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Artigos Educacionais

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CURSOS DE MBA

Izabel Sadalla Grispino *

Os cursos de Master Business Administration (MBA) vêm ao encontro à necessidade do funcionário ou empresário se reciclar e saber empreender. O foco dos cursos está no aperfeiçoamento da gestão de empresas, mas, também, despertam o lado empreendedor de seus alunos, desenvolvem habilidades administrativas e de gestão.

Os projetos de conclusão de curso acabam sendo usados para a abertura de um negócio, para montar a própria empresa. Muitos alunos ou executivos transformam-se em seus próprios patrões. Este é um aspecto dos cursos MBA, ensinar a ser patrão.

As aulas preparam para o empreendedorismo, os alunos recebem orientação dos professores para desenvolver os projetos. O MBA prioriza não só o projeto de conclusão de curso, como, também, as atividades em grupo desenvolvidas durante o período de estudos.

As aulas ajudam a conceber o negócio, a definir local e a melhor maneira de atuar no setor. Ajudam a embasar o futuro empreendimento.

Os que já trabalham em empresas ou já têm o seu próprio negócio encontram nos cursos de MBA a oportunidade de compartilhar idéias com pessoas que estão no mercado e bem posicionadas. Nesse contato evoluem, descobrem processos, melhores condições de analisar planos estratégicos de negócio.

Segundo levantamento, 60% dos alunos dos cursos, que já fizeram o último módulo, interessam-se por empreendedorismo, têm vontade de abrir negócio próprio. Sentem que o mercado exige perfil empreendedor, profissionais mais ativos, por isso buscam os cursos de MBA.

Alguns indivíduos têm qualidade nata de empreendedor. São líderes, mas, é possível despertar habilidades em pessoas com essa propensão, dar subsídios aos menos desenvolvidos.

Para atender essa clientela, o MBA oferece cursos de formação específica para empreendedorismo. Desmistificam o empreendedorismo e dão ferramentas adequadas aos alunos.

Geralmente, os alunos, em fim de cursos, que conseguiram uma rede de contatos e acumularam certo capital, 10 ou 15% acabam montando o próprio negócio. Os cursos disseminam o conceito de empreendedorismo ao longo deles e em todas as disciplinas. Periodicamente, os alunos discutem o assunto, não só entre si e com seus professores, mas com grupos formados por outras instituições, desenvolvendo núcleos de estudos.

Alargando o conhecimento, a visão dos negócios, avançam com mais segurança, na linha de frente do próprio negócio. Adquiriram conhecimentos galgados na teoria e na prática, habilidades flexíveis e comportamentos alinhados à vantagem da estratégia de negócios e à visão multifuncional da empresa.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em fevereiro/2007)

A IGREJA FRENTE AO RACIONALISMO CIENTÍFICO

Izabel Sadalla Grispino *

Assistimos hoje a uma reconciliação da Igreja com a ciência. A Igreja mudou de semblante, mudou de postura diante das descobertas da ciência. Em outros tempos, admitir o encontro da fé com a razão era considerado fraqueza, capitulação. O papa João Paulo II lançou, no ano de 2000, a encíclica “Fides et Ratio” (Fé e Razão), onde faz verdadeira apologia da razão. Reabilita os princípios filosóficos e científicos do racionalismo. “Não existe, não pode e não deve haver contradição entre a verdade que Deus nos revela em Jesus Cristo e as verdades pela filosofia. Deus não tem nada a temer com a descoberta progressista dos segredos da natureza. Não existe oposição entre Revelação e Razão, entre Fé e Pensamento, mas uma complementariedade indispensável”.

A Igreja caminha agora com Galileu Galilei, um cientista de sólida convicção religiosa, que dizia “Deus se revela a cada instante na majestade das leis naturais, que só podemos enxergar através da “luneta” da ciência e a ciência, assim, não pode deixar de progredir...”.

Na verdade, Deus não perde terreno com os avanços da ciência e o papa propõe como que um acordo entre fé e razão, num comportamento bem diferente do passado, quando cientistas, considerados hereges, eram excomungados, como as teses de Galileu ou Giordano Bruno, este queimado vivo, em Roma, no ano de 1600. Períodos negros, sombrios da Inquisição, são superados, ficando no passado. A história foi bastante tempestuosa nas relações da Igreja com a pesquisa científica, quando aquela se mostrou hostil às descobertas de novas verdades pela razão. Isso porque muitas descobertas científicas questionavam seriamente as afirmações literais da Bíblia, consideradas, durante séculos, como verdades intocáveis. Por essa razão, os racionalistas ficaram surpresos, quando, em 31 de outubro de 1992, o Vaticano, com a maior seriedade, reabilitou Galileu, nas questões do heliocentrismo. O mesmo em relação às descobertas de Darwin, sua teoria evolucionista, em contraposição à teoria criacionista, da Igreja, em que todas as espécies teriam sido criadas de uma só vez por Deus. Na teoria da evolução, os seres vivos seriam feitos de matéria comum, derivados, em toda a sua diversidade, de uma primeira e única forma de vida, enquanto a gênese e a configuração da arca de Noé nos ensinam que Deus criou, como querem os criacionistas, toda a diversidade das espécies animais ao mesmo tempo.

A crença da Igreja repousa sobre uma revelação que não depende de demonstração científica, do método experimental, porque Deus está além da ciência; impõe uma fé, uma confiança que deve escapar ao exame crítico e à dimensão racional. A ciência, por sua vez, evoluiu; emancipou-se dos limites rígidos do racionalismo cientificista, das formas distorcidas da razão “positivista”, mantidas, ainda, no século de Júlio Verne. O emergir da bioética constrói uma nova cultura e, neste particular, os cientistas estão menos  seguros de si, menos otimistas e menos confiantes que seus antecessores, nos inevitáveis benefícios do progresso. Eles se questionam sobre a moral, sobre o sentido e a sabedoria que convêm às suas descobertas.

Hoje, o Vaticano está menos preocupado com as descobertas da ciência do que com suas repercussões práticas, especialmente no campo das ciências da vida. Faz apelos à ciência e à medicina para que não se esqueçam da dimensão ética, que não se transformem em manipuladores da vida. Pois, se a Igreja não dúvida de Deus, desconfia do Homem que pensa sem Deus. Para a Igreja é indiferente que o Homem tenha surgido do “evolucionismo” ou do “criacionismo”, conforme ela acredita, porque é no momento em que Deus outorga uma alma ao ser humano que ele ganha essa dimensão. Na verdade, não há oposição entre ciência e fé.

A partir de 1860, as teorias de Darwin seriam energicamente condenadas pela Igreja, até que o próprio Darwin foi excomungado. Esse comportamento da Igreja, em relação à ciência, despertou, nos adeptos do racionalismo, uma certa prevenção contra os ensinamentos religiosos, em relação às descobertas do universo. A Igreja católica, reconhecendo seus erros, resolveu celebrar um grande jubileu, no ano de 2000, e numa atitude que muito vem ensinar os cristãos, num exame profundo de consciência, pede perdão pelas falhas ocorridas no passado, pelo abuso de autoridade, decorrentes de erros humanos, falhas humanas, não da Igreja em suas verdades fundamentais anunciadas por Cristo. A Igreja é representada por homens e todos nós, enquanto humanos, somos passíveis de falhas.

O jubileu tem a ver com o perdão, e o grande jubileu, do ano passado, comemorou os 2000 anos do nascimento de Jesus Cristo e sua obra redentora. Comemorou o perdão, o louvor a Deus e a peregrinação.

O perdão foi amplamente comentado pelo papa João Paulo II, que estimulou os cristãos a examinar a história do último milênio do cristianismo e pedir perdão. Mas, ao mesmo tempo, estimulou os cristãos a louvar a Deus, pelos imensos frutos que a fé cristã trouxe à história da humanidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2001)

CONTROVÉRSIAS QUANTO AO USO DO COMPUTADOR

Izabel Sadalla Grispino *

Aprender a viver na sociedade hoje é aprender a compreender a necessidade de uma educação de qualidade. A boa escola leva o jovem a recuperar a confiança na estrutura educacional. Essa escola sabe, pedagogicamente, como lutar pelas dificuldades de aprendizagem dos alunos e como fazê-los galgar os degraus do saber. Coloca como prioridade o desafio da qualidade de ensino e acompanha as mudanças requeridas por um mundo em acelerada mutação.

O aluno, nessa escola, passa a confiar mais no futuro, nas suas possibilidade de realização. Essa escola sabe que o crescimento econômico do País é indispensável ao seu desenvolvimento, mas sabe que desenvolvimento com distribuição de renda tem seu maior peso na educação.

A boa escola tem que definir sua linha pedagógica e a época se caracteriza por uma gama considerável dela e muito voltada ao uso do computador. Utiliza precocemente o uso da informática alegando exigência da época, adaptação à sociedade.

Curiosamente, contrária ao uso do computador por crianças, há uma linha que vem sendo considerada, discutida, e recebendo adeptos. Essa pedagogia combate o uso da tecnologia na rotina das crianças, como se faz comumente nas grandes escolas. O prof. Valdemar Setzer, da Universidade de São Paulo (USP), titular do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística, preconiza que o computador seja utilizado somente a partir dos 17 anos de idade: “Deixe as crianças serem infantis, não lhes permita o acesso à TV, joguinhos eletrônicos e computadores”.

No seu artigo “Contra o uso de computadores por crianças e jovens” relata conclusões a que chegou, como “ser o pensamento abstrato, forçado pelo computador, prejudicial aos menores de 16 ou 17 anos. Força-os ao uso de uma linguagem e um tipo de pensamento totalmente inadequado a essa faixa etária. Eles ainda não possuem uma maturidade intelectual adequada”.

Essa metodologia é compartilhada pelas escolas que abraçam a pedagogia Waldorf, introduzida pelo austríaco Rudolf Steiner, em 1919, na Alemanha. A base é deixar que a criança brinque por si, com o mínimo de estímulo externo. A escola programa-se para que não haja interferência no desenvolvimento, com a criança criando recursos próprios. Limites, contudo, são colocados suavemente pelo professor.

