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Artigos Educacionais

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EDUCAÇÃO INFANTIL, PRIORIDADE EDUCACIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

O Brasil é uma terra de contrastes; cresce desordenadamente. Frisante desigualdade entre o Sul, o Norte e o Nordeste, entre a opulência de poucos e a cruel, a extrema pobreza de muitos!

No Nordeste, a desnutrição infantil, largamente denunciada, alcança considerável parcela dessa população e vem gerando o nanismo. Crianças mal nutridas, sofrivelmente alimentadas, acabam degenerando-se, sucumbindo-se ou tornando-se nanicas. Perdas de vitaminas, na alimentação das primeiras idades, não se repõem jamais, dizem os especialistas do assunto. De nada adianta alimentá-las bem, depois dessa fase; o que se perdeu não se recupera mais. A criança atingida pelo nanismo está prejudicada de modo irreversível.

Transferindo-se essas perdas para a área educacional, do mesmo modo, a estimulação precoce perdida da primeira infância, desassistida da pedagogia, acarreta deficiências de aprendizagem, dificilmente superadas. O nosso País privilegia o ensino fundamental, e descuida-se da educação infantil, fase mais importante do desenvolvimento da criança, comprometendo o futuro de toda uma geração.  As vagas preenchidas nas creches e nas pré-escolas não são consideradas, pelo governo, para efeito de cálculo e repasse do Fundef (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental).

A ciência, em sua descoberta, mostrou que o cérebro é muito mais elástico do que se imaginava e tem sua capacidade definida nos primeiros anos de vida, fase em que a quantidade de sinapses (conexões neurais) depende de estímulos, do trato pedagógico recebido.

O cientista Carl Seagan, já falecido, pôs em xeque o modelo educacional adotado no Brasil pela negligência com que se atua, em relação às nossas crianças. Lançou, à reflexão, o desafio da necessidade da abrangência da educação infantil. Disse ele: “A principal revolução das primeiras décadas do novo século não estará no uso da informática, mas, sim, na educação das nossas crianças de muito pequena idade”.

No meu artigo sobre o exame vestibular eu dizia: O vestibular se constitui na última etapa de uma seleção que começou bem antes, na aprendizagem das primeiras letras. Seu afunilamento é preenchido por alunos que receberam a melhor educação, que freqüentaram a melhor escola. Ele é um termostato de todo o conhecimento adquirido anteriormente. Nesse contexto, escola particular tornou-se, praticamente, “pré-requisito” para se entrar em uma universidade pública e, esta a melhor do País -- a que oferece melhores empregos no mercado de trabalho – fica reservada aos ricos.

Essa discrepância vem de longa caminhada, quando poucos têm o privilégio de freqüentar o ensino infantil. É aí, nessa fase inicial de estimulação às primeiras aprendizagens, que se inicia a grande defasagem cultural das classes menos favorecidas. É aí, nessa faixa etária, que as crianças de famílias de baixa renda ficam, costumeiramente, de fora.  A ausência desse ensino, pelas crianças pobres, completa o ciclo da desigualdade escolar dessas crianças, futuros adultos, futuros concorrentes à marginalização profissional.

Felizmente, a educação desperta para a importância da pré-escola. Iniciar a aprendizagem formal de uma criança pelo ensino fundamental, pulando a pré-escola, é o mesmo que construir uma casa sem a consistência de um bom alicerce.

É preciso, pois, lutar pela educação infantil e pelo educador infantil, defendendo políticas públicas que priorizem esta etapa da educação. A nossa rede pública atende, hoje, apenas 9% da população  de zero a três anos nas creches e 48% das crianças de idade entre 4 a 6 anos, nas escolas de educação infantil.

A desatenção ao desenvolvimento integral das crianças na primeira infância responde pelas significativas taxas de evasão e repetência na escolaridade básica. As creches não se caracterizam mais como reservatório de crianças. Hoje, elas têm um conteúdo educacional, critérios curriculares, transformam o contato das crianças com os educadores em relações de aprendizado. Desenvolvem na criança os aspectos físicos, cognitivos, afetivos, éticos, as relações interpessoais e sociais.

A educação começa no berço e os primeiros anos têm peso fundamental para o resto da vida escolar. A educação que a pessoa teve no “período de molde” (de 1 a 7 anos) vai influenciar todo o seu comportamento futuro. O tratamento pedagógico de uma criança não é igual ao de um adolescente, que, por sua vez, é diferente do de um adulto.

A criança precisa ser atendida nos próprios interesses, sem imposição, para que libere o seu potencial, desenvolva a auto-educação, a autonomia na aprendizagem. Com a educação infantil, iniciam-se as fases específicas do desenvolvimento mental, que começam com a mais tenra idade e vão até a adolescência. Aos 14 anos, a criança está madura para raciocinar hipoteticamente – fase operatória formal ou hipotética – quando se completa, segundo Jean Piaget, o processo intelectual da criança.

Ao deixar de freqüentar a pré-escola, a criança perde, em estimulação e correspondente aprendizagem, as fases: sensório-motor (ou motora), pré-operatória e a iniciante operatória concreta,  produzindo  considerável  lacuna no desenvolvimento de sua inteligência e de sua formação integral.

A criança é um ser que interage com a realidade, formando, nessa interação, suas estruturas mentais e, se conduzida pedagogicamente, terá um desenvolvimento bem mais significativo. O potencial da criança está relacionado à estimulação ambiental e o encontro desses dois fatores realiza-se na pré-escola,  conferindo a esta um papel primordial.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em julho/2001)

A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

EXAME NACIONAL DE CURSOS, O “PROVÃO”

Izabel  Sadalla Grispino *

Fui solicitada, por estudantes universitários, a escrever sobre o Exame Nacional de Cursos (ENC), o chamado “Provão”. Os estudantes queriam saber o porquê do Provão e qual sua real finalidade. Já discorri, anteriormente, sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando, então, abordei, de passagem, o Exame Nacional de Cursos, o “Provão”: “O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é totalmente diferente do Exame Nacional de Cursos, o “Provão”. O “Provão” não dá conseqüências individuais, é feito para avaliar o curso superior. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as conseqüências são individuais, possibilita o acesso ao ensino superior, embora não dê direito garantido como dá, por exemplo, o vestibular. Vai depender do critério adotado pela escola”.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, foi instituído pelo MEC, em 1996, com a finalidade de avaliar, através do desempenho do aluno, a qualidade de ensino das instituições de nível superior. Esse exame tem como função principal induzir a qualidade de ensino dos cursos de graduação. É uma prova aplicada todos os anos nos alunos que estão concluindo o curso de graduação. O exame mede as habilidades e as competências adquiridas pelo aluno durante o curso. O aluno é obrigado a fazer a prova, sob pena de não receber o diploma de conclusão de curso. As comissões que elaboram os exames definem os objetivos, o perfil ideal do graduando, as habilidades exigidas ao longo do curso e os conteúdos que o estudante precisa dominar ao fim da graduação.

O “Provão” visa preparar uma prova abrangente, que verifique mais a capacidade do aluno, desenvolvida no período de formação, o raciocínio, que os conteúdos memorizados, ou as fórmulas decoradas. O que se busca não são as especificidades, mas a formação geral, os conhecimentos e as habilidades fundamentais. Não se restringe ao conhecimento, quer avaliar também a capacidade de o aluno aplicar o que aprendeu.

O “Provão”  está preocupado com a formação acadêmica, com a qualidade dos cursos de graduação. O que se constata é que, freqüentemente, se colocam os profissionais mais inexperientes na graduação, diz o MEC. Os exames devem refletir o que a comunidade acadêmica pensa sobre a formação profissional na graduação.

Além da prova, o formando responderá um questionário-pesquisa sobre o perfil socioeconômico, através do qual é possível saber a avaliação que ele faz do próprio curso. O questionário é uma espécie de levantamento de opinião; traz a opinião do aluno, que se reverte numa informação importante, porque, “quando 60% dos alunos dizem que tal curso é fraco, quem vai planejar o curso terá de levar em consideração esse dado. A opinião dos alunos é um instrumento de análise”, reforça o ministro da Educação.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, tem por objetivo complementar as avaliações mais abrangentes das instituições e dos cursos de ensino superior – como análise do corpo docente e da infra-estrutura – visando a melhoria dos cursos de graduação. Ele é parte do processo de avaliação das instituições. Outros itens compõem a avaliação: grau de titulação – especialização, mestrado, doutorado – nível de dedicação dos professores, volume de publicações, adequação dos métodos pedagógicos, nível de proximidade com o mercado de trabalho, qualidade de laboratórios, bibliotecas e correlatos. São, portanto, três aspectos de universo pesquisado: qualificação do corpo docente, organização didático-pedagógica e instalações.

