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CONSTRUTIVISMO NA ANÁLISE SOCIOLÓGICA

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Izabel Sadalla Grispino *

Educar implica em colocar o indivíduo como sujeito de sua análise de mundo. Ele é um elemento fazedor do processo e não um paciente do aprendizado. Não é uma incidência do ato de ensinar.

Na alfabetização, por exemplo, o adulto deve ser alfabetizado a partir de seu universo de fala e não do universo do educador. A aprendizagem é um ato de criação, de construção. “O sujeito que conhece é aquele que se apropria do processo de conhecer e não aquele que recebe uma justaposição no seu corpo e na sua inteligência do objeto que está sendo ensinado pelo educador”. (Paulo Freire).

Dentro do construtivismo são respeitadas a identidade e as posições do educando. O construtivismo fala de inteligência como uma criação que depende da sua prática e do seu uso. Não é possível estudar o construtivismo sem nos estudar. Nesse entendimento, o professor tem que trabalhar como facilitador do ato de aprender. “Ser educador é possuir a sabedoria de fazer brotar a sabedoria do outro, é tomar posse do verdadeiro saber: o saber com sabor, com inteligência, com prazer, com humor”. (Fernando Pessoa)

A educação não se restringe ao lar, à escola, abrange toda a coletividade. Ela sozinha não é a salvação, mas sem ela não há salvação. Em termos de sociedade, o programa Fome Zero, impregnado de um humanismo louvável, tem suscitado questões a respeito da pobreza.

Aplicando o construtivismo numa análise sociológica, no conceito de que educar é um processo no qual o sujeito é seu agente, é preciso considerar a visão que as pessoas pobres têm da pobreza e de seus problemas, é preciso trocar as experiências vividas.

Tomei conhecimento de uma pesquisa feita por um grupo de professores da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco, de 1991, para o Banco Mundial: “Consultations with the Poor”, feita com 632 pessoas em três lugares diferentes: favelas da região metropolitana de Recife, comunidades pobres do município de Itabuna (BA), vítimas do desemprego gerado pela crise nas lavouras do cacau, e comunidades pobres de Santo André, no ABC paulista, onde se acentuavam os efeitos do desemprego motivado pela retração do setor automobilístico.

O estudo da pesquisa chamou a atenção para a significativa variação da percepção de bem-estar, demonstrada pelos grupos e lugares pesquisados. De um modo geral, as pessoas pobres consideram a pobreza sinônimo de falta de poder e relacionam bem-estar com segurança, onde entram emprego e renda estáveis, alimentação, boa saúde, possibilidade de bons serviços, propriedade da terra ou da habitação. Também, de um modo geral, os pobres se vêem como mais vulneráveis e sujeitos a riscos, como deslizamentos de encostas, inundações, violências e crimes. A segurança proporcionada pelo emprego não está apenas na renda que ele traz. Emprego estável significa também relações com um empregador, a quem se recorre nas dificuldades.

Os autores do estudo enfatizam o ponto em que a visão social aponta a pobreza como causa da violência ou como meio que favorece a violência, enquanto os pobres se vêem como vítimas dessa violência.

O que se constatou, nesse estudo, é que as piores crises acontecem nas famílias chefiadas por mulheres (sem parceiro) e por velhos. Por isso, são os que mais precisam de proteção e que deve ser uma indicação de prioridade no programa Fome Zero. Pelas pessoas ouvidas, a insegurança tem crescido pelo aumento do desemprego, pela explosão da violência, “do crime nas comunidades” e pela concentração de renda: “O pobre está ficando mais pobre e o rico mais rico”.

Nesse quadro, emprego e acesso à educação são considerados fatores essenciais para escapar da pobreza. Um outro fator é acesso à infra-estrutura de saneamento, de saúde, de educação. Na falta de infra-estrutura entre os pobres, o governo é apontado como o maior responsável. De qualquer forma, as populações envolvidas na discussão não acreditam que sozinhas possam mudar a situação.

Nesse contexto, a Igreja católica é vista como a instituição mais importante pela assistência espiritual e de ajuda emergencial às famílias. A pior instituição é a polícia pela participação no quadro da violência da qual se sentem vítimas.

Talvez a lição maior, considerada pelo estudo, é a visão que os pobres têm dos ricos, sintetizada pela frase de uma mulher: “Rico é quem diz: vou fazer. E faz”. Isto é, rico é quem pode tomar decisões. Essa concepção é considerada um forte indicador para o processo político-administrativo como um todo, no sentido de fazer a sociedade participar, escolher, opinar, decidir.

Um outro fator, que chama a atenção nessa conjuntura, é o comportamento da mídia, que, em geral, aborda assuntos grandiosos, dramáticos, da crise de proporções assustadoras. A mídia poderá ajudar se mudar o foco, dirigir-se ao cidadão comum, saber o que pensa, o que lhe interessa, enfim abordar também o pobre, o cotidiano, não só falar do grande, do soberano; galgar passos construtivistas.

Essa pesquisa nos mostra que ajudar significa conhecer melhor o objeto de ajuda. Esse conhecer encarregar-se-á de ditar a direção a seguir. Juntar visão pessoal e visão alheia, valorizando a visão do outro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2003)