Payday loans uk
  1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>

Artigos Educacionais

  • Previous
  • Next
  • Stop
  • Play

O NÍVEL SOCIOECONÔMICO E A APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

Comprovadamente, o nível socioeconômico dos alunos repercute no seu desempenho escolar. A condição social e familiar são fatores que influenciam a aprendizagem.

O Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), de 2004, anexou à prova de leitura um questionário aos alunos da 3.ª série, sobre sua condição de vida, dedicação à escola e escolaridade dos pais.

O desempenho geral da série, sem levar em conta a condição dos estudantes, foi de 0,3% no nível ótimo de leitura, 5,8% no muito bom, 27,1% no bom, 37,7% no regular, 12,1% no insuficiente e 17,1% no abaixo do insuficiente. Os alunos da 3.ª série tiveram resultados semelhantes aos apresentados nas demais séries.

Um cruzamento de dados revelou que mais de 60% dos alunos que vivem em casas sem luz elétrica, por exemplo, ficaram em níveis de leitura insuficiente ou abaixo de insuficiente. As notas ruins se repetem entre os que moram em ruas sem calçamento ou casas que não têm água encanada.

A escolaridade dos pais também revelou conseqüência ao desempenho do aluno na prova. Mais de 54% das crianças cujas mães ou pais nunca estudaram estão nos piores níveis, significando que elas não são capazes de ler qualquer tipo de texto apresentado no exame, mesmo tendo, no mínimo, 9 anos de idade; a maioria tem mais.

Quando os pais cursaram o ensino superior ou mesmo o ensino médio, mais de 40% dos filhos estão nos níveis bom, muito bom e ótimo de leitura. Já compreendem trechos de reportagens, fábulas, propagandas em histórias em quadrinhos.

A tabulação mostrou, ainda, a influência negativa de defasagem entre idade e série. Mais de 67% das crianças que têm 13 anos ou mais e continuam na 3.ª série se encontram nos níveis insuficientes ou abaixo de insuficiente. Entre os que estão com 9 anos, 24,4% tiveram esse desempenho e 75,6% ficaram acima do nível regular, isto é, acertaram mais de 50% das questões.

Um grande princípio pedagógico é a escola aproximar-se da vida de seus alunos. Conhecer a realidade que os cerca e suprir, de alguma forma, as deficiências encontradas. Alunos marcados pela pobreza, pela ausência de bens culturais, devem encontrar na escola meios de suprir suas necessidades. Se moram em localidades onde não há eletricidade em casa, não têm, nessas condições, acesso à TV, ao vídeo, ao computador, sem falar das condições financeiras que não permitem tais comodidades.

A escola pública oferece a possibilidade de reposição desses recursos, que auxiliam a aprendizagem? O professor não pode se valer da idéia de que o aluno não vai aprender porque é pobre. Não pode se apoiar em suas condições de pobreza para justificar seu atraso. A escola tem que se preparar para desenvolver esses alunos, chegar até eles, reconhecer suas falhas, suas dificuldades e trabalhar as deficiências apresentadas.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), no tópico “A inclusão do aluno à escola”  (pág. 55) eu digo: “Um dos objetivos prioritários da escola refere-se à inclusão do aluno no ambiente escolar. Em muitas localidades, especialmente nas periferias, é necessário incentivar o aluno a ir à escola, fazê-lo trocar o cotidiano das ruas pelo da escola. Nessas regiões, a escola compete com a rua... A escola precisa adotar projetos que resgatem a cultura popular da região. A construção da identidade, com base na educação que leva em conta as raízes, ajuda as novas gerações a manter o vínculo com a terra, sua gente, suas tradições.

O nível socioeconômico é um forte ponto a se considerar, tem séria influência, séria repercussão no andamento do projeto pedagógico e a ele deve ser ajustado...

O objetivo maior da educação é o aluno, ajustar-se a ele, conquistá-lo, ajudá-lo no desenvolvimento de sua personalidade, significa ganhar esse aluno para a escola... Tudo em educação gira em torno do aluno, em torno de sua boa formação... A escola não pula etapas, não tem como “fazer de conta”; a realidade é seu espelho, seu suporte, sua consistência. Ela parte do nível encontrado, seja do mais elementar e busca atingir um nível mais elevado, numa progressão continuada. Vale-se da conceituação de que a sala de aula é uma comunidade de investigação, um espaço de relações humanas, um lugar de interação social, zona de desenvolvimento proximal (Vigotsky). O grupo é sempre heterogêneo. O professor deve ficar atento às diferenças individuais, às diversidades e valorizá-las...

A escola vale-se da alternativa de que a escolaridade é a variável capaz de eliminar as diferenças sociais. “Educação é um ato de amor, de conexão, um ato de responsabilidade, de compromisso, de consciência social”.

A escola, imbuída desses conceitos, saberá encontrar o caminho da realização do aluno carente. Saberá programar ações, currículos, capazes de alcançar esse aluno. Saberá prever-lhe em seus projetos pedagógicos um lugar de tratamento adequado, definindo instrumentos que cheguem até ele. A escola abraçará o desafio de vencer a crise de aprendizagem, descobrindo o potencial do aluno, indo a ele não pelas deficiências, mas pelo que ele pode oferecer.

Esse comportamento da escola é inevitável. Com pesar vemos a divulgação da avaliação do Saresp, em que o maior contingente  dos alunos das escolas estaduais de São Paulo tem nível regular de leitura. Isso significa que muitos deles, dependendo da série, não são capazes de interpretar um texto, se os conteúdos não forem explícitos, identificar a seqüência dos fatos em uma reportagem ou perceber a ironia na literatura, informa o resultado do Sistema de Avaliação do Estado de São Paulo (Saresp).

O Saresp assinalou que a maioria das crianças que não freqüentou pré-escola se saiu pior e isso reforça a importância da educação infantil.

Quando uma boa parte dos alunos não aprende a falha é da escola. É ela quem precisa mudar, rever seus métodos de trabalho e atuar de maneira mais eficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2005)

A DIDÁTICA DA SENSIBILIZAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

A didática para a modernidade leva o aluno a vivenciar as situações de aprendizagem. A teoria é porta aberta para a prática. Diferentemente do passado, o ensino, por exemplo, de música, antes das notas musicais, é dirigida à sensibilidade do aluno. Nas aulas de iniciação musical, a criança aprende a sentir e a entender um pouco mais sobre música. Ao invés de decorar as notas musicais, como sempre se faz tradicionalmente, a criança dança ao lado dos colegas, ao som de valsas, sambas, ritmos populares, folclóricos. Aprende a identificar o som de cada instrumento e se diverte ao tocá-los. Mais tarde irá estudar as notas musicais.

As crianças aprendem, na iniciação musical, a escutar e a apreciar a música, preparando-se para no futuro ser admiradoras de música,  quando não músicos. Isso significa ir além do ensino das notas musicais.

As crianças ficam em contato com músicas diferentes, de outras culturas, diferentes ritmos e têm plena liberdade para escolher o que querem. Vão, aos poucos, adquirindo consciência musical e desenvolvendo a criatividade.

O estudo pela música deve se iniciar cedo, logo na Educação Infantil. Grandes gênios da música começaram ainda pequenos. O austríaco Wolfgang Amadeus Mozart começou a mostrar seu talento musical aos 5 anos de idade, quando criou suas primeiras composições, para o espanto de sua família. Seu primeiro instrumento foi o cravo. O alemão Ludwig van Beethoven começou a tocar piano muito cedo e aos 11 anos já tinha composto suas primeiras sinfonias. O alemão Johann Sebastian Bach começou a tocar órgão aos 10 anos. O austríaco Johann Strauss começou a tocar violino ainda pequeno. É conhecido como o pai da valsa.

O brasileiro Heitor Villa-Lobos foi um dos mais importantes músicos de sua época. Começou a tocar clarineta aos 12 anos e aos 15 já tocava violoncelo e violão.

No processo moderno de ensino, despertar o gosto pela música, descobrir vocação começam por um processo bem mais divertido: vivenciando, saboreando a própria música.

Diferentes procedimentos pedagógicos, dependendo do assunto, fazem a teoria virar aula prática. Exemplos de criatividade não faltam para dar à matéria tratada um significado tangível, quase palpável. Uma determinada escola, ao querer passar aos alunos noções sobre o meio ambiente, sobre sua preservação e sua degradação, idealizou um projeto Barco Escola. Estudantes do ensino fundamental são levados, pelos professores da área, a passear de barco por rios, de preferência, poluídos. Passam a conhecer de perto espécies de fauna e flora da região, observando piranhas e plantas aquáticas. Percebem a relação de causa e conseqüência, sentindo responsabilidade pela ecologia.

