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UMA REALIDADE QUE PRECISA SER MUDADA

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Izabel Sadalla Grispino *

A dificuldade de aprendizagem é maior a cada ano, revela-nos o resultado de um estudo feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, em 2003. O desenvolvimento das habilidades básicas em matemática e português dos nossos alunos é muito baixo.

Segundo análise dos resultados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), desde 1995, aumentou o número de alunos que se encaixam nos conceitos muito crítico e crítico de desempenho.

O Saeb é um exame realizado a cada dois anos pelo governo, com uma amostra de alunos do ensino público e particular das 4.ª e 8.ª séries e 3.º ano do ensino médio, nas áreas de português e matemática. O desempenho é classificado em níveis que variam de 125 a 400 pontos, pontuação que foi agrupada em estágios muito crítico, crítico, intermediário, adequado e avançado.

Desde a primeira realização, o Saeb nunca chegou a 10% de alunos em nível adequado de aprendizagem, nível em que os estudantes apresentam habilidades compatíveis à 4.ª série. Ao longo dos anos também diminuiu o número de estudantes com desempenho intermediário, passando para cerca de 40%. Esses dados revelam uma clientela sem tradição de boa escolaridade, sem hábitos de leitura. Esses alunos não encontram na escola condições propícias ao seu desenvolvimento intelectual.

Os resultados das pesquisas do Inep mostram queda, ano a ano, no desempenho dos alunos de 4.ª série. Em português, em 2003, quase 60% dos estudantes estão nos estágios muito crítico e crítico. Em 1995, eram cerca de 40%. Os alunos, incluídos nessa porcentagem, nem conseguem realizar a prova, observa o então diretor de Avaliações do Ensino Básico do MEC, Carlos Henrique de Araújo.

As crianças classificadas no estágio muito crítico lêem apenas frases simples de forma truncada, o que significa que não foram alfabetizadas adequadamente. Em matemática, elas não conseguem identificar operações envolvidas em problemas e têm dificuldade, principalmente, em contas de divisão e somar, com números decimais. Foi pedido a 4 crianças da 4.ª série de uma escola estadual da capital o cálculo de divisão do número 300 por 4. Passou-se o tempo estipulado e as crianças, de 9 anos, não conseguiram esboçar sequer uma solução para a conta. Uma delas se justificou dizendo que somar é bem mais fácil que dividir.

Com a universalização do ensino fundamental, a qualidade da educação deteriorou-se. A reforma curricular foi introduzida na educação sem que os professores tivessem sido preparados para colocá-la em prática. Sem suporte, sem uma boa formação, o professor não deu a seqüência ao ensino desejado. Ele não estava preparado para lidar com a heterogeneidade dos alunos, com as dificuldades que a pobreza acarreta ao ensino. “Até décadas atrás, a nossa escola pública tinha como clientela a população das camadas altas e médias mais escolarizadas”. Assim, boa parte do estímulo ao ensino vinha mais da própria família e dos círculos de convivência social que do ambiente escolar. A realidade modificou-se. A escola pública, de agora, é freqüentada pela classe pobre e muito pouco faz para retê-la, com aproveitamento, no recinto escolar.

Uma vez conseguida a universalização do atendimento à população mais necessitada, o grande desafio, enfrentado pela escola pública, é o de programar ações, currículos, capazes de, efetivamente, alcançar esses novos alunos, provenientes das camadas populares. O desafio de prever em seus projetos pedagógicos, em sua organização curricular, um lugar de tratamento adequado a esses alunos, definindo instrumentos pedagógicos que cheguem até eles, dando-lhes respostas que venham de encontro à qualidade de ensino. O desafio de formar um aluno competente, apto ao exigente mercado de trabalho. O desafio de vencer a crise da aprendizagem. Compreender que o aluno carente tem, como todos os demais, um potencial que deve ser transformado em ato, ir a ele, não pelas carências, mas pela riqueza. Saber o que ele faz, o que gosta, o que quer. Dar-lhe a oportunidade de descobrir-se, de manifestar-se espontaneamente, sem homogeneização.

O trabalho pela qualidade de ensino passa, sem dúvida, pela capacitação dos profissionais da educação, pela luta ao desamparo intelectual e institucional, que não são senão legados de décadas de atraso.

Não se pode mais fechar os olhos à causa do ensino público. “Ele só terá chance de se reerguer se contar com mãos estendidas, juntando esforços do governo, da sociedade, da família, da escola, ressaltando-se um reforço técnico competente, a ser dado ao professor”. (Do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente da Escola), págs. 17 e 18).

Conscientizar-nos da necessidade de mudança é caminho a seguir. Em São Paulo, Estado que tem índices mais altos de qualidade se comparados à média brasileira, os índices de aproveitamento continuam preocupantes. Segundo o Saeb 2001, caiu de 1,43% (em 1995) para 0,85  a quantidade de alunos considerados avançados em português. São estudantes que apresentam nível até superior ao exigido na 4.ª série.

A tendência de evolução negativa se mantém em todas as regiões do Brasil, com o Norte e o Nordeste apresentando situações mais precárias. O Rio Grande do Norte é o Estado com maior percentual de alunos na situação muito crítica em português, atualmente 38,53%. O melhor desempenho está no Distrito Federal.

Conclui o estudo de que “os pobres estão aprendendo menos e os ricos também não evoluem”. Necessário se faz mirar em países como a Coréia do Sul, que implantou um projeto corajoso, investindo fortemente na educação básica. Em 7 anos, está invertendo a produção do país, tornando um exemplo para o mundo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2005)