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Artigos Educacionais

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A ESCOLA FRENTE AO “EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO” (ENEM)

Izabel Sadalla Grispino *

Para dar boas respostas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a escola precisa aprender a desenvolver nos alunos habilidades e competências, no seu processo de ensino-aprendizagem. Aprender a colocar a formação acima da informação, fazer do aluno um cidadão participante consciente. Desenvolver-lhe a capacidade de raciocinar, de interpretar, de interferir na realidade, de resolver os problemas do dia-a-dia.

O aluno, ao construir o próprio conhecimento, ao partir da observação, da manipulação, da pesquisa, da análise, vai vivenciar o conceito ao invés de recebê-lo pronto. Vai internalizar, chegando com mais profundidade ao conhecimento.

A escola deve realizar um currículo com conteúdos contextualizados, próximos da realidade do aluno, e trabalhados de maneira indisciplinar, em conteúdos interligados. Deve ter presente que o objetivo do Enem é medir habilidades e não conteúdo, é processar uma avaliação interdisciplinar.

A título de informação, o Enem do ano passado foi interdisciplinar, apoiou-se em interpretações de textos, aferiu mais compreensão que conhecimento específico. O exame exigiu conhecimentos usados no cotidiano. Não exigiu do candidato muitas contas, mas que ele fosse capaz de aplicar o raciocínio. Não pediu fórmulas. Trouxe questões do dia-a-dia que estão nos jornais: analfabetismo, clonagem, vacinação, cadeia alimentar, ecologia e reciclagem de materiais foram as bases das questões de biologia. A redação teve como tema: “Cidadania e participação social” (o engajamento e a participação social do jovem.

Quanto à inscrição dos candidatos, orientá-los de que a mesma deve ser feita em qualquer agência dos Correios, munidos de um documento original de identidade, com foto. Ele preencherá uma ficha de inscrição no próprio local e pagará uma taxa estipulada, no momento, pelo MEC (com exceção dos alunos carentes). A inscrição pode ser feita em uma cidade e a prova em outra, bastando indicar, no formulário, o código do município desejado. Pode ser feita, também, via procuração.

De acordo com Maria Helena Guimarães de Castro, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC), o Enem avalia cinco competências e 21 habilidades gerais desenvolvidas pelo aluno ao longo da Educação Básica. Cada habilidade é medida por meio de três questões e a nota da prova objetiva, numa escala de 0 a 100, é atribuída a partir da avaliação de cada uma das cinco competências, que são as seguintes:

-- Domínio de linguagens: demonstrar domínio básico da norma culta da Língua Portuguesa e das diferentes linguagens.

-- Compreensão de fenômenos: construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.

-- Enfrentamento de situações-problema: selecionar, organizar, relacionar e interpretar dados e informações para enfrentar situações-problema com vista a tomadas de decisão.

-- Construção de argumentações: organizar informações e conhecimentos disponíveis em situações concretas para desenvolver argumentações consistentes.

-- Elaboração de propostas de intervenção na realidade: recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas criativas, considerando a diversidade sociocultural como inerente à condição humana no tempo e no espaço.

Com esta propositura, o Enem afasta a decoreba, derruba o hábito da cola de que tanto a escola se ressente. Reforça a interdisciplinaridade e a contextualização. Esses dois conceitos, no ensino médio, levarão à confecção de livros didáticos orientados mais para a história do contexto, remetendo ao uso de jornais e revistas no dia-a-dia do ensino. “Dificilmente, um livro poderá ser destinado a uma série específica, porque os conteúdos estarão muito relacionados. A liberdade de a escola dividir os 3 anos do curso, em séries ou módulos, impedirá a edição de livros para cada uma das séries, como ocorre hoje. A tendência é que as editoras ofereçam livros para o ensino médio, nos quais estarão os conceitos básicos, que serão tratados em sala de aula de forma diferentemente, de acordo com o nível escolar”, esclarece Ruy Berger, secretário da Educação Média e Tecnológica do MEC.

O “Exame Nacional do Ensino Médio” (Enem) é  uma   indicação  de como será o processo educacional nos próximos anos. Ele segue a atual tendência de ensinar os alunos como usar todas as informações aprendidas no dia-a-dia, na interpretação de informações e na situação de problemas.

Os modelos educacionais vêm sofrendo mudanças. As escolas mudam o foco do ensino, que dava ênfase à memória para contemplar a autonomia dos alunos na aprendizagem, dar-lhes uma maior compreensão de seu cotidiano, fazê-los capazes de tomar decisões e tornar-se mais aptos ao convívio social. Essas são, hoje, as principais tendências do ensino que deverão consolidar-se na próxima década.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

CURSOS PROFISSIONALIZANTES

Izabel Sadalla Grispino *

Hoje, dizemos que emprego e escolaridade andam juntos, especialmente se o ensino for profissionalizante. Escolaridade com qualidade, quanto maior, maior a facilidade de colocação. Se com ela a dificuldade de emprego existe, imaginem sem ela!

Os avanços nos setores da economia são contínuos. O tempo não pára e precisa de profissionais cada vez mais habilitados. Sob esse prisma, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) oferecem, com vantagens, cursos rápidos, atualizando o conhecimento, proporcionando a colocação no mercado de trabalho, e contam pontos se o certificado do pretendente for emitido por essas instituições.

Esses Sistemas fazem sondagens periódicas das carências ocupacionais de trabalhadores flexíveis. O Senai vem investindo em cursos modulares para uma profissionalização segmentada e contínua, onde o trabalhador entra em sua área de interesse e especializa-se aos poucos.

Nas telecomunicações, o Senai, por exemplo, forma especialistas em manutenção de equipamentos. No setor automobilístico, notou a exigência por profissionais que atuassem da mecânica à parte elétrica, passando por questões administrativas, como orçamentos e trato com os clientes e criou cursos a respeito.

Um outro dado marcante no mercado de trabalho é a possibilidade de mulheres encontrarem serviço em segmentos antes fechados a elas. Pela constatação do Senai, a área gráfica é um setor que está abrindo as portas para as mulheres, por seu poder de concentração e perspicácia visual. Assim, os cursos do Senai, onde se aprende tudo sobre impressão, os cursos de manutenção de computadores e o hotel-escola, que forma garçons e cozinheiros, englobam os dois sexos.

O setor de Alimentos incentiva, também, a entrada da mulher, sobretudo as formadas em confeitaria e salgado. Excluindo panificação e sorveteria, em que o aprendizado é com equipamentos industriais, os demais cursos de Alimentos do Senai dão chances a quem quer trabalhar por conta própria, abrindo o próprio negócio. São cursos práticos, que incluem no currículo a aprendizagem de detalhes como avaliação da matéria-prima, rendimento, diminuição de desperdício e custo-benefício.

Os cursos profissionalizantes, mesmo curtos, têm um custo, mas, segundo consta, de retorno rápido, logo nos primeiros meses de trabalho. Alunos dos cursos de cabeleireiro, depilador, cozinheiro e garçom têm, praticamente, suas vagas garantidas, mesmo antes de se formarem, confirma o assessor técnico de educação do Senac, Francisco Cordão. Os pretendentes aos cursos profissionalizantes têm uma gama a escolher, de acordo com suas preferências, seus gostos e obter assim mais facilmente o sucesso.

O curso Noções de Mecânica está sento bastante procurado. Ajuda a conquistar vaga como operadora de telemarketing, em montadoras de carros, seguradoras e prestadoras de socorro mecânico. Esse mesmo curso, aliado a outros dois módulos – Motor Automotivo e Sistema de Alimentação – feito em 3 semanas, em período integral ou em 2 meses no período noturno,  forma  para  atuar em oficinas mecânicas. O aluno poderá estender a formação, reunindo Noções de Mecânica, Supervisão e Freio para trabalhar no balcão de distribuidoras de autopeças e ganhar à base de comissão de vendas.

