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Artigos Educacionais

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A BUSCA PELA BOA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

A sociedade do conhecimento, ao exigir uma educação de qualidade, está conduzindo os pais, com poder aquisitivo, a procurar a melhor escola para seus filhos., mesmo porque já se começa a questionar a qualidade de muitas escolas particulares. É uma busca criteriosa, ressaltando princípios, programas, metodologias, funcionamento, capazes de produzir uma aprendizagem atualizada, prática e eficaz.

Vem se notando uma concorrência salutar entre as escolas particulares. As melhores encaminham-se para o aprimoramento de atitudes, conceitos e infra-estrutura. Selecionam seu corpo docente, com professores titulados, experientes e uma equipe pedagógica interdisciplinar: pedagogos, psicólogos e outros.

As boas escolas apresentam um projeto pedagógico consistente, com uma concepção clara de educação, um aprendizado feito através de projetos de ensino. Apresentam um currículo plural, atualizado, contemplando as várias áreas do saber, com inclusão dos temas transversais.

A linha pedagógica não é exclusiva, seja a tradicional, montessoriana, waldorf ou construtivista, acaba mesclando-se, para atender os diversos momentos da aprendizagem. O importante é respeitar a individualidade de cada aluno e desenvolver a sua potencialidade, respeitar as diferenças individuais, as habilidades, interesses e preferência de cada um. O aluno, ao ter sua individualidade respeitada, sente-se um vencedor.

Os novos tempos exigem da escola uma adaptação às mudanças da sociedade, como um todo. Seu projeto pedagógico aborda as transformações sociais,  através das linguagens,  das ciências e da compreensão  das inter-relações existentes entre os fenômenos sociais. Seu projeto, através  do professor, é um mediador da aquisição do conhecimento e estimula o aprendizado para a vida.

O aluno é sempre parte ativa no processo de aquisição do conhecimento – é ele quem dará as respostas aos fenômenos que o cercam – onde convivência social é estimulada e onde a abordagem humanista coloca o ser humano no centro de toda atividade.

A escola precisa estar em permanente diálogo com o que está acontecendo no mundo, sem perder os seus alicerces, suas funções primeiras, como a educação formal, a disciplina no trabalho, a formação intelectual e cultural de seus alunos. Deve oferecer um ambiente prazeroso, alegre, possuir o perfil da família, mantendo um bom relacionamento com os pais e com a comunidade. Inserir a escola na comunidade, em projetos sociais.

O processo educativo se inicia a partir da vivência e da realidade da criança e do adolescente. Deve estimular a potencialidade do aluno, desenvolver o espírito crítico, possibilitando ao aluno autonomia para transpor barreiras e enfrentar desafios. As aulas de educação infantil devem ser específicas para cada fase do desenvolvimento.

Essa nova escola deve alimentar nos jovens a curiosidade, a vontade trabalhada de dar respostas às questões formuladas.

Esses aspectos de uma boa escola, aqui mencionados, produto de observações e pesquisas, são capazes de formar um educando apto ao sucesso, na exigente sociedade do conhecimento.

 

* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em março/2007)

NOVOS TEMPOS, NOVAS METODOLOGIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Idéias revolucionárias surgem no horizonte social, na tentativa de alcançar o comportamento delinqüente. A psicologia, grande aliada da educação, dita novas normas de conduta, para essa nova era que vivemos.

Assumindo a realidade que se nos impõe – a desordenada violência, gente inocente morrendo, assaltos diários, as pessoas com medo de sair à rua, todo mundo sujeito a tomar um tiro em qualquer lugar – a sociedade repensa seus métodos de atuação. Todos sentem saudades das cadeiras na calçada, do bate-papo descontraído entre vizinhos, amigos. Isso ficou no passado e, queiramos ou não, temos que nos adaptar à realidade de um mundo violento e sem força de lei.

A bandidagem é uma realidade social, não podemos ignorá-la. Convivemos com ela no dia-a-dia. Assim sendo, precisamos encontrar caminhos que a alcancem, que a desestruturem. Sociólogos, psicólogos sugerem mudança radical no relacionamento de bandidos com autoridades locais. Chamá-los à mesa de conversação, ouvir o que têm a dizer, o que têm a reclamar e o que propõem. Tentar falar a sua linguagem para poder modificá-la, elaborar planos comuns, na perspectiva de objetivos comuns.

Deixá-los sozinhos já está comprovado que o esquema da violência prolifera. Tê-los, de alguma maneira por perto, pô-los em atividades que resultem em benefícios próprios. Criar iniciativas que sirvam de celeiro de novas idéias no combate à violência. Montar estratégias que os envolvam em ações coletivas, que os despertem para a autovalorização, para o auto-respeito, elevando a auto-estima.

O processo, agora, é da aproximação, da infiltração, da análise das carências que se escondem atrás dos atos da bandidagem. Sabe-se que entre os favelados há uma certa cumplicidade, um forte espírito de coletividade. Os poderes locais, abrindo um canal de diálogo com os líderes infratores, estão abrindo força de comunicação com todo o grupo e podem trabalhar para alterar a situação.

A integração é uma forma de transformar a realidade e esta transformação está intimamente ligada à conciliação, à condição e perspectiva de vida, à valorização pessoal. Atraí-los à participação, a interessar-se por algo que tenha significado e ligação direta com suas vidas. Incorporar a contribuição que possam dar. É preciso mudar a tática, estabelecer um novo padrão de atendimento, dando ao desajustado armas para que possa, ele mesmo, encontrar soluções para seus problemas, para que se sinta capaz de atuar com responsabilidade.  A revolta, o abandono reforçam a bandidagem e, segundo consta, nas favelas, em todo o mundo , existe sensação de perigo, de hostilidade.

Trabalhar na criação de associações comunitárias, de centros de esportes, cuidar da educação, da saúde, dar ao bandido condições de competir. Incentivar procedimentos comuns e de valia, como são, por exemplo, os mutirões. Ensinar as comunidades a se organizarem, a se mobilizarem para conseguir recursos e, sem dúvida, ajudar pessoas que se ajudam é bem mais fácil. Trabalhando os líderes, é possível formar bases comunitárias fortes, capazes de se enveredarem pela senda do trabalho. O entrosamento é uma esperança de transformação. O isolamento significa manter o “status quo” reinante, com tendência a aumentar.

Mostrar interesse, dar suporte, atender reivindicações na criação de políticas integradas, fazem a diferença na vida das pessoas. Sob o aspecto de melhoria de condições de vida, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o projeto força-tarefa que visa melhorar moradias precárias nas favelas, na tentativa de urbanizá-las. O objetivo dessa força-tarefa, uma das dez criadas pela Declaração do Milênio, é melhorar as condições de vida de 100 milhões de favelados até 2020.

Em setembro de 2000, a Declaração do Milênio estabeleceu uma agenda com os principais problemas que impedem o desenvolvimento sustentável, sob três enfoques: paz, meio ambiente e pobreza. O Projeto Milênio criou 10 forças-tarefas, entre elas a que mostra a importância da questão das favelas.

Dada a relevância da situação, espera-se que o compromisso de abrandar a violência não seja apenas do governo, mas da sociedade como um todo, criando no Brasil, dentro da mentalidade exposta no artigo, um pacto social. Pacto que se reverteria em projetos para melhorar as condições de pessoas carentes, marginalizadas, aproximando-as da comunidade.

Estamos começando uma nova era na história da humanidade com a quebra rígida do isolamento existente entre as classes sociais?

Para novos tempos, novas metodologias!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2003)

FACULDADES NA MIRA DE EMPREGOS AOS FORMANDOS

Izabel Sadalla Grispino *

O ensino superior, assim como a educação básica, abraça a metodologia da cooperação, aproximando-se do aluno, envolvendo-se no futuro profissional dos formandos.

É interessante ao universitário saber das novas ajudas dadas às suas carreiras pelas faculdades. Faculdades e universidades criam departamentos para identificar competências dos alunos, ressaltar talentos, divulgar currículos e fazer parcerias com grandes empresas para colocar seus estudantes.

As instituições vão além da colocação de cartazes, de anúncios de estágio, pregados nos corredores, como costumeiramente fez. Surgem os departamentos que funcionam como Recursos Humanos, que ajudam no desenvolvimento de carreiras. Em algumas faculdades, como a Ibmec, o estudante, se quiser, poderá se submeter a testes desenvolvidos por uma empresa de consultoria para traçar o seu perfil.

