Payday loans uk
  1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>

A ESCOLA TRABALHANDO A VIOLÊNCIA

PDF Imprimir E-mail

Izabel Sadalla Grispino *

A escola vem se preocupando cada vez mais com o problema da violência. Violência na sociedade que acaba na escola. Investe em atividades esportivas e culturais, cria projetos alternativos que envolvem os alunos e os afastam da violência. Vai além, estimula a participação dos pais e da comunidade nos programas desenvolvidos por ela, ampliando o sentido de escola, escola da família. Ela se transforma em espaço de atividades também para a comunidade.

Da prática de esportes em quadras, a escola programa formação de grupos de dança, teatro, formação de líderes, grupos de axé, hip hop, aulas de violão, discussões sobre a realidade vivida pelo estudante. O propósito é manter o aluno na escola, estimulá-lo à vida escolar e afastá-lo da criminalidade.

A escola diversifica para combater a violência, especialmente quando localizada em periferias de cidades com índices relevantes de criminalidade. As atividades variam de acordo com a realidade encontrada.

Uma boa estratégia é advertir os alunos que se não houver correspondência, se houver briga, os projetos serão cancelados. E o que se nota, nas escolas envolvidas nos projetos, é uma grande adesão dos alunos às atividades, principalmente, se são os próprios alunos quem define as oficinas, os cursos, ou os projetos a serem executados. Todos se integram e não criam confusão. Eles sentem que o espaço é deles e passa a valorizá-lo. Trabalha-se em parceria com os alunos e também com a comunidade.

Um procedimento que quase sempre atinge o alvo é trabalhar na formação de líderes. Cada sala elege o seu representante que será o porta-voz da turma. Ao despertar o interesse dos alunos, esse interesse os move, eles participam e vão deixando a criminalidade, reduzindo a agressividade. Afastam-se das ruas, preferindo ficar na escola, envolvidos com atividades esportivas, culturais e musicais. Há escolas que organizam belos corais com os alunos, que se apresentam, no período de Natal, em outras escolas da comunidade, em shoppings ou mesmo em empresas da cidade.

Pelo resultado de avaliações, as escolas, que assim se programam, que apostam num ensino diversificado, em atividades prazerosas para os alunos, têm conseguido freqüência participativa dos alunos em grau estimulador, assim como um envolvimento cada vez decrescente no crime.

Sob um outro ângulo, agora mais restrito ao recinto escolar, há um fator de violência, surgindo de relacionamentos interpessoais, entre alunos, relacionamentos conflitados, que não podem deixar de ser seriamente considerados pela escola.

A escola deve trabalhar os efeitos negativos que interferem na personalidade. No caso da violência acima citada, atacar as causas, às vezes aparentemente sem conseqüência, mas que vão, pela repetição, pela persistência, gerar atos de extrema violência, chegando à morte. Estuda-se, hoje, o reflexo de um fenômeno mundial, conhecido como bullying. Bully, em inglês, quer dizer valentão, brigão.

Bullying refere-se a humilhações constantes sofridas, por um estudante, na escola onde freqüenta. Refere-se à prática de atos agressivos e humilhantes de um grupo de estudantes contra um colega, sem motivo aparente. Essa atitude de humilhação provoca revoltas marcantes no adolescente, que, em momento de crise, chega a cometer assassinatos em série. Vários casos são assinalados, como por exemplo, de um garoto de 13 anos, sofrendo por mais de 2 anos na escola repetidas humilhações, por parte de colegas. Num repente de muita revolta, comprou, com o dinheiro da mãe, um revólver e saiu atirando.

Pesquisa, com 5.482 alunos de 5.ª à 8.ª série de 9 escolas públicas e 2 particulares, mostra que 40,5% dos entrevistados admitiram ter envolvimento direto com episódios de humilhação na escola. Cerca de 27,8%, foi vítima de bullying. Eles contaram que receberam apelidos (54,2%), ameaçados (8,5%) e tiveram objetos roubados ou destruídos (4,7%). Em 60,2% dos casos, os episódios ocorreram em sala de aula. Dos alunos ouvidos, 23,7% confessaram que humilhavam colegas; uns achavam a prática engraçada, outros que os colegas mereciam ser castigados. Apenas 19,5% foram repreendidos na escola.

Isso mostra que não se trata de uma porcentagem a ser desprezada. Mostra que a escola deve dar importância ao fato e desenvolver trabalhos com os alunos para conscientizá-los contra o bullying. Mostra que apelidos agressivos podem trazer efeitos muito danosos. Apelidos que acompanham o indivíduo a vida toda, e mesmo anos mais tarde, acabam levando-o à prática do bullying. Dizem os especialistas que “o que está por trás desse comportamento é a intolerância pelo diferente. A sociedade, a escola não podem pensar que isso é coisa de criança ou adolescente, uma fase que vai se resolver com o tempo”.

Para clarear o efeito bullying, o relatório cita o caso de um aluno de 18 anos, aluno de uma escola da cidade de Taiúva/SP, que fora chamado de “vinagre”, por anos, pelos colegas, após ter feito uma severa dieta. Os colegas diziam que ele havia emagrecido de tanto beber o tempero. Acumulando revolta, num ato de destempero, feriu 6 pessoas na escola e se suicidou. Fato ocorrido em janeiro de 2003.

Monteiro Filho, presidente da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), explana o assunto no seu livro “Diga não para o bullying”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2004)