Ultimamente, tem, inclusive, aumentado a preferência dos empregadores da área automobilística por mulheres. Um outro curso que vem empregando mulheres é o de Controlador Lógico Programável, de 40 horas, e capacita a atuar na linha de montagem de circuitos eletrônicos, num trabalho superminucioso.

Outros cursos são oferecidos, como o básico de Informática do Senai, com 72 horas e Windows,  Word e Excel no currículo. Com este certificado, o profssional está apto ao curso de Web Designer de 50 horas, com emprego inicial em torno de mil reais.

O interessante do Senai e do Senac é a sua ligação com o empresariado, permitindo-lhes manter quadros permanentes com ofertas de emprego. Há cursos, em áreas que vão de mecânica de automóveis à indústria de turismo, oferecidos gratuitamente.

Existem parcerias entre essas duas instituições, Senai e Senac, com a Secretaria do Estado da Educação em cursos profissionalizantes. Pelo Programa Profissão, o governo adquiri vagas do Senac, Senai, Centro Paula Souza e Escola Técnica Federal. Por esse Programa, o jovem continua estudando, consegue um bom emprego, podendo, depois, cursar uma faculdade. Os alunos inscrevem-se nas escolas onde estudam e o critério de seleção tem sido a assiduidade às aulas durante o ensino médio.

Neste ano de 2002, um outro projeto da Secretaria da Educação passou a oferecer 9 mil vagas de estágios nas próprias escolas da rede. São escolhidos três alunos que cursam o ensino médio em cada escola para trabalharem como monitores nos laboratórios de informática e recebem meio salário mínimo.

Senai e Senac são instituições de ensino profissionalizantes que fazem a diferença.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em outubro/2002)

CRIANÇA HIPERATIVA

Izabel Sadalla Grispino *

Múltiplas são as funções da escola. Educar para a vida todas as crianças que acolhe em sua instituição é para ela um desafio, que se acentua pela complexidade que resulta da diversidade que marca a clientela escolar. A escola precisa compreender e atender os alunos em suas diferentes especificidades.

Educar, atendendo as diferenças individuais, requer muita dedicação, habilidade, competência e predisposição ao trabalho educativo. Vejamos o caso de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), uma doença infantil conhecida apenas por hiperatividade.

Os sintomas das crianças hiperativas podem ser observados desde os primeiros anos de vida. Segundo recentes estudos, mães de crianças hiperativas relatam que seus filhos se mexiam muito, mesmo antes do nascimento, sentiam uma certa agitação da criança no útero materno.

As escolas confirmam seu diagnóstico conversando com as mães. Desde pequeninhas, essas crianças mostram-se irritadiças, choram muito nos primeiros anos de vida e apresentam sono agitado. São crianças que precisam de vigilância redobrada, expõem-se, constantemente, a riscos de acidentes. Elas quebram, com freqüência, seus brinquedos, perdem rapidamente o interesse por brincadeiras ou situações, necessitando, sempre, de novos estímulos.

Muitas mães chegam a se queixar de esgotamento. São crianças indisciplinadas, problemáticas, por vezes, avoadas e malcriadas. Em determinados momentos parecem estar “no mundo da lua” e têm seus relacionamentos agravados pela impulsividade.

Quando o hiperativo vai à escola, a situação se complica. Ele dá muito trabalho, tem grande dificuldade de permanecer no lugar, agita pés e mãos em demasia, corre ou fala demais, não respeita os momentos da aprendizagem. Chamar a atenção, castigar, não resultam efeito, ao contrário, geram conflitos nas relações pessoais.

A hiperatividade é mais freqüente no gênero masculino e os estudos mostram influência dos fatores genéticos. Vem demonstrando que o hiperativo apresenta essa característica ao longo da vida, com acentuadas melhoras se atendido corretamente em termos comportamentais, educacionais, ambientais e, quando necessário, medicamentosos.

A hiperatividade é uma doença que causa, pela constante agitação, pela dificuldade de concentração e instabilidade emocional, transtorno à aprendizagem. Os psicólogos a definem como doença neuropsiquiátrica, que traz dificuldade de atenção, de percepção, planejamento, organização, com falhas de comportamento. A criança se distrai com tudo, não consegue avaliar o que é mais importante, porque o cérebro trabalha mais lentamente.

Aconselha-se aos pais que a encaminhe a um tratamento que, geralmente, envolve a administração de medicamentos estimulantes, para que o cérebro volte à atividade normal, diz o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, do Hospital das Clínicas da USP/São Paulo.

Escolas despreparadas para lidar com o problema agravam a situação. Precisam utilizar-se de uma metodologia específica, com professores treinados para trabalhar com o quadro hiperativo.


* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em março/2007)



 

 

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO FAVORECENDO A INCLUSÃO

Izabel Sadalla Grispino *

A novela “América” abordou com propriedade e sensibilidade o tema do deficiente. Colocou como um dos protagonistas um deficiente visual, o “Jatobá”, um ser inteligente, que se supera a cada passo, servindo de exemplo e encorajamento na luta pela realização pessoal. Traz constantes inserções do programa do Dudu Braga, “É Preciso Saber Viver”, onde derruba preconceitos, entrevistando deficientes das diferentes áreas, pessoas dotadas de rico potencial e que encontraram ambiente de compreensão e ajuda no desenvolvimento de seus talentos.

A novela vem abrindo a mente, a aceitação, modificando a visão sobre os deficientes. Visitando escolas, conversando com professores, percebi um novo entusiasmo pelo ensino da educação especial.

Já escrevi vários artigos sobre a inclusão do deficiente no ensino regular. Contudo, esse novo olhar me leva a reforçar e a delinear os benefícios já adquiridos pelos portadores de deficiência, que devem nortear consciências e ser estendidos a mais pessoas.

O Brasil vem avançando quanto ao direito da escolaridade das crianças deficientes. A política oficial, já há algum tempo, desde 1996, prevê a inclusão dos portadores de deficiência, na rede regular de ensino. Em agosto de 2001, o então ministro da Educação Paulo Renato Souza, regulamentando a Lei de Diretrizes para a Educação Especial, assinou resolução pela qual as escolas públicas do País deveriam atender estudantes com necessidades especiais.

Essa foi, contudo, mais uma mudança, na estrutura do ensino, imposta a uma rede pública desaparelhada, despreparada para recebê-la. Não se pode esquecer que para se obter sucesso é preciso dar estrutura de aprendizagem, fazer uma inclusão responsável, para não comprometer o avanço dos alunos portadores de deficiência. É muito importante treinar os professores, capacita-los, produzir material de apoio, assim como adaptações de títulos didáticos para o sistema braile. As escolas devem possuir as chamadas salas de recurso equipadas, para facilitar a aprendizagem e possuir professor de braile.

No cumprimento das normas legais, é importante conhecer os seguintes procedimentos:

– A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, no seu art. 4.º, inciso III, definiu como dever do Estado a garantia de atendimento especializado gratuito aos educandos “com necessidades especiais, preferencialmente, na rede regular de ensino”. Sendo na rede regular de ensino, o educador deve receber a capacitação necessária para esse atendimento, lembrando que a política de inclusão exige um professor treinado, capacitado.

– A Lei 7.853, de 1989, obrigou o Estado a apoiar os portadores de deficiência em sua integração social. Leis e decretos definiram normas gerais e critérios básicos para o atendimento às pessoas deficientes. Criou-se, no Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência.

– Através do Decreto 3.956, de 2001, foi ratificada a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiências.

