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O NÚMERO CRESCENTE DE ANALFABETOS FUNCIONAIS

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Izabel Sadalla Grispino *

A síntese do IBGE, do início do ano, chama a atenção para o elevado número de analfabetos funcionais. Refere-se a pessoas com mais de 15 anos, que estudaram menos de quatro anos e têm dificuldades para entender um simples texto, um manual de orientação. São incapazes de usar o que aprenderam na escola, de usar a leitura, a escrita, a matemática, em situações do cotidiano.

Os poucos anos de escolaridade não os tornaram capazes de assimilar e desenvolver habilidades práticas, desenvolver a capacidade de compreender e interpretar textos. Chegam, no total do País, a 29%, sendo que na região nordeste atinge 46%, no Estado do Piauí passa de 53% e, na região rural da Bahia,  chega a 73%, emperrando o desenvolvimento econômico desses Estados.

Até os anos 60, considerava-se alfabetizada a pessoa que sabia ler e escrever, ao nível necessário do seu convívio social. A partir dessa data, surge um novo conceito de alfabetização, no qual o conhecimento está atrelado ao desenvolvimento de habilidades práticas, úteis ao cotidiano. Hoje, considera-se que há diversos tipos de alfabetização relacionados às habilidades desenvolvidas pelo indivíduo, habilidades que se refletem em sua capacidade de trabalho.

Um estudo realizado pela Unesco, no ano passado, em sete países latino-americanos, revela que os brasileiros têm, em média, um nível inferior aos chilenos e argentinos, no tocante ao analfabetismo funcional. Essa pesquisa foi realizada no Estado de São Paulo e, se fosse levado em conta o País todo, o resultado seria muito pior, observa a educadora Vera Maragão Ribeiro.

Nos exercícios de prosa, como na compreensão de um simples aviso, os brasileiros tiveram o pior rendimento entre os sete países: Argentina, Chile, Colômbia, México, Venezuela e Paraguai, incluindo o Brasil. O rendimento dos brasileiros em matemática foi semelhante ao de prosa e tem um índice que gira em torno de 0,05, ou seja, abaixo da média.

A pesquisa mostra que o problema é mais complexo do que as campanhas e os programas de alfabetização, concluiu Vera. “O desafio que se impõe continua sendo a falta de um ensino de qualidade”. As reformas do ensino, propostas pelo MEC, não estão chegando adequadamente às escolas e assim não processam as transformações desejadas. Idealizam-se grandes mudanças, mas esquecem-se de sua preparação no tocante à prática de ensino, esquecem-se da necessidade de trabalhar a mentalidade educacional do professorado, que muda bem mais devagar que os princípios inovadores. É preciso cuidar dos professores  se realmente se quer inovação.

A escola passa por uma crise no processo pedagógico; tem dificuldade em encontrar uma resposta técnica para os novos problemas trazidos pelos alunos, em decorrência da nova transformação social. Os problemas sociais se alastram, o ensino fundamental vem se universalizando, colocando na escola alunos dos diferentes extratos sociais. As salas de aula vão se avolumando, com superlotação e com falta de métodos apropriados para lidar com as classes numerosas.

O maior indicador dessa crise é a evasão escolar ou a aprovação generalizada, sem qualificação, mediante baixa exigência, perpetuando o analfabetismo funcional. Saber ler e escrever é o grande fator da integração e da comunicação entre os diversos níveis sociais. Diminuir a concentração de renda, tão marcante no País, manter a perspectiva de uma sociedade mais justa, passam, impreterivelmente, pela sala de aula.

A baixa qualificação do professor é um dos fatores que dificulta a melhoria do ensino, assim como o elevado número de alunos por classe. Um estudo realizado pela Unesco e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), comparando os indicadores de 47 nações, mostra que a formação do docente brasileiro está entre as piores, melhor apenas que a da China e da Tunísia. Mostra que apenas 22% dos professores do ensino fundamental têm nível superior e, no ensino médio, a taxa sobe para 56%.

O estudo conclui que a deficiente qualificação do professor somada a problemas de organização das escolas, às classes superlotadas e à elevada carga horária dos docentes, respondem pelo decadente nível das escolas públicas. Conclui, também, que os professores mais qualificados são os mais velhos.

O desencanto à carreira do magistério começa a impregnar os jovens. Há um certo descrédito quanto às políticas educacionais que não vêm prevendo a demanda futura. Ao descuidar, no presente, das condições efetivas de um bom trabalho docente, só fazem prejudicar as perspectivas futuras. De acordo com o estudo, no ensino fundamental, cada professor tem, em média, 34 alunos e no ensino médio, 39, quase o dobro da média dos países pesquisados, que têm 21 alunos por professor. O número excessivo de alunos, avalia o estudo, prejudica o trabalho do professor e, conseqüentemente, a qualidade do ensino.

A crise da escola pública vem se alongando, criando, nos jovens, uma imagem negativa, que buscam descartar o magistério como profissão. Esse fato começa a preocupar os estudiosos da educação, que prevêem uma possível falta de pessoal para lecionar, no dia de amanhã.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)