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Artigos Educacionais

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A GESTÃO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A gestão escolar vem, cada vez mais, se ressaltando dentro da organização da escola. A qualidade da gestão tem respondido pelo bom desempenho dos alunos.

Economistas de renome, como Naércio Menezes Filho, da USP e do Ibmec, cruzando os dados dos resultados do último exame do Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) e da Prova Brasil, constataram que alunos tiveram o mesmo desempenho, apesar da expressiva diferença na quantidade de recursos destinados ao setor educacional entre os municípios analisados.

Muitos municípios, por terem uma gestão eficiente, mesmo gastando pouco, obtiveram mais retorno no investimento dado à educação que municípios que gastaram mais, tendo, porém, escolas mal geridas. Conclui-se, assim, que o desempenho escolar não é determinado apenas pelo orçamento, mas, principalmente, pela eficiência na administração das escolas. Conclui-se da necessidade de uma profissionalização da gestão, com cobranças de resultados. De um gerenciamento, que acompanhe e monitore o processo educacional, levando à elaboração, pela unidade escolar, de projetos que definam o que os alunos devem aprender.

Pesquisadores educacionais pronunciam-se por uma definitiva profissionalização na gestão escolar para se chegar a uma necessária revolução da educação Querem passar, entre os educadores, a idéia de que a educação é um serviço e que seus representantes devem prestar contas de seus resultados.

Reforçam o conceito de que um dos graves problemas da educação é a falta de gestão. Com isso, chamam a atenção da gestão escolar obtida na base da meritocracia e nunca pela indicação de partidos políticos, de lideranças comunitárias, ou de sindicatos, como acontece em muitos municípios.

A função de gestar deve recair, necessariamente, em profissionais capacitados. A qualidade da gestão escolar tem sido responsável pela melhora na apresentação de projetos escolares, na elaboração de plano de metas.

Uma gestão compartilhada entre escolas e secretarias de educação é capaz de refletir mudanças significativas no resultado da educação. Cada escola, dentro de sua autonomia, elabora seu projeto, definindo o que os alunos devem aprender. Não se trata mais de conduzir o ensino, seguindo apenas o livro didático e ensinar o que o professor acha que deve ser ensinado. É apoiar-se na necessidade do grupo-classe e conduzir a aprendizagem estabelecendo metas e ações.

Toda mudança na escola deve vir acompanhada de opiniões dos pais dos alunos, deve, com eles, ser discutida e concluída. A importância da participação da comunidade, na definição dos rumos da escola, é um aspecto bastante considerado na moderna gestão escolar. Outros aspectos, como o uso racional dos recursos e a melhora no desempenho do aluno, fazem parte de um plano, onde entram conselhos gestores das escolas.

Tenta-se, por diversos caminhos, desvendar o fracasso do sistema educacional, na mira de mudanças.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em maio/2007)

HOMENAGEM ÀS MÃES

Izabel Sadalla Grispino *

Hoje, 2.º domingo de maio, rendo minhas homenagens à figura insubstituível de mãe. Às mães de todas as raças, de todas as cores, de todas as crenças. Às mães de trabalho braçal, trabalho doméstico, intelectual ou de entrega espiritual.

Estendo minhas homenagens a toda mulher, porque todas são mães, pela própria compleição humana, pela capacidade de amar, de se doar, de lutar pelo semelhante.

Rendo homenagem especial às valorosas mães, que se conscientizam do importante papel que exercem na formação da sociedade, através da educação que dão aos filhos. Delas dependem, sobremaneira, a construção de um mundo mais ordeiro, mais participativo, mais igual, menos injusto. “A mulher foi cunhada para essa missão,/ Ser mãe é sentido pra vida,/ No filho, alcança a cosmovisão,/ A sociedade ergue com sua cria”, disse eu na poesia “Instinto Maternal”.

Homenageio as mães que não deixam de se ilustrar, estudando, aprendendo, porque, melhor se encaminhando, pode melhor encaminhar o filho, ambos sintonizados com o momento atual da sociedade, com a modernidade, podendo servir de alavanca para o futuro.

Homenageio as mães que não hesitam em dizer não, mesmo que o coração lhes esteja dizendo sim, impondo limites às situações.

Homenageio, com fé e fervor, as mães que colocam os filhos na estrada da religiosidade, dando, na própria pessoa, o exemplo de solidariedade, de amor ao próximo.

O adulto feliz é o resultado da criança amada que foi, e, em contrapartida, o adulto rebelde, desajustado, o resultado do seu contrário. A mãe é a célula-tronco que sustenta o filho na caminhada. É ela, até a sua maturidade, o seu esqueleto emocional, o prumo que o mantém erecto, autoconfiante. O zelo, o amor, a compreensão elevam a sua auto-estima, que, em decorrência, o faz um ser realizado.

Você, mãe, é a fragrância diluída pela casa, o grão fertilizador, que Deus espalhou pela terra, para que ela perdurasse e tivesse continuidade. A sua presença modifica o ambiente, enriquece-o. Na escola do filho, por exemplo, ao estar presente, ao participar de suas atividades, está favorecendo a sua aprendizagem. Você é a melhor parceira do ensino ministrado pelos professores, a grande aliada do sucesso escolar do filho.

Cuidar da mãe, antes de cuidar do filho, é um pensamento renovador, para que a estrutura flua sólida, consistente. Ela pode ser caminho de crescimento, de estagnação ou de regressão. Só a árvore  aguada, bem adubada, produz frutos sadios. O dia das mães é um dia de festa, mas também de meditação para toda a família. Os filhos, por sua vez, devem cogitar em como colaborar, em como agir para corresponder aos anseios de realização das mães.

A nós, resta-nos pedir a Deus que conforte todas as mães em seus momentos dolorosos, de perdas, de desilusões e que, nesses momentos, lhes estenda a mão. Que lhes dê coragem e persistência no cumprimento do sagrado dever materno de educar, de bem assistir, de muito amar. Formulamos votos que, na relação mãe/filho, ela se aprimore no ensinamento do ser, relativando o ter.

Estas são, em síntese, as regras básicas para se trabalhar por uma sociedade pacífica, progressista, que tem na função de mãe a sua excelsa protagonista.

Às mães, minhas reflexões, na poesia que se segue:

 

SER  MÃE

Ser mãe é alcançar o paraíso,

É luta que o prazer redime,

Angústia vencida por um sorriso,

Ser mãe é a virtude sublime.

Fala-se em sacrifício de mãe,

Sacrifício é mulher sem filho,

O vazio de uma anciã,

Vida ofuscada, sem brilho.

É preferível duro sofrimento,

Que o nada dessa ausência doída,

A mulher joga fora seu talento,

Constrói uma ternura recolhida.

É como o perfume que paira no ar,

E que não chega a lhe envolver,

Como a chuva que não corre para o mar,

Ave sem abrigo para se aquecer.

Contudo, só não é mãe quem não quer,

Precisa-se quebrar a vaidade,

O orgulho de raça, de sangue e obter

Um mundo de valores, de fraternidade.

Seja mãe gestando ou adotando,

O que importa não é a filiação,

O sentimento, se aprofundando,

Gera filhos que saem do coração!


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2003)


 


LEI EM VIGOR DEIXA DE SER CUMPRIDA

Izabel Sadalla Grispino *

A educação no Brasil vai mal, muito mal. Alunos que não aprendem, professores que não sabem ensinar, escolas assustadas, sem segurança, desprotegidas, vivendo o caos da violência social.

