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Artigos Educacionais

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A EDUCAÇÃO DO RICO VERSUS A EDUCAÇÃO DO POBRE

Izabel  Sadalla  Grispino *

A realidade educacional no Brasil é tema inquietante, a ser refletido por toda a sociedade brasileira. Realidade de duas faces: a boa educação para os ricos e a má educação para os pobres. Há décadas, Demerval Saviani, em seus livros, já denunciava a equivocada escola assistencialista, merendeira. São freqüentes e periódicas as citações de especialistas da educação sobre o decadente ensino das classes menos favorecidas.

O objetivo de toda escola deve ser o de tornar o aluno competente. A escola deve lutar, buscar os meios para realizar este objetivo, para dar aos alunos as ferramentas mentais de ação, a fim de que possam enfrentar o mercado de trabalho, hoje tão exigente. Nunca o livro didático foi tão necessário ao professor. A escolha de um bom livro poderá amenizar a situação do ensino público. Um livro que traga ao professor  instruções detalhadas, que propicie experiências abertas, exercícios práticos, onde se possa praticar o construtivismo. A criança precisa freqüentar a boa escola, desde os primeiros anos de alfabetização, porque a aprendizagem é um processo em que uma etapa influi e explica a outra. A construção do conhecimento exige tempo, é preparação sistemática, gradual, encadeada, ligando os diferentes graus de ensino. Não é um simples “depósito bancário”, usando a expressão do educador Paulo Freire. Não adianta avançar etapas, se a aprendizagem não se concretizou. Hoje, temos bem clara a noção de que o importante não é a quantidade do que se ensina ao aluno, mas a qualidade do que ele aprende.

O desinteresse oficial por uma escola pública de qualidade se constitui em mecanismo de reprodução das desigualdades. Concursos de ingresso ao magistério público há, em que Secretarias de Estado observam com rigor a porcentagem de acertos e erros, aprovando os realmente capazes – como o recente concurso, realizado no Rio Grande do Sul, onde 70% dos candidatos foram reprovados, ou o concurso de ingresso na Bahia, em 97/98, que reprovou cerca de 90% dos candidatos. Secretarias há em que, desconsiderando a má formação, rebaixam o nível de conhecimento, aceitam uma porcentagem de acertos inferior ou bem inferior ao que seria a média das questões, facilitando o acesso  para abarcar o maior número de candidatos, mas não garantem, depois, a qualificação necessária ao padrão requerido pela época. Nessa acomodação política, o aluno pobre é o maior prejudicado, pois que tem aula com professores mal preparados, cuja efetividade não foi fruto de competência. O ensino fica, assim, nivelado por baixo.

Em recente publicação do texto: “Duas experiências de ensino estruturado”, Cláudio de Moura Castro, assessor da Divisão de Programas Sociais do Banco Interamericano do Desenvolvimento, faz uma análise sociológica, cultural do Brasil, das últimas décadas e compara-o aos Estados Unidos. Ambos, diz ele, encontram dificuldades em “criar escolas capazes de oferecer um ensino de boa qualidade aos mais pobres e mais vulneráveis... têm escolas péssimas servindo a essa população”. Ambos têm grande desigualdade na distribuição de renda. Sendo que nos Estados Unidos “a maioria esmagadora é imensamente rica, embora tenha muitos bolsões de pobreza, sobretudo, nos centros urbanos”. No Brasil, ao contrário, temos “uma minoria muito rica e uma grande camada de pobreza, incompatível com nossa renda per capita”. O contraste entre Brasil e Estados Unidos está na grande diferença entre população rica e pobre. Se aqui poucos têm boa escola, lá a grande maioria a tem.

Cada povo tem  a educação que o espelha e a nossa pouco nos engrandece.

O magistério é  vocação sublime,  abre caminhos de esperança, de sonhos, de realizações. O professor é pedra angular, a fundamental na construção do ser humano. Batalhar a educação é batalhar a vida no seu grau supremo da promoção humana e social. Ela é essência, ultrapassa a dimensão circundante do Homem, alcança a dimensão cósmica, quando então, entra em comunhão com a obra do Criador e se torna a grande responsável pelo desenvolvimento sustentável do planeta, pela continuidade de nossa mãe-Terra, em sua missão de gerar novas vidas. “O que acontece à terra, acontece aos filhos da terra” – Seattle, chefe das tribos indígenas Duwarnish – Canadá.

Vimos, em seqüência, espalhando sementinhas, que a seu tempo – esperamos – se revertam no nascimento de árvores frondosas. Outras sementes, juntando-se a estas, romper-se-ão em outras árvores, que, no seu conjunto, formarão o cerne, a frente robustecida de combate, com núcleos de influência, semeando permanentemente. Se cada um fizer a sua parte, o grande encontro virá e coroado da salvadora redenção. Completo essas considerações com meus versos “O sono da combalida educação”.

O SONO DA COMBALIDA EDUCAÇÃO

A educação dorme no leito do atraso,
Sono do descaso, da assistência falida,
Da oscilante ideologia do acaso,
Brotando uma atuação didática abolida.

Quantos caminhos perdidos em sua dormência!
Enquanto dorme, o mau ensino perdura,
A criança se embrenha na estrada da falência,
Os pais choram a perda da visão futura!

Educação é luz, terra em maternidade,
Gera o alimento para o corpo e para a alma,
Sacia o sonho, a desigualdade acalma.

Desperte “Consciência”, alce a vontade política,
Faça da sociedade uma análise crítica,
Distribua o saber em social eqüidade.!

 

VAGAS ESTATIZADAS OU VAGAS EM UNIVERSIDADES PÚBLICAS?

Izabel Sadalla Grispino *

Críticas às vagas estatizadas, às isenções fiscais a instituições particulares em troca de parte de vagas ociosas, foram feitas por reitores, professores e funcionários das universidades federais. Entendem eles que a expansão do 3.º grau deve ocorrer pelo ensino público.

A Associação dos Reitores das Universidades Federais (Andifes) divulgou, em março p. passado, nota contrária ao Universidade para Todos, por considerar que o programa não passa de “compra de vagas” na rede privada e opinou que o governo invista na expansão das instituições públicas. O indicativo é de que o governo fortalece as instituições privadas e enfraquece as públicas.

O ministro Tarso Genro defende-se dizendo que o programa representa, apenas, a criação de um espaço público na rede privada. Ponderou, contudo que, se o programa tiver adesão, poderá haver uma reordenação de recursos do Financiamento Estudantil (Fies) para as universidades federais. Haverá uma passagem gradativa de recursos para as instituições públicas.

O Fies é um programa de crédito educativo que financia alunos da rede privada. Atualmente, o Fies financia as mensalidades de 178.124 estudantes. A previsão é de que repasse ao setor privado, este ano, R$ 739 milhões. Esse valor supera os 609 milhões previstos no orçamento para o custeio de 55 instituições federais do ensino superior. Pelos dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), as universidades federais atenderam 532 mil estudantes, revelando o grau de privatização do ensino superior.

O dinheiro do Fies sai das loterias federais, do pagamento do empréstimo pelos alunos já formados e do orçamento da União. O governo não paga as instituições em dinheiro, mas com títulos usados para quitar dívidas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em modelo semelhante ao idealizado para a Universidade para Todos.

A explicação do ministro, por ter optado pelas universidades privadas, é de que o programa permite o uso público de vagas privadas por um preço menor do que o pago pelo Financiamento Estudantil (Fies). “O Fies é compra de vagas. Na Universidade para Todos, o aluno não paga pelas vagas, porque é pobre. Estamos iniciando uma verdadeira publicização de espaços privados, sem prejuízo para o setor e com baixo custo para o Estado”, complementou Tarso Genro.

Atender o jovem carente é uma necessidade que não pode ser postergada. Quanto à credibilidade, é inegável a superioridade das faculdades oficiais, onde o melhor nível de ensino prevalece. A expansão do ensino superior, ocorrendo no sistema público, terá, sem dúvida, um novo significado. Ele já tem tradição de qualidade e, assumindo a liderança na oferta de vagas, estará acolhendo o aluno pobre com mais propriedade, principalmente em força de trabalho.