– A Câmara do Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação (Parecer 2/01) definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Especial e o Parecer 17/01 estendeu essas diretrizes para toda a Educação Básica.

– A Lei de n.º 8.213/91 prevê a obrigação de contratar deficientes e abrange empresas com mais de 100 empregados. As cotas variam de 1 a 5% do quadro de funcionários, de acordo com o tamanho das mesmas. Essa obrigação já tem mais de 10 anos, mas sua regulamentação só veio em 1999. Uma ação articulada, em 2004, da Delegacia Regional do Trabalho (DRT/SP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT), trouxe resultados consideráveis quanto ao aumento da contratação.

– Uma resolução de 2003, aprovada pela Assembléia Parlamentar do Conselho Europeu, que agrupa 44 países do continente, determinou que a linguagem dos sinais utilizada pelas pessoas surdas seja reconhecida oficialmente como idioma. O reconhecimento, feito através da inclusão dessa linguagem na Carta das Línguas Regionais e Minoritárias, dá-lhe status de “idioma sem nacionalidade”

O exemplo avança e no resto da Europa há a preocupação de introduzir a língua de gestos nas escolas. Na Irlanda, Reino Unido, França, Espanha, Grécia e Portugal, as autoridades de ensino adotaram programas para estimular professores a aprender a língua dos sinais e a promover a formação de intérpretes.

Esse comportamento deveria se estender a todos os continentes do planeta. As escolas deveriam abraçar, com entusiasmo, a aprendizagem da língua dos gestos, repassá-la aos seus alunos, introduzindo solidariedade e humanização no ambiente escolar.

Deve-se ter conhecimento dos procedimentos para poder aplicá-los. É preciso cumprir na prática o que essas leis determinam; caso contrário, fica no papel e não na realidade.

Que o entusiasmo do momento se fortifique, forme consciência conclusiva e que a escola inclusiva se torne portadora de esperança, de realizações, de concretizações de vida útil aos estudantes portadores de deficiência. Os Jogos Paraolímpicos reforçam o conceito de valorização ao aluno com necessidades especiais. Esses jogos têm demonstrado o quanto esses jovens são capazes, em termos de concentração, de raciocínio, de superação de si mesmo.

Dar apoio que necessita, observar o ritmo, as características de cada aluno, incentivá-lo à participação, são conceitos-chave para o desenvolvimento do potencial do aluno deficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2005)

A CASA COMO ESCOLA DOS FILHOS

Izabel Sadalla Grispino *

Atinge as esferas judiciais e educacionais a discussão sobre a possibilidade de os pais ministrarem, aos filhos, o ensino em casa, sem que tenham que ir à escola e freqüentar a sala de aula. A mídia tem noticiado casos em que pais tentam, através de mandado de segurança, garantir, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o direito de educar os filhos em casa e levá-los a uma escola determinada apenas para realizar as provas, a fim de submeter-se à avaliação escolar.

A FORMAÇÃO DO NOVO CURRÍCULO

Izabel Sadalla Grispino *

Fui solicitada a escrever sobre a formação do novo currículo do Ensino Fundamental e Médio.

A nova concepção de currículo traz uma nova concepção de escola, requerendo mudanças profundas nas metodologias de ensino. A velocidade das inovações, trazidas pela época presente, faz com que a escola aplique o conhecimento em situações do cotidiano, articulando teoria e prática no ensino de cada disciplina. Com o acesso às informações – mesmo as mais sofisticadas estão disponíveis na internet – o papel do professor mudou radicalmente. Sua função essencial agora é a de “desafiar o aluno para que ele consiga hierarquizar e organizar de forma crítica as informações às quais tem acesso”, palavras do ministro Paulo de Souza.

Tomaremos o termo currículo no seu sentido restrito, da relação de conteúdos e da forma como são tratados – currículo pleno é a escola toda em funcionamento. A escola, de todos os níveis, passa por significativas mudanças, que incluem, prioritariamente, alterações da estrutura curricular de todos os seus cursos. O conceito de currículo mudou; tem como maior característica a flexibilização, À rigidez dos currículos engessados, surgem os currículos flexíveis diversificados.

O currículo de todos os níveis de ensino terá uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com “as características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB).

A reforma regulamentou o dispositivo da LDB, que aumentou de 180 para 200 dias o número de dias letivos no sistema de ensino do País, com a exigência de 800 horas por ano. “A jornada escolar do ensino fundamental incluirá, pelo menos, 4 horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola”. Com esse acréscimo, a carga horária mínima no ensino médio passou de 2.200 para 2.400 horas, divididas na base comum e na parte diversificada. O aluno terá que cumprir 75% da nova carga horária – 1.800 horas – com as disciplinas tradicionais, a base comum, e poderá escolher o enfoque dos 25% -- 600 horas – da parte diversificada. Cada estabelecimento de ensino poderá escolher, entre as disciplinas, 4 ou 5 opções para cumprir a parte diversificada. Poderá intensificar, nesta parte variada, a preparação para o vestibular ou a preparação para o mercado de trabalho ou aprofundar em áreas específicas, como arte, secretariado... O aluno, que optou por um módulo no 1.º ano, poderá mudar de idéia no 2.º, sem prejuízo das disciplinas cumpridas.

As escolas não recebem mais uma grade curricular básica para todo o País, com os nomes das disciplinas e número de horas. Recebem as diretrizes curriculares básicas – áreas do conhecimento – iguais para todo o território nacional, que darão as grandes linhas, para que cada escola elabore seu projeto pedagógico e que dirão quais as competências e habilidades que o aluno deve ter no final do curso. Compete à escola indicar os parâmetros do resultado que se espera do aluno no término do curso, uma vez que o MEC definirá, apenas, as habilidades e as competências a serem alcançadas.

No ensino médio, a heterogeneidade dos alunos, especialmente quanto à idade e classe social, vai criar, pela flexibilização,  muitos tipos de ensino na forma de organizar o currículo.

Não é mais o aluno se ajustando à escola, mas esta se adaptando para receber o aluno e motivá-lo a aprender.

As escolas incluirão no currículo as áreas do conhecimento,  mas  a  forma  de como serão aplicadas ficará por

conta dos sistemas de ensino. É a escola quem irá escolher a forma de organizar tanto a base comum quanto a parte diversificada.


A maior liberdade conferida à escola não vai dificultar o processo de transferência do aluno de uma escola para outra, porque ela será feita baseando-se nas competências e habilidades definidas nacionalmente e iguais para todas as escolas.

ENSINO FUNDAMENTAL – A Câmara de Ensino Básico determinou as diretrizes  a serem seguidas na formulação do currículo, indicou as áreas do conhecimento, já habituais – língua portuguesa, matemática, história, geografia, ciências naturais, artes e educação física e os temas transversais – que a escola deve considerar. As áreas de conhecimento tradicionais devem ser relacionadas aos “aspectos essenciais da vida do cidadão”, como ética, saúde, meio-ambiente, sexualidade, pluralidade cultural, vida familiar e social. A grande novidade no currículo do ensino fundamental é a inclusão desses novos temas, a serem trabalhados, associados às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental”, que dizem: “A escola deve abrir a oportunidade para que os alunos aprendam sobre temas normalmente excluídos e deve atuar propositalmente na formação de valores e atitudes”.

A LDB, nos artigos 26, 27 e 28 com seus parágrafos e  incisos, coloca a fundamentação para a elaboração dos currículos do ensino fundamental.