No final do ano passado, fomos apanhados por um resultado revoltante, de que os alunos brasileiros ficaram em último lugar, entre alunos de 15 anos de 32 países, em capacidade de ler e escrever, em um exame comparativo da Organização de Cooperação e Desenvolvimento (OCDE), de Paris. O exame foi supervisionado, conforme noticiário da imprensa, por uma técnica brasileira, que concluiu, pelas respostas dadas, que muitos dos alunos brasileiros nem sequer conseguiram ler as perguntas! Se não conseguiram ler, como interpretá-las? Em último lugar, também, em Ciências e Matemática.

No começo desse ano de 2002, a Unesco divulgou um estudo mostrando ser o Brasil campeão de repetência no seu continente. Em educação, o Brasil é campeão em tudo que nos envergonha. O levantamento reuniu dados de 19 países latino-americanos coletados entre 1998 e 1999. Nosso País teve o pior desempenho em repetência no nível básico e no secundário.

A taxa de repetência era de 24% no nível básico e de 18% no secundário. Nos dois casos, o Brasil é o recordista do subcontinente. Na educação básica, a Guatemala é a segunda colocada, com uma taxa de 15%.

Nós sabemos que repetência, nesse grau, revela penúria, baixa qualificação de um povo. Repetência é fruto de uma debilitada conjuntura nacional, de um baixo nível socioeconômico da massa populacional. É fruto de uma estrutura educacional incompetente, desarticulada. O Estado de São Paulo tentou redimir-se, lançando o sistema de ciclos, que retém o aluno na escola, sem qualificá-lo. O aluno não repete, mas também não aprende, o que torna a ausência de repetência um procedimento mascarado.

Estamos vivendo uma situação de ensino-aprendizagem bastante lastimável e que traz, sem dúvida, com ela, o considerável descaso governamental, de décadas, pela educação. Nos últimos tempos, a educação pública só foi prioridade no papel, no discurso, no plano semântico. Contou com verbas irrisórias, camufladas, desviadas, desencaminhadas.

Presentemente, descortina-se a realidade da aplicação das verbas destinadas à escola pública. A mídia denuncia o desrespeito dos últimos governos às leis que determinam o investimento de 30% de suas receitas na manutenção e no desenvolvimento do ensino. A CPI da Assembléia Legislativa sobre a Educação revelou que a incorporação de gastos, sem relação com a Educação, tem sido prática rotineira dos últimos anos. A auditoria da execução orçamentária da Secretaria Municipal da Educação, feita pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), comprovou a irregularidade.

As verbas, que deveriam ser aplicadas em construção de escolas, compra de equipamentos e salários dos professores, servem para pagamento, por exemplo, de aposentados, pensionistas, merenda, transporte e outros gastos. Na gestão Mário Covas, nos anos de 1998 e 1999, por uso indevido das verbas, seu governo foi condenado, pela 12.ª Vara da Fazenda Pública, a devolver R$ 4,1 bilhões para a Secretaria da Educação. Essa ação civil pública foi proposta pela Promotoria da Defesa da Infância e da Juventude.

A verdade é que os governos falseiam despesas com a educação e a educação, que já era financeiramente empobrecida, aumentou ainda mais sua deficiência. As causas da decadência do ensino público estão fortemente calcadas na falta de recursos financeiros, incluindo os baixos salários dos professores. Na política de inclusão social, a qualidade de ensino ainda é o ponto mais frágil do sistema educacional. A qualidade de ensino depende da qualidade dos recursos humanos, cujo nível fica longe do desejado.

A escola não tem meios para se preparar para mudanças e inclusões. Os professores continuam a dar suas aulas nos moldes tradicionais, atendendo, preferencialmente, os alunos com mais condições e mais facilidade para aprender. Não sabem como abordar as desigualdades sociais, como atingi-las através de uma metodologia adequada. Eles ouvem falar em Jean Piaget, em Emília Ferreiro, em Paulo Freire, mas pouco entendem dos processos modernos. Na hora de ensinar é na base da intuição, de sua forma de agir e pensar, escrevendo a matéria na lousa, ausentando-se do diálogo, das explicações.

A escola, sendo incapaz de atender as novas demandas, a inclusão dos mais carentes, acaba por se restringir às vagas ofertadas e não à aprendizagem. O professor não sabe mediar conflitos, lidar com as diferenças e a sala de aula se traduz em apatia para o aluno e em desestímulo para o professor. Há uma distância entre o que o professor ensina e a realidade de vida dos alunos, de suas expectativas, que acabam recebendo um conteúdo monótono, sem interesse para eles e passado sem motivação. Esse cotidiano sem sentido, para o aluno, explica, em grande parte, a evasão escolar.

O Censo Escolar, divulgado em maio p. passado pelo Ministério da Educação, constatou que boa parte dos alunos que ingressam na 1.ª série continua sem chegar ao fim do ensino fundamental. Ao longo do tempo, as crianças ficam defasadas no conhecimento e sem perspectivas de aprendizagem, abandonam a escola ou ficam reprovadas e com isso o número de concluintes acaba sendo muito menor que o de ingressantes. Pelos dados do Censo, em 2000, 2,6 milhões de estudantes foram aprovados na 8.ª série, concluindo o ensino fundamental. Esse contingente é significativamente menor do que o número de crianças matriculadas na 1.ª série em 1993: 6,1 milhões. Se nenhuma delas tivesse sido reprovada, nem abandonado a escola, todas estariam recebendo o diploma de conclusão do ensino fundamental em 2000.

Conseguiu-se trazer para a escola crianças que estavam excluídas, mas continua o desafio de aumentar o tempo de sua permanência na escola e melhorar a qualidade de ensino. Muitas crianças ainda têm dificuldade de avançar nos estudos, de aprender. Houve, realmente, avanços na universalização do ensino, mas, temos ainda 5,1% de crianças, mais de 1,3 milhão  na faixa etária de 7 a 14 anos fora das escolas.

Embora os dados do censo tenham mostrado uma queda do índice de repetência – há uma década era de 25%, agora é de 10,8% --, a  crise da aprendizagem continua forte, absurdamente intolerável.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2002)

MUDANÇAS NA REFORMA DO ENSINO

Izabel  Sadalla Grispino *

Muito já se tem falado ou escrito sobre a reforma do ensino, mas o que parece é que ela está sendo sofrivelmente entendida e aplicada, em boa parte das escolas. Hoje, se preconizam voluntários da educação, pessoas da comunidade, da sociedade em geral, que, de alguma forma, possam contribuir com a escola, enriquecer seu conhecimento, seu currículo, inclusive sob a forma de atividades aos alunos. Este artigo engloba o objetivo de fornecer às escolas subsídios à reflexão sobre a nova realidade escolar, inscrita nas proposições emanadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

A escola precisa fornecer parada para a meditação, para a reequilibração num processo de feed-back. “Um professor que não pára para rever sua prática pedagógica, se ver em atuação, trocar com seus pares, é um professor literalmente tragado pela “fazeção” do dia-a-dia, que acaba ficando sem sentido”. (Paulo Freire)

Surge uma nova concepção de currículo e, com ele, uma nova concepção de escola. Nova em seu formato, em seu funcionamento, em sua organização, requerendo uma profunda revisão das metodologias de ensino. Uma escola que deve estar apoiada em avaliações periódicas, renovando-se, ajustando-se a um mundo em permanente mutação, para o qual o ensino tradicional tornou-se inapropriado, obsoleto.

Revoluciona-se o conceito de currículo, que tem, agora, sua maior característica na flexibilização. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a flexibilização na organização de cursos e carreiras e por isso torna possível a mudança que vale tanto para as escolas públicas como para as privadas. A idéia central é substituir a atual estrutura curricular, baseada em disciplinas e carga horária fixa, por outros modos de organização. Na educação básica por: “séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência” e em outros critérios e formas diversas de organização, como módulos, reclassificação de alunos, aceleração da aprendizagem... No ensino superior a LDB prescreve que “alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos... podem ter abreviada a duração de seus cursos”.