A verdade é que o jovem quer estudar, entende a exigência da época que pede competência profissional. Não quer ficar à margem da sociedade, quer emergir, poder se afirmar, vencer. Hoje, não é só a elite que busca o 3.º grau. O aluno pobre termina o ensino médio e anseia entrar para uma universidade, mas é barrado por suas condições econômicas. Socorrendo esse jovem, o governo estará desenvolvendo uma grande ajuda às famílias de baixa renda, minorando a desigualdade social, disseminando uma política de distribuição de renda.

Pelos dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), somente 9% dos jovens, entre 18 e 24 anos, estão matriculados no ensino superior. Comparando-se com países da América Latina, como a Bolívia, por exemplo, que tem uma economia 61 vezes menor que a brasileira, o índice é de 20%; na Argentina, quase 40%.

Neste quadro, surge a Universidade para Todos, com suas estatizações, querendo acelerar a inclusão, mesmo porque a pressão por vagas no ensino superior cresce de modo acelerado. Em 1991, 666.367 jovens formaram-se no ensino médio. Em 2002, foram 2.065.722, jovens advindos sobretudo das classes C, D e E.

No Brasil, cerca de 70% das vagas são oferecidas pelas faculdades particulares, com mensalidades variando, no Estado de São Paulo, entre R$ 400,00 e R$ 600,00.

Para muitos estudantes, bolsas de estudo são a única saída. Estender o olhar para esse ângulo revela uma política social humana, necessária e urgente, em direção ao desequilíbrio social.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2004)

NOVOS TEMPOS, NOVAS METODOLOGIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Idéias revolucionárias surgem no horizonte social, na tentativa de alcançar o comportamento delinqüente. A psicologia, grande aliada da educação, dita novas normas de conduta, para essa nova era que vivemos.

Assumindo a realidade que se nos impõe – a desordenada violência, gente inocente morrendo, assaltos diários, as pessoas com medo de sair à rua, todo mundo sujeito a tomar um tiro em qualquer lugar – a sociedade repensa seus métodos de atuação. Todos sentem saudades das cadeiras na calçada, do bate-papo descontraído entre vizinhos, amigos. Isso ficou no passado e, queiramos ou não, temos que nos adaptar à realidade de um mundo violento e sem força de lei.

A bandidagem é uma realidade social, não podemos ignorá-la. Convivemos com ela no dia-a-dia. Assim sendo, precisamos encontrar caminhos que a alcancem, que a desestruturem. Sociólogos, psicólogos sugerem mudança radical no relacionamento de bandidos com autoridades locais. Chamá-los à mesa de conversação, ouvir o que têm a dizer, o que têm a reclamar e o que propõem. Tentar falar a sua linguagem para poder modificá-la, elaborar planos comuns, na perspectiva de objetivos comuns.

Deixá-los sozinhos já está comprovado que o esquema da violência prolifera. Tê-los, de alguma maneira por perto, pô-los em atividades que resultem em benefícios próprios. Criar iniciativas que sirvam de celeiro de novas idéias no combate à violência. Montar estratégias que os envolvam em ações coletivas, que os despertem para a autovalorização, para o auto-respeito, elevando a auto-estima.

O processo, agora, é da aproximação, da infiltração, da análise das carências que se escondem atrás dos atos da bandidagem. Sabe-se que entre os favelados há uma certa cumplicidade, um forte espírito de coletividade. Os poderes locais, abrindo um canal de diálogo com os líderes infratores, estão abrindo força de comunicação com todo o grupo e podem trabalhar para alterar a situação.

A integração é uma forma de transformar a realidade e esta transformação está intimamente ligada à conciliação, à condição e perspectiva de vida, à valorização pessoal. Atraí-los à participação, a interessar-se por algo que tenha significado e ligação direta com suas vidas. Incorporar a contribuição que possam dar. É preciso mudar a tática, estabelecer um novo padrão de atendimento, dando ao desajustado armas para que possa, ele mesmo, encontrar soluções para seus problemas, para que se sinta capaz de atuar com responsabilidade.  A revolta, o abandono reforçam a bandidagem e, segundo consta, nas favelas, em todo o mundo , existe sensação de perigo, de hostilidade.

Trabalhar na criação de associações comunitárias, de centros de esportes, cuidar da educação, da saúde, dar ao bandido condições de competir. Incentivar procedimentos comuns e de valia, como são, por exemplo, os mutirões. Ensinar as comunidades a se organizarem, a se mobilizarem para conseguir recursos e, sem dúvida, ajudar pessoas que se ajudam é bem mais fácil. Trabalhando os líderes, é possível formar bases comunitárias fortes, capazes de se enveredarem pela senda do trabalho. O entrosamento é uma esperança de transformação. O isolamento significa manter o “status quo” reinante, com tendência a aumentar.

Mostrar interesse, dar suporte, atender reivindicações na criação de políticas integradas, fazem a diferença na vida das pessoas. Sob o aspecto de melhoria de condições de vida, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o projeto força-tarefa que visa melhorar moradias precárias nas favelas, na tentativa de urbanizá-las. O objetivo dessa força-tarefa, uma das dez criadas pela Declaração do Milênio, é melhorar as condições de vida de 100 milhões de favelados até 2020.

Em setembro de 2000, a Declaração do Milênio estabeleceu uma agenda com os principais problemas que impedem o desenvolvimento sustentável, sob três enfoques: paz, meio ambiente e pobreza. O Projeto Milênio criou 10 forças-tarefas, entre elas a que mostra a importância da questão das favelas.

Dada a relevância da situação, espera-se que o compromisso de abrandar a violência não seja apenas do governo, mas da sociedade como um todo, criando no Brasil, dentro da mentalidade exposta no artigo, um pacto social. Pacto que se reverteria em projetos para melhorar as condições de pessoas carentes, marginalizadas, aproximando-as da comunidade.

Estamos começando uma nova era na história da humanidade com a quebra rígida do isolamento existente entre as classes sociais?

Para novos tempos, novas metodologias!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2003)

O COMPUTADOR E A EDUCAÇÃO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

O computador é um excelente auxiliar na construção do conhecimento, em todas as fases da aprendizagem. Ele é útil desde a educação infantil, quando crianças são alfabetizadas através dele, e com vantagens.

A criança vai, aos poucos, manuseando o computador, explorando-o, conseguindo demonstrar que sabem e que são capazes de produzir. Diante do computador, a criança tem liberdade para criar, inventar palavras, histórias, desenhos, emocionar-se, estimular-se. Por isso, as crianças gostam muito de trabalhar com ele.

O computador dispõe as informações de maneira clara, objetiva, lógica, favorece a exploração espontânea e a autonomia na aprendizagem. Ele pede reflexão, atenção, definição do que se quer fazer. A criança aprende a se organizar e passar informações ordenadas, digitando corretamente.

O computador favorece a auto-aprendizagem, a autocorreção, porque dá um retorno imediato do processo de construção. Ele trabalha numa disposição espacial das informações que pode ser controlada, seqüencialmente, pela criança, desenvolvendo o seu campo perceptível visual e seu raciocínio lógico. As possibilidades enriquecem-se e trazem oportunidades variadas. Ao trabalhar imagens e textos de forma combinada, o computador ativa os dois hemisférios cerebrais.

No processo da aprendizagem, ele vem sendo apontado, por educadores, como um facilitador do desenvolvimento natural da expressão simbólica da criança no uso de caracteres gráficos. Esse fator é importante tanto na fase da alfabetização como no desenvolvimento posterior da leitura e da escrita. Vale a pena conferir.

