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Artigos Educacionais

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ALUNOS DE DESEMPENHO EXCEPCIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

O Brasil tem um atendimento irrisório ao estudante superdotado. Poucos, muito poucos, são os programas de incentivo, criados, quer pelo governo, quer pela iniciativa privada, para alunos com desempenho acima da média.

A lei prevê atendimento especial ao aluno superdotado, mas, no plano oficial, não há programas específicos para esse aluno. Países avançados investem fortemente em cérebros, desenvolvendo e beneficiando aluno e país, que acaba formando profissionais altamente capazes em pesquisa e tecnologia, favorecendo o crescimento de sua economia. Uma nação enfrenta com vantagens a competitividade moderna, quando possui em seus quadros número considerável de bons cientistas, de mão-de-obra qualificada.

A escola precisa mudar o olhar, saber reconhecer jovens talentos e apoiá-los. Investir em programas para capacitar estudantes com altas habilidades. Primar pela caça ao talento no Brasil deve merecer atenção especial, sobretudo, pelo pouco que tem de aproveitamento considerável no padrão acadêmico nos cursos regulares.

Quanto aos superdotados, a psicologia educacional moderna afasta a imagem de gênio. São crianças com habilidades especiais, que devem ser desenvolvidas e incentivadas. São crianças que têm um alto desempenho em uma área, mas não são gênios. São especiais, dotadas, sim, de altas habilidades e que devem ser treinadas, estimuladas a desenvolver, mas que são, antes de mais nada, crianças.

Muitas vezes, os pais percebem que o filho é superdotado e se assustam. Temem que a cobrança comece a ser acima do normal e que a criança comece a se achar mais do que as outras. O medo é comum entre famílias de crianças com altas habilidades e esse tem sido um dos argumentos apontados pelo Ministério da Educação (MEC) para não incentivar a existência de escolas especiais para superdotados. Incentiva a convivência em escolas regulares, o que torna, em grande parte, um desafio a mais para os professores.

O MEC incentiva os Estados a terem programas específicos de identificação de superdotados. Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul têm centros para isso. Também as prefeituras de Lavras (MG) e Belém do Pará trabalham com crianças superdotadas, usando programas especiais. Brasília treina professores de escolas públicas para identificar crianças com habilidades especiais. A Secretaria de Educação Especial do MEC recomenda ao professor que reconheça e responda à diversidade, acolha as diferentes potencialidades, características e ritmos de aprendizagem.

Até pouco tempo, usava-se apenas o teste de Q.I. para medir o grau de capacidade de um aluno. Hoje, ele é complementado por avaliações psicológicas, que medem as habilidades das crianças em várias áreas. Os testes, quando feitos, revelam, normalmente, no superdotado um Q.I. acima da média. Os testes são a última etapa de uma avaliação que analisa o comportamento da criança, seus interesses, habilidades orais e físicas e também a sua maturidade. Uma criança pode ser ricamente desenvolvida em uma área e nem tanto em outras. Há crianças, por exemplo, extremamente criativas, utilizam-se facilmente das palavras, inventam histórias e jogos, mas podem não ter nenhuma habilidade manual, com uma coordenação motora ruim.

A escola vive um momento importante de mudanças. Sempre trabalhou com o paradigma da igualdade; hoje o paradigma é da inclusão da diversidade. No meu artigo da semana passada eu dizia: “A escola deve valorizar a diversidade, mas valorizar, acima de tudo, a potencialidade do aluno”. Valorizando as potencialidades, ela estará valorizando as individualidades em suas diversidades.

O superdotado é um aluno dotado de altas habilidades numa determinada área, um aluno que se destaca, de alguma forma, do seu grupo. O professor percebe o superdotado quando o aluno apresenta habilidades acima da média, quando tem criatividade e, principalmente, persistência. Se o interesse do aluno é apenas de momentos, se não permanece, se não persiste, não se trata de um superdotado. A Associação Brasileira para Superdotados aponta que “as crianças superdotadas costumam ser bastante persistentes na busca por mais informações sobre assuntos que lhes interessam. Chegam a ser “chatas” de tanto que perguntam. Têm senso de humor e também senso de justiça, reagem positivamente a novos elementos e costumam ter idéias variadas sobre um mesmo assunto”.

Entre as habilidades da criança superdotada está a facilidade para aprender coisas novas, compreender uma explicação e uma memória privilegiada. Sua velocidade de aprendizagem é bem maior. A regra é passar tarefa extra porque o aluno termina antes e acaba atrapalhando a aula. Um dos recursos é pedir ao aluno que ajude os colegas nas tarefas da classe.

O aluno superdotado precisa de atividades que vão além da sala de aula, como desenvolver projetos. Programas específicos devem ser preparados, incentivando as habilidades especiais e acalmando sua inquietação. Programas que remanejam os melhores alunos para classes mais adiantadas, que conduzam os alunos do ensino médio a uma universidade para cursar aulas nos fins-de-semana, como ocorre em muitos países avançados.

Além das salas regulares, das aulas regulares, deve haver a sala de recursos, que complementa as atividades, onde o aluno tem meios e oportunidades de desenvolver as habilidades, de pesquisar, de exercer a criatividade. Levar o aluno fora do período normal a freqüentar outros grupos, dar formas de acesso a uma escola de pintura, de música, de dança etc., de acordo com seus interesses, é outro comportamento recomendado. Acima de tudo, a escola deve ensinar esse aluno a desenvolver as próprias habilidades.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DE 5.ª À 8.ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL

Izabel  Sadalla  Grispino *

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais de 5.ª à 8.ª série do Ensino Fundamental, o MEC propõe, igualmente, a inserção de temas transversais, que devem merecer atenção especial no ensino das disciplinas tradicionais, como geografia, história e matemática. Insiste na estimulação do aprendizado crítico das disciplinas tradicionais. A matemática, por exemplo, deve ser ensinada com ênfase nas resoluções de problemas em sua aplicação prática, em lugar de cálculos abstratos. No ensino da língua estrangeira, deve-se dar ênfase à leitura sobre a escrita e a fala; em geografia, evitar a simples memorização de nomes e definições.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais de 5.ª à 8.ª série do Ensino Fundamental avançam na proposta “Pluralidade Cultural” e coloca como uma das principais novidades o fim do “mito da democracia racial”. Entendem os especialistas do MEC que se deve pôr fim a esse mito, porque “a noção de que o Brasil é uma democracia racial e o brasileiro, uma raça formada pela fusão do negro, do índio e do branco, deve ser condenada”.

Nesse tema, pluralidade cultural, o MEC investe em conceitos já tradicionais nas escolas, como o que ele chama de “mito da democracia racial”, a noção de “raças” e de homogeneidade cultural Brasileira. Diz que a fusão de raças, defendida até nos livros didáticos, encobriu as diferenças culturais no Brasil e serviu para subordinar algumas culturas. Isso impregnou-se nas próprias escolas, levando professores a atitudes de discriminação existentes na sociedade, quando atribuem a culpa, pelo mau desempenho de alunos, à origem racial ou social.

“Divulgou-se uma concepção de cultura uniforme, depreciando as diversas contribuições que compuseram e compõem a identidade nacional... A escola tem um papel fundamental no trabalho de mostrar aos alunos os diversos costumes e crenças das várias culturas e sua participação na formação histórica do País”. Para cumprir o princípio da igualdade de que fala a Constituição, a escola precisa “ter sensibilidade para a questão da diversidade cultural e ações decididas em relação aos problemas gerados pela injustiça social”, analisa o texto.

Nesta altura, não podemos deixar de lembrar Paulo Freire, quando diz que a escola precisa afastar o isolamento, ter mais conectividade, mais amor, mais verdade. O isolamento já está na sociedade e o que acontece com a sociedade acaba acontecendo com a escola. É preciso levar a escola para a vida. Ele se dizia “um menino conectivo”. Unia os pobres e não-pobres, os oprimidos e os não-oprimidos, comprometidos com os oprimidos. Dizia que “a gente tem que estar ensopado de vida, tem que estar encharcado de afetividade”. “Não sou um ser no mundo, sou um ser com o mundo”, apregoava Paulo Freire.