O novo currículo substitui padronização por flexibilização. Vivemos numa sociedade plural, plural que deve ser usado para o enriquecimento, para o acréscimo, não para a unificação. A reforma adota currículos que buscam a cultura compartilhada, atualizada, incluindo a informal, onde a leitura de jornais e revistas deve ser pensada como uma de sua parte integrante. O currículo formal só é autêntico se apoiado no currículo oculto, oriundo da vida do aluno, sua cultura, suas variadas influências. O projeto pedagógico da escola precisa contemplar o contexto sociocultural, trabalhar a metodologia interativa, interdisciplinar, contextualizada, com o foco do currículo caracterizado mais por competência cognitiva de caráter geral que por informações. “No lugar de uma cabeça bem cheia, uma cabeça bem feita”, nos ensinava no século XVII o pensador francês Montaigne.

As modernas teorias pedagógicas têm suas raízes no passado, foram estruturadas ao longo dos séculos. Reforçam, entre outras, o pragmatismo lançado pelo educador norte-americano John Dewey, que antes da década de 30 dizia: “Escola é vida, não é preparação para a vida”. Propunha que a escola desenvolvesse aptidões e habilidades nos alunos por meio de experiências vividas; é o famoso “aprender fazendo”. Piaget e Bruner, influentes mentores da educação moderna, na 2ª metade deste século, possibilitaram-nos a formação de programas de ensino mais realistas, conteúdo mais acessível, métodos de ensino e de aprendizagem mais adequados aos alunos. “O aluno é um ser que interage com a realidade”, dizia Piaget.

As disciplinas tradicionais do currículo devem estar relacionadas aos aspectos essenciais da vida do cidadão, como ética, saúde, meio-ambiente,  movimentos  culturais,  sexualidade,  pluralidade  cultural,  mito  da democracia

social, vivência familiar, social e outros. Esses temas serão incluídos e trabalhados em associação às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais”. A escola abre oportunidade para que os alunos aprendam temas normalmente excluídos e atua propositadamente na formação de valores e atitudes.

O currículo de todos os níveis de ensino contém uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com as “características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB). Deve nortear-se pela interdisciplinaridade –  interligando as diversas áreas do saber  – pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação geral mais ampla e a contextualização buscará solução dos problemas sociais no seu trato com o cotidiano.

INTERDISCIPLINARIDADE – As disciplinas inter-relacionadas fornecem ao aluno um conhecimento globalizado do assunto. Na universalidade, por exemplo, vem corrigir distorções do ensino superior e da especialização excessiva dos cursos de graduação realizados em departamentos e cursos desintegrados dos demais. Hoje, os profissionais mais qualificados para o mercado de trabalho são os chamados especialistas generalizantes, que, junto ao conhecimento de sua área e especialização, devem ter a capacidade de adquirir informações sobre outras áreas, facilitando o conhecimento do papel de outras pessoas e uma melhor interação entre elas.

A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, o que faz repensar na forma atual do exame vestibular, que força o estudante à escolha precoce, a uma especialização com escolha preestabelecida.

CONTEXTUALIZAÇÃO – O ensino das disciplinas tradicionais deve estar relacionado aos contextos: trabalho, ambiente, convivência social, movimentos culturais e outros. Estes relacionamentos rompem com o modelo de educação, no qual o aluno não sabe aplicar na vida a teoria aprendida na escola.

Ao evitar conhecimentos descolados da realidade, a escola afasta o enciclopedismo dos currículos, colocando os objetivos do ensino próximos ao dia-a-dia da sala de aula. A nova proposta parte do pressuposto de que o conhecimento não está mais parado nas enciclopédias, ao contrário, sofre mudanças espantosas.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2000)

SISTEMAS DIFERENCIADOS DE AVALIAÇÃO PARA O INGRESSO AO ENSINO SUPERIOR

Izabel Sadalla Grispino *

Projetos de sistemas diferenciados de avaliação para o ingresso ao ensino superior continuam surgindo e se ajustando à identidade, às características das instituições, diversificando as oportunidades de acesso a esse grau de ensino.

O vestibular, a tradicional prova de ingresso às faculdades, que no Brasil remonta a 1911, deixou de ser obrigatório pela última Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei n.° 394/96). As universidades, hoje, têm liberdade de escolher seu próprio sistema de avaliação, de decidir qual a melhor opção para sua estrutura educacional. Há, mesmo, os que defendem a eliminação do vestibular ou de qualquer outra forma de seleção. Apoiam-se em países cuja realidade é bem distante da nossa, como, por exemplo, na América Latina, o México e a Argentina.

Na verdade, processos de seleção são inevitáveis em sistemas de ensino, organizados em séries, como é o nosso. Quanto mais qualificada a escola superior, quanto mais alto o seu grau de ensino, maior rigor nas provas de seleção e mais seletivo o seu ingresso. Há casos de faculdades menos conceituadas, em que o exame de seleção não passa de um engodo. O que mais precisam é de alunos, pois, dependendo da área, há mais vagas que pretendentes.

Uma inovação foi o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) criado pelo MEC em 1998 para avaliar as habilidades e as competências adquiridas pelos estudantes no fim da educação básica, dando, também, às universidades a oportunidade de usar o resultado da avaliação como um dos critérios de seleção dos candidatos.

O Enem não deixa de ser uma boa opção e parece estar sendo bem recebido por educadores e alunos. Esse exame tem similar nos Estados Unidos, onde o processo de seleção inclui, além dos testes aplicados, a análise do histórico escolar do aluno, em que se verificam as notas obtidas durante o ensino médio, a carga horária das disciplinas e a escola em que o aluno estudou. O aluno deve apresentar, ainda, um projeto, uma espécie de ensaio sobre sua vida e o que pretende com a universidade.

Sobre o Enem já discorri, em artigo publicado recentemente por este jornal.

Há outro projeto, a “Avaliação Progressiva”, que chegou a tramitar no Conselho Nacional de Educação, mas houve pouca divulgação. Trata-se de um processo de seleção ao ensino superior, feito ao longo dos 3 anos do ensino médio. Seria um escalonamento do vestibular em 3 séries, transformando o ensino médio numa transição para o ensino superior. Há práticas, nessa linha, em algumas poucas universidades brasileiras, com a “Santa Maria”, no Rio Grande do Sul, e a Universidade de Brasília. Diferente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que tem sua prova de seleção somente no final desse ensino, a “Avaliação Progressiva” se faz em todos os 3 anos do ensino médio. Se tomarmos o vestibular como referência, esta proposta de “Avaliação Progressiva” é, sem dúvida, mais flexível, menos estressante e oferece mais oportunidades ao aluno, eliminando, com suas avaliações periódicas, o temor da avaliação única. Além disso, a apuração dos conhecimentos limita-se ao conteúdo especificamente ministrado ao longo do ensino médio, não havendo necessidade de o aluno recorrer a estudos extras ou a cursinhos.

Em princípio, parece ser uma boa proposta de acesso ao ensino superior, porém tem suscitado controvérsias entre educadores que questionam o conceito maior da educação desse nível de ensino, ou seja, a formação básica da cultura geral. Esse processo de seleção acarretaria a obstrução das etapas normais do desenvolvimento das faculdades intelectuais, das faculdades formativas de valores e atitudes. Sobre o aspecto amplo da formação do aluno, dir-se-ia que este processo de avaliação periódica seria um aniquilador do ensino médio. Roubaria do aluno o tempo destinado à leitura suplementar, à pesquisa, pré-requisitos essenciais à formação integral e à atuação plena do futuro profissional. Sabe-se, hoje, que atrás do bom desempenho, de qualquer função, está, grandemente, o bom domínio do conhecimento geral.