Considera-se que mais importante do que os resultados das provas, no entanto, serão os efeitos do “Provão” sobre as faculdades. Haverá, sem dúvida, um espaço maior em direção à qualidade da aprendizagem. O ensino superior só tem a ganhar com as avaliações. Elas promovem uma salutar concorrência entre as instituições e possibilitam, inclusive, identificar cursos conhecidos como “fábricas de diplomas”.

Os resultados acumulados em 5 anos de Exame Nacional de Cursos (ENC) serão fundamentais para o recredenciamento das instituições universitárias, pelo Conselho Nacional de Educação. Serão credenciadas a cada 5 anos como universidades, centros universitários, faculdades integradas, faculdades, instituições superiores ou escolas superiores. Se por 3 anos consecutivos esses cursos tiverem conceitos D ou E e se o MEC verificar que as providências não foram tomadas, elas podem ser descredenciadas. Em contrapartida, as faculdades que tiverem bons resultados consecutivos poderão obter a concessão para abertura de vagas e criação de novos cursos.

O MEC publicou portaria vinculando os resultados do “Provão” a uma maior autonomia das universidades e centros universitários em criar cursos ou expandir suas redes. Com o objetivo de premiar a qualidade das instituições, as universidades e centros universitários, com 2 anos de conceitos A e B, na maioria dos indicadores de avaliação, podem abrir cursos de graduação fora de suas sedes, sem autorização prévia. Já instituições com conceito A, por 2 anos, podem ampliar seus cursos em até 3 municípios, dentro do estado no qual estão instaladas.

As instituições poderão sofrer um início de processo de fechamento dos cursos se revelarem, em seqüência, mau desempenho do “Provão”. Já há casos de cursos superiores que iniciam o processo de fechamento de cursos que já receberam os piores conceitos (D ou E) nas duas últimas edições do “Provão”. Caso obtenham um terceiro resultado negativo, serão submetidos a processo de renovação do reconhecimento pelo MEC, sob o risco de serem fechados. Se vierem a repetir o mau desempenho, serão visitados por comissões de especialistas para verificar a qualidade de ensino. Com base no relatório dessas comissões, o Conselho Nacional de Educação (CNE) decidirá se renova o reconhecimento dos cursos. Ser reconhecido é condição indispensável para a validade dos diplomas. Também são submetidos à renovação, com risco de fechamento, os cursos com conceito insuficiente em pelo menos 2 ou 3 itens da “Avaliação das Condições de Oferta” – em que especialistas visitam as instituições para analisar os professores, as instalações e os currículos.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, teve o mérito de colocar na pauta da discussão a qualidade dos cursos de graduação. Sinaliza, sem dúvida, política de melhoria do sistema. É forte argumento de mobilização dos universitários e de reflexão dos dirigentes escolares para a necessidade de mudanças, de atualização dos cursos, da qualidade do ensino.

*Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em junho/2000)

ACERTANDO OS PASSOS COM A MODERNIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona a novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, incluindo, aí, o aproveitamento das vocações despertadas.

Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da sociedade, a incorporação de atitudes na linha da “parceria” “co-gestão”, “co-autoria”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”, “trabalho em equipe”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiências, conteúdos afins, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em “transmissão do conhecimento”, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em “construção do conhecimento”, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor-aluno; o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber erudito e em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis.

Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão.

Várias são as possibilidades de participação. A escola, ao lado da participação intrínseca – características de vida, de conduta, condições socioeconômicas – há a extrínseca: as comemorações cívicas ou sociais, eventos preestabelecidos, apresentações em acontecimentos de importância – e da comunidade para a escola, em datas oficiais – plano escolar, reuniões de pais e mestres, reuniões do Conselho de série/classe, eventual formação de colegiado. Participa, ainda, de exposições, encontros literários, artísticos, campanhas, das já tradicionais festas juninas, mutirões... numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só se chamava o pai para reclamar do filho, por alguma falta cometida.

Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé...

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno.

Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

A parceria propicia o exercício da cidadania, abre a escola para a crítica, permitindo participação consciente, tomada de decisão co-responsável, maior engajamento de todos. Culmina com uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam experiências e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em agosto/2005)

PRÓS E CONTRAS A RESPEITO DA INFORMÁTICA EDUCACIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

 

Temos nos artigos anteriores falado sobre novas tecnologias aplicadas ao ensino-aprendizagem. A tendência de informatizar o ensino, desde os primeiros passos, vem crescendo na metodologia escolar. Crianças que aprendem a ler e a fazer as primeiras contas com o apoio de softwares educativos e, já na fase inicial do ensino fundamental, preparam trabalhos pesquisando na internet. Essas crianças estudam e divertem-se e dizem gostar mais dos computadores que dos livros.

Contudo, há pedagogos e professores que discutem o uso da informática para crianças das primeiras séries. Tentam avaliar o uso do computador nessa fase de ensino para saber se ajuda ou não a aprendizagem. Alguns afirmam, categoricamente, que não ajudam, como a pesquisadora da educação, a canadense Alison Armstrong, que esteve na cidade de São Paulo, no início de maio deste ano, na abertura do IX Congresso Internacional de Educação.

Ela é autora do livro “A criança e a máquina” – como os computadores colocam a formação de nossos filhos em risco. Diz: “Não há nenhuma pesquisa que indique concretamente que a informática aplicada nas primeiras séries ajuda no rendimento das crianças”. “O que há é muita propaganda das empresas de informática, muito entusiasmo por parte de pais e professores, muito dinheiro empregado, mas nenhum dado científico respaldando esse esforço”, arremata ela. Alison cita uma pesquisa feita pelo Educational Testing Service, de New Jersey, que analisou dados de um levantamento nacional sobre o desenvolvimento educacional em matemática nos EUA e que chegou à conclusão de que o uso freqüente de computadores leva a um efeito negativo nas notas da matéria dos alunos que cursam até o equivalente à 3.ª série. Acrescentou: “No Canadá, a mais famosa experiência de informática na educação não conseguiu tampouco levantar evidências de que os computadores melhoram a educação das crianças pequenas”.

Há outros pronunciamentos dizendo que só se podem medir os efeitos, no rendimento dos alunos com acesso aos computadores nas escolas, após um prazo de 6 ou 7 anos. Mas, uma grande maioria é adepta à informatização precoce. A doutora em Educação Andrea Cecília Ramal defende o uso da informática antes mesmo da fase de alfabetização. É autora do livro “Educação na Cibercultura” – Hipertextualidade, Leitura, Escrita e Aprendizagem. Cito algumas de suas frases: “Um dos elementos de ouro da internet para a educação é o hipertexto. O texto linear tem uma estrutura, já é pré-definidio, enquanto que no hipertexto as crianças definem os seus próprios caminhos e fazem conexões como diversos assuntos”. “Há programas para crianças de 5 anos, que as ajudam a fazer relações mentais e cognitivas, que normalmente só fariam mais tarde, quando estivessem alfabetizadas”. “A geração da cibercultura vem absorvendo, com a internet, um novo paradigma mental, que no futuro fará, dessas crianças, adultos com maior capacidade de aprender por si mesmas e de participar”.

Não está sendo fácil conduzir o professor a essas inovações. Uma pesquisa da Apple Computer concluiu que os professores levam de 5 a 6 anos para mudar seus métodos de trabalho, até conseguirem usar o computador de forma a beneficiar os alunos. Professores, porém, que já se adaptaram à máquina, opinam favoravelmente ao seu uso, consideram mais fácil colocar na cabeça dos alunos questões de química, física ou matemática, fazendo simulações no computador. O computador facilita a aprendizagem, dizem eles. A escola aproveita o conhecimentos dos alunos em tecnologia – hoje, eles estão rodeados pela informática – envolvendo-os com mais interesse na aprendizagem das matérias. “Eles contam os minutos para ir ao laboratório de informática e ficam mais motivados”, constata a professora M. Cecília Olivieri, do Colégio Amália Franco.