Os “Parâmetros Curriculares Nacionais” sofreram críticas por estar bem acima da capacidade de assimilação da maior parte dos professores. Por isso, o MEC se propôs a orientar o trabalha da Secretarias da Educação, instituições de formação de professores e editoras de livros didáticos.

O MEC tem-se pautado por estabelecer diretrizes que atinjam metas de qualidade. Essas metas perpassam, também os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio”, onde a preocupação com a educação plena, com o cotidiano e a realidade do aluno continuam. Propõem variar as formas de ensinar e desenvolver no aluno habilidades e competências relacionadas às suas necessidades do dia-a-dia.

Através do sistema nacional de avaliação, o MEC coletou, juntamente com outros quesitos, informações  para saber se a educação está formando cidadãos capazes, inseridos no mundo atual, isto é, se a escola está ministrando um ensino de qualidade. O resultado foi bastante desolador. O baixo aproveitamento e a queda do nível de aprendizagem aumentam à medida que as séries avançam e isso vem se confirmando desde as avaliações feitas a partir de 1990. Em alguns casos, menos de um aluno conseguia dominar os conteúdos mínimos da série em que estava.

Sobre o aspecto qualidade, constatou-se, por exemplo, que alunos da 4.ª e da 8.ª séries do 1.º grau e da última série do 2.º grau obtiveram sucesso em perguntas diretas, em textos elementares. A situação complicou-se quando foi preciso deduzir, analisar criticamente, relacionar, completar ou estabelecer significado. Não houve “interpretação e raciocínio”, revelou a análise do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) feita por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), chamados pelo MEC para avaliar o fraco desempenho dos alunos, constatado no último Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb).

Esta entidade sugeriu mudanças. A título de exemplo, citaremos as mudanças no ensino de português: “O modelo de ensino de português deve ir além dos livros didáticos, o aluno deve ter contato com textos diferenciados, desde os literários aos mais comuns, contato com jornais, revistas e até mesmo com manuais de instrução. Nos testes, os alunos mostraram dificuldade em consultar um índice de revista científica e em responder questões em que a resposta se encontrava dispersa em parágrafos anteriores.

Essas observações, sobre o que seria o ensino de qualidade, devem servir ao professor para repensar sua prática pedagógica, pois, quem não sabe procurar a informação em situação variada terá sérios problemas profissionais no futuro. Considerar que o mercado de trabalho está passando por transformações muito rápidas e a pesquisa abrangente permite uma ampliação de conhecimento que ajudará o aluno a adaptar-se às diferentes e inusitadas ocupações.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2000)

A ESCOLA REAVALIANDO SEUS PROJETOS

Izabel Sadalla Grispino *

A escola sabe que uma de suas principais funções é formar. Formar o aluno, especialmente, para os valores essenciais da vida. Formar o aluno para ensiná-lo a aprender a aprender, não perder de vista a sociedade do conhecimento em que vivemos. Formar para informar.

EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

Lutar para elevar o nível de ensino das escolas brasileiras, em especial das escolas públicas, é lutar pelo de-senvolvimento do País, lutar pela desigualdade social.  A diferença educacional do pobre e do rico só faz aumentar a concentração de renda. Não há ascensão social sem educação de qualidade, inexistindo a possibilidade de empregos bem remunerados.

Quanto à economia, nosso decadente ensino nega os recursos humanos necessitados pelas empresas em mão-de-obra qualificada. A produtividade fica inibida diante do fraco treinamento dos professores para encarar tecnologias mais avançadas no campo da produtividade. O baixo nível de escolaridade interfere, também, na competitividade internacional, quando países como o Brasil disputam a mesma parcela do mercado globalizado.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador que passou a ser usado pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir dos anos 90. Pelo IDH, divulgado em julho corrente, o Brasil teve uma queda acentuada no ranking que mede o desenvolvimento humano no mundo. Na comparação com 175 países e 2 territórios, entre os anos 2001 e 2002, o Brasil caiu da 65.ª posição para a 72.ª, ficando abaixo da colocação que se encontrava no começo dos anos 90.

A queda brasileira no ranking deu-se pela piora nos dados de educação, principalmente pelo percentual de analfabetos entre pessoas com mais de 15 anos. A posição brasileira no ranking mundial mostra um retrocesso lamentável na educação.

O IDH mostra que a riqueza do País continua concentrada nas mãos de uma minoria da população. Mostra, no Índice, quantas vezes a renda dos 10% mais ricos no País é maior do que a dos 10% mais pobres, e o Brasil atinge 85 vezes. Vemos, então, como somos um País desigual e quanto devemos batalhar por uma educação de qualidade para as classes menos favorecidas.

O grande caminho para enfrentar a marginalidade educacional, social e econômica é assistir melhor à escola. Investir mais no ensino, melhorar e muito o salário dos professores, para que, estimulados, assumam maior compromisso com a educação. Para que se dediquem à reciclagem de conhecimentos, educando-se convenientemente, contribuindo qualitativamente com a escola que a época vem pedindo. Ao capacitar-se melhor, o professor, com mais possibilidades, entenderá que o maior objetivo da escola é fazer o aluno aprender; dar-lhe uma boa formação e não apenas fazê-lo passar de ano, muitas vezes, sem o mínimo necessário de conhecimento.

Bons professores resultam em bons alunos. Os próprios professores da rede pública, quando se trata de colocar os filhos na escola, colocam-nos em escolas privadas. Uma pesquisa realizada pela Unesco, feita com educadores brasileiros, “O Perfil dos Professores Brasileiros”, divulgada em maio de 2004, mostrou que os professores brasileiros, ganhando mal, preferem se sacrificar e pagar escolas particulares para seus filhos que deixá-los em escolas públicas. Mostrou que 54% dos 5 mil entrevistados escolheram pagar pela educação dos filhos. Querem garantir, segundo a pesquisa, uma “mobilidade social” para eles, um futuro melhor daquele  que tiveram. Ponderou Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil, de que “esses professores são a prova de que o investimento na educação tem altíssimo retorno”. Esses professores buscam qualidade de ensino, garantia de evolução social, que não encontram nas escolas públicas.

Um fato auspicioso que vem surgindo é o projeto de política integrada para os jovens. É um projeto que, segundo o ministro da Secretaria Geral da República, Luiz Dulci, vai integrar as políticas para a juventude, desenvolvido por várias áreas do governo, pelo Congresso e pela sociedade civil. Entre as ações que se programam está a reativação do Projeto Rondon. Luiz Dulci diz ser “um projeto totalmente novo, diferente do que era realizado no período autoritário”.

Contudo, o objetivo do novo Projeto Rondon “continuará sendo o de permitir uma integração maior dos estudantes com a realidade das regiões menos favorecidas do Brasil”. É, na verdade, um intercâmbio, onde os jovens levam seus conhecimentos e suas aptidões a outras regiões do País e, de retorno, assimilam novas culturas, ganham novas experiências.

A volta do Projeto Rondon foi proposta pela União Nacional dos Estudantes (UNE), como uma ação voltada para a área da juventude. O primeiro projeto foi criado em 1967, durante o regime militar, e durou até 1989. O propósito era levar estudantes universitários e professores para as regiões carentes do País, visando a realização de trabalhos sociais. Durou 22 anos e dele participaram mais de 350 mil alunos e 13 mil professores. O projeto atual pensa em ampliar a participação; além de universitários, incluir alunos do ensino médio.

O projeto de integração para a juventude quer priorizar ações na área do lazer, tentando combater a criminalidade. Atualmente, 18 áreas do governo têm ações voltadas para a juventude e o número de programas nessa ala chega a 48.

