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Artigos Educacionais

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MAIS UM ANO PARA O ENSINO MÉDIO

Izabel Sadalla Grispino *

Sem educação não há avanço social, não há igualdade de oportunidades; sem educação as diferenças de classe se acentuam. Para que a educação pública seja portadora de um certo equilíbrio social é preciso que os governos invistam corajosamente nela. Política educacional honesta não se faz com discurso e sim com verbas. A melhoria das condições de ensino, da formação profissional, do salário dos integrantes do magistério só se tornam perceptíveis quando se incrementa o financiamento da educação. Nessas condições, a escola consegue repensar seu papel social, seus métodos de trabalho e os conteúdos ensinados. Torna-se capaz de entender a necessidade de abandonar seu compromisso com os programas burocráticos e abraçar, de forma determinante, seu compromisso com o aprendizado dos alunos e, o importante, de todos os alunos.

Somente sob esse prisma, podemos, a médio e longo prazo, pensar em mais igualdade social, enfraquecendo o preconceito de classe, o preconceito, em relação às minorias, em relação à pobreza.

Um outro aspecto é o alijamento em que se deixa a criança pobre da educação infantil. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), com propriedade, inovou ao fazer da educação infantil parte do sistema educacional, considerando a educação infantil como um período importante na vida da criança, combatendo a idéia do assistencialismo que a marcou por longo tempo, desde a sua origem. Quer para a educação infantil uma educação de verdade, uma educação no sentido exato da palavra, favorecendo o aprendizado numa das fases mais decisivas do desenvolvimento intelectual das crianças.

Hoje, a educação infantil está assistida pela pedagogia, pela psicologia que mostram que os primeiros anos de atendimento são pré-requisitos para conquistas futuras, para a afirmação do conhecimento. A criança, na educação infantil, aprende de acordo com sua idade, suas aptidões e necessidades, dentro do que a época torna socialmente valorizado. A educação pública, para se tornar boa, tem desafios sérios a enfrentar. As avaliações da educação do País têm nos mostrado, reiteradas vezes, o quanto ela é deficitária e, até certo ponto, ineficaz. Manter o aluno na escola, sem que ele aprenda, introduzi-lo numa universidade sem estar bem preparado para cursá-la, é, no fundo, anular a esse aluno as condições justas para bem se colocar na sociedade. Não são os anos que ele passa na escola que vão atestar a sua capacidade, mas a qualidade desenvolvida nesses anos, a qualidade de seu ensino, o quanto de aproveitamento ele obteve em seus estudos.

A escola pública tal como se encontra é portadora de exclusão social. Os alunos de baixa renda, vítimas da falência do ensino público, do descaso com a educação, do desprestígio do magistério, não têm muito que escolher, que optar na sociedade. Estão sempre à margem dos melhores empregos, das melhores colocações.

Lendo o jornal de fins de fevereiro, deparo-me com uma proposta do MEC de ampliação do ensino médio de 3 para 4 anos. A justificativa é dar ao aluno uma alternativa para prepará-lo melhor. Pela proposta, mais um ano de estudo melhoraria sua formação e dar-lhe-ia mais condições de chegar ao mercado de trabalho ou à universidade. “Esses 3 anos não preparam para nada”, disse Antônio Ibañez Ruiz, secretário de Educação Média e Tecnologia.

Pelo projeto, as matérias do 4.º ano seriam escolhidas em função da opção do aluno. Cursar ou não o 4.º ano, também uma opção do aluno. As escolas ficariam obrigadas a oferecer a complementação a todos os que quiserem cursá-la. “Para os que quiserem entrar logo na universidade, haveria um aprofundamento das disciplinas específicas. Para os alunos interessados em ingressar em cursos de Educação Profissionalizante, o 4.º ano teria uma grade curricular mais específica. Para quem vai para o mercado de trabalho, logo de cara, sem ter uma especialização, o 4.º ano o prepararia melhor para ser um comerciante ou uma secretária”.

Pela lógica do projeto, nas escolas públicas, a oferta do 4.º ano deve ser obrigatória; as escolas particulares podem ficar isentas porque “o bom nível de ensino oferecido por elas faz com que o aluno não sinta a necessidade de uma série a mais”, completa Ibañez.

Na teoria, até parece uma boa idéia, mas na prática, nas condições em que se encontra o ensino público, um ano a mais na escola resolveria o problema ou apenas o arrastaria para mais um ano? Se “3 anos, segundo pronunciamento de Ibañez, não preparam para nada”, um ano, apenas, prepararia?

O que, realmente, está em jogo não é a quantidade de anos estipulada para o ensino médio, mesmo porque 3 anos foram considerados suficientes pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), para desenvolver no aluno competências e habilidades que lhe permitam ingressar no mercado de trabalho ou na universidade.

Um olhar aprofundado da questão nos leva ao enfoque da luta pela melhoria do ensino público em nosso País. Levar para o 4.º ano do curso o mesmo padrão de ensino dos anos anteriores significa, simplesmente, repetir a façanha da falência do ensino-aprendizagem.

O foco do problema é a melhoria da qualidade do ensino, não só do médio, mas da educação básica como um todo. O dinheiro que se vai investir nesse ano a mais seria preferível investi-lo no aprimoramento das ações do magistério, buscando, de todas as maneiras, reverter esse triste quadro da ineficiência do ensino oficial.

Se na escola particular, 3 anos de ensino médio são suficientes para dar ao aluno uma boa formação, por que não se investir nessa direção, qualificando o ensino público, equiparando-o ao privado?

Sempre a mesma saída, pelo lado mais cômodo, como foi a criação das cotas! É evidente que o despreparo do aluno é resultante da qualidade e não da quantidade!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2003)

CONTEÚDO SIGNIFICATIVO ATRAI O ALUNO

Izabel Sadalla Grispino *

Escola é uma instituição especial de inserção do ser humano, hoje vivendo uma sociedade complexa, de profundas modificações culturais, que espera pela educação encontrar o respaldo necessário à sua formação. Espera aprender como sujeito de um processo de conhecimento vivido em consonância com o ambiente que o cerca.

A escola precisa criar condições para o aluno se desenvolver com naturalidade e prazer. Precisa detectar as causas do insucesso do seu estudo. Avaliar conjuntamente a instituição, o processo de ensino e o comportamento docente e discente. Uma pesquisa feita pela Secretaria Estadual da Educação mostra que os alunos culpam bagunça por dificuldade no aprendizado. Dizem que não aprendem por culpa deles mesmos ou dos colegas. A pesquisa, que contou com 4,2 milhões de estudantes da rede estadual, mostrou que 61,4% deles culparam a indisciplina da sala de aula, a falta de interesse dos jovens, ou o desconhecimento de matérias de anos anteriores pela dificuldade de aprendizagem. O professor e a estrutura escolar são citados como problemas por apenas 20%.

Muitos alunos reclamaram do fato de a “direção não punir os bagunceiros”. Disseram ser uma boa solução “separar os que fazem bagunça dos interessados”. Uma outra observação recaiu sobre professores faltosos, que são substituídos por outros de disciplinas diferentes. Pela pesquisa, 35% dos alunos de 5.ª a 8.ª séries e 47% dos do ensino médio disseram ficar sem professores  em determinadas disciplinas. A substituição é feita por professores chamados eventuais que são orientados a trabalhar com temas transversais, como ética, cidadania, direitos humanos, meio ambiente e outros.