Na verdade, as escolas, para se adequarem ao mercado de trabalho, estão investindo cada vez mais em tecnologia, aprimorando o aprendizado. A internet ajuda a criar ambientes de aprendizagem por meio da educação a distância e tem sido grande aliada nos trabalhos feitos em casa pelos alunos. As grandes escolas particulares já contam com laboratórios de informática.

Há quem ainda ache que o uso do computador e recursos multimídias levam o aluno para longe do livro, mas é quase unanimidade, por parte dos professores, de que o uso da tecnologia só tem a acrescentar e a facilitar o entendimento das disciplinas.

O questionamento sobre o uso do computador, nos primeiros anos escolares, leva escolas a não utilizarem, nas séries iniciais, a chamada informática educativa. Prioriza, para esse período, no projeto pedagógico, as relações humanas, uma aprendizagem mais aberta, mais de contato com os colegas e com os professores, na linha da canadense Alison Armstrong.

Escolas que definem seu projeto pedagógico, tendo o computador como suporte, precisam estar bem preparadas para que haja um bom uso da tecnologia. Isso vai exigir-lhe um grande investimento, manter um corpo docente bem informado, com domínio da máquina. Investimento em compras, em manutenção, em móveis ergonômicos e investimentos, de igual monta, em treinamento de professores.

Temos, hoje, empresas que atuam no desenvolvimento de programas de ensino, por meio da internet. Desenvolvem estudos em tecnologia, para facilitar o aprendizado nas escolas, preparando profissionais da educação para o uso da informática.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

FORMAÇÃO DE QUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Já há consenso da necessidade de uma formação de qualidade a ser dada ao professor. È bem clara a percepção de que é o professor o grande responsável pela aprendizagem do aluno. Está grandemente em suas mãos o resultado do rendimento escolar.

Aumentar o salário do professor é ponto significativo, mas só ele não resultará em melhoria da educação. Estudos mostram que o valor do salário isoladamente não tem nenhum impacto na aprendizagem dos alunos. Por si só, o salário do professor não melhora a qualidade da educação. A qualidade advém da qualidade dos docentes, do seu grau de conhecimento pedagógico e do domínio do conteúdo específico da área, em que atua.

Se tivéssemos parâmetros de formação de qualidade para as escolas de Pedagogia, não estaríamos assistindo a resultados desastrosos das avaliações sobre o nível de aprendizagem dos alunos. A qualidade da formação dos professores está, hoje, longe do desejável. Muitos docentes têm carência até dos conhecimentos básicos de suas próprias disciplinas.

As instituições de ensino superior, para os cursos de formação de professores, não podem, junto ao conhecimento pedagógico, deixar de reforçar o ensino do conteúdo das disciplinas específicas, que serão ministradas pelo professor. O aperfeiçoamento e atualização de conhecimentos devem ser continuados, tanto na área pedagógica, quanto na do conteúdo das disciplinas. Sem essa base de sustentação não há como exigir um ensino de qualidade.

Assim, nos avanços pedagógicos e nos avanços do conteúdo pode-se esperar um equilíbrio entre benefícios profissionais e rendimento escolar do aluno. Podemos presenciar um ensino conectado com o mercado de trabalho, com os movimentos sociais, criando projetos de desenvolvimento, em que a modernização de métodos atinja a evolução tecnológica.

O carro chefe de toda essa revolução está na competência profissional, assessorada pelas condições de trabalho. Em todos os ângulos, em que se avalia a qualidade de ensino, o eixo recai sobre o professor. Professores bem preparados e compromissados com a educação são os diferenciais.

Instituições acima da linha de qualidade aprimoram seus sistemas de avaliação. Nas melhores escolas há uma preferência por provas discursivas, em que o aluno precisa fazer uma análise do conteúdo e desenvolver um raciocínio, isso desde o ensino fundamental.

As escolas ruins, mal equipadas e com professores fracos, fazem muito pouco por seus alunos, acarretando-lhes a defasagem. Nos anos mais avançados da escolaridade, os alunos apegam-se à internet, como a maior fonte de informações para trabalhos escolares e num procedimento que não traduz passos pedagógicos consistentes, agravado pela ausência de acompanhamento docente, com resultados distorcidos.

A educação é um dos mais graves problemas do País. O professor precisa ser preparado para a sala de aula, preparado para utilizar práticas pedagógicas capazes de, por exemplo, transversalizar as disciplinas,  para contextualizar notícias recentes, ou aspectos importantes da vida do aluno, com o conteúdo das disciplinas e assim motivar melhor o aluno, incentivando-o ao estudo.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2007)

UNIVERSITÁRIOS ANALFABETOS FUNCIONAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Trabalhar bem a linguagem é requisito primordial para um bom desempenho em língua portuguesa e em todas as disciplinas do currículo. As avaliações do Sistema Nacional da Educação Básica (Saeb), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e tantas outras têm, sistematicamente, demonstrado o baixo rendimento escolar em português e em matemática.

Português é disciplina tronco, bifurca em todas as áreas do ensino. É indispensável para todas as demais disciplinas e o aluno do ensino médio, da escola pública, não raro, termina o curso com sérias dificuldades em concordância, em pontuação, coesão, falta de ligação entre as partes, tempos verbais. Dificuldade em colocar as idéias no papel, em usar um vocabulário apropriado ao texto, em entender o que lê. Esse aluno mostra incapacidade de concatenar idéias e de se expressar.

O nível de um grande número de alunos que chega à universidade particular é muito baixo, constatam as pesquisas. Diferentemente da universidade pública, a particular convive com vagas ociosas. A oferta é quase sempre maior que a procura e, assim, alunos bem mal preparados, que lêem e escrevem sofrivelmente, conseguem entrar.

Diante de tão baixo nível de ensino, algumas faculdades particulares oferecem aos alunos oficinas para melhorar a capacidade de ler e escrever. A má formação atinge, especialmente, os alunos da escola pública e é tão precária que constitui uma barreira à continuidade dos estudos. Os alunos não conseguem entender e interpretar os textos que precisam estudar, textos, aliás, que lêem muito mal.

As faculdades mantêm aulas obrigatórias de comunicação e expressão para melhorar as habilidades de leitura, interpretação e redação. Em algumas instituições, as aulas de reforço não se limitam ao português, embora as oficinas de texto sejam as mais procuradas. Todos colocam o eixo temático em português, com ênfase na leitura e entendimento de texto.

Essa mão estendida das faculdades é de ajuda mútua: para os alunos, que teriam grande dificuldade em continuar os estudos, e para as próprias instituições, que ficariam sem condições de elaborar com proveito o conhecimento e arriscadas a perder alunos, aumentando ainda mais suas vagas ociosas.

As faculdades oferecem um espaço gratuito, fora do horário de aulas, criado, unicamente, para possibilitar universitários a melhorar a capacidade de leitura e escrita e a não desanimar de estudar.

Não adianta universalizar o ensino se não se ensinar a criança a aprender. Essa iniciativa das universidades, de criar oficinas para as matérias do ensino básico, é louvável, mas uma ação paliativa, insuficiente à aquisição de um bom conhecimento, revelando uma política nacional falha no setor educacional. Política que não consegue articular diretrizes curriculares, resultados de avaliações, investimento e valorização de professores. Esses alunos são resultado de uma escola que não valoriza a leitura e constitui um problema que vem de longe. Educadores constatam que nos últimos 40 anos o desinteresse pela leitura tem crescido. Os jovens apegam-se à TV, ao computador e deixam a leitura de lado.

As dificuldades com a língua portuguesa, a falta de domínio revelada nos testes aplicados, nas diferentes avaliações oficiais,  são fruto da ausência de leitura. Quem lê desenvolve o raciocínio, amplia o vocabulário, o conhecimento, a visão de mundo, apropria-se de um modelo adequado para a escrita. A professora Neide L. de Rezende, da Universidade de São Paulo (USP), constatou que até os anos 60 a língua que se falava na escola era muito próxima da linguagem escrita. “Aprendia-se a gramática de uma língua que você conhecia e os jovens liam muito mais. Hoje, o aluno estuda a gramática de uma língua que ele praticamente desconhece”. Isso é reflexo da perda de qualidade do ensino, de suas condições adversas. O que ocorre é que muitos alunos terminam o ensino médio na condição de analfabetos funcionais e mesmo assim ingressam em uma universidade!

O atraso na educação é incompatível com a possibilidade de desenvolvimento econômico do País. Com esse atraso, o País terá dificuldades em sua força de trabalho, que será aumentada nos próximos anos. Faz-se necessário despertar a consciência nacional para o patrimônio político, econômico, social, que representa a língua portuguesa. Ela simboliza a identidade cultural do País. Fixa sua importância interna e externa.