Integrar ações entre os jovens propicia avançar em direção à cidadania, à comunicação social. O projeto Rondon foi no passado uma iniciativa bem sucedida, em que a juventude se sentia útil na prática de ações sociais, desenvolvia a sociabilidade, o senso humanitário do viver, a responsabilidade perante a sociedade, vivenciando as desigualdades regionais. Vale a pena repetir a experiência.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2004)

ALTERNATIVAS PARA O ENSINO PÚBLICO

Izabel Sadalla Grispino *

Escolas de cidades do interior, na busca da qualidade do ensino, começam a empregar metodologia e material didático de escola particular, na rede municipal, dotando-as de sistema didático do ensino privado. Em vez dos livros enviados pela Secretaria de Estado da Educação, essas escolas usam apostilas do sistema adotado.

Pela pesquisa, mais de 30 prefeituras paulistas, que municipalizaram o ensino fundamental, substituem os livros, comprados com os recursos do Ministério da Educação (MEC) pelas apostilas. O MEC envia às prefeituras, que administram a rede de ensino fundamental, livros didáticos e de literatura. São livros avaliados pelo Ministério e títulos escolhidos pelas próprias escolas. No Estado de São Paulo, especificamente, o MEC remete os recursos à Secretaria Estadual, que compra e envia o material.

Nas prefeituras conveniadas a sistema particular de educação as escolas recebem apenas os livros paradidáticos, servindo de apoio às apostilas.

As prefeituras, através de parcerias, firmam contratos com sistemas particulares de educação. Três sistemas da iniciativa privada vêm firmando convênio com as secretarias municipais: o sistema COC, o maior deles, o Positivo e o Objetivo. Além do material, esses sistemas montam o projeto de ensino, encarregam-se de capacitar os professores para o uso do material e fazem o acompanhamento pedagógico das escolas públicas. Os três sistemas fornecem as apostilas às escolas e esse material não passa por avaliações do MEC, nem da Secretaria Estadual da Educação, antes de chegar à sala de aula.

As prefeituras, para as parcerias com o sistema privado, pagam os serviços prestados com uma parcela do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (Fundef). Pela Lei 9.424, que instituiu o Fundef em 1998, 60% dos recursos são destinados à remuneração dos docentes. Os 40% restantes podem ser aplicados na construção, ampliação, reforma de escolas, capacitação de pessoal e compra de material.

Ao que tudo indica, os convênios das prefeituras com os sistemas privados de ensino vêm tendo uma repercussão positiva no conceito da população. Os alunos aprendem mais, os pais sentem-se reconfortados ao saber que o filho usa o mesmo material, recebe o mesmo ensino das boas escolas particulares. O ensino se mostra mais estruturado, mais qualificado e a auto-estima do aluno mais elevada. O método é mais dinâmico e professor e aluno devem se adaptar ao novo ritmo. O ensino médio continua a seguir a metodologia curricular do Estado. A inovação vem sendo processada apenas nos graus inferiores do ensino.

Contudo, o MEC vê esses convênios com alguma reserva. Sugere que se analisem bem as apostilas adotadas para se certificar da qualidade. Também contesta o fato de o treinamento, pelos sistemas, estar ligado ao uso de um material didático. "Preferia uma capacitação na qual os professores aprendessem a alfabetizar e não simplesmente sobre como usar o material”. “Hoje, os prefeitos podem contratar capacitação de universidades públicas que não relacionam seu trabalho com qualquer material específico”, diz o presidente do Conselho Estadual de Educação, Francisco José Carbonari.

A presidente da União dos Dirigentes Municipais, Vera Lúcia Hilst, alerta que o assédio às prefeituras que municipalizaram o ensino fundamental vem sendo constante por parte dos sistemas privados e aconselha: “Há coisas boas e outras nem tanto. Recomendamos que as prefeituras avaliem o conteúdo pedagógico do projeto e vejam se haverá ganhos qualitativos”.

Há prefeituras que rejeitam a parceria por entenderem que os sistemas particulares enfocam muito o trabalho do vestibular, e mais a área de exatas, e deixam a formação do educando mais de lado, como cidadania e educação para a vida. Mas, o que se constata, de um modo geral, é a validade desses convênios, com apurada melhoria da qualidade do ensino. Segundo resultado de pesquisas, eles conseguem elevar o nível técnico e profissional dos professores e obter um resultado mais qualificado do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em dezembro/2002)

A IGREJA FRENTE AO RACIONALISMO CIENTÍFICO

Izabel Sadalla Grispino *

Assistimos hoje a uma reconciliação da Igreja com a ciência. A Igreja mudou de semblante, mudou de postura diante das descobertas da ciência. Em outros tempos, admitir o encontro da fé com a razão era considerado fraqueza, capitulação. O papa João Paulo II lançou, no ano de 2000, a encíclica “Fides et Ratio” (Fé e Razão), onde faz verdadeira apologia da razão. Reabilita os princípios filosóficos e científicos do racionalismo. “Não existe, não pode e não deve haver contradição entre a verdade que Deus nos revela em Jesus Cristo e as verdades pela filosofia. Deus não tem nada a temer com a descoberta progressista dos segredos da natureza. Não existe oposição entre Revelação e Razão, entre Fé e Pensamento, mas uma complementariedade indispensável”.

A Igreja caminha agora com Galileu Galilei, um cientista de sólida convicção religiosa, que dizia “Deus se revela a cada instante na majestade das leis naturais, que só podemos enxergar através da “luneta” da ciência e a ciência, assim, não pode deixar de progredir...”.

Na verdade, Deus não perde terreno com os avanços da ciência e o papa propõe como que um acordo entre fé e razão, num comportamento bem diferente do passado, quando cientistas, considerados hereges, eram excomungados, como as teses de Galileu ou Giordano Bruno, este queimado vivo, em Roma, no ano de 1600. Períodos negros, sombrios da Inquisição, são superados, ficando no passado. A história foi bastante tempestuosa nas relações da Igreja com a pesquisa científica, quando aquela se mostrou hostil às descobertas de novas verdades pela razão. Isso porque muitas descobertas científicas questionavam seriamente as afirmações literais da Bíblia, consideradas, durante séculos, como verdades intocáveis. Por essa razão, os racionalistas ficaram surpresos, quando, em 31 de outubro de 1992, o Vaticano, com a maior seriedade, reabilitou Galileu, nas questões do heliocentrismo. O mesmo em relação às descobertas de Darwin, sua teoria evolucionista, em contraposição à teoria criacionista, da Igreja, em que todas as espécies teriam sido criadas de uma só vez por Deus. Na teoria da evolução, os seres vivos seriam feitos de matéria comum, derivados, em toda a sua diversidade, de uma primeira e única forma de vida, enquanto a gênese e a configuração da arca de Noé nos ensinam que Deus criou, como querem os criacionistas, toda a diversidade das espécies animais ao mesmo tempo.

A crença da Igreja repousa sobre uma revelação que não depende de demonstração científica, do método experimental, porque Deus está além da ciência; impõe uma fé, uma confiança que deve escapar ao exame crítico e à dimensão racional. A ciência, por sua vez, evoluiu; emancipou-se dos limites rígidos do racionalismo cientificista, das formas distorcidas da razão “positivista”, mantidas, ainda, no século de Júlio Verne. O emergir da bioética constrói uma nova cultura e, neste particular, os cientistas estão menos  seguros de si, menos otimistas e menos confiantes que seus antecessores, nos inevitáveis benefícios do progresso. Eles se questionam sobre a moral, sobre o sentido e a sabedoria que convêm às suas descobertas.

Hoje, o Vaticano está menos preocupado com as descobertas da ciência do que com suas repercussões práticas, especialmente no campo das ciências da vida. Faz apelos à ciência e à medicina para que não se esqueçam da dimensão ética, que não se transformem em manipuladores da vida. Pois, se a Igreja não dúvida de Deus, desconfia do Homem que pensa sem Deus. Para a Igreja é indiferente que o Homem tenha surgido do “evolucionismo” ou do “criacionismo”, conforme ela acredita, porque é no momento em que Deus outorga uma alma ao ser humano que ele ganha essa dimensão. Na verdade, não há oposição entre ciência e fé.