Os projetos pedagógicos devem fazer com que o aluno use a tecnologia para pesquisa, trabalhos em equipe, para raciocinar e dialogar em um mundo interativo. O computador é uma ferramenta a mais na aprendizagem, de precioso alcance, mas não absoluto. Ele precisa estar conjugado a outros métodos pedagógicos, fazendo da educação um processo abrangente e reflexivo, como, por exemplo, a formação do hábito da leitura, seguido do debate, dotando as crianças de capacidade expressiva, de interpretação.

A leitura freqüente leva a uma melhor escrita, a um raciocínio mais apurado, a um mais alto nível de inteligência, a uma habilidade expressiva consistente. A psicologia vem demonstrando que existe uma correspondência estreita, uma forte correlação entre o nível de vocabulário e o quociente de inteligência, isto é, entre o domínio da linguagem e a inteligência. Quanto maior o número de palavras, quanto mais elaboradas as comunicações (por exemplo, entre crianças e pessoas adultas) mais potencializado fica o desenvolvimento da inteligência da criança.

Nas histórias, lidas ou contadas, deve-se ater à expressividade; ler ou falar com entonação, com ênfase, em determinados momentos, respeitando as pontuações, as exclamações, as interrogações, as reticências, despertando emoções, provocando reflexões, criando verdadeiros recitais. Esse ambiente de representação recupera a arte, que foi deixada para trás, da récita.

Um outro aspecto da função da escola é a passagem dos valores morais. A pedagogia nos ensina que justiça, solidariedade, tolerância, obediência às regras, respeito ao limite, são valores que se aprendem, como também se aprendem os antivalores: injustiça, crueldade, preconceito, egoísmo, desrespeito ou desprezo pelas normas.

A escola de educação infantil deve primar-se por formar moralmente as crianças, porque é nessa faixa de idade que se constrói o alicerce. Sabemos hoje que, ultrapassada a fronteira da infância, em torno dos 13 ou 14 anos, fase da adolescência, a mudança de personalidade torna-se muito difícil. “É de pequeno que se torce o pepino”.

É responsabilidade, pois, da escola infantil educar para os valores morais, assim como para a leitura, a escrita, a comunicação, habilidades que devem ser iniciadas desde cedo, durante a infância. Entre seus métodos de ensino, a inserção do computador não é mais escolha e, sim, necessidade. A criança fica em dia com as inovações da época. Enquanto brinca, enquanto aprende a lidar com o computador, alfabetizando-se, se conduzida com carinho, com diálogo, com a devida orientação pedagógica, ela vai se modulando, pouco a pouco, tornando-se um adulto responsável, altruísta, solidário com os demais seres humanos.

A escola infantil, por contribuir com esses atributos na formação da criança, é hoje, considerada o grande baluarte da transformação social, especialmente em termos de mudança comportamental. Ela é o alicerce da aprendizagem global, a que deixa a criança pronta para aprender. Alicerce do desenvolvimento cognitivo, afetivo, psicomotor.

Acordou-se para o importante papel da educação infantil. Na “Reunião das Américas para Avaliação da Educação para Todos”, realizada em São Domingos, capital da República Dominicana, em fevereiro de 2000, com a presença de ministros da educação da América Latina, Caribe, Estados Unidos e Canadá, colocou-se como prioridade, nas Américas, o investimento na pré-escola. O documento conclui: “A insuficiente atenção ao desenvolvimento integral das crianças na primeira infância é o principal responsável pelas altas taxas de evasão e repetência na escolaridade básica. A prioridade de investimentos na pré-escola deve ser a primeira, dentre as outras, por garantir o direito universal de uma educação de qualidade desde o nascimento”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2001)

HABILIDADES DO ALUNO SUPERDOTADO

Izabel Sadalla Grispino *

O artigo “Alunos de desempenho excepcional” provocou interesse de algumas escolas. Queriam um detalhamento de como reconhecer o superdotado, pelo comportamento e pelas habilidades demonstradas. Pesquisando mais sobre o assunto, surgiu uma sistematização esclarecedora.

Esse interesse das escolas é sumamente inteligente e salutar. Para exemplificar, citarei os Estados Unidos, onde a prática de investir em jovens talentos tornou-se uma política de governo, já no século passado. Os dados revelados são de que, em 1957, quando os russos deram a largada à corrida espacial, ao lançar na órbita terrestre o Sputinik, o primeiro satélite criado pelo homem, colocaram em xeque a supremacia científica americana. Como reação, os Estados Unidos empreenderam uma política feroz de caça a seus melhores cérebros, que perdura até hoje.

Isso reverteu em conhecimento avantajado. Um estudo feito em 80 países por economistas da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que as políticas de formação de talentos empreendidas pelas nações mais ricas do planeta foram, em muitos casos, a chave para sua prosperidade econômica.

Investir em alunos de altas habilidades significa enriquecer a sociedade, dando-lhe meios para entrar na concorrência altamente proveitosa. Traz vantagens imediatas aos estudantes superdotados e a longo prazo beneficia o país.

A escola deve se preparar para receber esses alunos. Deve haver, por parte dela, receptividade a eles, alternativas pedagógicas criativas e orientação aos professores. Os professores têm necessidade de cursos, estar preparados para esse atendimento. Não vai acontecer a inclusão do superdotado se o professor não receber uma capacitação, um apoio técnico-didático competente. Muitos se sentem despreparados e se valem da ajuda de parcerias com faculdades, secretarias de Educação, também, de professores itinerantes, que trabalham com alunos de altas habilidades.

O professor não deve supervalorizar o aluno superdotado perante a classe, colocá-lo num pedestal, criando situações de rivalidade, de discórdia. Deve tirar de todos os alunos o que eles têm para oferecer. Desenvolver o superdotado sem desprezar os demais, afinal todos têm talento, a diferença está nos níveis, como diz Vigotsky. Criar um ambiente amigável, porque o superdotado tem que conviver com seus pares e deve haver uma adequação, um entrosamento, que afastem o preconceito.

Essa é uma das preocupações da gestão inclusiva, em como atender as peculiaridades do superdotado sem discriminar os demais.

Os professores, geralmente, têm dificuldades de identificar alunos como superdotados, mas apontam os que aprendem mais rápido, são mais curiosos, perguntam demais, características que levam ao superdotado. Os especialistas costumam apontar 6 habilidades:

• Intelectual geral: curiosidade intelectual, poder excepcional de observação, capacidade de abstração mais desenvolvida e atitude de questionamento;

• Talento acadêmico: desempenho excepcional na escola, ótima performance em testes de conhecimento e alta habilidade para tarefas acadêmicas;

• Pensamento criativo: idéias originais e divergentes, habilidade para elaborar e desenvolver suas idéias, capacidade de perceber de muitas formas diferentes um determinado tópico;

• Liderança: líderes sociais ou acadêmicos de um grupo e que se destacam pelo uso do poder, autocontrole e habilidade em desenvolver uma interação produtiva com os demais;

• Artes visuais e cênicas: habilidades superiores para pintura, escultura, desenho, filmagem, dança, canto, teatro e instrumentos musicais;

• Psicomotora: proezas atléticas e também o uso superior de habilidades motoras e refinadas e habilidades mecânicas.

Para identificar uma criança superdotada, os especialistas no assunto indicam as seguintes características:

• Aprende mais rapidamente que seus colegas da mesma idade;

• Faz muitas perguntas, demonstrando uma grande variedade de interesses e curiosidades;

• Tem um vocabulário inusitadamente avançado para sua idade ou série, riqueza de expressão, elaboração e fluência;

• Tem um senso de humor altamente desenvolvido;

• É persistente no empenho em satisfazer seus interesses;

• É crítica de si mesma e dos outros;

• É sensível a injustiças, tanto em nível pessoal quanto em nível social;

• Não é propensa a aceitar afirmações, respostas ou avaliações superficiais;

• Apresenta desempenho acima da média em testes de inteligência.