A criança na pedagogia Waldorf está sempre ativa. Os dias são preenchidos com atividades artísticas e artesanais. Brincam com bonecas confeccionadas por elas, sobem em árvores plantadas na escola, ouvem, em roda, histórias, contos do folclore, fazem teatro de marionetes, com cirandas e poesias.

A escola considera que os brinquedos manufaturados limitam a fantasia. Não adere à tendência, de hoje, de deixar a criança passiva diante da TV ou do computador. Prima pela individualidade de cada um, fazendo a criança desabrochar no seu potencial. Quanto ao computador, é contra ao seu uso precoce, por exigir muita concentração e mesmo abstração, num período em que a criança e o jovem não estão bem desenvolvidos intelectualmente e, conforme já está comprovado, a aceleração da intelectualidade é altamente prejudicial à criança e ao adolescente.

O prof. Setzer diz “não existir pesquisa científica que mostre os benefícios do uso do computador como ferramenta didática ou de lazer na infância. Você pensa que usa o computador, mas freqüentemente é ele quem usa você. Em qualquer uso, o computador força um raciocínio matemático restrito, lógico-simbólico e o jovem tem de ter uma maturidade muito grande para se controlar”. Para comprovar sua tese, diz não ter deixado seus 4 filhos terem acesso a computadores na infância. Hoje, um deles, de 32 anos, é diretor da Oracle, um dos principais fabricantes de software do mundo.

Além de acelerar a intelectualidade, o computador não dá margem à interação e a escola deve priorizar atividades em conjunto. Aprender sozinho limita o indivíduo, não o ajuda na socialização, na troca. O computador é um instrumento mecânico de aprendizagem, afasta o elemento humano, indispensável na educação. O trabalho coletivo traz maior prazer, um brincar mais produtivo, mais criativo. O contato com o humano faz a criança tornar-se mais tranqüila. A TV é igualmente barrada nessa pedagogia.

Além das escolas que adotam o método Waldorf, onde as crianças se desenvolvem em atividades naturais, outras vêm aderindo, senão total, mas parcialmente, às orientações de preencher os espaços da criança em atividades que as afastem do computador e da TV. Escolas particulares programam atividades para receber alunos no período de férias, em janeiro. Atividades como pintura, plantação, cavalgadas, culinária e até relaxamento para crianças de zero a 7 anos. Há preparação de horta para plantar cenouras, rabanetes, confecção de fantasias e banhos de boneca.

Quanto ao processo de afastar a criança e o jovem do uso do computador, surgem grandes celeumas entre os educadores. Atualmente, a grande maioria das escolas coloca crianças de 3 anos diante do computador. Adota desde cedo o seu uso atraindo clientela com esse sistema. As crianças, desde o jardim, vão se familiarizando com as máquinas e seu uso se prolonga no ensino fundamental, com aulas formais de informática.

A filosofia dominante dessas escolas é o ajuste da educação à sociedade reinante. Acreditam que se ficar fora da informática estarão prejudicando a juventude atual, deixando-a fora de seu tempo.

Qual o melhor caminho a seguir? Barrar totalmente a tecnologia à criança e ao jovem até a idade proposta por Setzer ou introduzi-los cedo ao seu uso? Setzer não está contra o uso do computador, mas eliminando o seu uso precoce, em obediência às fases do desenvolvimento cognitivo da criança e do jovem e utilizando-o no momento certo.

A informática é a coqueluche do momento, uma forte alavanca do futuro. Quanto ao seu uso precoce, exigindo, de acordo com especialistas, uma maturidade intelectual que a criança não tem, não haveria necessidade de mais estudo, mais observação, para uma mais ajustada conclusão? Até lá, não seria viável a adoção de um meio termo, de uma adequação aos níveis de abstração, uma graduação no raciocínio formal, hipotético-dedutivo?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2005)

A REALIDADE EDUCACIONAL NO BRASIL

Izabel Sadalla Grispino *

O grande entrave à educação no Brasil está, sem dúvida, no baixo nível socioeconômico da população, reproduzindo o círculo de pobreza, marginalização e exclusão social. Ressalta-se, também, a precária formação do professor, com sua adoção de métodos ineficazes de aprendizagem. Métodos deficientes e deficitários, incapazes de penetrar num mundo estudantil desmotivado, desconjunturado e extrair dele potencialidades afloradas. Comprovadamente, a má formação docente contribui para a decadência do ensino e essa má formação vem sendo registrada pelas mais variadas situações. Citaremos experiências dos anos 97/98.

A MÁ FORMAÇÃO DOCENTE DO ENSINO BÁSICO – Um concurso público, promovido pela Secretaria da Educação da Bahia, para preenchimento de 7.300 vagas de professores, reprovou mais de 90% dos candidatos. Dos 62.730 inscritos, apenas 3.291 conseguiram atingir a nota mínima – de 4,7 a 5,0, dependendo da disciplina. O presidente da Associação dos Professores Licenciados da Bahia (APLB), Ruy Oliveira, informou que “a grande maioria dos candidatos é da rede pública baiana, em cursos do magistério.

Sobre a formação de professores, em termos de licenciatura, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do MEC, revela que, entre 1,5 milhão de professores do ensino fundamental, 124.642 são considerados leigos, ou seja, não têm o 1º grau ou o 2º grau completos. Um total de 63,7 mil professores, sem o 1º grau completo, lecionam para alunos do ensino fundamental. Há, ainda, 71 professores que, embora não tendo o 1º grau completo, lecionam para alunos do ensino médio. Outros 997 docentes do ensino médio não possuem o 2º grau completo.

A legislação determina que o professor tenha o ensino médio completo para dar aulas no ensino fundamental em seu 1º ciclo – 1ª à 4ª série. Para ministrar aulas no 2º ciclo do ensino fundamental – 5ª à 8ª série – e no ensino médio deve ter o curso superior e a licenciatura. A tendência é de se estender, para todos os níveis,  o curso superior.

A presidente do Inep, Maria Helena de Castro, comenta que “a falta de formação dos professores é um dos sérios problemas do ensino, principalmente nas áreas rurais e nas regiões Norte e Nordeste”. Essa deficiência maior só aumenta a distância entre a diferença de aprendizagem das diversas regiões do País. Constatou-se, por exemplo, pela avaliação, que um aluno de 4ª série em Brasília sabe tanto quanto um aluno  da  8ª  série  no Nordeste.

Várias pesquisas, realizadas paralelamente às do MEC, denunciaram essa falta de formação do professor. No Estado de São Paulo, considerado um dos mais avançados da União, a atuação docente fica, também, a desejar. No município de São Paulo, uma pesquisa realizada, pela “Fundação-Instituto de Administração” (FIA), da Universidade de São Paulo (USP), com professores de 1ª a 8ª séries, demonstrou um pluralismo nas escolas municipais, apesar de a Secretaria Municipal da Educação ter adotado o construtivismo como método de ensino. Os professores alegaram sentir-se despreparados para aplicar o ensino-aprendizagem construtivista.

Estudos realizados pelo Instituto de Química da USP, ao analisar laboratórios de 3.740 escolas estaduais, concluíram pela inutilidade de sua existência, constatando ser ilusório incentivar aulas de laboratório na grande maioria das escolas estaduais. Com raríssimas exceções, as salas não têm condições físicas para acolher os alunos e, o mais importante, faltam professores especializados para organizar os laboratórios.

A professora Reiko Isuyama, que coordenou a avaliação, afirmou que há casos de extrema periculosidade: “Foram encontrados ácidos concentrados, solventes cancerígenos e frascos de sódio metálico, substância que pode explodir em contato com a água e atingir, por exemplo, um funcionário durante a limpeza da sala”. O relatório revela que do jeito que está é melhor fechar os laboratórios, “é inútil fornecer reagentes e vidrarias se os professores não sabem utilizá-los”.

Para que os laboratórios possam funcionar com qualidade é preciso capacitar os professores do ensino médio. Quando se fala em falência do ensino, uma das causas apontadas é a falta de infra-estrutura das escolas. Percebe-se o corolário que se forma: como usar a infra-estrutura se as escolas estão desfalcadas de profissionais capacitados?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro de 2007)

A ESCOLA TRABALHANDO A VIOLÊNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

A escola vem se preocupando cada vez mais com o problema da violência. Violência na sociedade que acaba na escola. Investe em atividades esportivas e culturais, cria projetos alternativos que envolvem os alunos e os afastam da violência. Vai além, estimula a participação dos pais e da comunidade nos programas desenvolvidos por ela, ampliando o sentido de escola, escola da família. Ela se transforma em espaço de atividades também para a comunidade.

Da prática de esportes em quadras, a escola programa formação de grupos de dança, teatro, formação de líderes, grupos de axé, hip hop, aulas de violão, discussões sobre a realidade vivida pelo estudante. O propósito é manter o aluno na escola, estimulá-lo à vida escolar e afastá-lo da criminalidade.

A escola diversifica para combater a violência, especialmente quando localizada em periferias de cidades com índices relevantes de criminalidade. As atividades variam de acordo com a realidade encontrada.

Uma boa estratégia é advertir os alunos que se não houver correspondência, se houver briga, os projetos serão cancelados. E o que se nota, nas escolas envolvidas nos projetos, é uma grande adesão dos alunos às atividades, principalmente, se são os próprios alunos quem define as oficinas, os cursos, ou os projetos a serem executados. Todos se integram e não criam confusão. Eles sentem que o espaço é deles e passa a valorizá-lo. Trabalha-se em parceria com os alunos e também com a comunidade.

Um procedimento que quase sempre atinge o alvo é trabalhar na formação de líderes. Cada sala elege o seu representante que será o porta-voz da turma. Ao despertar o interesse dos alunos, esse interesse os move, eles participam e vão deixando a criminalidade, reduzindo a agressividade. Afastam-se das ruas, preferindo ficar na escola, envolvidos com atividades esportivas, culturais e musicais. Há escolas que organizam belos corais com os alunos, que se apresentam, no período de Natal, em outras escolas da comunidade, em shoppings ou mesmo em empresas da cidade.

