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A FACE DO ATUAL MAGISTÉRIO PÚBLICO

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Izabel Sadalla Grispino *

O magistério, que há décadas atrás ainda atraía profissionais oriundos da classe média, da classe média-alta, com esmerada formação, hoje é representado, na grande maioria, especialmente nas escolas da rede oficial, por professores da classe pobre, com enfraquecida formação. São filhos de pais de baixa escolaridade, pais que nunca foram à escola ou não completaram os quatro primeiros anos do ensino fundamental. Foi o que demonstrou o questionário socioeconômico do provão 2001.

O questionário demonstrou que os formandos dos cursos para professores, como pedagogia, letras, matemática, biologia, física e química, têm perfil distinto dos formandos de cursos como medicina, engenharia ou mesmo os de oferta mais comum, como direito e administração. Em pedagogia, 9,8% dos pais nunca freqüentaram escola, contrapondo-se à medicina, onde apenas 0,9% dos pais estão na mesma situação. Em pedagogia, 54,7% não completaram a 4.ª série do ensino fundamental, em medicina, apenas 10,7%.

A renda mensal das famílias, em cursos de formação de professores, também destoa da média dos demais. Em letras, por exemplo, 23,1% e matemática 24,4% vivem em família com renda inferior a R$ 540,00, sendo que a média de todos os cursos gira em torno de 10,9%. Em algumas carreiras mais concorridas, como odontologia, essa proporção é de, apenas, 2,2%.

O magistério, hoje, é, com raras exceções, freqüentado por profissionais que conseguiram chegar até ele, com dificuldades financeiras e com deficiência de formação. A baixa escolaridade dos pais, o ambiente de pobreza, de falta de recursos, de boas condições de vida, não propiciam o desenvolvimento intelectual ou a apropriação de um saber mais elaborado. Também, os estímulos são reduzidos. Pesquisas demonstraram, por exemplo, ser a evasão e a repetência marcadas por alunos pobres, com pais de baixa ou nenhuma escolaridade.

Sem boa estrutura social, sem boa estrutura educacional, dificilmente os estudantes conseguirão freqüentar uma universidade de nível, arrastam-se por universidades privadas e freqüentemente de baixa qualificação. As universidades públicas não formam muitos professores, mostram as estatísticas. De acordo com o Exame Nacional de Cursos, o provão, comprovadamente, a qualidade das universidades privadas é inferior às universidades públicas. Rose Neubauer, em entrevista feita em dezembro de 2001, afirmou que 90% dos professores fizeram universidades particulares.

A decadência do ensino público está muito sustentada por essas características, que levam a uma base precária de formação de seus profissionais. A escola pública, a continuar com essa face empobrecida, sem os devidos cuidados por parte dos governos, que, em seus discursos, a colocam como prioridade, mas que, na prática, usam a tática do “deixa rolar”, muito dificilmente se erguerá. Essa nova leva de docentes necessita de assistência técnica reforçada para poder exercer bem a profissão.

Desassistida, a escola não se torna uma entidade convidativa e corre o risco de ter quebra em seus quadros docentes, o que, aliás, já vem ocorrendo Dificilmente,  um professor será um desempregado, nos próximos anos. Haverá vagas, mas, a manter esta situação, faltará formação.

Abandonada pelos cofres públicos, a escola ostenta baixos salários e condições deficientes de ensino. Uma pesquisa, intitulada “Retrato da Escola”, feita pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), com base nos dados do MEC, revelou que há carências de recursos pedagógicos, graves ou menos graves, em 65,3% das escolas públicas do ensino médio. Nas escolas de 8.ª série, as carências são de 53,2% e nas escolas de 4.ª série, de 46,2%. A pesquisa revelou, também, que em 73,5% das escolas públicas de 4.ª série, em 85,1% das de 8.ª série e em 87,2% das de ensino médio, havia problemas de insuficiência de recursos financeiros.

A escola pública vem se marcando por defasagens cada vez mais acentuadas. Os seus professores, que, no passado, representavam a elite cultural do País, hoje, têm a mesma origem social de seus alunos. Essa característica os leva a conhecer, a entender melhor a realidade social de seu aluno, fator que pode aproximá-los, mas que pouco pode ajudá-los, em termos de ascensão social, em termos de qualificação profissional.

Louva-se, contudo, o esforço desses pais que, com muita luta, muita garra, conseguem dar condições de estudo aos filhos e louva-se, também, o esforço dos filhos, que com dificuldade sobem a rampa, olhando para o alto, para um mundo melhor. Faltam a esses pais, a esses filhos uma melhor assistência por parte dos governos e da sociedade como um todo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2002)