No âmbito internacional, surge a idéia de o Brasil, com o apoio financeiro das Nações Unidas (ONU) e de empresas nacionais, ensinar português ao Timor Leste, a fim de resgatar a identidade dessa ilha asiática, conquistada pelos portugueses em 1701, ficando sob seu domínio até 1975. O Timor foi, na década de 70, invadido pela Indonésia, que o ocupou. Hoje, depois da independência, a maioria da população fala o dialeto tetum, apesar de o português ser, também, a língua oficial falada por apenas 20% da população. A ocupação da Indonésia durou até 1999 e fez surgir na ilha o indonésio e o dialeto chamado tetum

“A preservação da identidade do Timor passa pelo português e só Brasil e Portugal podem fazer isso”, disse o então representante do Itamaraty, Jadiel Ferreira de Oliveira. A intenção é levar estudantes da Universidade de São Paulo (USP) para ensinar português  no Timor Leste, estudantes dos últimos anos de cursos de Letras, Licenciatura ou Pedagogia.

Cito esse episódio para conscientizar os brasileiros da importância de se cuidar com esmero de sua língua, de preservá-la, dignificá-la. Sentir o quanto ela é representativa da identidade de uma nação, o quanto a define, a identifica, a caracteriza no âmbito nacional e internacional e o quanto ela é fator de promoção pessoal e profissional.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2004)

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DE 5.ª À 8.ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL

Izabel  Sadalla  Grispino *

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de 5.ª à 8.ª série do Ensino Fundamental, o MEC propõe, igualmente, a inserção de temas transversais, que devem merecer atenção especial no ensino das disciplinas tradicionais, como geografia, história e matemática. Insiste na estimulação do aprendizado crítico das disciplinas tradicionais. A matemática, por exemplo, deve ser ensinada com ênfase nas resoluções de problemas em sua aplicação prática, em lugar de cálculos abstratos. No ensino da língua estrangeira, deve-se dar ênfase à leitura sobre a escrita e a fala; em geografia, evitar a simples memorização de nomes e definições.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais de 5.ª à 8.ª série do Ensino Fundamental avançam na proposta “Pluralidade Cultural” e coloca como uma das principais novidades o fim do “mito da democracia racial”. Entendem os especialistas do MEC que se deve pôr fim a esse mito, porque “a noção de que o Brasil é uma democracia racial e o brasileiro, uma raça formada pela fusão do negro, do índio e do branco, deve ser condenada”.

Nesse tema, pluralidade cultural, o MEC investe em conceitos já tradicionais nas escolas, como o que ele chama de “mito da democracia racial”, a noção de “raças” e de homogeneidade cultural Brasileira. Diz que a fusão de raças, defendida até nos livros didáticos, encobriu as diferenças culturais no Brasil e serviu para subordinar algumas culturas. Isso impregnou-se nas próprias escolas, levando professores a atitudes de discriminação existentes na sociedade, quando atribuem a culpa, pelo mau desempenho de alunos, à origem racial ou social.

“Divulgou-se uma concepção de cultura uniforme, depreciando as diversas contribuições que compuseram e compõem a identidade nacional... A escola tem um papel fundamental no trabalho de mostrar aos alunos os diversos costumes e crenças das várias culturas e sua participação na formação histórica do País”. Para cumprir o princípio da igualdade de que fala a Constituição, a escola precisa “ter sensibilidade para a questão da diversidade cultural e ações decididas em relação aos problemas gerados pela injustiça social”, analisa o texto.

Nesta altura, não podemos deixar de lembrar Paulo Freire, quando diz que a escola precisa afastar o isolamento, ter mais conectividade, mais amor, mais verdade. O isolamento já está na sociedade e o que acontece com a sociedade acaba acontecendo com a escola. É preciso levar a escola para a vida. Ele se dizia “um menino conectivo”. Unia os pobres e não-pobres, os oprimidos e os não-oprimidos, comprometidos com os oprimidos. Dizia que “a gente tem que estar ensopado de vida, tem que estar encharcado de afetividade”. “Não sou um ser no mundo, sou um ser com o mundo”, apregoava Paulo Freire.

Os “Parâmetros Curriculares Nacionais” sofreram críticas por estar bem acima da capacidade de assimilação da maior parte dos professores. Por isso, o MEC se propôs a orientar o trabalha da Secretarias da Educação, instituições de formação de professores e editoras de livros didáticos.

O MEC tem-se pautado por estabelecer diretrizes que atinjam metas de qualidade. Essas metas perpassam, também os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio”, onde a preocupação com a educação plena, com o cotidiano e a realidade do aluno continuam. Propõem variar as formas de ensinar e desenvolver no aluno habilidades e competências relacionadas às suas necessidades do dia-a-dia.

Através do sistema nacional de avaliação, o MEC coletou, juntamente com outros quesitos, informações  para saber se a educação está formando cidadãos capazes, inseridos no mundo atual, isto é, se a escola está ministrando um ensino de qualidade. O resultado foi bastante desolador. O baixo aproveitamento e a queda do nível de aprendizagem aumentam à medida que as séries avançam e isso vem se confirmando desde as avaliações feitas a partir de 1990. Em alguns casos, menos de um aluno conseguia dominar os conteúdos mínimos da série em que estava.

Sobre o aspecto qualidade, constatou-se, por exemplo, que alunos da 4.ª e da 8.ª séries do 1.º grau e da última série do 2.º grau obtiveram sucesso em perguntas diretas, em textos elementares. A situação complicou-se quando foi preciso deduzir, analisar criticamente, relacionar, completar ou estabelecer significado. Não houve “interpretação e raciocínio”, revelou a análise do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) feita por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), chamados pelo MEC para avaliar o fraco desempenho dos alunos, constatado no último Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb).

Esta entidade sugeriu mudanças. A título de exemplo, citaremos as mudanças no ensino de português: “O modelo de ensino de português deve ir além dos livros didáticos, o aluno deve ter contato com textos diferenciados, desde os literários aos mais comuns, contato com jornais, revistas e até mesmo com manuais de instrução. Nos testes, os alunos mostraram dificuldade em consultar um índice de revista científica e em responder questões em que a resposta se encontrava dispersa em parágrafos anteriores.

Essas observações, sobre o que seria o ensino de qualidade, devem servir ao professor para repensar sua prática pedagógica, pois, quem não sabe procurar a informação em situação variada terá sérios problemas profissionais no futuro. Considerar que o mercado de trabalho está passando por transformações muito rápidas e a pesquisa abrangente permite uma ampliação de conhecimento que ajudará o aluno a adaptar-se às diferentes e inusitadas ocupações.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2000)

QUEM SALVARÁ NOSSAS ESCOLAS PÚBLICAS?

Izabel Sadalla Grispino *

A cada período letivo aumenta o abismo existente entre a escola particular e a escola pública. As boas universidades, em seus bancos escolares, tornam evidentes a discrepância e a sociedade, com sua peneira, vai premiando os melhores formados.

A distância, entre o bom e o mau ensino, abrange todos os aspectos educacionais: dos conteúdos, das atitudes, dos comportamentos. O bom ensino dá uma visão ampliada e sedimentada dos assuntos e torna as faculdades  mentais  bem mais desenvolvidas.

Como se isso não bastasse, a escola particular ganha em disparada no ensino da informática, onde na pública o fosso é profundo. Enquanto a rede particular se aprimora, avança em tecnologia, a pública inicia os inseguros primeiros passos. As escolas oficiais começam a receber os primeiros computadores para a criação de suas salas de informática. As particulares montam projetos, envolvendo novas tecnologias na educação e já contam com laboratórios especializados, aulas em 3D e CD-ROMs para os alunos complementarem os estudos em casa. Incluem, em suas apostilas de matérias, um CD-ROM, que lhes permite fazer os trabalhos, com as animações, vídeos e exercícios do CD.

Os próprios alunos da rede particular, que já utilizam computadores e softwares em suas casas, exigem o uso da tecnologia na escola. As escolas buscam adaptar-se à realidade digital, vivida pelos alunos, utilizando recursos de informática e engenharia.

As grandes escolas vêm criando o Laboratório Veicular de Estudos de Aceleração e Dinâmica, uma espécie de sala de aula móvel, que vai permitir que alunos e professores vivenciem experiências do estudo da física concreta, prática e sensorial. A física deixa de ser só teoria, algo abstrato para o aluno. Durante a experiência, o professor vai relatando o que os alunos estão vivenciando.