Esse passeio de barco não só desenvolve a comunicação, o comportamento social dos alunos, como complementa prazerosamente o aprendizado teórico da sala de aula. O aluno,vivenciando a problemática ambiental, sensibiliza-se e passa avante, como um alerta, despertando a conscientização da comunidade.

Em todas as áreas do conhecimento são pensadas atividades que levam os alunos a desenvolver conceitos, observando-os na prática. A iniciação, por exemplo, ao hábito da leitura surte bem mais efeito quando a criança participa ativamente da leitura em conjunto. Nas rodas de leitura, o professor lê, em círculo, conjuntamente com as crianças. Os livros são lidos com paradas para comentários, reflexões. Quando a criança julgar necessário, durante a leitura, ela externa sua opinião, pede esclarecimentos, tornando a leitura movimentada, dialogada.

É bem mais suave e interessante a  leitura integrada. O aluno não precisa se isolar ou ler por obrigação. Outra maneira de conquistar a criança para a leitura, de sensibilizá-la para os livros, é a já consagrada “hora do conto”. São leituras participativas, vivenciadas em suas histórias, na companhia de todos da classe.

Segundo divulgação da mídia, o professor terá, no próximo ano, no ensino fundamental uma grande ferramenta pedagógica, capaz de incentivar a pesquisa e a prática do ensino, qual seja, o computador portátil: o laptop. Todos os alunos da rede pública terão um laptop, um computador que será como um livro que eles possam trazer para a escola e levar para a casa, levá-lo em todos os lugares. Destinado ao aluno carente, toda a família poderá partilhá-lo, incorporando-o à sua realidade.

O laptop fará parte do cotidiano do aluno e não apenas de uma experiência feita na escola. Ele será conectado à rede, quando a criança pode buscar e trocar informações ou ver seu trabalho publicado na internet. A criança vai tomando contato com a sociedade da informação, preparando-se para o novo mundo de trabalho nessa sociedade.

A escola, hoje, prima por um aprendizado que se constrói e o computador é um grande caminho dessa construção. Um caminho para o aluno vivenciar conceitos, entrar em contato, de modo abrangente, com aspectos do conhecimento, colocando-se, gradualmente, na sociedade de informação, que se consolida firmemente.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em dezembro/2005)

UM PANORAMA DO ENSINO OFICIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A educadora Jane Wreford, da Comissão de Auditoria da Inglaterra, a pedido do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, passou um mês visitando escolas públicas na grande São Paulo, em 2002. Observou aspectos físicos, a organização do sistema escolar e os trabalhos docente e administrativo.

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) do Ministério da Educação não comprova progressos no aprendizado desde 1991. De cada 100 estudantes que iniciam o ensino fundamental, somente 59 o concluem. Todas as crianças podem freqüentar o ensino fundamental até os 16 anos e, hoje, a maioria o faz. Contudo, o desafio continua pela obtenção de um ensino de qualidade.

Jane apresentou um relato de suas observações, divulgado pela mídia, que merece, nos seus pontos-chave,  ser conhecido pelos profissionais da educação. Notou, por exemplo, constantes faltas dos professores, refletindo no interesse dos alunos pelos estudos: “Como os alunos poderão estar convencidos de que sua educação é importante se são tratados com tanta indiferença?” Notou falta de foco individual no aluno, resultado, em grande parte, da pesada carga horária dos professores, do número elevado de alunos por classe e do baixo salário que os levava a trabalhar em três períodos diários, em escolas diferentes.

“Há necessidade urgente de aumentar o compromisso dos professores com seus alunos e escolas. Vínculo difícil dentro da gigantesca máquina estadual. Um grande passo poderia ser a autonomia das escolas para concentrar o seu corpo docente.

Jane conclama a um esforço para melhorar a formação do professor para que se alcance um ensino de melhor nível e possa evitar a evasão e a repetência dos alunos. “Está documentado que os alunos que repetem o ano têm maior probabilidade de parar seus estudos”. Notou que o sistema de ciclos, na progressão continuada, era mencionado por diretores e professores de forma pejorativa, como promoção automática. Notou uma avaliação da aprendizagem falha, desconexa. Uma avaliação feita, em grande parte, informalmente em sala de aula e testes no fim do período. “Ela carece de análise comparativa de dados. A maioria dos professores não costuma prestar contas do rendimento de seus alunos”.

Jane dá uma visão de como é o ensino na Inglaterra. “Lá os alunos também são promovidos automaticamente, mas os professores se preparam para dar aula a um grupo heterogêneo. Professores de alunos abaixo de 11 anos podem agrupá-los dentro da sala por nível de habilidade, pelo menos numa parte do dia. Alunos com maiores dificuldades recebem atenção especial fora da sala de aula. A partir da 5.ª série, as escolas são maiores e os alunos encaminhados a grupos paralelos para as matérias básicas, às vezes com três níveis de capacidade, segundo o tamanho da escola. Porém, todos os professores devem ensinar para atingir vários níveis de habilidade”. Conclui Jane que na política da Secretaria da Educação falta essa abordagem para reduzir a repetição.

Quanto à aprendizagem, pareceu a Jane que os professores têm formação razoavelmente adequada na matéria específica, mas, pouco ou nenhum treinamento prático em didática. Os professores simplesmente não sabem ensinar de maneira eficiente. As aulas são como palestras. É raro haver planejamento de aulas, com a introdução de um tópico e discussão em classe, seguidas em atividades em pequenos grupos ou pesquisa individual e depois, por um debate final, para fixar as pesquisas prontas. A maioria dos professores não checa o progresso dos alunos, tampouco passa atividades de escrita. Dentre as aulas de ensino médio que observamos, menos da metade dos alunos estava de fato acompanhando a aula. O ensino da leitura na 1.ª série é crítico, como prova o analfabetismo funcional documentado entre alunos que completam a 4.ª série... A compreensão de texto pelo aluno fica muito atrás da sua habilidade para decodificar sons”.

Outra séria anotação é de que os próprios professores não dão o devido valor aos livros e outros materiais impressos, como mapas, gráficos, globo, ou meios de comunicação. Além da insuficiência de materiais didáticos, notou pouco interesse dos professores em utilizá-los. As bibliotecas estavam quase sempre trancadas, raramente as escolas possuíam laboratórios com pias ou recursos específicos para aulas de ciências. No ensino fundamental, não havia, nas salas de aula, livros de leitura para diferentes graus de habilidade, isto é, com vocabulário adequado à habilidade de leitura do aluno, nem mesmo simples livros de história.

Quando professores, de qualquer série, escreviam as perguntas na lousa, os alunos copiavam e achavam que a tarefa estava completa. O aproveitamento do aluno acaba sendo insatisfatório e no fim do ano letivo é promovido mesmo que não tenha alcançado um rendimento mínimo.

Junto aos aspectos negativos, a pesquisadora do Instituto Braudel diz ter encontrado, também, professores devotados, com vontade de crescer, diretores preocupados com a segurança da escola, enfrentando grandes desafios no compromisso de melhorar o ensino. Ela perguntou, em cada uma das escolas visitadas, quais seriam os três desejos dos profissionais, com relação ao ensino  público. Baseada nas respostas, Jane Wreford elaborou cinco recomendações: 1.ª) Desenvolver melhores métodos de ensino para professores, com demonstração em vídeo e pessoalmente, nas escolas; 2.ª) Melhorar os métodos para estimular o hábito da leitura; 3.ª) Tratar fatores que conduzem à falta de orgulho profissional e aos níveis alarmantes de ausências de professores: oportunidades para avanço na carreira, monitoramento e avaliação das práticas de ensino, revisão do sistema de nomeação dos profissionais para evitar a rotatividade excessiva; 4.ª) Desenvolver novas maneiras de abordar a segurança escolar; e 5.ª) Treinar supervisores escolares para ajudar a escolas a fazerem  autodiagnóstico  e  promoverem  o auto-aperfeiçoamento e separar a supervisão da administração escolar.

