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BASE HUMANÍSTICA DA EDUCAÇÃO

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Izabel Sadalla Grispino *

Continuando o assunto sobre voluntariado, constatamos que escolas há que orientam os alunos para a participação voluntária. Muitas já incluem, em seus projetos pedagógicos, atividades de trabalho voluntário. Os exemplos começam a se multiplicar.

Alunos de escolas particulares de alto padrão estão se predispondo, com orientação, a oferecer ajuda, em diversas disciplinas, a alunos de escolas da rede oficial, com dificuldade de aprendizagem, ajudando a tirar dúvidas e a elevar o nível de conhecimento desses alunos. Eles integram a programação da escola contemplada, uma ou duas vezes por semana, em determinado período, participam de atividades extraclasses ou, então, a escola monta um horário especial para esse atendimento.

O entusiasmo atinge o emissor e o receptor: os alunos, com deficiência de aprendizagem, evoluem e os que ensinam fixam o conhecimento, adquirindo uma visão mais ampla do assunto.

Outras escolas incentivam os alunos à assistência hospitalar, às crianças doentes, internadas em hospitais. É o caso de adolescentes, de 16, 17 anos, geralmente do 3.º ano do ensino médio, que se dedicam, como voluntários, a brincar com crianças – na maior parte carentes – internadas em hospitais, exercitando o amor ao próximo.

Utilizam-se de livros infantis, tintas, lápis de cor, teatrinhos de fantoches e outros. Contam histórias, pintam, desenham, encenam peças infantis, organizam jogos, sempre com a supervisão de um técnico em recreação. Trabalham atividades educativas e recreativas.

As crianças doentes sentem-se animadas com o ganho dessas parceiras para brincar. O ganho dos adolescentes é de outra natureza: tornam-se pessoas mais solidárias, com sentimentos mais elevados, com um olhar voltado ao infortúnio humano. A presença deles, no hospital, contribui para a humanização do atendimento, diminuindo o impacto da internação da criança.

Os resultados, segundo consta, são surpreendentes. As crianças aceitam melhor o tratamento, curam-se mais depressa. Muitas choram quando recebem alta, por não querer se afastar dos novos amiguinhos, mais velhos.

Um outro grupo dedica-se ao atendimento de idosos. Os adolescentes buscam sentido nesse trabalho, ganham experiência, avançam para a maturidade emocional e engrossam a ação solidária da sociedade.

Na abrangência do trabalho voluntário, outras luzes surgem na educação, quais sejam, os cursinhos comunitários. Alunos da classe pobre, oriundos de escolas públicas de má qualidade, poucas chances têm de ingressar numa boa universidade. Ainda recentemente, esse dado foi comprovado, quando as universidades públicas de São Paulo anunciaram isenção da taxa do vestibular para alunos carentes, alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas e que pertencem a famílias de baixa renda.

As universidades decidiram sobre a isenção, “apesar de terem tido uma experiência considerada insatisfatória, quando nem todas as isenções foram utilizadas”. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aumentou o número de candidatos isentos, porém poucos beneficiados passaram no seu vestibular. A USP também divulgou que os isentos não tiveram bom desempenho.

As barreiras desses alunos para atingir um nível razoável de conhecimento são grandes. Trazem defasagem de longa data, que vai, no tempo, se acumulando, e ainda não só não podem pagar um bom cursinho preparatório para o ingresso a uma boa universidade, como não têm base suficiente para absorver o conteúdo por ele ministrado.

Atuações altruístas surgem na área educacional e vêm criando oportunidades de um ensino complementar de bom nível aos alunos, como são os cursinhos comunitários. Estes constituem uma rede alternativa de ensino, mantida por voluntários, que investe, especialmente, na auto-estima dos alunos. O Educafro, por exemplo, é uma rede que agrupa quase 70% dos cursinhos comunitários dirigida pelo frei David dos Santos, um fervoroso defensor do aluno necessitado.

Os cursinhos comunitários são uma nova opção à população estudantil de baixa renda. Em geral, surgem da própria comunidade, que se organiza e monta um núcleo, ou de grêmios estudantis, onde todos os funcionários são pagos.

Abrir um cursinho comunitário exige muita vontade e trabalho, pois todos os seus integrantes são voluntários. A mensalidade equivale a 10% do salário mínimo, valor simbólico comparado aos grandes cursinhos. Esses cursinhos têm se revelado de grande utilidade e têm trazido resultados animadores, em termos de melhora da qualidade de ensino. Muitos alunos, hoje estudando em universidades, passaram por cursinhos comunitários. Torcemos para que o exemplo se prolifere, para que, daqui há algum tempo, não precisemos nos deparar com o resultado divulgado, no início de setembro de 2005, do Ibope, sobre analfabetismo funcional, mostrando que 75% da população não consegue ler e escrever direito.

A solidariedade é, sem dúvida, um caminho de reabilitação da escolaridade, evitando os profundos desníveis sociais. Reabilitação não só da parte que recebe a ajuda, mas, e muito, da parte que estende a mão e influencia o vizinho, para o comportamento cristão do pão repartido.

A preocupação em desenvolver uma base humanística e solidária entre os estudantes dos vários graus de ensino, hoje, é uma constante, um conhecimento a favor da cidadania. É um trabalho de educação que tem, a médio e longo prazo, perspectivas de sensibilizar alunos para que se envolvam em trabalhos voluntários.

É preciso pensar no conjunto da população, porque ninguém pode ser feliz vivendo no seio de uma comunidade desventurada. O ambiente geral é reflexo ou de uma sociedade bem constituída, bem repartida, ou de uma sociedade onde o desequilíbrio traz profundas marcas de dor.

Vamos educar  nossos alunos, os responsáveis pelo mundo que se formará amanhã, vamos conscientizá-los em direção à eqüidade social! Eqüidade em trabalho, em capacitação profissional, em realização pessoal, na linha construtiva do ensinar a pescar. Não é dar gratuitamente, é dar condições de vida própria, de vida de qualidade!

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em setembro/2005)