A pesquisa feita pela Secretaria Estadual da Educação, que traçou o perfil dos estudantes da rede estadual, foi respondida junto com o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) no ano de 2003. Ela mostra que 76% dos alunos da rede são de famílias das classes C e D e que 71% dos alunos já trabalharam ao chegar no fim do ensino médio. O Saresp não apontou diferenças de desempenho entre alunos trabalhadores e não trabalhadores

O perfil dos alunos da rede estadual de ensino revelado pela pesquisa mostrou especificamente que:

– 29,4% acham que indisciplina na sala de aula dificulta a aprendizagem;

– 27,6% culpam a falta de interesse dos alunos pelas dificuldades;

– 4,4% acham que o problema vem dos alunos que desconhecem a matéria de anos anteriores;

– 4,3% dos pais cursaram faculdades; e

– 38,6% dos alunos têm até 9 livros em casa.

O panorama da pesquisa revela dados que devem ser analisados e combatidos pela escola. Sabe-se que a falta de interesse dos alunos é resultado de um trabalho pedagógico que não atrai. Entra aí a formação do professor, capaz de desenvolver aulas mais dinâmicas e menos conteudistas. No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola) eu enfoco claramente esse problema nas págs. 27 e 28. “A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB)... põe ênfase na aprendizagem, no resultado do ensino e não propriamente no ensino. Queremos, hoje, uma escola que forme, que descubra potencialidades, que exercite talentos, na direção da criatividade, da criticidade. Uma escola que se afaste do conhecimento pronto e acabado, do enciclopedismo, que recrie a cultura junto com o aluno. A imposição cultural massifica, marginaliza.

Queremos formar a escola do cotidiano, da resolução dos problemas enfrentados pelos alunos, uma escola que sirva para o dia-a-dia. Não é bem o diário, mas a ligação do conhecimento com sua aplicação diária. A mudança pretendida é afastar-se de conteúdos desvinculados da realidade. Trabalha-se o momento, a época, mas, articula-se este presente com o passado e com o futuro. Articula-se o fato de hoje com a visão mais ampla que representa.

Busca-se um assunto que tenha ligação com a vida do aluno. Se o conteúdo for de seu interesse, ele passa a ter vínculo com a aprendizagem. Não se dissocia a sala de aula da vida prática do aluno. O currículo deve representar a cultura compartilhada, incluindo a informal, onde a leitura de jornais e revistas é parte integrante, onde as experiências vividas pelo aluno devem ser consideradas.

A escola é o lugar da cultura viva, do dia-a-dia do aluno. Deve contemplar o contexto sociocultural, trabalhar a metodologia socioconstrutivista, interativa, interdisciplinar, contextualizada. Um currículo com dois olhares: um interno e outro no mundo lá fora. A linha pedagógica do socioconstrutivismo quer formar cidadãos que saibam pensar, ouvir o outro e respeitar o diferente. A escola afasta-se da linha tradicional, conteudista, onde o processo do aprendizado acontece de fora para dentro, ou seja, pela transmissão do conhecimento, e encaminha-se para a pedagogia construtivista, considerada moderna, alfabetização sem cartilhas, que ensina a pensar, criar hipóteses e relacionar para chegar ao conhecimento. Utiliza-se do currículo, dos métodos de trabalho, das atividades, dos materiais, para ensinar o aluno a pensar, não para encher sua cabeça com informações. Exige não só mudanças metodológicas, mas, principalmente, reflexão contínua sobre o contexto cultural que cerca seus alunos.

Queremos uma escola que seja plural, inclusiva das diferentes classes sociais, das diferentes performances individuais, que discuta, que dialogue, que não seja evangelizadora. Uma escola que desenvolva a inteligência crítica, estimule a criatividade e o compromisso social”.

Para que a escola seja plural, para que acolha e mantenha em seu recinto a classe pobre, necessário se faz entender a pobreza, entender o que a pobreza acarreta de dificuldade, de falta de entusiasmo ao estudo e motivar esse aluno. A escola, debruçando-se sobre os desafios da difícil ascensão social, saberá colocar-se, democraticamente, na busca do equilíbrio e da eqüidade social.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2005)

ASSOCIAÇÃO DO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO

Izabel Sadalla Grispino *

Mensagens que ressoam. Comunicações que atingem os diferentes ângulos da alma humana e provocam reencontros afetivos. A vontade de contribuir, de abraçar, molham a terra e as sementinhas espalhadas começam a vicejar.

Após ter publicado, dias atrás, o artigo “O atendimento à criança autista”, recebi da cidade de Araraquara um telefonema do emérito educador Francisco da Silva Borba, ex-reitor da UNESP e atual professor de pós-graduação de lingüística da UNESP-Araraquara.

O ilustre professor externou um pronunciamento qualitativo sobre meus artigos, referendando plenamente os conceitos emitidos sobre o atendimento ao autista. Retratou sua vasta experiência profissional e pessoal sobre o assunto, sendo ele um dos fundadores da Associação de Atendimento Educacional Especializado (A.A.E.E.), em Araraquara, onde uma filha sua, autista, hoje com 30 anos de idade, recebe atendimento.A filha avançou muito no seu desenvolvimento, mas foi prejudicada, principalmente na fala, pelo atraso no atendimento inicial da síndrome.

Se hoje o atendimento ao autista é dificultado, pelo desconhecimento da síndrome e pela pouca disposição das instituições em oferecê-lo, imagine como não era há 30 anos atrás! No meu artigo eu dizia: “O importante é reconhecer o autista precocemente... A medicina mostra que o diagnóstico tardio é danoso. Quanto mais cedo se detectar o autismo melhor, de preferência no primeiro ano de vida, pelo menos, antes dos 3 anos, quando o tratamento produz resultados compensadores. A criança que começa a se tratar depois dos 5 anos tem um prognóstico diferente, aqueles que ainda não falam nessa idade, dificilmente desenvolverão a linguagem...”

Por essa e outras razões, foi deveras auspicioso tomar conhecimento de uma instituição de ensino de padrão, em Araraquara, facilitando e acolhendo, com rara competência, as crianças com necessidades especiais. Seu patrono, Francisco da Silva Borba, é uma grata referência sobre a qualidade da insigne Associação. “A A.A.E.E. é uma sociedade civil de caráter educativo e assistencial, fundada em 1992 por um grupo de pais de crianças e jovens excepcionais. Por não ter fins lucrativos, foi reconhecida como de utilidade pública, pelo decreto municipal n.º 6.713, de 21/10/1994. Seu objetivo básico é desenvolver programas de ajuda, adaptação, reabilitação, integração social, educacional e profissionalização de jovens excepcionais. Tais programas estarão a cargo de pessoal especializado, sendo tão completos e abrangentes quanto permitirem os recursos da Associação”.

Esses dados foram fornecidos pela entidade, que oferece programas de atendimento integrado: Psicopedagogia e Pedagogia; Fonoaudiologia; Fisioterapia e Educação Física Especial; Terapia Educacional.

Os que têm interesse sobre o assunto, os que necessitam de ajuda no atendimento aos filhos, a Associação atende igualmente crianças de toda classe social, seja abonada, seja carente, cada família paga de acordo com suas possibilidades. Visite-a e confira, você mesmo, a força educativa que os seus avantajados métodos produzem nas crianças portadoras de deficiência, crianças atendidas humanamente, por devotados e competentes profissionais.

Como em todo processo educacional, na educação especial o estímulo precoce faz a diferença. Sobre a síndrome de Down, por exemplo, o que se sabe é que não existem graus de Down. Há, contudo, portadores da síndrome que mal conseguem falar e outros que chegam à universidade, angariando um diploma do ensino superior. As diferenças nos seus desenvolvimentos foram motivadas pelos estímulos que receberam desde a infância. Cada um tem seu potencial próprio e a forma como esse potencial é trabalhado, desde o nascimento, é que vai dar significado ao seu desenvolvimento. O que essas crianças precisam é serem aceitas, principalmente pelos pais, pelos professores e depois pela sociedade. Se bem estimuladas, atendidas com carinho e entusiasmo, alcançam um progresso animador.