Por exigência do mercado, é freqüente a extinção de uma função e o surgimento de outras, como, em nossos dias, a da informática, das relações internacionais, do comércio exterior, do turismo... e é justamente o conhecimento amplo e diversificado que vai ajudar o profissional a passar de uma ocupação para outra.

Com o sistema de “Avaliação Progressiva”, o ensino médio reduzir-se-ia a um curso preparatório para o ensino superior, com uma sucessão de provas e adestramento  para elas, o que provocaria ao aluno mais prejuízo que o tão decantado vestibular. A preocupação com a deformação da aprendizagem na sua utilização específica de preparar alunos para o ensino superior vem de longe. Francisco Campos, em 1931, escrevia, a respeito do então ensino secundário:  “O ensino secundário tem sido considerado  como um simples instrumento de candidatos ao ensino superior, desprezando-se, assim, a sua função eminentemente educativa, que consiste, precisamente, no desenvolvimento das faculdades de apreciação, de juízo e de critério, essenciais a todos os ramos da atividade humana (...) Assim, o ensino secundário (...) perdeu as suas características próprias e específicas (...) passando a ser de finalidade exclusivamente utilitária, despido de finalidade interna, fundamentalmente educativa. A última fase desse processo de degeneração do ensino secundário (...) o transformou em mera chancelaria de exames”.

VESTIBULAR – O exame vestibular continua sendo o grande processo de seleção ao ensino superior, o que responde, ainda, pela formação de calouros nas universidades públicas. Sobre ele falaremos na próxima semana.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2000)

A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

ATITUDES E SABERES CONJUGADOS

Izabel Sadalla Grispino *

A escola, de hoje, atua dentro de conceitos abrangentes, em benefício da educação integral do aluno, conceitos que vão além da transmissão do conhecimento. Ao lado do conceito “sujeito de direito”, assunto por mim abordado em um artigo anterior, ela trabalha, por exemplo, o conceito de saúde alimentar. Preocupada com a saúde da criança, com problemas de obesidade, acarretando, já na infância, alta de colesterol, de triglicéride, provocando doenças cardíacas, renais, passa princípios de boa nutrição. Ensina alunos, pais, comunidade escolar, a importância de uma comida balanceada. As cantinas são orientadas a substituírem lanches, como hamburgueres, batata frita, frituras em geral, alimentos de alto teor calórico, refrigerantes, por sucos naturais, por pouco doce e por salgadinhos menos gordurosos.

Em casa, os pais devem estar atentos a certas atitudes, como: “Tome toda a sopa ou coma a salada, para ganhar a sobremesa”. Passa a idéia de que tomar sopa não é gostoso, mas a sobremesa é o máximo! A criança pode passar a não gostar de sopa a vida toda. Do mesmo modo, tornar a ida à lanchonete um programão, faz a comida de casa ficar meio sem graça.

É bom lembrar de que se deve educar pelo exemplo; os jovens prestam mais atenção nos atos dos adultos que em suas palavras. Crianças que desde cedo estão acostumadas a ver pela casa frutas e verduras, sucos naturais e pais que não são sedentários terão mais facilidade em desenvolver um estilo de vida adequado.

Hipócrates, médico grego, tido como o pai da medicina, já dizia: “Somos o que comemos”. Muito além da preocupação com a obesidade, precisamos estar atentos à nossa saúde. A medicina, hoje, confirma que a alimentação saudável previne uma série de doenças crônicas degenerativas, como o câncer ou o diabetes.

Em termos de saúde, outra preocupação da escola recai sobre a postura correta do aluno, o peso, nas costas, das mochilas, que tanto afeta a coluna vertebral. É um trabalho de educação que quer que o aluno se sinta amado, protegido.

Geralmente, as crianças não verificam quais as aulas do dia e acabam levando para a escola o material de todas as disciplinas, aumentando o peso nas costas. Essa é uma característica que deve ser trabalhada por pais e professores, porque o aluno pode carregar, na mochila, no máximo 10% de seu peso, conforme recomendam os ortopedistas pediátricos. Mais que isso, pode causar vícios de postura, dores musculares, lombalgia e até problemas no crescimento, revelam estudos ortopédicos.

Entre as crianças pequenas, as mochilas pesam pouco, o problema é maior entre alunos das últimas séries do ensino fundamental e médio, devido ao aumento do número de disciplinas e conseqüente aumento do número de livros. Nessa faixa de idade, os alunos, de um modo geral, recusam-se a levar mochila com rodinha, porque acham que é coisa de criança e acabam apresentando dores freqüentes na coluna.

A diversificação educacional faz da escola de hoje uma instituição vista como a grande auxiliadora no entendimento das reações humanas e psicológicas do aluno. Aborda problemas comportamentais de muita ajuda aos pais, como, por exemplo, educar para a verdade. Entra num terreno bastante vivenciado pelos pais, como o fato de mentir, e que faz parte do comportamento infantil.

As crianças mentem, seja para expressar um desejo ou esconder um malfeito. Elas fazem uso desse artifício por se sentirem inseguras em dizer a verdade. O que mais querem é ser amadas e aceitas, sempre. Quando isso acontece, a orientação é de dar atenção, de ter firmeza e diálogo, para trazer as crianças de volta ao caminho da verdade. Mostrar o que é correto com firmeza, explicar-lhes que para se viver em sociedade regras devem ser cumpridas. A preocupação com a mentira é tão importante como a forma de se relacionar e de entender a mensagem da criança que está nas atitudes. Fantasiar, brincar de faz-de-conta, fazem parte do desenvolvimento infantil, ajuda a criança a se expressar e a enfrentar seus medos e anseios.

 

Contudo, para a boa educação, o ideal é que a mentira seja cortada pela raiz, orientando com compreensão, discutindo, com atenção e respeito, sobre o certo e o errado. Fazer a criança sentir que sobre mentiras não se constrói uma relação de confiança.

A psicoterapeuta infantil Violeta Daou Queijo explica com propriedade: “A criança amadurece na fantasia e entra, aos poucos, em contato com o mundo real. Nesse processo, o companheiro imaginário a escuta e partilha suas aflições sem repreendê-la. Preservar a vida imaginária da criança é permitir que ela viva essa experiência inteiramente, sem repressões ou bloqueios, que enriquece a vida. Aos  poucos, por si mesma, ela vai diferenciar a

fantasia da realidade. Não há uma idade exata para isso acontecer. Cada criança é única e tem o seu próprio tempo”.

Os pais ajudam a criança a se desenvolver bem, ensinando-a a partilhar seus pertences. Estimular a convivência com outras crianças, seja trazendo amigos para casa ou deixando que ela durma, às vezes, na casa de amigos e motivá-la à prática de esportes coletivos, são comportamentos que arejam a mente infantil.

Escolas competitivas estimulam a individualidade. O aluno, vivenciando uma socialização saudável, tende a enfrentar melhor a verdade e mais tarde os fatos da vida. Por isso, as escolas devem dar mais atenção ao relacionamento e realizar trabalhos em grupo. Escolas e pais devem impor limites, mas, sem restringir demais a vida da criança. Austeridade em excesso acaba podando o seu desenvolvimento.

Educação é processo integrado. Atitudes e  saberes não devem ser separados. O indivíduo é um ser por inteiro, englobado em mente, corpo e alma. Não é um ser compartimentado. É com esse entendimento que a escola renovada se encaminha.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em julho/2005)


* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em julho/2005)

SER PROFESSOR

Izabel Sadalla Grispino *

O magistério despertou cedo em minha vida. De criança, brincava de professora. Queria saber para poder ensinar. Perguntava, tinha curiosidade, conversava com os mais velhos, sempre no sentido de aprender e repassar.