O teste identifica, entre outras características, liderança, ansiedade e criatividade. O aluno amplia sua visão de dinâmica de grupo, da importância do desempenho no conjunto das equipes. Revela a capacidade de criatividade, apresentada frente às dificuldades do dia-a-dia. Os testes revelam em que áreas tem mais talento e o que ainda lhe falta. Por exemplo, ressalta-se que alguns engenheiros têm aptidão para as vendas, outros para projetos, outros para chão de fábrica.

Esse procedimento vai dando ao estudante mais confiança, mais esperança de emprego. O fator emprego vem sendo abordado pelo ensino superior como um diferencial nas concorrências entre as faculdades. O aluno procura inteirar-se se nelas há o departamento de carreiras. Muitas faculdades revisam e aprimoram os currículos dos alunos e colocam em sites da própria instituição. Outras realizam pré-seleções para vagas, a pedido de empresas, que acreditam que “os mais dedicados no ambiente acadêmico serão também os mais dedicados no ambiente profissional”.

As empresas firmam parcerias com faculdades e universidades em busca de talentos e empregam alunos e formandos. Valorizam a aproximação com a instituição, porque assim podem conhecer melhor, escolher melhor quem trazer para a empresa. O programa o Banco do Futuro do Unibanco promove estágios em que o aluno desenvolve projetos para o Unibanco sem sair da instituição onde estuda. Uma sala foi montada dentro do Ibmec, onde trabalham os estagiários.

O IBTA, que dá cursos na área de tecnologia, possui 170 empresas credenciadas para ter acesso ao banco de currículos. No IBTA, disciplinas como gestão de carreira, ética e mercado também fazem parte do currículo, trabalhado em sala de aula.

As instituições de ensino superior modificaram seu comportamento diante da possibilidade de se indicar um emprego. Antes apenas indicavam as vagas para seus alunos. Hoje, chegam a ceder salas para o processo de recrutamento de uma empresa, trazendo a empresa para dentro da escola. A faculdade conjuga-se à empresa, mostra o seu perfil e o perfil de seus alunos. O procedimento de examinar e identificar as competências dos estudantes no início e no fim do curso traz reais proveitos, porque além de aferir suas características naturais pode perceber que avanços a instituição deu a ele no final.

Os departamentos de Recursos Humanos dessas faculdades fornecem um grande suporte aos seus alunos que aprendem, ao lado do desenvolvimento de suas competências, da correção de suas dificuldades, a comercializá-las, a vendê-las. O aluno já sai da faculdade com um projeto de carreira.

Essas faculdades estão sendo um pólo de atração aos estudantes universitários. Elas acompanham o atual interesse das empresas pelas pessoas intuitivas, criativas. Ainda há pouco tempo, as empresas procuravam pessoas com Q.I. (inteligência), mas foram percebendo que mais importante que Q.I. era Q.E, isto é, pessoas com controle de emoções, chegando no momento atual a valorizar prioritariamente as pessoas intuitivas, criativas. As empresas, na verdade, aliam Q.I., Q.E. e priorizam a criatividade e a intuição vistas como capacidade de perceber possibilidades futuras. Em termos de intuição, acredita-se na força do inconsciente mais que na do consciente. A idéia é soltar a imaginação, ouvir o que vem de dentro.

A universidade acompanha os passos da empresa, ressaltando, no estudo, suas prioridades. Visando a empregabilidade, a universidade aprimora-se na formação profissional, ultrapassando a hegemonia da teoria, partindo para questões práticas, educando o cérebro nessa direção. Põe o aluno diante dos fatos e encorajá-o a atravessar as barreiras da dúvida, da vacilação, levando-o a agir, a tomar iniciativa. O conhecimento dos fatos é importante, a teoria é importante, mas não se deve perder muito tempo com a teoria e partir direto para o fazer, para a prática. O Senac, em seus cursos, coloca o papel da prática na formação profissional numa dimensão relevante. Pergunta: Quem educa quem: é o cérebro que ensina as mãos a trabalharem ou são elas, por meio da repetição, que ensinam a cabeça a aprender uma nova habilidade?

Assim, junto à teoria, avança-se na aprendizagem prática, vivencia-se a função a que se prepara.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2004)

O ATENDIMENTO À CRIANÇA AUTISTA

Izabel Sadalla Grispino *

A abrangência da problemática educacional é ampla em todos os aspectos, seja nos graus de ensino, nas ofertas de suas modalidades, das metodologias empregadas, atendendo ao perfil do aluno, às suas características socioeconômicas.

Hoje, a escola se volta para o atendimento plural, visando às diversas camadas sociais, e para o atendimento individual, procurando dar condições apropriadas ao desenvolvimento de cada aluno. Ela abriga, em seu recinto, o aluno de aproveitamento insuficiente, o de aproveitamento regular, o que está acima da média – o aluno de altas habilidades e os portadores de deficiência: visual, física, mental, tipo síndrome de Down.

A luta para se adequar ao ensino do aluno deficiente, para lhe dar meios adequados a um atendimento eficaz foi, pouco a pouco, ganhando consciências e vencendo preconceitos. A maior luta do momento é sobre a educação da criança autista: o desconhecimento do assunto, as velhas concepções que ainda permanecem arraigadas.

Embora o autismo seja um problema que vai além das fronteiras da escola regular, é importante os profissionais da educação inteirar-se dessa síndrome, cultivando, pelo seu conhecimento, clareiras, visando possibilidades de acolhimento a essas crianças.

É preciso quebrar barreiras. A escola ainda continua seletiva, pronta para ensinar apenas alunos acostumados ao mundo das letras e de alcance, pelo menos, médio. Minorias, como no caso do autismo, são praticamente esquecidas pelo governo e pela sociedade. Existe uma política para criança especial com Down ou paralisia cerebral, mas nada ou quase nada para os autistas. Faltam instituições com programa integrado de atividades que estimulem o seu desenvolvimento. Pais de crianças autistas se desesperam, porque não encontram unidades especializadas próprias que ofereçam atendimento gratuito e integral aos filhos. O médico neurologista detecta o transtorno, mas não tem para onde encaminhar mãe e filho.

O tratamento é muito importante para o desenvolvimento da criança autista. Quanto mais cedo for diagnosticado o problema e quanto mais cedo o tratamento, mais fácil ao portador da síndrome levar uma vida beirando à normalidade. Os autistas, diferentemente dos portadores da síndrome de Down, são freqüentemente confundidos com portadores de outros transtornos, como a esquizofrenia. São crianças com dificuldade de comunicação, de respostas aos estímulos, afastadas da realidade que as cerca. A maior parte das escolas, mesmo as particulares, recusa-se a receber a matrícula do autista.

O direito constitucional à educação é barrado tanto pelas escolas privadas, quanto pelas escolas públicas. Pouco se propaga a respeito. No Rio de Janeiro, ao que se sabe, há escolas públicas que oferecem turmas especiais, com apenas 50 minutos diários de atividades, o que é muito pouco. Até para os pais mais abonados, há poucos centros de reabilitação para autistas, e cobra altas mensalidades. Poucas pessoas reconhecem o autismo e muito poucas dão importância ao seu desenvolvimento, dedicando-se a atividades que possam melhorar a vida dessas crianças.

A medicina mostra que o diagnóstico tardio é danoso. Quanto mais cedo se detectar o autismo melhor, de preferência no 1.º ano de vida ou,  pelo menos, antes dos 3 anos, quando o tratamento produz resultados compensadores. A criança que começa a se tratar depois dos 5 anos tem um prognóstico diferente, aquelas que ainda não falam, nessa idade, de um modo geral, dificilmente desenvolverão a linguagem, atestam os neurologistas.

O importante é reconhecer o autista precocemente, porém, esse diagnóstico é dificultado pela pouca familiaridade dos pediatras com o assunto. Há uma recente pesquisa que chegou ao eletroencefalograma. Por meio deste, mediu-se a atividade cerebral dos pacientes, mediante um determinado estímulo luminoso. As respostas foram comparadas com os resultados de crianças normais da mesma faixa etária submetidas ao exame, que não têm a mesma reação. As crianças autistas apresentam uma atividade menor no hemisfério direito do cérebro, uma disfunção nesse hemisfério, responsável pelas emoções e convívio social.

O autista vê as pessoas fazendo as coisas, mas não atinam com os gestos, com a linguagem, não são capazes de reconhecer a entonação de uma frase. Como o cérebro das crianças, diz a ciência, tem uma facilidade de se recuperar, o diagnóstico precoce, seguido de tratamento, pode fazer que elas conquistem uma vida quase normal.

