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Artigos Educacionais

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SENSIBILIZANDO PARA A DESIGUALDADE SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino*

As crianças, os jovens, bem nascidos, desencastelam-se. São orientados a conhecer e a conviver com o outro lado da moeda. A conhecer a pobreza, a vida de carência, de dificuldades de outras pessoas, de crianças e jovens de sua idade.

Passam a valorizar o que têm, a estender o olhar ao seu redor. Na aproximação, na constatação direta, não do que ouviu falar ou do que viu na TV, no cinema, sentem-se tocado pelo diferente, pelo sentido de solidariedade.

Colégios, freqüentados por alunos de classe média-alta, programam, com a aquiescência dos pais, visitas a favelas, diminuindo a distância entre mundos diferentes. Esses alunos passam a conviver com crianças e jovens como eles, que moram em regiões carentes, esquecidos pelo poder público e que enfrentam uma vida de dificuldades, de horizonte estreito, descambando para a violência.

Os alunos passam o dia nas favelas, participam de atividades programadas, em creches e pré-escolas, como horta, marcenaria, coleta seletiva, berçário, cozinha, biblioteca etc. Esses estudantes reformulam-se, descobrem o quanto são semelhantes, o quanto as crianças pobres só precisam de oportunidades para evoluir. Ganham em vivência, expandem a visão de mundo, tornam-se mais humanos. Percebem o quanto de preconceito existe em relação à pobreza e mudam o olhar em relação a ela.

Experiências como estas deveriam fazer parte do currículo das escolas. Aproximam crianças de classes sociais diferentes, quebram preconceitos, e elas se humanizam. Isolando, marginalizando, olhando com desconfiança, as diferenças cristalizam-se, compartimentam-se, simplesmente, em ricos e pobres.

Mais que qualquer outra ajuda, a cooperação, a aproximação, o entrelaçamento solidário é o melhor caminho a trilhar na quebra da insensibilidade em relação às diferenças sociais. Trabalhando para o crescimento da criança carente, dando-lhe perspectivas de vida, ela se afastará das sendas do crime.

Um outro fator de aproximação e enfraquecimento da violência é a oferta, pela escola, de atividades esportivas e culturais, em fins-de-semana, para os seus alunos, suas famílias, sua vizinhança. Além do fator convivência, do estímulo, a Organização das Nações Unidas (Unesco) revela que lazer e cultura são fatores comprovados de combate à violência.

A falta de opções de lazer e cultura é causa de tensão para os jovens da periferia, que respondem, favoravelmente, quando encontram, na escola, o espaço que falta no bairro, para usar o tempo livre, em atividades dirigidas, conglomerando o pessoal de sua comunidade. Essa política de aproximação, de prevenção à violência, melhora, inclusive, a relação professor-aluno. Há, comprovadamente, casos de queda de indisciplina, de brigas entre os estudantes e um aumento considerável da aprendizagem. Um dado importante da pesquisa da Unesco é o aumento significativo da participação dos pais na vida escolar dos filhos.

A aproximação escola e família, em uma ação educativa conjunta, tem-se revelado fator determinante para a melhoria em todos os outros indicadores educacionais. A escola, por sua vez, precisa levar em conta as características de sua comunidade e não deve prescindir da segurança preventiva, onde a polícia exerce menos força repressiva e age mais pela presença institucional.

Os estabelecimentos de ensino, que se integraram ao programa da Unesco, denominado “Escola da Paz”, começaram a se abrir, nos fins-de-semana, à comunidade, e constataram que, além da melhora do índice de aprendizagem, a escola começou a respirar um ar de mais tranqüilidade, de mais participação comunitária. O número de gangues caiu, os casos de vandalismo foram reduzidos, houve queda generalizada de casos de furto e roubo.

Cada vez mais chega-se à conclusão de que, se se quer paz, tem-se que enfrentar a pobreza, provocar uma convivência amistosa entre as diferentes classes sociais, um envolvimento coletivo na busca de oportunidades aos necessitados. A educação, com seu ingrediente de amor, de aproximação aos excluídos, é, sem sombra de dúvida, o melhor caminho a trilhar no combate à discriminação, à desigualdade social, à violência.

A escola redescobre o valor da arte, da cultura, do esporte, do lazer, no combate à violência, na formação da cidadania, do humanismo. Volta-se à confraternização entre as classes sociais, valoriza a cooperação, em detrimento da competição. Batalhando nessa direção, assistindo a pobreza, abrindo horizontes aos menos favorecidos, estaremos nos enveredando pelos caminhos da compreensão, adversos à violência.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em outubro/2002)


* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em outubro/2002)

CAMINHOS ALTERNATIVOS PARA A APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino*

A qualidade de ensino das escolas públicas continua sendo um grande desafio. As estatísticas multiplicam-se em seus resultados desabonadores. Mostram que 54% das crianças que estão na 5.ª série do ensino fundamental lêem mal e não conseguem interpretar o texto lido. O mais cruciante são as crianças que ficam fora da escola, expostas a todo tipo de violência: exploração sexual, trabalho infantil, direitos violados. Essas crianças, vivendo o abandono, a ausência de valores, transformam-se, com facilidade, em marginais, em delinqüentes. Estudos têm demonstrado que violência é menos fruto da pobreza que do desequilíbrio social. Ela resulta, preferencialmente, da desigualdade, do confronto entre riqueza e pobreza, da pobreza dentro da riqueza. Resulta de uma juventude desarticulada em seus valores, sem rumo.

A sociedade precisa encontrar respostas a essa juventude, fazê-la ter perspectivas de novos horizontes. Reforçar a bolsa-escola é um procedimento que se faz urgente. Preparar o professor para receber e reter essas crianças no recinto escolar é outro procedimento urgente. Preparar diretores para se ocupar da parte pedagógica, envolver-se mais com os projetos acadêmicos e menos com o prédio escolar ou com as questões burocráticas. Preparar a escola para incentivar a participação comunitária. Oferecer aos professores educação continuada, de preferência na própria escola, estimulando a formação permanente.

Fazer a criança, o jovem e o adulto estudar é ponto crucial para se enfrentar a grande desproporcionalidade socioeconômica reinante. Um outro recurso educacional, que vem crescendo a cada passo e que deve ser passado à comunidade, é a viabilidade do estudo a distância. Apostilas pelo correio, telecursos na televisão e pós-graduação por videoconferência são alternativas para quem não pode ir à escola e quer estudar. Estamos em plena era da alta tecnologia, quando se fazem pesquisas e mesmo operações bancárias via internet. Fala-se com grupos de pessoas em teleconferências, acompanham-se as imagens, em tempo real, de guerras longínquas pela TV.

Encaminhar o jovem e o adulto para cursos a distância é porta aberta em direção aos estudos. Orientá-lo, quando for o caso, a freqüentar um supletivo a distância. No Estado de São Paulo, o Instituto Universal Brasileiro, por exemplo, funcionando desde 1941, oferece cursos técnicos e supletivo de ensino fundamental e médio por um preço bastante acessível. O curso é de 24 parcelas de R$ 26,00 e a maioria dos alunos tem mais de 25 anos. O Instituto Monitor, com 63 anos de funcionamento, oferece mais de 30 cursos a alunos de todo o Brasil. Inclui ensino fundamental, médio e cursos técnicos de eletrônica, contabilidade, secretariado, transações imobiliárias e informática. A média de idade dos alunos é de 35 anos e 52% são homens. Há um plantão permanente de dúvidas, que pode ser acessado pela internet, fax ou carta. O Instituto Universal Brasileiro e o Instituto Monitor são reconhecidos pelo Conselho Estadual de Educação, órgão fiscalizador.

O Telecurso 2000, aulas televisivas, desenvolvido pela Fundação Roberto Marinho em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), apresenta uma metodologia dinâmica, em aulas baseadas na realidade, que se desenvolvem através de situações do cotidiano e interpretadas por atores que se revezam com as explicações dos professores. Os diplomas oferecidos aos alunos são reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC). Desde 1978 no ar, os telecursos são transmitidos por 10 emissoras do País, a rede Globo e mais 5 canais educativos. As aulas podem ser assistidas em telessalas, existentes em grande número por todo o País, que têm vídeo, orientador capacitado no uso da metodologia e material pedagógico de apoio, ou assistidas em casa. Quem assiste aos telecursos em casa pode adquirir o material didático em livrarias ou bancas de jornais. As provas finais devem ser agendadas pelas secretarias municipais de educação. Uma infinidade de brasileiros utiliza-se do Telecurso 2000.