ENSINO MÉDIO – Quanto  ao seu currículo, a base nacional comum será organizada em torno de três grandes áreas do conhecimento, que nuclearão as disciplinas, então, isoladas: Linguagens e Códigos, Ciências da Natureza e Matemática, e Ciências Humanas, todas englobando as tecnologias de cada área. Os assuntos serão agrupados em disciplinas ou módulos e a dosagem das disciplinas, nessas áreas, será feita mediante avaliação das necessidades da clientela. Mais que informações, a base curricular comum, definida nas diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE), é caracterizada por competências cognitivas de caráter geral.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2002)

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Durante a gestão do ministro Paulo Renato Souza, foram elaborados Parâmetros Curriculares Nacionais para os diversos graus de ensino da educação básica. Esses Parâmetros, pelo que se consta, não estão sendo aproveitados, como se devia pelas Escolas. Eles não têm caráter obrigatório, mas são de utilidade fundamental ao processo pedagógico, voltado a uma metodologia renovadora, construtivista. São referenciais para um ensino de qualidade e contribuem para a elaboração de currículos mais ajustados à realidade da escola.

Os Parâmetros propõem critérios curriculares para os diferentes níveis, desde a creche e pré-escola ao ensino médio. No ensino infantil, os Parâmetros buscam a uniformização desse atendimento. Indicam as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças, de ordem física, ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social. A base do parâmetro é transformar o contato das crianças com os educadores em relação de aprendizado.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental se dividem em Parâmetros de 1.ª à 4.ª série e de 5.ª à 8.ª série. Propõem que os conteúdos das disciplinas se aproximem do dia-a-dia da vida dos alunos, que haja correspondência entre o que o professor fala em sala de aula e o que o aluno faz lá fora. O trabalho escolar não pode estar desvinculado da vida do aluno e deve ressaltar problemas cotidianos. A realidade vivida pelo aluno deve servir de ponte entre o dizer e o fazer, deve unir o currículo formal e o currículo oculto.

Os Parâmetros trabalham o aluno como um todo, em sua formação integral, de al modo que informação e formação caminhem em movimento circular. Dedicam amplo espaço para os chamados temas transversais – sexualidade, droga, saúde, meio ambiente, valores morais, sociais e outros – que devem permear as matérias do currículo e ser incorporadas à prática, em sala de aula, sempre que a dinâmica da classe comportar.

Os Parâmetros entrelaçam as matérias obrigatórias com educação, sociedade, escola e cidadania. Reforça a importância da ética – ética democrática que afasta a arraigada cultura autoritária, da formação moral, do convívio escolar na ação de um perante o outro – da participação e co-responsabilidade pela vida social. Há um extenso capítulo sobre convívio social e ética, cidadania e pluralidade cultural.

Os Parâmetros oferecem, dentro do processo de construção do conhecimento, forma de estimular e de avaliar os alunos. Propõem uma avaliação ampla, investigativa e final, onde se consideram os aspectos concentuais, procedimentais e atitudinais. Eles ampliam o papel do professor e reforçam a importância do trabalho coletivo, da interdisciplinaridade. O ensino-aprendizagem deve fazer do aluno um ser pensante, criativo, essencialmente crítico, deve proporcionar-lhe oportunidades de “aprender a aprender” e se tornar um cidadão.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais não podem ser esquecidos. Todas as escolas devem a eles voltar sistematicamente. Eles orientam para uma escola moderna, autônoma, sintonizada com a realidade que a circunda. Eles levam à escola do sucesso.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em agosto/2006)

CURRICULUM VITAE

CURRICULUM VITAE

DE

IZABEL SADALLA GRISPINO

PRINCIPAIS ASPECTOS DO CURRÍCULO

  • Licenciada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo, ano de 1954;
  • Curso de pós-graduação em Língua e Literatura Francesa, a nível de mestrado, quando defendeu a tese: “O Simbolismo Francês e a poesia de Paul Verlaine e Arthur Rimbaud”;
  • Pós-graduação em Língua e Literatura Espanhola, em Filologia Portuguesa e Literatura Brasileira;
  • Licenciada no Curso de Pedagogia, com especializações em Administração, Supervisão, Orientação Educacional e Coordenação Pedagógica;
  • Ocupou, por concurso, na educação básica, as cadeiras de Português e de Francês e no ensino superior de Língua e Literatura Francesa;
  • Na área de administração e supervisão, exerceu, por concurso, os cargos de diretor de escola e de supervisor de ensino;
  • Foi membro integrante da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP) da Secretaria da Educação, onde monitorou e coordenou cursos de atualização, de aperfeiçoamento e de especialização em língua portuguesa, de 125 horas, para professores e especialistas da educação do ensino fundamental e médio, então, 1.º e 2.º graus;
  • Preparou, treinou, pela CENP, monitores, dos cursos montados, para todo o Estado de São Paulo;
  • Foi membro da equipe designada pelo Departamento de Recursos Humanos, da Secretaria da Educação, no Projeto “Capacitação de Recursos Humanos para o Ensino de 1.º e 2.º graus”, para proceder à análise crítica do texto-base, elaborado por insignes professores da Unesp, Araraquara: Cacilda de Oliveira Camargo, Maria Helena de Moura Neves, Najla Lauand e Sebastião Expedito Ignácio, designados que foram pelo MEC. Análise crítica no sentido da adequação do texto ao nível pretendido. A equipe foi, também, responsável pelo treinamento dado aos professores da rede.
  • Foi colaboradora do livro de Instrução Programada “Língua Portuguesa” – 5.ª à 8.ª série – 1.º grau – Secretaria de Estado da Educação;
  • Orientadora, pela USP-São Paulo, de estágios supervisionados do Curso Normal e de Letras;
  • Ao longo da carreira, participou de uma gama considerável de cursos de atualização, de aperfeiçoamento e de especialização, na perspectiva da educação continuada;
  • Autora de crônicas, de centenas de artigos educacionais, comportamentais, sociais, religiosos, publicados em jornais e revistas. Atualmente, está se propondo a registrar uma fase histórica da educação brasileira, ou seja, os principais passos da implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), n.º 9394/96, em seus diversos e amplos aspectos e a realidade do ensino no momento dessa implantação.
  • Poetisa, que reflete em seus versos as grandes questões humanas, os estados de alma, a problematização do ser. Retrata a alma em suas características universais, em suas inquietações diante dos enigmas da existência. Há momentos de muito lirismo, da exaltação do amor, da dor da saudade, das ilusões e desilusões, das amarguras e dos encantos da vida e há momentos de muita reflexão, de observação imparcial da realidade social e política, quando passa, então, sua visão de mundo, sua interpretação dos fatos, numa análise objetiva e subjetiva, porém, sempre crítica. No fundo, freqüentemente, é a poesia didática, é a mestra preocupada em ajudar, em orientar, em alertar, buscando suavizar o sofrimento da humanidade e contribuir para um mundo melhor. Há poesias de versos livres, mas, a sua formação clássica fala mais alto, quando observa com rigor, na grande maioria dos versos, a métrica e a rima;
  • Compositora musical – letra e música – de dezenas de obras sacras e populares;
  • Dentre as valiosas experiências, exercidas no magistério, ao longo da carreira, destaca os cursos ministrados, em larga escala, para professores e especialistas da educação, regando e adubando o terreno para melhor fazer brotar a semente educacional.

(Publicado em novembro/2000)

O ENTENDIMENTO QUE DEVE SER ALCANÇADO

Izabel Sadalla Grispino *

O nosso sistema de ensino, no grau debilitado em que se encontra, vem minando a estabilidade e o desenvolvimento futuro do País. A falta de conhecimento da população está diretamente ligada à desordem social.

Que sociedade teremos, daqui a alguns anos, se nossas crianças não conseguem aprender? Enfrentar o fracasso de nossas escolas requer uma análise profunda das falhas de estrutura e incentivos ao sistema. Pensa-se, hoje, numa ação conjunta, integrada de todos os Estados e municípios.

