considerados. Para saber se estes comportamentos ocorrem ou não, é necessário observar e estudar o comportamento dos alunos quando eles reagem em matemática, português, artes etc.

O professor deve avaliar como um educador, não como um comunicador de informação, deve interessar-se pelos alunos enquanto pessoas, valorizar suas atitudes e responsabilidade. Ao levantar os objetivos dos Planos de Ensino, deve assinalar os essenciais e dar conhecimento aos alunos. Deve colocar os padrões de rendimento aceitável, tomando por base os objetivos essenciais, em todas as atividades que serão avaliadas.

Depois de se ter decidido o que avaliar, uma outra questão surge: quando deve ser feita a avaliação?

MOMENTOS  DA  AVALIAÇÃO

“Tenho a cada momento uma ação,                 Tem sutil função controladora,                                                        Antes de uma seqüência de ensino,                  Recupera o ensino regular,
A diagnóstica faz sua função,                             Tem finalidade formadora,
Evita trabalho sem destino.                                  Escolaridade salutar.

Diagnostique o nível do aprendiz,                       Recuperar a avaliação
Planeje de acordo à realidade,                            Nas ações formativo-diagnósticas,
O aluno aprende e avança feliz,                          É da escola séria atribuição,
Visto no potencial, na irmandade.                      Pra alçar vôo, atingir veias humanísticas.

Antes do programa, dê pré-teste,                      No final da seqüência de ensino,
Para auscultar possibilidade,                             Pra promover e classificar,
No final, aplique o pós-teste,                               A somativa indica o caminho,
No confronto, a confiabilidade.                           Que o intelecto deve conquistar.

Durante o processo-aprendizagem,                  Aqui os desempenhos cognitivos,
Corrigindo o desvio quando ocorre,                   Pelos objetivos essenciais,
A formativa traz sua mensagem,                       Em avaliações cumulativas,
E o estudo paralelo socorre.                               Ditam os resultados finais.

Avaliação de acompanhamento                         Não cobre apenas uma só vez,
Não visa promover, nem reter,                           Pratique revisões espaçadas,
Aspectos do desenvolvimento                           Conduza o educando à solidez,
São objetivos a recorrer.                                     Testando atuações reiteradas.

É pro mestre valioso recurso,                            Usando bom senso e equilíbrio,
De identificação de fatores,                                Desprezando padrão absoluto,
Que ajudam ou esbarram o percurso,             Qualquer método, em bom desígnio,
E a adequação dos fios condutores.                Desempenha um papel enxuto.”

 

*Supervisora de ensino aposentada          
(Publicado em agosto/2000)

SAÚDE ALIMENTAR E POSTURAL DO ALUNO

Izabel Sadalla Grispino *

A escola, de hoje, atua dentro de conceitos abrangentes, em benefício da educação integral do aluno, conceitos que vão além da simples transmissão do conhecimento. Ao lado do conceito “sujeito de direito”, assunto por mim abordado em um artigo anterior, ela trabalha o conceito de saúde alimentar. Preocupada com a saúde da criança, com problemas de obesidade, acarretando, já na infância, alta de colesterol, de triglicéride, provocando doenças cardíacas, renais, passa princípios de boa nutrição. Ensina alunos, pais, comunidade escolar, a importância de uma comida balanceada.

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A DIFÍCIL ARTE DE EDUCAR

Izabel Sadalla Grispino *

No meu artigo “A outra face da educação” abordei a crescente onda que se forma de crianças e jovens malcriados, em desencontro à boa educação. O grande mal-estar gerado leva os próprios jovens a solicitar o ensino da ética, da moral, nas escolas de ensino médio, segundo uma pesquisa realizada pela U.F.P.A.

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A COMPETITIVIDADE DOS MERCADOS GLOBAIS

Izabel Sadalla Grispino *

A sociedade, líderes empresariais, começam a se preocupar seriamente com a educação no Brasil. Buscam se comprometer com ações concretas para melhorar o ensino, especialmente em língua materna e matemática. Procuram criar para o problema da educação um envolvimento nacional, num desafio extraordinário.

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