A partir de 1860, as teorias de Darwin seriam energicamente condenadas pela Igreja, até que o próprio Darwin foi excomungado. Esse comportamento da Igreja, em relação à ciência, despertou, nos adeptos do racionalismo, uma certa prevenção contra os ensinamentos religiosos, em relação às descobertas do universo. A Igreja católica, reconhecendo seus erros, resolveu celebrar um grande jubileu, no ano de 2000, e numa atitude que muito vem ensinar os cristãos, num exame profundo de consciência, pede perdão pelas falhas ocorridas no passado, pelo abuso de autoridade, decorrentes de erros humanos, falhas humanas, não da Igreja em suas verdades fundamentais anunciadas por Cristo. A Igreja é representada por homens e todos nós, enquanto humanos, somos passíveis de falhas.

O jubileu tem a ver com o perdão, e o grande jubileu, do ano passado, comemorou os 2000 anos do nascimento de Jesus Cristo e sua obra redentora. Comemorou o perdão, o louvor a Deus e a peregrinação.

O perdão foi amplamente comentado pelo papa João Paulo II, que estimulou os cristãos a examinar a história do último milênio do cristianismo e pedir perdão. Mas, ao mesmo tempo, estimulou os cristãos a louvar a Deus, pelos imensos frutos que a fé cristã trouxe à história da humanidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2001)

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO FAVORECENDO A INCLUSÃO

Izabel Sadalla Grispino *

A novela “América” abordou com propriedade e sensibilidade o tema do deficiente. Colocou como um dos protagonistas um deficiente visual, o “Jatobá”, um ser inteligente, que se supera a cada passo, servindo de exemplo e encorajamento na luta pela realização pessoal. Traz constantes inserções do programa do Dudu Braga, “É Preciso Saber Viver”, onde derruba preconceitos, entrevistando deficientes das diferentes áreas, pessoas dotadas de rico potencial e que encontraram ambiente de compreensão e ajuda no desenvolvimento de seus talentos.

A novela vem abrindo a mente, a aceitação, modificando a visão sobre os deficientes. Visitando escolas, conversando com professores, percebi um novo entusiasmo pelo ensino da educação especial.

Já escrevi vários artigos sobre a inclusão do deficiente no ensino regular. Contudo, esse novo olhar me leva a reforçar e a delinear os benefícios já adquiridos pelos portadores de deficiência, que devem nortear consciências e ser estendidos a mais pessoas.

O Brasil vem avançando quanto ao direito da escolaridade das crianças deficientes. A política oficial, já há algum tempo, desde 1996, prevê a inclusão dos portadores de deficiência, na rede regular de ensino. Em agosto de 2001, o então ministro da Educação Paulo Renato Souza, regulamentando a Lei de Diretrizes para a Educação Especial, assinou resolução pela qual as escolas públicas do País deveriam atender estudantes com necessidades especiais.

Essa foi, contudo, mais uma mudança, na estrutura do ensino, imposta a uma rede pública desaparelhada, despreparada para recebê-la. Não se pode esquecer que para se obter sucesso é preciso dar estrutura de aprendizagem, fazer uma inclusão responsável, para não comprometer o avanço dos alunos portadores de deficiência. É muito importante treinar os professores, capacita-los, produzir material de apoio, assim como adaptações de títulos didáticos para o sistema braile. As escolas devem possuir as chamadas salas de recurso equipadas, para facilitar a aprendizagem e possuir professor de braile.

No cumprimento das normas legais, é importante conhecer os seguintes procedimentos:

– A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, no seu art. 4.º, inciso III, definiu como dever do Estado a garantia de atendimento especializado gratuito aos educandos “com necessidades especiais, preferencialmente, na rede regular de ensino”. Sendo na rede regular de ensino, o educador deve receber a capacitação necessária para esse atendimento, lembrando que a política de inclusão exige um professor treinado, capacitado.

– A Lei 7.853, de 1989, obrigou o Estado a apoiar os portadores de deficiência em sua integração social. Leis e decretos definiram normas gerais e critérios básicos para o atendimento às pessoas deficientes. Criou-se, no Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência.

– Através do Decreto 3.956, de 2001, foi ratificada a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiências.

– A Câmara do Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação (Parecer 2/01) definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Especial e o Parecer 17/01 estendeu essas diretrizes para toda a Educação Básica.

– A Lei de n.º 8.213/91 prevê a obrigação de contratar deficientes e abrange empresas com mais de 100 empregados. As cotas variam de 1 a 5% do quadro de funcionários, de acordo com o tamanho das mesmas. Essa obrigação já tem mais de 10 anos, mas sua regulamentação só veio em 1999. Uma ação articulada, em 2004, da Delegacia Regional do Trabalho (DRT/SP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT), trouxe resultados consideráveis quanto ao aumento da contratação.

– Uma resolução de 2003, aprovada pela Assembléia Parlamentar do Conselho Europeu, que agrupa 44 países do continente, determinou que a linguagem dos sinais utilizada pelas pessoas surdas seja reconhecida oficialmente como idioma. O reconhecimento, feito através da inclusão dessa linguagem na Carta das Línguas Regionais e Minoritárias, dá-lhe status de “idioma sem nacionalidade”

O exemplo avança e no resto da Europa há a preocupação de introduzir a língua de gestos nas escolas. Na Irlanda, Reino Unido, França, Espanha, Grécia e Portugal, as autoridades de ensino adotaram programas para estimular professores a aprender a língua dos sinais e a promover a formação de intérpretes.

Esse comportamento deveria se estender a todos os continentes do planeta. As escolas deveriam abraçar, com entusiasmo, a aprendizagem da língua dos gestos, repassá-la aos seus alunos, introduzindo solidariedade e humanização no ambiente escolar.

Deve-se ter conhecimento dos procedimentos para poder aplicá-los. É preciso cumprir na prática o que essas leis determinam; caso contrário, fica no papel e não na realidade.

Que o entusiasmo do momento se fortifique, forme consciência conclusiva e que a escola inclusiva se torne portadora de esperança, de realizações, de concretizações de vida útil aos estudantes portadores de deficiência. Os Jogos Paraolímpicos reforçam o conceito de valorização ao aluno com necessidades especiais. Esses jogos têm demonstrado o quanto esses jovens são capazes, em termos de concentração, de raciocínio, de superação de si mesmo.

Dar apoio que necessita, observar o ritmo, as características de cada aluno, incentivá-lo à participação, são conceitos-chave para o desenvolvimento do potencial do aluno deficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2005)

INCLUSÃO ESCOLAR E SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

Há pouco tempo escrevi sobre crianças com deficiência. Saindo de uma escola estadual, uma mãe abordou-me e em lágrimas pedia que eu escrevesse um novo artigo discorrendo sobre o preconceito que tanto prejudica o aluno deficiente. Relatou-me seu conflito, os problemas que a incompreensão de pais traziam para a sala de aula, onde estudam crianças portadoras da síndrome de Down.

Percebi como realmente a mudança de mentalidade é um processo vagaroso. Ultimamente, muito se tem escrito, muito se tem falado das vantagens, tanto para as crianças deficientes como não deficientes, da inclusão de deficientes em classes regulares. Continua o desafio de superar barreiras sociais na chamada inclusão social, de mesclar deficientes e não deficientes no mesmo grupo de atividades escolares.

Na rede pública, essa experiência começa a expandir-se com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). A proposta contida na pedagogia da inclusão é um passo adiante numa área, ainda, cercada de desinformação e discriminações. Ainda, há pais que chegam a tirar os filhos da escola ao tomar conhecimento que suas crianças fazem atividades com deficientes da mesma faixa etária: temem que a deficiência seja contagiosa e prejudique o rendimento escolar de seus filhos.