As universidades e institutos de pedagogia preparam mal o professor para o exercício em sala de aula. Ainda, observa-se pouco interesse na solução de problemas sistêmicos do ensino público. O sistema tem negligenciado os resultados acadêmicos, voltando-se mais aos benefícios de infra-estrutura que do produto de seu ensino, levando os nossos jovens ao analfabetismo e a nação à pobreza.

Desenvolver capacidades institucionais, nos diversos domínios da educação escolar, vem alcançando o entendimento geral, a fim de viabilizar soluções de ordem pedagógica e da desordem crônica das escolas.

Uma consistente reforma educacional deve ser providenciada se quisermos salvar nossos jovens do analfabetismo e a não da pobreza. A coisa é mais preocupante do que se apresenta. Entram em jogo o desenvolvimento econômico, a desordem social, gerando violência e perturbações de toda ordem.

Na constatação de que a baixa escolaridade – o jovem, em média, tem 8,5 anos de estudo – é entrave ao desenvolvimento, o Banco Mundial (Bird) apresenta um trabalho em que demonstra o tamanho do estrago que ela traz ao social e ao sistema econômico. Apresenta um relatório “Jovem em situação de risco no Brasil”, divulgado em 25 de julho p.p., mostrando que os custos para o País são muito mais amplos: violência, aids, gravidez precoce, desemprego, abuso de drogas e álcool. Custos não só em despesas diretas do País, quanto no que esse jovem deixará de produzir para si e para o País.

O Banco Mundial conclui que o Produto Interno Bruto (PIB) deixa de crescer meio ponto percentual por ano, porque um grande contingente de jovens não consegue terminar a escola, não consegue aprender. Essa porcentagem, explica o Banco, significa que em uma geração (30 ou 40 anos, neste caso) o Brasil deixa de ganhar R$ 300 bilhões, o equivalente a 16% do Produto Interno Bruto.

O Banco conclui que “a baixa acumulação de capital humano permite antecipar uma futura geração que não será competitiva nem na região, nem no mundo”. Mostra que o número de jovens, que chega ao ensino superior no Brasil, é o menor da América Latina. A pobreza, aliada à incompetência escolar, faz com que todos os demais riscos aumentem.

Assim, uma nova escola deverá surgir, na conscientização da boa educação a ser dada aos jovens, a essa parcela da população mais importante do processo de desenvolvimento do País. Se se conseguir avançar nessa direção, os demais problemas decorrentes serão amenizados.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

ACERTANDO OS PASSOS COM A MODERNIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona a novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, incluindo, aí, o aproveitamento das vocações despertadas.

Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da sociedade, a incorporação de atitudes na linha da “parceria” “co-gestão”, “co-autoria”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”, “trabalho em equipe”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiências, conteúdos afins, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em “transmissão do conhecimento”, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em “construção do conhecimento”, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor-aluno; o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber erudito e em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis.

Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão.

Várias são as possibilidades de participação. A escola, ao lado da participação intrínseca – características de vida, de conduta, condições socioeconômicas – há a extrínseca: as comemorações cívicas ou sociais, eventos preestabelecidos, apresentações em acontecimentos de importância – e da comunidade para a escola, em datas oficiais – plano escolar, reuniões de pais e mestres, reuniões do Conselho de série/classe, eventual formação de colegiado. Participa, ainda, de exposições, encontros literários, artísticos, campanhas, das já tradicionais festas juninas, mutirões... numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só se chamava o pai para reclamar do filho, por alguma falta cometida.

Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé...

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno.

Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

A parceria propicia o exercício da cidadania, abre a escola para a crítica, permitindo participação consciente, tomada de decisão co-responsável, maior engajamento de todos. Culmina com uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam experiências e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em agosto/2005)

SÍNDROME DA DESISTÊNCIA SIMBÓLICA DO EDUCADOR

Izabel Sadalla Grispino *

Os resultados da avaliação da educação básica, nos últimos anos, registram sistematicamente um nível crítico de ensino. Os resultados do último Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), realizado em 2001, revelam que a grande maioria dos alunos, que termina a 3.ª série do ensino médio, sai sem saber Matemática e Língua Portuguesa. Em Português, apenas 5,34% revelam um nível satisfatório e em Matemática, 5,99%.

Essa situação agrava-se nas regiões pobres do País. Alunos classificados nos estágios crítico e muito crítico, no Nordeste, sobe para 76,4% e no Norte, 83,1%, enquanto a média nacional fica em 67%. Segundo o relatório, o nível dos alunos é mais compatível com o da 8.ª série do que com o da 3.ª série do ensino médio. Os alunos não conseguem assimilar conhecimentos novos e os baixos resultados da 3.ª série mostram a ineficiência de toda a educação básica. Do mesmo modo, a última edição do Saeb revelou que 59% da 4.ª série apresentaram desempenho crítico.

As provas do Saeb de 2003 foram feitas no início de novembro, em todo o País. Abrangeram as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática e foram aplicadas por amostragem a alunos de 4.ª e 8.ª séries do ensino fundamental e 3.ª série do ensino médio, tanto da rede pública quanto da particular. Os alunos responderam também um questionário sobre a situação socioeconômica de suas famílias. O Saeb incluiu outros questionários, enviados a professores e diretores das escolas envolvidas. Na edição deste ano, quer coletar dados sobre a exaustão emocional e o baixo comprometimento dos profissionais da educação com seu trabalho, problema batizado por Síndrome da Desistência Simbólica do Educador. O que se quer saber é a influência dessa síndrome no desempenho dos alunos.

A educação se vê cercada por “n” fatores impedidores de qualificação e um grave fator é o desestímulo que toma conta do corpo docente, a ponto de ser caracterizado, por pesquisadores, como “exaustão emocional”. Exaustão carregando consigo a baixa estima, o desânimo, a sensação de impotência. A cada resultado denegridor do ensino cogitam-se das causas. Pesquisas e avaliações sobre a fraca atuação da escola vão se avolumando.  Agora  é  a vez da Avaliação Nacional do Ensino Básico (Saeb) lançar questionário sobre o negativo envolvimento do professor com seu trabalho.

Nada é em vão. Avaliar e dar o resultado da avaliação ajudam a se conscientizar, a rever posição e tentar reformulação. Contudo, as causas do cansaço emocional do professor, seu desapego à instituição escolar, não são senão  resultado de anos de descuido ao magistério. A situação vem pesando mais e mais a cada ano. O professor tem que lutar com as próprias armas, diante de classes superlotadas, com a violência se infiltrando na sala de aula, com segurança mínima ou segurança zero. Lutar para sobreviver com os parcos salários, acumulando aulas em três períodos e enfrentando, nesses períodos, classes numerosas.

A Síndrome da Desistência Simbólica do Educador afeta o humor, a vontade de progredir tanto do educador quanto do educando. A gangorra se forma, emissor e receptor naufragando no mesmo barco. A síndrome constatada é, sem dúvida, uma forte causa da decadência do ensino. Se quisermos pensar na boa colheita, temos que, antes de cuidar dos frutos, cuidar da árvore, adubá-la, regá-la, instrumentá-la, para que a planta, revigorada, frutifique a contento.

Se não se melhorarem as condições de ensino, assistindo às escolas técnica e financeiramente, se não se elevar significativamente o salário dos professores, se não se diminuir o número de alunos por classe, nem o cogitado período integral da rede oficial, para alunos de 1.ª à 8.ª série do ensino fundamental, devolverá à sociedade o padrão de ensino desejável, porque ele será desenvolvido nos mesmo moldes precários atuais.