Em rede de conhecimento, nas ondas cibernéticas da internet, surge a interatividade, o grande fator de estimulação e de abrangência. Essa rede vem se espalhando como instrumento de ensino para profissionais de empresas, nas chamadas universidades corporativas. A Petrobrás, com 27 anos de experiência, é uma das pioneiras em educação a distância. Ela faz uso dos mais variados veículos, tem uma grande variedade de cursos, tanto pela internet (ensino conhecido como e-learning), como com mídia impressa e TV. Mantém, atualmente, 45 salas de videoconferência, oferecendo, inclusive, cursos de mestrado, em parceria com universidades. Para atender a necessidade do aluno, este pode defender, por exemplo, uma tese estando numa plataforma em Manaus, assistido pelo professor em São Paulo, com uma banca de jurados em Brasília, todos seguindo a apresentação em tempo real.

O MEC mantém alguns programas, desenvolvidos pela Secretaria de Educação a Distância, como a TV Escola, que envia televisores, antenas e fitas de vídeo aos colégios; o Programa Nacional de Informática na Educação, com distribuição de computadores para a rede pública; e o programa de complementação para professores que não têm habilitação pedagógica, entre outros. Para a pós-graduação lato sensu a distância, 4 universidades aprovadas pelo MEC oferecem cursos de licenciatura para professores da rede pública, no ensino fundamental.

Os cursos a distância são caminhos que chegam a um lugar de sol. São pontos  de apoio para uma juventude que busca sua auto-afirmação. É preciso que se passe avante tais possibilidades, que escola e meios de comunicação divulguem os cursos a distância, fazendo o povo deles tomar conhecimento e deles tirar proveito.

Caminhos para a educação devem ser expostos e incentivados a trilhá-los. Neles estão a salvaguarda da igualdade, da liberdade e da fraternidade.


* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em maio/2004)

CONTEXTUALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Um dos aspectos que vem se tornando ponto pacífico na metodologia educacional é a contextualização do currículo. A educação contextualizada vem sendo observada em todos os graus de ensino e em todas as regiões do País: o ensino aproximando-se da cultura, da região, de quem aprende. É o ensino se revestindo da identidade de seu aluno.

O currículo apresenta termos locais, como costumes, moradias, famílias, artesanatos, comércio, agricultura, literatura e outros. Os livros didáticos passam a levar em consideração características regionais, bem mais que universais.

Os educadores sabem que não se explica, por exemplo, a maré para uma comunidade de pescadores da mesma maneira que se ensina para crianças de uma região afastada de rios e de pesca. Assim, as crianças recebem material para diferentes realidades, diferentes situações.

Os livros didáticos de hoje observam região, cultura e etnias. Observam a realidade concreta do aluno, estimulando a aprendizagem. A educação contextualizada dá sentido às áreas do conhecimento. O aluno acaba entendendo o motivo de estar aprendendo determinado assunto e passa a se interessar por ele, a tomar gosto pelo estudo. A escola dessa maneira passa a usar uma boa estratégia de inclusão, aborda o preceito “conhecer para valorizar”.

Vários são os exemplos de contextualização da educação, de escolas que buscam na sua realidade idealização de projetos, que englobam aspectos sociais vividos por seus alunos. Uma escola municipal da cidade de Curitiba acolheu idéias de alunos e adotou o hip-hop, integrando-o à rotina escolar.

Alunos que apresentavam dificuldade no aprendizado, alunos que engrossavam a lista da evasão e da repetência, passaram a ser objeto de atenção por parte da escola. Eram grupos de alunos que se interessavam pela dança, eram dançarinos de rua, fugiam da escola para dançar com os colegas, nas praças do bairro. Na escola eram indisciplinados, impacientes, desinteressados, porém, na dança se revelavam exatamente o contrário. A escola, mudando de estratégia, passou a apoiar os alunos dançarinos, entender a sua dança, descobrindo belezas nesse dançar, nos movimentos de cabeça, nos contorcionismos e nas letras de seus raps, que eram uma forma de crítica social. Percebeu uma música sincronizada com os movimentos corporais. A escola deu a esse grupo o direito de ensaiar as coreografias no pátio. Eles mesmos realizaram os grafites que ilustram a escola e as camisetas do grupo.

Esses alunos ao se sentirem compreendidos em seus ideais, valorizados no seu potencial, desenvolveram auto-estima e passaram a estudar mais. Entusiasmaram-se porque sabiam que tinham um espaço e hora para dançar. Coordenar a dança com os estudos foi a grande motivação para que não abandonassem a escola e se tornassem bons alunos. Uma das cláusulas do projeto era de que só permanecia no grupo quem freqüentasse as aulas e tirasse boas notas. A música e a dança os encaminhavam para a realização também nos estudos.

A direção da escola entendeu, inteligentemente, que deveria trazer para dentro dela o que mais gostavam de fazer fora dela. A escola colocou-se com competência, utilizando-se das músicas, que privilegiam temas sociais, que combatem a discriminação, que passam ensinamento sobre sexualidade, drogas e educação, para orientar, para ensinar valores, comportamentos sociais saudáveis. O movimento hip-hop passou a ser um escudo contra o mal, contra o mundo das drogas e do vandalismo.

A escola encontrou uma forma de ajudar e de mostrar uma realidade que caminha junto com a cultura popular, extraindo dela ensinamentos gerais. O grupo de dançarinos passou a ser convidado a se apresentar em eventos da cidade, elevando o nome da escola.

Competência e motivação dos professores são fundamentais para o sucesso de suas programações, de seus projetos normais ou alternativos. O modelo de educação hoje é aquele que se aproxima do contexto escolar, modelo moderno, condizente com a realidade das cidades, onde não se pode desconsiderar os altos índices de criminalidade da infância e da adolescência, os altos índices de envolvimento dos jovens com a droga, com a violência. O aluno, na escola, aprendendo, divertindo-se e desenvolvendo suas tendências, ficará preso a ela, afastando-se das más influências da rua.

A escola contextualiza quando retrata sua comunidade, observa aptidões, torna-se solidária, participando dos problemas mundiais. Leva para o currículo assuntos de relevância social. A didática para a modernidade aborda a teoria construtivista, a teoria sócio-interacionista, que vê o indivíduo como resultante de um processo sócio-histórico, resultante do meio em que vive. Deixá-lo se desenvolver no seu meio, de acordo com seu potencial, é um de seus grandes primados.

O currículo contextualizado passa a imagem da própria vida, a aprendizagem é extraída das situações encontradas. A escola cria projetos que vão de encontro ao perfil do aluno, de suas características, despertando assim seu interesse, atraindo-o ao ensino. Ela está sempre aberta a novas táticas de abordagem. É uma escola que atua de forma integrada e responde aos anseios dos alunos, desenvolvendo suas competências e habilidades, responde aos anseios da comunidade; integra-se e ajusta-se à sua clientela.

A escola é uma instituição receptiva, não uma ilha isolada. Compartilha da vida de seus alunos, da vida social. A contextualização leva à resolução dos problemas do dia-a-dia e coloca os objetivos do ensino próximos da sala de aula.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em julho/2005)

CONSCIÊNCIA DA REALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Voltamos à análise do sistema educacional brasileiro. Análise de ângulos diferentes, por vezes repetitiva, porém necessária como alerta. A radiografia do ensino básico mostra um sistema ruim, pedindo socorro, com políticas direcionadas à educação.

O grande desafio é entender o que se passa com a qualidade do ensino brasileiro e dar prioridade absoluta à educação básica. Não se constrói  uma casa pelo teto. São as estacas enfincadas no chão que lhe dão estrutura, sustentação.