Contudo, os downs não têm problemas de comportamento, não representam uma ameaça. É preciso que se reforce a passagem de uma nova imagem, na tentativa de amenizar esse receio social. Os downs não são incapazes, como se pensava, podem desenvolver muito se acreditarmos neles e se investirmos na sua estimulação. Há mais de 30 anos, quando eram chamados pejorativamente de mongolóides e confinados, longe dos olhares públicos, não tinham chance de aprender, tinham vergonha de si mesmos. Essa triste figura deu lugar a uma notável reabilitação. Eles são estimulados desde pequeninos, andam, falam, vão à escola, aprendem, estão chegando à faculdade e surpreendem pais e professores, derrubando os próprios limites. Não trabalham apenas em oficinas fechadas. Desenvolvem-se bem em muitos setores da economia, podendo exercer sua cidadania, não só por direito, mas por capacidade.

A determinação de incluir deficientes físicos e mentais nas escolas regulares já era lei na França em 1975. Lá, como aqui, os primeiros anos de prática de inclusão foram cheios de incertezas e desculpas. Porém, os limites vêm sendo quebrados a cada ano. Não se pode, entretanto, para remover obstáculos, deixar de ajustar a formação dos professores. Na França, quase 100% dos portadores de síndrome de Down estão em escola maternal e cerca de 75% freqüentam o curso elementar, após o qual seguem para os profissionalizantes.

As crianças com deficiência passam por um período de integração em que fazem atividades entre si e depois são agrupadas às classes comuns. Conforme já se constatou, a segregação de estudantes com problemas físicos e mentais em classes especiais é improdutiva, vivem em ambiente limitado e criam dimensão errada do mundo. Elas ganham muito com o convívio social.

Conduzir uma classe assim heterogênea é tarefa delicada. O plano de ensino de uma classe comum tem que ser ajustado para não imobilizar a criança com deficiência. O professor tem de estar convicto de que vale a pena investir nessa criança  para não discriminá-la.

As deficiências vão desde o comprometimento físico ou intelectual até o desenvolvimento diferenciado. As escolas públicas têm demonstrado resultados positivos em casos de deficiências leves e moderadas. Se o comprometimento for profundo ou se a criança não tem condições de atender a orientação coletiva, a prática se torna inviável. A escola regular não tem condições de atender as crianças que não estão aptas a um mínimo de interação.

Há comprovadamente estímulo na convivência de grupos heterogêneos. Numa classe especial, o diferente tem no professor o único exemplo, faltam elementos para o conhecimento real dos códigos sociais. Não deve ficar num mundo à parte, em classes regulares ele aprende a conviver com outras pessoas, ajustando-se melhor à sociedade.

Os portadores de deficiência têm ritmo próprio, não oferecem as mesmas respostas das demais crianças ao processo de aprendizagem. Apresentam desenvolvimento mais lento, mas aprendem. Às vezes, ficam em classes de faixas etárias mais baixas para poder acompanhar o progresso. O professor precisa reconhecer as limitações e garantir qualidade de aprendizado até onde conseguirem. Ele tem um papel fundamental no  entrelaçamento do processo num grupo heterogêneo. Não pode amedrontar-se, ficar tocado emocionalmente ou demonstrar sentimento de pena. Tem mais é que se capacitar, interessar-se, buscando informação a respeito.

Tanto os pais, como os professores precisam de assessoramento contínuo de pessoal especializado. O ideal é que o número de alunos, em classe, não passe de 18. Os benefícios entre pessoas diferentes são mútuos. A presença de alunos deficientes gera, entre todos, respeito e colaboração. Os alunos desenvolvem valores de natureza ética imprescindível para o processo de educação. As crianças normais crescem sabendo que existem diferenças e aprendem a respeitar isso. A inclusão estimula, inclusive, processos de ensino e aprendizagem. Um deficiente auditivo, por exemplo, pode levar os colegas a aprender a linguagem de gestos, favorecendo trabalhos de mímica, de interpretação teatral.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2003)

O EXAME VESTIBULAR

Izabel  Sadalla  Grispino *

O exame vestibular continua sendo o grande processo de seleção ao ensino superior, o que responde, ainda, pela formação de calouros nas universidades públicas. É um processo que acaba por discriminar as classes populares, revelando o desnível existente entre a boa e a má educação.

O vestibular já se firmou como a oportunidade dos bem-nascidos, como o trampolim da elite para o melhor do ensino superior. Ele se constitui na última etapa de uma seleção que começou bem antes, na aprendizagem das primeiras letras. Seu afunilamento é preenchido por alunos que receberam a melhor educação, que freqüentaram a melhor escola. Ele é um termostato de todo o conhecimento adquirido anteriormente. Não é, pois, o 3.º ano do ensino médio, ou o próprio ensino médio que aprova ou reprova o candidato no vestibular. Ele, também, não é uma tentativa tão aleatória, como querem alguns, chegando a classificá-lo como um jogo de sorte ou de azar. A um professor do 3.º ano do ensino médio não é difícil prever quem passará na 1.ª tentativa, quem conseguirá na 2.ª e quem nunca chegará lá.

A “Folha de S. Paulo”, em 1999, denunciava o fracasso dos estudantes da rede pública no vestibular da Fuvest. Nesse vestibular, a rede pública teve o pior desempenho da USP. O perfil socioeconômico, traçado pela FUVEST, que faz levantamento de dados desde 1977, mostra que a grande maioria dos alunos freqüentou escola particular e pertence à classe média/alta e que os alunos da rede pública estão desaparecendo da Universidade de São Paulo. Em 1977, 57,3% dos novos alunos vinham da rede pública e 29,3% das escolas particulares. No ano de 1999, 62,4% dos calouros cursaram o 2.º grau em colégios privados e apenas 20,7% não pagaram pela educação secundária.

A queda tem sido gradual e contínua. Os resultados dos últimos 5 anos são preocupantes, em termos de probabilidade de extinção desse alunado na USP – tal o grau de decadência do ensino público. Entre 1993 e 1998, houve uma queda de 12 pontos percentuais; alunos vindos de escolas públicas passaram de 32,5% do total de novos alunos para 20,7%. Presentemente, o alunado que sai da escola particular entra na universidade pública; o que sai da escola pública só consegue entrar na universidade particular. Um contra-senso. Uma distorção da realidade socioeconômica da população, provocada pela desigualdade cultural. Nessa conjuntura, escola particular tornou-se, praticamente, “pré-requisito” para entrar em uma universidade pública e esta – a melhor do País, a que oferece melhores empregos do mercado de trabalho – fica reservada aos ricos.

Há, ainda, um outro ponto a considerar nesta desigualdade. Investe-se no ensino fundamental, o que é muito louvável e caracteriza um avanço, mas deixa-se no vazio a educação infantil, denominada de pré-escola. É, aí, nesta fase inicial de estimulação às primeiras aprendizagens que se inicia a grande defasagem cultural das classes menos favorecidas. É aí, nesta faixa etária, que as crianças de famílias de baixa renda ficam, costumeiramente, de fora.

A pré-escola sociabiliza, desenvolve mais habilidades, melhora o desempenho escolar futuro, propiciando à criança resultados superiores ao chegar ao ensino fundamental. A educação infantil é o verdadeiro alicerce da aprendizagem, aquela que deixa a criança pronta para aprender. A ausência desse ensino, pelas crianças pobres, completa o ciclo da desigualdade escolar dessas crianças, futuros adultos, futuros concorrentes à marginalização profissional.

Felizmente, a preocupação com a pré-escola começa a ganhar força na área governamental. Em São Domingos, capital da República Dominicana, de 10 a 12 de fevereiro do ano 2000, realizou-se, com a participação de representantes dos ministérios da Educação da América Latina e do Caribe, além dos Estados Unidos e Canadá, a “Reunião das Américas para Avaliação da Educação para Todos”. O documento “Marco de Ação Regional”, elaborado por técnicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e do Banco Mundial, sintetizou as decisões, nas quais foi ressaltado o investimento na pré-escola, considerado como a nova prioridade em todas as ações educacionais nas Américas. O documento concluiu que a “insuficiente atenção ao desenvolvimento integral das crianças na 1.ª infância era o principal responsável pelas “altas taxas de evasão e repetência” na escolaridade básica. A prioridade de investimentos na pré-escola deve ser a 1.ª, dentre as outras, por garantir o direito universal de uma “educação de qualidade desde o nascimento”.