O período integral, merecedor de aplausos, se não vier acompanhado de pré-requisitos estruturais, será benéfico apenas para a sociabilidade, para o combate à violência infantil, com suas atividades extracurriculares, em que deixará o aluno ocupado, afastando-o do perigo das ruas, mas pouco efeito terá na melhoria da qualidade do ensino.

Aliado à falta de compromisso do corpo docente com o ensino, um outro fator extramuro, que concorre para o fracasso da escolaridade, é a pobreza. O último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) confirma o que há tempos já se sabia: o nível socioeconômico das famílias interfere diretamente no nível de ensino. Os alunos da rede particular, com baixa renda familiar mensal, alcançaram a média de 48,11. Já os que têm alta renda ficaram com 70,59. O Enem tem reiteradamente mostrado que os alunos das escolas particulares têm sempre desempenho superior aos da rede pública, mesmo quando o seu perfil é semelhante, como, por exemplo, brancos, que na escola pública têm nota média de 47,10, na particular, o número sobe para 65,78.

Essa análise vem comprovar que apenas o acesso à escola não garante igualdade de oportunidades, é insuficiente para alcançar a desigualdade. As condições sociais em que vivem os alunos têm forte influência no desempenho escolar. A questão salarial não deixa de ser crucial.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em novembro/2003)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em novembro/2003)

JOGOS NA APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

No mundo moderno, na velocidade em que se processa a informação global on line, o conhecimento, mais do que nunca, tornou-se o protagonista da evolução de todo avanço social. O progresso é filho do aprendizado, de um saber, cada vez mais apurado, sofisticado.

A evolução traz aperfeiçoamento, reforça ou enfraquece convicções. Em todas as áreas da educação, os avanços são enormes. Ganha fôlego o estudo da criança, a pedagogia referente à educação infantil. Desenvolve-se uma maior consciência sobre a importância de bem conduzir a criança nesse período.

Brincar, para a criança, é essencial para o seu desenvolvimento, para o seu aprendizado. Brincando ela vai se preparando para vivenciar a realidade, para transformá-la, desenvolvendo habilidades sensoriais e cognitivas. Vai aprendendo a lidar com valores simbólicos e sociais. Na área da brinquedoteca, têm surgido brinquedos educativos cada vez mais atraentes, aperfeiçoados, destinados a cada fase do desenvolvimento infantil e que transformam a hora de brincar em hora de aprender. São brinquedos que dão espaço para a imaginação, que estimulam a criança no brincar. Levar a criança a fazer muitas experiências, apoiadas em instrumentos facilitadores como são os jogos, torna sua aprendizagem prazerosa, convidativa. Experiências com o corpo, o tato, o olfato, os movimentos, o raciocínio...

Não se deve, contudo, entregar unicamente o brinquedo à criança. Para que ela desenvolva suas potencialidades e para que o brinquedo venha a ser realmente educativo, faz-se necessária a participação dos pais ou dos professores. O brinquedo não é auto-educativo; ele é caminho para a educação. Ao adquiri-lo, o professor deve inteirar-se bem de seu funcionamento, da finalidade a que se propõe. Deve haver afinidade entre o brinquedo e a criança. Ele deve proporcionar interação, provocar reação, estimular a observação; caso contrário, não vai cumprir sua função educativa. A criança, por sua vez, não deve se sentir pressionada, cobrada, com obrigação de corresponder à expectativa.

O brinquedo, quando bem situado, auxilia o professor em suas múltiplas tarefas, alfabetiza a criança lentamente, ensina paulatinamente conceitos matemáticos, desenvolve sua autonomia no ato de aprender. O jogo vem sendo reconhecido e utilizado no mundo inteiro como uma ferramenta educativa de largo alcance. O jogo nos faz lembrar Anísio Teixeira, ao dizer: “Quando monto na asa de um pensamento, de uma idéia, eu vôo nessa idéia como se ela fosse minha ave”. Um bom jogo, faz voar nas asas da criatividade, descortinando horizontes inimagináveis. Ele faz cumprir seus objetivos, a finalidade a que se propõe, tornando-se realmente educativo.

O mercado de brinquedos educativos aumenta a cada ano, mediante um público exigente, professores, escolas que selecionam pelo visual brinquedos atraentes, coloridos, variados e pelo caráter científico. A Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos Educativos e Afins (Abrine) estima que os fabricantes, de pequeno, médio e grande porte, de brinquedos no País ocupam de 15 a 20% do mercado, enquanto há 5 anos essa porcentagem era cerca de 5 a 8%.

Os fabricantes mais idôneos têm a seu serviço psicólogos e pedagogos especializados, capazes de oferecer um produto à altura da demanda exigida. Para cada faixa etária, para cada fase do desenvolvimento infantil, oferecem brinquedos apropriados. Até os 15 primeiros meses, criam objetos macios e sonoros, que estimulam o tato, a audição, o olfato. Até 5 meses, a criança precisa de estimulações basicamente sensoriais, para estimular o tato, o paladar, o olfato e a audição. Do zero aos 8 meses, são indicados chocalhos com sons suaves e diversificados, móbiles, que podem ser manipulados pela criança, bolas e dados de espuma, com diferentes texturas. Objetos moles, com reentrâncias para morder, por causa do início da dentição. Após os 9 meses, usar brinquedos com encaixes, pinos cilíndricos e coloridos de vários tamanhos. A criança, nesse período, começa a executar diversos movimentos com as mãos, ter noções de direção e relações de causa e efeito.

No período dos 15 meses a 2 anos, inicia-se a estimulação da coordenação motora. São recomendados brinquedos com figuras grandes, coloridas, comunicativas e de encaixar. Auxilia na coordenação e na descarga de agressividade da criança e também no desenvolvimento da linguagem e expressão. Para esse período são aconselhados, ainda, instrumentos de percussão, de sopro simples, como tambores, cornetinhas e gaitas.

Dos 2 aos 3 anos, a criança começa ordenar, classificar, aprender as cores e os tamanhos. Brinquedos com caixas grandes, com peças de montar e ordenar, ensinam cores e tamanhos. Blocos inteiros para manipular, empilhar e armar, como um quebra-cabeça simples, ajudam a exercitar noções de equilíbrio, de ordem, estimular a criatividade e ter a percepção de tamanho e alteridade, período de criação e descoberta.

Dos 3 aos 5 anos, a criança associa números, quantidades e formas geométricas com mais facilidade. É o momento para brincar em grupos, é quando desenvolve comportamentos de grupos e consegue compreender regras simples. Conjuntos desmontáveis e coleções mostrando animais domésticos e selvagens são aconselháveis.

Dos 5 aos 7 anos, usam-se brinquedos com seqüências para lógica, matemática e universo lúdico. Fazem parte os jogos de memória e atenção, jogos que exigem ordenação e raciocínio. Recomendam-se, nessa fase, brincadeiras com teatros de fantoche, fantasias representando animais e personagens do mundo infantil.

Dos 7 aos 10 anos, para estimular a habilidade motora, o desenvolvimento da linguagem escrita e cálculos matemáticos, pensamento abstrato, usam-se livros, CDs e jogos. As brincadeiras ficam mais complexas, aumenta a capacidade de fantasiar. Para tanto, usam-se o jogo de xadrez, com peças diferentes, no lugar de figuras tradicionais, histórias de montagem, microscópios, lentes de aumento, kits científicos de iniciação à química, física e biologia e outros.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2005)

OS DESMANDOS DA CORRUPÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Os caminhos abertos, a que proporciona a democracia, vêm conduzindo o povo a manifestações explícitas, a favor da moralização do nosso sistema nacional carcomido. A mídia esclarecida vem alertando a população para os desmandos da corrupção, para os prejuízos que ela causa ao País, empobrecendo-o.  As denúncias de corrupção, veiculadas pelos meios de comunicação, encontram forte ressonância junto à população, que começa a exigir transparência de atos e de fatos.