Além do laboratório, já utilizam a Aula do Futuro, um misto de cinema, sala de aula e simulador da realidade virtual. Como se estivesse assistindo a um filme, o aluno navega, por exemplo, pelas células na aula de biologia, tendo a impressão de estar dentro dela.

Que atalhos tomar para redimir nossas escolas públicas? Experiências auspiciosas, em países avançados, vêm surgindo do mundo empresarial privado.

A concepção de organização e de administração escolar vem mudando, evoluindo para o modelo empresarial. Vêm-se firmando critérios e conceitos diferentes na área educacional. Formam-se companhias que vendem instrução de boa qualidade a preços competitivos, com ações bem cotadas na bolsa. Administram com critério empresarial privado, revertendo situações tidas como bastante precárias.

Essas empresas oferecem benefícios aos acionistas, vendendo um serviço, a educação, e entrando num mercado em que vai competir com as melhores escolas ou as melhores universidades do País. A maior arma utilizada é a qualidade de ensino. Compatibilizam os objetivos gerais da educação com as peculiaridades individuais dos alunos, mantendo forte correlação entre o que se aprende na escola e o que a sociedade quer e exige. O ensino é ministrado por um corpo docente de nível e com modernos métodos pedagógicos.

Os procedimentos administrativos são iguais a qualquer empresa sujeita à concorrência. O professor que não corresponder, que não conseguir obter o rendimento esperado, é despedido. O mesmo acontece com o reitor ou com os decanos e, também, com os alunos repetentes, indisciplinados ou agitadores.

A escola-empresa ou a universidade-empresa primam pela boa formação do aluno, pela entrega ao mercado de trabalho de um profissional preparado, competente. Vem tendo resultados animadores,  demonstrando  que, na superação do desastre educacional, os métodos de gerenciamento de mercado, separando o Estado da gestão direta das escolas, são vistos como salvadores.

A mídia tem divulgado experiências educacionais que colocam esperança no apagado horizonte da nossa educação pública. Exemplo é dado pela companhia Edison Schools, de Nova York, que organiza e administra escolas públicas ou particulares, desde o jardim da infância até o 2.º grau. A fim de manter e melhorar ainda mais os níveis de ensino, a companhia aprimora o processo pedagógico, treina continuadamente os professores, atualiza o currículo, impõe ordem, disciplina e aumenta a duração das aulas.

As escolas são mantidas com o mesmo orçamento então destinado, pelo governo, às escolas oficiais, quando eram administradas pelo setor público. O valor das verbas, o custo, não se alteraram. A diferença vem na eficiência da utilização dos recursos. A escola-empresa compete com as boas escolas particulares e ainda ganha dinheiro para dividir com os acionistas.

Os resultados conhecidos revelam que “os alunos das escolas Edison estão entre os mais preparados do país. Onde antes eram escolas consideradas como depósitos de alunos repetentes e professores desmoralizados, hoje se erguem instituições limpas, eficientes, obcecadas pela busca de excelência”. As escolas da companhia Edison firmam-se, já são uma realidade, não mais um projeto experimental, que em 1995 começou como uma escola-piloto. Hoje, controla 113 escolas públicas com 57 mil alunos.

Para um maior entendimento do assunto, leia-se o livro: “La Nueva Universidad”, de Luis Bustamante Belaunde, onde ele diz: “Se uma universidade quiser estar à altura e responder aos desafios de hoje, deve parecer-se mais com as organizações empresariais de amanhã do que com os velhos padrões de ontem”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

A REPETÊNCIA ESCOLAR

Izabel  Sadalla Grispino *

O cenário da educação brasileira é sombrio, não só pela baixa qualidade do ensino, como pelo grande número de evasão e repetência dos alunos. Pobreza e métodos ineficazes de aprendizagem resultam em aluno fora da escola, levando com ele a escuridão e a eterna dependência. Sobre a América Latina, dados da Unesco de 1997 mostraram, entre nós, um elevado grau de repetência na 1.ª série do 1.º grau (54%), superando Colômbia (43,8%), Bolívia (38,4%), Peru (29%), Equador (28,2%) e Paraguai (27,6%). Também, o Brasil revelou um grande percentual de alunos que demoravam para concluir as quatro primeiras séries: 8,2 anos, em média, contra 6,5 anos no Peru, 6,3 anos no Paraguai, 6,2 anos na Colômbia e Equador e 4,8 anos na Bolívia.

O grau de repetência revela o grau de cultura dos diversos povos e o descaso que foi dado à educação nesses países, porque repetência também é resultado da conjuntura socioeconômica-cultural do país. No Brasil, além das causas inerentes a essa conjuntura, permanecia a arraigada cultura da repetência. No passado, ainda não muito distante, o melhor professor era aquele que mais reprovava, quando, hoje, sabemos que o que lhe faltava era um bom método didático-pedagógico, um trabalho mais apurado no seu senso de relacionamento interpessoal. A repetência não deixa de ser ponto negativo tanto para o aluno quanto para o professor. Ela revela deficiência estrutural, ocorre, principalmente, quando o aluno foi pouco estimulado, quando a escola não conseguiu ensiná-lo a aprender, a transformá-lo em estudante. A repetência é indicada em casos de imaturidade, quando a criança precisa de um tempo maior para compreender conceitos básicos. O ritmo em que o aluno aprende é importante na aquisição do conhecimento.

O princípio fundamental da educação é dar uma boa formação ao aluno, tanto no aspecto cognitivo, como no aspecto comportamental. A escola sempre discutiu a necessidade de se proporcionar ao aluno uma boa base, para que ele pudesse prosseguir estruturado em seus estudos. Esse critério de base continua, o que muda é o conceito da base, a maneira de adquiri-la. A base não se sustenta, como anteriormente se acreditava, pelo amontoado de conhecimento, adquirido pela teorização, pela memorização. Sustenta-se pelas vias de aquisição do conhecimento, ou seja, pelo desenvolvimento das competências cognitivas de caráter geral, levando o aluno a pensar, a criar, a criticar, a agir, a se tornar uma cabeça pensante. O que precisa mudar é a característica da aprendizagem; que ela seja prática, que dê ao aluno a oportunidade de elaborar, criando um verdadeiro processo de construção do conhecimento. O conhecimento teórico é apenas complementar, afinal, adquirimos conhecimento para intervir na realidade. No construtivismo, o professor leva o aluno a vivenciar as situações, a redescobrir o mundo pelo próprio esforço e iniciativa, a  redescobrir seus princípios, suas leis de funcionamento.

Entrosando-se no método construtivista, o aluno vai desenvolver habilidades, vai assimilar conceitos, e estes, no momento preciso, vão suprir, com vantagem, o conhecimento deixado para trás.

Junto à metodologia, propõe-se que a escola passe a cultivar a filosofia do sucesso, que abrace a idéia de que ela é lugar de inclusão e não de exclusão. Quer-se uma escola com o objetivo centrado na aprendizagem, não no ensino. Uma escola que encontre o caminho da aprendizagem, que trabalhe e considere as diferenças individuais, que estabeleça e respeite, na avaliação, os padrões de máximo e de mínimo, conforme o potencial de cada um. Abordagem esta, facilitada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que dá liberdade às escolas inovarem, para fazer o aluno aprender.

Várias metas foram traçadas pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo com a finalidade de evitar a repetência, quais sejam: o programa de aceleração da aprendizagem, destinado a alunos com defasagem idade/série, no qual o aluno cumpre o currículo de dois anos em um; o programa especial de férias, com aulas de recuperação que valem como oportunidade para o aluno passar de ano; o sistema de matrícula por dependência e a formação do ensino fundamental em ciclos, em que não há reprovação anual. O aluno só pode ser reprovado no fim de cada ciclo. A escola deve, ainda, oferecer ao aluno, durante o ano, um programa de recuperação continuada.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, em 1998, introduziu a progressão continuada no ensino fundamental, o sistema de ciclos, que praticamente extingue a repetência. Contudo, se a repetência diminuiu, o ensino piorou e muito.