Há necessidade de um programa integrado, de atividades que estimulem o seu desenvolvimento, necessidade de uma equipe multidisciplinar, formada, entre outros, por psicólogo, fonoaudiólogo, de um expert em instrução programada, como em matemática o método de ensino Kumon, aulas de natação, atividades que levem à concentração, que exercite a memória, como jogos de computador.

Os especialistas na área citam algumas condições que podem estar ligadas ao autismo: ausência de desenvolvimento da linguagem; desinteresse por brinquedos e objetos; não olha nos olhos das pessoas; indiferença e pouca sociabilidade; ansiedade; hiperatividade e situações de agressividade repentina; faz movimentos repetidos com as mãos e pernas; descontrole ocasional das necessidades biológicas; transtornos de alimentação.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2005)

O QUE SIGNIFICA ALFABETIZAR?

Izabel Sadalla Grispino *

Em 2002, o Instituto Paulo Montenegro, entidade ligada ao grupo Ibope que se dedica a projetos sociais na área de educação, em parceria com a organização não-governamental Ação Educativa, divulgou dados de uma pesquisa sobre o alfabetismo. Só 26% dos brasileiros, entre 15 e 64 anos, dominam bem a leitura e a escrita. Outros 65% são alfabetizados, mas têm deficiências nas habilidades de leitura e de escrita e 9% da população são completamente analfabetos. Quadro nada abonador, visto que, num total de 100%, apenas 26% têm um bom domínio de leitura e escrita.

Foram entrevistados e avaliados duas mil pessoas em todo o País, amostragem com representatividade nacional. A idéia é fazer pesquisas a cada ano, para avaliar a evolução da alfabetização.

Os dados compõem o 1.º Indicador de Alfabetismo Funcional do País. A pesquisa dividiu o alfabetismo em três níveis:

Nível 1 – quem só consegue ler textos muito curtos, como títulos ou anúncios;

Nível 2 – inclui essa habilidade e a capacidade de compreender textos maiores, como uma reportagem pequena de jornal;

Nível 3 – o indivíduo domina a leitura de textos longos.

O ensino fundamental deveria proporcionar ao educando condição a que ele dominasse as habilidades de escrita e leitura e se enquadrasse no nível 3. Contudo, a pesquisa revelou que apenas 42% das pessoas com ensino fundamental completo ou ensino médio incompleto dominam escrita e leitura. O restante, 13%, se enquadra no alfabetismo nível 1 e 44% no nível 2.

Na aplicação dos testes, os pesquisadores elaboraram uma revista para a pesquisa. Dentre as tarefas, uma das mais simples era identificar, em um anúncio, a data de início de uma campanha de vacinação. Numa tarefa mais difícil, a pessoa tinha de saber consultar a programação de filmes na TV. A avaliação da pesquisa revela que quem está no nível 1 ou no nível 2 é analfabeto funcional. São pessoas que usam o que sabem no dia-a-dia, conseguem acompanhar a leitura de um texto simples ou ler um pequeno recado. Porém, o uso das habilidades fica muito restrito em algumas situações, comprometendo o grau mínimo que a pessoa precisa ter, para continuar se aprimorando.

A grande lição que tiramos desta pesquisa é de que não basta erradicar o analfabetismo. É preciso avançar o olhar sobre a alfabetização, trabalhar as habilidades reais dos estudantes e investir na correção das deficiências. O importante não é apenas freqüentar uma escola; é sair dela com qualificação suficiente para enfrentar as condições de vida e de trabalho, para o aluno aprender a usar o que sabe nas situações do cotidiano, na resolução de problemas. Alfabetizar não é só ensinar a ler, a escrever, a contar. É desenvolver a habilidade de pensar, de raciocinar, de criticar, é levar o aluno a uma leitura de mundo, com sua interpretação e sua participação efetiva. Essa leitura se faz pela palavra, por isso o professor deve aperfeiçoar no aluno a comunicação, definir as habilidades que espera ver definidas, privilegiar a interpretação e o raciocínio.

Essa pesquisa sobre alfabetismo explica o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicado em adolescentes de 15 anos de 32 países, trazido ao conhecimento do público no início de 2002. O Brasil ficou em último lugar, em leitura e interpretação de texto, e, também, em matemática e Ciências. Os alunos brasileiros mostraram que não entendem o que lêem.

O que conta não é a quantidade de alunos que freqüenta a escola, mas a qualidade dos formados que dela saem. É a baixa qualidade do ensino público que gera a quantidade de analfabetos funcionais, a grande responsável pela exclusão social.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), na pág. 276, eu digo: “A escola precisa reservar em sua organização curricular, em seu projeto pedagógico, um lugar especial para a leitura, para a literatura... Criar, inovar formas de tratar o texto literário. Idealizar espaços para a leitura, enriquecer o acervo de sua biblioteca, com variedade de textos que sejam representativos das diferentes faixas etárias e da cultura heterogênea de nosso povo. Emprestar os livros não só para os alunos, mas também para seus pais e para toda a comunidade, melhorando o seu ambiente, elevando o grau de cultura geral”. Essa leitura deve ser assistida pelo professor, acompanhada de interpretação, de reflexão, sobre o texto lido. A leitura é parte integrante do processo de alfabetização.

Consideramos a alfabetização como um processo no qual o indivíduo não só aprende como aprende a aprender, aprende a pensar. É como se diz: “Ser camelô de badulaque é fácil”. O difícil é o trabalho sistematizado, a aprendizagem cumulativa, adquirida ao longo do tempo. Há um tempo de maturação para se chegar a um estilo, a uma mudança de comportamento.

Haverá verdadeira mudança na estrada da educação, quando o professor se conscientizar da humanização, da individualização, no processo de ensino-aprendizagem. Guardo na memória um pensamento que vem de encontro ao meu conceito de educação: “O professor não deve considerar o aluno apenas como aprendiz de textos, mas, principalmente, como a pessoa que precisa aprender também a conviver melhor consigo mesma e com seus semelhantes, aprender a descobrir nos textos que lê a mensagem de vida que freqüentemente se encontra encoberta”.

O mestre deve ser a pessoa que ajuda seus alunos a desvendarem os caminhos de suas existências, dentro da fisicamente pequena, mas, vivencialmente, do imenso espaço de uma sala de aula.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2005)

VENCENDO O PRECONCEITO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma resolução de 2003, aprovada pela Assembléia Parlamentar do Conselho Europeu, que agrupa 44 países do continente, determina que a linguagem dos sinais utilizada pelas pessoas surdas seja reconhecida oficialmente como idioma. O reconhecimento, feito através da inclusão dessa linguagem na Carta das Línguas Regionais e Minoritárias, dá-lhe status de “idioma sem nacionalidade”.

São 44 línguas dos sinais na Europa, desenvolvidas nos diversos países europeus com base nas variáveis regionais, étnicas e sociais. As línguas dos sinais podem não ser as mesmas dos idiomas nacionais. No Reino Unido, Estados Unidos e Irlanda, onde se fala inglês, há três línguas de gestos diferentes. Os surdos finlandeses e suecos usam os mesmos sinais.

São mais de 1,6 milhão de surdos na União Européia e pelo menos o dobro em toda a Europa. O objetivo do reconhecimento oficial como idioma é atenuar a discriminação e os problemas enfrentados pelos surdos. Destina-se a evitar situações chocantes como a de um surdo que ficou uma semana preso sem motivo porque não se conseguia achar um intérprete.

As leis sobre a linguagem dos sinais variam entre os povos europeus. Não são todos os países que possuem leis específicas. Na Finlândia, a língua de gestos é reconhecida e protegida na Constituição como “idioma minoritário”, constituindo a “língua materna” de mais de 5 mil finlandeses. Na Finlândia, na Suécia, na Noruega e na Dinamarca, os sinais são ensinados nas escolas como 2.º idioma, junto ao inglês, francês e alemão.

O exemplo avança e no resto da Europa há a preocupação de introduzir a língua de gestos nas escolas. Na Irlanda, Reino Unido, França, Espanha, Grécia e Portugal, as autoridades de ensino adotaram programas para estimular professores a aprender a língua dos sinais e a promover a formação de intérpretes.

Esse comportamento deveria se estender a todos os continentes do planeta. As escolas deveriam abraçar, com entusiasmo, a aprendizagem da língua de gestos, repassá-la aos seus alunos, introduzindo solidariedade e humanização no ambiente escolar.