A conjuntura nacional vem se transformando, realinhando-se com vistas à moralização. Caminhando nessa direção, será ela, a corrupção, quem, em breve, entrará em crise, com estreitamento das possibilidades de sua ocorrência e com exigência de sua punição.

Sob forma clara ou velada, a corrupção se instala na educação, na saúde, na segurança, marca presença maciça no comércio. Ela chegou num grau extremo de aceitação e, conforme nos ensina a própria vida, os extremos tendem a chocar-se, trazendo o verso da moeda. Nesse preceito reside a grande esperança.

Ao penetrar no interior das instituições, poucas são as que se mantêm impolutas. No artigo da semana passada, abordei a desmoralização reinante nos cursos supletivos particulares a distância e os passos enérgicos tomados pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) de São Paulo, a respeito. Nem mal a decisão do Conselho saiu publicada no Diário Oficial, já se iniciavam tentativas de driblá-la.

Uma escola foi flagrada cobrando R$ 4 mil para cada nível de ensino, com certificado pronto em sete dias. Para os 1.º e 2.º graus juntos, o preço subiria para R$ 5 mil. A atendente insistia que se fechasse o negócio o mais rápido possível, porque com o passar dos dias, devido à nova regra, a coisa ficaria mais difícil. Ela, ainda, se oferecia para responder à prova. “Você só precisa assinar”.

Inteirando-se dessa situação, Arthur Fonseca Filho, presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), desabafou: “Foge até da esfera da educação, passa para a policial”. Acrescentou: “Os vendedores de diploma devem estar adulterando documentos e cadastrando os novos alunos como se tivessem sido matriculados há 90 dias”. Uma fiscalização rigorosa faz-se necessária para identificar os alunos que se matricularam antes da nova regra.

Um outro segmento educacional que começa a preocupar são os recém-criados cursos de pós-graduação, por inúmeras faculdades. Está havendo grande procura por esses cursos. Apenas o diploma de graduação não é mais suficiente para se ter, hoje, uma carreira de sucesso. No mercado competitivo, o grau de exigência vem crescendo e coloca nos cursos de pós-graduação o diferencial. A especialização abre caminho no trabalho.

Até uns anos atrás, fazer uma pós-graduação requeria passar por uma seleção em uma universidade pública ou em uma grande instituição particular. A realidade mudou. As faculdades, percebendo a correlação, passaram a manter estruturas de pós-graduação, oferecendo cursos em várias modalidades.

Está havendo uma verdadeira proliferação e já começa a suscitar dúvidas sobre a honestidade e a qualidade de ensino dos cursos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão responsável por esse nível educacional, defende uma ampla avaliação do segmento: “A expansão precisa ser acompanhada de qualidade. Está na hora de fazer um mapeamento para ver onde e como a expansão está ocorrendo para evitar um crescimento desordenado”, arrematou Arthur Roquete de Macedo, presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho.

A cada dia nos deparamos com diferentes denúncias de corrupção, nos mais diferentes setores. Presentemente, confrontamo-nos com uma produção e um comércio ilícito de cópias piratas de softwares, discos, livros e fitas de áudio e vídeo, em todo o País. O mercado de fitas de áudio estima-se ser, praticamente, pirata. O desrespeito aos direitos autorais chega a um patamar absurdo e vem prejudicando as relações comerciais do Brasil com outros países, especialmente com os Estados Unidos.

O mercado de produtos pirateados impõe barreiras comerciais, causando perdas consideráveis. As campanhas antipirataria, feitas por indústrias, têm trazido algum resultado. Mas, infelizmente, está sendo de muito difícil reprimenda; burlam-se os regulamentos, em variadas estratégias.

A desonestidade reinante nos alerta para a necessidade de uma contínua vigilância, nos mostra que postergar problemas é aumentar  a dificuldade em corrigi-los.

Para conseguirmos vencer situações lastimáveis como essas, é preciso investir-se, e muito, na educação, as escolas abordando educação politizada, educando para a cidadania, para a participação consciente dos problemas político-sociais, no engajamento do sentimento patriótico.

Foi com pesar que escrevi os versos abaixo: “Corrupção viciada”.

CORRUPÇÃO  VICIADA

Que lástima, esse nosso amado País!
Só CPIs cavando a podre raiz,
Gritante aberração e deformação
Do ideal de um povo em busca de afirmação.

Se lá em cima há muita roubalheira,
Que freio botar no batedor de carteira?
Que exemplo passar a fim de educar
E conseguir intento em moralizar?

Essa terra fértil, rica em mil produtos,
Na pilhagem embarga variados frutos,
Nunca se tem dinheiro para o social,
Saúde e educação sempre em baixo astral.

O povo indignado se revolta,
Apavorado anseia proteção, escolta,
CPI não salva, não marca confiança,
Deixa, contudo, laivos de esperança.

Sistema viciado em gatunagem
Arrasta a plebe pra triste engrenagem,
Cria cultura propícia à vil esperteza,
E sintoniza formas de safadeza.

Como sair dessa aviltante emboscada?
Como trocar sufoco por gargalhada?
-- A educação, a mudança cultural,
São saídas pra essa vergonha nacional!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

CONSTRUTIVISMO NA ANÁLISE SOCIOLÓGICA

Izabel Sadalla Grispino *

Educar implica em colocar o indivíduo como sujeito de sua análise de mundo. Ele é um elemento fazedor do processo e não um paciente do aprendizado. Não é uma incidência do ato de ensinar.

Na alfabetização, por exemplo, o adulto deve ser alfabetizado a partir de seu universo de fala e não do universo do educador. A aprendizagem é um ato de criação, de construção. “O sujeito que conhece é aquele que se apropria do processo de conhecer e não aquele que recebe uma justaposição no seu corpo e na sua inteligência do objeto que está sendo ensinado pelo educador”. (Paulo Freire).

Dentro do construtivismo são respeitadas a identidade e as posições do educando. O construtivismo fala de inteligência como uma criação que depende da sua prática e do seu uso. Não é possível estudar o construtivismo sem nos estudar. Nesse entendimento, o professor tem que trabalhar como facilitador do ato de aprender. “Ser educador é possuir a sabedoria de fazer brotar a sabedoria do outro, é tomar posse do verdadeiro saber: o saber com sabor, com inteligência, com prazer, com humor”. (Fernando Pessoa)

A educação não se restringe ao lar, à escola, abrange toda a coletividade. Ela sozinha não é a salvação, mas sem ela não há salvação. Em termos de sociedade, o programa Fome Zero, impregnado de um humanismo louvável, tem suscitado questões a respeito da pobreza.

Aplicando o construtivismo numa análise sociológica, no conceito de que educar é um processo no qual o sujeito é seu agente, é preciso considerar a visão que as pessoas pobres têm da pobreza e de seus problemas, é preciso trocar as experiências vividas.

Tomei conhecimento de uma pesquisa feita por um grupo de professores da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco, de 1991, para o Banco Mundial: “Consultations with the Poor”, feita com 632 pessoas em três lugares diferentes: favelas da região metropolitana de Recife, comunidades pobres do município de Itabuna (BA), vítimas do desemprego gerado pela crise nas lavouras do cacau, e comunidades pobres de Santo André, no ABC paulista, onde se acentuavam os efeitos do desemprego motivado pela retração do setor automobilístico.