Todas as vezes que o Brasil participa de avaliações comparativas internacionais, nossos estudantes ocupam, sistematicamente, as últimas colocações, em língua, matemática e ciência, sem falar dos péssimos resultados obtidos em exames internos, feitos pelo Saeb, hoje Neb, pela Prova Brasil, pelo Enem e outros. “O ensino básico cresceu de modo espetacular no Brasil, mas a qualidade dele nos põe na rabeira do mundo”, diz o virtuoso Cláudio de Moura e Castro.

É preciso desenvolver a consciência nacional de que nosso sistema de ensino é ruim, olhar de frente, encarar a situação, tentar consertá-la. Enfrentar a diversidade cultural que toma conta da escola. Ensinar o que o aluno pode aprender e não o que o professor gostaria de ensinar. Abraçar uma pedagogia que alcance o aluno fraco e não descuide do aluno forte. Uma pedagogia concreta, real, distante do abstracionismo, aplicada à sala de aula. A tecnologia ajuda, mas não resolve, não substitui a boa aula.

A sala de aula não vai bem, o professor não aprendeu a ensinar. O aluno aprende pouco, perde muito tempo ou decorando ou copiando do quadro negro, em aula expositiva, ao invés de aprender a pensar, a pesquisar, a chegar às próprias conclusões.

A associação entre a capacidade do professor e a aprendizagem do aluno ainda não impregnou a classe docente. Classe, aliás, sofrida,  padecendo de baixa estima e, também, de severas lacunas na formação profissional. Como conseqüência, surge a falta de qualidade, incidindo sobre todos os graus de ensino. Essa falta prejudica a qualidade da mão-de-obra, ditando para o futuro uma queda mais lenta da desigualdade social.

É a escola que detém a manutenção ou a diminuição da desigualdade social. Um bom ensino repercute em emprego, em melhores condições de vida, sustentando a correlação entre educação e desenvolvimento. Um mal ensino só reproduz essas desigualdades no País.

Nesse quadro de valores, como pode o Brasil formar o capital humano necessário ao crescimento econômico, do qual dependem a redução de pobreza e a inclusão social das camadas menos favorecidas da população?

A qualidade de ensino advém de professores que dominam o conteúdo e aprenderam a dar aula. De currículos claros, explícitos, contextualizados. Do uso de bons livros didáticos, que acompanham o professor na sala de aula, da avaliação contínua, da recuperação paralela e da exigência de disciplina em aula.

O interesse dos pais pelo estudo dos filhos, um bom diretor, são fatores que corroboram com a qualidade de ensino. Costuma-se dizer que a escola tem a cara do diretor.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em novembro/2006)

FORÇA JOVEM NO MERCADO DE TRABALHO

Izabel Sadalla Grispino *

O mercado investe na contratação de jovens. Busca uma linguagem atualizada, um revigoramento nas vendas, sustentados pelo entusiasmo juvenil.

Os jovens passam a ocupar cargos importantes nas empresas, dividindo o poder com executivos mais velhos, mais experientes. São jovens profissionais com curso superior e a maioria tem MBA, sigla que, em inglês, significa mestre em administração de negócios. Aprendem um comportamento adequado em liderança, gestão e processo de tomada de decisão. Têm boa formação em desenvolvimento de planos de marketing, em projetos de lançamento de produtos, estudo de mercados nacionais e internacionais e em estratégias de vendas.

A escolha pelos jovens passa muito pelo espírito de liderança, pelo dinamismo que emprestam à empresa, que, hoje, quer um profissional mais ágil, capaz de acompanhar a intensa competitividade da época. Eles vêm conquistando postos de comando, principalmente, em países em desenvolvimento, fortalecendo a imagem da empresa onde trabalham.

As grandes empresas julgam ideal contar com a parte jovem e a parte de mais idade. A primeira, preparada para ser empreendedora e pro ativa; a segunda, para dar mais estabilidade, pela experiência acumulada. Aliam a energia, a vibração da juventude, com a experiência, a visão ampliada dos mais velhos, pessoas capazes de prever melhor os riscos do negócio. Formam, assim, um conjunto proveitoso na abertura de mercado. As pessoas de mais idade representam, também, maior qualidade do serviço em foco. O que vem ocorrendo são pessoas experientes fazendo parte do Conselho Deliberativo das empresas e pessoas mais jovens, ficando na execução das atividades em questão.

Hoje, tem-se uma atenção voltada ao trabalho dos jovens, especialmente, no setor das empresas juniores (EJ), um tipo de instituição que está crescendo nas universidades brasileiras. Os alunos dessas empresas realizam projetos, apresentam-nos em auditórios, que passam a ser julgados por convidados não universitários, como aconteceu no início de dezembro de 2004, no VIII Prêmio de Qualidade Fejesp (Federação das Empresas Juniores do Estado de São Paulo).

Esses projetos disputaram prêmios em quatro categorias. Alunos da Unicamp ganharam em três e os da Unesp de Franca, em um. Nos projetos comerciais, o primeiro lugar ficou com a Agrológica, EJ da Engenharia Agrícola da Unicamp, de Campinas. Nos projetos sociais, a Empresa Júnior Jurídica (Ejur), da Unesp de Franca, venceu com o trabalho Observatório Social, executado por estudantes de Direito. Na categoria eventos, venceu a Automática 2004, a VI Semana de Engenharia Mecatrônica, promovida pela EJ da Engenharia de Controle e Automação da Unicamp. No melhor projeto interno, venceu um trabalho da Unicamp, Grupo de Estudos e Pesquisas da Engenharia de Alimentos (GEPEA).

Na apresentação dos projetos, cada equipe tinha apenas 5 minutos para dar seu recado e a Fejesp foi rigorosa no controle desse tempo. Foi medida a competência de comercialização da equipe, incluindo aí sua capacidade de comunicação e clareza. Avaliou-se também o conteúdo dos trabalhos, desde o planejamento até a execução.

A diferença de desenvoltura e performance entre as pessoas que passam por uma EJ é bem maior das que ficam de fora, porque é um tempo que conta como experiência. A Fejesp completará 15 anos de existência em 2005. Entre as 10 federações estaduais de empresas juniores do País, ela é a mais antiga. Conta, também, desde 2003, com uma confederação, a Brasil Júnior. Para saber mais sobre o assunto, veja www.fejesp.org.br.

Empresas e escolas investem na correta profissionalização, formando capital humano especializado para o sistema produtivo. Querem reformular os padrões educacionais, modernizar a competitividade da economia.

Com a chegada do Natal, quero expressar, aos prezados leitores, meus sentimentos de amor, desejar a todos um dia de alegria, de paz, de confraternização. Que cada um, dentro de si, trabalhe esses sentimentos, tornando-os representativos da vida de todos os dias.

Com votos de muita cor, muita luz, publico minhas meditações, na poesia abaixo, sobre o Natal de 2004.

NATAL  DE  2004

Izabel Sadalla Grispino

Novamente é Natal,

O tempo passa depressa demais!

Mas, para viver outro Natal vale passar,

Natal é encantamento, sem jamais,

Magia, que faz a alma sonhar,

Alegria, que o espírito faz renovar.

Natal é sentimento de paz que aflora,

São entes queridos que se reúnem,

Entes que estão presentes, entes que já foram embora,

Que, na maior festa cristã, no nosso amor se unem,

Imagens do sol poente, imagens da aurora,

Entrelaçando prazer e saudade nessa santa hora!

Meio a tanta alegria,

Lugares a menos na mesa...

Cadeiras que ficam vazias...

Uma saudade pulsando ilesa,

Lágrimas quentes brotam da alma fria,

No Natal convivem a esperança e a nostalgia!

O Natal penetra fundo no sonho da imortalidade,

Reflete um céu colorido do distante infinito,

Natal é mais que espelho de caridade,

É barco que navega em mar sem conflito,

Que faz a alma esbarrar na divindade,

Faz o homem conjugar amor e lealdade.

Natal, fantasia ou realidade?

Presença real do menino Deus?

Passaporte de felicidade ou simples aspirina?

Renovação de vida, que Jesus prometeu?

– Natal só pode ter essência divina,

Faz, para a alma, o que não consegue a medicina.