Uma outra grande vitória alcançando os portadores de deficiência é o espaço que começam a achar no mercado de trabalho. Sempre houve sério preconceito – e ainda há – no setor empregatício. Eram rejeitados, tidos como incapazes, trazendo incômodo ao local de trabalho. Hoje, por força de lei, a inclusão profissional do deficiente torna-se realidade. Antes, uma vida limitada, agora maiores possibilidades de realização. O estudo era difícil pela dificuldade de locomoção – ainda é;  no trabalho, não eram contratados porque não os consideravam capazes.

Uma Lei, contudo, de n.º 8.213/91, prevê a obrigação de contratar deficientes e abrange empresas com mais de 100 empregados. As cotas variam de 1 a 5% do quadro de funcionários, de acordo com o tamanho das mesmas. Essa obrigação já tem mais de 10 anos, mas sua regulamentação só veio em 1999. Uma ação articulada, em 2004, da Delegacia Regional do Trabalho (DRT/SP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) traz resultados consideráveis quanto ao aumento da contratação.

A partir de outubro de 2004, a Delegacia Regional do Trabalho (DRT) de São Paulo fiscalizou no Estado 1,3 mil empresas com mais de 100 funcionários. Constatou a necessidade da criação de 19 mil cargos para deficientes. Até o final do corrente ano, a DRT programa chamar todas as 7.544 empresas desse porte, com a previsão da

criação de 57 mil postos.

Ao que parece, a contratação se dá bem mais por obrigatoriedade que por consciência. Segundo o Ministério Público do Trabalho, as empresas só agem depois de compelidas pelo Ministério, com raríssimas exceções. Após firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPT, a empresa tem dois anos para cumprir a lei. Prazo flexível, porque a lei não obriga a empresa demitir empregados para incluir deficientes e nem que ela deva aumentar o quadro funcional. A determinação é dar prioridade aos deficientes, quando houver novas vagas. O prazo é negociável: se a empresa ficar dois anos com o mesmo número de empregados, não tem como cumprir a lei de cotas.

As empresas argumentam que a contratação de deficientes é difícil porque não há profissionais capacitados, mas, na verdade, só querem pessoas com a chamada deficiência leve. É preciso que as empresas se preparem para receber pessoas portadoras de deficiência, como acontece com o Itaú. O banco, desde o ano 2000, quando fez acordo com o Ministério Público do Trabalho, vem cumprindo as metas. Tem 900 deficientes trabalhando no banco (2% do total de funcionários) e espera atingir a cota em 2007. O Itaú é exemplo de empresa que expande o olhar, se ajusta para acolher o diferente, dar-lhe perspectiva de futuro.

Em setembro de 2004, o relatório “Monitoramento Internacional dos Direitos dos Deficientes”, elaborado pela Rede Internacional de Deficientes e pelo Centro para a Reabilitação Internacional, entre 24 países pesquisados, coloca o Brasil como o País das Américas que assegura a melhor proteção e tratamento aos deficientes físicos. Esse resultado, entretanto, foi influenciado pela legislação que, entre outros fatores, assegura cotas de contratação nas empresas, garantias constitucionais de apoio financeiro e proibição da discriminação no trabalho.

Mas, a realidade comprova que pouco se faz no cumprimento dessas vantagens para que o País seja realmente inclusivo no trato do deficiente. A reserva de mercado aos deficientes nem sempre é cumprida, as condições de acesso à educação e ao mercado  são dificultadas, havendo o obstáculo da locomoção que impede a chegada e a permanência do deficiente na escola e no emprego.

Contudo, estamos avançando, grandes passos já foram dados e permanecendo vigilantes, melhores condições de realização surgirão aos portadores de deficiência.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2005)

A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

PAIS FRENTE À PEDAGOGIA AVANÇADA

Izabel Sadalla Grispino *

Nesse universo em mudança, os pais sentem-se inseguros quanto à educação dos filhos, ministrada nas escolas. Querem mudança, mas temem o rompimento dos padrões morais que sustentaram a sua geração. Querem inovação, mas atemorizam-se diante do novo. Por isso, a escola tem que tornar escola também dos pais, inteirando-os da pedagogia renovada. No passado, religião e tradição eram fortes ingredientes para a escolha da escola dos filhos.

Para responder a essa ambígua sociedade de transição, a pedagogia indica o caminho da compreensão, da tolerância. Impor não é solução. Autoritarismo não funciona nem para os pais, nem para os professores. Ele é fonte de problemas. O professor “exigente”, também, não tem mais vez. Seu papel de transmissor do conhecimento, a sua imagem de “sabe tudo”, acabaram. O conhecimento não é mais doado e sim construído. A velocidade das inovações tecnológicas e a Internet acabaram com o conceito de “aluno enciclopédia”.

Outra forma de autoritarismo é a aquiescência da repetência, por parte dos pais, aos alunos que vão mal na escola. Os pais, ansiosos por resultados, apegam-se à mensuração da produção escolar, em contradição ao método adotado pela escola, orientado pelo socioconstrutivismo, que trabalha as várias facetas da aprendizagem, as inteligências múltiplas.

A repetência não é mais que o reforço do ensino pela via da punição. A aprendizagem leva em conta o biorritmo do aluno, o interesse das diversas faixas etárias e a natureza do aprendiz. Quando há interesse, a aprendizagem é duradoura. Leva em conta o potencial, as virtualidades, direcionando o ensino para essas características.

Qualidade de escola forte, puxada, para os pais, revelada em pesquisas, está, em primeiro lugar, trabalhos escolares; em 2.º, horas de estudo e, em 3.º lugar, as lições de casa. Nos métodos renovados, o aluno passa a ter mais atividades extraclasses e menos tarefas em cadernos. As escolas, para ciência dos pais, anotam, nos cadernos dos alunos, os trabalhos realizados fora da sala de aula, substituindo a lição de casa.

A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) inspirou-se no socioconstrutivismo ao permitir currículos mais flexíveis e regionalizados. O socioconstrutivismo vai buscar seus fundamentos nas teorias do desenvolvimento humano e do processo de alfabetização, requerendo, para sua aplicação, currículos mais flexíveis. É um método já consagrado mundialmente; o problema é que para funcionar exige dos professores sólidos conhecimentos e essa não tem sido a realidade constatada. É ainda precária a percepção da reforma de ensino pelos professores. Muitos afirmam desconhecer as profundas mudanças requeridas pela pedagogia aberta. Por sua vez, os pais, pressionados pela excessiva competição no universo profissional, pensam em uma instituição que dê muito conteúdo desde a pré-escola, trazendo reflexos visíveis para o mundo infantil. A concepção “preparar-se para a vida” faz com que os pais pressionem as escolas para realizar a transformação de seus filhos, ainda pequenos, em futuros profissionais competentes. Essa preocupação seria compreensível se se tratasse de alunos do ensino médio, mas eles deixam claro que a “hora de brincar” – alusão à educação infantil – já passou e que as “crianças de 7 anos devem cair na realidade”. Querem, agora, uma escola voltada ao conteúdo, propondo uma esquema rígido de ensino, desde a infância.

A criança estará, contudo, melhor preparada para a vida se educada de forma aberta, sendo olhada no sentido de suas necessidades, de seu desenvolvimento e de seus interesses. Criatividade é passaporte para o futuro. Hoje, o mercado pede dos profissionais iniciativa, inventividade, cooperativismo, bom relacionamento em trabalhos de grupo.


São principalmente para esses aspectos, para o desenvolvimento da autonomia na aprendizagem, que prepara o socioconstrutivismo, que coloca seus temas em relação ao mundo do estudante.

As escolas despertaram-se para o socioconstrutivismo influenciadas, também, pela LDB, que determina estar o trabalho docente centrado em três vertentes: conceitual (o que é ensinado ao aluno), atitudinal (o desenvolvimento de valores) e procedimental (o clássico, aprender a aprender). Para atender às exigências da Lei, a escola opta por três direções: o construtivismo, o sociointeracionismo e o socioconstrutivismo. Não são orientações que fornecem receita para todos os problemas educacionais, mas caminhos que ajudam a refletir sobre como se constrói o conhecimento. O professor não mais oferece o conhecimento, redefine o seu papel como o mediador entre o saber e o aluno, base do socioconstrutivismo.

