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A ESCOLA DA SOLIDARIEDADE

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Izabel Sadalla Grispino *

Boa escola é aquela que não se preocupa, exclusivamente, em preparar o aluno para a faculdade, mas em formá-lo para enfrentar as situações de vida. Utiliza-se do método sócio-construtivista, faz do aluno o agente da aprendizagem e coloca o professor como mediador entre o aluno e o conhecimento. Estabelece as condições cognitivas necessárias à aquisição do conhecimento e trabalha atitudes e posturas éticas, humanas, objetivando a formação do cidadão crítico, responsável, participativo.

Esta escola vai além da transmissão do conhecimento, abrange a formação integral do aluno, inserindo-o no contexto social em que vive. É uma escola conectada com a comunidade, com o mundo, reduzindo a distância entre o que fala e o que faz, fazendo a diferença entre o texto e o contexto, conforme desejava o educador Paulo Freire, quando dizia: “Não sou um ser no mundo, sou um ser com o mundo”.

A situação caótica da sociedade está encaminhando a escola para formar o aluno em direção ao humanismo, ao altruísmo, à prática do voluntariado; um cidadão aberto ao convívio social. Alunos compromissados com o momento em que vive, com o termômetro social, capazes de ver e refletir sobre os males que afligem a sociedade e a  não fugir à sua colaboração.

A boa escola ultrapassa o assistencialismo, debate as causas sociais, forma consciência, faz perceber as conexões do mundo globalizado. É uma escola perspicaz, inteligente, que retira dos problemas sociais estímulos para a curiosidade intelectual. Uma escola que se prepara para as ações voluntárias, recebe e fornece, e que vincula a transmissão do patrimônio cultural à formação do caráter, da alma. Forma fileiras e encaminha a criança para a paz, para a cooperação e não para a competição. O mundo competitivo está gerando deformação, individualismo doentio, de conseqüências lastimáveis.

O programa de voluntariado da escola não deve ser encarado como simples caridade. Quando o voluntariado vem de fora para dentro, além dos aspectos de ajuda, de cooperação, traz, em si, também o objetivo de enriquecer as aulas, de descortinar para o aluno variadas experiências, inovando e aperfeiçoando o conhecimento. O voluntariado quebra paradigmas da sociedade capitalista, que vê na remuneração, no lucro, as únicas razões de luta. No trabalho voluntário, não há busca de interesses pessoais, ele estimula a articulação entre sociedade e compromisso social. Da parte dos alunos, a solidariedade pode ser exercida, criando-se projetos voluntários para asilos, creches, orfanatos, educandários.

Há que se buscar alternativas, caminhos que alcancem os desníveis sociais, que minorem a fome, o desemprego, a ignorância alfabética. Uma pesquisa sobre trabalho voluntário na escola, pela comunidade, feita com 886 diretores, entre dezembro de 2000 e janeiro de 2001, pela empresa Enfoque, Pesquisa & Consultoria e Marketing, mostrou o seguinte resultado: 75% dos diretores afirmam que o trabalho voluntário na escola estimulou mais os alunos; para 40%, houve um desenvolvimento maior com atividades extraclasses; para 13%, houve melhora na disciplina; 11% acham que a evasão escolar diminuiu e para 10%, a presença do trabalho voluntário proporcionou a diminuição dos índices de repetência. Nenhum diretor apontou aspectos negativos, os marcadores foram todos positivos.

O triunfo da indiferença que impera na sociedade precisa ser trabalhado na escola, em casa, por todos. Impõe-se a recuperação do bom-senso no trato das relações humanas, da responsabilidade dos atos sociais, que parecem ter-se evaporados.

A crueldade não é fruto do acaso. As causas da violência são sempre citadas, mas pouco combatidas na esfera política. Resta valer-nos da pedagogia, mexer na estrutura da alma, exortando a ajuda mútua, a afetividade entre as pessoas. Sabemos que essa não é a função primeira da escola, mas ela não pode ser descuidada, a ponto de a função primeira ser invalidada pela outra. É um processo de resultado a médio e a longo prazo, mas que se faz necessário dar, com urgência, o primeiro passo.

A preocupação de educar para o altruísmo levou a ONG “Faça Parte” lançar, na Assembléia Legislativa de São Paulo, em 15 de março p. passado, o Projeto “Jovem Voluntário, Escola Solidária”. Vários outros projetos vêm sendo pensados e postos em prática, com o fim de assistir às crianças, aos jovens, educar-lhes para a cooperação, disseminando fraternidade. O grande propósito é combater a violência, difundir um mundo de paz.

A escola, hoje, prima por dupla competência: do conhecimento, na formação cognitiva, onde tem o seu grande papel, e da formação comportamental. Escola para formar cidadãos, da conquista do aluno não só pelo conhecimento, mas, também, pelo lado afetivo, incluindo conceitos de ética e de cidadania. Na função de transformadora social, a escola não pode fechar os olhos para as turbulências da vida atual. O professor, por sua vez, deve se conscientizar da grande força que possui diante do aluno e utilizá-la na consecução dos objetivos gerais e específicos da educação. É ele, o professor, a pessoa mais credenciada para desenvolver ações que busquem suportes à escalada do mal que toma conta do cotidiano. Ainda não se descobriu nada melhor para substituir o professor na missão de ensinar e de educar. Nenhuma máquina de dar aulas, nem a Internet, conseguem eliminar a presença do professor.

Mudar o rumo da educação impõe-se cada vez mais. Precisamos unir progressos científicos a progressos de alma. A civilização quanto mais progride, mais parece atingir, negativamente, a estrutura humana. Nunca tivemos guerras em proporções tão assombrosas, tão ferozes. Inventam-se, dominam-se máquinas, que, ao invés de contribuírem, aniquilam a humanidade.

O que resolve o avanço da ciência, se ele é usado na destruição do próprio ser humano?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2002)