Recebi um cartão de boas-festas da Associação de Atendimento Educacional Especializado, que realmente me tocou: Natal 2005, Ano-Novo 2006. Fotografia de crianças deficientes, abaixo os dizeres: “Não queremos apenas existir, queremos viver!”.

Exalto de coração essa benfazeja Associação de Educação Especial. Que consiga ir avante, apensar das dificuldades e que hoje e sempre continue sendo reconhecida como valiosa entidade de utilidade pública.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em janeiro/2006)

VIDA: CONCEITUAÇÕES E CURRÍCULO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

Para os psicólogos “A vida é para ser vivida”, isto é, desfrutada. Esta foi a primeira conclusão a que chegou um estudo, publicado em 2003 pela revista britânica Journal of Humanistic Psychology, sobre o sentido da vida. Partilha dessa visão o ex-presidente dos Estados Unidos Thomas Jefferson. A segunda conclusão é dos que acreditam que o sentido da vida é “amar, ajudar e prestar serviços aos demais”. Estão nesse grupo o físico Albert Einstein e o líder indiano Mahatma Gandhi. Uma outra visão, agora pessimista, é de que a vida simplesmente não tem sentido. Pensavam dessa forma Sigmund Freud, criador da psicanálise, e os escritores Franz Kafka e Jean Paul Sartre. Finalmente, um número menor de entrevistados dizia que a vida é simplesmente “uma piada”. Entram aqui o cantor Bob Dylan e o escritor Oscar Wilde.

Um outro aspecto da vida que divide a humanidade diz respeito às religiões, ao humanismo e ao racionalismo. O cristianismo, por exemplo, professa que Deus é essencialmente amor e quer ser acolhido por adesão livre. Ele, como as outras religiões,  liberta o homem do mal, purifica e eleva a alma, trazendo uma realização plena. As religiões pregam o amor, o diálogo, a paz, a misericórdia, atributos que levam à libertação. Se assim não for, não é religião, não está pregando o sentido de religiosidade.

Há os que dizem que o humanismo cristão seria o responsável pela desertificação do universo, aquilo que Max Weber chama “o desencantamento do mundo”. São convictos de que o cristianismo despovoou a natureza dos deuses e das entidades mitológicas, concentrando toda a sacralidade na figura do homem. Assim, para eles, o mundo transformou-se em coisa inanimada, uma representação sem interioridade, “casca vazia autopsiada pela ciência e abertamente manipulada pela tecnologia. O sol visível do mundo foi ofuscado pelo sol invisível do espírito” (Vicente Ferreira da Silva).

Estamos vivendo uma época de febre racionalista. Os defensores de uma cultura agnóstica acreditam que a humanidade seria mais civilizada e feliz se se libertasse das “amarras” espirituais. Acreditam que a religião, sutilmente, empurra o homem a um sentimento místico, desfavorável à sua libertação total.

Para as coisas da alma não há muito que explicar. Lembro, aqui, Santa Bernadete, a dos milagres de Lourdes, na França, que, apertada por inquisidores, disse: “Não adianta explicar para os que crêem, não é necessário; para os que não crêem, não adianta”.

Transportando essa conclusão para o magistério, percebemos como nele o conceito é real. Se o magistério não acreditar, não vai realizar. São Tomé dizia, em relação à calúnia, é preciso ver para crer. Em relação ao magistério, o processo é o inverso: é preciso crer para ver. Na montagem do currículo, a escola tem necessidade de definir sua concepção filosófica, religiosa. Discutir, ao lado do aspecto intelectual do ensino, a questão moral, ética do comportamento humano. A desordem mundial, o agravamento dos problemas sociais, mostram-nos o quanto a educação moral dos jovens vem falhando. São lançadas na torrente da população levas de jovens sem princípios, sem fé, sem religião, sem sustentação de alma e com conseqüências desastrosas.

A função primeira da escola é o conhecimento, mas, também, formar o cidadão. Ela deve se definir em termos do ser humano que quer formar, da visão de mundo que quer projetar. Deve discutir sua concepção de educação e através dessa concepção criar seus critérios de avaliação e formular toda sua linha pedagógica.

A discussão do humanismo e do racionalismo é importante, porque as duas correntes marcam a humanidade. O ardor racionalista encontra-se subentendido nos textos comemorativos do cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Neles, nota-se a apologia da razão, do sonho da libertação pela razão, contrapondo-se à corrente espiritualista que preconiza o sonho  da  libertação  pela  religião.   Goya,  em uma célebre pintura, cunhou a frase: “Deus e o sonho da liberdade” e o grande escritor Dostoiewski, através de um personagem, diz: “Se Deus não existe, então, tudo é permitido”.

Estes são exemplos que devem perpassar as diretrizes do currículo, a fim de se conseguir uma atitude uniforme de seus membros. Deve-se ir além, às suas linhas norteadoras acrescentar, como queria o nosso  Paulo Freire: “a necessidade de se formar homens e mulheres capazes de sonhar, idealistas, práticos, capazes de transformar seus sonhos em realidade. Precisamos conscientizar os jovens da importância do investimento em si próprio, em sua cidadania. Conscientizá-los a fazer frente à realidade, colocá-los por dentro dos problemas que os envolvem na atualidade e subsidiá-los para atuar preventivamente”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2004)

TRABALHO VOLUNTÁRIO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma face do assistencialismo social que vem surgindo e se aprimorando é o trabalho voluntário. Hoje, educa-se para ele, ressalta-se a sua importância humana, o seu alcance social.

Esse trabalho, em seu assistencialismo, ajuda a melhorar as condições de vida de quem precisa, colaborando com o desenvolvimento geral da sociedade. Já se forma conceito sobre o papel que o voluntariado exerce na formação do caráter do jovem, na sua formação humana. Ele traz benefício para os dois lados, de quem recebe e de quem pratica. Quem pratica, desenvolve uma personalidade altruísta, ganha um encaixe real à existência, deixando reflexos durante o resto de sua vida.

Hoje, o voluntariado se faz presente em todas as instituições. Nas organizações religiosas, grupos formados por diferentes religiões discutem a melhor forma de o voluntariado atuar nas diversas religiões, assim como trabalhar com pessoas de religiões diferentes das suas.

Há instituições que fazem uma espécie de capacitação de voluntários, tornando sua atuação mais eficiente, alcançando melhor os objetivos visados. Selecionam os candidatos de acordo com o perfil mais afinado às atividades – se bem que o trabalho voluntário não implica em nenhum tipo de remuneração, nem vínculo contratual. Treinam e orientam o voluntário para que sua atuação ocorra de acordo com as necessidades e filosofia da entidade. Do mesmo modo, os funcionários são preparados para trabalhar, em conjunto, com os voluntários.

A Pontifícia Universidade Católica (PUC) realizou em dois de julho do corrente ano o 1.º Congresso Brasileiro de Voluntariado, com a presença de Douglas Evangelista, coordenador do programa das Nações Unidas de Voluntariado para a América Latina, Caribe e países árabes.

Nesse 1.º congresso, surgiram como principais propostas a formação de uma rede mundial de entidades voluntárias e a criação de uma resolução que liga assistencialismo ao desenvolvimento social. Foi pedido aos delegados brasileiros que, na Organização das Nações Unidas, fizessem pressão para a aprovação dessa resolução.

A rede, pela Internet, colocada entre as diferentes comunidades, servirá para a troca de experiências, ajudando as entidades que trabalham com voluntários. “A rede servirá para criar vínculos e trocar experiências entre as organizações de diversos países”, disse Evangelista, acrescentando que o Canadá mede, em termos econômicos, a participação dos voluntários na sociedade, sendo o campeão mundial de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), instituição que afere a qualidade de vida das nações. “Lá, o voluntariado chega a 8% do Produto Interno Bruto (PIB), entre doações a entidades e tempo despendido pelos voluntários no atendimento”, arrematou.