“Os Parâmetros Curriculares Nacionais” (PCN), abordando conteúdos variados e atualizados, propondo, ao lado do currículo formal, o currículo oculto – em que se considera a realidade vivida pelo aluno – adotando práticas estimuladoras da aprendizagem, contribuem, quando bem aplicados, a reduzir as taxas de evasão e repetência. Estas medidas, contudo, embora salutares, são paliativas, visto que o fulcro da questão reside na deficiente formação docente e nas precárias condições em que o ensino se processa.

Se a escola vai contribuir com a democratização do ensino, lutar para manter em seu recinto alunos das mais diferentes camadas sociais, deve tornar-se mais significativa, programar aulas mais interessantes, conteúdos próximos do aluno.  Deve aprimorar seu sistema de avaliação, adotar uma concepção de educação e a partir dessa concepção formular seu projeto pedagógico e seu critério de avaliação. Se a avaliação tiver uma concepção democrática, ela jamais estabelecerá um padrão único, estabelecerá, ao lado dos objetivos desejáveis, os objetivos essenciais. Deve conceber uma avaliação que não se feche, uma avaliação aberta, ampla, onde criatividade, inventividade, intuição tenham sua apreciação considerada.

O professor tem uma função complexa, singular, interdisciplinar, contextualizada. Complexa, porque precisa, entre outras, ter sensibilidade para perceber e acolher as diferenças individuais. Trabalhar segundo o nível e o ritmo de cada aluno, respeitar sua potencialidade; desenvolver habilidades e atitudes à medida que os alunos se apropriam do conhecimento. Precisa estabelecer coerência entre a metodologia de ensino e o conteúdo programático. Singular, porque não há duas classes iguais, dois alunos iguais ou dois professores iguais, cada um com sua história única. Interdisciplinar, porque o conteúdo de sua disciplina tem que estar interligado ao conteúdo das demais disciplinas do currículo, colaborando com a formação geral do educando. Contextualizada, porque seu conteúdo deve estar relacionado aos contextos sociais, culturais. O professor deve atuar em consonância à sociedade, à comunidade, à família, à experiência de vida dos alunos.

Se na escola tradicional, o professor era caracterizado por palavras como: “escultor”, “piloto”, “espelho”, “jardineiro”, hoje é por “investigador”, “reflexivo”, “experimentador”, “construtor”.

Pense nisso, professor!

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em maio de 2001)

CRÉDITO EDUCATIVO PARA O UNIVERSITÁRIO

Izabel Sadalla Grispino *

Como o estudante deve orientar-se na busca do crédito educativo? Surgiu recentemente, cerca de um ano e meio, o financiamento privado do ensino superior. São créditos educativos oferecidos por empresas particulares, por intermédio da própria universidade. A pesquisa feita pela CM Consultoria, realizada em junho p.passado, com 86 universidades privadas revelou que os financiamentos privados estão previstos em 18% das instituições.

Os alunos cursam a faculdade e começam a pagar a dívida um ano após terem se formado, dividindo a prestação em muitos anos. A adesão a esse crédito educativo explica o aumento do número de vagas em faculdades particulares na última década, atraindo alunos com baixo poder aquisitivo. Ele tem combatido a inadimplência que, segundo o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino (Semesp), gira em torno de 25%.

Uma outra modalidade é o Financiamento Estudantil (Fies) do governo federal, que cobre até 70% das mensalidades de alunos carentes.

Cada financiamento tem suas regras, mas todos cobram juros mais altos do que os do Fies e mais baixos do que os bancários. O financiamento do governo cobra 9% ao ano, os privados trabalham com taxas que vão de 1,5 a 3,5% ao mês, e os bancos chegam a cobrar 2% ao mês, dependendo do tipo de crédito e da instituição. Todos exigem um fiador, além de bom rendimento escolar.

Se o aluno estiver com a documentação em dia, o financiamento é rápido, em duas semanas o contrato é assinado. Pelo Financiamento Estudantil (Fies) é preciso esperar abrir a concorrência para as vagas, provar a falta de recursos e aguardar o resultado da seleção.

Conhecer as opções de financiamento ajuda a esclarecer a situação. O aluno deve analisar a proposta, os valores, antes da contratação. Há a Ideal Invest, que cobre até 35% da mensalidade, com juros de 1,5% ao mês. Exige fiador e bom desempenho escolar.  A  dívida  pode  ser paga em até 8 anos. Para maiores informações sobre a Ideal Invest acessar: www.idealinvest.com.br

A Finvest, do grupo Unibanco, também oferece uma linha de crédito educativo para 10.000 clientes. O empréstimo pode ser usado para todos os níveis de ensino, do fundamental à pós-graduação. A dívida pode ser paga em até 3 anos, os juros vão de 2% a 3,9%. Acessar: www.finvest.com.br

O Siemesp criou o Centro Brasileiro de Desenvolvimento do Ensino Superior (Cebrade), cuja principal função é administrar bolsas de estudo restituíveis. Administra bolsas de 1% a 100% em diversas universidades cadastradas. Depois de um ano de formado, o beneficiado devolve esse dinheiro para a instituição, pelo preço da mensalidade na época em que ele for pagar.

O Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do governo federal. Financia até 70% da mensalidade, com juros fixos de 9% ao ano ou 0,75% ao mês. Exige bom desempenho escolar. A dívida pode ser paga em até uma vez e meia o tempo do financiamento. Para conseguir o financiamento do Fies, o estudante deve se inscrever e passar por seleção. O Fies exigia fiador, mas uma liminar da justiça suspendeu a obrigatoriedade. Segundo o coordenador do Fies, Leonel Cunha, o pagamento das fases de amortização é fundamental para que o Fies abra novas vagas a cada semestre. “O Fies depende do retorno dos financiamentos para poder financiar novos estudantes. Se cada estudante beneficiado tomar consciência de que o pagamento é que permite a entrada de outro jovem num curso superior e que, se cumprir pontualmente as fases de amortização, será mais fácil manter o Fies em bom funcionamento, com um risco menor de inadimplência”.

Para os estudantes que não podem pagar de forma alguma, o governo está propondo a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), que tem como objetivo a concessão de bolsas de estudo aos mais pobres sem a necessidade de reembolso. Mais informação sobre o ProUni está na pagina do MEC (www.mec.gov.br http://www.mec.gov.br/)

Antes de pegar um financiamento, aconselha-se o estudante a pedir uma simulação das parcelas que vai pagar e do total da dívida. Assim ficará sabendo se poderá arcar com o compromisso.

É grande o número de estudantes precisando de algum tipo de auxílio para cursar o ensino superior. Dar a este estudante a chance de freqüentar uma faculdade, de se auto-afirmar, eleva consideravelmente sua auto-estima. A má distribuição de renda, gerando contrastes sociais, é o que mais afeta a auto-estima de nossa população. Um estudo do Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, com base no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), analisou o desempenho de estudantes ricos e pobres, mostrando significativas vantagens ao estudante rico. O aluno rico que usa computador, internet, TV por assinatura alcançou média de 63 pontos numa escala de 0 a 100, enquanto o jovem pobre chegou apenas a 41 pontos. Bens culturais, uma boa situação socioeconômica, fortalecem e propiciam o desenvolvimento das potencialidades do educando.

A pior das constatações é de que a distância entre os alunos de famílias de alta renda e os de baixa renda tende a crescer. Os alunos pobres, necessitados de melhores condições de ensino, são os que menos recebem em termos de qualidade de escola.

Alertemo-nos, dando-nos as mãos – governo, empresas, associações e sociedade agindo juntos – para garantir um futuro mais promissor à classe menos favorecida.

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em outubro/2004)

CURSINHOS COMUNITÁRIOS

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando o assunto do artigo anterior, constatamos que escolas há que orientam os alunos para a participação voluntária. Muitas já incluem, em seus projetos pedagógicos, atividades de trabalho voluntário. Os exemplos começam a se multiplicar.

Alunos de escolas particulares de alto padrão estão se predispondo, com orientação, a oferecer ajuda, em diversas disciplinas, a alunos de escolas da rede oficial, com dificuldade de aprendizagem, ajudando a tirar dúvidas e a elevar o nível de conhecimento desses alunos. Eles integram a programação da escola contemplada, uma ou duas vezes por semana, em determinado período, participam de atividades extraclasses ou, então, a escola monta um horário especial para esse atendimento.

O entusiasmo atinge o emissor e o receptor: os alunos, com deficiência de aprendizagem, evoluem e os que ensinam fixam o conhecimento, adquirindo uma visão mais ampla do assunto.

