VALORIZANDO O DEFICIENTE

Imprimir

Izabel Sadalla Grispino *

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae-SP) lançou, em começo de abril, um selo que estimula o emprego de deficientes. A Apae trabalha em parceria com empresas que apoiam a inserção de deficientes no mercado de trabalho. Essa parceria resultou em 240 postos de trabalho, em poucos meses. A mensagem passada pela Apae é de que, em vez de valorizarmos a deficiência, valorizemos a potencialidade do deficiente, que, embora não sendo igual ao mais evoluído, tem um alcance que é dele. Há muitas tarefas que ele pode cumprir e bem. Os deficientes passam por um período de aprendizado antes de ser ou não contratados como funcionários das empresas que fizer a parceria com a Apae.

Embora trabalha-se muito o preconceito, ele ainda é bastante forte na sociedade. Um estudo encomendado pelas Olimpíadas Especiais mostra resistência à integração de deficientes mentais. A pesquisa, envolvendo 8 mil pessoas no Brasil, China, Egito, Alemanha, Japão, Nigéria, República da Irlanda,  Irlanda  do Norte, Rússia e Estados Unidos, constata que a maioria das pessoas entrevistadas tem visão preconceituosa do deficiente. O preconceito impede que os portadores de deficiência mental tenham melhores oportunidades na sociedade.

As pessoas opinam achando que os deficientes devem estar em escolas segregadas, não em escolas regulares, e que eles não têm condições de lidar com as situações do dia-a-dia. Stephen Corbindeão, da Universidade Olimpíadas Especiais, que patrocinou o trabalho, diz que a visão pejorativa do passado persiste, mesmo nos Estados Unidos, que se mostram como um país avançado nessa área. Termos pejorativos, como idiota e retardado, são freqüentes na pesquisa, que revelou uma enorme oposição à integração do deficiente. Apenas 14% dos entrevistados acham que os deficientes podem praticar esportes com atletas “normais”. Só 25% acreditam que possam viver por conta própria ou em casa com supervisão e 21% aceitam a idéia de que eles freqüentem escolas regulares.

Essas opiniões negativas repercutem desfavoravelmente à integração e à realização do deficiente na sociedade. A visão da maioria dos entrevistados é de que os deficientes têm condições de cuidar de sua higiene pessoal e vestir-se sozinhos, mas acham que eles não conseguem lidar com situações de emergência, nem entender o noticiário. Acreditam, também, que a presença de deficientes mentais em escolas e locais de trabalho aumenta o risco de acidentes.

A pesquisa conclui que esses dados “têm conseqüências graves e negativas para os 170 milhões de deficientes mentais do planeta. A atitude em relação aos deficientes é mais dura nos países menos desenvolvidos, onde os recursos para educação e apoio são reduzidos”.

2003 é o 1.º ano que as Olimpíadas Especiais se realizaram fora dos Estados Unidos. Mais de 7 mil atletas com deficiência de mais de 160 países passaram 4 dias em junho, em eventos culturais, em cidades e aldeias da Irlanda.

Estímulos à reintegração de deficientes surgem em amplos setores. A Biblioteca Braille, por exemplo, permite acesso à internet aos deficientes visuais. Uma exposição, em julho p. passado, denominada Olhos da Alma – Artes Plásticas para Deficientes Visuais, no Centro Cultural São Paulo, composta por 12 quadros em alto-relevo e instalações sensoriais que estimulam os sentidos e a imaginação das pessoas portadoras de deficiência visual, surpreendeu pelo número de visitantes que normalmente não freqüenta o centro cultural. O diretor do Centro, Augusto Calil, diz que “é realmente comovente acompanhar a emoção da descoberta quando eles tocam as obras”.

A exposição foi sugestão da IBM do Brasil que fez parceria com o Centro Cultural de São Paulo. A IBM organizou a mostra e doou à Biblioteca Braille um servidor, 17 computadores NetVista, uma impressora, que agiliza a produção de livros em Braille, e um software especial, Home Page Reader, que permite aos deficientes visuais navegarem pela internet. A impressora é um aparelho importado dos Estados Unidos, que permite tanto a impressão em apenas um lado da folha como também na frente e no verso. Isso vem de encontro às necessidades de certos deficientes que não conseguem uma boa leitura em livros com caracteres impressos em todas as páginas.

Os computadores que permitem acesso à internet tornaram-se motivo de encontro de deficientes. Antes, eles passavam pelo Centro Cultural apenas para levar material para casa; agora, torna-se extensão de sua casa, observa Augusto Calil. Criou-se uma boa integração entre eles, os freqüentadores e os funcionários da biblioteca.

Os deficientes são orientados a navegar na rede mundial por meio de diferentes vozes, que narram o que estão visualizando na tela naquele momento e indicam os próximos caminhos a serem seguidos. A freqüência à biblioteca facilita a inclusão digital e social dos deficientes visuais, abrindo-lhes ampla visão do mundo.

A internet abre caminhos que despertam o deficiente para um melhor se conhecer, acorda-o para horizontes mais floridos, numa individualidade que lhe dá o direito de pensar e escolher dentro de valores intrínsecos de sua potencialidade. Em projetos de colaboração, os deficientes podem se conectar com outros de diferentes regiões e isso causa impacto na aprendizagem e na estimulação. Cria-se desse modo um novo modelo de política educacional e social.

Que cada um jogue a sementinha do esclarecimento, que passe avante o que aprendeu a respeito, facilitando a compreensão, afastando o preconceito e dando aos deficientes a oportunidade de um lugar ao sol a que fazem jus.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2003)