Pelo resultado de avaliações, as escolas, que assim se programam, que apostam num ensino diversificado, em atividades prazerosas para os alunos, têm conseguido freqüência participativa dos alunos em grau estimulador, assim como um envolvimento cada vez decrescente no crime.

Sob um outro ângulo, agora mais restrito ao recinto escolar, há um fator de violência, surgindo de relacionamentos interpessoais, entre alunos, relacionamentos conflitados, que não podem deixar de ser seriamente considerados pela escola.

A escola deve trabalhar os efeitos negativos que interferem na personalidade. No caso da violência acima citada, atacar as causas, às vezes aparentemente sem conseqüência, mas que vão, pela repetição, pela persistência, gerar atos de extrema violência, chegando à morte. Estuda-se, hoje, o reflexo de um fenômeno mundial, conhecido como bullying. Bully, em inglês, quer dizer valentão, brigão.

Bullying refere-se a humilhações constantes sofridas, por um estudante, na escola onde freqüenta. Refere-se à prática de atos agressivos e humilhantes de um grupo de estudantes contra um colega, sem motivo aparente. Essa atitude de humilhação provoca revoltas marcantes no adolescente, que, em momento de crise, chega a cometer assassinatos em série. Vários casos são assinalados, como por exemplo, de um garoto de 13 anos, sofrendo por mais de 2 anos na escola repetidas humilhações, por parte de colegas. Num repente de muita revolta, comprou, com o dinheiro da mãe, um revólver e saiu atirando.

Pesquisa, com 5.482 alunos de 5.ª à 8.ª série de 9 escolas públicas e 2 particulares, mostra que 40,5% dos entrevistados admitiram ter envolvimento direto com episódios de humilhação na escola. Cerca de 27,8%, foi vítima de bullying. Eles contaram que receberam apelidos (54,2%), ameaçados (8,5%) e tiveram objetos roubados ou destruídos (4,7%). Em 60,2% dos casos, os episódios ocorreram em sala de aula. Dos alunos ouvidos, 23,7% confessaram que humilhavam colegas; uns achavam a prática engraçada, outros que os colegas mereciam ser castigados. Apenas 19,5% foram repreendidos na escola.

Isso mostra que não se trata de uma porcentagem a ser desprezada. Mostra que a escola deve dar importância ao fato e desenvolver trabalhos com os alunos para conscientizá-los contra o bullying. Mostra que apelidos agressivos podem trazer efeitos muito danosos. Apelidos que acompanham o indivíduo a vida toda, e mesmo anos mais tarde, acabam levando-o à prática do bullying. Dizem os especialistas que “o que está por trás desse comportamento é a intolerância pelo diferente. A sociedade, a escola não podem pensar que isso é coisa de criança ou adolescente, uma fase que vai se resolver com o tempo”.

Para clarear o efeito bullying, o relatório cita o caso de um aluno de 18 anos, aluno de uma escola da cidade de Taiúva/SP, que fora chamado de “vinagre”, por anos, pelos colegas, após ter feito uma severa dieta. Os colegas diziam que ele havia emagrecido de tanto beber o tempero. Acumulando revolta, num ato de destempero, feriu 6 pessoas na escola e se suicidou. Fato ocorrido em janeiro de 2003.

Monteiro Filho, presidente da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), explana o assunto no seu livro “Diga não para o bullying”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2004)

A LUTA DE UMA MINORIA PELA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Um ponto agravante na educação do brasileiro é o problema do índio. O preconceito, a pobreza, a má qualidade da educação básica pública esbarram na formação do povo indígena.

Segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), há no Brasil 400 mil indígenas, de 215 etnias, que falam 180 línguas. Dentre todos, apenas 1.300, ou seja, 0,32%, conseguiram ingressar num curso superior e o número dos que conseguiram ir avante é irrisório. Menos de 20 chegaram ao mestrado e tão-somente dois alcançaram o doutorado.

O Acre é um dos Estados brasileiros que vem se destacando no esforço para melhorar a educação de seu povo. Possui 560 mil habitantes, dentre eles, 17 mil índios, divididos em 14 etnias, com um número bem maior de línguas e dialetos.

O Acre investe no firme propósito de incluir os índios na educação. Ampliou o trabalho que vinha sendo desenvolvido desde 1983 pela organização não-governamental (ONG), que formou os primeiros 35 indígenas do Acre. Em 2000 havia apenas 67 escolas e 170 professores índios e, destes, só 25 tinham a formação intercultural, diferenciada e bilíngüe, equivalente ao 2.º grau, conforme o que prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996.

Hoje, o número de escolas aumentou para 130 e o de professores para 217. A partir de 2004, segundo dados vindos do Acre, todos os professores estarão formados, ou em processo de formação, equivalente ao 2.º grau completo, atendendo 100% da demanda. Em 2004, formaram-se 20 professores e a meta do governo é, a partir de então, formar 10 por ano. Discute-se a implantação de um curso superior indígena, proporcionando continuidade de estudos aos já formados.

A educação indígena no Acre avança, mas ainda há muito por fazer. Embora seja uma educação diferenciada e bilíngüe, a maior parte dos professores só leciona de 1.ª à 4.ª série. Há um grupo menor ensinando de 5.ª à 8.ª série, onde crianças, de nível equivalente a diferentes séries, têm aulas em conjunto. Um mesmo professor dá conta de diferentes disciplinas, como a língua indígena, língua portuguesa, matemática, arte, história, geografia e educação física.

O enfoque da educação indígena, depois da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), mudou. Anteriormente a ela, educava-se o índio para integrá-lo à nossa cultura; agora, a preocupação maior é conservar a sua identidade, preservar a sua cultura, suas tradições, seus mitos. A escola indígena amplia a visão de mundo do índio, mas não tira a sua condição de índio. O índio aprende o português para se entrosar no ambiente onde vive, negociar, reivindicar melhores condições de vida, aperfeiçoando o conhecimento de sua língua, reforçando sua identidade. A educação bilíngüe ajuda no diálogo, na troca de experiência com os não-índios. É um instrumento de aproximação e de desenvolvimento de auto-estima.

Para fundamentar a reforma de ensino, após a promulgação da Lei Darcy Ribeiro, “o Ministério da Educação (MEC) elaborou, dentre os demais Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Básica, o das Escolas Indígenas, possibilitando a criação de uma política educacional para o povo indígena.

Em 21 de maio de 1998, o Ministério lançou o referencial curricular nacional para as escolas das aldeias, que passaram a ter, desde 1999, currículos próprios, valorizando suas culturas. Até então, buscava-se apenas integrar os índios à sociedade, deixando de preservar e valorizar as suas diferentes culturas.

Levantamento estatístico mostrou que existem no Brasil 207 povos indígenas. Temos 1.591 escolas indígenas com mais de 62 mil alunos freqüentando o ensino fundamental, de 1.ª à 8.ª série.

O parâmetro curricular alia o ensino de matérias tradicionais à discussão de temas de interesse das comunidades, como a organização e direitos das nações indígenas no Brasil.

Pela proposta do MEC, o ensino da língua portuguesa deverá ser simultâneo ao da língua indígena local. Na matemática, além do tradicional estudo de números e operações, o aluno lidará com os sistemas numéricos usados pelos diferentes povos indígenas e pela sociedade em geral, para facilitar sua comunicação. Na geografia, a proposta é partir do espaço geográfico onde vive o aluno para ajudá-lo a entender sua localização no Brasil e no mundo. Na educação física, o aluno deverá conhecer desde os jogos e brincadeiras tradicionais de sua tribo até as práticas esportivas brasileiras e internacionais.

O “Parâmetro Curricular Nacional das Escolas Indígenas” não é um referencial obrigatório, mas, certamente, as escolas indígenas, ao se encontrar com a proposta, usá-la-ão, desde que tenham meios para aplicá-la”. (trecho extraído do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), págs. 127 e 128.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2005)

EDUCAÇÃO: CONFUSÃO ENTRE ORDEM DIRETA E INVERSA

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi exaustivamente delineada, em várias ocasiões.

A preocupação abrange o particular e o geral, o indivíduo e a nação. Enquanto o mundo se ilustra, países, como o Brasil, se deslustrando, acabam por cair em descrédito internacional, no estado de pobreza. Como fica o país despreparado frente à globalização? Como fica a concorrência com os países fortes, com seu povo culto, evoluído? Que patamar, no “ranking” mundial, alcançará nosso Brasil, nessa avalanche de conhecimento que toma conta do planeta?

Todos os países do primeiro mundo cultuam seus centros de excelência, que abrangem as melhores universidades. No Brasil, ao que parece, a tendência é a de desperdiçar esse potencial, eixo gerador de grandezas. Existe um projeto de lei, de autoria do senador Antero Paes de Barros, que determina a reserva de 50% das vagas nas universidades estaduais para alunos das redes públicas. Este projeto já fora aprovado na Comissão de Educação do Senado,  em caráter terminal – sem votação em plenário – por acordo entre os partidos. Na semana passada, para espanto dos educadores, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto semelhante, quase que por unanimidade; dos 68 deputados presentes, apenas um deixou de votar a favor.

Como admitir reserva de vagas por decreto, não importa a que tipo de aluno, sem um critério de qualidade, sem uma prévia avaliação do conhecimento? Que conseqüências socioculturais e econômicas advirão desse procedimento infundado? Um aluno sem boa formação terá condições de acompanhar um curso de alto nível? Ou se espera o contrário, que a universidade de desqualifique, arrebaixe seu padrão, aviltando seus critérios? Se essa última hipótese não vier acontecer, a conseqüência será o desânimo do aluno, sua desistência, seu fracasso profissional. Para atender ao perfil do novo ingressante, a universidade terá de criar programas de adequação curricular e, sem dúvida, com impacto na estrutura dos cursos.