Considerou-se que os investimentos   devem contar com ampla participação social que assegure a transparência e devem ser descentralizados. Os governos aceitaram, também, o compromisso de que “os docentes têm lugar insubstituível na transformação da educação”. O uso dos novos recursos didáticos e tecnológicos na Educação não substitui o professor. A Unesco mostrou preocupações com a melhoria da formação docente, considerando que a valorização da profissão docente está associada à “melhoria das condições de vida e trabalho” do educador. Ainda, pelo documento, os governos assumiram o compromisso de “converter políticas assistencialistas em políticas de promoção de capacidades das pessoas”. O que seria extremamente louvável, pois deslocaria da escola o foco assistencialista, passando para o da competência.

Enquanto persistirem, em grau significativo, as desigualdades educacionais, acarretando desigualdades sociais, permanecerá, com raras exceções, a elite no comando do País. Perpetua-se no poder, desde a época imperial, apesar da propalada democracia, a classe abastada, dominando pelo dinheiro e pela cultura.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2001)

A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

CONTEXTUALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Um dos aspectos que vem se tornando ponto pacífico na metodologia educacional é a contextualização do currículo. A educação contextualizada vem sendo observada em todos os graus de ensino e em todas as regiões do País: o ensino aproximando-se da cultura, da região, de quem aprende. É o ensino se revestindo da identidade de seu aluno.

O currículo apresenta termos locais, como costumes, moradias, famílias, artesanatos, comércio, agricultura, literatura e outros. Os livros didáticos passam a levar em consideração características regionais, bem mais que universais.

Os educadores sabem que não se explica, por exemplo, a maré para uma comunidade de pescadores da mesma maneira que se ensina para crianças de uma região afastada de rios e de pesca. Assim, as crianças recebem material para diferentes realidades, diferentes situações.

Os livros didáticos de hoje observam região, cultura e etnias. Observam a realidade concreta do aluno, estimulando a aprendizagem. A educação contextualizada dá sentido às áreas do conhecimento. O aluno acaba entendendo o motivo de estar aprendendo determinado assunto e passa a se interessar por ele, a tomar gosto pelo estudo. A escola dessa maneira passa a usar uma boa estratégia de inclusão, aborda o preceito “conhecer para valorizar”.

Vários são os exemplos de contextualização da educação, de escolas que buscam na sua realidade idealização de projetos, que englobam aspectos sociais vividos por seus alunos. Uma escola municipal da cidade de Curitiba acolheu idéias de alunos e adotou o hip-hop, integrando-o à rotina escolar.

Alunos que apresentavam dificuldade no aprendizado, alunos que engrossavam a lista da evasão e da repetência, passaram a ser objeto de atenção por parte da escola. Eram grupos de alunos que se interessavam pela dança, eram dançarinos de rua, fugiam da escola para dançar com os colegas, nas praças do bairro. Na escola eram indisciplinados, impacientes, desinteressados, porém, na dança se revelavam exatamente o contrário. A escola, mudando de estratégia, passou a apoiar os alunos dançarinos, entender a sua dança, descobrindo belezas nesse dançar, nos movimentos de cabeça, nos contorcionismos e nas letras de seus raps, que eram uma forma de crítica social. Percebeu uma música sincronizada com os movimentos corporais. A escola deu a esse grupo o direito de ensaiar as coreografias no pátio. Eles mesmos realizaram os grafites que ilustram a escola e as camisetas do grupo.

Esses alunos ao se sentirem compreendidos em seus ideais, valorizados no seu potencial, desenvolveram auto-estima e passaram a estudar mais. Entusiasmaram-se porque sabiam que tinham um espaço e hora para dançar. Coordenar a dança com os estudos foi a grande motivação para que não abandonassem a escola e se tornassem bons alunos. Uma das cláusulas do projeto era de que só permanecia no grupo quem freqüentasse as aulas e tirasse boas notas. A música e a dança os encaminhavam para a realização também nos estudos.

A direção da escola entendeu, inteligentemente, que deveria trazer para dentro dela o que mais gostavam de fazer fora dela. A escola colocou-se com competência, utilizando-se das músicas, que privilegiam temas sociais, que combatem a discriminação, que passam ensinamento sobre sexualidade, drogas e educação, para orientar, para ensinar valores, comportamentos sociais saudáveis. O movimento hip-hop passou a ser um escudo contra o mal, contra o mundo das drogas e do vandalismo.

A escola encontrou uma forma de ajudar e de mostrar uma realidade que caminha junto com a cultura popular, extraindo dela ensinamentos gerais. O grupo de dançarinos passou a ser convidado a se apresentar em eventos da cidade, elevando o nome da escola.

Competência e motivação dos professores são fundamentais para o sucesso de suas programações, de seus projetos normais ou alternativos. O modelo de educação hoje é aquele que se aproxima do contexto escolar, modelo moderno, condizente com a realidade das cidades, onde não se pode desconsiderar os altos índices de criminalidade da infância e da adolescência, os altos índices de envolvimento dos jovens com a droga, com a violência. O aluno, na escola, aprendendo, divertindo-se e desenvolvendo suas tendências, ficará preso a ela, afastando-se das más influências da rua.

A escola contextualiza quando retrata sua comunidade, observa aptidões, torna-se solidária, participando dos problemas mundiais. Leva para o currículo assuntos de relevância social. A didática para a modernidade aborda a teoria construtivista, a teoria sócio-interacionista, que vê o indivíduo como resultante de um processo sócio-histórico, resultante do meio em que vive. Deixá-lo se desenvolver no seu meio, de acordo com seu potencial, é um de seus grandes primados.

O currículo contextualizado passa a imagem da própria vida, a aprendizagem é extraída das situações encontradas. A escola cria projetos que vão de encontro ao perfil do aluno, de suas características, despertando assim seu interesse, atraindo-o ao ensino. Ela está sempre aberta a novas táticas de abordagem. É uma escola que atua de forma integrada e responde aos anseios dos alunos, desenvolvendo suas competências e habilidades, responde aos anseios da comunidade; integra-se e ajusta-se à sua clientela.

A escola é uma instituição receptiva, não uma ilha isolada. Compartilha da vida de seus alunos, da vida social. A contextualização leva à resolução dos problemas do dia-a-dia e coloca os objetivos do ensino próximos da sala de aula.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em julho/2005)

AO JORNAL “A CIDADE”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “A Cidade”, deste valioso instrumento de comunicação que Ribeirão Preto aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, há, exatamente, um ano, venho publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporcionou-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade ribeirão-pretana, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Neste ano que se finda, propus-me a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional das escolas oficiais.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Inúmeros conceitos nele passei, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “A Cidade” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e ilumine a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Ribeirão Preto, já é tradicional, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “A Cidade”, que beira um século de existência, nas pessoas da família Camargo, de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população. O jornal “A Cidade” cresce com Ribeirão e com ele se faz pioneiro na região. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente de que é marca  consagrada.

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Ribeirão Preto. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos. A todos, meus versos sobre o Terceiro Milênio.


TERCEIRO MILÊNIO, ANO 2001

Izabel Sadalla Grispino

Surge um novo milênio, uma outra aurora,
A ciência comprovando Jesus,
Ventos do infinito indicam que agora
É chegada a hora de viver a luz.

Demos um salto para o espiritual,
Conciliamos ciência e fé,
Confraternizamos real e virtual,
A razão se achegou à Santa Sé.

A face de Deus deixa o lado escuro,
Terceiro milênio é porta de frente,
Mostra o claro que vem pelo futuro,
Ressalta o homem na alma e na mente.

Que saibamos entender o momento,
Que em coro, rezemos à Mãe Maria,
Ligando oração e comportamento,
Livraremos o mundo da orgia.

O homem terá um novo semblante,
Virá aterrorizante avanço,
A ciência criando um semelhante,
A bioética entrando em balanço.

A todos vocês, queridos leitores,
Que esse dois mil e um lhes seja risonho,
Caminhos abertos, muitos amores,
Que se realize seu mais lindo sonho.