Não faltam subsídios esclarecedores sobre o decadente ensino no Brasil; estudos que mostram a nossa triste realidade educacional. O que faltam são conscientização e mão na massa, por quem de direito!.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em março/2004)

REFLEXÕES SOBRE O RESULTADO DA PROVA BRASIL

Izabel Sadalla Grispino *

Estuda-se o porquê de o ensino no interior do Estado, principalmente nas pequenas cidades, ser melhor que nas escolas da capital. A Prova Brasil confirmou, no começo de julho, que as escolas públicas do interior têm, em média, desempenho melhor que as das cidades grandes.

A Prova Brasil, um importante mecanismo de avaliação do ensino básico, revelou, nos testes, que a grande maioria dos alunos apresenta um aproveitamento bem abaixo do desejado. Revelou, também, um ensino de melhor qualidade nas escolas do interior.

Essa Prova foi aplicada em novembro de 2005 a 3,3 milhões de alunos em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios. Competência, como domínio de linguagens, capacidade de comunicação e interpretação, construção de argumentos, ficaram fortemente a desejar. Uma grande parte de alunos não consegue identificar o tema de narrativas simples e entender textos com um mínimo de complexidade. O resultado foi deveras frustrador.

Os estudos, sobre a vantagem do ensino no interior do Estado, concluíram o que de velho já se sabe: baixa rotatividade de diretores e professores, participação dos pais e da comunidade, praticamente, no dia-a-dia da escola, professores, em grande escala, formados no ensino superior e freqüentando cursos de reciclagem profissional, tendo salários mais condizentes com a vida simples do interior.

Muitas escolas utilizam-se da metodologia de levar informações constantes aos pais, estimulando-os a participar da escola, do processo de avaliar constantemente o aluno e verificar em que ele pode estar falhando e aplicar a recuperação paralela. Além das provas, os alunos são avaliados por comportamento e participação em sala de aula.

As funções sociais assumidas pela escola devem vir acompanhadas da gestão pedagógica. Devem-se diminuir os encargos burocráticos do diretor de escola para não afastá-lo do foco principal, que é o acompanhamento do ensino-aprendizagem, que é saber se os alunos estão, realmente, aprendendo.

A idéia que vem dominando no Estado de São Paulo, como resultado dos estudos, é eliminar os três turnos diários da escola, deixando apenas dois, o que seria um grande passo.

É evidente que a atuação devotada e criteriosa da escola e do professor resulta no bom andamento do ensino. Sem uma boa escola, como formar capital humano necessário ao desenvolvimento da Nação?

* Supervisora de ensino aposentada        
(Publicado em agosto/2006)

ENSINO INFANTIL E RENDA

Izabel Sadalla Grispino *

A época, através de organizações como a ONU, de Fundações, como a Abrinq, vem, constantemente, demonstrando as vantagens de se cursar o ensino infantil. Vem apelando, aos órgãos governamentais, a implementação de uma educação infantil universal, a mesma prioridade dada aos demais graus de ensino.

Buscando conscientizar sobre os benefícios dessa educação e sobre os problemas que sua ausência acarreta, a Fundação Abrinq, pelos Direitos da Criança, passa a lançar uma campanha nacional, pela valorização da educação infantil.

Ampliar o acesso e receber atendimento de qualidade são preocupações que atingem crianças de zero a 6 anos. É na fase dos 3 anos que a criança começa aprender a aprender o mundo ao seu redor. 90% das conexões cerebrais se formam até os 3 anos, significando o desenvolvimento do pensamento simbólico, a memória, a racionalidade e controle dos impulsos mais primitivos.

Essas conexões não são resultantes apenas da genética, mas, também, da interação com o ambiente, com a família, com os educadores. Aos 6 ou 7 anos, a criança já passou por esse período, sumamente importante à sua formação.

Segundo dados do Inep, órgão do Ministério da Educação, atualmente, maio de 2007, 7,2 milhões de crianças de até 6 anos estão matriculadas em escolas particulares e públicas no País. Desse total, 5,2 milhões estão na educação infantil, que engloba a fase de 4 a 6 anos e deve começar a preparar a criança para a alfabetização. Isso significa, pelos dados do IBGE, que só 13% das crianças brasileiras têm acesso à creche. Na faixa de 4 a 6 anos, o índice fica em torno de 70%;

Os ganhos adquiridos pela criança, que freqüentou a pré-escola, vão garantir uma seqüência de estudos com mais facilidade, mais proveito. Estudos mostram a real influência da educação infantil no desempenho do aluno.

Uma pesquisa inédita, realizada em maio de 2007, feita pelo Ibemec São Paulo e pela Tendências Consultoria, mostra que esses alunos têm notas mais altas nos exames nacionais, maior probabilidade de concluir o ensino médio e entrar numa faculdade. A pesquisa revela que as pessoas, com idade entre 21 e 65 anos, que freqüentaram a pré-escola, têm maior escolaridade do que aquelas que começaram a estudar somente a partir da 1.ª série do ensino fundamental.

A freqüência à pré-escola permite um aumento de 4% na conclusão da 4.ª série, 18%, na 8.ª série, 23%, no ensino médio e 5%, na faculdade, totalizando 1,5 ano no estudo a mais do que quem ingressou na escola na 1.ª série. O impacto da creche, com alunos até 3 anos de idade, é maior na conclusão do nível superior, mas faz pouca diferença no nível profissional.

Essa pesquisa é inédita no sentido de revelar a renda maior que o ensino infantil gera. Quem fez o ensino infantil, ou começou a estudar entre os 4 e 6 anos de idade, tem, em média, renda 27% maior do que quem entrou, na escola, apenas aos 7 anos. A pesquisa consegue mostrar, numericamente, a importância e influência futura do ingresso no ensino infantil.

Comprovadamente, a pré-escola traz benefícios significativos às pessoas, quer sobre o crescimento intelectual, quer sobre o impacto do salário. Estes fatores são fortes indicadores da prioridade a ser dada ao ensino infantil, tornando-o universal.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2007)

FORMAÇÃO GLOBALIZADA

Izabel Sadalla Grispino *

Não há desenvolvimento econômico sem uma poderosa estrutura científico-tecnológica, representada, em nosso País, pelas universidades públicas. Necessário se faz fortificar essas universidades para não comprometer a pesquisa, o desenvolvimento baseado no conhecimento. Necessário se faz investir num sistema educacional que nos tire da condição de País de terceiro mundo. Investir numa política efetiva de inclusão pela melhoria do ensino básico, pelo reforço do preparo dos estudantes pobres à universidade e não por facilitadores mecanismos de acesso à universidade, comprometendo a qualidade do ensino superior. Um país sem universidades de excelência e centros de pesquisa de alto padrão não tem como alavancar o conhecimento e tornar-se nação de primeira grandeza.

O futuro será do país que souber reunir conhecimento e indústria. O conhecimento científico, em seu progresso, tem que caminhar juntamente com a aplicação prática, traduzir-se em tecnologia aplicada. A distância entre teoria e prática provoca desajustes consideráveis no produto resultante dessa combinação. Na indústria farmacêutica, por exemplo, mediante as descobertas científicas, parte-se para a produção de medicamentos; pesquisas transformam-se em vacinas.

A prática do conhecimento transitado decide o papel da indústria e seu impulso ao desenvolvimento econômico. A indústria impulsiona a universidade e é por ela impulsionada, criando importantes ações comerciais. O que se quer é que a ciência produzida pela universidade não fique só na ciência, que haja uma comercialização do conhecimento por ela adquirido, da pesquisa por ela desenvolvida. Esse é, sem dúvida, um caminho da recuperação da atividade econômica do país.

Aliado a esse aspecto da transformação do conhecimento em produtos comercializados, um outro ponto interessante a abordar é a criação de um projeto educacional que permita ao jovem estudante ser um cidadão do mundo globalizado. As grandes potências buscam fortalecer as dimensões internacionais de sua educação superior, atraindo investimentos e formas de intercâmbio.

Olhos voltados para o enriquecimento cultural, técnico das universidades, ajudam o mercado, hoje inserido na globalização. Projetos ambiciosos, em determinadas áreas, buscam capacitar o formando na visão internacional, tendo em vista a expansão da economia, o enfoque internacional do nosso comércio. Observadores da área econômica constatam que “todos os negócios estão num ambiente globalizado e mesmo que uma empresa não exporte nada, certamente compra produtos importados ou negocia aquisição de tecnologia”.