Dia 5 de dezembro, Dia Mundial do Voluntariado, em assembléia-geral, a Comissão de Desenvolvimento Social da ONU vai tentar aprovar a resolução, para incentivar esse trabalho nos países-membros. Desse modo, as nações terão a obrigação de oferecer apoio ao trabalho voluntário.

Trabalho voluntário é ato de doação, de conscientização da parcela, pequena que seja, de contribuição de cada um, no ressurgimento de um mundo mais igualitário, menos doloroso e, por conseguinte, menos conturbado. A sociedade precisa educar-se para a ajuda mútua, aprender a dar evasão aos bons sentimentos, a acolher os necessitados, se quiser ter um amanhã sorrindo para a paz.

A situação social, todos nós sabemos, é caótica, violenta, com tendência a piorar, caso não caminhemos em direção à cura de seus males, ao alívio de suas dores. E nesse caminho, não há fórmula mágica ou fórmula inovadora, ela é a mesma máxima milenar pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo ao querer redimir o mundo da maldade, a das mãos estendidas, do pão repartido.

Não há mais que retardar, tem-se que começar a espalhar largamente a semente do amor, para não se arcar com o pesado e doloroso ônus da omissão, do desinteresse e do culto ao individualismo. É preciso expandir a consciência da participação comunitária, orientando, educando para a formação ética e humanitária da sociedade. É preciso trabalhar a solidariedade, a comiseração, sentimentos não tão fáceis de se conseguir no mundo competitivo em que vivemos.

Diz o adágio popular: “Solidariedade não tem preço, mas ninguém dá um centavo por ela”. Vamos educar na direção oposta!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

O LIVRO “PRÁTICA PEDAGÓGICA” E A CRÍTICA ESPECIALIZADA

Izabel Sadalla Grispino *

É momento de agradecer. Tenho recebido manifestações de apreço e estímulo pela publicação do livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola). Na outra semana, vimos o artigo do emérito educador ribeirão-pretano Divo Marino. O apoio e o estímulo da insigne professora universitária de São Carlos Lederci Gigante de Oliveira. Esta semana, é a vez de agradecer a educadora araraquarense Fernanda Miranda, por suas pertinentes considerações, publicadas no jornal “Tribuna Impressa”, de Araraquara.

Faço uma ressalva no artigo da Fernanda, quando diz que sou de Araraquara. Na verdade, moro na cidade de Ribeirão Preto, mas tenho fortes ligações de afeto e amizade por Araraquara, onde, desde longa data, mantenho relações de trabalho. Relações que vêm desde fins de 1960, quando, como diretora de uma escola estadual, elaborei projetos educativos, pela Delegacia de Ensino, comandando-a o eminente prof. José Guilherme de Nardi, de quem guardo as melhores referências. Na segunda metade da década de 70, trabalhei ao lado das educadoras da UNESP de Araraquara – FFCLA – Cacilda de Oliveira Camargo, Maria Helena de Moura Neves, Najla Lauand e Sebastião Expedito Ignácio, na formulação e divulgação, para as escolas da rede estadual, do livro “Língua Portuguesa”, 5.ª a 8.ª série – 1.º grau – 1977, e no livro do mesmo nome, organizado sob a forma de Instrução Programada.

Escrevo, semanalmente, no jornal “Tribuna Impressa” há vários anos. Em Araraquara moram familiares e amigos queridos. Em todo caso, só me envaidece, é um orgulho alguém se dizer araraquarense.

Voltando ao artigo da Fernanda Miranda, diria que ela captou aspectos importantes contidos no livro. “Transformar os métodos de ensino, convocando os educadores para uma revisão de suas atividades, é o ponto de partida do livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), de Izabel Sadalla Grispino”. Conclusão aplaudível, visto que abraçar uma metodologia renovadora é indispensável para se alcançar a reforma do ensino.

A linha tradicional, com suas aulas expositivas, com sua transmissão do conhecimento, está superada. A escola de hoje trabalha com projetos, constrói o conhecimento junto com o aluno, faz dele um ser reflexivo, criativo, construtor e não um receptor do saber. O aluno é o agente central do processo de aprendizagem, é fazedor do processo e não paciente do aprendizado, como falava Paulo Freire. Ele é visto como sujeito de sua análise de mundo.

A escola renovada emprega o método construtivista. “Esse método é uma exigência da época, que quer um indivíduo pensante, reflexivo, apto à pesquisa, interferindo, criticando, criando, inventando. Quer um indivíduo capaz de construir, de recriar a cultura. O construtivismo afasta o ranço da escola tradicional, que levava o aluno a decorar, a memorizar, não a entender, a concluir” (pág. 180).

Fernanda fala do princípio contido no livro da contextualização do currículo, da busca dos conteúdos na realidade de vida do aluno, da sua importância sociocultural, o que reforça o método construtivista. Deve-se, inclusive na alfabetização, partir do universo de fala do aluno e não do universo de fala do professor. Dentro do construtivismo são respeitadas a identidade e as posições do educando, permitindo que ele se aproprie do processo de seu conhecimento. Esses conceitos são por mim expressos nas “orelhas” do livro.

Fernanda ressalta a abordagem que fiz sobre o sistema de ciclos na progressão continuada. “Para tratar do sistema de ciclos na progressão continuada e sua polêmica aceitação, Sadalla Grispino dedica um capítulo à implantação desse processo pedagógico...”

É muito importante ao professor entender o sistema de ciclos, na progressão continuada, para bem aplicá-lo. O sistema de ciclos é uma proposta inovadora que requer mudança de mentalidade. “Baseia-se no pressuposto de que o processo de aprendizagem se dá de maneira evolutiva, individualizada e não pode ser segmentado em séries. Nele o ritmo do aluno é respeitado e ele aprende de acordo com as fases específicas de seu desenvolvimento mental, conforme ensina Jean Piaget... O aluno é avaliado de acordo com sua capacidade e os conteúdos são dados continuadamente e não por série. A avaliação, em certo aspecto, mudou. As provas são substituídas por outros métodos, que não excluem a avaliação da aprendizagem. Os alunos não têm seu aproveitamento avaliado através de provas periódicas, com notas. Não há mais o “calendário oficial” das provas, mas há a observação contínua, individual, sucessivas avaliações do conteúdo assimilado, a recuperação paralela, as aulas de reforço e recuperação do período de férias. A avaliação, contudo, foi mal compreendida. O professor, ou por estar arraigado ao sistema de notas, ou por não saber aplicar essa pedagogia inovadora, não conseguiu levar a bom termo esse novo programa”. (pág. 191).

Ao ressaltar pontos relevantes do livro, Fernanda Miranda chama a atenção para aspectos importantes do processo de aprendizagem e que devem merecer atenção especial do professor. Conclui sua análise com estas alentadoras observações: “Do início ao fim, “Prática Pedagógica” é uma ferramenta de reconstrução das atividades de ensino e traz inserido em si mesmo todas as propostas que apresenta – não deixa escapar o diálogo com o leitor, as atividades artísticas e culturais (representadas por poemas escritos pela própria autora sobre o dia-a-dia de prática pedagógica), nem as atividades reflexivas”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2004)

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DE 5.ª À 8.ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL

Izabel  Sadalla  Grispino *

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de 5.ª à 8.ª série do Ensino Fundamental, o MEC propõe, igualmente, a inserção de temas transversais, que devem merecer atenção especial no ensino das disciplinas tradicionais, como geografia, história e matemática. Insiste na estimulação do aprendizado crítico das disciplinas tradicionais. A matemática, por exemplo, deve ser ensinada com ênfase nas resoluções de problemas em sua aplicação prática, em lugar de cálculos abstratos. No ensino da língua estrangeira, deve-se dar ênfase à leitura sobre a escrita e a fala; em geografia, evitar a simples memorização de nomes e definições.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais de 5.ª à 8.ª série do Ensino Fundamental avançam na proposta “Pluralidade Cultural” e coloca como uma das principais novidades o fim do “mito da democracia racial”. Entendem os especialistas do MEC que se deve pôr fim a esse mito, porque “a noção de que o Brasil é uma democracia racial e o brasileiro, uma raça formada pela fusão do negro, do índio e do branco, deve ser condenada”.