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2000)

NO VESTIBULAR, SÓ PORTUGUÊS E MATEMÁTICA!

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando a abordar as propostas de mudanças, uma outra recente inovação do ministro Cristovam Buarque é mudar o processo seletivo nas universidades e faculdades brasileiras. Pela proposta, não importa o curso, o vestibular teria somente as disciplinas português e matemática. “Quem souber matemática e português aprende qualquer coisa. Para cursar a universidade, o aluno não precisa saber tudo de biologia, química ou geografia. Isso ele aprende lá dentro. Dependendo do curso, a pontuação seria diferente nas provas de português e matemática. Para quem vai fazer Jornalismo, é mais importante português, para quem vai fazer Física, matemática”, expôs o ministro. Cristovam Buarque apresentará a proposta aos reitores, mas as universidades têm autonomia para escolher seu processo seletivo.

Esse sistema de avaliação caminharia em consonância ao Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), realizada pelo Ministério, que só testa os conhecimentos em português e matemática dos alunos. Atualmente, os vestibulares das maiores universidades do País exigem o conhecimento geral do aluno, abordando questões de todas as disciplinas do ensino médio. A prova de redação é obrigatória.

Críticas a essa proposta vêm surgindo no sentido de argumentar, como foi feito na proposta de mudança do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ser a educação básica um ingrediente da formação integral do aluno, onde todas as disciplinas são importantes, cada uma com sua contribuição peculiar. A multidisciplinaridade alcança mais facilmente a potencialidade do aluno, desenvolve melhor suas faculdades mentais, além de fornecer uma visão globalizada do assunto tratado. Reduzir o vestibular a duas disciplinas, português e matemática, significa esvaziar as demais, reduzir a quantidade de informações, prejudicando, sobremaneira, a formação básica geral.

O estudante do ensino médio tem no vestibular um guia que regula sua dedicação às disciplinas. Vai, certamente, deixar de dar atenção maior a biologia e a química, por exemplo. E, como fica cursar uma faculdade de Medicina ou de Farmácia sem uma boa base, uma boa formação nessas disciplinas? O mesmo ocorre na defasagem de física, química ou desenho para a faculdade de Engenharia, ou história e geografia, nos cursos correspondentes.

Uma outra inovação seria ampliar o ensino médio de 3 para 4 anos. A proposta do MEC é oferecer um 4.º ano em que as matérias, dependendo da escolha da profissão, seriam dadas em função da opção do aluno. Cursar ou não essa 4.ª série, também uma opção do aluno. As escolas ficariam com a obrigação de oferecer a complementação a todos os que quisessem cursá-la.

Este projeto, igualmente, vem recebendo críticas. Nas condições em que se encontra o ensino público, um ano a mais não resolveria o problema, só o arrastaria para mais um ano. Levar para um 4.º ano o mesmo padrão de ensino dos anos anteriores significa, dizia eu no artigo “Mais um ano para o ensino médio”, simplesmente, repetir a façanha da decadência do ensino-aprendizagem. Educadores reforçam essa posição, na constatação de que o despreparo do aluno é resultado da qualidade e não da quantidade, tanto que Antonio Ibãnez Ruiz, secretário da Educação Média e Tecnológica, pronunciou-se dizendo que a oferta do 4.º ano deve ser obrigatória nas escolas públicas, as escolas particulares podem ficar isentas porque “o bom nível de ensino oferecido por elas faz com que o aluno não sinta a necessidade de uma série a mais”.

O foco do problema reside na melhoria da qualidade do ensino, não só do médio, mas da educação básica, como um todo.

Está havendo, por parte do sindicato dos professores da rede estadual de ensino, manifestação contra a municipalização do ensino, que, desde 1996, transfere escolas do Estado para as prefeituras. O repasse se dá apenas no ensino fundamental (1.ª à 8.ª série). O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), instituído em 1998, facilitou o processo de municipalização do ensino, com a transferência de recursos.

A municipalização do ensino está respaldada pelo parágrafo 2.º do artigo 211 da Constituição Federal, que determina: “Os municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e pré-escola”. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), definindo responsabilidades, diz que “os municípios deverão oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas e, com prioridade, o ensino fundamental”, os Estados encarregar-se-ão de assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio”.

A reivindicação do sindicato baseia-se, conforme expressão de seus representantes, no fato de “os municípios arrecadarem menos e não ter condições de manter o ensino fundamental”. Contudo, a municipalização já se encontra bem estruturada, adotada em mais de 80% dos municípios. É um sistema aceito pela sociedade, que traz reais vantagens ao ensino, especialmente pela aproximação da escola com a comunidade. A escola estando mais próxima da administração favorece a comunicação entre elas, enseja a participação dos pais e da comunidade em tarefas de cooperação e fiscalização.

É importante discutir as políticas de mudanças anunciadas para uma definição mais precisa, mais contundente das mesmas. São elas apenas modismos desnecessários, sem peso funcional, ou procedimentos capazes de resgatar processos desarticulados, superados ou inadequados?

É preciso investir, com acerto, sem gastos desnecessários, na educação pública brasileira, mantendo estratégias que atinjam a má qualidade de ensino e que evitem reproduzir, dentro das salas de aula, formandos analfabetos funcionais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2003)

O LIVRO DIDÁTICO E O ORÇAMENTO FAMILIAR

Izabel Sadalla Grispino *

Início do ano letivo. Volta às aulas; a família mobilizando-se, replanejando-se, ajustando horários e orçamento. A compra do material escolar, em especial dos livros didáticos, onera-a. Solicitada a falar a respeito, em termos de colaboração, sugiro procedimentos já mantidos com sucesso por algumas escolas.

Quando se trata de escola particular, muitas são as queixas dos pais, em relação ao livro didático. Nas escolas da rede oficial a situação é mais branda, os alunos, no ensino fundamental, recebem gratuitamente os livros. Estes devem ser mantidos por um prazo mínimo de três anos, sendo absolutamente condenada a sua troca freqüente.

O aluno, por sua vez, é orientado a cuidar bem do livro, encapá-lo, de preferência com capa grossa, mantê-lo limpo, não rabiscá-lo, fazer os exercícios, não no livro, mas no caderno. Deve preservá-lo porque, ao passar para a série ou agrupamento subseqüente, esse livro permanecerá na escola e irá servir a outro colega da série correspondente. O aluno é conscientizado de que o livro não é, propriamente, dado e, sim, emprestado.

O mesmo procedimento verifica-se nos intercâmbios culturais, como o high school, nos Estados Unidos. O aluno, ao ir para uma escola estadual, vai encontrar um armário com todo material didático pronto, incluindo os livros, deixado pelo colega antecessor. Cabe-lhe, agora, a responsabilidade de zelar pelo material, deixando-o da mesma forma, em ordem, para o sucessor.

Quanto às escolas particulares, no que concerne ao livro didático, são constantes as reclamações dos pais, pelos gastos excessivos a respeito. Reclamam que, na grande maioria, os livros adotados, pelas escolas, sofrem trocas freqüentes. Os filhos que estudam na mesma escola, com diferença escolar de dois ou três anos, dificilmente aproveitam o livro do irmão.

Como ajudar, nesse sentido? O que propor para tornar o livro mais acessível? Inicialmente, que a escola tenha o cuidado de escolher um bom livro didático. Livro de apresentação estimulante, de conceitos corretos, pertinentes, de experiências abertas que permitam espaços à introdução de assuntos do momento, das questões do cotidiano do aluno, da sociedade, num trabalho de contextualização e de interdisciplinaridade. Livros com exercícios práticos, onde se possa exercitar o método construtivista, com conteúdos relacionados, com conceitos básicos que serão trabalhados, em sala de aula, de forma diferente, de acordo com o nível encontrado.