Com a mudança, a sala de aula passou a ser o laboratório em que “se ensina a fazer”. Os pais vão perceber, com o tempo, que não é a quantidade, mas a qualidade do conhecimento que promoverá o futuro do filho.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2002)

BIOTECNOLOGIA, CIÊNCIA PARA A VIDA

Izabel Sadalla Grispino *

O grande surto do progresso, do desenvolvimento econômico do País, de hoje, está centrado na atualização tecnológica dos professores e da sociedade como um todo. Um assunto que vem chamando a atenção é o da biotecnologia moderna, com constantes desafios à sua compreensão.

Freqüentemente, ouvimos falar em clonagem, células-tronco, biossegurança, transgênicos, nanotecnologia e outros. Sabemos que são procedimentos científicos, capazes de aperfeiçoar e trazer grandes avanços para a humanidade, mas, geralmente, estamos por fora de sua real compreensão. Ainda recentemente, escrevi sobre o ensino de ciência, a preocupação mundial com a decadência desse ensino e sua relevante importância à educação para a vida.

Nunca se fez tão necessária a adoção da educação continuada. A ciência e a tecnologia avançam rapidamente, tornando obsoleta boa parte do conhecimento anteriormente adquirido. É imprescindível conhecer as novas tecnologias, os novos conceitos, adquirir uma opinião sólida e fundamentada cientificamente e só assim seremos capazes de aderir convictamente aos novos avanços da economia, enquadrando-nos à competitividade global.

O analfabetismo científico emperra o desenvolvimento da ciência e o conseqüente desenvolvimento do País. O mundo moderno considera a biotecnologia um instrumento necessário para o crescimento econômico, para o atendimento de problemas de saúde, meio ambiente e agricultura.

Uma população de educação científica empobrecida prejudica as pesquisas por resistência e incompreensão sobre as vantagens da aplicação das tecnologias. Criam-se tabus, preconceitos como acontece com os produtos transgênicos, por exemplo. Projetos são cortados por desinformação.

Isso tem levado muitos países a investirem na socialização do conhecimento científico, na atualização de professores e da sociedade. Elaboram instrumentos que permitam a popularização das tecnologias, como uma revista, por exemplo de cunho científico, escrita numa linguagem acessível, mostrando que os avanços das ciências modernas não são absolutamente prejudiciais ao meio ambiente e que a biotecnologia traz grandes benefícios ao homem.

Ao se divulgar as vantagens da biotecnologia,  colocando  ao alcance  da sociedade a compreensão dos avanços científicos, torna-se possível formar um país competitivo, com chances de crescimento

No Brasil, há dois anos, foram realizadas as Olimpíadas de Biologia, buscando promover a atualização dos professores sobre as ciências da vida, porém, o alcance foi restrito. Muitos países formulam sua Lei de Biotecnologia pensando sobretudo na educação da população, esclarecendo-a sobre as vantagens da aplicação da biotecnologia.

Percebem o quanto a ignorância científica é trave para os avanços da economia. Criam situações práticas que permitem a popularização da biotecnologia. Os Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia se esmeram nessa direção.

Como exemplo, citaremos a Embrapa, que deixou de produzir um mamão resistente a vírus, a cana-de-açúcar resistente à herbicida e que requer menos defensivos, poluindo menos o ambiente.

A Índia avançou em sua fabricação de tecidos feitos com algodão transgênico, enquanto a nossa safra foi totalmente queimada.

Quando se avança no conhecimento, avança-se na vida como um todo. É só olhar para a China, com suas atuais vantagens econômicas e sociais, adquiridas na introdução dos novos produtos biotecnológicos.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em outubro de 2006)

RESERVA DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

Já, há algum tempo, escrevi a respeito da reserva de 50% das vagas nas universidades públicas para alunos oriundos do ensino médio das escolas oficiais. Na ocasião, o projeto tramitava na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, é a vez do Estado de São Paulo passar pela mesma situação.

Tramita, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um projeto apresentado pelo deputado Celso Tanaui, do PTB, que destina 50% das vagas das universidades do Estado a estudantes que tenham cursado o ensino médio em escola pública.

O ingresso à universidade não seria, pois, por mérito acadêmico, mas por destinação prévia de vagas, o que viria acarretar perda da qualidade de ensino da universidade. A argumentação do deputado é de que o acesso às universidades públicas é privilégio dos ricos e que os pobres, os que mais precisam, só conseguem entrar em universidades pagas. Realmente, é uma verdade e configura um contra-senso, um desequilíbrio da balança social. Acontece que os ricos freqüentam escolas particulares de boa qualidade, tornam-se melhores preparados, melhores capacitados e competem com vantagem, conseguindo melhores posições em tudo.

Mas, será a destinação pura e simples de vagas, sem o seu principal componente, a boa formação, o caminho para se consertar essa injustiça? As diferenças educacionais estariam resolvidas pela aprovação de um decreto? Convenhamos ser esse um pensamento equivocado, pois o processo é bem mais amplo, bem mais complexo, envolvendo mudanças estruturais de base, significativas.

A reversão do quadro acima descrito não é tão simples assim. É preciso, antes, melhorar o estudo do pobre, dar-lhe armas intelectuais para enfrentar, em par de igualdade, a concorrência com o rico. Investir maciçamente na escola pública é a saída correta para esse impasse. Aparelhá-la, instrumentalizá-la, reciclar os seus professores, dotá-los de competência, nivelando o ensino por cima.

A reserva de vagas é uma farsa, só camufla a situação e trabalha contra o próprio aluno pobre, que continuará defasado no conhecimento e marginalizado na sociedade, por falta de formação adequada. Essa reserva de vagas levará a um desnível do ensino superior, a um sucateamento, como já aconteceu com a educação básica pública, pois a tendência é baixar o nível, para não excluir os menos preparados.

Abriram-se vagas, no ensino fundamental, para todos, abargando alunos das mais diferentes camadas sociais, mas não foram dadas condições efetivas de um bom trabalho pedagógico. Não se preparou o professorado, que se vê meio perdido a tanta inovação, não se investiu num ensino de qualidade. Hoje, o aluno sai da escola, com algumas exceções, semi-analfabeto. A universalização da oferta de vagas não foi acompanhada da universalização da oferta de educação de qualidade para todos. Deixou-se inclusive de priorizar a educação infantil.

Garantir vagas, ao aluno pobre, nas universidades públicas,  de boa qualidade, requer estender essa boa qualidade a toda a educação básica. Requer que as metas quantitativas sejam juntadas às qualitativas. É um processo que demanda tempo, mas, quando chegar lá, será com consistência, com validade e sem discriminação. Esse é o trajeto a se percorrer para se garantir o acesso às universidades públicas a quem não tem recursos para pagar uma instituição particular.

Com a reserva de vagas, a USP abrigará dois segmentos de alunos, de formação e de capacitação, bem diferentes, o que comprometerá o bom ensino. Terá dois grupos de ingressantes, com perfis muito distintos um do outro. “Um deles não conseguirá acompanhar as disciplinas previstas para o 1.º ano do curso, já que poderá haver aprovados com nota zero em matérias fundamentais”, esclarece Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, e acrescenta: “O preparo de um possível candidato beneficiado não estaria dentro dos padrões desejáveis para uma universidade de excelência como a USP”.

A médio prazo esse ensino sofrerá um forte impacto negativo, refletindo-se na graduação, com repercussão na pós-graduação e na pesquisa. Como ficará o conhecimento científico? Como acelerar nosso desenvolvimento tecnológico? Seremos os dependentes, cada vez mais acentuados, da tecnologia importada?

Pelo Índice de Avanço Tecnológico das Nações Unidas, o Brasil que ocupa o 43.º lugar, atrás da Tailândia, da Argentina, da Costa Rica e do México, ficará mais abaixo ainda!

É preciso olhar para mais longe, desapegar-se do aqui, agora. A tecnologia avançada surge do conhecimento das pessoas, dos profissionais em ação. O aluno pobre, defasado no conhecimento, não terá seu problema resolvido por uma reserva de vagas. Ele, marginalizado, marginalizará o conhecimento tecnológico, prejudicando o nível de excelência que as universidades públicas vêm mantendo. Por esse processo de facilitação, estaremos arrastando a pobreza científica e tecnológica do País.