Nesse tema, pluralidade cultural, o MEC investe em conceitos já tradicionais nas escolas, como o que ele chama de “mito da democracia racial”, a noção de “raças” e de homogeneidade cultural Brasileira. Diz que a fusão de raças, defendida até nos livros didáticos, encobriu as diferenças culturais no Brasil e serviu para subordinar algumas culturas. Isso impregnou-se nas próprias escolas, levando professores a atitudes de discriminação existentes na sociedade, quando atribuem a culpa, pelo mau desempenho de alunos, à origem racial ou social.

“Divulgou-se uma concepção de cultura uniforme, depreciando as diversas contribuições que compuseram e compõem a identidade nacional... A escola tem um papel fundamental no trabalho de mostrar aos alunos os diversos costumes e crenças das várias culturas e sua participação na formação histórica do País”. Para cumprir o princípio da igualdade de que fala a Constituição, a escola precisa “ter sensibilidade para a questão da diversidade cultural e ações decididas em relação aos problemas gerados pela injustiça social”, analisa o texto.

Nesta altura, não podemos deixar de lembrar Paulo Freire, quando diz que a escola precisa afastar o isolamento, ter mais conectividade, mais amor, mais verdade. O isolamento já está na sociedade e o que acontece com a sociedade acaba acontecendo com a escola. É preciso levar a escola para a vida. Ele se dizia “um menino conectivo”. Unia os pobres e não-pobres, os oprimidos e os não-oprimidos, comprometidos com os oprimidos. Dizia que “a gente tem que estar ensopado de vida, tem que estar encharcado de afetividade”. “Não sou um ser no mundo, sou um ser com o mundo”, apregoava Paulo Freire.

Os “Parâmetros Curriculares Nacionais” sofreram críticas por estar bem acima da capacidade de assimilação da maior parte dos professores. Por isso, o MEC se propôs a orientar o trabalha da Secretarias da Educação, instituições de formação de professores e editoras de livros didáticos.

O MEC tem-se pautado por estabelecer diretrizes que atinjam metas de qualidade. Essas metas perpassam, também os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio”, onde a preocupação com a educação plena, com o cotidiano e a realidade do aluno continuam. Propõem variar as formas de ensinar e desenvolver no aluno habilidades e competências relacionadas às suas necessidades do dia-a-dia.

Através do sistema nacional de avaliação, o MEC coletou, juntamente com outros quesitos, informações  para saber se a educação está formando cidadãos capazes, inseridos no mundo atual, isto é, se a escola está ministrando um ensino de qualidade. O resultado foi bastante desolador. O baixo aproveitamento e a queda do nível de aprendizagem aumentam à medida que as séries avançam e isso vem se confirmando desde as avaliações feitas a partir de 1990. Em alguns casos, menos de um aluno conseguia dominar os conteúdos mínimos da série em que estava.

Sobre o aspecto qualidade, constatou-se, por exemplo, que alunos da 4.ª e da 8.ª séries do 1.º grau e da última série do 2.º grau obtiveram sucesso em perguntas diretas, em textos elementares. A situação complicou-se quando foi preciso deduzir, analisar criticamente, relacionar, completar ou estabelecer significado. Não houve “interpretação e raciocínio”, revelou a análise do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) feita por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), chamados pelo MEC para avaliar o fraco desempenho dos alunos, constatado no último Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb).

Esta entidade sugeriu mudanças. A título de exemplo, citaremos as mudanças no ensino de português: “O modelo de ensino de português deve ir além dos livros didáticos, o aluno deve ter contato com textos diferenciados, desde os literários aos mais comuns, contato com jornais, revistas e até mesmo com manuais de instrução. Nos testes, os alunos mostraram dificuldade em consultar um índice de revista científica e em responder questões em que a resposta se encontrava dispersa em parágrafos anteriores.

Essas observações, sobre o que seria o ensino de qualidade, devem servir ao professor para repensar sua prática pedagógica, pois, quem não sabe procurar a informação em situação variada terá sérios problemas profissionais no futuro. Considerar que o mercado de trabalho está passando por transformações muito rápidas e a pesquisa abrangente permite uma ampliação de conhecimento que ajudará o aluno a adaptar-se às diferentes e inusitadas ocupações.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2000)

A VIDA PASSA PELO CAMINHO DA ESPIRITUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Passeando um pouco pela literatura, pela cultura, em seus diversos domínios, e em diferentes épocas, constatamos em grandes pensadores, cientistas e teólogos um encontro espetacular de ideais de espiritualidade, de convicções, abordadas numa coerência que chega às linhas da sistematização.

A existência não nos é um pano de fundo ou apenas uma inspiração; é parte viva de nós mesmos, nela caminhamos com seu fluxo incessante e contínuo. Ela nos remete a freqüentes reflexões, põe em constante evidência a superioridade das riquezas do espírito sobre as glórias mundiais. Ela nos força a um conhecer a si mesmo e a conhecer, por extensão, o homem em geral.

Relendo Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI (1533-1592), o filósofo que dialogava com a humanidade, em seus temas universais, revivi mensagens absolutamente atuais. A sua capacidade de percepção, de análise e compreensão da alma humana e da natureza, como um todo, vence as barreiras do tempo e se projeta no dia de hoje como, certamente, se projetará no dia de amanhã. Montaigne relacionava o homem à natureza; dizia ser o homem parte da natureza, devendo, portanto, entender que mesmo os animais e as plantas merecem respeito e consideração. Hoje, debate-se a idéia da proximidade estreita do homem com a natureza. A teoria evolucionista de Darwin e as pesquisas genéticas identificaram a pequena diferença que existe entre nós e os outros seres vivos. Imaginemos o impacto provocado por essas reflexões na sua época!

Ressalta-se, também, em Montaigne, nos “Ensaios”, a abordagem superatual, que ele faz sobre razão e fé. Põe a razão em xeque. Analisa-a, não como o teólogo que a critica pela presunção de querer prescindir da idéia de Deus, mas como um observador realista, que não vê na razão caminho para a felicidade.

Sua indagação é no sentido de tentar entender porque a racionalidade não fez do homem um ser mais sensato e equilibrado. Não se trata de confrontar fé e razão, mas de criticar os nossos valores, a razão, como meios de alcançar a verdade e o bem. “Os homens se acreditam superiores e racionais, mas quase sempre se mostram escravos das superstições e repletos de vícios. Poucos homens são verdadeiramente guiados pela razão, pela justiça”. A fé deve estar sempre aliada à razão, em equilíbrio.

Dizia que a única maneira de não se estar ao “sabor dos ventos”, “ao acaso dos encontros”, é sendo senhor de si mesmo. O indivíduo deve libertar-se da mesquinhez do cotidiano e do fanatismo, deixar seduzir-se pelos bens espirituais. Montaigne preconizava a paz, a harmonia e a tolerância, mas não se mostrou muito inclinado a acreditar na concretização de um mundo pacífico.

Passemos a entender a espiritualidade no grande cientista Albert Einstein, séculos XIX e XX (1879-1955), que assim se expressou: “Sei que os homens jamais poderão saber tudo, que a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. Deus é sutil, mas não é malicioso, por isso tenho certeza de que a solução será encontrada sempre. Foi uma espécie de fé que me ajudou, durante toda a minha vida, a não desesperar em face das grandes dificuldades da investigação”. Acerca de suas próprias conclusões, Einstein se perguntava: “Terá sido deste modo que Deus criou o universo?”

