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ANALFABETISMO FUNCIONAL

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Izabel Sadalla Grispino *

As mudanças sociais acarretam mudanças funcionais, criam palavras e expressões que vão se incorporando e se firmando através da mídia. Temos lido e ouvido, freqüentemente, falar em analfabeto funcional. Pelo conceito tradicional, analfabeto é o indivíduo que não sabe ler e escrever. Hoje, saber ler e escrever, mas não ter capacidade para entender uma mensagem ou elucidar questões simples, é igualmente analfabeto, porque não há, no mercado de trabalho, função para ele.

A transformação no mercado de trabalho muda, radicalmente, o conceito do que é ser alfabetizado. A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 1996, revelou que 14,7% da população brasileira, acima de 15 anos, são, pela antiga conceituação, analfabetos.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pretendendo apurar um grau mínimo de conhecimento, perguntou em sua pesquisa: ”Você sabe ler ou escrever um bilhete simples?” Levantou, nesse nível, um total de 15 milhões de analfabetos. Analfabetos que, embora soubessem escrever o nome, não conseguiram responder questões básicas de aplicação diária. Esse índice coloca o Brasil entre os dez países com maior número de analfabetos absolutos.

Hoje, porém, não basta saber ler ou escrever um bilhete simples para se colocar, com alguma perspectiva, no mercado de trabalho. Os empregos exigem, cada vez mais, tarefas complexas, como processar informações, interpretar textos, usar mapas, cálculos matemáticos. Nesse grau, os problemas são mais sérios. A última pesquisa, realizada na capital de São Paulo, abordando essa capacidade, apurou que 1/3 da população é analfabeta funcional. Este termo inclui tanto aqueles que não sabem assinar seu nomes, quanto aqueles que freqüentam uma escola, mas não conseguem, por exemplo, localizar um endereço em um anúncio de emprego ou somar quantias, depositadas em cheque, num formulário bancário.

“A Ação Educativa”, uma organização não-governamental na área da educação de jovens e adultos, realizou, em agosto de 1997, uma pesquisa, usando questões do cotidiano para verificar as habilidades que os paulistanos apresentavam em interpretar textos, em fornecer informações, em raciocínio e cálculos matemáticos. Concluiu que 7,4% dos moradores da capital, entre 15 e 54 anos, seriam classificados, pelo IBGE, como analfabetos absolutos. Essa porcentagem bate com o índice, de 1991, de 7,5%. Outra parte dos habitantes, 25,5%, não passou nos testes que pedia o acerto de 5 entre 7 questões relativas ao assunto acima mencionado. Somando-se os dois resultados, chega-se a 32,9% da população da cidade de São Paulo como sendo analfabetos funcionais.

Tendo-se em conta que os habitantes do município de São Paulo possuem o maior índice de escolaridade do País, a taxa de analfabetismo funcional no Brasil deve ser bem mais elevada.

Um outro aspecto revelador, demonstrado pelo estudo das “Ações Educativas”, é de que quem pára de estudar ou mesmo de trabalhar “emburrece”. Em teste aplicado, apenas 50% das donas-de-casa são aprovadas contra 69% das mulheres que trabalham fora de casa – o mesmo percentual dos homens. Essa constatação vem confirmar o preceito de que a educação tem de ser continuada, permanente. Vem confirmar a máxima de que os profissionais do próximo milênio terão de estudar a vida toda.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) faz uma descrição operacional do novo perfil dos analfabetos brasileiros. Os “analfabetos pós-modernos” que não sabem usar cartão magnético, aparelhos eletrônicos, ler manuais ou contratos; os “analfabetos televisivos”, que  não conseguem ler jornal ou livro; os “analfabetos do economês”, que não entendem cobranças, balanços ou linguagem dos bancos e da mídia especializada no setor.

Na Avaliação do Ensino Básico (Saeb), feita pelo MEC, em 1998, considerou-se que, em português, o grau de

compreensão da grande maioria dos alunos da 4ª série do ensino fundamental foi muito baixo. Os alunos não conseguiram interpretar o texto contido num manual de um simples aparelho.

Com esta base, a escola está integrando ao mercado de trabalho analfabetos funcionais, pessoas marcadas para a marginalização por deficiência de comunicação. Perguntamos: de que adianta a escola expedir certificado ao aluno, se ele sai dela sem condições, por falta de conhecimento, para enfrentar as ocupações  atuais de trabalho? A escola deve ter sempre presente o seu compromisso com a aprendizagem. O saber deve estar acima de qualquer outra responsabilidade que possa vir a ter, porque é esse saber quem vai aprovar ou reprovar o aluno na prática profissional.

Vivemos uma nova etapa do capitalismo, que exclui, sem apelo, os que não conseguem um mínimo de educação. A baixa escolaridade da nossa população, de 4 anos em média, empobrece o País, arrasta a miséria, a insegurança e a negação de horizontes de vida digna. Repercute no conceito nacional, especialmente, quando comparado aos nossos países vizinhos. Em matéria de escolaridade, o Brasil “ocupa um lugar inferior ao Paraguai, ao Uruguai, à Venezuela, à Colômbia, à Argentina e é semelhante ao Peru” (CNBB). A Argentina, um dos nossos parceiros do Mercosul, tem média de 8,7 anos de escolaridade. Nela, até os trabalhadores portuários de Buenos Aires, outrora típicos trabalhadores braçais, hoje, têm nível de 2º grau completo. O Paraguai avança mais, com média de 9,2 anos. Entre os tigres asiáticos, a escolaridade média passa de 11 anos e, nos países do primeiro mundo, vai de 12 a 16 anos.

Níveis de escolaridade tão distantes de um país a outro sinalizam o grau de importância que foi atribuído à educação, nestas diferentes localidades.