O deputado Celso Tanaui, ao ser questionado sobre seu projeto, respondeu: “Inteligência não é atributo exclusivo dos ricos”. O desavisado deputado misturou alhos com bugalhos. Inteligência todos têm, a diferença está no encaminhamento dessa inteligência, na assistência, no trato psico-pedagógico de seu desenvolvimento, que é o que, justamente, falta ao aluno pobre na fase anterior ao ingresso do nível superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

ENSINO SUPERIOR PARA O ÍNDIO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma outra minoria que desponta em direção à afirmação, ao enfrentamento do preconceito, é a do índio. O índio começa a entender o valor da educação e sai à procura de escolas. Desperta-se para uma nova realidade, valorizando a formação profissional. Quer ter acesso ao ensino superior, melhorar o conhecimento, aperfeiçoar-se.

A sociedade também começa a dar mais atenção aos grupos étnicos discriminados. Já se manifesta, em pontos localizados, exortando medidas governamentais, que garantam escolas, de todos os níveis, à população indígena.

A exclusão é sempre lastimável, tanto para os grupos marginalizados, como para o desenvolvimento do País, que se vê limitado no avanço das competições, no mercado internacional. Embora haja toda uma legislação favorável, a política educacional de apoio às minorias é lenta e desestimulada. No Brasil, surgiu, neste segundo semestre, a primeira universidade estadual, localizada em Mato Grosso (Unemat). É uma iniciativa pioneira, onde serão oferecidos cursos de licenciatura, exclusivos para formar professores índios em nível superior. É um passo que se dá em direção à criação de uma universidade abrangente do gênero no País. Matricularam-se na Unemat 300 alunos de 35 etnias.

Os cursos serão dados no campus de Barra do Bugres, a 160 quilômetros da capital Cuiabá. O que antes parecia um sonho distante,  hoje, a idéia de reunir só universitários indígenas em sala de aula torna-se realidade. Levantamento estatístico mostrou existir, entre nós, 207 povos indígenas, com mais de 62 mil alunos freqüentando o ensino fundamental de 1.ª a 8.ª série. Temos 3.041 professores índios, espalhados em 1.666 escolas e que cursaram, com dificuldade, o 1.º e o 2.º graus. São considerados professores leigos porque lecionam sem diploma universitário.

Os ingressantes à Unemat são, na maioria, professores em suas aldeias. Dos aprovados, 167 são homens e as idades variam de 18 a 56 anos. As aulas serão sempre em julho, janeiro e fevereiro, meses de férias escolares. Depois de cinco anos serão formatos em Matemática, Ciências Sociais e Português. Professores de outras universidades, como USP, Unicamp, Puccamp, UFRJ e UFPR, darão, para os índios, aulas em português.

Na passagem dos conteúdos, a universidade vai dialogar com os índios, relacioná-los à cultura indígena, na caracterização da pluralidade cultural e na contextualização do currículo. A metodologia privilegia o debate intercultural. Na redação do vestibular, os candidatos dissertaram sobre a vida dos índios, realidade vivida por eles.

No País, menos de 100 alunos têm acesso ao ensino superior. O Estado de São Paulo, ainda fica no magistério. Pela estatística, há 700 crianças índias, de 7 a 14 anos, tendo aulas com instrutores leigos e em salas de aula em precárias condições. No Amazonas, há 649 escolas, a maioria de madeira, em situação lastimável. É a imagem de um Brasil pequeno, vôo de tico-tico, longe do condor!

Muitos Estados ainda não se acordaram para a educação indígena, em todos os níveis.  O  Estado  do Paraná,

através da Assembléia Legislativa, aprovou, em abril p. passado, uma lei que destina 15 vagas nas universidades estaduais para índios paranaenses. Mas, eles estudarão com os brancos.

Universidades indígenas, que ofereçam cursos como de medicina, enfermagem, agronomia e direito, levarão, ainda, um bom tempo para existir, de oito a dez anos, calcula-se.

Desde 1991, a responsabilidade pelo ensino das tribos passou para o Ministério da Educação. Era da Fundação Nacional do Índio. A legislação prevê que o ensino deve ser feito, preferencialmente, por índios e que até 2007 todos os professores, dos ensinos fundamental e médio, incluindo os professores indígenas, devem ter diploma universitário. O curso universitário para os índios acaba de ser criado, o que faz concluir que para eles essa é uma realidade que se posiciona longe.

O estímulo a uma política educacional para o povo indígena teve um bom suporte, com a elaboração do Parâmetro Curricular Nacional das Escolas Indígenas, pelo Ministério da Educação (MEC), lançado em 21 de maio de 1998. Com esse referencial, as escolas das aldeias passaram a ter, desde 1999, currículos próprios, valorizando sua cultura. Até então, buscava-se apenas civilizar, integrar os índios à sociedade, deixando de preservar e valorizar as suas diferentes culturas.

O parâmetro curricular alia o ensino das matérias tradicionais à discussão de temas de interesse das comunidades, como a organização e direitos das nações indígenas no Brasil. Pela proposta do MEC, o ensino da língua portuguesa deverá ser simultâneo ao da língua indígena local. Na Matemática, além do tradicional estudo de números e operações, o aluno lidará com os sistemas numéricos usados pelos diferentes povos indígenas e pela sociedade em geral, para facilitar sua comunicação. Na geografia, a proposta é partir do espaço geográfico onde vive o aluno para ajudá-lo a entender sua localização no Brasil e no mundo. Na educação física, o aluno deverá conhecer desde os jogos e brincadeiras tradicionais de sua tribo, até as práticas esportivas brasileiras e internacionais.

O índio necessita preservar sua auto-estima, orgulhar-se de sua descendência, não negar sua condição de índio, reabilitar-se perante a sociedade. Ele não pode perder o seu arraigado sentido de grupo, devendo a escola saber conciliar tradição e modernidade.


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2001)

MATÉRIAS HUMANÍSTICAS PARA O ENSINO MÉDIO

Izabel Sadalla Grispino *

O currículo do ensino médio passa por reformulação. Em novembro de 2002, a Secretaria da Educação estipulou um acréscimo na grade curricular do 2.º e do 3.º ano, das escolas da rede pública estadual, incluindo as disciplinas: filosofia, sociologia e psicologia. As escolas incluirão pelo menos uma dessas três disciplinas. A decisão sobre as matérias a acrescentar cabe à própria escola.

O aumento do número de disciplinas, de 9 para 12, não é, contudo, acompanhado do aumento da carga horária, que continuará sendo de 5 horas no período diurno e 4 horas no noturno. As escolas passarão a ter menos aulas das disciplinas tradicionais, como língua portuguesa, matemática, história, geografia ou inglês.

A inclusão das novas disciplinas contempla uma reivindicação da classe do magistério, que defende o enriquecimento do currículo, em matérias que ajudam a formar consciência de cidadania e a desenvolver  criticidade. Louva a inclusão, mas lamenta a diminuição da carga de outras disciplinas. Esperava que ela fosse acompanhada de uma hora a mais na carga diária. Considera as matérias filosofia, sociologia e psicologia importantes para a formação integral dos alunos, mas não concorda com a proposta de diminuir a carga das outras disciplinas. Entende que essa redução vai afetar o montante da aprendizagem. Sugere a volta da grade curricular de 1997, quando os alunos tinham 6 aulas de 50 minutos no diurno e 5 no noturno.

O secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita, contra-argumenta, dizendo que a redução no número de aulas das outras disciplinas, de 5 para 4, é muito pequena e em nada interferirá na qualidade do ensino.

A Secretaria ainda define uma cota mínima de horas-aula para 2003 das matérias tradicionais, um valor que seja suficiente para não prejudicar os alunos, diz ela. Para o Ministério da Educação, a mudança não vai atrapalhar as outras matérias, podendo, inclusive, ajudar na compreensão geral. “Os alunos poderão melhorar o seu desempenho em outras matérias porque passarão a ter uma compreensão melhor dos assuntos”, diz a diretora do Ensino Médio, Maria Beatriz Gomes da Silva.

As escolas, pela legislação, têm autonomia para definir como incluir novas disciplinas. A lei exige, apenas, que sejam dadas no mínimo 800 horas anuais e 200 dias letivos.

A concepção atual de currículo é formulá-lo, não por disciplinas estanques, mas englobadas, atadas em áreas de conhecimento, favorecendo o método interdisciplinar. Para abraçar a reforma, precisam-se derrubar as paredes do individualismo das escolas. Formar uma comunidade de professores que discuta o entrelaçamento de suas disciplinas, evitando a compartimentalização. Hoje, a idéia é do profissionalismo interativo, o de atuar em conjunto, melhorando o ensino, não por partes, mas no todo, como uma comunidade. O conteúdo de uma disciplina completa o da outra, liga-se um no outro, numa amplitude de conhecimentos. Os professores precisam aprender a trabalhar mais unidos, tanto no aspecto conceitual, como no atitudinal e no comportamental. Portanto, o número de aulas não é o grande fator preponderante, mas, sim, como essas aulas são dadas, como se entrosam, se complementam, enriquecendo-se mutuamente. A qualidade não provém apenas da quantidade de aulas, mas da capacitação do professor, do compromisso com o ensino, dos investimentos empregados.