Trabalhar esses alunos não é fácil, mas necessário. Confirmam os especialistas de que se esse potencial não é desenvolvido, muitas vezes, ele pode se perder na fase adulta, por falta de incentivo. O superdotado é um grande desafio para o professor, que se torna pólo de referência do desenvolvimento desse aluno. Deve ser treinado para identificar as crianças com habilidades especiais, reconhecer e responder à diversidade, acolher as diferentes potencialidades, características, ritmos de aprendizagem. As cobranças não devem ser acima do normal e, principalmente, não se pode perder de vista de que, acima de tudo, se trata de crianças.

Enquanto que no Brasil o Ministério da Educação (MEC) não incentiva a existência de escolas especiais para superdotados, apenas estipula a convivência deles em escolas regulares, nos países avançados, a busca de cérebros é preceito fundamental. Esses alunos têm acompanhamento intensivo de uma equipe de pedagogos e de professores treinados, capacitados para lidar com o superdotado. A atualização do professor, sua competência e seu devotamento são requisitos obrigatórios.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2005)

A BAIXA ESCOLARIDADE DO BRASILEIRO

Izabel Sadalla Grispino *

A população brasileira mostra um baixo nível educacional. Os anos de escolaridade ajudam na deficiência educacional, entretanto, alunos da 7.ª série do ensino fundamental não sabem somar, subtrair, dividir e multiplicar. Não sabem realizar operações, não aprendem, na escola, um aprendizado mais próximo da realidade da vida. A escola continua presa aos métodos tradicionais, de décadas atrás, com dificuldade em contextualizar o conhecimento. A escola ainda não percebeu a diferença entre texto e contexto.

CICLO BÁSICO NOS CURSOS SUPERIORES

Izabel Sadalla Grispino *

Como parte da reforma universitária, o Ministério da Educação (MEC) propõe a criação do ciclo básico de 2 anos para os cursos superiores. Um ciclo comum, freqüentado pelos alunos, com um grupo de disciplinas mais genérico, antes da oferta dos conteúdos específicos de cada curso. O aluno terá uma melhor formação geral, um tempo maior para definir com mais segurança a carreira a seguir. Irá exercitar melhor suas aptidões, informar-se com mais tempo sobre o mundo do trabalho e fazer a escolha de sua profissão com mais maturidade.

A idéia do ciclo básico vem sendo bem recebida pelos educadores que entendem ser a medida portadora de uma formação mais ampla aos estudantes, permite uma maior flexibilidade na troca de cursos e evita a especialização excessiva, que limita a formação.

A nova LDB da Educação substitui, no currículo, padronização por flexibilização. A reforma do ensino adota currículos que se norteiam pela interdisciplinaridade -- interligando as diversas áreas do saber – e pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação mais ampla, um conhecimento globalizado do assunto. Na universidade, corrige distorções do ensino superior e da especialização prematura dos cursos de graduação, realizados em departamentos, e cursos desintegrados dos demais. A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, favorecendo ao aluno uma escolha posterior, com mais convicção.

O ciclo básico retoma noções de universidade, afirmam os educadores. O foco deixa de estar no curso e passa à universidade. Os primeiros anos de graduação agruparão estudantes de cursos com demandas diferentes em atividades inter e multidisciplinares. Os cursos serão interligados e as disciplinas básicas oferecidas conjuntamente.

Essa iniciativa do ciclo básico já existe em algumas universidades brasileiras, como a Universidade de São Paulo (USP), que, já há algum tempo, mudou o currículo da Escola Politécnica e do curso de Letras. Para que o ciclo básico seja bem aplicado é preciso que conte com professores bem formados, treinados, com visão global das disciplinas. O que se espera é que não venham a se tornar uma forma de economia, especialmente para as instituições privadas de ensino. Que ele represente o alargamento das fronteiras do conhecimento, hoje tão necessário.

O ciclo básico exige, para tal, um currículo bem entrosado e professores qualificados. Esse processo reforça a idéia de reforma na estrutura administrativa do ensino superior, da divisão das universidades em departamentos. O que se pretende é acabar com as antigas cátedras, agrupar os professores em órgãos colegiados por afinidade de conteúdo de suas disciplinas. Essa medida começou a ser implantada há pouco mais de três décadas pelo regime militar, mas por razões oportunistas e burocráticas não foi levada adiante.

O ciclo básico envolvendo disciplinas comuns torna-se refratário à segmentação do ensino em cursos, departamentos e faculdades que não se comunicam entre si. A sua aplicação talvez comece por áreas afins. Com sua adoção, o estudante poderia fazer o vestibular para um conjunto de áreas, sem escolher antecipadamente uma. Essa escolha ocorreria a partir do 3.º ano.

A idéia do ciclo básico no ensino superior injeta princípios inovadores na universidade. Na licenciatura, poderá melhor preparar o professor para encarar as mudanças implementadas pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), melhor entender o ciclo básico na progressão continuada do ensino fundamental. O que precisamos é de avanço na educação. É lamentável abrir o jornal e deparar com o resultado de uma avaliação do ensino médio, revelando que “a escola brasileira ensina menos que o mínimo”.

O Sistema de Avaliação do Ensino Médio (Saeb) divulgou, em 16 de junho corrente, um resultado demonstrando que, depois de três anos em queda progressiva, o ensino não avançou praticamente nada. Revelou, segundo o MEC, uma pequena tendência de melhora, que se pode dizer ser meramente estatística. Na realidade, não se percebe nenhuma mudança na qualidade de ensino, ensino que não consegue ir além do mínimo. Metade dos alunos não sabe nem português, nem matemática. Mostrou uma situação muito grave na 3.ª série do ensino médio, onde de cada 10 alunos 7 apresentam um nível de conhecimento considerado “muito crítico”. Na 4.ª série do ensino fundamental, 5 entre 10 alunos não dominam as quatro operações aritméticas e não conseguem ler e compreender textos simples e curtos. São crianças consideradas alfabetizadas, mas que não passam de analfabetas funcionais.

Revelou, também, que nem os alunos de colégios particulares chegam, na maior parte dos Estados, a atingir a média considerada adequada para as séries avaliadas. Constatou-se que o ensino público está ruim e que o ensino privado, salvo exceções, está longe do ideal. Os alunos terminam o curso sabendo bem  menos  do que deveriam. Embora as condições de ensino, na escola particular, sejam melhores, com recursos disponíveis superiores, o ensino fica a desejar. Esses alunos demonstraram um desempenho medíocre.

O presidente do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep) – Eliezer Pacheco – considerou que “a causa principal do nível insatisfatório dessas escolas está na formação dos professores, que não é adequada, o que acaba influenciando, também, no ensino privado”.

O Saeb mostrou a importância da formação dos professores. Quando o profissional tem apenas o ensino médio, a pontuação média dos alunos fica em 157 pontos. Se a formação é superior, a média dos alunos chega a 172 pontos. Mas, no geral, o que se constata é uma formação insuficiente, necessitada de reforço em conteúdo acadêmico e em metodologia.

Espera-se que, com a criação do ciclo básico de 2 anos, o ensino superior traga renovações, conteúdo abrangente e ensine o professor a trabalhar com métodos atualizados, interdisciplinares, revertendo a tendência tradicional que ainda persiste.

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em junho/2004)

MUDANÇAS NA REFORMA DO ENSINO

Izabel  Sadalla Grispino *

Muito já se tem falado ou escrito sobre a reforma do ensino, mas o que parece é que ela está sendo sofrivelmente entendida e aplicada, em boa parte das escolas. Hoje, se preconizam voluntários da educação, pessoas da comunidade, da sociedade em geral, que, de alguma forma, possam contribuir com a escola, enriquecer seu conhecimento, seu currículo, inclusive sob a forma de atividades aos alunos. Este artigo engloba o objetivo de fornecer às escolas subsídios à reflexão sobre a nova realidade escolar, inscrita nas proposições emanadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

A escola precisa fornecer parada para a meditação, para a reequilibração num processo de feed-back. “Um professor que não pára para rever sua prática pedagógica, se ver em atuação, trocar com seus pares, é um professor literalmente tragado pela “fazeção” do dia-a-dia, que acaba ficando sem sentido”. (Paulo Freire)

Surge uma nova concepção de currículo e, com ele, uma nova concepção de escola. Nova em seu formato, em seu funcionamento, em sua organização, requerendo uma profunda revisão das metodologias de ensino. Uma escola que deve estar apoiada em avaliações periódicas, renovando-se, ajustando-se a um mundo em permanente mutação, para o qual o ensino tradicional tornou-se inapropriado, obsoleto.