A preocupação na formação do estudante vai além do enfoque nacional. A expansão do comércio mundial exige uma crescente necessidade de relações com o exterior. Experiência internacional, no avançar dos anos de estudo, propicia maior visão de mundo, de mercado, conhecimento de tecnologias diferentes e de outras culturas. Essas características ajudarão e muito na colocação de empregos e no desenvolvimento de negócios. A vivência no exterior traz como maior benefício o aprendizado cultural e é isso que faz a diferença numa carreira. A vivência ajuda no crescimento pessoal e profissional.

Felizmente, as escolas despertam para a amplitude das relações internacionais e vem oferecendo, com mais freqüência, oportunidades de aprendizado fora do País. As olimpíadas vem aumentado, tanto na esfera nacional como internacional. Escolas públicas brasileiras participaram recentemente, dezembro de 2004, entre 39 países, da 1.ª Olimpíada Internacional Júnior de Ciência, estimulando a busca do conhecimento. Nas nossas escolas, em geral, o ensino de ciência é ainda muito teórico, com poucas aulas em laboratórios, poucas possibilidades para o aluno criar.

A disputa foi na Indonésia e 6 alunos brasileiros – 4 meninas e 2 meninos de até 15 anos – participaram de 3 dias de provas. Fizeram provas práticas, além de testes e de questões dissertativas sobre química, física e biologia. Atualmente, cerca de 500 mil adolescentes brasileiros participam de disputas em várias áreas do conhecimento. Os medalhistas, freqüentemente, recebem bolsas de iniciação científica ou são convidados a participar de cursos especiais em universidades, uma forma de aproveitamento de talentos e de incentivo ao estudo.

A classe social mais abastada coloca os filhos em escolas internacionais renomadas, onde os filhos falam, desde pequenos, mais de um idioma. São escolas bilíngües, a criança é alfabetizada em português e de acordo com a opção da família em uma outra língua. Apresentam um currículo internacional que assegura a continuidade dos estudos em qualquer país, sem, contudo, descuidar do currículo adaptado à realidade brasileira e às orientações do Ministério da Educação (MEC).

O que se procura é a valorização do contato com outras culturas, formação globalizada, portas abertas para o futuro. Os alunos das escolas internacionais, no convívio com pessoas de outras nacionalidades, no convívio, desde cedo, com outros idiomas, ajustam-se com mais facilidade, com mais abrangência, na realidade contemporânea.

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2005)

DIFERENÇAS NO SISTEMA DE COTAS RACIAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Parece estar surgindo um novo raiar quanto à consciência da questão de cotas raciais. Começa-se a entender a interferência negativa que elas provocariam na qualidade do ensino, atrapalhando o processo da igualdade social. “A educação é o grande fator de desigualdade na sociedade brasileira”. (Simon Schwartzman)

Tem, sim, que haver políticas afirmativas em direção às minorias, aos pobres, aos negros, aos índios. Mas, políticas que vão de encontro à qualificação profissional e não a um remendo instrucional. As cotas têm, sem dúvida, chamado a atenção sobre as camadas mais carentes da população, sobre a necessidade de estas camadas  ascenderem-se socialmente.

Elas não são, porém, caminho revitalizador. Dissemos, no artigo anterior, do reforço educacional que se deve dar à educação básica do aluno pobre, capacitá-lo para o exercício da função escolhida, do fator mérito que se impõe para o ingresso ao ensino superior. Boa escola é o que está faltando aos pobres.

As convicções a respeito das cotas não se firmam. As universidades divergem quanto à sua aplicação. Não há uma regularidade no sistema de cotas. Cada instituição dá a sua versão. No fundo, falta credibilidade ao processo.

A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira universidade federal do País a adotar  o  sistema  de  cotas raciais, antes mesmo de o Ministério da Educação (MEC) definir como seria sua aplicação. Desse modo, terminou por adotar critérios diferentes do que pretende o MEC. Um desses critérios é não levar em conta a renda do candidato ou o fato de ter ele estudado ou não em escolas públicas. Entendeu a Universidade de Brasília (UnB) que os negros estão principalmente entre a camada mais pobre da população. Por essa razão, as cotas raciais automaticamente beneficiam quem mais precisa. Outro item, estabelecido pela UnB, é de que o seu sistema não é para afrodescendentes, mas para brasileiros que tenham o genótipo dos negros, isto é, aparentem fisicamente ser negros.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) elaborou o Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social. Pelo Programa, os candidatos que cursaram o ensino médio em escola pública terão um bônus de 30 pontos no vestibular da Unicamp. Eles serão somados à média da prova da 2.ª fase. O propósito é aumentar, em pelo menos 27%, o ingresso dos estudantes da rede pública nos cursos de graduação. Negros, pardos e indígenas autodeclarados ganharão mais 10 pontos, somando 40.

O reitor da Universidade diz que “não é cota, trata-se de uma ação afirmativa para incentivar e facilitar que estudantes de escolas públicas entrem na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)”. Estima-se que o número de aprovados vindos de escolas públicas aumente dos 30,3% registrados no corrente ano para 38% em 2005. O projeto prevê, também, que seja ampliado o número de bolsas para estudantes carentes.

O governo federal, contudo, insiste na adoção de cotas raciais para negros e índios. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai enviar ao Congresso projeto de lei para garantir a reserva de metade das vagas das universidades federais a alunos que concluíram o ensino médio em escolas públicas.

Os reitores das universidades mostram-se cautelosos. O reitor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ulysses Fagundes Neto, considerou que 50% de reservas de vagas na universidade constituem uma tragédia. A instituição tem cerca de 300 vagas a cada vestibular e já aprovou projeto de cotas para negros e estudantes de escolas públicas, mas com percentual de 10%.

São poucas as universidades públicas no País que adotam o sistema. Estatísticas falam que em 2003 só três estabelecimentos tinham uma política de cotas. Este ano, surgiram mais dois. O Ministério da Educação revela que, atualmente, 41,8% dos estudantes que se formam em universidades federais cursaram o ensino médio em escola pública. Nesse percentual, entretanto, existem grandes diferenças regionais. Nos Estados do Norte e Nordeste, onde há poucas universidades privadas, esta taxa passa dos 50%, enquanto que na Universidade de Brasília (UnB) apenas 30%, dos 25 mil alunos, vieram de escolas públicas. Há ainda a registrar que a concentração de estudantes carentes está em cursos de licenciatura; estudantes que vêm de escolas particulares conseguem vencer as concorridas vagas de Medicina, Engenharia, Administração, Direito, entre outras.

As universidades, preocupadas, estão se revestindo de cautela para que a inclusão não venha piorar a qualidade de seu ensino, a qualidade de ensino voltada à parcela da população de renda mais baixa. O melhor instrumento de inclusão seria expandir o número de vagas, principalmente dos cursos noturnos, e valorizar a escola pública, investindo no ensino médio e na educação básica como um todo.

Milagres no terreno educacional não existem. Ou se tem uma boa estrutura para se avançar ou se fica à margem da sociedade. Um diploma que não qualifica leva igualmente à exclusão social.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2004)

METODOLOGIA ESCOLAR, UM ORGANISMO VIVO

Izabel Sadalla Grispino *

A metodologia escolar é um processo dinâmico, que caminha, se amolda às características do conteúdo e do educando, evolui e se aperfeiçoa no tempo. Coloca o aluno no centro do processo educativo, fá-lo protagonista das atividades desenvolvidas.

Cada vez mais, o aluno deixa de ser um receptor passivo; é estimulado a participar, a fazer, a pôr a mão na massa. Adquire armas, avançando na aprendizagem com autonomia e responsabilidade. É estimulado a voar nas asas da criatividade, descortinando horizontes inimagináveis, acompanhando o pensamento descrito por Anísio Teixeira: “Quando monto na asa de um pensamento, de uma idéia, eu vôo nessa idéia, como se ela fosse minha ave”.

A cada passo, a escola conscientiza-se de que não é o lugar apenas de aprender matérias convencionais, como português, matemática, história, geografia, ciências, física, química ou biologia. Inclui no seu currículo a educação de valores, aulas de orientação religiosa, acolhendo alunos de diferentes credos, ensinando a respeitar as diferenças, a respeitar um ao outro. Os alunos estudam a história das diversas religiões, debatem o assunto em grupos, percebendo o quanto cada religião tem seus aspectos positivos, o quanto no conceito de fé, de sentimento religioso, as religiões se encontram, provocando encontro entre os alunos, também.