Na tentativa de melhorar a atuação do professor, criam-se movimentos paralelos que venham contribuir com a escola. Foi lançada em 26 de novembro de 2002, no encontro “A Escola dos Nossos Sonhos”, a idéia da criação de um espaço permanente de debates e sugestões para a melhoria da escola pública. Espaço que teria o caráter de fórum permanente da educação, com a participação de sindicalistas, empresários, pais de alunos, jornalistas, organizações não-governamentais entre outros setores da sociedade.

A partir de fevereiro, a cada 2 meses, um grupo de convidados se reúne na capital e apresenta suas idéias. Simultaneamente, a Secretaria deseja estimular encontros semelhantes, de pais, associações de amigos de bairros e líderes comunitários, nas 89 diretorias de ensino do Estado. A proposta é de que os encontros reunam, de preferência, pessoas de fora da escola, para tratar de assuntos referentes a ela.

Segundo o pensamento da Secretaria, os educadores já são ouvidos em outras instâncias. Quer, a cada 2 meses, 20 pessoas, que não sejam da rede pública, atuando como um conselho, cujo peso de suas opiniões será de alto alcance.

Será um peso ao lado do grande peso que é o Conselho Estadual de Educação. Um Conselho que forme canais de discussões sociais, levante questões, proponha soluções em aspectos relevantes, esquecidos ou desconsiderados pela Secretaria da Educação.

Arregimentam-se forças  a fim de tornar a escola uma alavanca da nacionalidade. Espera-se que se leve a sério tal iniciativa, que lhe dê consistência e a estimule à continuidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2003)

TRABALHO VOLUNTÁRIO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma face do assistencialismo social que vem surgindo e se aprimorando é o trabalho voluntário. Hoje, educa-se para ele, ressalta-se a sua importância humana, o seu alcance social.

Esse trabalho, em seu assistencialismo, ajuda a melhorar as condições de vida de quem precisa, colaborando com o desenvolvimento geral da sociedade. Já se forma conceito sobre o papel que o voluntariado exerce na formação do caráter do jovem, na sua formação humana. Ele traz benefício para os dois lados, de quem recebe e de quem pratica. Quem pratica, desenvolve uma personalidade altruísta, ganha um encaixe real à existência, deixando reflexos durante o resto de sua vida.

Hoje, o voluntariado se faz presente em todas as instituições. Nas organizações religiosas, grupos formados por diferentes religiões discutem a melhor forma de o voluntariado atuar nas diversas religiões, assim como trabalhar com pessoas de religiões diferentes das suas.

Há instituições que fazem uma espécie de capacitação de voluntários, tornando sua atuação mais eficiente, alcançando melhor os objetivos visados. Selecionam os candidatos de acordo com o perfil mais afinado às atividades – se bem que o trabalho voluntário não implica em nenhum tipo de remuneração, nem vínculo contratual. Treinam e orientam o voluntário para que sua atuação ocorra de acordo com as necessidades e filosofia da entidade. Do mesmo modo, os funcionários são preparados para trabalhar, em conjunto, com os voluntários.

A Pontifícia Universidade Católica (PUC) realizou em dois de julho do corrente ano o 1.º Congresso Brasileiro de Voluntariado, com a presença de Douglas Evangelista, coordenador do programa das Nações Unidas de Voluntariado para a América Latina, Caribe e países árabes.

Nesse 1.º congresso, surgiram como principais propostas a formação de uma rede mundial de entidades voluntárias e a criação de uma resolução que liga assistencialismo ao desenvolvimento social. Foi pedido aos delegados brasileiros que, na Organização das Nações Unidas, fizessem pressão para a aprovação dessa resolução.

A rede, pela Internet, colocada entre as diferentes comunidades, servirá para a troca de experiências, ajudando as entidades que trabalham com voluntários. “A rede servirá para criar vínculos e trocar experiências entre as organizações de diversos países”, disse Evangelista, acrescentando que o Canadá mede, em termos econômicos, a participação dos voluntários na sociedade, sendo o campeão mundial de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), instituição que afere a qualidade de vida das nações. “Lá, o voluntariado chega a 8% do Produto Interno Bruto (PIB), entre doações a entidades e tempo despendido pelos voluntários no atendimento”, arrematou.

Dia 5 de dezembro, Dia Mundial do Voluntariado, em assembléia-geral, a Comissão de Desenvolvimento Social da ONU vai tentar aprovar a resolução, para incentivar esse trabalho nos países-membros. Desse modo, as nações terão a obrigação de oferecer apoio ao trabalho voluntário.

Trabalho voluntário é ato de doação, de conscientização da parcela, pequena que seja, de contribuição de cada um, no ressurgimento de um mundo mais igualitário, menos doloroso e, por conseguinte, menos conturbado. A sociedade precisa educar-se para a ajuda mútua, aprender a dar evasão aos bons sentimentos, a acolher os necessitados, se quiser ter um amanhã sorrindo para a paz.

A situação social, todos nós sabemos, é caótica, violenta, com tendência a piorar, caso não caminhemos em direção à cura de seus males, ao alívio de suas dores. E nesse caminho, não há fórmula mágica ou fórmula inovadora, ela é a mesma máxima milenar pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo ao querer redimir o mundo da maldade, a das mãos estendidas, do pão repartido.

Não há mais que retardar, tem-se que começar a espalhar largamente a semente do amor, para não se arcar com o pesado e doloroso ônus da omissão, do desinteresse e do culto ao individualismo. É preciso expandir a consciência da participação comunitária, orientando, educando para a formação ética e humanitária da sociedade. É preciso trabalhar a solidariedade, a comiseração, sentimentos não tão fáceis de se conseguir no mundo competitivo em que vivemos.

Diz o adágio popular: “Solidariedade não tem preço, mas ninguém dá um centavo por ela”. Vamos educar na direção oposta!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

Lutar para elevar o nível de ensino das escolas brasileiras, em especial das escolas públicas, é lutar pelo de-senvolvimento do País, lutar pela desigualdade social.  A diferença educacional do pobre e do rico só faz aumentar a concentração de renda. Não há ascensão social sem educação de qualidade, inexistindo a possibilidade de empregos bem remunerados.

Quanto à economia, nosso decadente ensino nega os recursos humanos necessitados pelas empresas em mão-de-obra qualificada. A produtividade fica inibida diante do fraco treinamento dos professores para encarar tecnologias mais avançadas no campo da produtividade. O baixo nível de escolaridade interfere, também, na competitividade internacional, quando países como o Brasil disputam a mesma parcela do mercado globalizado.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador que passou a ser usado pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir dos anos 90. Pelo IDH, divulgado em julho corrente, o Brasil teve uma queda acentuada no ranking que mede o desenvolvimento humano no mundo. Na comparação com 175 países e 2 territórios, entre os anos 2001 e 2002, o Brasil caiu da 65.ª posição para a 72.ª, ficando abaixo da colocação que se encontrava no começo dos anos 90.

A queda brasileira no ranking deu-se pela piora nos dados de educação, principalmente pelo percentual de analfabetos entre pessoas com mais de 15 anos. A posição brasileira no ranking mundial mostra um retrocesso lamentável na educação.

O IDH mostra que a riqueza do País continua concentrada nas mãos de uma minoria da população. Mostra, no Índice, quantas vezes a renda dos 10% mais ricos no País é maior do que a dos 10% mais pobres, e o Brasil atinge 85 vezes. Vemos, então, como somos um País desigual e quanto devemos batalhar por uma educação de qualidade para as classes menos favorecidas.

O grande caminho para enfrentar a marginalidade educacional, social e econômica é assistir melhor à escola. Investir mais no ensino, melhorar e muito o salário dos professores, para que, estimulados, assumam maior compromisso com a educação. Para que se dediquem à reciclagem de conhecimentos, educando-se convenientemente, contribuindo qualitativamente com a escola que a época vem pedindo. Ao capacitar-se melhor, o professor, com mais possibilidades, entenderá que o maior objetivo da escola é fazer o aluno aprender; dar-lhe uma boa formação e não apenas fazê-lo passar de ano, muitas vezes, sem o mínimo necessário de conhecimento.