Outras escolas incentivam os alunos à assistência hospitalar, às crianças doentes, internadas em hospitais. É o caso de adolescentes, de 16, 17 anos, geralmente do 3.º ano do ensino médio, que se dedicam, como voluntárias, a brincar com crianças – na maior parte carentes – internadas em hospitais, exercitando o amor ao próximo.

Utilizam-se de livros infantis, tintas, lápis de cor, teatrinhos de fantoches e outros. Contam histórias, pintam, desenham, encenam peças infantis, organizam jogos, sempre com a supervisão de um técnico em recreação. Trabalham atividades educativas e recreativas.

As crianças doentes sentem-se animadas com o ganho dessas parceiras para brincar. O ganho das adolescentes é de outra natureza: tornam-se pessoas mais solidárias, com sentimentos mais elevados, com um olhar voltado ao infortúnio humano. A presença delas, no hospital, contribui para a humanização do atendimento, diminuindo o impacto da internação da criança.

Os resultados, segundo consta, são surpreendentes. As crianças aceitam melhor o tratamento, curam-se mais depressa. Muitas choram quando recebem alta, por não querer se afastar das novas amiguinhas mais velhas.

Um outro grupo dedica-se ao atendimento de idosos. Os adolescentes buscam sentido nesse trabalho, ganham experiência, avançam para a maturidade emocional e engrossam a ação solidária da sociedade.

Na abrangência do trabalho voluntário, outras luzes vêm surgindo na educação, quais sejam, os cursinhos comunitários. Alunos da classe pobre, oriundos de escolas públicas de má qualidade, poucas chances têm de ingressar numa boa universidade. Ainda recentemente, esse dado foi comprovado, quando as universidades públicas de São Paulo anunciaram isenção da taxa do vestibular para alunos carentes, alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas e que pertencem a famílias de baixa renda.

As universidades decidiram sobre a isenção, “apesar de terem tido uma experiência considerada insatisfatória em 2000, quando nem todas as isenções foram utilizadas”. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aumentou o número de candidatos isentos de 4 mil para 5.528, embora, no ano passado, apenas 329 dos beneficiados passaram no seu vestibular. A USP também divulgou que os isentos não tiveram bom desempenho.

As barreiras desses alunos para atingir um nível razoável de conhecimento são grandes. Trazem defasagem de longa data, que vai, no tempo, se acumulando, e ainda não só não podem pagar um bom cursinho preparatório para o ingresso a uma boa universidade, como não têm base suficiente para absorver o conteúdo por ele ministrado.

Atuações inusitadas, criativas, altruístas, surgem na área educacional e vêm criando oportunidades de um ensino complementar de bom nível aos alunos. São os chamados cursinhos comunitários, uma rede alternativa de ensino, mantida por voluntários, que investe, especialmente, na auto-estima dos alunos. O Educafro, por exemplo, é uma rede que agrupa 64 cursinhos comunitários dirigida pelo frei David dos Santos, um fervoroso defensor do aluno necessitado.

Os cursinhos comunitários tentam equilibrar os desníveis educacionais das diferentes classes sociais, diminuir o abismo entre a educação do pobre e a do rico que concorrem ao vestibular. São uma nova opção à população estudantil de baixa renda. Em geral, surgem da própria comunidade, que se organiza e monta um núcleo, ou de grêmios estudantis, onde todos os funcionários são pagos.

Abrir um cursinho comunitário exige muita vontade e trabalho, pois todos os seus integrante são voluntários. A mensalidade equivale a 10% do salário mínimo, valor simbólico comparado aos grandes cursinhos. Esses cursinhos têm se revelado de grande utilidade e têm trazido resultados animadores, em termos de melhora da qualidade de ensino. Muitos alunos, hoje estudando em universidades, passaram por cursinhos comunitários. Torcemos para que o exemplo se prolifere.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em agosto/2001)

AO PROFESSOR E AO MÉDICO

Izabel Sadalla Grispino *

Reverenciamos o 15 e o 18 de Outubro, louvando o dia do Professor e o dia do Médico.

O professor é a estrela-guia da humanidade, o suporte da sociedade, a esperança de um mundo de luz. A desigualdade social tem nele o seu grande ponto de equilíbrio.

Nosso desejo é que o professor volte ao seu posto de respeito e consideração usufruído no passado. Nossa prece é que ele nunca abdique de sua função, nunca desanime da árdua luta no intrincado caminho do ensinar. Que o mundo não o perca de vista, que lhe dê chances de continuar semeando o saber, espalhando, com seus ensinamentos, a dádiva do trabalho realizador!

Do mesmo modo, queremos nos confraternizar, prestar nossa homenagem à valorosa classe médica.

O médico, em sua missão de curar, de aliviar o sofrimento, é um profissional insubstituível. Ele alcança as raias divinas, quando alia ciência e sentimento de humanidade, quando tem o dom de olhar o doente, antes de chegar à doença, curando-a mais profundamente.

Que Deus nunca lhe falte, lhe dê forças para enfrentar os duros embates do exercício da medicina.

Ao professor e ao médico, estandartes da vida humana, minha poesia abaixo:

MAGISTÉRIO E MEDICINA

Todas as profissões têm no magistério
Seu ponto de articulação,
Após os 1.ºs passos, segue os próprios critérios,
Cada uma cumprindo sua nobre missão.

Magistério é tronco em ramificações,
Sua estrada tem começo, mas não tem fim,
Sustenta a linha divisória das profissões,
É vibração que circula em anéis de marfim.

Magistério é educação, é saúde,
É astro que irradia com convicção,
Ensinamento, que vai do berço ao ataúde.

A educação tem no magistério a força, o caminho,
A saúde tem na medicina o sol, a lua,
Não haveria o amanhã, sem a união das duas!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2006)

COMPUTADOR E APRENDIZAGEM CRIATIVA

Izabel Sadalla Grispino *

A metodologia moderna alia criatividade e aprendizagem. Na educação infantil, as crianças constroem brinquedos, instrumentos criativos, que lhes possibilitam pensar, testar e aprender. Também, no ensino fundamental e médio, o caminho do aprender não deveria ser diferente. Estudantes não são ouvintes passivos, permanecendo inativos em sala de aula, quando o professor os sobrecarrega de dados e teorias.

O educador norte-americano Mitchel Reswick, que realiza pesquisas sobre aprendizagem, fala em “jardim da infância para toda a vida”. “As ciências da computação devem desenvolver materiais para que as crianças possam crescer, construir soluções criativas que envolvam as várias áreas do conhecimento”. Brinquedos vão adquirindo formas mais complexas, como pequenos robôs e engenhocas a serem montados e programados pelas crianças. O computador torna-se um grande aliado, uma nova ferramenta para este aprendizado criativo.

O propósito é aprender por toda a vida, pesquisando, movimentando-se, deixando de lado as atividades estanques. Criam-se atividades que se integram às diversas áreas do currículo, para se chegar a uma maior compreensão do assunto em questão. As crianças vão evoluindo no processo e descobrem soluções para problemas do dia-a-dia. O autor do estudo cita o caso de uma garota que criou um sistema para impedir o irmãozinho de mexer no seu diário, com uma câmara fotográfica acoplada à capa para flagrar o irmão toda vez que ele a abrisse.

A tecnologia tem de ser dada às crianças e jovens de modo que faça sentido para eles. O mais importante é que eles podem mudar os sistemas que criam. Eles devem criar de acordo com seus próprios interesses e necessidades e usar as novas tecnologias na busca de soluções de seus problemas. O aprendizado, através de projetos e experiências, deve levar em conta a sociedade reinante, que ultrapassa o sentido de sociedade de informação, evoluindo para o conceito de sociedade do conhecimento. No momento, busca-se evoluir para “sociedade criativa”. É preciso saber dar uso à informação. “As pessoas precisam continuar aprendendo a vida toda e dando soluções criativas para seus problemas e necessidades”, conclui o pesquisador.

A tecnologia, ao permitir simulações e construções simples, ajuda no processo de aprendizado. Porém, as escolas resistem às mudanças, pondo barreiras ao desenvolvimento de novas dinâmicas, criadas para o espaço escolar. Difundir novas idéias, fazer as escolas conhecê-las, é importante para que possam vingar. O trabalho de Mitchel Reswick fala em dificuldade em atingir as escolas, prevê que as mudanças serão lentas, mas que devem ocorrer com maior facilidade ao longo das próximas gerações. “As crianças de hoje é que estarão melhor preparadas para as mudanças sistêmicas”.