O grande líder que foi da comunidade católica, o grande guia espiritual, o  papa João Paulo II, na encíclica “Fides et Ratio”, lança o desafio de iluminar a razão e as ciências da modernidade com a luz da fé. Num primor de considerações, diz: “A engenharia genética necessita de fé para não instrumentalizar o Dom divino da vida. A política precisa do Evangelho para tornar-se serviço desinteressado do bem comum. A economia moderna precisa converter-se em justiça e solidariedade. A instituição familiar carece de visão cristã do matrimônio para não se desfigurar. Não há dimensão importante da modernidade que não possa prescindir de uma profunda reflexão e diálogo entre razão e fé”. Acrescenta: “A razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus”.

Em sua carta apostólica, intitulada “No Início do Novo Milênio”, João Paulo II diz: “A Igreja não pode perder de vista o rosto de Jesus”. Onde encontrar esse rosto? Ele responde: “Nos Evangelhos, que oferecem uma visão de fé sustentada por um testemunho histórico concreto”. No limiar do novo milênio, a Igreja tem “confiante otimismo em que não será uma fórmula a nos salvar, mas uma pessoa, Cristo”. Não há, pois, que inventar um “programa novo, porque Cristo é seu programa definitivo para o terceiro milênio e para sempre. Compete às Igrejas locais, ou seja, às dioceses, realizá-lo... Vamos em frente, com esperança”.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em novembro/2005)



Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em novembro/2005)

A ESCOLA REAVALIANDO SEUS PROJETOS

Izabel Sadalla Grispino *

A escola sabe que uma de suas principais funções é formar. Formar o aluno, especialmente, para os valores essenciais da vida. Formar o aluno para ensiná-lo a aprender a aprender, não perder de vista a sociedade do conhecimento em que vivemos. Formar para informar.

AO JORNAL “TRIBUNA IMPRESSA”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “Tribuna Impressa”, deste valioso instrumento de comunicação que Araraquara aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, venho, há cerca de dois meses, publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporciona-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade araraquarense, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Estou me propondo, entre outros, a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional do ensino vigente.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Já tive a oportunidade de passar alguns conceitos, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida, a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “Tribuna Impressa” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e clareie a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Araraquara, já vem se tornando habitual, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “Tribuna Impressa”, nas pessoas de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população.  O jornal “Tribuna Impressa” cresce com Araraquara, coloca-se na vanguarda jornalística. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente, que vem se tornando marca consagrada. Pessoas que lutam por ideais salvaguardam a humanidade. Onde há uma vontade, há um caminho. Parabéns!

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Araraquara. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos.

A todos vocês, queridos leitores,/ Que esse dois mil e um lhes seja risonho,/ Caminhos abertos, muitos amores,/ Que se realize seu mais lindo sonho.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em dezembro/2000)

ENSINO MÉDIO EM FINS-DE-SEMANA

Izabel Sadalla Grispino *

O ensino médio passa por um processo alternativo. Agora, o aluno desse ensino poderá cursá-lo em fins-de-semana, em São Paulo. Jovens e adultos – de 18 a 29 anos – poderão, pelo projeto Escola da Juventude, lançado em fevereiro do corrente ano, cursar o ensino médio em até um ano e meio. Segundo informes da Secretaria da Educação, o curso terá uma dinâmica diferente dos cursos tradicionais de educação de jovens e adultos. Pretende-se usar novas tecnologias para acelerar o processo de aprendizagem, laboratórios de informática, salas de vídeos e um portal na internet.

Para participar, o aluno deve ter concluído o ensino fundamental e efetuar matrícula diretamente nas escolas participantes do projeto. Inicialmente, a Escola da Juventude atenderá 300 escolas estaduais da capital e alguns municípios da grande São Paulo e do interior do Estado, num total de 30 mil vagas, sendo 100 por unidade.

O curso de ensino médio da Escola da Juventude está dividido em três tipos de atividades: curriculares presenciais, organizados em 4 módulos, sendo um optativo no sábado pela manhã e um obrigatório à tarde. No domingo, a situação inverte-se. Haverá no mínimo uma hora e meia por final de semana de atividades de inclusão digital, e atividades individuais durante a semana, sugeridas em classe e constantes dos materiais impressos.

Na sala de aula, o aluno contará com um orientador de estudos e na sala ambiente de informática, com um monitor para auxiliá-lo a tirar suas dúvidas. O curso desenvolver-se-á em módulos e o aluno terá flexibilidade para freqüentá-lo segundo sua disponibilidade de tempo. A avaliação será contínua, havendo provas freqüentes e, ao final do semestre, exame para a conclusão do módulo. A certificação será dada após a aprovação em todos os módulos, depois de 18 meses de atividades.

A programação parece bem pensada, bem organizada, agora é torcer para que esse curso abreviado de ensino médio, dado em fins-de-semana, não venha frustrar quanto à qualidade, fazendo o ensino decair ainda mais. As escolas devem passar avante a informação, deixando os alunos a par dessa recente inovação.

Um ensino médio com carga horária assim reduzida é prato de balança que oscila entre duas perspectivas. Permite ao aluno avançar em anos de escolaridade, ultrapassando os graus de ensino, engrossando as estatísticas, mas pode pôr em cheque a meta qualitativa. O ensino médio de um ano e meio favorece, é verdade, o aluno continuar na escola, afastando-o da rua, da ociosidade. Ajuda-o a não interromper o processo de estudo e a se afastar da violência.

Segundo a Unicef, o aumento da violência é proporcional à queda da escolaridade do adolescente, considerando que a sua cidadania depende da conciliação da educação formal com cursos profissionalizantes. Aponta que apenas 33% de jovens brasileiros, com idade entre 15 e 17 anos, freqüentam o ensino médio. Dentre as crianças que trabalham, a taxa de analfabetismo é de 20,1%, contra 7,6% entre as que não trabalham. Conclui que o problema da violência requer ação efetiva de toda sociedade e que sua solução passa necessariamente pela melhoria da escolaridade e profissionalização dos jovens, dentre outras medidas coerentes com aplicações socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Estatísticas comprovam que no Brasil o número de adolescentes que morrem violentamente supera o número de mortes nos países em guerra, como no Iraque, onde se calcula que 150 mil civis morreram na invasão movida pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Entre nós, mais de 24 mil jovens de 15 a 19 anos tiveram morte violenta em 2004, marcando um sangrento recorde mundial. Revelam as pesquisas que os adolescentes são, em geral, mais vítimas que autores da violência que os destrói.

Cerca de 68% das mortes de adolescentes no Brasil, com idade entre 15 e 19 anos, são provocadas por causas externas, como homicídios, acidentes de trânsito e suicídios. Perto de 10% de todos os crimes e delitos praticados no País são cometidos por adolescentes, o que causa séria preocupação.

A juventude está morrendo e está matando, e há fortes convicções de que esse quadro se modificaria se mais jovens estivessem na escola. Sob esse prisma, o ensino médio em fins-de-semana, conjugando estudo e trabalho, poderá ajudar, se conduzido por professores habilitados e interessados no processo, porque o mercado de trabalho considera prioritariamente a qualidade e não a quantidade de anos passados pelo aluno na escola.

Exigências do mercado levam as empresas de pequeno e médio porte a contratar pessoal qualificado na mira da adoção do selo de boas práticas trabalhistas, acompanhando as grandes empresas. Atuar com qualidade favorece o diferencial competitivo da empresa como foco na responsabilidade social. As pequenas empresas são as que têm até 99 empregados, no caso da indústria, e até 49, no caso de comércio e serviços. As de médio porte têm até 499 trabalhadores na indústria e 99 no comércio e serviços. O selo SA 8000 se tornou um termômetro da importância que as práticas internas empresariais têm em uma economia competitiva. Sua importância é tal que será como avalista para o futuro. Vai excluir empresas do mercado. O selo SA 8000 cria um ambiente ético que vai além da empresa e chega à sociedade, vai além das exigências trabalhistas, dando condições dignas de trabalho a seus empregados.