Revoluciona-se o conceito de currículo, que tem, agora, sua maior característica na flexibilização. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a flexibilização na organização de cursos e carreiras e por isso torna possível a mudança que vale tanto para as escolas públicas como para as privadas. A idéia central é substituir a atual estrutura curricular, baseada em disciplinas e carga horária fixa, por outros modos de organização. Na educação básica por: “séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência” e em outros critérios e formas diversas de organização, como módulos, reclassificação de alunos, aceleração da aprendizagem... No ensino superior a LDB prescreve que “alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos... podem ter abreviada a duração de seus cursos”.

O novo currículo substitui padronização por flexibilização. Vivemos numa sociedade plural, plural que deve ser usado para o enriquecimento, para o acréscimo, não para a unificação. A reforma adota currículos que buscam a cultura compartilhada, atualizada, incluindo a informal, onde a leitura de jornais e revistas deve ser pensada como uma de sua parte integrante. O currículo formal só é autêntico se apoiado no currículo oculto, oriundo da vida do aluno, sua cultura, suas variadas influências. O projeto pedagógico da escola precisa contemplar o contexto sociocultural, trabalhar a metodologia interativa, interdisciplinar, contextualizada, com o foco do currículo caracterizado mais por competência cognitiva de caráter geral que por informações. “No lugar de uma cabeça bem cheia, uma cabeça bem feita”, nos ensinava no século XVII o pensador francês Montaigne.

As modernas teorias pedagógicas têm suas raízes no passado, foram estruturadas ao longo dos séculos. Reforçam, entre outras, o pragmatismo lançado pelo educador norte-americano John Dewey, que antes da década de 30 dizia: “Escola é vida, não é preparação para a vida”. Propunha que a escola desenvolvesse aptidões e habilidades nos alunos por meio de experiências vividas; é o famoso “aprender fazendo”. Piaget e Bruner, influentes mentores da educação moderna, na 2ª metade deste século, possibilitaram-nos a formação de programas de ensino mais realistas, conteúdo mais acessível, métodos de ensino e de aprendizagem mais adequados aos alunos. “O aluno é um ser que interage com a realidade”, dizia Piaget.

As disciplinas tradicionais do currículo devem estar relacionadas aos aspectos essenciais da vida do cidadão, como ética, saúde, meio-ambiente,  movimentos  culturais,  sexualidade,  pluralidade  cultural,  mito  da democracia

social, vivência familiar, social e outros. Esses temas serão incluídos e trabalhados em associação às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais”. A escola abre oportunidade para que os alunos aprendam temas normalmente excluídos e atua propositadamente na formação de valores e atitudes.

O currículo de todos os níveis de ensino contém uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com as “características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB). Deve nortear-se pela interdisciplinaridade –  interligando as diversas áreas do saber  – pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação geral mais ampla e a contextualização buscará solução dos problemas sociais no seu trato com o cotidiano.

INTERDISCIPLINARIDADE – As disciplinas inter-relacionadas fornecem ao aluno um conhecimento globalizado do assunto. Na universalidade, por exemplo, vem corrigir distorções do ensino superior e da especialização excessiva dos cursos de graduação realizados em departamentos e cursos desintegrados dos demais. Hoje, os profissionais mais qualificados para o mercado de trabalho são os chamados especialistas generalizantes, que, junto ao conhecimento de sua área e especialização, devem ter a capacidade de adquirir informações sobre outras áreas, facilitando o conhecimento do papel de outras pessoas e uma melhor interação entre elas.

A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, o que faz repensar na forma atual do exame vestibular, que força o estudante à escolha precoce, a uma especialização com escolha preestabelecida.

CONTEXTUALIZAÇÃO – O ensino das disciplinas tradicionais deve estar relacionado aos contextos: trabalho, ambiente, convivência social, movimentos culturais e outros. Estes relacionamentos rompem com o modelo de educação, no qual o aluno não sabe aplicar na vida a teoria aprendida na escola.

Ao evitar conhecimentos descolados da realidade, a escola afasta o enciclopedismo dos currículos, colocando os objetivos do ensino próximos ao dia-a-dia da sala de aula. A nova proposta parte do pressuposto de que o conhecimento não está mais parado nas enciclopédias, ao contrário, sofre mudanças espantosas.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2000)

A POBREZA E O ENSINO SUPERIOR

Izabel Sadalla Grispino *

A realidade brasileira é marcada por forte desigualdade social e um caminho a trilhar, nessa direção, é a educação. O acesso ao 3.º grau é uma das formas mais seguras de ascensão social no Brasil. A população carente começa a entender o processo, a necessidade de se cursar uma universidade para se afirmar socialmente.

 

O NÍVEL SOCIOECONÔMICO E A APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

Comprovadamente, o nível socioeconômico dos alunos repercute no seu desempenho escolar. A condição social e familiar são fatores que influenciam a aprendizagem.

O Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), de 2004, anexou à prova de leitura um questionário aos alunos da 3.ª série, sobre sua condição de vida, dedicação à escola e escolaridade dos pais.

O desempenho geral da série, sem levar em conta a condição dos estudantes, foi de 0,3% no nível ótimo de leitura, 5,8% no muito bom, 27,1% no bom, 37,7% no regular, 12,1% no insuficiente e 17,1% no abaixo do insuficiente. Os alunos da 3.ª série tiveram resultados semelhantes aos apresentados nas demais séries.

Um cruzamento de dados revelou que mais de 60% dos alunos que vivem em casas sem luz elétrica, por exemplo, ficaram em níveis de leitura insuficiente ou abaixo de insuficiente. As notas ruins se repetem entre os que moram em ruas sem calçamento ou casas que não têm água encanada.

A escolaridade dos pais também revelou conseqüência ao desempenho do aluno na prova. Mais de 54% das crianças cujas mães ou pais nunca estudaram estão nos piores níveis, significando que elas não são capazes de ler qualquer tipo de texto apresentado no exame, mesmo tendo, no mínimo, 9 anos de idade; a maioria tem mais.

Quando os pais cursaram o ensino superior ou mesmo o ensino médio, mais de 40% dos filhos estão nos níveis bom, muito bom e ótimo de leitura. Já compreendem trechos de reportagens, fábulas, propagandas em histórias em quadrinhos.

A tabulação mostrou, ainda, a influência negativa de defasagem entre idade e série. Mais de 67% das crianças que têm 13 anos ou mais e continuam na 3.ª série se encontram nos níveis insuficientes ou abaixo de insuficiente. Entre os que estão com 9 anos, 24,4% tiveram esse desempenho e 75,6% ficaram acima do nível regular, isto é, acertaram mais de 50% das questões.

Um grande princípio pedagógico é a escola aproximar-se da vida de seus alunos. Conhecer a realidade que os cerca e suprir, de alguma forma, as deficiências encontradas. Alunos marcados pela pobreza, pela ausência de bens culturais, devem encontrar na escola meios de suprir suas necessidades. Se moram em localidades onde não há eletricidade em casa, não têm, nessas condições, acesso à TV, ao vídeo, ao computador, sem falar das condições financeiras que não permitem tais comodidades.

A escola pública oferece a possibilidade de reposição desses recursos, que auxiliam a aprendizagem? O professor não pode se valer da idéia de que o aluno não vai aprender porque é pobre. Não pode se apoiar em suas condições de pobreza para justificar seu atraso. A escola tem que se preparar para desenvolver esses alunos, chegar até eles, reconhecer suas falhas, suas dificuldades e trabalhar as deficiências apresentadas.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), no tópico “A inclusão do aluno à escola”  (pág. 55) eu digo: “Um dos objetivos prioritários da escola refere-se à inclusão do aluno no ambiente escolar. Em muitas localidades, especialmente nas periferias, é necessário incentivar o aluno a ir à escola, fazê-lo trocar o cotidiano das ruas pelo da escola. Nessas regiões, a escola compete com a rua... A escola precisa adotar projetos que resgatem a cultura popular da região. A construção da identidade, com base na educação que leva em conta as raízes, ajuda as novas gerações a manter o vínculo com a terra, sua gente, suas tradições.