Ser professor é gostar do outro, gostar do encontro. É partilhar do destino do outro, condoer-se da dor, vibrar com a vitória. É crescer fazendo crescer, unir, dividir, somar. Ser professor é ter um olhar para dentro e um olhar para fora, um olhar local e um olhar universal. Ser professor é gostar de estudar, de aprender a aprender, ilustrar-se, avançar no conhecimento, expandir esse conhecimento ao redor, participar do desenvolvimento humano, social, científico da humanidade. Ser professor é estar antenado, é um inquietar-se, um desejo de dar sua parcela de contribuição no reforço aos direitos humanos, no restabelecimento da justiça e eqüidade social, no encaminhamento de uma sociedade de paz, de um mundo de luz, de amor.

Professor da escola, dos alunos, da comunidade, professor do mundo! Felizes os vocacionados, que sentem essas vibrações na alma. Elas saciam a sede, impulsionam as realizações. Felizes os que professam uma função por vocação. É a vocação que faz a diferença.

Nossos votos ao professor, em 15 de outubro, dia consagrado ao professor, é que ele seja reconhecido socialmente, que tenha sua auto-estima elevada, que governos lhe propiciem melhores condições de vida, melhores condições de trabalho.

“Homenageamos a todos que se dispõem a ensinar, não só o professor institucional, mas, também, o informal, a todos que passam o seu saber para as novas gerações, colaborando com o crescimento do outro, com a construção de um mundo melhor.

Embora o papel do professor, nessa nova sociedade tecnológica, tenha mudado, ele continua sendo o elemento indispensável para a promoção humana e social. Durante muito tempo, o professor mobilizou um saber disciplinar – apoiado nas disciplinas do currículo – era o transmissor do conhecimento científico. A escola era o lugar privilegiado do saber, a instituição responsável pela transmissão da memória social e cultural e o professor, a principal fonte do conhecimento. Esse conhecimento, centralizado na sua pessoa, colocava-o como um capital profissional, um capital de saberes. Hoje, ele perdeu a vanguarda do conhecimento – detêm-no a mídia, o computador, a internet. A escola não é mais o lugar propriamente da informação, mas o lugar do que fazer da informação. Associa-se, hoje, mais que ontem, à função de professor a do educador”. (Do meu livro “Prática Pedagógica”, págs. 353-354).

A vocês, irmãos do magistério, bravos correligionários, num grande abraço, transcrevo os meus versos, com os quais introduzo o livro “Prática Pedagógica”.

AO  PROFESSOR

Querido professor,
Não desanime, vá avante,
Da humanidade é luz do esplendor,
É sol que brilha em terra exuberante,
Estrada iluminada,
Luzeiro de escuras madrugadas!

Sem você, a sociedade esmorece,
A criança perde seu futuro,
Você é, de todos, a mais bela prece,
O sonho que surge prematuro,
A fé que a esperança carece,
O brilho que nunca desaparece.

Embora pouco reconhecido,
E, pouco prestígio alcança,
Com Jesus é parecido;
Seu devotamento, transpassado de lança,
Tem como maior recompensa,
A luta, para que seu aluno vença.

Assemelha-se ao pesado arado,
Que remove a terra, prepara o plantio,
Joga-se o grão adubado,
Que vencerá o inverno e o estio,
Com a chuva, a colheita é abundante,
A terra sorri em seu veludo verdejante!

Você, professor, vai além,
Prepara, aduba, planta, conquista,
Trata da semente como ninguém,
Da mente e da alma é um especialista;
Você é o amanhã de suave brisa,
O construtor, que a sociedade mobiliza ou paralisa!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2004)


EDUCAÇÃO E SUAS IMPLICAÇÕES SOCIAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Costumeiramente, ouvimos a frase: “Educação é a primeira necessidade do homem depois do pão”. Eu me permitiria dizer: educação antecede, acompanha e sucede ao pão. São, na melhor das hipóteses, necessidades concomitantes: educa-se à medida que se dá o pão. O alimento sem a educação tem vida curta, logo degenera.

Educação abarga, de forma primordial, todos os aspectos da vida humana. Implementa-se uma biblioteca, enriquece-se a ciência da nação. “Constrói-se uma escola, fecha-se uma cadeia”, já nos dizia, no século XIX, o famoso escritor francês Vitor Hugo.  Isso há  mais de um século,  imaginem a força dessa expressão nos dias atuais. Só a educação pode salvar o mundo da avalanche da criminalidade, da violência juvenil, que nos assolam e nos amedrontam.

Educa-se a criança para não chorar o adulto. O resgate da juventude passa pela educação, a recuperação da sociedade passa pela educação. A educação ensina o homem a ter força na mente, não nos braços, não na violência.

Não se mede o preço da semente educacional. Dinheiro despendido em educação não é gasto, é investimento. Investir na educação é a saída honrosa para mudar a cara do País. Sem uma educação de qualidade, o brasileiro será apenas receptor de tecnologia, jamais produtor.

Não se transforma a realidade social pela caridade. É preciso dar condições para o indivíduo crescer. Corresponde ao provérbio: “Não dê o peixe, ensine a pescar”. O desenvolvimento do país é a soma do desenvolvimento individual. País de povo pobre, inculto, despreparado, jamais será uma grande potência. Quando um povo sabe para onde vai, o mundo se afasta para deixá-lo passar.

Hoje, sabemos, a estratégia não é mais o petróleo, a energia ou o asfalto. A estratégia, hoje, é investir em gente: educação, saúde, segurança. O capital do presente é o conhecimento. Não se pode pensar em desenvolvimento econômico, em democracia social, sem cuidar da educação, da cultura. O grande estadista norte-americano Abraham Lincoln dizia: “Ninguém salva o povo; o povo se salva a si mesmo, através da escola”.

Uma guerra não se ganha com discurso, se ganha com armas. Na guerra pela desigualdade social, pela violência, a educação é a maior arma.

É mister que a sociedade tome conhecimento do papel da educação. Campanhas de esclarecimento, palestras, deveriam chegar não só à escola, aos pais e aos professores, mas a toda sociedade, para que houvesse participação consciente e colaboração no desenrolar de metas estabelecidas.

A cobrança da sociedade por mais e melhores resultados, no Brasil, ainda é pouco significativa. Na Inglaterra, por exemplo, a pressão da sociedade por uma escolaridade de melhor qualidade é fortemente marcada. Essa sociedade, muito exposta à competição internacional, levou os ingleses a exigir do governo “armas para uma competição justa e educação é a primeira delas”. Na Inglaterra, o salário dos professores teve os melhores reajustes de toda a Europa, sob governo conservador! Comportamento semelhante constata-se no Canadá.

Tem-se, hoje, que a pressão social funciona como instrumento saudável, quando baseada em critérios de qualidade, de seriedade. Em nossa sociedade, já começam despontar luzes indicadoras de intenções políticas. A educação está sendo fortemente questionada e colocada num grau absoluto de prioridade. Economistas, ao registrarem  a  falência  do  nosso  ensino, concluem: “País que não luta por uma boa escola é país que trabalha contra si mesmo”. Mário Henrique Simonsen afirmava: “O orçamento da educação pública não é despesa a fundo perdido. É investimento com retorno garantido”.

Pedro Ferreira, economista da Fundação Getúlio Vargas, autor do livro: “No Brasil não se gasta pouco, gasta-se mal”, mostra a importância da educação no crescimento da economia. Diz que o baixo grau de escolaridade da população brasileira compromete o desenvolvimento econômico do País, torna difícil a incorporação de novas tecnologias e de novos métodos de organização de trabalho. Afirma que a situação atual do ensino no Brasil afeta diretamente as perspectivas de crescimento da economia. Se o Brasil tivesse um sistema de ensino semelhante aos melhores da América Latina, estaria, hoje, 40% mais rico.

