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A POBREZA E O ENSINO SUPERIOR

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A realidade brasileira é marcada por forte desigualdade social e um caminho a trilhar, nessa direção, é a educação. O acesso ao 3.º grau é uma das formas mais seguras de ascensão social no Brasil. A população carente começa a entender o processo, a necessidade de se cursar uma universidade para se afirmar socialmente.

Pesquisas mostram que o ganho extra de renda que um brasileiro obtém, em média, por fazer 4 anos do 3.º grau é 10 vezes maior do que o obtido nos 4 anos do ensino fundamental. Contudo, a freqüência ao 3.º grau continua sendo privilégio dos mais ricos. Em 2001, entre os 50% mais pobres da população, só 8% dos jovens, em idade de freqüentar a universidade, estavam no 3.º grau. Entre os 10% mais ricos, esse número salta para 37%. E na universidade pública 75% das vagas estão entre alunos provenientes do grupo dos 30% mais ricos.

As comunidades carentes têm dificuldade de freqüentar o ensino fundamental quanto mais o ensino superior! Em junho p. passado, o MEC divulgou que só em 19 cidades brasileiras os indivíduos têm, em média, 8 anos de escolaridade, o que equivale dizer, têm apenas o ensino fundamental!

A grande maioria que freqüenta a escola pública pára bem antes de chegar à universidade e, quando chega, sua defasagem de conhecimento não a permite ingressar numa faculdade pública, tendo que ralar muito para pagar uma faculdade privada.

As soluções são complexas e ainda distantes. Poder-se-ia pensar em aumentar as vagas dos cursos noturnos da universidades públicas e garantir mais bolsas aos estudantes das faculdades particulares , que não têm como pagá-las. Em regiões afastadas da cidade, onde a maioria da população enfrenta o desemprego, a violência, a falta de oportunidade de estudar é grande. Faz-se necessário criar, em governo e em sociedade, consciência dessa realidade, consciência da necessidade de colocar a pobreza na sala de aula. Essa idéia vem avançando nos últimos anos e presenciamos a entrada de universidades e faculdades privadas em bairros pobres da grande São Paulo. Movimentos se formam querendo é levar o ensino superior público às regiões mais pobres.

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) chegou à periferia e no mês de junho do corrente ano inaugurou seu primeiro curso sobre recursos humanos, para ajudar jovens de Cidade Dutra, Capela do Socorro, Cidade Ademar e região a entrarem no mercado de trabalho. Está previsto um projeto maior, a construção de um campus,  com um modelo de acesso às vagas que privilegie alunos de escolas públicas. A Universidade e o Hospital São Paulo preocupam-se em dar orientação profissional. Iniciaram em 14 de junho um curso sobre marketing pessoal, comunicação e relações profissionais, além de dicas sobre como preparar um currículo, como se apresentar numa entrevista e orientações sobre as áreas do mercado em expansão.

É um procedimento de sensibilidade social, que defende o acesso da população carente à educação superior pública. O entendimento corrente é de que os alunos mais ricos não sairão de seus bairros para estudar na periferia, mesmo a universidade sendo pública. A Faculdade de Tecnologia (Fatec), inaugurada em 2002, na Cidade A E Carvalho, na zona leste, tem hoje 80% de seus alunos morando na região. Mantida pelo Estado, a instituição oferece 640 vagas em seus cursos superiores de tecnologia, com duração de 3 anos e voltados para o lado prático da profissão, atendo-se menos à área teórica. Além das aulas, os alunos trabalham em projetos de pesquisas na área de produção, informática e logística no laboratório da faculdade. Há um projeto de se estender a Faculdade de Tecnologia (Fatec) à zona sul da capital. É forte o movimento popular, integrado, inclusive, por deputados, vereadores, subprefeitos da região, em favor da criação de faculdades públicas nas regiões carentes da cidade.

Nas universidades particulares, que têm unidades nas periferias, predominam cursos de menor duração e da área de humanas, devido o baixo poder aquisitivo dos alunos e pela necessidade de chegar mais rápido ao mercado de trabalho. Um dos cursos mais baratos e, conseqüentemente, de maior procura em instituições localizadas em regiões de população de baixa renda, é o de Pedagogia. A mensalidade mínima do curso é de cerca de R$ 400,00 e o salário do aluno nem sempre cobre o preço da mensalidade. A área de saúde precisa, por exemplo, de muito investimento e acaba encarecendo a mensalidade, afastando o candidato, que tem como propósito conseguir logo um emprego. Além dos cursos na área de humanas, a Faculdade Albert Einstein, da Cidade Dutra, oferece a chamada formação de tecnólogo, isto é, um curso superior de dois anos voltado ao mercado de trabalho.

O bom seria a criação de mais universidades públicas; as privadas, em que pese a intenção de facilitar a locomoção, instalando-as próximas à moradia do aluno, acaba, contudo, pesando no salário do estudante trabalhador. Na realidade, a desigualdade na educação é causada por forças sociais profundas, como a pobreza e o trabalho, incluindo, seriamente, o trabalho infantil.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2003)