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2004)

EDUCAR PARA A AUTONOMIA

Izabel Sadalla Grispino *

Dando continuidade ao assunto tratado na semana passada, sobre as atividades extracurriculares dos jovens, gostaria, ainda, de acrescentar de que os pais devem saber diferenciar suas expectativas e as de seu filho. Na maioria dos casos, os filhos são induzidos a realizar os projetos que os pais não conseguiram concretizar e farão o máximo de seu investimento para que suas frustrações não se repitam na vida dos filhos.

Os pais devem, também, considerar que cada filho é um filho e que com cada um deve estabelecer diferentes tipos de relação. O fundamental aos pais é ouvir os filhos, dizem os psicólogos, entender, por exemplo, que para os filhos menores é mais fácil estabelecer uma rotina de tarefas; já para os filhos adolescentes, a partir dos 12 ou 13 anos, pode tornar-se mais difícil, porque eles querem fazer valer suas opiniões, seus desejos. Quando não são ouvidos, encontram meios para chamar-lhes a atenção, ou pelo abandono dos estudos, ou, então, por qualquer motivo, faltam às aulas de atividades escolhidas pelos pais. Buscar um equilíbrio nas multitarefas é essencial.

Educar é transmitir costumes, valores e normas vigentes na sociedade em que vivemos e essa educação deve ser feita com compreensão, com moderação. Manter uma educação não totalmente liberal, nem muito controladora. Na educação liberal, a criança não se sente apoiada, não tem uma referência segura e pode passar por experiências que venham lhe causar frustrações e sofrimento. Na educação controladora, a criança não tem independência para fazer nada, não consegue desenvolver iniciativa e criatividade, tem poucas chances de experiências, desconhecendo sua capacidade.

Em ambos os extremos, a criança sofre e pode desenvolver distúrbios de conduta, como birras, timidez excessiva, agressividade contra si e contra os outros. Atitudes diferentes dos pais, diante de uma mesma situação, também confundem a criança e quando existem problemas mais graves de relacionamento entre os cônjuges, muitas vezes os filhos são manipulados e aprendem a manipular, criando atitudes patológicas.

Um ambiente saudável propicia um bom desenvolvimento aos filhos, oferece apoio, suporte emocional, permite independência, escolha de opção, dando à criança consciência de suas possibilidades, tornando-a capaz de desenvolver segurança, estabelecer relação de troca e acreditar em si. Alguns fatores exercem grande influência na relação pais e filhos, como as expectativas dos pais em relação à criança, a demonstração positiva ou negativa sobre o ritmo pessoal, o tipo de personalidade e o comportamento observado.

Desde que a criança nasce até os anos pré-escolares, as metas essenciais são o ganho da confiança, da autonomia e da iniciativa. Para adquirir confiança, a proteção e a sensibilidade dos pais são fundamentais. Quanto à iniciativa, a criança descobre que há coisas possíveis e outras, também possíveis, mas proibidas e cabe aos pais demarcá-las e dar as devidas explicações. O diálogo fortifica a confiança, estimula a iniciativa e desemboca no comportamento autônomo.

A criança é levada a fazer muitas coisas de uma vez e, para que cresçam com noção de disciplina, para que adquiram confiança, os pais devem vigiar, orientar, porque ela não tem capacidade ou energia suficiente para obter êxito em todas as situações. Compete aos pais acompanhar o desabrochar da personalidade da criança, orientar, sem tolher as potencialidades afloradas.

Embora o ser humano, ao nascer, seja extremamente dependente de seus pais, ele já nasce com algumas capacidades, como a de inibir estímulos desagradáveis, tolerar frustrações. Ele vai atuando no ambiente e reivindicando a satisfação de suas necessidades, de acordo com o temperamento e com o ritmo próprios. Essas duas características, temperamento e ritmo, são determinantes para o bom desenvolvimento da personalidade, por isso, devem merecer atenção por parte dos pais.

As primeiras trocas afetivas entre mãe e filho, os cuidados básicos recebidos, as ações e reações da criança com seu meio-ambiente vão moldando o seu comportamento. E essas vivências, positivas ou negativas, serão, posteriormente, transferidas ao meio social mais amplo, favorecendo ou dificultando a sua adaptação.

A responsabilidade dos pais no ajuste ou no desajuste psicológico dos filhos é grande, e “não é preciso que os pais sejam perfeitos, eles apenas devem ser atentos, sensíveis e humanos” (Buscaglia).

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2001)

A ESCOLA E A VIOLÊNCIA INFANTO-JUVENIL

Izabel  Sadalla Grispino *

Como pode a escola exercer seu papel de coadjuvante da transformação social? Sabemos que escola e sociedade se integram, se interagem. São interfaces que se refletem, que se completam: uma recebe o produto da outra. O projeto pedagógico da escola deve contemplar a realidade vivida pelo aluno, seu cotidiano; contemplar o contexto socioeconômico-cultural, no qual se insere. A contextualização é matéria-prima do currículo. A análise reflexiva do comportamento social é vital para a performance da escola. Os alunos que a freqüentam saem da sociedade, é dela parte integrante. De que características se reveste a sociedade de hoje?

No cotidiano social vivenciamos a violência, a fome, a corrupção, o desemprego, tudo banalizado pela alta freqüência. Estamos nos tornando uma comunidade anestesiada pela repetida violência, que vai minando o organismo social. Presenciamos, em larga escala, uma juventude desajustada, psicologicamente envelhecida, deixando, no uso da droga, a própria capacidade de sonhar. O número da delinqüência juvenil vem aumentando em progressão geométrica. A miséria moral se configura no seio social.

As causas da violência, apontadas por especialistas, ajudam no entendimento e na colaboração que cada instituição – família, escola, igreja, justiça, polícia... – pode dar. Pesquisas realizadas nessa área mostram várias causas, todas girando em torno da família. A ênfase é dada à desestruturação da família. A destruição do casamento vem trazendo uma pesada fatura. A ruptura familiar produz na criança, no jovem, o “rasgão afetivo”, responsável pelo comportamento desajustado.

Resgatar a juventude significa recuperar o conceito de família. Subverte-se a escala de valores da ordem social e com ela vem a desintegração da família, caracterizada como um grave problema do nosso tempo. Evidencia-se o advento de uma nova civilização, com outro quadro de valores, gerado pelas mutações das épocas. Mas, dentro de toda essa mudança, algo deve ser revisto, repensado, como medida salvadora, em termos da união da família, de fortalecimento dos laços familiares.

O número de casas sem pais vem crescendo assustadoramente. Pais ausentes, filhos delinqüentes, diz a regra. Pais fora de casa, filhos entregues à “babá eletrônica”, com maléficas conseqüências. A ausência de vínculos afetivos gera introspecção, frieza, revolta. Família sadia é ainda a melhor receita para uma sociedade sadia. Família que reza unida, permanece unida, nos ensina a Bíblia Sagrada e a sabedoria popular nos adverte: “Colheremos o amargo fruto que a nossa omissão ajudar a semear”.

Violência e droga são aspectos afins,  ambas se prendendo à crise familiar. Uma pesquisa do Ibope, realizada em fins do ano de 1999, em cinco capitais brasileiras, concluiu que os conflitos familiares, o declínio da família, são a principal causa da entrada dos jovens no mundo da droga. De cada 100 adolescentes entrevistados, 35 alegaram que se drogavam para fugir dos problemas familiares. O segundo motivo, a necessidade de ser aceito pelo grupo, vem bem atrás, 15% dos jovens visitados. Um estudo do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas  (Cebrid), em setembro de 1999, mostrou que 26% dos jovens brasileiros usaram algum tipo de droga, legal ou não. Hoje, esse número, estima-se ser maior. Nas famílias problemáticas, esse índice é bastante superior.