O estudo da pesquisa chamou a atenção para a significativa variação da percepção de bem-estar, demonstrada pelos grupos e lugares pesquisados. De um modo geral, as pessoas pobres consideram a pobreza sinônimo de falta de poder e relacionam bem-estar com segurança, onde entram emprego e renda estáveis, alimentação, boa saúde, possibilidade de bons serviços, propriedade da terra ou da habitação. Também, de um modo geral, os pobres se vêem como mais vulneráveis e sujeitos a riscos, como deslizamentos de encostas, inundações, violências e crimes. A segurança proporcionada pelo emprego não está apenas na renda que ele traz. Emprego estável significa também relações com um empregador, a quem se recorre nas dificuldades.

Os autores do estudo enfatizam o ponto em que a visão social aponta a pobreza como causa da violência ou como meio que favorece a violência, enquanto os pobres se vêem como vítimas dessa violência.

O que se constatou, nesse estudo, é que as piores crises acontecem nas famílias chefiadas por mulheres (sem parceiro) e por velhos. Por isso, são os que mais precisam de proteção e que deve ser uma indicação de prioridade no programa Fome Zero. Pelas pessoas ouvidas, a insegurança tem crescido pelo aumento do desemprego, pela explosão da violência, “do crime nas comunidades” e pela concentração de renda: “O pobre está ficando mais pobre e o rico mais rico”.

Nesse quadro, emprego e acesso à educação são considerados fatores essenciais para escapar da pobreza. Um outro fator é acesso à infra-estrutura de saneamento, de saúde, de educação. Na falta de infra-estrutura entre os pobres, o governo é apontado como o maior responsável. De qualquer forma, as populações envolvidas na discussão não acreditam que sozinhas possam mudar a situação.

Nesse contexto, a Igreja católica é vista como a instituição mais importante pela assistência espiritual e de ajuda emergencial às famílias. A pior instituição é a polícia pela participação no quadro da violência da qual se sentem vítimas.

Talvez a lição maior, considerada pelo estudo, é a visão que os pobres têm dos ricos, sintetizada pela frase de uma mulher: “Rico é quem diz: vou fazer. E faz”. Isto é, rico é quem pode tomar decisões. Essa concepção é considerada um forte indicador para o processo político-administrativo como um todo, no sentido de fazer a sociedade participar, escolher, opinar, decidir.

Um outro fator, que chama a atenção nessa conjuntura, é o comportamento da mídia, que, em geral, aborda assuntos grandiosos, dramáticos, da crise de proporções assustadoras. A mídia poderá ajudar se mudar o foco, dirigir-se ao cidadão comum, saber o que pensa, o que lhe interessa, enfim abordar também o pobre, o cotidiano, não só falar do grande, do soberano; galgar passos construtivistas.

Essa pesquisa nos mostra que ajudar significa conhecer melhor o objeto de ajuda. Esse conhecer encarregar-se-á de ditar a direção a seguir. Juntar visão pessoal e visão alheia, valorizando a visão do outro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2003)

O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DO BEBÊ

Izabel Sadalla Grispino *

Hoje, há comprovação científica dos benefícios advindos dos carinhos espontâneos feitos pelas mães, ao cuidarem de seus bebês. Através de balbucios, caretas, brincadeirinhas, ruídos com chocalhos, as mães estimulam sensações com toques, ajudam a criança a explorar o espaço. Tudo feito de maneira lúdica, de mera distração.

A medicina neurológica, por instrumentos sofisticados, consegue detectar movimentos cerebrais mínimos e vem demonstrando que esses gestos maternos trazem efeitos, que vão muito além do lúdico. Na fase dos 0 a 3 anos, são considerados fundamentais e influenciam a vida toda do bebê. É nesse período que o cérebro desenvolve os sentidos, a linguagem, os movimentos, as emoções.

Essas descobertas científicas vêm reforçar comportamentos praticados naturalmente. As creches mais evoluídas mudaram, a partir de então, seus métodos de atendimento, transformando-os em atividades mais científicas que intuitivas. É uma nova visão que não diz respeito à escolarização precoce, mas à estimulação do cérebro. Desde o útero materno, os neurônios do bebê fazem contatos, transmitem informações entre eles, nas chamadas sinapses. Ao nascer, a maioria das conexões fica à espera de estímulos que darão continuidade a essas sinapses. É como um instrumento musical, pronto para produzir som, esperando que alguém o toque, surgindo a música.

Sem esses estímulos, muitas das conexões se perdem e dificilmente são recuperadas. As pesquisas revelaram que animais, privados de receber luz nos primeiros meses de vida, podem perder a visão para sempre. Considera-se que com os bebês haja o mesmo risco.

Os neurologistas explicam que, nos primeiros 3 anos de vida, quanto mais estímulo, mais e melhores conexões serão escolhidas. As que não são usadas sofrem um processo de regressão.

É preciso que fique claro ao educador que essa atitude não significa encher a criança de atividades, ensinar matemática, música, línguas, antes de completar 3 anos. Esse tipo de conhecimento não desperta nenhum interesse na criança pequena e não favorece seu desenvolvimento.

A professora Marieta Nicolau, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), orienta: “Não tem nada mais saudável para a criança do que brincar. É assim que ela aprende as palavras, faz comparações. Os cuidados rotineiros, como trocar a fralda ou dar banho, não podem ser automáticos. É importante conversar sempre com o bebê, mesmo que ele não entenda o que está sendo dito. Ele capta a sonoridade e se sente querido, porque tem a atenção do outro.”

Em escolas de educação infantil que adotam esse processo renovado, bebês convivem com crianças de 5 anos, ouvem música, histórias, brincam juntos. Ficam no berço só enquanto dormem. Aquários, salas temáticas, fantasias, ajudam nas atividades. As crianças de 0 a 3 anos divertem-se com as estimulações e aprendem limites, cuidam de si próprias, convivem socialmente, em um ambiente que nada se parece com a sala de aula. A criança fica mais ativa, mais comunicativa na convivência com outras crianças. As creches perdem, gradativamente, seu caráter assistencialista, colocando ao lado da necessária assistência, como trocar fralda, dar banho, comida, levar o bebê para dormir, a preocupação com a correta estimulação, propiciando a esta criança, amanhã, uma melhor escolaridade, uma melhor aprendizagem.

Quanto mais estímulo receber a criança, melhor. A ciência nos mostra que o cérebro humano, em seu desenvolvimento, passa por etapas. Antes do nascimento, os cerca de 100 bilhões de neurônios fazem a maioria das conexões, chamadas sinapses. Depois do nascimento, os estímulos recebidos  levam  o  cérebro  a  selecionar  as conexões que vão permanecer. Depois dos 3 anos de idade, o sistema nervoso entra no processo de maturação. Em um cérebro já amadurecido, novas conexões são muito mais difíceis.

O processo de valorização das atitudes, em relação à criança, ainda é muito recente. O desenvolvimento do bebê ainda é desconhecido por grande parte dos educadores. Foi só na metade do século XX que a pedagogia começou a voltar-se mais para a educação da criança pequena. Até pouco tempo, acreditava-se que qualquer pessoa podia cuidar da criança, havendo, inclusive, uma desvalorização da profissão e não se exigia do professor a formação correta. A exigência atual é de que os professores tenham, pelo menos, o ensino médio. Mas, a partir de 2007, segundo reza a LDB, todos devem ter concluído o ensino superior para serem admitidos em creches.

O professor de educação infantil precisa conhecer bem o desenvolvimento da criança e ter uma boa formação geral, porque o bebê aprende, também, pelo processo imitativo, o que quer dizer: se o adulto, que está com ele, fala errado, a criança vai falar errado também. A boa formação profissional influi diretamente na boa formação da criança.

No ano de 2003, as creches públicas de São Paulo sairão da responsabilidade da Secretaria de Assistência Social para integrar a Secretaria da Educação, conforme exige a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) desde 1997.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

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