Um outro aspecto da escola é incluir no currículo atividades culturais, desenvolvendo talentos, despertando vocações, dentro de uma metodologia prática, interativa, essencialmente participativa. Criam atividades, jogos, aliando diversão e aprendizado.

Hoje, a noção de participação amplia-se, chegando a modificar, por exemplo, as relações entre aluno e museu, em visitas às exposições de obras de arte. A figura do guia é superada e no lugar do monitor, da observação passiva do visitante, surge o educador – os artes-educadores – desenvolvendo um trabalho de mediação entre público e obras de arte, na concepção de que não basta ir ao museu, tem de participar.

Os museus vêm incentivando a mediação de educadores, estimulando as pessoas a falar sobre a arte, a externar seu ponto de vista, no intuito de aproximar público e arte. Os museus, nos roteiros de visita, desenvolvem ações integradas às mostras que coloca em cartaz. Grupos de alunos são agendados à visita ao museu e, no meio da exposição, eles e as famílias são convidados a participar da oficina de monotipia. Nesse momento, tomam contato com técnicas usadas pelo artista, ouvem explanações dos educadores e passam a exercitar, como em um laboratório.

É ocasião oportuna para se travar diálogo, discussões, buscando entender e lidar com arte de modo prazeroso, estreitando as barreiras entre obra e visitante. Aproxima o visitante dos conceitos usados pelos artistas, numa interação incentivadora. O que se quer não é bem formar artistas, mas educar, sensibilizar para a arte, ajudar no encontro de vocações.

No Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), o aviso tradicional “não toque” é retirado. A ordem é o contrário: apalpar, clicar, interagir, para sentir e ver como funciona a vida do organismo humano ao movimento do universo. Para sentir e ver o que o homem fez e faz, da roda aos aviões, das cavernas às viagens interplanetárias.

O Museu de Ciências e Tecnologia diverte e ensina sobre o corpo humano, espaço e dinossauros. Mistura informação com diversão atraindo o público que, surpreso, retorna para desfrutar mais do museu.

Escolas há que mantêm uma linha pedagógica mais definida, construtivista, tradicional – hoje, um tanto superada – Montessori, Waldorf e outras, mas sempre há entre elas ramificações que se encontram, dando uma amplitude coerente e estimulante ao processo.

O construtivismo surgiu com o psicólogo e geneticista suíço Jean Piaget, que desenvolveu uma teoria em que a criança constrói o próprio conhecimento, segundo as fases do seu desenvolvimento mental. A criança é instigada a aprender a partir de seu próprio raciocínio. O trabalho em grupo, no construtivismo, é valorizado.

Na linha tradicional, os conteúdos são transmitidos  por meio de aulas expositivas. O professor é a fonte do conhecimento. A avaliação da aprendizagem é feita através de provas formais constantes. Essa linha vem perdendo força e incorporando elementos construtivistas, valorizando aspectos emocionais e psicológicos.

Montessori, criada pela italiana Maria Montessori. A ênfase está na concentração, individualidade e liberdade. Colocam-se nas salas de aula conjuntos de jogos, caixas, superfícies com texturas e sons diferentes. As crianças os manipulam, pesquisam e vão compreendendo conceitos de várias disciplinas.

Waldorf, criada pelo filósofo suíço Rudolf Steiner, parte do conceito holístico – considera o todo. As disciplinas são integradas a partir de temas de interesse dos alunos. Geralmente, é o mesmo professor que ministra todas as aulas. Os brinquedos devem ser de pano, em detrimento do plástico e materiais sintéticos. Evita-se o uso da televisão e oferece uma alimentação bem natural. Waldorf  é uma filosofia de vida, uma escola onde os valores morais, espirituais são muito valorizados. A família participa das atividades escolares.

A metodologia contempla o perfil do aluno, com atividades adequadas a cada um. Para o aluno agitado, que não pára um minuto, o ideal é gastar essa forte energia em práticas esportivas, dança, música ou circo. Para o aluno tímido, que não pergunta durante as aulas, fica no seu mundo, o importante é buscar atividades que combatam o medo e a insegurança, como teatro, artes plásticas, poesia. Para o aluno temperamental, que faz escândalo quando seus desejos não são atendidos, deve-se programar atividades que combatam a agressividade, como jogos de tabuleiro, argila, marcenaria e culinária. Para o avoado, que vive distraído, astronomia, dobradura, informática, cinema, malabarismo e modelagem podem ajudar.

As diferenças individuais encontram-se nas variações metodológicas, pontos de apoio e caminhos alternativos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2005)

ACERTANDO OS PASSOS COM A MODERNIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona a novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, incluindo, aí, o aproveitamento das vocações despertadas.

Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da sociedade, a incorporação de atitudes na linha da “parceria” “co-gestão”, “co-autoria”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”, “trabalho em equipe”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiências, conteúdos afins, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em “transmissão do conhecimento”, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em “construção do conhecimento”, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor-aluno; o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber erudito e em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis.

Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão.

Várias são as possibilidades de participação. A escola, ao lado da participação intrínseca – características de vida, de conduta, condições socioeconômicas – há a extrínseca: as comemorações cívicas ou sociais, eventos preestabelecidos, apresentações em acontecimentos de importância – e da comunidade para a escola, em datas oficiais – plano escolar, reuniões de pais e mestres, reuniões do Conselho de série/classe, eventual formação de colegiado. Participa, ainda, de exposições, encontros literários, artísticos, campanhas, das já tradicionais festas juninas, mutirões... numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só se chamava o pai para reclamar do filho, por alguma falta cometida.

Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé...

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno.

Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

A parceria propicia o exercício da cidadania, abre a escola para a crítica, permitindo participação consciente, tomada de decisão co-responsável, maior engajamento de todos. Culmina com uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam experiências e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em agosto/2005)

CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Izabel Sadalla

Fala-se muito em discriminação racial – realmente ela parece existir – e quer-se, por força de lei, bani-la. Porém, discriminação não é coisa que se acabe por determinação. Discriminação é fator cultural, enfoque educacional, conquista de méritos próprios. Educa-se, orienta-se, reflete-se sobre as causas que levam à discriminação e busca-se debatê-las, eliminando preconceitos, que são frutos do desconhecimento.

No caso em questão, sobre o povo negro, devem-se passar esclarecimentos, já nos bancos escolares, sobre o valor desse povo, o sofrimento e o isolamento por que passaram, a chaga social que foi a escravatura, a dívida social que o povo brasileiro tem para com o negro. Recuperar a sua dignidade é ponto que se impõe, valorizando a sua cultura, historiando o seu povo, mostrando, aos alunos, a importância que a raça negra teve na história nacional.

Sob esse prisma, considero louvável a lei 10.639, sancionada em 10 de janeiro de 2003, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que determina às escolas do ensino fundamental e médio a inclusão, a partir deste ano, do ensino da história e cultura afro-brasileira. Os currículos deverão abordar a história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra e sua contribuição nas áreas social, econômica e política.

A cultura afro será assunto de todas as disciplinas, mais especificamente nas aulas de história e educação artística. A nova lei institui, também, no calendário escolar, o 20 de novembro como “Dia da Consciência Negra”. A nova Lei de Diretrizes de Bases da Educação (LDB) já faz menção sobre a contribuição cultural dos negros.

Apraz-me tomar conhecimento da adoção de medidas governamentais ou da sociedade civil que vêm de encontro ao favorecimento da diversidade racial. Estímulos na área social, no mercado de trabalho, visando à ascensão profissional do negro, estão sendo pensados e postos em prática. São empresas que oportunizam a contratação de afro-descendentes, que se dispõem a reservar um percentual de vagas para trabalhadores negros em seus cursos de treinamento, atualização e aperfeiçoamento. Dessa forma, estudando, reciclando-se, este trabalhador prepara-se para obter sucesso, podendo exercer, condignamente, a sua função.

É isso que precisa acontecer, dar condições para que o candidato à universidade ou ao mercado de trabalho se qualifique, se posicione em pé de igualdade aos demais concorrentes. Estabelecer, simplesmente, uma cota, sem qualificar o pretendente, é contribuir para a discriminação, é dar, gratuitamente, um privilégio que não resulta em conquista própria, e que, portanto, não leva à auto-afirmação. Afinal, os negros só carecem de oportunidades para crescer. São iguais a todos os que vivem comunitariamente no País, iguais em inteligência, em devotamento, não necessitando de favores que podem, inclusive, voltar contra si mesmo.