O nível socioeconômico é um forte ponto a se considerar, tem séria influência, séria repercussão no andamento do projeto pedagógico e a ele deve ser ajustado...

O objetivo maior da educação é o aluno, ajustar-se a ele, conquistá-lo, ajudá-lo no desenvolvimento de sua personalidade, significa ganhar esse aluno para a escola... Tudo em educação gira em torno do aluno, em torno de sua boa formação... A escola não pula etapas, não tem como “fazer de conta”; a realidade é seu espelho, seu suporte, sua consistência. Ela parte do nível encontrado, seja do mais elementar e busca atingir um nível mais elevado, numa progressão continuada. Vale-se da conceituação de que a sala de aula é uma comunidade de investigação, um espaço de relações humanas, um lugar de interação social, zona de desenvolvimento proximal (Vigotsky). O grupo é sempre heterogêneo. O professor deve ficar atento às diferenças individuais, às diversidades e valorizá-las...

A escola vale-se da alternativa de que a escolaridade é a variável capaz de eliminar as diferenças sociais. “Educação é um ato de amor, de conexão, um ato de responsabilidade, de compromisso, de consciência social”.

A escola, imbuída desses conceitos, saberá encontrar o caminho da realização do aluno carente. Saberá programar ações, currículos, capazes de alcançar esse aluno. Saberá prever-lhe em seus projetos pedagógicos um lugar de tratamento adequado, definindo instrumentos que cheguem até ele. A escola abraçará o desafio de vencer a crise de aprendizagem, descobrindo o potencial do aluno, indo a ele não pelas deficiências, mas pelo que ele pode oferecer.

Esse comportamento da escola é inevitável. Com pesar vemos a divulgação da avaliação do Saresp, em que o maior contingente  dos alunos das escolas estaduais de São Paulo tem nível regular de leitura. Isso significa que muitos deles, dependendo da série, não são capazes de interpretar um texto, se os conteúdos não forem explícitos, identificar a seqüência dos fatos em uma reportagem ou perceber a ironia na literatura, informa o resultado do Sistema de Avaliação do Estado de São Paulo (Saresp).

O Saresp assinalou que a maioria das crianças que não freqüentou pré-escola se saiu pior e isso reforça a importância da educação infantil.

Quando uma boa parte dos alunos não aprende a falha é da escola. É ela quem precisa mudar, rever seus métodos de trabalho e atuar de maneira mais eficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2005)

ESCOLA E FORMAÇÃO DE VALORES, POR SUA EDUCAÇÃO INTEGRAL

Izabel  Sadalla Grispino *

Tem-se hoje que a evolução humana é basicamente cultural. O fator genético permite posturas biológicas iguais, mas só é possível alterar o futuro de uma criança investindo em sua educação. Segundo estudos do Genoma, tudo o que somos tem razão genética, porém, costumes, características de vida são incorporados a partir de uma herança cultural local.

Educação é um processo constante de renovação. Educador é a pessoa compromissada com o outro. Para se achegar ao outro e ajudá-lo, deve inserir-se num mundo que exige atualização constante, revisão sucessiva de métodos e técnicas. Ele tem a função da pesquisa, da reflexão contínua sobre sua prática pedagógica do dia-a-dia, colocando-a a serviço da exigência atual.

O ensino escolar não pode estar desvinculado do que acontece no mundo. O mundo ficou muito complexo e tem, com razão, intimidado o professor. Transformar a escola é uma grande revolução. O professor, em geral, tem deficiência de formação, tem dificuldade para adequar o programa à realidade vivida pelos alunos, e fica, assim, preso ao livro didático. Ele é um profissional gravemente injustiçado, desvalorizado. Aviltantes salários forçam-no a uma sobrecarga de trabalho, roubando-lhe tempo precioso à sua reciclagem. O próprio MEC revela que baixos salários, falta de infra-estrutura das escolas e baixa qualidade de vida constroem o quadro de fracasso escolar que se vê hoje.

Johan H. Pestalozzi (1740-1827), um clássico da Pedagogia e considerado o pai da educação integral, dizia: “O amor é o instrumento da educação”. É esse amor que inspira o professor, que o leva a sublimar sua função, caminhando em correspondência ao pensamento: “Mesmo correndo entre pedras, as águas cumprem sua missão. As árvores plantadas são testemunhas disso”.

Recentes pesquisas têm mostrado que a grande maioria das escolas vem-se negligenciando da parte formativa do aluno, com reflexos negativos no comportamento social. A escola tornou-se uma entidade repetitiva de informação, sem priorizar a educação integral, nos aspectos: cognitivo, afetivo, psicomotor. A educação integral engloba comportamento e conhecimento. A construção do conhecimento, o desenvolvimento das habilidades, devem processar-se paralelamente à formação do educando. Formação das capacidades cognitivas de caráter geral e formação de valores, de ordem ética, moral e religiosa.

A abordagem holística do homem é hoje prioritária em todos os setores. No diagnóstico da doença, examinam-se componentes genéticos, emocionais e ambientais. Saber ler, escrever, contar, raciocinar, é pouco, tem que haver a cultura mais profunda da alma, do sonho, da criatividade.

A escola precisa repensar sua atuação e, num processo de reeducação, tornar-se uma unidade formadora de caráter, de cidadania.

Cidadania não é ensinada como uma disciplina, ela se aprende na vivência, na convivência. É um exercício que se conquista na exigência da ética, da justiça. É o respeito que se tem pelo outro, por sua identidade, pelos bens alheios, pelo patrimônio coletivo, pelo sentido de igualdade de condições. Implica em comportamento responsável, em noção de limite, dentro do preceito de que o direito de cada um termina onde começa o do outro. Já dizia Rui Barbosa: “Educa-se muito mais pelo exemplo que pela doutrina”.

Estamos vivendo uma sociedade violenta, individualista, arbitrária. Formam-se grupos oportunistas, que não têm outra finalidade senão a de se promover e a de tirar proveito do outro. O outro só existe como elemento de conveniência. Uma sociedade onde os fins justificam meios ilícitos, desumanos, onde Deus é uma presença vaga, indefinida, distante. Uma sociedade sem luz, sem fé.

É, principalmente, neste quadro social que se pensou na volta do ensino religioso como obrigatório, não mais como facultativo, conforme reza a Constituição.Por tudo isso, começa haver uma preocupação de educadores de que valores sociais, como amizade, amor, solidariedade, cooperação, lealdade... devam fazer parte dos currículos escolares. Montam projetos que vêm de encontro à proposta do MEC, quando fala em currículos transversais. Permeiam a educação com temas transversais, como política, sociedade, sexualidade, droga, ética, cidadania e outros.

São temas tratados não como disciplina específica, mas como um espaço a ser discutido em sala de aula, por um componente ou por vários. Dependendo da abrangência do tema, projetam atividades interdisciplinares, como um leque de assuntos ofertados. Cada disciplina encontrará um conteúdo correspondente.

É a escola exercendo sua função social na orientação dos jovens, na formação de uma sociedade mais humana, mais ordeira, criando vínculos de inter-relações humanas.

Até recentemente, o grande objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro. Hoje, o grande intento é prepará-lo para o presente, para a resolução de seus problemas imediatos, de suas necessidades atuais. Preocupa-se com sua inserção em uma sociedade produtiva, ética, solidária, capaz de ajudá-lo, de maneira saudável, a se realizar. A escola faz uma ponte, ligando a percepção do aluno entre o que aprendeu e a vida. Ele se apodera do saber e aplica-o à sua vida do dia-a-dia, vivencia na escola comportamentos salutares e os desenvolve na comunidade, na sua vida social. A  aprendizagem vai se processando a partir de sue próprio interesse e das condições ambientais que o cercam.

