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EXCLUSÃO E FATOR ECONÔMICO

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Izabel Sadalla Grispino *

A destruição dos valores sociais vem criando o comportamento de que “tudo vale” para se alcançar o objetivo. Abraça-se o conceito de que “ninguém presta”, de que é preciso ser mais esperto que o outro, mais “competente”, para não ser passado para trás.

Nessa conjuntura, surge o que está sendo chamado de “terceira vertente da criminalidade”. Essa vertente se diferencia da criminalidade baseada, por esse modelo econômico, nos excluídos sociais. Abrange uma terceira categoria, daqueles que crêem que ninguém presta, de que, em tese, todos são bandidos. Gera-se um comportamento de malandragem, de desconfiança generalizada, onde ninguém acredita em ninguém. A moral vai se deformando, surgindo os “deformadores morais”, que julgam ter o direito de roubar, matar: “Seu eu não fizer primeiro, o outro fará por mim”.

O indivíduo assume a postura de bandido, é bandido declarado, “tem lado”, conforme sua expressão. O pior, segundo se constata, é que, agora, o jovem bandido não é mais recriminado pelos pais, como sempre foi. Os pais, também, foram convencidos de que ninguém presta. Essa característica confirma-se pela presença considerável de pais, de familiares, de amigos, em visita aos presidiários, que lá vão para hipotecar solidariedade e, certamente, levar-lhes informações. Quando interrogados por policiais, por repórteres, se viram alguma coisa, se sabem de alguma coisa, eles se calam, ninguém viu nada, ninguém sabe nada e isso não é apenas por medo, mas por aceitar o crime. O traço assustador é que, segundo pesquisas, eles se mostram convencidos de que estão certos e que não vão mudar. A personalidade deformou-se! O caráter contamina, o crime contamina!

O que espanta é a confusão mental em que os jovens se mergulham, a incapacidade de retornar a um rumo coerente, com força para enfrentar uma realidade social cada vez mais assustadora e fora de controle. Será que nesses casos a cadeia resolve? Resolve a aplicação integral da pena em regime fechado, como querem alguns? Os adeptos dessa solução citam como fulcro do problema as brechas da legislação penal, incluindo a Lei de Execuções Penais, que a consideram benevolente, e o falho sistema prisional.

Creio que se possa pensar nesses recursos como estratégia imediata ou coadjuvante. Sou mais adepta à universalização de uma educação aprimorada, voltada para o humanismo, para a face solidária da vida. Ensinar aos jovens o respeito ao outro, o respeito aos valores éticos, respeito aos direitos e deveres do cidadão, como fala a nossa Constituição.

As verdadeiras causas do comportamento anti-social estão na raiz de uma deformada educação ou de ausência de educação. Estão na própria estrutura social, na pirâmide educacional, que deixa em suas bases uma imensa população analfabeta ou semi-analfabeta, arrastando-se, em conseqüência, para a marginalidade. Estão no desemprego, na desigualdade social. É necessário criar escolas, frentes de trabalho, quebrar os cinturões de miséria das favelas, substituí-los por núcleos de empregos, melhorar a qualidade de vida, providenciar o saneamento básico.

Felizmente, vem surgindo uma nova mentalidade, em relação à massa ociosa e que muito pode contribuir para minorar a situação. Ela vai além da compaixão, reveste-se de uma concepção pragmática, onde o lucro é parte importante. Entendem as empresas que essa ociosidade é prejudicial ao comércio, à vida produtiva do País, que, financeiramente, é conveniente preparar, habilitar os excluídos, arrebanhá-los para o setor econômico. Eles podem significar dividendos e, sob esse prisma, aproveitados. A caridade sozinha não atinge o alvo, mesmo porque num mundo competitivo é difícil o exercício da solidariedade.

O capitalismo moderno luta contra a marginalização social, envolve-se nessa luta, que não é vista como caridade cristã, mas como lucro, que advém da eficiência, da competência. O capitalismo parece estar encontrando motivação racional para o aproveitamento dos excluídos, mirando-lhes lucro.

Por essa via, a ação social, de assistência aos marginalizados, torna-se viável e um caminho que promete. O que se quer é preparar o indivíduo para que tenha domínio de seu campo de trabalho, de suas habilidades.

Esse novo conceito leva o empreendedor a dar reforços ao seu empreendimento. A empresa aplica o termo lucro, não no sentido de obter vantagem, tirar proveito, mas no sentido de lucro pela proficiência. Por esta concepção, as empresas voltam os olhos para as necessidades da sociedade, prestam contas dos lucros sociais conquistados por elas. Lucros que a sociedade confere por conta de projetos empreendidos, como apoio à educação, à saúde, às artes, à cultura em geral, ao esporte, ao lazer, especialmente, para crianças e idosos.

Empresas há que ultrapassam o critério de vínculo empregatício, alargam o conceito de cidadania e estende-o ao tempo dedicado  à  coletividade.  São  as  empresas-cidadãs que investem no benefício coletivo, sem auferir lucros financeiros, entendendo que pagam, desse modo, a sua dívida social.

Do ponto de vista econômico, essa equação atenderá os excluídos, aumentará a produção, reduzindo, quem sabe, significativamente, a desigualdade. Sempre há uma luz no fim do túnel, basta não ignorá-la e ir buscá-la. Sonhar é preciso. Acreditar que virá a reviravolta, que o mundo retornará ao seu princípio de simplicidade, mais igual, mais humano e mais próximo de Deus.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em outubro 2005)