Pedro Ferreira relata uma pesquisa internacional em que alunos brasileiros disputam com Moçambique – entre 20 países – o pior desempenho em Matemática e Ciências. Mostra que o Brasil possui a pior distribuição de renda do mundo e a causa principal é a desigualdade educacional. “O problema do Brasil não é de quantidade, mas de qualidade do sistema educacional, bem como de distribuição de recursos”. Cita dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram as distorções do Sistema de Ensino no Brasil. As universidades, com apenas 3% do total de alunos do País, recebem 39% dos recursos do governo destinados à educação. Enquanto isso, o ensino básico, com 88% dos alunos, recebe 52%. Gasta-se, portanto, 22 vezes mais em um aluno universitário do que em um aluno do 2º grau.

Embora haja desproporcionalidade, isso não significa que as universidades estejam recebendo bem, significa que todos os graus de ensino estão sendo muito mal atendidos, caracterizados como de ruim situação. A verba destinada à educação é, sob todos os aspectos, irrisória, difícil de se aceitar!

O descuido pela educação parece ter tido a aquiescência de grande parte da área produtiva. O economista José Márcio Camargo diz que: “Iludida pela mão-de-obra farta e barata, a economia brasileira contentou-se em produzir empregos ruins, com salários péssimos”.

A saúde da educação depende, indubitavelmente, da boa formação de seu quadro docente, mas não depende menos da qualidade de vida que esses mesmos docentes venham a ter, assim como da melhoria de suas condições de trabalho. Se quisermos avanço, precisamos fazer um bom diagnóstico da realidade social, sem preconceitos, sem máscara do que está acontecendo. “Tem que lavar os olhos”, como dizia Darcy Ribeiro, o autor da nova “Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional” (LDB).

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em maio/2000)

LIÇÃO DE MATURIDADE CÍVICA

Izabel Sadalla Grispino *

O que leva uma pessoa a se debruçar, horas a fio, meses e meses, numa transpiração, às vezes, dolorosa, para fazer ressuscitar as imagens do passado, a História de um povo, que caminha para sua realização? Indubitavelmente, o amor, mas muito também a consciência do valor desse passado, na manutenção da luta e dos ideais de toda uma população. Interessar-se pelas coisas da terra, da Pátria, é um ato de responsabilidade cidadã.

Quem ama preserva. A visão amadurecida sobre o desenrolar da vida nos faz retornar ao passado e preservá-lo para a posteridade, não deixando morrer as lições e o alicerce de que é portador. A clara noção da marcha do tempo, de sua inabalável destruição, reforça a intenção. O tempo marca a passagem do homem no curso da existência. No seu caminhar a vida passa. Triste ver o tempo esvair-se e não se atrever a registrar seus grandes momentos, seus personagens históricos, os valores vividos por uma época.

Estudar a História, a vida de um povo, seus costumes e tradições, são lições de civismo, de patriotismo, de amor à terra. Precisamos fazer memória de nossa terra, de nossa gente. A Pátria exige memória, é nela que estão os seus valores. Um povo que não sabe de onde vem, não sabe para onde vai. Um povo sem memória, sem tradições, divorciado de seu passado, abdica de si e se integra a uma outra civilização. Cultuar o passado é iluminar o presente e o futuro. Por isso, o grande escritor Guimarães Rosa dizia: “O passado também é urgente”.

Imbuída desses conceitos e do amor que tenho à minha gente, à minha terra, recentemente, lancei o livro: “Uma Viagem no Tempo: Guariba, em Minhas Lembranças”.

Terra natal é coisa séria! São silêncios, inspirações, alegrias e muito envolvimento. Quis guardar o seu passado, o seu legado histórico, refletindo a vida cotidiana da cidade, com sua movimentação, seu comércio, a era cafeeira e a canavieira, sua educação, o papel da Igreja Católica em sua cultura, as amizades, os momentos de lazer, as pessoas que nela circulavam, transmitindo um realismo palpável.

A cidade carrega a história das gerações. Ela é um organismo vivo, não pára, caminha, se modifica. O livro retrata uma sociedade que, praticamente, não está mais aqui, faz chegar às mãos das novas gerações a forma primitiva de Guariba. Leva-as a conhecer a Guariba-menina, conhecê-la pequenina, com os encantos que possuía. Relembro, com admiração, as famílias que edificaram a cidade, com seus ideais, seus sonhos, sua chama, sua determinação. Recordo, com emoção, a imagem dos valorosos imigrantes, força que foram de alavanca da cidade.

Passo a passo com a História, com minhas lembranças e participações na vida da cidade, ele vai formando conceitos de amor e de responsabilidade à terra onde se vive, à Pátria,  educando para o patriotismo e senso de pertencimento. É um livro valioso às escolas, à formação integral do adolescente, à sua politização, ao entendimento da relação do homem com seu meio. Busca sensibilizar, conquistar o jovem para a prática da cidadania, tendo como base o amor à sua terra.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2007)

LIBERADA A EXIGÊNCIA DO CURSO NORMAL SUPERIOR

Izabel Sadalla Grispino *

 

No ano 2000, o Ministério da Educação fixou que os professores, de todos os níveis da educação básica, depois de 2007, deveriam ter o diploma de graduação, para trabalhar na rede pública de ensino. O curso normal, o antigo magistério, por si só, não credenciaria mais o aluno a lecionar. Teria que ser complementado por um curso de formação de professores, o normal superior.

Desde então, os cursos de formação superior começaram a aumentar. Atualmente, há 668 cursos cadastrados no MEC, isto é, com autorização para funcionar. No ano 2000, havia apenas 110 cursos no País. O censo realizado pelo Ministério em 2001 mostrava a existência de 306 cursos, sendo 239 em instituições públicas e 67 em particulares.

A Universidade Estadual Paulista (Unesp), preocupada com a formação adequada dos professores, através do programa Pedagogia Cidadã, está formando 4.500 profissionais de redes de ensino municipais no Estado. Segundo Wilson Galhego Garcia, responsável pelo programa, cerca de 15 mil professores paulistas participam, atualmente, de cursos superiores, organizados em convênios de universidades e secretarias de educação.

Essa exigência do curso superior foi, sem dúvida, a mola que propulsionou a busca de melhor formação docente. Sabemos que a qualificação profissional tem estreita relação com o aproveitamento do aluno. O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), realizado pelo Ministério da Educação, comprova a constatação acima. Alunos da rede pública ou particular, cujos professores cursaram ensino superior, têm nota 10% maior que a dos alunos cujos professores fizeram apenas o antigo magistério. É uma diferença significativa que mostra que a formação deficiente do professor repercute na formação deficiente do aluno. Comprovadamente, a formação docente define o desempenho do aluno.

Pelos resultados do Saeb, os alunos de professores que apenas cursaram o magistério tiveram notas médias de 154,3 da rede pública e 199,1, da rede particular. Os alunos com professores de melhor formação tiveram notas 168,2 da rede pública e 217,2, da particular. Os especialistas do Saeb consideram diferenças acima de 12 pontos importantes. A pontuação do Saeb varia de 125 a 425.

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) informa que há no País 772.500 professores sem formação superior, atuando no ensino infantil ou nas 1.ªs séries do ensino fundamental (1.ª à 4.ª série), o que representa 72% do total de profissionais nesses níveis de ensino. O Conselho Nacional de Educação (CNE) menciona 86 mil professores que nem sequer cursaram o ensino médio e trabalham na educação infantil, em creches, educação de jovens e adultos e no ensino fundamental.