A SA 8000 é um conjunto de padrões que asseguram melhorias nas condições de trabalho nas empresas, com base nos preceitos da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para obter a certificação, que tem a validade de 3 anos, a empresa deve estar em dia com a legislação trabalhista, banir os trabalhos escravo e infantil e assegurar o direito à associação sindical e salários justos.

Para fazer parte de uma empresa bem organizada, de porte e sucesso, para receber os benefícios da SA 8000, o pretendente deve ter freqüentado uma escola de qualidade, adquirido uma boa formação acadêmica e profissional. Caso contrário, não passará nos testes de avaliação.

Um ensino médio de bom nível é porta aberta para uma boa colocação no mercado de trabalho.  Os relatos acima são questões para se pensar.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em maio/2005)

RESPOSTA A UMA ALUNA DO CURSO NORMAL

Izabel Sadalla Grispino *

Foi com satisfação que li a mensagem, enviada a mim, através do jornal Guariba Notícias, de Maria Aparecida Monteiro, em véspera de se formar professora.

Maria Aparecida é aluna do 3.º ano do Curso Normal do Instituto de Educação Professora Marisa Serrano, da cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Seu curso termina agora, em 30 de junho.

Citarei trechos de seu e-mail, enviado à redação do jornal: “ ... Venho agradecer as matérias da professora Izabel Sadalla Grispino, que têm sido de grande ajuda para o meu desempenho na escola. Levo os textos para a sala de aula para ser discutido com o grupo, pois, sempre, têm o que nós precisamos. Uso, também, para os meus portfólios os textos de meditação, que sempre nos trazem momentos de reflexão... Nós do Instituto de Educação Professora Maria Serrano, OMEP/BR/MS, agradecemos a sua colaboração, através de seus trabalhos, publicados no jornal Guariba Notícias, o qual recebo regularmente. Maria Aparecida Monteiro, Campo Grande/MS”. (Publico, semanalmente nesse jornal, junto ao artigo educacional, uma poesia para meditação).

Maria Aparecida, seu e-mail cativou-me pelo processo adotado na aquisição do conhecimento. Sua curiosidade leva-a ao método construtivista, de pesquisa e análise, ao encontro de uma metodologia ativa, concreta, interativa.

Você faz, exatamente, o que tem que ser feito: não é apenas ler o texto, mas discuti-lo em grupo, chegar a conclusões, fixar os conceitos emitidos e traduzi-los em práticas educativas, na sala de aula, junto aos alunos.

A sua vontade de aprender, a sua responsabilidade perante a função, a conduzirão às instâncias superiores do saber. Tenho fé em sua futura atuação docente. Você já desponta com brilho no cenário da educação, tal distinguida abelha obreira, fabricando mel para a colméia, tal soldado engajado na luta pelo engrandecimento da Pátria.

Que bom que meus estudos, frutos de suadas lavras, estejam caindo em terra fértil, adubando-a para a rica colheita! Avançar pelo critério de mérito, pela luz do conhecimento, é caminho que consolida toda e qualquer carreira profissional.

Parabéns pela iniciativa,  espero  que  esse processo de aprender a aprender percorra toda sua existência. Se quisermos nos manter em alto nível nessa sociedade do conhecimento, não podemos jamais deixar de lado a educação continuada.

Amanhã, a Nação, por suas famílias, seus jovens, pela sociedade, agradecerá seu ilustrado devotamento à causa da educação, na luta por um ensino de qualidade, o único capaz de dar respostas ao mundo globalizado, em que vivemos.

Abraços e louvores a você.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2007)

ACERTANDO OS PASSOS COM A MODERNIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona a novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, incluindo, aí, o aproveitamento das vocações despertadas.

Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da sociedade, a incorporação de atitudes na linha da “parceria” “co-gestão”, “co-autoria”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”, “trabalho em equipe”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiências, conteúdos afins, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em “transmissão do conhecimento”, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em “construção do conhecimento”, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor-aluno; o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber erudito e em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis.

Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão.

Várias são as possibilidades de participação. A escola, ao lado da participação intrínseca – características de vida, de conduta, condições socioeconômicas – há a extrínseca: as comemorações cívicas ou sociais, eventos preestabelecidos, apresentações em acontecimentos de importância – e da comunidade para a escola, em datas oficiais – plano escolar, reuniões de pais e mestres, reuniões do Conselho de série/classe, eventual formação de colegiado. Participa, ainda, de exposições, encontros literários, artísticos, campanhas, das já tradicionais festas juninas, mutirões... numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só se chamava o pai para reclamar do filho, por alguma falta cometida.

Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé...

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno.

Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

A parceria propicia o exercício da cidadania, abre a escola para a crítica, permitindo participação consciente, tomada de decisão co-responsável, maior engajamento de todos. Culmina com uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam experiências e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em agosto/2005)

CICLO BÁSICO NOS CURSOS SUPERIORES

Izabel Sadalla Grispino *

Como parte da reforma universitária, o Ministério da Educação (MEC) propõe a criação do ciclo básico de 2 anos para os cursos superiores. Um ciclo comum, freqüentado pelos alunos, com um grupo de disciplinas mais genérico, antes da oferta dos conteúdos específicos de cada curso. O aluno terá uma melhor formação geral, um tempo maior para definir com mais segurança a carreira a seguir. Irá exercitar melhor suas aptidões, informar-se com mais tempo sobre o mundo do trabalho e fazer a escolha de sua profissão com mais maturidade.

A idéia do ciclo básico vem sendo bem recebida pelos educadores que entendem ser a medida portadora de uma formação mais ampla aos estudantes, permite uma maior flexibilidade na troca de cursos e evita a especialização excessiva, que limita a formação.

A nova LDB da Educação substitui, no currículo, padronização por flexibilização. A reforma do ensino adota currículos que se norteiam pela interdisciplinaridade -- interligando as diversas áreas do saber – e pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação mais ampla, um conhecimento globalizado do assunto. Na universidade, corrige distorções do ensino superior e da especialização prematura dos cursos de graduação, realizados em departamentos, e cursos desintegrados dos demais. A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, favorecendo ao aluno uma escolha posterior, com mais convicção.

O ciclo básico retoma noções de universidade, afirmam os educadores. O foco deixa de estar no curso e passa à universidade. Os primeiros anos de graduação agruparão estudantes de cursos com demandas diferentes em atividades inter e multidisciplinares. Os cursos serão interligados e as disciplinas básicas oferecidas conjuntamente.

Essa iniciativa do ciclo básico já existe em algumas universidades brasileiras, como a Universidade de São Paulo (USP), que, já há algum tempo, mudou o currículo da Escola Politécnica e do curso de Letras. Para que o ciclo básico seja bem aplicado é preciso que conte com professores bem formados, treinados, com visão global das disciplinas. O que se espera é que não venham a se tornar uma forma de economia, especialmente para as instituições privadas de ensino. Que ele represente o alargamento das fronteiras do conhecimento, hoje tão necessário.

O ciclo básico exige, para tal, um currículo bem entrosado e professores qualificados. Esse processo reforça a idéia de reforma na estrutura administrativa do ensino superior, da divisão das universidades em departamentos. O que se pretende é acabar com as antigas cátedras, agrupar os professores em órgãos colegiados por afinidade de conteúdo de suas disciplinas. Essa medida começou a ser implantada há pouco mais de três décadas pelo regime militar, mas por razões oportunistas e burocráticas não foi levada adiante.