Vivemos o momento da inclusão digital maciça, de onde saem, entre outros, estudos da aplicação de novas tecnologias na educação. Através delas, pode-se melhorar e ampliar o aprendizado, usando-se músicas, esportes, laboratórios de ciências ou mesmo observando a natureza. Constata-se, em avaliações, que a aplicação de novas tecnologias faz a diferença na aprendizagem. Com o computador amplia-se a extensão do que se pode fazer e o mais importante, no uso de computadores para a aprendizagem, é a elaboração de projetos pelos alunos, a criação, processo pelo qual os alunos aprendem melhor. É preciso ajudar os alunos a usar as tecnologias de forma criativa e produtiva. Jogar games, tudo bem, mas não exagerar; promover, antes, experiências criativas, mudanças reais na educação.

Em plena era de alta tecnologia, muitas escolas, fazendo vistas grossas, simplesmente tentam ignorar essa tão indispensável forma de aprendizagem e comunicação. É surpreendente constatar que nossas crianças freqüentam ainda escolas nos moldes de nossos avós. Ainda não conhecem o professor virtual, não participam de experiências interativas, não conhecem o computador como ferramenta de ensino. O computador e a internet não abriram portas para essas crianças, às novas e infinitas possibilidades de aprender.

A internet pode, inclusive, servir de sistema de apoio para a continuação dos estudos, como os cursos a distância. A escola americana Calvert School, com tradição de ensino a distância, é popular entre crianças que vivem em barcos, circos, atletas olímpicos, esquimós e filhos de missionários. Envia todo o material de uma só vez, como apostilas, lápis e até cola, pois sabe da dificuldade de o aluno sair para comprar esses materiais. A metodologia é prática, ensina de uma forma empírica e estimula a criatividade dos alunos nos trabalhos. As crianças têm uma redação por dia para escrever e fazem as provas finais em países diferentes, onde quer que estejam no momento.

As novas tecnologias não só abrem melhores possibilidades de aprendizagem, tornam-se indispensáveis ao desenvolvimento criativo, reflexivo, participativo, como desembocam numa sociedade que marginaliza quem não tem o domínio da informática.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em abril/2004)

PEDIDO DE UMA CRIANÇA A SEUS PAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Um grande problema na educação dos filhos e dos alunos é saber como colocar limites. A rebeldia, quando não freada ou corrigida, provoca comportamento anti-social. A criança, que não está acostumada a ser contrariada, diante de pais permissivos, torna-se exigente. Quando quer uma coisa e não recebe na hora, faz pirraça, grita, chora, joga-se no chão.

Quem educa precisa encontrar o meio-termo, o equilíbrio, não ser autoritário e nem permissivo. Ceder quando achar razoável e repreender sempre que se fizer necessário.

Contudo, é importante conhecer aspectos que influenciam na reação infantil. Os pais não devem sobrecarregar as crianças de atividades, permitindo-lhes uma infância tranqüila. Crianças até os 5 ou 6 anos devem, principalmente, se divertir. Quando não têm muito tempo para brincar, não desenvolvem a criatividade e nem têm chance de ter iniciativa. A natação, por exemplo, é uma atividade importante, faz bem à saúde e é fator de integração social. Criança que sabe nadar não fica deslocada nos ambientes que freqüenta. A natação desenvolve reflexos e coordenação motora favoráveis a ela. As outras atividades, como balé, música, tênis, futebol, são aconselhadas quando a criança demonstra interesse, o que ocorre por volta dos 6 anos.

Esses aspectos da natureza infantil ajudam os pais, os educadores a se integrarem melhor no comportamento da criança. O que importa, acima de tudo, é manter uma atitude coerente e firmeza no ato negativo. Quando o não é dito, deve ser mantido.

Os filhos precisam ouvir o não. Mesmo que na hora fiquem aborrecidos,  não ficarão com traumas e nem frustrados por isso.  O que pode causar problemas no futuro é uma educação sem limites. A criança precisa aprender a lidar com limites e frustrações, eles fazem parte do seu desenvolvimento e devem ser ensinados com amor e carinho.

Os filhos devem ser criados para o mundo, por isso devem receber uma educação que os tornem capazes de enfrentar as vitórias e as decepções que virão pela frente.

A revista Viver Psicologia publicou uma análise interessante do comportamento infantil, de autor desconhecido, que vale à pena conferir.

“Pedido de uma criança a seus pais”

 

Não tenham medo de serem firmes comigo. Prefiro assim. Isto faz com que me sinta mais segura.

Não me estraguem. Sei que não devo ter tudo que quero. Só estou experimentando vocês.

Não deixem que eu adquira maus hábitos.

Não me corrijam com raiva e nem na presença de estranhos. Aprenderei muito mais se falarem com mais calma e em particular.

Não me protejam da conseqüência de meus erros.

Não levem muito a sério minhas pequenas dores. Necessito delas para obter a atenção que desejo.

Não sejam irritantes ao me corrigirem. Se assim fizerem, poderei fazer o contrário do que me pedem.

Não me façam promessas que não poderão cumprir depois. Lembrem-se que isto me deixará profundamente desapontada.

Não ponham à prova minha honestidade. Sou facilmente tentado a dizer mentiras.

Não me mostrem um Deus carrancudo e vingativo. Isto me afastará dele.

Não desconversem quando faço pergunta, senão eu procurarei nas ruas as respostas que não obtiver em casa.

Não se mostrem para mim como pessoas perfeitas e infalíveis. Ficarei extremamente chocado quando descobrir algum erro de vocês.

Não digam que meus temores são bobos, mas, sim, ajudem-me a compreendê-los.

Não digam que não conseguem me controlar. Eu julgarei que sou mais forte que vocês.

Não me tratem como uma pessoa sem personalidade. Lembrem-se que tenho o meu próprio modo de ser.

Não vivam me apontando os defeitos das pessoas que me cercam. Isto criará em mim desde cedo um espírito intolerante.

Não se esqueçam que gosto de experimentar as coisas por mim mesma. Não queiram me ensinar tudo.

Não desistam de ensinar o bem, mesmo que eu pareça não estar aprendendo.

No futuro, vocês verão em mim o fruto que plantaram.

*      *      *

Este tópico inspirou-me a poesia que transcrevo abaixo:

CRIANÇA

Criança, aurora que desponta para a vida,
Gotas de orvalho que suavizam a existência,
Inocência, no tempo, perdida,
Filete de sol, ancorando-se na humana competência.

A criança é o mundo de amanhã,
Tratá-la com carinho e com firmeza,
Prepará-la para uma sociedade cidadã
É conferir, aos futuros dias, força de nobreza.

Ela representa a essência da vida,
Não corromper seus valores inatos,
De princípios morais ser enriquecida,
Para, na transformação social, exercer seu grande mandato.

De sua formação depende o mundo de paz,
O equilíbrio ou o desequilíbrio social,
Ela é a primitiva semente que traz
O trigo abundante ou a planta letal.


Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2003)

SAÚDE ALIMENTAR E POSTURAL DO ALUNO

Izabel Sadalla Grispino *

A escola, de hoje, atua dentro de conceitos abrangentes, em benefício da educação integral do aluno, conceitos que vão além da simples transmissão do conhecimento. Ao lado do conceito “sujeito de direito”, assunto por mim abordado em um artigo anterior, ela trabalha o conceito de saúde alimentar. Preocupada com a saúde da criança, com problemas de obesidade, acarretando, já na infância, alta de colesterol, de triglicéride, provocando doenças cardíacas, renais, passa princípios de boa nutrição. Ensina alunos, pais, comunidade escolar, a importância de uma comida balanceada.

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A DIFÍCIL ARTE DE EDUCAR

Izabel Sadalla Grispino *

No meu artigo “A outra face da educação” abordei a crescente onda que se forma de crianças e jovens malcriados, em desencontro à boa educação. O grande mal-estar gerado leva os próprios jovens a solicitar o ensino da ética, da moral, nas escolas de ensino médio, segundo uma pesquisa realizada pela U.F.P.A.

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A COMPETITIVIDADE DOS MERCADOS GLOBAIS

Izabel Sadalla Grispino *

A sociedade, líderes empresariais, começam a se preocupar seriamente com a educação no Brasil. Buscam se comprometer com ações concretas para melhorar o ensino, especialmente em língua materna e matemática. Procuram criar para o problema da educação um envolvimento nacional, num desafio extraordinário.

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