Uma segunda causa apontada para o crescimento da violência infanto-juvenil são os jogos eletrônicos. Uma pesquisa realizada, durante 5 anos, pela psicóloga Paula Gomide, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná, com 500 crianças e adolescentes, relata: “Cumulativamente, os efeitos da exposição contínua à violência podem causar sérios danos psicológicos”. Especialistas endossam essa afirmativa, demonstrando forte conexão entre a violência transmitida via entretenimento e sua dramática transposição para a vida real. Um dos videogames de maior sucesso, o Carmageddon, revelou-se um autêntico laboratório de crime e perversão. Um garoto de 12 anos assim se manifestou: “Eu acho dez o Carmageddon. É engraçado ver todo mundo se despedaçando. Eu adoraria poder jogar o carro em cima dos pedestres, principalmente idosos. É legal ver o velhinho sair correndo e a gente atrás”. É uma apologia ao comportamento destrutivo, indiferente ao sofrimento humano, antes, estimulador.

Essa precoce carga de perversidade, estimulada pelos jogos eletrônicos, pode ser mais uma origem de comportamentos patológicos, excessivamente agressivos.

Outras causas são apontadas por especialistas; refletiremos sobre elas na próxima semana.

Baseada em minhas observações e conduzida pelas luzes da Psicologia Comportamental, convido meus leitores a refletirem sobre minha poesia “Estrutura familiar”.

ESTRUTURA FAMILIAR

Pai e mãe, suporte físico e moral,
Estrela-guia das pedras do caminho,
Anjo que fortalece o emocional,
Que dá ao filho a dimensão do espinho.

Pai e mãe, da criança o porto seguro,
Navegando juntos, o alvo é certo,
Em segurança, encara o futuro,
Tendo o amor e a proteção por perto.

Pai e mãe separados, filhos bloqueados,
Crescem divididos, sem referência,
Passam a existência desencontrados.

“O que Deus uniu, o homem não separe”,
Sabedoria bíblica em evidência,
Sua válvula de escape, repare!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2001)

O TERCEIRO TURNO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

É comum assistirmos inovações na estrutura escolar que pouco ou nada contribuem para a qualidade do ensino. Provocam impacto, especialmente, para uma população mais desavisada.

Quando li que a Prefeitura de São Paulo vai extinguir o terceiro turno, à primeira vista, a medida pareceu-me alentadora, um passo avante para a melhoria do ensino. A partir de fevereiro do corrente ano, as aulas do ensino fundamental, que eram de 3 horas e 40 minutos, estender-se-ão por 5 horas.

Aprofundando no assunto e lendo relatos de professores que atuam em escolas de três turnos, o entusiasmo começou a arrefecer. Não houve, por parte da Prefeitura, um plano consistente, uma programação que abrangesse a estrutura física das escolas.

“Tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Tudo é feito a toque de caixa. Para se eliminar o terceiro turno, algumas salas de aula foram construídas e a outra saída foi desativar os espaços pedagógicos, enfraquecendo as condições de ensino, desestimulando áreas do saber.

Foram eliminadas as salas de educação física, as de educação artística, laboratórios de ciências. Utilizam-se, segundo a necessidade, salas de atividades pedagógicas, de brinquedotecas e as de vídeo e DVD, inclusive, invadem a sala dos professores, desalojando-os, privando-os dos encontros salutares, quando, descontraidamente, abordam problemas de alunos, de convivência escolar.

Essa falta de valorização dos complementos pedagógicos tão vitais, empobrecendo a escola e a visão do aluno em relação a ela, vai aos poucos se acentuando e refletindo no entusiasmo pelo estudo.

Educar é muito um estado de espírito. Premidos pelo desconforto, pelo plano inferior a que foram submetidos, docentes e discentes poderão reagir negativamente e o aumento do número de aulas não será revertido, certamente, ao nível pretendido, ao benefício esperado.

Um outro aspecto, ainda mais importante, lembrado por responsáveis educadores, é a fraca qualidade que vem norteando o ensino. Este continuará o mesmo, os professores, os mesmos, com as mesmas deficiências e esse número de horas-aula aumentado manterá o mesmo baixo padrão. Sob esse prisma, a derrocada continuará.

Quem atua em educação sabe que não virá melhoria de ensino se não se investir nas condições do ensino, no professor, em sua reciclagem de estudos, em sua valorização salarial. É preciso primeiro melhorar a qualidade dos integrantes do magistério, para depois pensar num reforço de horas-aula aos discentes. Como está, só se irá estender um ensino, que continuará diplomando analfabetos funcionais.

O ambiente escolar, em muitas localidades, vem se degradando, a ponto de os professores dizerem: “Os alunos organizam seus roubos e o negócio de drogas dentro da própria escola. E, mais tempo para eles?”

Se não se fizer uma revolução na educação, uma revisão do processo formal, os acréscimos de horas-aula serão irrisórios, superficiais, quando não prejudiciais!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2007)

VIOLÊNCIA E FALTA DE QUALIDADE NAS ESCOLAS PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

A escola brasileira apresenta deficiências acumuladas, precisa se dar conta dos desafios que deve enfrentar para uma aprendizagem de qualidade. Desafios que coloquem como prioridade um ensino que ofereça oportunidades a todas as classes sociais, buscando igualar os desníveis tão assinalados.

Violência e falta de qualidade são os dois maiores problemas enfrentados pela escola pública, preocupando sobremaneira os pais. A escola hoje oferece vagas a todos que a procuram e normalmente perto de casa. É, sem dúvida, um avanço, mas peca por seus métodos de ensino, incapazes de atingir a qualidade. A violência, ao lado da falta de um bom ensino, foi apontada como a maior preocupação dos pais, numa pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep), em janeiro do corrente ano.

A pesquisa foi realizada em cinco capitais – Belém, Recife, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba – e serviu de base para uma outra mais abrangente, iniciada em janeiro. A pesquisa, com 10 grupos de discussão, mostrou que pais temem pelos filhos nos casos de violência e se mostram decepcionados quanto à qualidade de ensino. Cem pais, participantes dos grupos de discussão, foram unânimes nas respostas. As afirmativas serviram para o Instituto organizar novo questionário com o mesmo objetivo e enviar a 10 mil pais em todo o País, incluindo cidades do interior.

Talvez essa segunda pesquisa nem seria necessária, é evidente a necessidade de se melhorar o ensino e as condições de segurança das escolas de todo território nacional. As escolas, principalmente nas grandes cidades, apresentam-se como um local inseguro e com falta de disciplina. Os pais ressaltam, ainda na pesquisa, que os filhos não estão aprendendo.

Vários pontos tiveram resultados positivos: o fato de a escola ser pública e gratuita, de haver vagas para todos, da matrícula ser simples e o acesso fácil. A merenda escolar e a distribuição de livros didáticos também foram elogiadas.

A pesquisa mostrou, em contrapartida, que a grande maioria dos pais não entende os novos métodos de ensino, a formação de ciclos e questiona a aprovação, que ela chama de automática. Questiona o processo de avaliação continuada, uma avaliação sem provas, feita por meio de trabalhos e da participação em sala de aula. Um outro aspecto da pesquisa foi mostrar que os pais freqüentam pouco a escola, talvez, esta seja uma das razões do desconhecimento dos métodos adotados.

Essa deficiência escolar reflete profundamente na vida social e no mercado de trabalho. As empresas começam a perceber a importância de fortalecer o ensino de seus funcionários. Percebem que não adianta dar um treinamento técnico avançado, quando há problemas na base da educação. Com a exportação, as empresas notaram que a qualificação da mão-de-obra era um diferencial competitivo importante para ganhar mercado em países como EUA e Canadá. Passaram a investir na educação de seus funcionários, sabendo que estariam investindo nelas próprias.

Dados do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) mostram que 81% das empresas investem no ensino fundamental. Investem na educação dos 7 aos 14 anos influenciados pela Constituição de 1988, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e pelas políticas educacionais dos últimos governos, que priorizam a educação nessa faixa de idade. As empresas tomam para si o desafio de erradicar o analfabetismo, ampliar o acesso ao sistema educacional e tornar possível o acesso às novas tecnologias, como a informática. Empenham-se a oferecer ensino fundamental para a população adulta – de jovens e adultos – eliminando barreiras à inclusão social. O mercado de hoje exige esse conhecimento mínimo.