O projeto parte do pressuposto de que só alunos das escolas particulares conseguem entrar nas universidades públicas, gratuitas, o que é absolutamente verdade. Mas, por que isso acontece? O que gera a injustiça? Dedução óbvia: a péssima formação recebida nos graus de ensino anteriormente freqüentados por esse aluno. Uma etapa vencida, num determinado padrão, gera outra, no mesmo padrão. Há coerência no trajeto percorrido.

Saltar de repente, sem base de sustentação, é se desfacelar na caída. Pulo de gato só em alpinistas sociais, em educação não funciona. O ingresso à universidade se constitui na legitimação de um processo de seleção anterior. Vamos pensar sério, agir sério, deixar a demagogia, o populismo inconseqüente. Vamos qualificar o aluno pobre, dando mais atenção, mais verba para a educação básica; vamos investir, equiparar, humana e materialmente, nossas escolas oficiais às escolas particulares, melhorando o seu ensino. Assim, não precisaremos inverter a ordem natural das coisas e dos fatos, camuflar valores, colocando a carroça diante dos bois e criando confusão entre ordem direta e inversa.

O ensino superior deve ser seletivo, deve receber os melhores preparados, na perspectiva do maior padrão possível de ensino. É preciso que os educadores se alertem, que reajam contra essa incongruência, que vai acabar no mesmo poço fundo da desigualdade social, com a agravante de arrastar junto as nossas melhores universidades.

Já se denunciou a inconstitucionalidade do projeto, quando a Constituição Federal, em seu inciso I, artigo 26, reza preceito contraditório a esse procedimento: “O ensino será ministrado no Brasil com base no princípio da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. O correto é, pois, dar igualdade de condições a ricos e a pobres e deixar que as vagas sejam daqueles que as conquistarem pela competência, pelo conhecimento adquirido. Sem uma educação de qualidade qualquer esforço por igualdade social é inútil.

Não se forma uma grande nação por decreto; forma-se pelos passos que essa nação desenvolve, pelas oportunidades que cria, pelos olhares, competentes e honestos, que dirige ao desequilíbrio da balança social, buscando justiça na eqüidade. A reserva de vagas, a alunos supostamente despreparados, só faz transferir o problema para a universidade, reflete negativamente sobre o nível superior oficial, nivelando-o por baixo.

Amanhã é Natal.  A todos meus prezados leitores votos de um dia feliz, extensivos ao ano inteiro. Que os sentimentos de paz, de amor, de fé, de que é portador, permaneçam junto a nós para sempre. Este ano, o Natal inspirou-me os versos, que publico a seguir.

NESTE NATAL

Quero, neste Natal, mãos que se tocam,

Vidas que, na alma, bondade estocam,

Quero a poesia alimentando a ilusão,

Sabendo que Jesus é coração.

Do papai-noel quero ajuda à pobreza,

Crianças sem fome, sem ar de tristeza,

Que partilham da mesa farta,

Junto ao presente, a esperançosa carta.

Neste Natal não quero iguaria,

Não quero a ceia ornamental,

Nem pedras enfrentando a artilharia.

Quero a graça de ver o mundo em paz,

Criança palestina em terra natal,

O amor expulsando satanás.

 

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em dezembro/2000)

JABOTICABAL DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho o privilégio de saudar a “Cidade das Rosas”, a querida Jaboticabal em seu 172.° aniversário. Cumprimentá-la pela pujança dos ideais de seu povo ordeiro, pela força de alavanca que faz dela a cidade princesa da região.

O clamor das festividades reacendeu-me a memória emocional. Recordar é viver, reconhecer é dignificar, chorar saudade é reverenciar! Voltei, na 2.ª metade da década dos anos 40, para o tão decantado Colégio Estadual de Jaboticabal, hoje “Aurélio Arrobas Martins”, para rever, na mente fotografada, meus venerandos mestres, minha “galera”, a turma de classe, os queridos colegas, a Alairce de Oliveira Delgado, os folguedos do recreio, as aulas de ginástica, as aulas de música, com o amado maestro Biagio Cimino, que ensinava as notas musicais, o compasso, juntamente com o canto, insistindo nos hinos pátrios. Cantávamos corretamente o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino à Bandeira!

O passado explica o presente. Tive a felicidade de participar de um período áureo da história de Jaboticabal. Fiz as primeiras letras na cidade de Guariba, onde nasci, vindo, em seguida, juntamente com meu inesquecível irmão José, aqui continuar os estudos. Jaboticabal era o sonho do futuro, o centro cultural para onde convergiam estudantes de toda a região, na busca da escalada educacional. O então Colégio Estadual era o polo irradiador, o eixo que sustentava seu cognome de “Atenas Paulista”. Compunham seu corpo docente mestres de alta competência, que ministravam um saber à altura dos centros mais elevados do País. Era uma plêiade de iluminados!

O estabelecimento de ensino era dirigido pelo respeitado prof. Celino Pimentel, um administrador que, hoje, nada ficaria devendo aos mais apurados princípios da moderna educação escolar. Calmo, ponderado, tinha a doçura e a compreensão do diálogo espontâneo, a firmeza e a austeridade de quem não podia esmorecer nos momentos de decisão. Lembro-me de sua filha Lígia, um primor de beleza, que a todos encantava!

Caminhando para a sala de aula, deparávamos com verdadeiros baluartes da educação. Mestres precursores dos mais avançados métodos didáticos, com postura de orientadores da aprendizagem. Passam-se gerações e não é fácil encontrar um Mário de Campos, um Antônio Ruete!

Mário de Campos, o professor de Português, era o mais amado entre os amados, um intransigente defensor do vernáculo. Um professor que lecionava com o saber na mente e com o amor no coração. Numa época da escola soberana, onde se punha distância entre o professor e o aluno, entre escola e comunidade, ele era o amigo, dava ensejo a que os alunos se aproximassem. Mário de Campos seria hoje um desafio aos mais elevados conceitos da pedagogia atual. Usava da metodologia ativa, declamava-nos versos, punha-se emocionado, diante de uma classe paralisada, embevecida. Ele era a palmeira frondosa, a brisa suave que nos fazia sonhar, acreditar!

O filho Ayres de Campos também já lecionava. Era o jovem promissor, o herdeiro cultural do pai, a força nova que resplandecia. Era o filho ilustrando a imagem do pai, a garantia do texto elevado, apurado.

Um outro ícone do magistério foi o professor de latim Antônio Ruete. Um mestre de uma abrangência de conhecimentos invejável! Era a imagem da simpatia, muito querido pelos alunos. Na passagem do conteúdo, via-se, às vezes, interpelado pela alta erudição. Aprendemos muito com ele, sempre relacionando nossa língua com a língua mãe.

O professor Antônio Ruete deixou imensa saudade. Recordo com carinho de sua filha Cármen, uma colega alegre, empreendedora.

O professor de inglês, José França, risonho, extrovertido, mesclava suas aulas com música e poesia, procedimento didático muito apreciado pelos alunos. Quantos versinhos em inglês tenho, ainda, guardado de suas aulas!

Antônio Arrobas Martins, um fluente advogado, era nosso professor de ciências. Um mestre admirado pelos alunos, porém sem muito vínculo afetivo. Enérgico, um tanto eqüidistante, se colocava na docência com objetividade, porte severo.

Quantos outros deveriam entrar nesse quadro, como o competente e dedicado secretário sr. Túlio Rampazo. Mas, voltarei a novas lembranças em outra oportunidade. Porém, um nome que se prende a todos e que em todos deixou um pouco de sua marcante personalidade, não poderia, de modo algum, deixar de ser citado: professor Juvenal Passos Nogueira. Professor Juvenal é uma emoção à parte. Era o esteio do alunado, seu orientador, seu porto seguro. Respeitado e muito querido, espelhava-nos honestidade, inteligência, estudo, alguém que passava exemplo na própria conduta, alguém que com sacrifício e determinação subia a rampa do sucesso. Era, na época, inspetor de alunos e professor da maioria deles, preparava alunos para enfrentar o rigoroso exame de admissão ao ginásio. Professor Juvenal não parou de estudar, alcançando vôos profissionais de monta. Chegou, por sua competência, a diretor efetivo da escola que cresceu muito com ele e que, ainda, o representa, a EE “Aurélio Arrobas Martins”, casa de ensino, que tenho a certeza, nunca o esquecerá. Professor Juvenal é referência, é sólido pilar, é certeza de que quem se esforça chega lá. Juvenal Passos Nogueira é gente que faz, é exemplo de vida!

Jaboticabal sempre me impulsiona a retornos. Tenho a honra de saudar a Universidade São Luiz, que cresce e se firma como um dos orgulhos da cidade, universidade da qual participei dos seus primeiros passos, início da década de 70, quando fui convidada pelo seu fundador, o emérito professor Afonso Carregari, a engrossar as fileiras de seu corpo docente, e, então, nessa conceituada instituição de ensino superior, passei a dar aulas de francês, no curso de Letras.

Uma cidade se projeta no presente, com olhos no futuro, guardando a experiência do passado.

Nas pessoas dos valorosos mestres, aqui lembrados, rendo minha homenagem a Jaboticabal, que ela, a exemplo do passado, continue a caminhar a passos largos em direção à modernidade, que mire as alturas, mantendo a estrutura de sustentação presa ao solo, Que Deus continue abençoando a “Cidade das Rosas, que as rosas permaneçam desabrochadas, florindo e perfumando a terra, sinalizando portas abertas ao progresso, maturidade administrativa e farta colheita. Que os ventos lhe sejam favoráveis e que, junto a seu céu estrelado, aos seus mananciais, entoem, para Jaboticabal, o divino salmo da natureza!

*Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2000)

A ESCOLA FRENTE À ERA INFORMATIZADA

Izabel Sadalla Grispino *

Provocar reflexões sobre as mudanças que a época vem requerendo é um passo avante para a necessária mudança de mentalidade. As instituições devem promover debates, articulando interesses tradicionais e interesses inovadores. A transformação do mundo é matéria-prima do currículo. A escola precisa trabalhar com essa transformação. Precisa reconhecer a importância da contribuição interdisciplinar, multidisciplinar, trazendo uma globalização positiva. Precisa, nos países em desenvolvimento, como é considerado o nosso Brasil, ousar para diminuir a distância, cada vez maior, que separa os países ricos dos pobres. Os debates para produzirem o efeito desejado não podem acontecer aleatoriamente; precisam ser planejados e fundamentados nas teorias subjacentes. Conhecer os princípios filosóficos, que vêm norteando a reforma do ensino, consolida o entendimento.

Com as mudanças da reforma do ensino, propostas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), em atendimento à nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), surge um novo conceito de currículo, no qual o enciclopedismo é posto de lado e se prioriza a realidade vivida pelo aluno, seu cotidiano. Um currículo flexível, que se ajuste à era informatizada, onde a escola, no processo ensino-aprendizagem, busque a relação entre conhecimento e vida, a articulação entre teoria e prática. Uma escola que ofereça experiências sintonizadas com a família, com a comunidade, que se adapte  para receber o aluno. Não é mais o aluno se adaptando à escola, mas esta ao aluno.

O educando não pode mais esperar sair da escola para pôr em prática o que aprendeu, tem que relacionar o seu aprendizado com o momento de seu estudo, porque a cada 6 meses, um ano, temos renovações drásticas no conhecimento humano. Diferentemente do passado, quando o grande objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro, entende que o futuro não se faz amanhã, se faz hoje. Estabelece com o aluno uma relação dialógica e dinâmica, deixando o sistema tradicional da transmissão mecânica dos conhecimentos prontos e acabados. A escola do momento é da pesquisa, do raciocínio, da crítica, aliados à iniciativa, à criatividade, à improvisação, à intuição, onde a decoreba não tem mais lugar. É uma escola que prima pela qualidade. Não despreza a quantidade, mas trabalha a qualidade. Quanto mais qualidade mais fácil atingir a quantidade. A quantidade será o termômetro da qualidade.

No presente, com a facilidade do acesso às informações, disponíveis na mídia, na Internet, o papel do professor mudou. Sua função primordial, agora, é a de desafiar o aluno, orientá-lo a hierarquizar e organizar de forma crítica as informações às quais tem acesso. A escola tem que repensar a educação, repensar o conceito de aula, estimular a “imaginação pedagógica”, como queria Anísio Teixeira. O modelo atual está ameaçado. Quem ensina, hoje, precisa estimular a inteligência, não apenas a cognitiva, mas as inteligências múltiplas; não deve ser mais um mero provedor do conhecimento. Precisa reconhecer o conjunto das capacidades do aluno, considerar também o conhecimento informal. O enfoque do conteúdo mudou e a mudança precisa estar inscrita na ação pedagógica.

A escola precisa refletir o que a mídia faz na sala de aula, abrir-se para recebê-la, criar espaço para a conversa, para o diálogo, fortalecendo o espírito crítico. Deve enfrentar a mídia, não com a falsa ilusão de vencê-la, mas de entendê-la, de enriquecer-se com ela. É como se diz: “Se não vencê-los, junte-se a eles”.

Hoje, a leitura do conhecimento é uma rede. A escola é só mais um espaço, não é mais propriamente o lugar da informação, mas o lugar do que fazer da informação, que mediação o professor pode ter. Refletir, por exemplo, como é que se cria, como é que se relaciona, como é que se analisa. No fundo, o professor precisa ser capaz de gerenciar uma sociedade de conhecimento. Escola, cada vez mais, está tendo papel mais educativo que informativo.

A sociedade tecnológica força a mudança do papel da escola. As universidades não são mais vistas como locais de instrução definitiva. Na sociedade tradicional, a escola era o lugar privilegiado do saber, a instituição responsável pela

transmissão social e cultural.  O  professor  era  a  principal  fonte  de onde  emanava  todo  o  conhecimento  que as novas  gerações precisavam adquirir.  Ele  era considerado como um “capital profissional”, como um “capital de sabe-

res”. A passagem do saber do mestre aos discípulos dava-se num processo de comunicação unidirecional, o velho “magister dixit” ( o professor fala e os alunos escutam). A transmissão era basicamente oral e o que interessava era a reprodução fiel do texto. A memória humana era usada pedagogicamente para a repetição exata. Os próprios professores foram formados nesse tipo de ensino, tudo textual, sem imagens, sem cores, sem sons, sem movimentos, bem

diferente do que a TV, o videocassete, o videogame e outros, produzem no comportamento das crianças, dos jovens e dos adultos de hoje. Somos da geração alfabética, da aprendizagem por meio do texto escrito, da leitura do livro. Valorizamos apenas um segmento do conhecimento: a palavra oral ou escrita, deixamos de lado a leitura das imagens, dos sons, dos movimentos. Os alunos de hoje aprendem em variadas situações, o mundo deles é polifônico e policrônico. Suas formas de raciocínio não são mais lineares: introdução, desenvolvimento e conclusão, mas envolvem aspectos globais, o físico, o afetivo, o cognitivo, o intuitivo. Comportamentos de aprendizagem mais abrangentes, diferente da lógica racional que prevalece, ainda, na aprendizagem escolar. A escola continua a mesma, não está fácil a ela abraçar essa fase de transição entre a concretude do texto impresso e a pluralidade do texto eletrônico.

A escola precisa aproveitar a riqueza dos recursos externos, não para reproduzi-los em sala de aula, mas para orientar as discussões, preencher as lacunas. A proposta é de que, ao lado dos aspectos de memorização, verbalização e reprodução, que continuam existindo na docência, sejam abertos espaços para o envolvimento integral do aluno, que a aprendizagem envolva o racional e o emocional, a análise lógica ao lado do imaginário, da inventividade, da imagem e do som. Que professor e aluno reflitam juntos sobre a criação, sobre como enfrentar os desafios.

A escola deve levar a TV para a sala de aula e junto com os alunos fazer uma leitura crítica da programação. Esta pode ser uma das principais armas para enfrentar esse poderoso meio de comunicação.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2000)

A FORMAÇÃO DO NOVO CURRÍCULO

Izabel Sadalla Grispino *

Fui solicitada a escrever sobre a formação do novo currículo do Ensino Fundamental e Médio.

A nova concepção de currículo traz uma nova concepção de escola, requerendo mudanças profundas nas metodologias de ensino. A velocidade das inovações, trazidas pela época presente, faz com que a escola aplique o conhecimento em situações do cotidiano, articulando teoria e prática no ensino de cada disciplina. Com o acesso às informações – mesmo as mais sofisticadas estão disponíveis na internet – o papel do professor mudou radicalmente. Sua função essencial agora é a de “desafiar o aluno para que ele consiga hierarquizar e organizar de forma crítica as informações às quais tem acesso”, palavras do ministro Paulo de Souza.

Tomaremos o termo currículo no seu sentido restrito, da relação de conteúdos e da forma como são tratados – currículo pleno é a escola toda em funcionamento. A escola, de todos os níveis, passa por significativas mudanças, que incluem, prioritariamente, alterações da estrutura curricular de todos os seus cursos. O conceito de currículo mudou; tem como maior característica a flexibilização, À rigidez dos currículos engessados, surgem os currículos flexíveis diversificados.

O currículo de todos os níveis de ensino terá uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com “as características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB).

A reforma regulamentou o dispositivo da LDB, que aumentou de 180 para 200 dias o número de dias letivos no sistema de ensino do País, com a exigência de 800 horas por ano. “A jornada escolar do ensino fundamental incluirá, pelo menos, 4 horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola”. Com esse acréscimo, a carga horária mínima no ensino médio passou de 2.200 para 2.400 horas, divididas na base comum e na parte diversificada. O aluno terá que cumprir 75% da nova carga horária – 1.800 horas – com as disciplinas tradicionais, a base comum, e poderá escolher o enfoque dos 25% -- 600 horas – da parte diversificada. Cada estabelecimento de ensino poderá escolher, entre as disciplinas, 4 ou 5 opções para cumprir a parte diversificada. Poderá intensificar, nesta parte variada, a preparação para o vestibular ou a preparação para o mercado de trabalho ou aprofundar em áreas específicas, como arte, secretariado... O aluno, que optou por um módulo no 1.º ano, poderá mudar de idéia no 2.º, sem prejuízo das disciplinas cumpridas.

As escolas não recebem mais uma grade curricular básica para todo o País, com os nomes das disciplinas e número de horas. Recebem as diretrizes curriculares básicas – áreas do conhecimento – iguais para todo o território nacional, que darão as grandes linhas, para que cada escola elabore seu projeto pedagógico e que dirão quais as competências e habilidades que o aluno deve ter no final do curso. Compete à escola indicar os parâmetros do resultado que se espera do aluno no término do curso, uma vez que o MEC definirá, apenas, as habilidades e as competências a serem alcançadas.

No ensino médio, a heterogeneidade dos alunos, especialmente quanto à idade e classe social, vai criar, pela flexibilização,  muitos tipos de ensino na forma de organizar o currículo.

Não é mais o aluno se ajustando à escola, mas esta se adaptando para receber o aluno e motivá-lo a aprender.

As escolas incluirão no currículo as áreas do conhecimento,  mas  a  forma  de como serão aplicadas ficará por

conta dos sistemas de ensino. É a escola quem irá escolher a forma de organizar tanto a base comum quanto a parte diversificada.


A maior liberdade conferida à escola não vai dificultar o processo de transferência do aluno de uma escola para outra, porque ela será feita baseando-se nas competências e habilidades definidas nacionalmente e iguais para todas as escolas.

ENSINO FUNDAMENTAL – A Câmara de Ensino Básico determinou as diretrizes  a serem seguidas na formulação do currículo, indicou as áreas do conhecimento, já habituais – língua portuguesa, matemática, história, geografia, ciências naturais, artes e educação física e os temas transversais – que a escola deve considerar. As áreas de conhecimento tradicionais devem ser relacionadas aos “aspectos essenciais da vida do cidadão”, como ética, saúde, meio-ambiente, sexualidade, pluralidade cultural, vida familiar e social. A grande novidade no currículo do ensino fundamental é a inclusão desses novos temas, a serem trabalhados, associados às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental”, que dizem: “A escola deve abrir a oportunidade para que os alunos aprendam sobre temas normalmente excluídos e deve atuar propositalmente na formação de valores e atitudes”.