Bons professores resultam em bons alunos. Os próprios professores da rede pública, quando se trata de colocar os filhos na escola, colocam-nos em escolas privadas. Uma pesquisa realizada pela Unesco, feita com educadores brasileiros, “O Perfil dos Professores Brasileiros”, divulgada em maio de 2004, mostrou que os professores brasileiros, ganhando mal, preferem se sacrificar e pagar escolas particulares para seus filhos que deixá-los em escolas públicas. Mostrou que 54% dos 5 mil entrevistados escolheram pagar pela educação dos filhos. Querem garantir, segundo a pesquisa, uma “mobilidade social” para eles, um futuro melhor daquele  que tiveram. Ponderou Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil, de que “esses professores são a prova de que o investimento na educação tem altíssimo retorno”. Esses professores buscam qualidade de ensino, garantia de evolução social, que não encontram nas escolas públicas.

Um fato auspicioso que vem surgindo é o projeto de política integrada para os jovens. É um projeto que, segundo o ministro da Secretaria Geral da República, Luiz Dulci, vai integrar as políticas para a juventude, desenvolvido por várias áreas do governo, pelo Congresso e pela sociedade civil. Entre as ações que se programam está a reativação do Projeto Rondon. Luiz Dulci diz ser “um projeto totalmente novo, diferente do que era realizado no período autoritário”.

Contudo, o objetivo do novo Projeto Rondon “continuará sendo o de permitir uma integração maior dos estudantes com a realidade das regiões menos favorecidas do Brasil”. É, na verdade, um intercâmbio, onde os jovens levam seus conhecimentos e suas aptidões a outras regiões do País e, de retorno, assimilam novas culturas, ganham novas experiências.

A volta do Projeto Rondon foi proposta pela União Nacional dos Estudantes (UNE), como uma ação voltada para a área da juventude. O primeiro projeto foi criado em 1967, durante o regime militar, e durou até 1989. O propósito era levar estudantes universitários e professores para as regiões carentes do País, visando a realização de trabalhos sociais. Durou 22 anos e dele participaram mais de 350 mil alunos e 13 mil professores. O projeto atual pensa em ampliar a participação; além de universitários, incluir alunos do ensino médio.

O projeto de integração para a juventude quer priorizar ações na área do lazer, tentando combater a criminalidade. Atualmente, 18 áreas do governo têm ações voltadas para a juventude e o número de programas nessa ala chega a 48.

Integrar ações entre os jovens propicia avançar em direção à cidadania, à comunicação social. O projeto Rondon foi no passado uma iniciativa bem sucedida, em que a juventude se sentia útil na prática de ações sociais, desenvolvia a sociabilidade, o senso humanitário do viver, a responsabilidade perante a sociedade, vivenciando as desigualdades regionais. Vale a pena repetir a experiência.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2004)

OS DESMANDOS DA CORRUPÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Os caminhos abertos, a que proporciona a democracia, vêm conduzindo o povo a manifestações explícitas, a favor da moralização do nosso sistema nacional carcomido. A mídia esclarecida vem alertando a população para os desmandos da corrupção, para os prejuízos que ela causa ao País, empobrecendo-o.  As denúncias de corrupção, veiculadas pelos meios de comunicação, encontram forte ressonância junto à população, que começa a exigir transparência de atos e de fatos.

A conjuntura nacional vem se transformando, realinhando-se com vistas à moralização. Caminhando nessa direção, será ela, a corrupção, quem, em breve, entrará em crise, com estreitamento das possibilidades de sua ocorrência e com exigência de sua punição.

Sob forma clara ou velada, a corrupção se instala na educação, na saúde, na segurança, marca presença maciça no comércio. Ela chegou num grau extremo de aceitação e, conforme nos ensina a própria vida, os extremos tendem a chocar-se, trazendo o verso da moeda. Nesse preceito reside a grande esperança.

Ao penetrar no interior das instituições, poucas são as que se mantêm impolutas. No artigo da semana passada, abordei a desmoralização reinante nos cursos supletivos particulares a distância e os passos enérgicos tomados pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) de São Paulo, a respeito. Nem mal a decisão do Conselho saiu publicada no Diário Oficial, já se iniciavam tentativas de driblá-la.

Uma escola foi flagrada cobrando R$ 4 mil para cada nível de ensino, com certificado pronto em sete dias. Para os 1.º e 2.º graus juntos, o preço subiria para R$ 5 mil. A atendente insistia que se fechasse o negócio o mais rápido possível, porque com o passar dos dias, devido à nova regra, a coisa ficaria mais difícil. Ela, ainda, se oferecia para responder à prova. “Você só precisa assinar”.

Inteirando-se dessa situação, Arthur Fonseca Filho, presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), desabafou: “Foge até da esfera da educação, passa para a policial”. Acrescentou: “Os vendedores de diploma devem estar adulterando documentos e cadastrando os novos alunos como se tivessem sido matriculados há 90 dias”. Uma fiscalização rigorosa faz-se necessária para identificar os alunos que se matricularam antes da nova regra.

Um outro segmento educacional que começa a preocupar são os recém-criados cursos de pós-graduação, por inúmeras faculdades. Está havendo grande procura por esses cursos. Apenas o diploma de graduação não é mais suficiente para se ter, hoje, uma carreira de sucesso. No mercado competitivo, o grau de exigência vem crescendo e coloca nos cursos de pós-graduação o diferencial. A especialização abre caminho no trabalho.

Até uns anos atrás, fazer uma pós-graduação requeria passar por uma seleção em uma universidade pública ou em uma grande instituição particular. A realidade mudou. As faculdades, percebendo a correlação, passaram a manter estruturas de pós-graduação, oferecendo cursos em várias modalidades.

Está havendo uma verdadeira proliferação e já começa a suscitar dúvidas sobre a honestidade e a qualidade de ensino dos cursos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão responsável por esse nível educacional, defende uma ampla avaliação do segmento: “A expansão precisa ser acompanhada de qualidade. Está na hora de fazer um mapeamento para ver onde e como a expansão está ocorrendo para evitar um crescimento desordenado”, arrematou Arthur Roquete de Macedo, presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho.

A cada dia nos deparamos com diferentes denúncias de corrupção, nos mais diferentes setores. Presentemente, confrontamo-nos com uma produção e um comércio ilícito de cópias piratas de softwares, discos, livros e fitas de áudio e vídeo, em todo o País. O mercado de fitas de áudio estima-se ser, praticamente, pirata. O desrespeito aos direitos autorais chega a um patamar absurdo e vem prejudicando as relações comerciais do Brasil com outros países, especialmente com os Estados Unidos.

O mercado de produtos pirateados impõe barreiras comerciais, causando perdas consideráveis. As campanhas antipirataria, feitas por indústrias, têm trazido algum resultado. Mas, infelizmente, está sendo de muito difícil reprimenda; burlam-se os regulamentos, em variadas estratégias.

A desonestidade reinante nos alerta para a necessidade de uma contínua vigilância, nos mostra que postergar problemas é aumentar  a dificuldade em corrigi-los.

Para conseguirmos vencer situações lastimáveis como essas, é preciso investir-se, e muito, na educação, as escolas abordando educação politizada, educando para a cidadania, para a participação consciente dos problemas político-sociais, no engajamento do sentimento patriótico.

Foi com pesar que escrevi os versos abaixo: “Corrupção viciada”.

CORRUPÇÃO  VICIADA

Que lástima, esse nosso amado País!
Só CPIs cavando a podre raiz,
Gritante aberração e deformação
Do ideal de um povo em busca de afirmação.

Se lá em cima há muita roubalheira,
Que freio botar no batedor de carteira?
Que exemplo passar a fim de educar
E conseguir intento em moralizar?

Essa terra fértil, rica em mil produtos,
Na pilhagem embarga variados frutos,
Nunca se tem dinheiro para o social,
Saúde e educação sempre em baixo astral.

O povo indignado se revolta,
Apavorado anseia proteção, escolta,
CPI não salva, não marca confiança,
Deixa, contudo, laivos de esperança.

Sistema viciado em gatunagem
Arrasta a plebe pra triste engrenagem,
Cria cultura propícia à vil esperteza,
E sintoniza formas de safadeza.

Como sair dessa aviltante emboscada?
Como trocar sufoco por gargalhada?
-- A educação, a mudança cultural,
São saídas pra essa vergonha nacional!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

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