DIA 27 DE ABRIL, DIA DE PÁSCOA

A Páscoa é uma festa cristã, que comemora a ressurreição de Cristo. É o princípio de uma nova vida, a redenção da humanidade. Desejo que nesse dia o mundo se encontre num grande abraço de paz, de renovação, apoiado nos ensinamentos de Cristo.

A Campanha da Fraternidade, deste ano, aborda o tema “Solidariedade e Paz”, com seu lema: “Felizes os que promovem a paz”. Em homenagem a essa Campanha, os meus versos abaixo:

ESCALADA DA FELICIDADE

Para a felicidade só há uma estrada,
Aquela que a dor alheia abraça,
Que engrossa as fileiras da justiça,
Enfraquece os ânimos da cobiça,
A humildade do espírito, sua mansidão,
Se encarregam dos benefícios que virão.

A felicidade é um se doar,
Orar ao se levantar e ao se deitar,
Impregnar-se do sentido da oração,
Aprendendo com ela a dividir o pão,
Ela está no extremo de uma estrada penosa,
Tendo que atravessar uma humanidade perniciosa!

A felicidade fica além dos pântanos encharcados,
Além da trilha de povos irados,
Só após conhecer a desgraça,
É que se chega ao estado de graça,
Persistindo em sua busca, a claridade avança,
Descobre-se que ela é a paz, a esperança!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2007)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

O SÉCULO XXI REENCONTRANDO DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A volta calorosa do confronto entre racionalidade e crença, comentada no artigo anterior, despertou-me curiosidade. Pesquisas a respeito trouxeram-me ajuda e apraz-me dividi-la com vocês, prezados leitores.

No passado, cada descoberta da ciência parecia constituir-se em derrota para a Igreja, em suas teorias fundamentais, que sempre colocou Deus na origem de todas as coisas, do universo. Era o confronto do método experimental da razão com a fé. As leis da evolução tornariam a gênese, o bigue-bangue, a história de Adão e Eva ficções. Parecia que o Iluminismo triunfaria sobre a Revelação, contida na Bíblia. O fulcro da questão ficava entre fé e razão.

Em 1991, surge o livro “Dieu et la Science”, escrito pelo filósofo cristão Jean Guitton, em parceria com os irmãos Bogdanov, que contém toda uma tradição cientificista. Neste livro, eles mostram que a fé não é inimiga da razão e que os resultados das pesquisas mais atuais sobre a história do universo e da vida não são contrários aos ensinamentos das grandes religiões.

Os avanços da ciência, nas descobertas sobre a origem das coisas ou da vida, esbarram-se com significativos limites. Quanto mais se esclarecem alguns mistérios, outros vão ganhando forças. Já se repete a frase: “Nos avanços da ciência, a sombra de Deus”. Constata-se que a razão não consegue esclarecer tudo. Num determinado ponto, a sombra de Deus começa a pairar. Telescópio, microscópio, longe de derrotar a presença de um Deus, parece ainda mais fortificá-lo.

Albert Einstein, que chegara a reduzir os fenômenos do cosmo a uma equação, assombrou o mundo ao admitir que “algo existe atrás da matéria”. O grande cientista Louis Pasteur (século XIX) lançou uma interrogação instigante: “Podemos ainda dizer que se um pouco de ciência nos afasta de Deus, muita ciência nos reconduz a Ele?”.

Nos Estados Unidos, uma organização composta por inúmeros cientistas, que se utiliza da sigla IDEA – Intelligence Design and Evolution Awareness – abraça, fortemente, a questão. Mesmo não pondo em dúvida a evolução, considerando os estudos sobre os fósseis, mostra-se convicta de que atrás dela está a mão transcendente de um Criador.

Em Michigan, parlamentares pedem que se ensine nas escolas, ao lado da teoria da evolução, a teoria dos neocriacionistas. Estes dizem concordarem com a tese evolucionista, quando diz que o mundo não foi criado há apenas 6 mil anos, mas defendem, convictamente, a idéia de que o processo evolutivo foi criado por Deus, há bilhões de anos.

Mais recentemente, um renomado cientista, Michael J. Behe, pertencente a uma comunidade científica das mais respeitadas do mundo, após exaustivos programas de análise matemática à assombrosa complexidade da célula, chega a uma conclusão que difere da teoria de Darwin; “As estruturas celulares, com sua múltipla interdependência, não podem ser explicadas como resultantes do acaso, pelo menos com a matemática. Deve existir uma inteligência superior que dá forma e sentido à vida”.

Dr. Michael chega a uma conclusão parecida com a de Newton, na passagem dos séculos XVII e XVIII, quando formulou as leis da gravitação universal: “Os astros, de fato, se atraem com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa”. Dizia ele: “Por trás dessa elegante relação matemática, existe um elemento capaz de tê-lo formulado”.

Assim, para Newton, a ciência, longe de negar Deus, O confirmava.

Sob um outro aspecto, do diálogo entre a fé e a cultura, está surgindo a perspectiva de um encontro universal, unificando o senso religioso, o sentido da presença de Deus em todas as culturas. A Igreja católica vem dando significativas demonstrações de aproximação com todas as religiões. Busca relacionar-se às demais culturas, sejam africanas, asiáticas ou indígenas, mesmo sem formação cristã e distante da modernidade ocidental.

A Igreja encara a globalização vantajosa em vários aspectos, mas, rejeita a uniformização cultural. Legitima as diferentes culturas humanas, defende a diversidade cultural. Faz um apelo ao diálogo entre essas culturas e, nesse diálogo, quer expor sua visão cristã do mundo, em testemunho de amor à vida social, em preocupação com os povos mais pobres, mais sofridos.

A Igreja quer uma comunhão que promova a unidade na diversidade, uma convivência humana mais pacífica, que ostente a bandeira do amor, do perdão, da solidariedade. No início de junho, do corrente ano, houve em Puebla, no México, promovido pelo Vaticano, por seu Pontifício Conselho de Cultura, um encontro continental americano, que teve como tema geral o diálogo entre fé e cultura.

A base de toda cultura se assenta na existência de um Deus, por que, então, não se unir nos propósitos, nos valores fundamentados por Ele? O confronto do diálogo entre fé e cultura, entre fé e razão, entre fé e ciência, é o caminho para se atingir a união e, através dela, a paz.

Nas próximas semanas, continuarei a trazer o resultado das pesquisas sobre ciência e fé.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS E OS PROCESSOS DE PRODUÇÃO

Izabel  Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, trabalhado de modo complementar. Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da produção, da educação, da economia, a incorporação de atitudes na linha da “troca”, “parceria”, “co-gestão”, “co-autoria”, “trabalho em equipe”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiência, planejamento conjunto,  conteúdo interdisciplinar, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, a autonomia na aprendizagem, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em transmissão do conhecimento, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em construção do conhecimento, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor--aluno, o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber aperfeiçoado, em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis. Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão. O pai participa da escola numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só era chamado para ouvir reclamação do filho, por alguma falta cometida. Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado pela escola, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé etc. Busca-se uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, a dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno. Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam-se experiência e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

A parceria do professor com o aluno cria, na sala de aula, um clima interativo, um conhecimento articulado, facilitadores da comunicação e da abordagem da educação democrática e libertadora. Ao trabalhar o aluno, sua matéria-prima, o professor marca sua presença na sociedade, quando lhe entrega o resultado de sua obra maior, um cidadão capaz, consciente que de seu desenvolvimento resulta o desenvolvimento do País.

Para chegar a esse bom termo, o professor precisa adequar o seu ensino ao tipo de aluno que recebe, precisa falar, como emissor, a língua do aluno, o receptor. Conhecê-lo bem, conhecer seu universo cultural, deve ser o ponto de partida, centrando a aprendizagem em bases no real, no concreto, e evitar, assim, uma possível inadaptação do aluno aos métodos da escola.

Escola é vida, é experiência de vida. Investigar o cotidiano do aluno, trazer sua vida à escola, relacioná-la, estrategicamente, aos conteúdos do currículo, vão tornar a aula mais atraente, mais condizente com esse aluno.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2000)

EDUCAÇÃO: CONFUSÃO ENTRE ORDEM DIRETA E INVERSA

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi exaustivamente delineada, em várias ocasiões.