A LDB, nos artigos 26, 27 e 28 com seus parágrafos e  incisos, coloca a fundamentação para a elaboração dos currículos do ensino fundamental.

ENSINO MÉDIO – Quanto  ao seu currículo, a base nacional comum será organizada em torno de três grandes áreas do conhecimento, que nuclearão as disciplinas, então, isoladas: Linguagens e Códigos, Ciências da Natureza e Matemática, e Ciências Humanas, todas englobando as tecnologias de cada área. Os assuntos serão agrupados em disciplinas ou módulos e a dosagem das disciplinas, nessas áreas, será feita mediante avaliação das necessidades da clientela. Mais que informações, a base curricular comum, definida nas diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE), é caracterizada por competências cognitivas de caráter geral.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2002)

PROGRESSÃO CONTINUADA E PROMOÇÃO AUTOMÁTICA

Izabel Sadalla Grispino *

O sistema de “regime de progressão continuada” consiste na ampliação do ciclo básico que, desde 1984, era formado só de 1.ª e 2.ª séries. Passou em 1998, no Estado de São Paulo, para dois grandes ciclos no ensino fundamental: o de 1.ª à 4.ª série e o de 5.ª à 8.ª série.

O termo progressão continuada, num sentido amplo, aplica-se a toda educação, pois o ensino-aprendizagem precisa estar inserido numa progressão continuada de estudo. Sob o prisma da legislação, refere-se à formação de ciclos, num processo de conscientização de que o aluno não pode estacionar, tem que progredir continuadamente dentro de sua fase de desenvolvimento, de seu nível de conhecimento, de seu ritmo de aprendizagem, num processo de promoção automática, ou seja, a reprovação é substituída pela progressão continuada, em que os alunos são avaliados passo a passo, reportando-se a recuperações paralelas, reforço de estudos e, se necessário, à recuperação final, no período de férias.

A Secretaria Estadual da Educação, interpretando o artigo 24, em seu inciso II, alíneas a, b e c, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que criou a “reclassificação e a classificação”, resolveu dar chance de aprovação, tanto para alunos que obtiveram notas baixas o ano todo, quanto para os que não atingiram 75% de presença.

O inciso II diz: “A classificação em qualquer série ou etapa, exceto a primeira do ensino fundamental, pode ser feita:

  1. por promoção, para alunos que cursaram, com aproveitamento, a série ou fase anterior, na própria escola;
    1. por transferência, para candidatos procedentes de outra escola;
    2. Independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino”.

A reclassificação permite à escola avaliar e determinar a série de alunos oriundos de outras instituições e, mesmo, de outros países, sem levar em conta documentos escolares. A classificação permite a promoção avaliando conhecimentos, sem considerar a série cursada.

É uma visão avançada em educação, essencialmente democrática, mas é preciso cuidadoso critério, senso de propriedade para não resvalar no comum. Uma coisa é avaliar, ocasionalmente, um candidato que, por circunstâncias especiais de estudo, de trabalho ou de doença, se afastou da escola e com base no conhecimento apresentado, determinar-lhe a série; outra coisa é adotar critérios facilitadores de promoção a alunos que podem freqüentar regularmente uma classe e por displicência ou irresponsabilidade não cumprem o que cumprem os demais colegas. Achamos, sim, que o professor deva ser orientado no sentido de dar ao aluno as chances de recuperação, de acordo com o programado. Dar-lhe oportunidades diversas à sua aprendizagem, mas fazê-lo com limite e comedimento, reforçando, no caso, o aspecto formativo da conduta responsável.

Estamos na era do conhecimento, dele não podemos nos furtar. Como fica a formação do aluno nessa velocidade de aprovação? Que conseqüências histórico-culturais teremos dessa filosofia de aprovação? Será possível criar um trabalhador rápido, eficiente, adaptado à vida competitiva do mercado, através dessa filosofia?

PROMOÇÃO AUTOMÁTICA E QUALIDADE DE ENSINO – Hubert Alqueres, referendando a Secretaria da Educação de São Paulo, considera que “a performance do sistema pode ser aferida pelas taxas de reprovação e de evasão”, concluindo que as taxas estão caindo. Considera que as mudanças do sistema de aprovação, que as classes de recuperação, a reorganização do ensino – pela qual as escolas foram desmembradas, ficando as 1.ªs até as 4.ªs séries num estabelecimento, e as 5.ªs até as 8.ªs séries em outro – e a melhoria da infra-estrutura, criaram condições para que o aluno permanecesse na escola, não se evadisse.

Acreditamos na força dessas medidas, porém, não de maneira absoluta. Ademais, a diminuição da repetência não pode estar vinculada, simplesmente, ao processo de promoção automática, mesmo estando calcado em cuidadoso esquema de observação pedagógica contínua, ao longo do ano. Esta deve ser um primeiro estágio, uma medida paliativa, para que o aluno se recupere e adquira os conhecimentos mínimos necessários ao seu progresso.

Mas após um determinado tempo, a médio prazo, a escola precisa alcançar o objetivo de elevar o padrão de conhecimento, com vistas a um ensino de qualidade, a um ensino que garanta a aprendizagem num nível mais elevado.

Os alunos, realmente, precisam assimilar conhecimentos, ser trabalhados em suas capacidades mentais, precisam avançar, aprender e, ao chegar no final de um ciclo, devem estar embasados do conteúdo correspondente a este ciclo, não importando qual o processo utilizado, se recuperação, se promoção automática ou se, necessário, a repetência. É preciso que os próprios alunos estejam conscientes de que a qualidade de ensino é uma necessidade e que sem ela pouca ou nenhuma opção terão de se realizar.

Se a época exige qualificação, aumentar anos de escolaridade do povo brasileiro, na base de uma aprovação facilitada, é continuar desqualificando-o para a competição profissional. Costumam-se citar países de primeiro mundo, como dos Estados Unidos, da Europa, como Inglaterra, Alemanha e França, ou do Japão, onde não há reprovação nos primeiros oito anos de escolaridade, com sua formação de ciclos. Não se pode, entretanto, comparar a infra-estrutura educacional desses países, com sua cultura tradicional densa, com a do Brasil.

A TEORIA E A PRÁTICA EDUCATIVA – As normas adotadas oficialmente, os passos propostos pela reforma do ensino, devem passar pelo crivo do bom senso, da consciência que a prática educativa confere ao professor. É ele, o professor, o elemento abalizador da problemática educacional. Somente o professor é capaz de assinalar os eventuais descompassos entre o discurso e a realidade, entre as ações implementadas e suas reais condições de trabalho.

Se não aprimorarmos a formação do professor, se não melhorarmos suas condições de trabalho – classes superlotadas de 40 a 50 alunos – se não melhorarmos a qualidade de vida do professor, não nos iludamos, não sejamos mais realistas que o rei, vamos continuar trabalhando a favor das estatísticas e contra o próprio aluno, contra a própria sociedade tecnológica.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2000)

A INTRANQUILIDADE DAS ESCOLAS

Izabel Sadalla Grispino *

Como gostaríamos de passar notícias boas sobre a educação pública brasileira, diferentes das que vêm sendo veiculadas pela imprensa. Porém, diante da realidade, revelada por pesquisas sérias, seria procedimento ingênuo, ilusório.

Pode até existir exceções, mas no final, a escola acaba sendo envolvida, arrastada, pelo meio social no qual se insere. Dificilmente, a escola hoje se sente segura. Tem medo do entorno, da violência das ruas que entra nela e da própria violência que existe dentro dela: brigas, furtos, rebeldia, alunos que não aceitam repreensão, seja por notas ou por comportamento e provocam estragos. Alunos que se espelham em traficantes e assaltantes, considerando-os heróis “porque eles andam de golf enquanto nós andamos a pé”.

A realidade das grandes cidades entrou nas escolas. Uma recente pesquisa, janeiro de 2006, coordenada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), sobre a realidade das escolas, mostra que estudantes e professores vêem a escola pública como um local para se tomar cuidado.

A intranqüilidade toma conta da escola. Ela deixou de ser, de 10 anos para cá, um lugar seguro, como era no passado. Segundo a pesquisa, a percepção da violência começa nas pequenas coisas, como furtos. Os furtos são freqüentes nas escolas e o pior é que os estudantes já vêem a situação como natural: “Se pega é porque não tem, é só comprar outro”. O furto sendo visto com normalidade, fica difícil para os professores encararem essa situação. O ato permanece sem conseqüências, comumente a direção não toma providências, e leva a violência para além dos prejuízos materiais. A pesquisa assinala que quase 20% dos jovens dizem já ter batido em alguém, dentro da escola. Cinco por cento admitiram já ter apanhado.

Um outro aspecto da pesquisa foi notar a agressividade das meninas. Quase 10% delas dizem ter agredido alguém e 3% admitem ter apanhado. Geralmente, elas andam em grupos e agridem colegas que estão usando uma roupa diferente, um tênis da moda ou material escolar mais caro.

As meninas estão tendo reações típicas dos meninos, brigam por xingamentos ou por estar olhando feio uma para a outra. Nesse ambiente de confronto, a violência, às vezes, surge como uma maneira de aprender a se defender. A grande tarefa é melhorar o ambiente escolar.

Há, também, com muita freqüência, invasão, por pessoas de fora da escola. A pesquisa fala que em 55,8% das instituições pesquisadas houve invasões e em muitos casos o objetivo era bater em estudantes. O ambiente no entorno é pesado e colabora com a desordem. Há relatos de roubos, tiroteios e brigas perto das escolas.

Esse cenário de violência traz conseqüências de convivência, de relacionamento entre os alunos  e alunos e professores, dificultando a aprendizagem e até mesmo a permanência na escola. Alunos e professores sentem medo da criminalidade no ambiente escolar.