A escola trabalha o presente, ousa, alça vôos, para alcançar o futuro. Busca integrar-se no conceito apregoado pelo consultor americano Michael Hammer: “O segredo do sucesso não é prever o futuro. É preparar-se para um futuro que não pode ser previsto”.

Para tanto, diferentemente do passado, o aluno não consome, mas produz o conhecimento e, assim, como o professor, torna-se um pesquisador permanente, um observador zeloso das relações interpessoais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2000)

PARÂMETROS DE QUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

O Estado de São Paulo, por sua Secretaria Estadual da Educação, realiza mudanças no seu sistema de ensino. Iniciou, em maio p.p., com um novo sistema de avaliação. Todas as escolas da rede estadual passaram a adotar um mesmo padrão de médias bimestrais, com notas em números inteiros que vão de zero a 10. Os valores decimais são arredondados para cima. A proposição foi mudar a avaliação da progressão continuada, do ensino fundamental, que passou a ser de cada 2 anos e não mais de 4.

Recentemente, um mês depois, em junho, a Secretaria montou um esquema de controle de qualidade de ensino: a partir de 2008, o ensino médio receberá um material didático, elaborado pelo Estado, para cada uma de suas séries. Após essa primeira etapa, a Secretaria fará o material para o ensino fundamental, de 5.ª à 8.ª série; uma versão para professores e outra para alunos. Para a 1.ª à 4.ª série, o Estado vai utilizar o material já produzido pela Prefeitura de São Paulo, com seu enfoque em leitura e escrita.

Essas preparações fazem parte do projeto intitulado “Percurso de Aprendizagem”. O objetivo do projeto é delinear o conteúdo mínimo que os alunos das escolas públicas devem aprender, conteúdo que será cobrado em exames, como no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), avaliação externa à escola que visa aferir o rendimento escolar da rede pública de ensino.

Os materiais didáticos têm como suporte os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) no fim dos anos 90. Os Parâmetros foram criados para servir de referência, de orientação, à elaboração de currículos às escolas públicas e privadas do País.Fornecem recomendações gerais para as disciplinas, enfatizam a ministração do conteúdo, sem fim em si mesmo, trabalhado por meio do desenvolvimento das competências e das habilidades dos alunos.

Os materiais elaborados pelo Estado abordam áreas de estudos semelhantes às dos Parâmetros. Não são divididos em disciplinas e sim em três grandes áreas: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, que incluem matemática, física, química e biologia; Ciências Humanas e suas Tecnologias – história, geografia, sociologia e filosofia; e Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – língua portuguesa e literatura, artes, educação física, língua estrangeira.

Esses materiais serão como guias e trarão síntese de conteúdos, indicações bibliográficas, recomendações de estudos e exercícios. Segundo a Secretaria, eles não substituirão o livro didático. Diferentemente dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), o material, elaborado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, vai além das recomendações gerais para as disciplinas, vai conferir, posteriormente, em avaliações, sua aplicabilidade.

O professor deverá fazer uma adequação do livro didático ao novo material, processo, hoje, nada fácil ao professor. Buscam-se caminhos revigoradores do processo ensino-aprendizagem, mas essas inovações cairão em terreno fértil, adubado para a nova colheita?

Continua-se o processo de reformar a casa pelo teto, deixando as paredes trincadas, o alicerce abalado!

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em agosto/2007)

PLANO PILOTO DA SECRETARIA ESTADUAL DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Entre as medidas tomadas pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo para combater a evasão e a repetência estão, sobretudo, a reorganização do ensino fundamental, as classes de recuperação, as classes de aceleração da aprendizagem e a aprovação automática, conseguida através da formação de ciclos do ensino fundamental. O fim da reprovação limita-se ao 1.º grau, mas ao aluno do ensino médio propõe-se que possa ser reprovado em até 3 disciplinas e cursá-las no ano seguinte, em sistema de dependência.

A REORGANIZAÇÃO DAS ESCOLAS DO ENSINO FUNDAMENTAL – A Secretaria da Educação considera que a redução das taxas de reprovação e evasão confirmadas, segundo ela, pelas últimas pesquisas, é “fruto principalmente das classes de aceleração e da reorganização, a qual foi feita em cerca de 80% das escolas, no ano de 1997”.

Desmembrou o ensino fundamental em dois blocos: de 1.ª à 4.ª série e de 5.ª à 8.ª série, colocando-os a funcionar em prédios distintos. Ao agrupar alunos do primeiro bloco num mesmo estabelecimento de ensino e os do segundo em outro, a Secretaria da Educação organizou o material pedagógico para essas séries, o que possibilitou a instalação de equipamento de acordo com a necessidade do currículo. A ambientação das escolas contribuiu, acredita ela, para melhorar o desempenho dos alunos.

CLASSES DE RECUPERAÇÃO – As classes de recuperação são usadas como estratégia para evitar a repetência. Elas foram tornadas obrigatórias pela Secretaria da Educação a partir de 1997 como meio de recuperar alunos do ensino fundamental e médio.

As escolas adotaram três tipos de recuperação: recuperação paralela, reforço no período de aula e complementação nas férias. Alunos que foram reprovados nas escolas da rede estadual no ensino fundamental passam as férias de janeiro nas salas de aula, com o objetivo de dar-lhes nova chance para recuperar-se. Elas valem como oportunidade para o aluno passar de ano.

Estabeleceu a Secretaria da Educação que os critérios para a avaliação dos alunos, incluídos nesse programa especial de férias, serão definidos por escola.

ACELERAÇÃO DA APRENDIZAGEM – Esta é outra prática pedagógica que visa combater a repetência. O levantamento estatístico constatou, conforme o MEC, o grande descompasso existente entre a idade do aluno e a série cursada. As oito séries do 1.º grau são alcançadas pelas pessoas em média com 18 anos de idade; deveria ser aos 14 anos, o que mostra que a questão da defasagem escolar é significativa no país. Aos 10 anos, os alunos estão, em média, na 2.ª série, quando deveriam estar na 4.ª. Aos 7 anos, cerca de 14% das crianças ainda estão em pré-escolas.

O Censo Educacional de 1996 revelou que, dos 5,7 milhões de estudantes matriculados na rede pública e privada, 54% estão acima da faixa etária ideal; revelou também que no ensino fundamental, para cada 100 alunos que entram na 1.ª série, 44 repetem algum ano. No ensino médio, a repetência atinge 34% dos alunos na 1.ª série.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) permite que um aluno mais interessado possa avançar rapidamente e “queimar etapas” de ensino. Permite que se faça a trajetória com mais rapidez, aproveitando a aprendizagem feita fora da escola. A forma de “queimar etapas” será definida pelos Estados.

O programa de classes de aceleração foi instalado em 1997 pela Secretaria de Estado da Educação e é hoje adotado em outros Estados do País. Essas classes tentam evitar as muitas repetências e destinam-se a alunos com idade avançada para a série cursada.

As classes de aceleração iniciaram-se em dois ciclos, integrando o aceleração 1 com crianças de mais de 10 anos e ciclo básico (1.ª e 2.ª séries) e o aceleração 2 para alunos de 3.ª e 4.ª séries com mais de 11 anos. As classes devem ter no máximo 25 alunos. A jornada diária é de 5 horas.

Os alunos recebem – ou deveriam receber – aulas com metodologia especial, material específico e, de acordo com o MEC, professores treinados. Depois de um ano de estudos, os alunos do acelerado 1 devem estar aptos para ir para a 4.ª série ou acelerado 2. Os do acelerado 2, para a 5.ª série. O currículo é o mesmo que nas demais classes, a diferença está na forma do ensino.