A exigência do curso normal superior para quem cursou ou cursará o normal até 2007 acaba de cair por terra por um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE). Nesse parecer, o Conselho autoriza os professores do ensino infantil, que atende crianças de até 6 anos de idade, e das quatro 1.ªs séries do ensino fundamental, a lecionarem sem a formação superior. O Conselho Nacional de Educação apoia-se na interpretação dada à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996.

A Lei no artigo 62 prevê que deve ser exigido dos professores de educação infantil e de 1.ª à 4.ª série apenas o curso normal. Porém, nas Disposições Transitórias estabelece que “até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior”. A Década da Educação começou um ano depois da sanção da LDB.

Uma primeira interpretação, dada a esse instrumento legal, foi de que, a partir de 2007, apenas quem tivesse diploma de curso superior poderia continuar a exercer o magistério.

O atual Conselho Nacional de Educação interpreta a lei diferentemente e apoiando na expressão: “a ser admitido” do artigo 87 estipula que a formação mínima a ser exigida é a do curso normal para quem já exerce o magistério na educação infantil e nas 4 séries do ensino fundamental e para os que se formarem até 2007.

É evidente que para o nosso decadente ensino público a primeira interpretação, qual seja, a de exigir o normal superior até 2007, é bem mais apropriada. Difícil deixar a critério, sobre a freqüência ao curso superior, de um profissional mal remunerado, sem tempo e sem dinheiro para prosseguir os estudos.

Entendo essa última interpretação como recurso à ausência, já confirmada, de professores habilitados para o exercício do magistério. Seria um tapa buraco, principalmente, em regiões mais carentes desse profissional. Mas, é preciso que o professor se alerte porque, gradativamente, o normal superior avançando poderá acabar encampando os que só terminaram o curso normal, em nível de ensino médio. Certamente, os critérios não foram publicados, mas na classificação deverá levar vantagem aquele que apresentar diploma de curso superior.

Fazer um curso superior será sempre um diferencial.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2003)

MARCAS DA DESIGUALDADE EDUCACIONAL

Izabel Sadalla Grispino*

A política de reserva de vagas, além de inconstitucional, não é o meio mais adequado para garantir acesso ao ensino superior, conforme argumentei no artigo anterior. Continuarei, neste, a abordar o assunto, trazendo maiores esclarecimentos.

Ampliando a visão a respeito, vejamos o que nos expõe o estatístico Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, em seu “Estudo do desempenho dos candidatos da Fuvest/USP”. Diz ele que a reserva de vagas acarreta forte redução nas notas de corte do vestibular, nota que o candidato precisa alcançar para entrar na segunda fase do exame. Em conseqüência, alunos mais bem preparados perderiam o lugar para os despreparados, que viriam prejudicar o desempenho acadêmico.

O Estudo analisou o desempenho dos candidatos nos dois últimos vestibulares e concluiu que a política de quotas viria trazer um rebaixamento no nível do ensino, afetando sua qualidade. “Nas carreiras mais concorridas, um conjunto de alunos com média total de 661 (escala de 0 a 1000) seria excluído e substituído por outro grupo, com média 481, ou seja, seriam impedidos de entrar na USP alunos que tiveram um desempenho, no vestibular, de 37% superior”.

Explicou, ainda, que, em relação à nota de corte da primeira fase, haveria duas listas de convocados, uma para egressos das escolas públicas e outra para as privadas, com nota de corte diferente. “No caso do curso de engenharia, por exemplo, a nota de corte seria 81 para os primeiros e para os demais 131, isto é, uma diferença de 50 pontos numa prova. Assim, alunos de escolas privadas com 131 não seriam convocados, sendo substituídos por outros com nota 81”.

Na minha primeira abordagem, sobre este assunto, no artigo:  “Educação:  confusão  entre  ordem  direta  e inversa”, fiz as seguintes considerações: “Tenho, em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi, exaustivamente, delineada em várias ocasiões”.

No Rio de Janeiro, com a aprovação do projeto de reserva de vagas, surgiu todo um processo de reparação aos possíveis males ao ensino. Visando garantir a qualidade do ingresso, previu-se, na regulamentação da lei, que trata da reserva na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), de que ela só terá validade para o aluno que se submeter a testes ao longo do ensino médio. O documento prevê, ainda, que a reserva seja adotada somente para o vestibular de 2003, oportunizando as condições preestabelecidas.

Serão programadas avaliações durante o ensino médio, avaliações continuadas que funcionarão como indicadores de qualidade. Os alunos serão submetidos a quatro provas durante o ensino médio (duas no último ano). “Somente alunos que obtiveram um coeficiente mínimo de aproveitamento nos testes terão direito à reserva de vagas”.

Será também instituída uma comissão de representantes das secretarias de Ciência e Tecnologia e da Educação e do movimento estudantil para acompanhar a aplicação das provas. Foi estabelecido, também, como critério de que o aluno deva cursar toda a vida escolar em instituições públicas.

Se o projeto vier a ser aprovado no Estado de São Paulo, seguramente, será, na sua regulamentação, acompanhado de critérios de rigidez. Se forem adotados procedimentos similares aos do Rio de Janeiro, o ensino médio, também, no Estado de São Paulo, caracterizar-se-á por uma seqüência de provas preparatórias para o ingresso ao ensino superior.

Contudo, esse processo de avaliação, montado durante todo o ensino médio, não obtém consenso entre os especialistas da educação. É a chamada “Avaliação Progressiva”, também, já formulada em projeto de lei e que chegou a tramitar no Conselho Nacional de Educação, mas que parece não ter chegado a um bom termo. É um processo de seleção ao ensino superior feito ao longo dos três anos do ensino médio. Seria um escalonamento do vestibular em três séries, transformando o ensino médio numa transição para o ensino superior.

Essa proposta tem suscitado controvérsias entre os educadores, assinaladas por mim, no artigo “Sistemas diferenciados de avaliação para o ingresso ao ensino superior”. Os educadores questionam o conceito maior da educação desse nível de ensino, ou seja, a formação básica da cultura geral e dizem que esse processo de seleção acarretaria a obstrução das etapas normais do desenvolvimento das faculdades intelectuais, das faculdades formativas de valores e atitudes. Sobre o aspecto amplo da formação do aluno, dir-se-ia que esse processo de avaliação periódica seria prejudicial ao ensino médio. “Roubaria do aluno o tempo destinado à leitura suplementar, à pesquisa, à atenção destinada às potencialidades, pré-requisitos essenciais à formação integral e à atuação do futuro profissional”.

Com essa política de reserva de vagas, cria-se um impasse na educação. É como diz a letra da música: “Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

EXCLUSÃO E FATOR ECONÔMICO

Izabel Sadalla Grispino *

A destruição dos valores sociais vem criando o comportamento de que “tudo vale” para se alcançar o objetivo. Abraça-se o conceito de que “ninguém presta”, de que é preciso ser mais esperto que o outro, mais “competente”, para não ser passado para trás.

Nessa conjuntura, surge o que está sendo chamado de “terceira vertente da criminalidade”. Essa vertente se diferencia da criminalidade baseada, por esse modelo econômico, nos excluídos sociais. Abrange uma terceira categoria, daqueles que crêem que ninguém presta, de que, em tese, todos são bandidos. Gera-se um comportamento de malandragem, de desconfiança generalizada, onde ninguém acredita em ninguém. A moral vai se deformando, surgindo os “deformadores morais”, que julgam ter o direito de roubar, matar: “Seu eu não fizer primeiro, o outro fará por mim”.