O clima de insegurança no pátio e na sala de aula arrefece o ensino-aprendizagem. A violência abala os fundamentos das práticas pedagógicas.

A conclusão da pesquisa é de triste situação. Diz a pesquisadora: “Vejo a escola profundamente infeliz, que não se consegue pensar, se relacionar com a juventude, que tem de ensinar. Sobre uma enorme frustração”.

Num ambiente como esse, marcado pela violência, pelo medo, como ressurgir para o desenvolvimento, ostentado pelas grandes nações? Como investir nessa direção? Como mudar as condições sociais que atingem educação e criminalidade?

Essas questões têm suscitado posicionamentos de educadores. Uma grande idéia vem surgindo, a do pertencimento. Levar o estudante a engajar-se em problemas sociais de sua comunidade, fazendo-o sentir um membro integrante dessa comunidade. Integrá-lo ao modo de vida do lugar onde vive, buscando melhorá-lo. Atrelando-se o estudante a compromissos sociais, é um valioso instrumento que vai refletir sua auto-estima, na sua identidade.

Esse é um dos encaminhamentos a que a escola deve postular. Incluir, ao conhecimento, o sentido de pertencimento, de abraçar os valores da comunidade, de melhorar o ambiente, o aluno enfincando raízes no seu passado. Não é educação só em escola, mas no meio em que vive o aluno.

Diz Gilberto Dimenstein que uma pessoa que não tem o senso de pertencimento pode aproximar-se com muito mais facilidade das drogas e está muito mais predispostas à utilização da violência, porque não tem nada a perder. Reforça o seu pensamento, dizendo: “As universidades precisam inserir os jovens rapidamente em estágios, em trabalhos comunitários, para que o estudante comece a lidar com a realidade”.

Sabemos que esse é um processo a médio e a longo prazo, mas é também uma grande possibilidade de redimir a juventude, de fazê-la sentir que, por detrás dela, há uma estrutura de vida, de família que ela precisa preservar. Essa propositura deve vir acompanhada de um policiamento sério, de um sério combate à violência, ao crime.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2006)

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO FAVORECENDO A INCLUSÃO

Izabel Sadalla Grispino *

A novela “América” abordou com propriedade e sensibilidade o tema do deficiente. Colocou como um dos protagonistas um deficiente visual, o “Jatobá”, um ser inteligente, que se supera a cada passo, servindo de exemplo e encorajamento na luta pela realização pessoal. Traz constantes inserções do programa do Dudu Braga, “É Preciso Saber Viver”, onde derruba preconceitos, entrevistando deficientes das diferentes áreas, pessoas dotadas de rico potencial e que encontraram ambiente de compreensão e ajuda no desenvolvimento de seus talentos.

A novela vem abrindo a mente, a aceitação, modificando a visão sobre os deficientes. Visitando escolas, conversando com professores, percebi um novo entusiasmo pelo ensino da educação especial.

Já escrevi vários artigos sobre a inclusão do deficiente no ensino regular. Contudo, esse novo olhar me leva a reforçar e a delinear os benefícios já adquiridos pelos portadores de deficiência, que devem nortear consciências e ser estendidos a mais pessoas.

O Brasil vem avançando quanto ao direito da escolaridade das crianças deficientes. A política oficial, já há algum tempo, desde 1996, prevê a inclusão dos portadores de deficiência, na rede regular de ensino. Em agosto de 2001, o então ministro da Educação Paulo Renato Souza, regulamentando a Lei de Diretrizes para a Educação Especial, assinou resolução pela qual as escolas públicas do País deveriam atender estudantes com necessidades especiais.

Essa foi, contudo, mais uma mudança, na estrutura do ensino, imposta a uma rede pública desaparelhada, despreparada para recebê-la. Não se pode esquecer que para se obter sucesso é preciso dar estrutura de aprendizagem, fazer uma inclusão responsável, para não comprometer o avanço dos alunos portadores de deficiência. É muito importante treinar os professores, capacita-los, produzir material de apoio, assim como adaptações de títulos didáticos para o sistema braile. As escolas devem possuir as chamadas salas de recurso equipadas, para facilitar a aprendizagem e possuir professor de braile.

No cumprimento das normas legais, é importante conhecer os seguintes procedimentos:

– A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, no seu art. 4.º, inciso III, definiu como dever do Estado a garantia de atendimento especializado gratuito aos educandos “com necessidades especiais, preferencialmente, na rede regular de ensino”. Sendo na rede regular de ensino, o educador deve receber a capacitação necessária para esse atendimento, lembrando que a política de inclusão exige um professor treinado, capacitado.

– A Lei 7.853, de 1989, obrigou o Estado a apoiar os portadores de deficiência em sua integração social. Leis e decretos definiram normas gerais e critérios básicos para o atendimento às pessoas deficientes. Criou-se, no Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência.

– Através do Decreto 3.956, de 2001, foi ratificada a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiências.

– A Câmara do Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação (Parecer 2/01) definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Especial e o Parecer 17/01 estendeu essas diretrizes para toda a Educação Básica.

– A Lei de n.º 8.213/91 prevê a obrigação de contratar deficientes e abrange empresas com mais de 100 empregados. As cotas variam de 1 a 5% do quadro de funcionários, de acordo com o tamanho das mesmas. Essa obrigação já tem mais de 10 anos, mas sua regulamentação só veio em 1999. Uma ação articulada, em 2004, da Delegacia Regional do Trabalho (DRT/SP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT), trouxe resultados consideráveis quanto ao aumento da contratação.

– Uma resolução de 2003, aprovada pela Assembléia Parlamentar do Conselho Europeu, que agrupa 44 países do continente, determinou que a linguagem dos sinais utilizada pelas pessoas surdas seja reconhecida oficialmente como idioma. O reconhecimento, feito através da inclusão dessa linguagem na Carta das Línguas Regionais e Minoritárias, dá-lhe status de “idioma sem nacionalidade”

O exemplo avança e no resto da Europa há a preocupação de introduzir a língua de gestos nas escolas. Na Irlanda, Reino Unido, França, Espanha, Grécia e Portugal, as autoridades de ensino adotaram programas para estimular professores a aprender a língua dos sinais e a promover a formação de intérpretes.

Esse comportamento deveria se estender a todos os continentes do planeta. As escolas deveriam abraçar, com entusiasmo, a aprendizagem da língua dos gestos, repassá-la aos seus alunos, introduzindo solidariedade e humanização no ambiente escolar.

Deve-se ter conhecimento dos procedimentos para poder aplicá-los. É preciso cumprir na prática o que essas leis determinam; caso contrário, fica no papel e não na realidade.

Que o entusiasmo do momento se fortifique, forme consciência conclusiva e que a escola inclusiva se torne portadora de esperança, de realizações, de concretizações de vida útil aos estudantes portadores de deficiência. Os Jogos Paraolímpicos reforçam o conceito de valorização ao aluno com necessidades especiais. Esses jogos têm demonstrado o quanto esses jovens são capazes, em termos de concentração, de raciocínio, de superação de si mesmo.

Dar apoio que necessita, observar o ritmo, as características de cada aluno, incentivá-lo à participação, são conceitos-chave para o desenvolvimento do potencial do aluno deficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2005)

ALFABETIZAÇÃO RUMO AO CONHECIMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

As crianças estão na escola, mas a maioria não consegue adquirir os conhecimentos básicos, indispensáveis à continuidade dos estudos e a uma vida digna, tanto em termos materiais quanto humanos.

A performance dos nossos alunos, nos testes nacionais e internacionais, nos atesta que não se pode medir a sua competência pelo número de anos que passam na escola. Comprova que não possuímos, em larga escala, uma educação de qualidade. Nossos alunos são mal alfabetizados, chegam ao final do ensino fundamental com uma leitura e uma escrita longe do desejável.

Hoje, entendemos a alfabetização como um processo bem mais amplo que a simples aquisição da leitura e da escrita. Ela deve ampliar no aluno sua visão de mundo, como queria Paulo Freire, ensiná-lo a interpretar os fatos que ocorrem no mundo, para melhor nele se situar. A alfabetização deve abranger igualmente, como todo ensino básico, a educação integral, nos seus aspectos cognitivo, afetivo, psicomotor. Deve educar para os valores essenciais da vida, desenvolver as capacidades e as habilidades, que são operações mentais capazes de levar o aluno a atingir o aprender a aprender.

Formar um aluno pensante, um leitor crítico, um produtor de texto, um aluno capaz de gerir suas próprias aprendizagens, de criar e recriar o conhecimento, faz parte do processo de alfabetização. Dizemos que o aluno está alfabetizado quando for capaz de interpretar e estabelecer relações criativas entre as diversas áreas do saber, capaz de resolver situações-problema relacionadas à sua vida. Esse indivíduo assim formado encontrará oportunidades reais no seio da sociedade para a sua realização pessoal e social.

Uma grande dificuldade em atingir um bom nível de ensino está em que o professor foi formado e ainda se forma pelo modelo da velha escola, que só ensina a transmitir informações. As faculdades, na grande maioria, continuam presas ao método tradicional, não preparam o futuro professor para transformar, para construir e reconstruir o conhecimento, para a contextualização do conteúdo, sua inter e multidisciplinaridade e não vêm dando indicação de que o professor esteja desenvolvendo, em si, essa competência.

Só a escola para o pensar desenvolve uma educação de qualidade. Há, ainda, outros aspectos, nessa linha de preocupações, a serem considerados, como os benefícios que o estudo da informática traz ao aluno. Ela estimula a pesquisa e incentiva a comunicação. A internet e os computadores ligados em rede abrem as portas do mundo para a educação. Mas, essas ferramentas se restringem, praticamente, às escolas particulares. As escolas públicas apresentam, nesse setor, poucas experiências.

