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RETROSPECTIVA HISTÓRICA: “A ESCOLA PÚBLICA NA DÉCADA DE 60”

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Izabel  Sadalla Grispino *

Surge nos anos 60, precisamente em sua 2ª metade, manifestação explícita, até, então, a maior, por parte da Secretaria da Educação pela democratização do ensino. Expandiu-se a construção de prédios escolares e novas metodologias, em função da nova clientela, novas abordagens pedagógicas, começaram a ser divulgadas e implementadas nas escolas da rede estadual.

Em 1962, criava-se, sob a orientação da Profa. Maria Nilde Mascellani, o Serviço de Ensino Vocacional (SEV), com a instalação de 5 ginásios vocacionais no estado de São Paulo. Paralelamente, foram instituídos, na gestão do secretário da Educação Prof. Paulo Nathanael, os chamados ginásios pluricurriculares, polivalentes.

Nesse período eu era diretora de uma escola estadual que mantinha os cursos: colegial, normal e ginasial. Por volta de 69/70, esse ginásio passou a ser pluricurricular.

Como o próprio nome o definia, ele oferecia aos alunos um leque de opções curriculares, permitindo-lhes descobrir tendências vocacionais e encaminhá-los, quando fosse o caso, a uma profissionalização de nível médio. Seria como um desmembramento do ginásio vocacional. Uma de suas bases de sustentação era a criação da oficina de artes e ofícios.

Era uma nova proposta de escola com um embasamento teórico e experimental de longo alcance. Para ser melhor compreendida e ajustada à sua aplicabilidade, necessitava de um profissional que se dedicasse exclusivamente à coordenação pedagógica. Foi, praticamente,  o início dessa função nas escolas públicas.

Contudo, o seu maior desafio consistia na capacidade de seus integrantes alcançarem a metodologia emergente, com sua pedagogia da cooperação e sua valorização das individualidades. Revolucionavam-se a abordagem do conteúdo e toda uma estrutura comportamental vigente.

O ensino começava a se distanciar da linha cartesiana que ostentava bandeiras com lemas da eletizada escola da disciplina, austeridade, honra e excelência. Escola que, contudo, respondia, favoravelmente, à sua clientela, seleta, oriunda de classes abastadas, dominantes, aspirantes ao ingresso nas universidades.

O advento da era industrial, gerando um grande contigente populacional urbano, pedia mudanças estruturais na sua conceituação. A visão cartesiana, inspirada, por longas décadas, na filosofia da racionalidade do francês René Descartes, século XVII, era tida, para a situação, como linear, maciçamente repressora, passando sobre a individualidade das pessoas.

A Escola precisava diversificar as ofertas  educacionais,  adequar-se  ao  trabalho industrial  e às características desse aluno proveniente, neste momento, das  mais  diferentes  classes  sociais. Surgiram mais escolas estaduais industriais com profissionalização de nível médio, passando, depois, a chamar-se “Escolas Técnicas Estaduais”, agora, ligadas à Fundação Paula Souza.

Nessa evolução, entendeu-se como fundamental olhar para dentro do aluno, valorizar suas aspirações, o seu modo peculiar de ser. A pedagogia se aparelhava da psicologia. Despontava a visão dialética, holística do homem. O aluno passava a ser visto no seu todo, compreendido e ajudado nos aspectos cognitivo, afetivo e psicomotor.

Surgiam frases de efeito, representativas da nova mentalidade: “o trabalho dignifica”, “liberdade com responsabilidade”, “educar é libertar”, “educar é um ato de amor”, “respeito às individualidades”, “só é mestre quem sabe aprender”...

Derrubava-se a muralha existente entre a escola e a comunidade. No lugar da rigidez, passou-se à flexibilização de atitudes e de conteúdo. O professor não mais impunha, ao aluno, seu planejamento --  agora elaborado de modo interdisciplinar --  ao contrário, planejava com a sua colaboração,  observando  o  nível  da  classe, respeitando o seu ritmo e sua potencialidade. Dialogava, construía o conhecimento juntamente com ele, considerando-o um ser capaz de criar, o agente da aprendizagem. Entre as técnicas de ensino, a  pesquisa, com  a  utilização estimulada  das  bibliotecas,  era  de primordial importância.A avaliação, antes centrada no aluno, passou a ser de mão dupla, centrada, também, no professor, com a conceituação não mais de medir, de reprimir, mas de verificar o crescimento do aluno. Uma avaliação que proporcionasse verificar a evolução da maturidade do aluno, num progresso gradual e constante.

A comunidade passou a ser chamada a participar do plano escolar, a esclarecer-se e acompanhar o desenrolar das atividades-meio e atividades-fim. A Escola tornou-se mais aberta, mais humanizadora, menos soberana.

Seus grandes princípios continuam bastante atuais, compreensivelmente, com ajustes aperfeiçoados ou complementados pelas exigências de adaptação aos avanços tecnológicos e conseqüente transformação social.

Foi, sem dúvida, a grande semente didático-pedagógica e democrática, lançada na rede do ensino oficial do estado de São Paulo. Com o tempo e seu amadurecimento, esses princípios culminaram no processo atual de ensino-aprendizagem, no qual ressaltamos: a formação de ciclos no ensino fundamental, a diversificação das maneiras de classificar e reclassificar os alunos  da educação básica e a reiterada afirmação do método construtivista.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em abril 2000)