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OS PRIMEIROS PASSOS DO MAGISTÉRIO

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Izabel Sadalla Grispino *

Semana passada, participei de uma colação de grau de formandos do magistério. Fui solicitada a falar aos formandos e na oportunidade, junto às minhas felicitações, lancei reflexões a respeito do papel do professor. Considero oportuno passá-las a uma gama maior de professores, razão pela qual publico-as aos meus prezados leitores.

“Vocês, bravos formandos, me passam uma imagem bela de Brasil, imagem que me anima, de força viva, de confiança nos destinos desta terra. Vejo, em vocês, uma laboriosa colméia, abelhas produtivas, que irão espalhar, nesta terra, o saber, a grande arma da desigualdade social. Essa etapa, por vocês vencida, a conclusão do curso normal, é importante, mas não pode se constituir em definitiva; deve, antes, servir de trampolim para cursos mais avançados. O diploma do curso normal não tem o peso que tinha no passado; hoje, ele precisa ser complementado por um curso superior.

O governo anunciou, recentemente, ao lado da implantação dos Institutos Superiores de Educação, com a criação do Curso Normal Superior, um curso a distância de formação de professores em nível superior, justamente para os que têm dificuldades em freqüentar uma universidade. A avaliação nacional da educação básica , o Saeb, do ano passado, revelou uma considerável perda na qualidade do ensino, por isso, a idéia, para tentar reverter esse quadro, é oferecer um Curso Normal Superior a distância, para prefeituras e redes estaduais de ensino. Deverá ser lançado, ainda, um programa específico de formação de professores alfabetizadores, visto ter o MEC constatado que os atuais professores não aprenderam a alfabetizar os alunos.

É preciso, realmente, continuar a estudar quem quer se colocar no mercado de trabalho. Não há escolha, a época exige qualificação, trazendo, para tal, forte concorrência, premiando os melhores preparados. Vocês vão começar dar os primeiros passos no magistério, enfrentar a primeira classe, a primeira realidade profissional. Entrem com amor, com muito cuidado, com muita responsabilidade. De vocês dependerá a formação produtiva ou improdutiva da vida. Vocês irão trabalhar caráter, ilustrar inteligências, ajudar a criança se transformar num adulto saudável, realizado. Sua matéria-prima será o elemento humano, necessitado de compreensão, de atenção, de carinho. Em Pedagogia se diz que quando o professor conquista a confiança do aluno, quando fala, a ele, a linguagem do amor, esse professor tem, praticamente, a sua aprendizagem garantida.

Muita atenção, pois, à desumanização, ao preconceito. Não se deixem guiar pela aparência, pelo aluno vem vestido, bem nutrido. Tenham um olhar de preocupação pelo maltrapilho, pelo “sujinho”, de unhas sujas, de dentes mal escovados. Se querem atuar com consciência, com eqüidade social, são esses, verdadeiramente, os que mais precisam de vocês. São neles que vocês deverão exercer a solidariedade, o amor ao próximo. Pensem na missão que é a de educar, reflitam sobre suas expectativas, seus valores e em que condições vocês colocam a pobreza.

Constata-se que as crianças de classes baixas, geralmente, não produzem bons resultados na escola. Por que? É possível que a criança vá mal por que é isso que se espera dela. A pessoa passa a se desacreditar, quando se desacredita dela. Estudos realizados sobre o efeito das expectativas de professores, no rendimento escolar do educando, vieram comprovar a hipótese de que alunos conseguem resultados consideravelmente melhores quando seus professores esperam mais deles, quando os olham como alguém que pode.

É famoso, entre os educadores, o experimento realizado por Rosenthal e Jakobson. No começo do ano letivo, estes pesquisadores fizeram com que os professores, de uma escola, acreditassem que alguns de seus alunos teriam condição de apresentar grandes progressos. Os professores supunham que estas predições estavam baseadas em testes que haviam sido realizados com os alunos. Mas, na verdade, os alunos indicados foram escolhidos ao acaso, aleatoriamente, entre o grupo classe e não a partir de qualquer resultado nos testes. Apesar disso, os testes de inteligência aplicados, depois de vários meses, indicaram que, no conjunto, as crianças escolhidas ao acaso, tinham progredido mais do que as outras.

Experimentos como esse colocam em evidência a importância das percepções, dos valores que se têm sobre os alunos que estamos ensinando e avaliando no dia-a-dia escolar. Quanta inteligência se perde, deixa de se desenvolver por preconceito, por descaso, por falta de entrega dos professores, especialmente, os das primeiras letras. Iniciam-se, aí, as injustiças que irão se perpetuar vida afora.

É preciso ter olhos para ver, coração para sentir. Um grande pensamento filosófico diz que devemos lutar pela igualdade quando a desigualdade é injusta e lutar pela desigualdade quando a igualdade fere, machuca.

Entramos na era do conhecimento e a ordem do dia é a educação continuada. Para ser um bom professor é preciso estudar, ter competência para bem atuar. Hoje, a disciplina contextualizada conduz o professor à observação direta da realidade do aluno, à sua valorização. O professor precisa abranger a cultura viva do dia-a-dia e ao mesmo tempo deve ter a capacidade de deslocar-se da realidade próxima para a realidade distante, global, ter o olhar local, partindo para o olhar geral, ser “fundamentalmente particular e fundamentalmente universal”, como nos ensinou o educador paulista Antonio Severino.

Mais que toda organização curricular, mais do que programas bem elaborados, são os professores que, no contato direto com os alunos e suas famílias, vão, em última instância, ser os responsáveis diretos pela ação educativa. O currículo oficial, elaborado por teóricos, é sempre uma expectativa que, normalmente, não se alcança, porque a forma como o conteúdo é transmitido depende das condições do ensino, da boa formação do professor e da estrutura da escola, quase sempre deficitárias. É preciso ter escola e professor em condições de executar o currículo proposto, com capacidade de torná-lo acessível aos alunos.

Só a educação empurrará o Brasil para o crescimento econômico, para o desenvolvimento social. Vamos amparar, dar suporte, dignidade aos nossos professores, porque deles depende a grandeza ou a pobreza da pátria.

Boa sorte a vocês formandos, coragem para a luta, destemor e que Deus os acompanhe na escalada que ora se lhes inicia”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2000)