Um livro bem formulado deixa abertura para as eventualidades, não sendo necessário trocá-lo freqüentemente, com a argumentação da sua atualização. Princípios e normas não se alteram rapidamente. A gramática normativa da Língua Portuguesa não sofre alterações a dezenas e dezenas de anos. Os conceitos essenciais da Matemática, da Ciência, ou da História, vêm sendo aplicados de longa data. Acresce-se, ainda, que o livro didático é apenas uma ferramenta a mais nas mãos do professor. Ele é um material instrucional de valiosa ajuda para o seu plano de trabalho, um bom suporte operacional; importante sim, mas não absoluto. Deve conter o primordial, o arcabouço didático-pedagógico a ser recheado conforme as circunstâncias apresentadas.

Tendo em vista as reclamações, a escola deveria colocar como um de seus objetivos facilitar a aquisição do livro didático. Escola particular nem sempre significa ser freqüentada por alunos de famílias abastadas. Ao contrário, uma boa parte de sua clientela provém de famílias que arcam com dificuldade com as despesas escolares. São pais que mantêm a perspectiva de um bom futuro para o filho, sabendo que isso raramente encontrará nas precárias escolas oficiais.

A grande força de atração da escola está, indubitavelmente, na qualidade de ensino que ela oferece. Contudo, ao lado do qualificado padrão, há o atrativo da organização, voltado ao atendimento humano de sua clientela. Hoje, com o espírito crítico mais evoluído, os próprios pais se encarregam de divulgar, de propagar os aspectos positivos da instituição.

Esse prisma do livro didático é uma oportunidade a mais para a escola educar para a responsabilidade, para a organização, para o senso de ordem. Poder-se-ia pensar num processo paralelo às escolas oficiais, o aluno sendo orientado para a preservação do livro, nas linhas acima mencionadas, com a diferença de que não seria para doá-lo, mas para vendê-lo. Vendê-lo-ia por um preço bem mais convidativo, em livrarias da cidade, onde já, há algum tempo, se comercializam livros usados e das quais muitos pais se servem. Poder-se-ia, também, pensar num banco do livro, na própria escola, facilitando o processo.

Se houver entusiasmo, por parte do professor, se a comunicação fluir bem, esse entusiasmo passará ao aluno que, motivado, se sentirá um coadjuvante da economia familiar. Educar-se-á para a disciplina, para a responsabilidade coletiva na racionalização dos gastos, o aluno aprendendo a dosar, a dividir, a somar esforços na busca de soluções.

Crianças e jovens que têm as coisas fáceis serão adultos displicentes, autoritários, de uma exigência que tudo pede e nada ou quase nada dá em troca. A escola trabalharia conceitos, como o preconceito da coisa usada, desmobilizando o status do poder advindo do dinheiro, desfazendo preceitos falsos de propriedade. Não é mais quem tem mais, é mais quem sabe ser mais – correlação do ser e do ter.

Esse aspecto pode se reverter na propositura de fazer o aluno vivenciar a cidadania, alargando, no amanhã, a visão do contribuir, do comportamento solidário em âmbito da sociedade. Tal procedimento agradaria aos pais e teria um bom alcance educacional na formação do educando.

Também, nas séries mais avançadas, no ensino médio, um curso bem planejado, bem estruturado, montado e ministrado por um corpo docente competente, poderia ser oferecido, aos alunos, apostilado, barateando o produto.

É importante que a escola reflita a respeito, que compatibilize a situação, valorize a posição da família e que caminhos sejam encontrados de modo a favorecer a gregos e troianos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2001)

DIFERENÇAS NO SISTEMA DE COTAS RACIAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Parece estar surgindo um novo raiar quanto à consciência da questão de cotas raciais. Começa-se a entender a interferência negativa que elas provocariam na qualidade do ensino, atrapalhando o processo da igualdade social. “A educação é o grande fator de desigualdade na sociedade brasileira”. (Simon Schwartzman)

Tem, sim, que haver políticas afirmativas em direção às minorias, aos pobres, aos negros, aos índios. Mas, políticas que vão de encontro à qualificação profissional e não a um remendo instrucional. As cotas têm, sem dúvida, chamado a atenção sobre as camadas mais carentes da população, sobre a necessidade de estas camadas  ascenderem-se socialmente.

Elas não são, porém, caminho revitalizador. Dissemos, no artigo anterior, do reforço educacional que se deve dar à educação básica do aluno pobre, capacitá-lo para o exercício da função escolhida, do fator mérito que se impõe para o ingresso ao ensino superior. Boa escola é o que está faltando aos pobres.

As convicções a respeito das cotas não se firmam. As universidades divergem quanto à sua aplicação. Não há uma regularidade no sistema de cotas. Cada instituição dá a sua versão. No fundo, falta credibilidade ao processo.

A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira universidade federal do País a adotar  o  sistema  de  cotas raciais, antes mesmo de o Ministério da Educação (MEC) definir como seria sua aplicação. Desse modo, terminou por adotar critérios diferentes do que pretende o MEC. Um desses critérios é não levar em conta a renda do candidato ou o fato de ter ele estudado ou não em escolas públicas. Entendeu a Universidade de Brasília (UnB) que os negros estão principalmente entre a camada mais pobre da população. Por essa razão, as cotas raciais automaticamente beneficiam quem mais precisa. Outro item, estabelecido pela UnB, é de que o seu sistema não é para afrodescendentes, mas para brasileiros que tenham o genótipo dos negros, isto é, aparentem fisicamente ser negros.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) elaborou o Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social. Pelo Programa, os candidatos que cursaram o ensino médio em escola pública terão um bônus de 30 pontos no vestibular da Unicamp. Eles serão somados à média da prova da 2.ª fase. O propósito é aumentar, em pelo menos 27%, o ingresso dos estudantes da rede pública nos cursos de graduação. Negros, pardos e indígenas autodeclarados ganharão mais 10 pontos, somando 40.

O reitor da Universidade diz que “não é cota, trata-se de uma ação afirmativa para incentivar e facilitar que estudantes de escolas públicas entrem na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)”. Estima-se que o número de aprovados vindos de escolas públicas aumente dos 30,3% registrados no corrente ano para 38% em 2005. O projeto prevê, também, que seja ampliado o número de bolsas para estudantes carentes.

O governo federal, contudo, insiste na adoção de cotas raciais para negros e índios. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai enviar ao Congresso projeto de lei para garantir a reserva de metade das vagas das universidades federais a alunos que concluíram o ensino médio em escolas públicas.

Os reitores das universidades mostram-se cautelosos. O reitor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ulysses Fagundes Neto, considerou que 50% de reservas de vagas na universidade constituem uma tragédia. A instituição tem cerca de 300 vagas a cada vestibular e já aprovou projeto de cotas para negros e estudantes de escolas públicas, mas com percentual de 10%.

São poucas as universidades públicas no País que adotam o sistema. Estatísticas falam que em 2003 só três estabelecimentos tinham uma política de cotas. Este ano, surgiram mais dois. O Ministério da Educação revela que, atualmente, 41,8% dos estudantes que se formam em universidades federais cursaram o ensino médio em escola pública. Nesse percentual, entretanto, existem grandes diferenças regionais. Nos Estados do Norte e Nordeste, onde há poucas universidades privadas, esta taxa passa dos 50%, enquanto que na Universidade de Brasília (UnB) apenas 30%, dos 25 mil alunos, vieram de escolas públicas. Há ainda a registrar que a concentração de estudantes carentes está em cursos de licenciatura; estudantes que vêm de escolas particulares conseguem vencer as concorridas vagas de Medicina, Engenharia, Administração, Direito, entre outras.

As universidades, preocupadas, estão se revestindo de cautela para que a inclusão não venha piorar a qualidade de seu ensino, a qualidade de ensino voltada à parcela da população de renda mais baixa. O melhor instrumento de inclusão seria expandir o número de vagas, principalmente dos cursos noturnos, e valorizar a escola pública, investindo no ensino médio e na educação básica como um todo.

Milagres no terreno educacional não existem. Ou se tem uma boa estrutura para se avançar ou se fica à margem da sociedade. Um diploma que não qualifica leva igualmente à exclusão social.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2004)

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