A preocupação abrange o particular e o geral, o indivíduo e a nação. Enquanto o mundo se ilustra, países, como o Brasil, se deslustrando, acabam por cair em descrédito internacional, no estado de pobreza. Como fica o país despreparado frente à globalização? Como fica a concorrência com os países fortes, com seu povo culto, evoluído? Que patamar, no “ranking” mundial, alcançará nosso Brasil, nessa avalanche de conhecimento que toma conta do planeta?

Todos os países do primeiro mundo cultuam seus centros de excelência, que abrangem as melhores universidades. No Brasil, ao que parece, a tendência é a de desperdiçar esse potencial, eixo gerador de grandezas. Existe um projeto de lei, de autoria do senador Antero Paes de Barros, que determina a reserva de 50% das vagas nas universidades estaduais para alunos das redes públicas. Este projeto já fora aprovado na Comissão de Educação do Senado,  em caráter terminal – sem votação em plenário – por acordo entre os partidos. Na semana passada, para espanto dos educadores, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto semelhante, quase que por unanimidade; dos 68 deputados presentes, apenas um deixou de votar a favor.

Como admitir reserva de vagas por decreto, não importa a que tipo de aluno, sem um critério de qualidade, sem uma prévia avaliação do conhecimento? Que conseqüências socioculturais e econômicas advirão desse procedimento infundado? Um aluno sem boa formação terá condições de acompanhar um curso de alto nível? Ou se espera o contrário, que a universidade de desqualifique, arrebaixe seu padrão, aviltando seus critérios? Se essa última hipótese não vier acontecer, a conseqüência será o desânimo do aluno, sua desistência, seu fracasso profissional. Para atender ao perfil do novo ingressante, a universidade terá de criar programas de adequação curricular e, sem dúvida, com impacto na estrutura dos cursos.

O projeto parte do pressuposto de que só alunos das escolas particulares conseguem entrar nas universidades públicas, gratuitas, o que é absolutamente verdade. Mas, por que isso acontece? O que gera a injustiça? Dedução óbvia: a péssima formação recebida nos graus de ensino anteriormente freqüentados por esse aluno. Uma etapa vencida, num determinado padrão, gera outra, no mesmo padrão. Há coerência no trajeto percorrido.

Saltar de repente, sem base de sustentação, é se desfacelar na caída. Pulo de gato só em alpinistas sociais, em educação não funciona. O ingresso à universidade se constitui na legitimação de um processo de seleção anterior. Vamos pensar sério, agir sério, deixar a demagogia, o populismo inconseqüente. Vamos qualificar o aluno pobre, dando mais atenção, mais verba para a educação básica; vamos investir, equiparar, humana e materialmente, nossas escolas oficiais às escolas particulares, melhorando o seu ensino. Assim, não precisaremos inverter a ordem natural das coisas e dos fatos, camuflar valores, colocando a carroça diante dos bois e criando confusão entre ordem direta e inversa.

O ensino superior deve ser seletivo, deve receber os melhores preparados, na perspectiva do maior padrão possível de ensino. É preciso que os educadores se alertem, que reajam contra essa incongruência, que vai acabar no mesmo poço fundo da desigualdade social, com a agravante de arrastar junto as nossas melhores universidades.

Já se denunciou a inconstitucionalidade do projeto, quando a Constituição Federal, em seu inciso I, artigo 26, reza preceito contraditório a esse procedimento: “O ensino será ministrado no Brasil com base no princípio da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. O correto é, pois, dar igualdade de condições a ricos e a pobres e deixar que as vagas sejam daqueles que as conquistarem pela competência, pelo conhecimento adquirido. Sem uma educação de qualidade qualquer esforço por igualdade social é inútil.

Não se forma uma grande nação por decreto; forma-se pelos passos que essa nação desenvolve, pelas oportunidades que cria, pelos olhares, competentes e honestos, que dirige ao desequilíbrio da balança social, buscando justiça na eqüidade. A reserva de vagas, a alunos supostamente despreparados, só faz transferir o problema para a universidade, reflete negativamente sobre o nível superior oficial, nivelando-o por baixo.

Amanhã é Natal.  A todos meus prezados leitores votos de um dia feliz, extensivos ao ano inteiro. Que os sentimentos de paz, de amor, de fé, de que é portador, permaneçam junto a nós para sempre. Este ano, o Natal inspirou-me os versos, que publico a seguir.

NESTE NATAL

Quero, neste Natal, mãos que se tocam,

Vidas que, na alma, bondade estocam,

Quero a poesia alimentando a ilusão,

Sabendo que Jesus é coração.

Do papai-noel quero ajuda à pobreza,

Crianças sem fome, sem ar de tristeza,

Que partilham da mesa farta,

Junto ao presente, a esperançosa carta.

Neste Natal não quero iguaria,

Não quero a ceia ornamental,

Nem pedras enfrentando a artilharia.

Quero a graça de ver o mundo em paz,

Criança palestina em terra natal,

O amor expulsando satanás.

 

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em dezembro/2000)

MUDANÇAS NA REFORMA DO ENSINO

Izabel  Sadalla Grispino *

Muito já se tem falado ou escrito sobre a reforma do ensino, mas o que parece é que ela está sendo sofrivelmente entendida e aplicada, em boa parte das escolas. Hoje, se preconizam voluntários da educação, pessoas da comunidade, da sociedade em geral, que, de alguma forma, possam contribuir com a escola, enriquecer seu conhecimento, seu currículo, inclusive sob a forma de atividades aos alunos. Este artigo engloba o objetivo de fornecer às escolas subsídios à reflexão sobre a nova realidade escolar, inscrita nas proposições emanadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

A escola precisa fornecer parada para a meditação, para a reequilibração num processo de feed-back. “Um professor que não pára para rever sua prática pedagógica, se ver em atuação, trocar com seus pares, é um professor literalmente tragado pela “fazeção” do dia-a-dia, que acaba ficando sem sentido”. (Paulo Freire)

Surge uma nova concepção de currículo e, com ele, uma nova concepção de escola. Nova em seu formato, em seu funcionamento, em sua organização, requerendo uma profunda revisão das metodologias de ensino. Uma escola que deve estar apoiada em avaliações periódicas, renovando-se, ajustando-se a um mundo em permanente mutação, para o qual o ensino tradicional tornou-se inapropriado, obsoleto.

Revoluciona-se o conceito de currículo, que tem, agora, sua maior característica na flexibilização. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a flexibilização na organização de cursos e carreiras e por isso torna possível a mudança que vale tanto para as escolas públicas como para as privadas. A idéia central é substituir a atual estrutura curricular, baseada em disciplinas e carga horária fixa, por outros modos de organização. Na educação básica por: “séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência” e em outros critérios e formas diversas de organização, como módulos, reclassificação de alunos, aceleração da aprendizagem... No ensino superior a LDB prescreve que “alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos... podem ter abreviada a duração de seus cursos”.

O novo currículo substitui padronização por flexibilização. Vivemos numa sociedade plural, plural que deve ser usado para o enriquecimento, para o acréscimo, não para a unificação. A reforma adota currículos que buscam a cultura compartilhada, atualizada, incluindo a informal, onde a leitura de jornais e revistas deve ser pensada como uma de sua parte integrante. O currículo formal só é autêntico se apoiado no currículo oculto, oriundo da vida do aluno, sua cultura, suas variadas influências. O projeto pedagógico da escola precisa contemplar o contexto sociocultural, trabalhar a metodologia interativa, interdisciplinar, contextualizada, com o foco do currículo caracterizado mais por competência cognitiva de caráter geral que por informações. “No lugar de uma cabeça bem cheia, uma cabeça bem feita”, nos ensinava no século XVII o pensador francês Montaigne.