As classes de aceleração estendem-se às demais séries do ensino fundamental e a tendência é de que projetos de aceleração ocorram principalmente nos cursos noturnos regulares. A partir de março de 1999, foram implantadas, nas escolas estaduais, classes de aceleração para alunos de 5.ª à 8.ª série do ensino fundamental. O objetivo é o mesmo das de 1.ª à 4.ª série, ou seja, corrigir as distorções idade/série. No ensino médio, por ser só três séries, não haverá aceleração.

Os professores dão aula a partir de projetos temáticos, escolhidos pelos alunos e exploram o senso crítico e a experiência de vida desses alunos. Segundo Ruy Berger Filho, integrante do MEC, as escolas poderão optar por colocar esses alunos, com distorção idade/série, em uma mesma turma e aplicar o ensino modular, pelo qual se estipula um conjunto pequeno de disciplinas em um bloco de estudo, trabalhando em prazo menor do que o normal. O aluno cumpre o currículo de dois anos em um, passa a freqüentar, no final do ano letivo, uma série mais adequada à sua idade.

O MEC vem auxiliando as escolas, oferecendo material didático específico para as classes de aceleração da aprendizagem. Os livros do programa são desenvolvidos em uma linguagem mais próxima do aluno com idade avançada.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2000)

A DIFÍCIL ARTE DE EDUCAR

Izabel Sadalla Grispino *

No meu artigo “A outra face da educação” abordei a crescente onda que se forma de crianças e jovens malcriados, em desencontro à boa educação. O grande mal-estar gerado leva os próprios jovens a solicitar o ensino da ética, da moral, nas escolas de ensino médio, segundo uma pesquisa realizada pela U.F.P.A.

A ESCOLA FRENTE À ERA INFORMATIZADA

Izabel Sadalla Grispino *

Provocar reflexões sobre as mudanças que a época vem requerendo é um passo avante para a necessária mudança de mentalidade. As instituições devem promover debates, articulando interesses tradicionais e interesses inovadores. A transformação do mundo é matéria-prima do currículo. A escola precisa trabalhar com essa transformação. Precisa reconhecer a importância da contribuição interdisciplinar, multidisciplinar, trazendo uma globalização positiva. Precisa, nos países em desenvolvimento, como é considerado o nosso Brasil, ousar para diminuir a distância, cada vez maior, que separa os países ricos dos pobres. Os debates para produzirem o efeito desejado não podem acontecer aleatoriamente; precisam ser planejados e fundamentados nas teorias subjacentes. Conhecer os princípios filosóficos, que vêm norteando a reforma do ensino, consolida o entendimento.

Com as mudanças da reforma do ensino, propostas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), em atendimento à nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), surge um novo conceito de currículo, no qual o enciclopedismo é posto de lado e se prioriza a realidade vivida pelo aluno, seu cotidiano. Um currículo flexível, que se ajuste à era informatizada, onde a escola, no processo ensino-aprendizagem, busque a relação entre conhecimento e vida, a articulação entre teoria e prática. Uma escola que ofereça experiências sintonizadas com a família, com a comunidade, que se adapte  para receber o aluno. Não é mais o aluno se adaptando à escola, mas esta ao aluno.

O educando não pode mais esperar sair da escola para pôr em prática o que aprendeu, tem que relacionar o seu aprendizado com o momento de seu estudo, porque a cada 6 meses, um ano, temos renovações drásticas no conhecimento humano. Diferentemente do passado, quando o grande objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro, entende que o futuro não se faz amanhã, se faz hoje. Estabelece com o aluno uma relação dialógica e dinâmica, deixando o sistema tradicional da transmissão mecânica dos conhecimentos prontos e acabados. A escola do momento é da pesquisa, do raciocínio, da crítica, aliados à iniciativa, à criatividade, à improvisação, à intuição, onde a decoreba não tem mais lugar. É uma escola que prima pela qualidade. Não despreza a quantidade, mas trabalha a qualidade. Quanto mais qualidade mais fácil atingir a quantidade. A quantidade será o termômetro da qualidade.

No presente, com a facilidade do acesso às informações, disponíveis na mídia, na Internet, o papel do professor mudou. Sua função primordial, agora, é a de desafiar o aluno, orientá-lo a hierarquizar e organizar de forma crítica as informações às quais tem acesso. A escola tem que repensar a educação, repensar o conceito de aula, estimular a “imaginação pedagógica”, como queria Anísio Teixeira. O modelo atual está ameaçado. Quem ensina, hoje, precisa estimular a inteligência, não apenas a cognitiva, mas as inteligências múltiplas; não deve ser mais um mero provedor do conhecimento. Precisa reconhecer o conjunto das capacidades do aluno, considerar também o conhecimento informal. O enfoque do conteúdo mudou e a mudança precisa estar inscrita na ação pedagógica.

A escola precisa refletir o que a mídia faz na sala de aula, abrir-se para recebê-la, criar espaço para a conversa, para o diálogo, fortalecendo o espírito crítico. Deve enfrentar a mídia, não com a falsa ilusão de vencê-la, mas de entendê-la, de enriquecer-se com ela. É como se diz: “Se não vencê-los, junte-se a eles”.

Hoje, a leitura do conhecimento é uma rede. A escola é só mais um espaço, não é mais propriamente o lugar da informação, mas o lugar do que fazer da informação, que mediação o professor pode ter. Refletir, por exemplo, como é que se cria, como é que se relaciona, como é que se analisa. No fundo, o professor precisa ser capaz de gerenciar uma sociedade de conhecimento. Escola, cada vez mais, está tendo papel mais educativo que informativo.

A sociedade tecnológica força a mudança do papel da escola. As universidades não são mais vistas como locais de instrução definitiva. Na sociedade tradicional, a escola era o lugar privilegiado do saber, a instituição responsável pela

transmissão social e cultural.  O  professor  era  a  principal  fonte  de onde  emanava  todo  o  conhecimento  que as novas  gerações precisavam adquirir.  Ele  era considerado como um “capital profissional”, como um “capital de sabe-

res”. A passagem do saber do mestre aos discípulos dava-se num processo de comunicação unidirecional, o velho “magister dixit” ( o professor fala e os alunos escutam). A transmissão era basicamente oral e o que interessava era a reprodução fiel do texto. A memória humana era usada pedagogicamente para a repetição exata. Os próprios professores foram formados nesse tipo de ensino, tudo textual, sem imagens, sem cores, sem sons, sem movimentos, bem

diferente do que a TV, o videocassete, o videogame e outros, produzem no comportamento das crianças, dos jovens e dos adultos de hoje. Somos da geração alfabética, da aprendizagem por meio do texto escrito, da leitura do livro. Valorizamos apenas um segmento do conhecimento: a palavra oral ou escrita, deixamos de lado a leitura das imagens, dos sons, dos movimentos. Os alunos de hoje aprendem em variadas situações, o mundo deles é polifônico e policrônico. Suas formas de raciocínio não são mais lineares: introdução, desenvolvimento e conclusão, mas envolvem aspectos globais, o físico, o afetivo, o cognitivo, o intuitivo. Comportamentos de aprendizagem mais abrangentes, diferente da lógica racional que prevalece, ainda, na aprendizagem escolar. A escola continua a mesma, não está fácil a ela abraçar essa fase de transição entre a concretude do texto impresso e a pluralidade do texto eletrônico.

A escola precisa aproveitar a riqueza dos recursos externos, não para reproduzi-los em sala de aula, mas para orientar as discussões, preencher as lacunas. A proposta é de que, ao lado dos aspectos de memorização, verbalização e reprodução, que continuam existindo na docência, sejam abertos espaços para o envolvimento integral do aluno, que a aprendizagem envolva o racional e o emocional, a análise lógica ao lado do imaginário, da inventividade, da imagem e do som. Que professor e aluno reflitam juntos sobre a criação, sobre como enfrentar os desafios.

A escola deve levar a TV para a sala de aula e junto com os alunos fazer uma leitura crítica da programação. Esta pode ser uma das principais armas para enfrentar esse poderoso meio de comunicação.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2000)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

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