A criação de cotas enfraquece o critério de mérito, desvaloriza o conhecimento, influi mal sobre a motivação pessoal. Estamos na era do conhecimento, dele não podemos nos furtar. O mercado de treinamento e educação de profissionais vem se aquecendo como tendência mundial. Em tempos de alta tecnologia, de redução de postos de trabalho e competitividade acirrada, vence quem melhor preparado está. Nesse contexto, condescendência não resulta em benefício, atrapalha, humilha.

A força moral e a inteligência rechaçam a idéia de superioridade de uns sobre outros, de uma cor sobre outra. O País precisa acordar para a responsabilidade de levar educação de qualidade às camadas de menor poder aquisitivo, independentemente de etnias. A integração racial das minorias se faz baseada no respeito que a atuação pessoal e profissional vier a conquistar. Privilegiar e não capacitar é reforçar o preconceito, é manter a exclusão social.

Só transformaremos a realidade em que vivemos quando soubermos estender a todos as mesmas formas de tratamento. Comenta-se que somos um País de negros e que só temos brancos na universidade, mas, afianço-lhes não serão as cotas que promoverão a justiça social reclamada e sim um ensino que capacite, que promova qualidade a todos indistintamente.

A segregação racial surge em vários setores da atividade humana no Brasil. No magistério, por exemplo, 66,2% dos professores são brancos, mas com variações por níveis. Brancos são 74,8% no ensino médio e 83,1% no superior; da 5.ª à 8.ª série são 65,4%; da 1.ª à 4.ª série e na educação infantil os negros somam 40%. No 1.º ciclo, onde se encontram quase 40% dos professores, 47,5% são negros e 35,5%, brancos. Ou seja, os negros se concentraram em níveis que exigiam menor qualificação.

Se quisermos uma transformação social, compatível com a exigência educacional da época, temos que “lavar os olhos”, como dizia Darcy Ribeiro, atuar com honestidade, com democracia sem demagogia.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em abril/2003)

A ESCOLA E SEU NOVO SEMBLANTE

Izabel Sadalla Grispino *

Em dezembro de 1998, fui paraninfa do grupo de formandos de um curso normal. Proferi, na ocasião, uma “Oração ao Magistério”, poema de minha autoria, onde, ao lado da conceituação que formulo de magistério, do sentimentalismo, do lirismo que essa função me evoca, coloco os principais passos da metodologia da escola de hoje, aspectos que me levaram a publicá-la. Essa oração servirá, sem dúvida, de reflexão aos professores e de ajuda ao seu trabalho diário, em sala de aula.

O curso normal, nos moldes atuais, caminha para a extinção; passa por reformulações. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a criação de Institutos Superiores de Educação, um modelo alternativo de formação de professores da educação básica. Essa criação não significa o fim de outros mecanismos de formação. A Pedagogia, que tem uma habilitação em magistério, continua existindo. O que se quer é uma nova opção.

De acordo com a LDB, os Institutos manterão cursos formadores de profissionais para a educação básica, inclusive o Curso Normal Superior, destinado a formar professores para atuar na educação infantil e nas  primeiras séries do ensino fundamental (1.ª à 4.ª série) e dar uma formação inicial para os profissionais que quiserem ingressar nos cursos de nível superior para docentes. Destina-se, também, para habilitar professores para atuar em educação indígena e educação especial.

O curso pode ser concluído em três anos, desde que seja ministrado em período integral, com disciplinas organizadas em núcleos relacionados entre si. As atividades práticas (os atuais estágios) deverão ser realizadas durante o curso, ao invés de se concentrarem no final da formação, como ocorre atualmente.

É uma nova esperança que surge na melhoria da formação docente.

ORAÇÃO AO FORMANDO DO MAGISTÉRIO


Há, entre nós, no plano sideral,                                  Ensinar construir e usar conceitos

Encontro de ideal educacional,                                  Permitem transferências de efeitos,
Uma vocação de beleza eterna                                 Sempre ligar informações formais
Uniu-nos em uma missão fraterna.                          Aos problemas diuturnos sociais.

Magistério é profissão de fé,                                      Relevância social abordada
Menino-Deus em mãos de São José,                       Faz matéria escolar consagrada,
Na fase do plantio da aprendizagem,                       Integra realidade local
Adote seu aluno com coragem.                                À cultura, em evolução, mundial.

Educação, mais que conhecimento,                        Na avaliação, conceda anuências
É exercício de alma, de sentimento,                       Às habilidades e às competências,
Este nobre ideal vem do coração,                           A ênfase não está na memória,
E a todos, igualmente, verte a mão.                        Mas, no valor da mente operatória.

Uma escola formadora renasce,                            Use da metodologia ativa,
Em seus temas transversais refloresce,             Fazendo uma aprendizagem cativa,
Propõe pluralidade cultural,                                     Conteúdo significativo
Sem mito de democracia racial.                             Promove ensinamento construtivo.

A vida do aluno é inspiração,                                   Acautele-se, humanize-se,
Seu cotidiano, assunto em ação,                            Das relações humanas aproprie-se,
Suas crenças, seus valores respeitados,            É mais difícil o relacionar
Tornam seus anseios valorizados.                        Que o conhecimento administrar.

O conteúdo contextualizado                                    Seja humilde no ato de educar,
À realidade fica vinculado;                                       Compreensível na hora de ensinar,
Enseja a interdisciplinaridade,                                Veja o rico e o pobre como um igual,
Sem a perda da singularidade.                               Ao necessitado dê seu aval.

Novo entendimento metodológico                         Que seu ensino passe pelo amor,
Revolveu todo trato pedagógico,                            Que encoraje o aluno com fervor,
Nossa escola, de função transmissora,              Que o leve a aprender a aprender,
Tornou-se instituição construtora.                        E com sutil harmonia conviver.

Flexibilizar, não padronizar;                                     Na nobre profissão se policie,
No atual ensino, individualizar,                                A fronte do aluno acaricie,
Entre permanecer reprodutora                              Deixe vaidades que possam chocar,
Fixou-se em escola emancipadora.                      Com a sublime missão de ensinar.

O mestre é bela estrela luminosa,
Que, por terra e por mar, traça bondosa
A luz do saber, levando confiança
Em um futuro de paz, de esperança!

 

* Supervisora de ensino aposentada        
(Publicado em agosto/2000)

JOGOS PARAOLÍMPICOS

Izabel Sadalla Grispino *

O mundo desperta com mais vigor para a educação do deficiente, dos portadores de necessidades especiais (PND). Descobre-se que suas potencialidades, quando bem trabalhadas, levam-no a realizações inesperadas.

Terminaram recentemente os Jogos Paraolímpicos, organizados logo depois dos Olímpicos, na mesma cidade e instalações, em Atenas, Grécia. No período de 17 a 28 de setembro competiram 3.857 atletas paraolímpicos, representando 145 países. São atletas portadores de deficiência mental e física. A competição tem uma tradição de 44 anos. O Brasil paraolímpico é bem superior ao olímpico. Possui uma das melhores equipes, tem 9 recordes mundiais. Em Sydney conquistou 22 medalhas, seis delas  de ouro. Para esses últimos Jogos Paraolímpicos, o Brasil enviou a maior delegação de sua história: 98 atletas de 13 modalidades. Teve a melhor participação do País, com 34 medalhas, sendo 14 de ouro, 12 de prata e 8 de bronze. O destaque foi o nadador brasileiro Clodoaldo Silva, que conquistou 6 medalhas de ouro e 1 de prata. Fechou sua participação no ponto mais alto do pódio.

Alguns esportes praticados são bem conhecidos, como o basquete de cadeira de rodas e a natação. Outros são novidades, como o futebol de 5, que aparece na Paraolimpíada pela primeira vez. Em dois tempos de 25 minutos cada um, jogadores cegos ou de pouca visão – que  usam tampões nos olhos para não ter vantagem – orientam-se pelo som. Há ainda o vôlei, goalball, hipismo, tênis, futebol de 5 para cegos – mencionado acima --, futebol de 7 para paralisados cerebrais, halterofilismo, judô, tênis de mesa, ciclismo e atletismo.

É emocionante notar como os deficientes fazem de tudo, hoje em dia. A Paraolimpíada dá a oportunidade de o deficiente mostrar o quanto é capaz, em termos de concentração, de raciocínio, de superação de si mesmo.