A educação de qualidade para todos ainda é bastante limitada. As renomadas escolas particulares, colocando-se na vanguarda da educação globalizada, oferecem curso bilíngüe, isto é, curso em duas línguas: português e outro idioma, como inglês, espanhol, francês ou alemão. Aulas de matérias tradicionais são dadas nesse outro idioma, o que faz os alunos se familiarizarem com a língua nova. Nos corredores da escola, a maioria das placas indicativas – banheiro, sala de aula, diretoria – está escrita na língua estrangeira que a escola segue.

Crianças que aprendem inglês, por exemplo, aos 5 anos já falam com fluência essa língua. São crianças que se preparam para idiomas considerados universais, falados em algum lugar do planeta. Crianças com educação qualificada que podem prever um horizonte amplo, largas possibilidades de boas realizações.

O ensino deveria seguir por esse rumo e estender-se à grande população. Vivemos a sociedade do conhecimento, que tem nos avanços da ciência a chave do desenvolvimento do País. Vivemos num mundo altamente conectado, espalhando conhecimento a todos os continentes e conhecimento significa desenvolvimento, significa ciência aplicada ao mercado, com grande força impulsionadora do progresso.

Uma educação de alto nível é a arma eficiente para o desenvolvimento das civilizações, que, utilizando-se das inovações trazidas pela ciência, se sobrepujam e dominam suas épocas.

Como conseguir um alto padrão científico, tecnológico, sem uma consistente formação educacional? Na área do agronegócio, por exemplo, quanta renovação tecnológica trazida pela pesquisa aos produtores rurais.  A produtividade aumenta a cada ano, a qualidade do produto aprimora-se, apóia-se no mapeamento genético de espécies, na reprodução e clonagem animal.

A sociedade do conhecimento, com suas aplicações intensivas no cotidiano dos negócios, não pode mais esperar, sem grandes atrasos nos resultados, que o País, por falta de uma escola de qualidade, retarde ou anule essa alavanca do seu desenvolvimento global. Sérios compromissos governamentais à promoção de mudanças deveriam ser tomados, estabelecendo, se necessário, uma política de intervenção qualitativa no processo de ensino-aprendizagem das escolas públicas. Já surge a idéia da criação da Lei de Responsabilidade Educacional, apregoando o direito de recursos condicionados às melhorias de qualidade obtidas, partindo da fase de alfabetização, fase que é o alicerce de toda aprendizagem futura.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2005)

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A época atual tem sua atenção voltada para a sociedade. A desordem social, o alarmante desnível econômico, estão hoje, mais do que nunca, exigindo a necessidade de formar cidadãos conscientes. Uma comunidade consciente de seus direitos passa a agir na sociedade que, articulada, se mobiliza em direção à participação, à solidariedade, à inclusão. O indivíduo começa a entender que sua responsabilidade vai além do pessoal, do familiar, a ter consciência de que a sociedade não é compromisso só do governo e que todo cidadão é governo. A ter consciência de que sociedade é um organismo vivo, mutável, de desejo de realização, de auto-afirmação. A ter consciência da ajuda que necessita para se auto-realizar, criando recursos, meios, condições para isso e não, apenas, estender-lhe a mão, no sentido de filantropia, de paternalismo.

O indivíduo entende que a responsabilidade social deve se traduzir em crescimento para a cidade, em comunidades de sucesso. Entende que pode e deve agir na sociedade, dentro de seu universo, desenvolvendo o sentido de cidadania. Passa a viver no entendimento de que todos têm direitos, assim como têm deveres, igualdade de oportunidades, condenando regalias e privilégios.

O cidadão se forma desde que nasce. A criança, sentindo-se respeitada pelo adulto, tendo suas necessidades atendidas, vai adquirindo a noção de respeito e o respeito vai fazer parte de sua vida. Uma criança que vive, por exemplo, o drama de ter que se afastar da escola para trabalhar e poder comer, como vai entender democracia ou cidadania? Se gritar, apelar, não será ouvida e, não sendo ouvida, não ouvirá também, transgredirá. Essa criança que se vê anulada em seus direitos, em suas necessidades básicas, não entenderá de respeito.

Conceituar cidadania e não praticá-la é perder, para o aprendiz, o seu significado. São pelas atitudes dos adultos que as crianças passam a entender o conceito de justiça. Quando ouvidas, atendidas, vão se colocar na sociedade democraticamente, desenvolver a sociabilidade. É a experiência de vida quem vai lhe ditar a idéia de cidadania e, como reflexo dessa idéia, ela repetirá as atitudes, passando-as avante. O exemplo do adulto é fundamental. Se o adulto é respeitoso, solidário, a criança o terá como referência.

A chave da responsabilidade social está nos atos praticados pelos adultos; se esses atos passarem uma imagem favorável à prática do bem comum, do compromisso com o outro, essa imagem propagar-se-á, do mesmo modo o seu contrário. Além da ação consciente, o adulto deve aprender a ouvir, principalmente em contato com os jovens. Conversar, dialogar, formular normas conjuntamente, não impondo, mas conscientizando, para que esses jovens se sintam responsáveis por suas atitudes. O contato com o adulto determinará sua visão de mundo, seu relacionamento com a sociedade.

A escola contribui com a responsabilidade social, desenvolvendo a consciência crítica da realidade, a compreensão de que o interesse social é mais importante que o individual, a fazer o aluno ver a realização como fruto do esforço comum. Ela deve se tornar um espaço de realização, criar formas de intervenção social, despertando interesse por atividades sociais.

A adolescência é uma fase em que o jovem é idealista, tem necessidade de acreditar em alguma coisa, a fase em que quer mudar o mundo, quando abraça os ideais de liberdade e de igualdade em profundidade. É o momento de a escola canalizar essa energia para ações produtivas no seio da comunidade, montando projetos que o envolva nessas ações. O jovem na adolescência, como diz a psicologia, deixa de ser filho do casal para ser ele próprio e as instituições de ensino devem ser catalisadoras desse potencial juvenil.

Cidadania é reflexo, é vivência, cabe aos pais, aos educadores dar o exemplo no entendimento de que só existe cidadania praticando-a. Começa em casa, na escola, com a educação recebida e vai para a rua com a prática do respeito. Educar para agir com consciência todos os dias; cobrando deveres das autoridades, cuidando da cidade, respeitando as regras sociais. Assim, a criança compreenderá que nasceu para viver e não sobreviver, tendo seus direitos respeitados.

Um aspecto que fere a consciência e imprime fortemente o traço da injustiça social é o trabalho infantil. Crianças e adolescentes que trabalham freqüentam menos a escola. No passado, esse número foi maior, mas, mesmo assim, hoje ainda é grande. Há trabalhadores infantis nas áreas urbanas e rurais. Pesquisas têm mostrado que cerca de metade das crianças e adolescentes que estão trabalhando utiliza produtos químicos, máquinas e ferramentas, com riscos constantes de sofrer acidentes. Esta parcela é maior entre os trabalhadores do campo, que somam 43% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que têm alguma atividade.

Também, serviço doméstico, distância e falta de vagas são outros motivos que afastam crianças e jovens da escola. Segundo O IBGE, o nível de escolaridade, entre pessoas de 5 a 17 anos, cresce de acordo com a faixa do rendimento familiar. Em famílias que ganham até ½ salário mínimo, esta faixa ficou em 83,1%. Já em famílias com rendimento até 10 salários mínimos ou mais, o nível de escolaridade sobe para 97,9%.

A má distribuição de renda responde pela sofrida desigualdade social. Crianças que deveriam estar na escola ou brincando arcam, prematuramente, com a responsabilidade de sustentar-se e ajudar no sustento da família.

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos, a menos que seja na condição de aprendiz. São aprendizes os adolescentes que recebem formação técnico-profissional, que deve ser dada sem prejudicar o ensino regular. Os maiores de 14 anos que trabalham têm assegurado o seu estudo. Os aprendizes maiores de 14 anos devem receber direitos trabalhistas como os adultos. Nenhuma criança ou adolescente pode trabalhar à noite, nem realizar atividades perigosas ou em ambientes que sejam prejudiciais ao seu desenvolvimento. O Estatuto também garante o direito à educação: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, o direito de ser respeitado pelos educadores, o acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.

A realidade social é pesada, profundamente desigual. Entre nós, um terço da população vive na miséria. O pressuposto da cidadania é a igualdade de direitos e diante de tamanha desigualdade, para conquistá-la, haverá ainda muitas léguas a percorrer, muita estrada pela frente. Contudo, estaremos dando uma grande contribuição se educarmos a criança e o jovem dentro dos princípios de justiça, de ética, de solidariedade, se os ensinarmos a enfronhar-se nas causas sociais, aprendendo, na prática, o sentido de democracia e de cidadania.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2003)

SAÚDE ALIMENTAR E POSTURAL DO ALUNO

Izabel Sadalla Grispino *

A escola, de hoje, atua dentro de conceitos abrangentes, em benefício da educação integral do aluno, conceitos que vão além da simples transmissão do conhecimento. Ao lado do conceito “sujeito de direito”, assunto por mim abordado em um artigo anterior, ela trabalha o conceito de saúde alimentar. Preocupada com a saúde da criança, com problemas de obesidade, acarretando, já na infância, alta de colesterol, de triglicéride, provocando doenças cardíacas, renais, passa princípios de boa nutrição. Ensina alunos, pais, comunidade escolar, a importância de uma comida balanceada.

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A DIFÍCIL ARTE DE EDUCAR

Izabel Sadalla Grispino *

No meu artigo “A outra face da educação” abordei a crescente onda que se forma de crianças e jovens malcriados, em desencontro à boa educação. O grande mal-estar gerado leva os próprios jovens a solicitar o ensino da ética, da moral, nas escolas de ensino médio, segundo uma pesquisa realizada pela U.F.P.A.

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A COMPETITIVIDADE DOS MERCADOS GLOBAIS

Izabel Sadalla Grispino *

A sociedade, líderes empresariais, começam a se preocupar seriamente com a educação no Brasil. Buscam se comprometer com ações concretas para melhorar o ensino, especialmente em língua materna e matemática. Procuram criar para o problema da educação um envolvimento nacional, num desafio extraordinário.

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