As modernas teorias pedagógicas têm suas raízes no passado, foram estruturadas ao longo dos séculos. Reforçam, entre outras, o pragmatismo lançado pelo educador norte-americano John Dewey, que antes da década de 30 dizia: “Escola é vida, não é preparação para a vida”. Propunha que a escola desenvolvesse aptidões e habilidades nos alunos por meio de experiências vividas; é o famoso “aprender fazendo”. Piaget e Bruner, influentes mentores da educação moderna, na 2ª metade deste século, possibilitaram-nos a formação de programas de ensino mais realistas, conteúdo mais acessível, métodos de ensino e de aprendizagem mais adequados aos alunos. “O aluno é um ser que interage com a realidade”, dizia Piaget.

As disciplinas tradicionais do currículo devem estar relacionadas aos aspectos essenciais da vida do cidadão, como ética, saúde, meio-ambiente,  movimentos  culturais,  sexualidade,  pluralidade  cultural,  mito  da democracia

social, vivência familiar, social e outros. Esses temas serão incluídos e trabalhados em associação às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais”. A escola abre oportunidade para que os alunos aprendam temas normalmente excluídos e atua propositadamente na formação de valores e atitudes.

O currículo de todos os níveis de ensino contém uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com as “características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB). Deve nortear-se pela interdisciplinaridade –  interligando as diversas áreas do saber  – pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação geral mais ampla e a contextualização buscará solução dos problemas sociais no seu trato com o cotidiano.

INTERDISCIPLINARIDADE – As disciplinas inter-relacionadas fornecem ao aluno um conhecimento globalizado do assunto. Na universalidade, por exemplo, vem corrigir distorções do ensino superior e da especialização excessiva dos cursos de graduação realizados em departamentos e cursos desintegrados dos demais. Hoje, os profissionais mais qualificados para o mercado de trabalho são os chamados especialistas generalizantes, que, junto ao conhecimento de sua área e especialização, devem ter a capacidade de adquirir informações sobre outras áreas, facilitando o conhecimento do papel de outras pessoas e uma melhor interação entre elas.

A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, o que faz repensar na forma atual do exame vestibular, que força o estudante à escolha precoce, a uma especialização com escolha preestabelecida.

CONTEXTUALIZAÇÃO – O ensino das disciplinas tradicionais deve estar relacionado aos contextos: trabalho, ambiente, convivência social, movimentos culturais e outros. Estes relacionamentos rompem com o modelo de educação, no qual o aluno não sabe aplicar na vida a teoria aprendida na escola.

Ao evitar conhecimentos descolados da realidade, a escola afasta o enciclopedismo dos currículos, colocando os objetivos do ensino próximos ao dia-a-dia da sala de aula. A nova proposta parte do pressuposto de que o conhecimento não está mais parado nas enciclopédias, ao contrário, sofre mudanças espantosas.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2000)

UM OÁSIS NO MEIO DO DESERTO

Izabel Sadalla Grispino *

Num cenário de desolação do nível de ensino de grande parte das escolas oficiais, surgem, esporadicamente, escolas abraçando experiências educacionais promissoras, alentadoras. São escolas que não nos deixam esmorecer e nos fazem acreditar que a reabilitação do ensino pode ainda ser real.

É preciso haver curiosidade, vontade de conhecer, de aprender. Aparentemente, uma escola igual às demais torna-se realce nos processos de ensino-aprendizagem. É uma escola que tem muito a mostrar, a ilustrar, o passar experiências e ajudar os professores no trajeto da sua prática didático-pedagógica.

A pesquisadora educacional Jane Wreford, a serviço do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, analisou várias escolas públicas da Grande São Paulo, em 2002. Meio a muitos desencantos, como a falta de preparo do professor da rede oficial para atrair a atenção dos alunos, ela se deparou com uma escola estadual, na periferia de São Paulo, que computou excelente. A Escola Parque Piratininga II, escola de comunidade pobre, em Itaquaquecetuba, extremo leste da metrópole, chamou-lhe a atenção pelo bom estado de conservação e pelo seu processo de aprendizagem.

Logo, ao entrar, observou um salão de entrada pintado, decorado com trabalhos dos alunos, mobiliado com cadeiras e mesa de junco, aspecto de sala de espera. A escola possui uma organização pedagógica capaz de servir de modelo. Nas paredes da sala dos professores, havia gráficos expostos, um para cada série, que mostravam as mais recentes avaliações de professores de cada matéria. Ao observá-los, notavam-se as áreas preocupantes por classe e por disciplina. Junto aos gráficos, no lado oposto, estavam os planos de trabalho de cada uma dessas áreas.

A diretora da escola conta com indicadores de rendimento próprios. O ensino é planejado e avaliado. Os novos professores são treinados para usar método de ensino interativo, aplicar projetos que atraem o interesse dos alunos e possibilitam trabalhos originais. Ficam à disposição dos professores substitutos os dados sobre cada classe, com planos de ensino em andamento e cópia da ficha de cada aluno.

Os alunos depositam sugestões numa caixa que serão, semanalmente, avaliadas pelos professores. Os períodos escolares são organizados por faixa etária, propiciando um convívio mais harmonioso e salas de aula montadas com materiais e livros apropriados. Nelas encontram-se expostos trabalhos dos alunos, desenhos, numa apresentação agradável. Incentivam-se os alunos a permanecerem na escola após o término das aulas. A biblioteca da escola, embora modesta, com cerca de 6 mil livros, é muito bem organizada. Todos os livros são identificados por títulos, na lombada, e expostos de modo atraente. A biblioteca fica aberta aos alunos e à comunidade por todo o horário de aula. Os atendentes são voluntários, entre eles alunos mais velhos, fora do período de aulas.

Os maiores problemas, relatados pela direção, são a grande rotatividade e as faltas dos professores. A maioria vem de outras regiões da cidade, sem incentivo para trabalhar na periferia. Ao lidar com tantos funcionários novos, a escola despende muito tempo treinando-os para o método adotado.

Esse treinamento dado a todos os professores, novos e antigos, é uma forte característica positiva, da escola, a ser ressaltada. Outras características são a ênfase ao trabalho de equipe, à auto-estima dos profissionais e  currículo e gráficos da avaliação dos alunos, expostos nas paredes da sala da diretoria.

Apesar de a escola estar inserida numa região assolada pela violência, não havia paredes pichadas. A escola, ao trabalhar a comunidade, passou a ser respeitada e protegida por ela. Os alunos limpam a sola do sapato, tiram o barro quando chove, para entrar na escola. São alunos envolvidos com a aprendizagem, não faltam às aulas e interessam-se pelo material didático; muitas salas têm TVs e vídeos, bastante usados pelos alunos. Os professores aprendem que nessa escola “as aulas precisam chamar a atenção dos alunos”. Vem daí, em grande parte, a presença maciça dos alunos em sala de aula. O nível de conhecimento dos alunos é tido como muito bom, assemelhando-se ao das escolas particulares. Cultiva-se um ambiente escolar cooperativo, evitando a competição, gerando calma, ausência de brigas. A orientação dada é para que todos os alunos se sintam igualmente importantes na escola.

O rendimento dos alunos é discutido em reuniões semanais e mensais, em conselhos formados por professores e estudantes. O aluno participa da avaliação e conscientiza-se da importância de estudar.

A escola aprimora-se na oferta da merenda escolar. É feita com alimentos frescos, de qualidade e preparada diariamente. Servem-se verduras, legumes e frutas todos os dias. Carne e ovos regularmente. A higiene da cozinha e do refeitório é notável. É oferecido aos alunos um complemento nutricional que os revigora e os deixa mais aptos às aulas. Os alunos elogiam a comida que comem.

Dentre os projetos da escola, há projetos-piloto destinados a promover a inclusão social, fortificar as relações comunidade/escola, criando entre elas cumplicidade e ajuda mútua. Os pais começam a entender a importância da participação direta na escola do filho, passando, inclusive, a ela a sensação de mais segurança. Quando os filhos têm problemas no estudo estes são discutidos por pais e professores, evitando que um culpe o outro, mas fazendo com que cada um dê  o melhor de si para a aprendizagem do aluno. Cria-se um pacto de responsabilidade mútua pelo comportamento e pela aprendizagem do aluno.

Essa é uma escola que deve ser preservada. É uma referência educacional que precisa ser cuidada, referência que reverterá em benefício dos estudantes, recursos de que a nação precisa para se desenvolver.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em março/2004)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

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