Os jogos Paraolímpicos reforçam o conceito de valorização da educação do aluno deficiente. No estudo de um novo idioma, por exemplo, ultrapassam a barreira da língua materna. Muitos deficientes visuais e auditivos freqüentam aulas regulares, com sucesso, em inglês, espanhol, italiano e outros idiomas. Usam material em braile, fazem leitura dos lábios, contam com programas avançados de computador. Mostram-se animados, com vontade de aprender. Os que têm deficiência auditiva se valem, também, do aparelho para audição.

O importante na aprendizagem do deficiente é observar o ritmo e as características de cada um, dar-lhe o apoio que necessita e usar material didático adequado. Introduzi-lo na sala de aula comum, com os outros alunos e incentivá-lo a participar. Segundo os fonoaudiólogos, apenas deficientes auditivos oralizados, isto é, que conseguem ler lábios e reproduzir os sons, podem participar das aulas normais de idiomas. Os que têm perda profunda de audição precisam de um professor que saiba a língua dos sinais.

Segundo o relatório “Monitoramento Internacional dos Direitos dos Deficientes”, elaborado pela Rede Internacional de Deficientes e pelo Centro para a Reabilitação Internacional, divulgado no início de setembro p. passado, o Brasil, entre 24 países pesquisados, é o País das Américas que assegura a melhor proteção e tratamento aos deficientes físicos. O que influenciou esse resultado foi a legislação que, entre outros fatores, assegura cotas de contratação nas empresas, garantias constitucionais de apoio financeiro e proibição da discriminação no trabalho.

Mas, em termos de realidade, pouco se faz no cumprimento dessas vantagens, para que o País seja realmente inclusivo no trato do deficiente. A reserva de mercado aos deficientes, com cotas obrigatórias, estabelecidas pela legislação, em empresas com mais de 100 funcionários, nem sempre é cumprida. Há ainda o obstáculo da locomoção que impede a chegada e a permanência do deficiente no emprego. Do mesmo modo, a reserva de 5% das vagas para os concursos públicos tem seu privilégio esbarrado pelas condições de acesso à educação. O deficiente não consegue trabalho ou estudar porque não tem acesso ao local do emprego e à escola. A lei da reserva de vagas para os concursos públicos, regulamentada em 1988, em que pese a boa intenção, deveria adequar a escola, o sistema de saúde, o transporte público, para atender a demanda dos interessados, garantir a sua participação efetiva na sociedade.

Um outro contra-senso, outro desencontro entre legislação e realidade, é a garantia do direito de voto, que deveria ser acompanhada do direito de acesso ao local de votação. No segundo semestre deste ano – 2004 – o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, incongruentemente, que os deficientes que não possam chegar aos locais de votação estão dispensados. Somente 20% dos postos de votação do País estão equipados para receber portadores de deficiências. Diante desse parecer, haverá interesse em equipar os demais?

Segundo o Censo do IBGE, realizado em 2000, o Brasil possui uma população de mais de 24,5 milhões de brasileiros portadores de algum tipo de deficiência. Dentre os deficientes visuais, 159.824 responderam que são incapazes de enxergar. Dos brasileiros com deficiência auditiva, 176.067 disseram que são incapazes de ouvir. Em cada 100 brasileiros, no mínimo 14 apresentaram alguma limitação física ou sensorial. O número é elevado e merece toda nossa atenção, toda atenção governamental.

Percebemos que ainda há muito que fazer pelos deficientes, ultrapassar os limites da legislação, legislação que colocou o Brasil como o melhor País das Américas no tratamento do deficiente. Quantos anos ainda levaremos para dar condições apropriadas para que o deficiente possa exercer, com dignidade, sua cidadania?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro de 2004)

AULA INAUGURAL DA REDE PÚBLICA GUARIBENSE

Izabel Sadalla Grispino *

Dia 10 de fevereiro p. passado, ministrei, com sobeja satisfação, a aula inaugural das escolas da rede pública de Guariba. Senti-me honrada com o convite da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Educação para falar aos representantes do magistério de minha terra, logo no início do ano letivo.

Ao cumprimentar os professores e parabenizá-los pela escolha da nobre profissão de ensinar, ao cumprimentar a digníssima secretária de Educação, Profa. Vera Eliana Ambrósio Politi, e sua digníssima assessora pedagógica, Profa. Marlene Toniatti Garavelo, não pude deixar de lembrar Dr. Hermínio de Laurentiz Neto, pela admirável administração exercida, tendo sido considerada um marco na história política de Guariba. Lembrei o prefeito atual, Mário Sérgio Cazeri, desejando-lhe, com igual empenho e zelo, uma gestão tão avantajada como a de seu antecessor. Pedi a Deus que o provenha de força e coragem para dar continuidade aos avanços da cidade.

Cazeri, já no seu primeiro mês de mandato, dá sinais a que veio, deixando transparecer, na solução dos problemas da cidade, uma administração embuída de humanidade. Vem demonstrando um alto apreço pelo ser humano, mesclando agilidade administrativa e coração. No primeiro dia do ano letivo recebeu o professorado com um grande abraço e muita consideração. Presenteou a todos com um lauto café da manhã e um almoço, reunindo professores e palestrante. Sua ausência foi sentida, mas trazia a justa justificativa de sua ida à cidade de São Paulo, a serviço da Prefeitura.

Esse almoço de confraternização simbolizou a esperança por uma educação de qualidade, que Guariba merece. Traduziu a afetividade que deve reger o comportamento humano. É como se Cazeri dissesse: “Professor, a vida é luta. Viver é lutar. Mas, lutem com fé. Tragam alento e esperança ao coração do estudante. Tragam alento e esperança ao coração dos pais, que sonham aos filhos um futuro promissor. Tragam alento e esperança ao povo guaribense, que pela educação esperam encontrar a paz, a prosperidade, e a grandeza desta terra”.

A essa exortação, juntei uma outra, quando desejei aos professores um feliz retorno às aulas. Quando lhes falei da importância de sua função. Ser professor é decidir o rumo da humanidade. Ser professor é ser condutor de almas, revigorador da sociedade, semeador do saber, de idéias, de religiosidade. Que os professores iniciem o ano letivo com entusiasmo, porque dele vai depender o entusiasmo do aluno, o seu interesse pela aprendizagem.

Este ano, os professores têm, em suas mãos, um recurso a mais, uma ajuda a mais, para o seu trabalho do dia-a-dia em sala de aula. Graças ao entendimento do Dr. Hermínio e da Profa. Vera, o meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola) foi adotado na rede municipal de ensino. Durante o ano letivo, novos encontros com os professores surgirão, no debate de questões pedagógicas, abordadas pelo livro.

Na oportunidade, lembrei aos professores que a Campanha da Fraternidade, desta quaresma, lançada pela Igreja Católica, traz o tema “Solidariedade e Paz”. A maior solidariedade do professor está na dedicação que devota à causa da educação, na sua compreensão pela aprendizagem, especialmente aos alunos carentes, aos mais necessitados de atenções, pela dificuldade em aprender, pela vida familiar desestruturada, conflitada, em que vivem. Lembrei-lhes que nossa missão é atuar com alma, sabedoria e conhecimento. O aluno que alcança o saber será um elemento atuante na sociedade. O aluno que abandona a escola, que não consegue aprender, será um marginalizado, um comparsa da violência, desgraça que toma conta do mundo.

Não façamos de nossos alunos tristes vítimas da desinformação. Quanto mais inculto o povo, mais fácil ele será elemento de manipulação.

Ao lado das conceituações de ser professor, falei, com adequação ao momento, sobre as novas tendências do ensino. Abordei metodologias renovadas. Fiz uma análise sucinta do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), com paradas para reflexões. Em breve, retornarei às escolas para assessorá-las no processo de ensino-aprendizagem, colaborar com a formação do professor, um dos fatores que me levaram a escrever o livro.

Meus irmãos do magistério, juntemo-nos, unamo-nos. Do nosso devotamento, da nossa bandeira de luta, dependerá a grandeza da nação. O universo tem no saber seu maior patrimônio e nós fazemos parte desse patrimônio. Se cada um de nós fizer a sua parte, pequena que seja, o mundo , tenham a certeza, será grandioso, com Deus regendo as mentes e os corações. Teremos o mundo que idealizamos, abençoado por Nosso Senhor!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2005)

RETROSPECTIVA HISTÓRICA: “A ESCOLA PÚBLICA NA DÉCADA DE 60”

Izabel  Sadalla Grispino *

Surge nos anos 60, precisamente em sua 2ª metade, manifestação explícita, até, então, a maior, por parte da Secretaria da Educação pela democratização do ensino. Expandiu-se a construção de prédios escolares e novas metodologias, em função da nova clientela, novas abordagens pedagógicas, começaram a ser divulgadas e implementadas nas escolas da rede estadual.