O ciclo básico envolvendo disciplinas comuns torna-se refratário à segmentação do ensino em cursos, departamentos e faculdades que não se comunicam entre si. A sua aplicação talvez comece por áreas afins. Com sua adoção, o estudante poderia fazer o vestibular para um conjunto de áreas, sem escolher antecipadamente uma. Essa escolha ocorreria a partir do 3.º ano.

A idéia do ciclo básico no ensino superior injeta princípios inovadores na universidade. Na licenciatura, poderá melhor preparar o professor para encarar as mudanças implementadas pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), melhor entender o ciclo básico na progressão continuada do ensino fundamental. O que precisamos é de avanço na educação. É lamentável abrir o jornal e deparar com o resultado de uma avaliação do ensino médio, revelando que “a escola brasileira ensina menos que o mínimo”.

O Sistema de Avaliação do Ensino Médio (Saeb) divulgou, em 16 de junho corrente, um resultado demonstrando que, depois de três anos em queda progressiva, o ensino não avançou praticamente nada. Revelou, segundo o MEC, uma pequena tendência de melhora, que se pode dizer ser meramente estatística. Na realidade, não se percebe nenhuma mudança na qualidade de ensino, ensino que não consegue ir além do mínimo. Metade dos alunos não sabe nem português, nem matemática. Mostrou uma situação muito grave na 3.ª série do ensino médio, onde de cada 10 alunos 7 apresentam um nível de conhecimento considerado “muito crítico”. Na 4.ª série do ensino fundamental, 5 entre 10 alunos não dominam as quatro operações aritméticas e não conseguem ler e compreender textos simples e curtos. São crianças consideradas alfabetizadas, mas que não passam de analfabetas funcionais.

Revelou, também, que nem os alunos de colégios particulares chegam, na maior parte dos Estados, a atingir a média considerada adequada para as séries avaliadas. Constatou-se que o ensino público está ruim e que o ensino privado, salvo exceções, está longe do ideal. Os alunos terminam o curso sabendo bem  menos  do que deveriam. Embora as condições de ensino, na escola particular, sejam melhores, com recursos disponíveis superiores, o ensino fica a desejar. Esses alunos demonstraram um desempenho medíocre.

O presidente do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep) – Eliezer Pacheco – considerou que “a causa principal do nível insatisfatório dessas escolas está na formação dos professores, que não é adequada, o que acaba influenciando, também, no ensino privado”.

O Saeb mostrou a importância da formação dos professores. Quando o profissional tem apenas o ensino médio, a pontuação média dos alunos fica em 157 pontos. Se a formação é superior, a média dos alunos chega a 172 pontos. Mas, no geral, o que se constata é uma formação insuficiente, necessitada de reforço em conteúdo acadêmico e em metodologia.

Espera-se que, com a criação do ciclo básico de 2 anos, o ensino superior traga renovações, conteúdo abrangente e ensine o professor a trabalhar com métodos atualizados, interdisciplinares, revertendo a tendência tradicional que ainda persiste.

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em junho/2004)

MATÉRIAS HUMANÍSTICAS PARA O ENSINO MÉDIO

Izabel Sadalla Grispino *

O currículo do ensino médio passa por reformulação. Em novembro de 2002, a Secretaria da Educação estipulou um acréscimo na grade curricular do 2.º e do 3.º ano, das escolas da rede pública estadual, incluindo as disciplinas: filosofia, sociologia e psicologia. As escolas incluirão pelo menos uma dessas três disciplinas. A decisão sobre as matérias a acrescentar cabe à própria escola.

O aumento do número de disciplinas, de 9 para 12, não é, contudo, acompanhado do aumento da carga horária, que continuará sendo de 5 horas no período diurno e 4 horas no noturno. As escolas passarão a ter menos aulas das disciplinas tradicionais, como língua portuguesa, matemática, história, geografia ou inglês.

A inclusão das novas disciplinas contempla uma reivindicação da classe do magistério, que defende o enriquecimento do currículo, em matérias que ajudam a formar consciência de cidadania e a desenvolver  criticidade. Louva a inclusão, mas lamenta a diminuição da carga de outras disciplinas. Esperava que ela fosse acompanhada de uma hora a mais na carga diária. Considera as matérias filosofia, sociologia e psicologia importantes para a formação integral dos alunos, mas não concorda com a proposta de diminuir a carga das outras disciplinas. Entende que essa redução vai afetar o montante da aprendizagem. Sugere a volta da grade curricular de 1997, quando os alunos tinham 6 aulas de 50 minutos no diurno e 5 no noturno.

O secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita, contra-argumenta, dizendo que a redução no número de aulas das outras disciplinas, de 5 para 4, é muito pequena e em nada interferirá na qualidade do ensino.

A Secretaria ainda define uma cota mínima de horas-aula para 2003 das matérias tradicionais, um valor que seja suficiente para não prejudicar os alunos, diz ela. Para o Ministério da Educação, a mudança não vai atrapalhar as outras matérias, podendo, inclusive, ajudar na compreensão geral. “Os alunos poderão melhorar o seu desempenho em outras matérias porque passarão a ter uma compreensão melhor dos assuntos”, diz a diretora do Ensino Médio, Maria Beatriz Gomes da Silva.

As escolas, pela legislação, têm autonomia para definir como incluir novas disciplinas. A lei exige, apenas, que sejam dadas no mínimo 800 horas anuais e 200 dias letivos.

A concepção atual de currículo é formulá-lo, não por disciplinas estanques, mas englobadas, atadas em áreas de conhecimento, favorecendo o método interdisciplinar. Para abraçar a reforma, precisam-se derrubar as paredes do individualismo das escolas. Formar uma comunidade de professores que discuta o entrelaçamento de suas disciplinas, evitando a compartimentalização. Hoje, a idéia é do profissionalismo interativo, o de atuar em conjunto, melhorando o ensino, não por partes, mas no todo, como uma comunidade. O conteúdo de uma disciplina completa o da outra, liga-se um no outro, numa amplitude de conhecimentos. Os professores precisam aprender a trabalhar mais unidos, tanto no aspecto conceitual, como no atitudinal e no comportamental. Portanto, o número de aulas não é o grande fator preponderante, mas, sim, como essas aulas são dadas, como se entrosam, se complementam, enriquecendo-se mutuamente. A qualidade não provém apenas da quantidade de aulas, mas da capacitação do professor, do compromisso com o ensino, dos investimentos empregados.

Na tentativa de melhorar a atuação do professor, criam-se movimentos paralelos que venham contribuir com a escola. Foi lançada em 26 de novembro de 2002, no encontro “A Escola dos Nossos Sonhos”, a idéia da criação de um espaço permanente de debates e sugestões para a melhoria da escola pública. Espaço que teria o caráter de fórum permanente da educação, com a participação de sindicalistas, empresários, pais de alunos, jornalistas, organizações não-governamentais entre outros setores da sociedade.

A partir de fevereiro, a cada 2 meses, um grupo de convidados se reúne na capital e apresenta suas idéias. Simultaneamente, a Secretaria deseja estimular encontros semelhantes, de pais, associações de amigos de bairros e líderes comunitários, nas 89 diretorias de ensino do Estado. A proposta é de que os encontros reunam, de preferência, pessoas de fora da escola, para tratar de assuntos referentes a ela.

Segundo o pensamento da Secretaria, os educadores já são ouvidos em outras instâncias. Quer, a cada 2 meses, 20 pessoas, que não sejam da rede pública, atuando como um conselho, cujo peso de suas opiniões será de alto alcance.

Será um peso ao lado do grande peso que é o Conselho Estadual de Educação. Um Conselho que forme canais de discussões sociais, levante questões, proponha soluções em aspectos relevantes, esquecidos ou desconsiderados pela Secretaria da Educação.

Arregimentam-se forças  a fim de tornar a escola uma alavanca da nacionalidade. Espera-se que se leve a sério tal iniciativa, que lhe dê consistência e a estimule à continuidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2003)

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