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FORMAÇÃO DEFICIENTE DIFICULTA A REFORMA DO ENSINO

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Izabel  Sadalla  Grispino *

Os preceitos contidos na reforma do ensino, louváveis, imprescindíveis à época, esbarram na qualidade dos recursos humanos, os responsáveis por sua aplicação.

Sabemos que o ensino ministrado nas escolas é muito mais o ensino organizado pelos professores, por sua forma de pensar, agir, por seu nível intelectual, do que aquele sistematizado pelos organismos centrais. O papel do professor é decisivo frente ao ensino efetivo, sem ele não há ensino, a melhoria desse ensino depende basicamente dele e não raro seu trabalho fica longe do declarado desejável.

Jean Piaget, em seu livro “Psicologia e Pedagogia”, diz: “ As mais perfeitas reformas ficam sem conclusão, se não há professores disponíveis, em qualidade e número suficientes. A psicologia infantil pode multiplicar os dados de fatos, multiplicar nossos conhecimentos sobre o mecanismo do desenvolvimento, esses fatos ou essas idéias não atingirão jamais a escola se os professores não os incorporarem até traduzi-los em realizações originais”.

É ilusão pensar que se atingirá tal domínio nas condições atuais. A deficiente formação dos professores é um grande obstáculo à reforma dos currículos. A posse do diploma de nível superior não representa garantia de uma formação de boa qualidade do profissional a quem cabe definir e colocar em prática o currículo real das escolas brasileiras. “Não adianta mudar o currículo no papel se a cabeça do professor também não mudar”, diz Elba de Sá Barreto, coordenadora da análise que a fundação Carlos Chagas faz das propostas curriculares. Demerval Saviani, um dos mais respeitados filósofos da educação do País, titular em História da Educação da Unicamp, diz: “É uma utopia discutir as mudanças das diretrizes curriculares, quando as escolas operam em condições precárias, com professores mal preparados”.

Nem cabe culpar o professor, ele também é resultado do debilitado e falho sistema educacional. Estaremos devotando a devida atenção ao docente? Estaremos valorizando suas atividades, melhorando seu salário, propiciando-lhe uma melhor qualidade de vida, criando condições de um real engajamento, um real compromisso com a educação pública? Num recente pronunciamento, Rose Neubauer, secretária da Educação do Estado de São Paulo, disse haver, ainda hoje, cerca de 6 mil professores não habilitado para o ensino médio. “O Estado perde professores de matemática e física para o mercado financeiro e de informática, e os de geografia, biologia e química para novas áreas do meio-ambiente, das indústrias e das ONGs”. Os professores evadem-se em busca de melhores salários. É histórico o sucateamento do nosso sistema educacional.

Quanto à qualificação, os cursos de reciclagem, oferecidos pelo sistema, não resolvem, são muito rápidos – duração em média de uma semana. O máximo que podem atingir é o objetivo da sensibilização, mas não o de formar conceitos. “Os cursos ligeiros de capacitação de professores podem titular as pessoas e não necessariamente qualificá-las. É preciso programação consistente para que eles sejam bem utilizados. A mudança de mentalidade de um professor é processo lento e difícil, como esperar que uma capacitação tão rápida seja eficiente?”, disse Antônio Joaquim Severino, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

O melhor seriam cursos mais extensivos com um ou dois representantes por escola, que os repassariam, como agentes multiplicadores, em suas unidades escolares, formando nelas um núcleo de apoio, atuando permanentemente. As reformas foram propostas como se a semente estivesse caindo em terreno fértil, preparado, pronto para o plantio. Foram lançadas numa rede escolar despreparada, sem condições de adubar o solo para conseguir a boa colheita. Aplica-se à estrutura do ensino a parábola evangélica, quando diz: “O destino das sementes depende do terreno”.

Não deveriam os órgãos centrais ter primeiro reciclado o professor, tê-lo posto frente aos novos conceitos, tê-lo estruturado, para depois implantar as novas proposições? Não estaríamos, agora, colhendo um resultado mais promissor, mais consistente? Do modo como o ensino se processa, não há como esperar um trabalho por inteiro, mas, sim, diluído, permeado por remendos, por colchas de retalhos.

Educação é um processo a  médio e longo prazos. Os primeiros passos são, como se sabe, os mais difíceis, mas, também, os mais importantes. São os que dão segurança para os passos subseqüentes. Pular etapas provoca desequilíbrio tanto para quem aplica como para quem recebe a aprendizagem. Lançar fórmulas, sem antes elucidá-las, é cair em desestruturação, em discordância à necessária mudança de comportamento de futuros profissionais, que ficarão desajustados, perdidos entre o que lhes ensinaram e o que deveriam ter aprendido. A escola, nessas condições, não tem como cumprir a função de processar as profundas transformações das relações sociais e de trabalho.

Essas observações vêm confirmar a preocupação, hoje, do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em melhorar a formação dos professores do ensino médio para que possam acolher com mais propriedade a reforma pretendida desse ensino. A crescente procura pelo ensino médio “aumentou a preocupação do governo com a capacitação dos professores que vão atender a demanda”, disse Rui Berger, secretário de Educação Média e Tecnológica do MEC. Idealizam-se projetos para a capacitação de professores em exercício, por meio de ensino a distância, “destinado a dar condições aos educadores de elaborar um programa ou dominar itens do currículo”, complementou Rui Berger.

A reforma do ensino exige qualificação, competência profissional. Tem-se que investir na formação continuada do professor. Tem-se que melhorar o ensino universitário, lugar que se situa a fonte, onde o professor beberá a água que regará a semente fertilizadora do terreno educacional.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2000)