Em 1962, criava-se, sob a orientação da Profa. Maria Nilde Mascellani, o Serviço de Ensino Vocacional (SEV), com a instalação de 5 ginásios vocacionais no estado de São Paulo. Paralelamente, foram instituídos, na gestão do secretário da Educação Prof. Paulo Nathanael, os chamados ginásios pluricurriculares, polivalentes.

Nesse período eu era diretora de uma escola estadual que mantinha os cursos: colegial, normal e ginasial. Por volta de 69/70, esse ginásio passou a ser pluricurricular.

Como o próprio nome o definia, ele oferecia aos alunos um leque de opções curriculares, permitindo-lhes descobrir tendências vocacionais e encaminhá-los, quando fosse o caso, a uma profissionalização de nível médio. Seria como um desmembramento do ginásio vocacional. Uma de suas bases de sustentação era a criação da oficina de artes e ofícios.

Era uma nova proposta de escola com um embasamento teórico e experimental de longo alcance. Para ser melhor compreendida e ajustada à sua aplicabilidade, necessitava de um profissional que se dedicasse exclusivamente à coordenação pedagógica. Foi, praticamente,  o início dessa função nas escolas públicas.

Contudo, o seu maior desafio consistia na capacidade de seus integrantes alcançarem a metodologia emergente, com sua pedagogia da cooperação e sua valorização das individualidades. Revolucionavam-se a abordagem do conteúdo e toda uma estrutura comportamental vigente.

O ensino começava a se distanciar da linha cartesiana que ostentava bandeiras com lemas da eletizada escola da disciplina, austeridade, honra e excelência. Escola que, contudo, respondia, favoravelmente, à sua clientela, seleta, oriunda de classes abastadas, dominantes, aspirantes ao ingresso nas universidades.

O advento da era industrial, gerando um grande contigente populacional urbano, pedia mudanças estruturais na sua conceituação. A visão cartesiana, inspirada, por longas décadas, na filosofia da racionalidade do francês René Descartes, século XVII, era tida, para a situação, como linear, maciçamente repressora, passando sobre a individualidade das pessoas.

A Escola precisava diversificar as ofertas  educacionais,  adequar-se  ao  trabalho industrial  e às características desse aluno proveniente, neste momento, das  mais  diferentes  classes  sociais. Surgiram mais escolas estaduais industriais com profissionalização de nível médio, passando, depois, a chamar-se “Escolas Técnicas Estaduais”, agora, ligadas à Fundação Paula Souza.

Nessa evolução, entendeu-se como fundamental olhar para dentro do aluno, valorizar suas aspirações, o seu modo peculiar de ser. A pedagogia se aparelhava da psicologia. Despontava a visão dialética, holística do homem. O aluno passava a ser visto no seu todo, compreendido e ajudado nos aspectos cognitivo, afetivo e psicomotor.

Surgiam frases de efeito, representativas da nova mentalidade: “o trabalho dignifica”, “liberdade com responsabilidade”, “educar é libertar”, “educar é um ato de amor”, “respeito às individualidades”, “só é mestre quem sabe aprender”...

Derrubava-se a muralha existente entre a escola e a comunidade. No lugar da rigidez, passou-se à flexibilização de atitudes e de conteúdo. O professor não mais impunha, ao aluno, seu planejamento --  agora elaborado de modo interdisciplinar --  ao contrário, planejava com a sua colaboração,  observando  o  nível  da  classe, respeitando o seu ritmo e sua potencialidade. Dialogava, construía o conhecimento juntamente com ele, considerando-o um ser capaz de criar, o agente da aprendizagem. Entre as técnicas de ensino, a  pesquisa, com  a  utilização estimulada  das  bibliotecas,  era  de primordial importância.A avaliação, antes centrada no aluno, passou a ser de mão dupla, centrada, também, no professor, com a conceituação não mais de medir, de reprimir, mas de verificar o crescimento do aluno. Uma avaliação que proporcionasse verificar a evolução da maturidade do aluno, num progresso gradual e constante.

A comunidade passou a ser chamada a participar do plano escolar, a esclarecer-se e acompanhar o desenrolar das atividades-meio e atividades-fim. A Escola tornou-se mais aberta, mais humanizadora, menos soberana.

Seus grandes princípios continuam bastante atuais, compreensivelmente, com ajustes aperfeiçoados ou complementados pelas exigências de adaptação aos avanços tecnológicos e conseqüente transformação social.

Foi, sem dúvida, a grande semente didático-pedagógica e democrática, lançada na rede do ensino oficial do estado de São Paulo. Com o tempo e seu amadurecimento, esses princípios culminaram no processo atual de ensino-aprendizagem, no qual ressaltamos: a formação de ciclos no ensino fundamental, a diversificação das maneiras de classificar e reclassificar os alunos  da educação básica e a reiterada afirmação do método construtivista.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em abril 2000)

O TERCEIRO TURNO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

É comum assistirmos inovações na estrutura escolar que pouco ou nada contribuem para a qualidade do ensino. Provocam impacto, especialmente, para uma população mais desavisada.

Quando li que a Prefeitura de São Paulo vai extinguir o terceiro turno, à primeira vista, a medida pareceu-me alentadora, um passo avante para a melhoria do ensino. A partir de fevereiro do corrente ano, as aulas do ensino fundamental, que eram de 3 horas e 40 minutos, estender-se-ão por 5 horas.

Aprofundando no assunto e lendo relatos de professores que atuam em escolas de três turnos, o entusiasmo começou a arrefecer. Não houve, por parte da Prefeitura, um plano consistente, uma programação que abrangesse a estrutura física das escolas.

“Tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Tudo é feito a toque de caixa. Para se eliminar o terceiro turno, algumas salas de aula foram construídas e a outra saída foi desativar os espaços pedagógicos, enfraquecendo as condições de ensino, desestimulando áreas do saber.

Foram eliminadas as salas de educação física, as de educação artística, laboratórios de ciências. Utilizam-se, segundo a necessidade, salas de atividades pedagógicas, de brinquedotecas e as de vídeo e DVD, inclusive, invadem a sala dos professores, desalojando-os, privando-os dos encontros salutares, quando, descontraidamente, abordam problemas de alunos, de convivência escolar.

Essa falta de valorização dos complementos pedagógicos tão vitais, empobrecendo a escola e a visão do aluno em relação a ela, vai aos poucos se acentuando e refletindo no entusiasmo pelo estudo.

Educar é muito um estado de espírito. Premidos pelo desconforto, pelo plano inferior a que foram submetidos, docentes e discentes poderão reagir negativamente e o aumento do número de aulas não será revertido, certamente, ao nível pretendido, ao benefício esperado.

Um outro aspecto, ainda mais importante, lembrado por responsáveis educadores, é a fraca qualidade que vem norteando o ensino. Este continuará o mesmo, os professores, os mesmos, com as mesmas deficiências e esse número de horas-aula aumentado manterá o mesmo baixo padrão. Sob esse prisma, a derrocada continuará.

Quem atua em educação sabe que não virá melhoria de ensino se não se investir nas condições do ensino, no professor, em sua reciclagem de estudos, em sua valorização salarial. É preciso primeiro melhorar a qualidade dos integrantes do magistério, para depois pensar num reforço de horas-aula aos discentes. Como está, só se irá estender um ensino, que continuará diplomando analfabetos funcionais.

O ambiente escolar, em muitas localidades, vem se degradando, a ponto de os professores dizerem: “Os alunos organizam seus roubos e o negócio de drogas dentro da própria escola. E, mais tempo para eles?”

Se não se fizer uma revolução na educação, uma revisão do processo formal, os acréscimos de horas-aula serão irrisórios, superficiais, quando não prejudiciais!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2007)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

Leia Mais


Reconhecimento

Premiado pelo Buscaki

buscaki

I.S.G

izabel1

Colaboração

Slideshow Image 1

Novos Jogos

eduespc

Vídeos

videos

Visitante Número