O indivíduo assume a postura de bandido, é bandido declarado, “tem lado”, conforme sua expressão. O pior, segundo se constata, é que, agora, o jovem bandido não é mais recriminado pelos pais, como sempre foi. Os pais, também, foram convencidos de que ninguém presta. Essa característica confirma-se pela presença considerável de pais, de familiares, de amigos, em visita aos presidiários, que lá vão para hipotecar solidariedade e, certamente, levar-lhes informações. Quando interrogados por policiais, por repórteres, se viram alguma coisa, se sabem de alguma coisa, eles se calam, ninguém viu nada, ninguém sabe nada e isso não é apenas por medo, mas por aceitar o crime. O traço assustador é que, segundo pesquisas, eles se mostram convencidos de que estão certos e que não vão mudar. A personalidade deformou-se! O caráter contamina, o crime contamina!

O que espanta é a confusão mental em que os jovens se mergulham, a incapacidade de retornar a um rumo coerente, com força para enfrentar uma realidade social cada vez mais assustadora e fora de controle. Será que nesses casos a cadeia resolve? Resolve a aplicação integral da pena em regime fechado, como querem alguns? Os adeptos dessa solução citam como fulcro do problema as brechas da legislação penal, incluindo a Lei de Execuções Penais, que a consideram benevolente, e o falho sistema prisional.

Creio que se possa pensar nesses recursos como estratégia imediata ou coadjuvante. Sou mais adepta à universalização de uma educação aprimorada, voltada para o humanismo, para a face solidária da vida. Ensinar aos jovens o respeito ao outro, o respeito aos valores éticos, respeito aos direitos e deveres do cidadão, como fala a nossa Constituição.

As verdadeiras causas do comportamento anti-social estão na raiz de uma deformada educação ou de ausência de educação. Estão na própria estrutura social, na pirâmide educacional, que deixa em suas bases uma imensa população analfabeta ou semi-analfabeta, arrastando-se, em conseqüência, para a marginalidade. Estão no desemprego, na desigualdade social. É necessário criar escolas, frentes de trabalho, quebrar os cinturões de miséria das favelas, substituí-los por núcleos de empregos, melhorar a qualidade de vida, providenciar o saneamento básico.

Felizmente, vem surgindo uma nova mentalidade, em relação à massa ociosa e que muito pode contribuir para minorar a situação. Ela vai além da compaixão, reveste-se de uma concepção pragmática, onde o lucro é parte importante. Entendem as empresas que essa ociosidade é prejudicial ao comércio, à vida produtiva do País, que, financeiramente, é conveniente preparar, habilitar os excluídos, arrebanhá-los para o setor econômico. Eles podem significar dividendos e, sob esse prisma, aproveitados. A caridade sozinha não atinge o alvo, mesmo porque num mundo competitivo é difícil o exercício da solidariedade.

O capitalismo moderno luta contra a marginalização social, envolve-se nessa luta, que não é vista como caridade cristã, mas como lucro, que advém da eficiência, da competência. O capitalismo parece estar encontrando motivação racional para o aproveitamento dos excluídos, mirando-lhes lucro.

Por essa via, a ação social, de assistência aos marginalizados, torna-se viável e um caminho que promete. O que se quer é preparar o indivíduo para que tenha domínio de seu campo de trabalho, de suas habilidades.

Esse novo conceito leva o empreendedor a dar reforços ao seu empreendimento. A empresa aplica o termo lucro, não no sentido de obter vantagem, tirar proveito, mas no sentido de lucro pela proficiência. Por esta concepção, as empresas voltam os olhos para as necessidades da sociedade, prestam contas dos lucros sociais conquistados por elas. Lucros que a sociedade confere por conta de projetos empreendidos, como apoio à educação, à saúde, às artes, à cultura em geral, ao esporte, ao lazer, especialmente, para crianças e idosos.

Empresas há que ultrapassam o critério de vínculo empregatício, alargam o conceito de cidadania e estende-o ao tempo dedicado  à  coletividade.  São  as  empresas-cidadãs que investem no benefício coletivo, sem auferir lucros financeiros, entendendo que pagam, desse modo, a sua dívida social.

Do ponto de vista econômico, essa equação atenderá os excluídos, aumentará a produção, reduzindo, quem sabe, significativamente, a desigualdade. Sempre há uma luz no fim do túnel, basta não ignorá-la e ir buscá-la. Sonhar é preciso. Acreditar que virá a reviravolta, que o mundo retornará ao seu princípio de simplicidade, mais igual, mais humano e mais próximo de Deus.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em outubro 2005)

ALFABETIZAÇÃO RUMO AO CONHECIMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

As crianças estão na escola, mas a maioria não consegue adquirir os conhecimentos básicos, indispensáveis à continuidade dos estudos e a uma vida digna, tanto em termos materiais quanto humanos.

A performance dos nossos alunos, nos testes nacionais e internacionais, nos atesta que não se pode medir a sua competência pelo número de anos que passam na escola. Comprova que não possuímos, em larga escala, uma educação de qualidade. Nossos alunos são mal alfabetizados, chegam ao final do ensino fundamental com uma leitura e uma escrita longe do desejável.

Hoje, entendemos a alfabetização como um processo bem mais amplo que a simples aquisição da leitura e da escrita. Ela deve ampliar no aluno sua visão de mundo, como queria Paulo Freire, ensiná-lo a interpretar os fatos que ocorrem no mundo, para melhor nele se situar. A alfabetização deve abranger igualmente, como todo ensino básico, a educação integral, nos seus aspectos cognitivo, afetivo, psicomotor. Deve educar para os valores essenciais da vida, desenvolver as capacidades e as habilidades, que são operações mentais capazes de levar o aluno a atingir o aprender a aprender.

Formar um aluno pensante, um leitor crítico, um produtor de texto, um aluno capaz de gerir suas próprias aprendizagens, de criar e recriar o conhecimento, faz parte do processo de alfabetização. Dizemos que o aluno está alfabetizado quando for capaz de interpretar e estabelecer relações criativas entre as diversas áreas do saber, capaz de resolver situações-problema relacionadas à sua vida. Esse indivíduo assim formado encontrará oportunidades reais no seio da sociedade para a sua realização pessoal e social.

Uma grande dificuldade em atingir um bom nível de ensino está em que o professor foi formado e ainda se forma pelo modelo da velha escola, que só ensina a transmitir informações. As faculdades, na grande maioria, continuam presas ao método tradicional, não preparam o futuro professor para transformar, para construir e reconstruir o conhecimento, para a contextualização do conteúdo, sua inter e multidisciplinaridade e não vêm dando indicação de que o professor esteja desenvolvendo, em si, essa competência.

Só a escola para o pensar desenvolve uma educação de qualidade. Há, ainda, outros aspectos, nessa linha de preocupações, a serem considerados, como os benefícios que o estudo da informática traz ao aluno. Ela estimula a pesquisa e incentiva a comunicação. A internet e os computadores ligados em rede abrem as portas do mundo para a educação. Mas, essas ferramentas se restringem, praticamente, às escolas particulares. As escolas públicas apresentam, nesse setor, poucas experiências.

A educação de qualidade para todos ainda é bastante limitada. As renomadas escolas particulares, colocando-se na vanguarda da educação globalizada, oferecem curso bilíngüe, isto é, curso em duas línguas: português e outro idioma, como inglês, espanhol, francês ou alemão. Aulas de matérias tradicionais são dadas nesse outro idioma, o que faz os alunos se familiarizarem com a língua nova. Nos corredores da escola, a maioria das placas indicativas – banheiro, sala de aula, diretoria – está escrita na língua estrangeira que a escola segue.

Crianças que aprendem inglês, por exemplo, aos 5 anos já falam com fluência essa língua. São crianças que se preparam para idiomas considerados universais, falados em algum lugar do planeta. Crianças com educação qualificada que podem prever um horizonte amplo, largas possibilidades de boas realizações.

O ensino deveria seguir por esse rumo e estender-se à grande população. Vivemos a sociedade do conhecimento, que tem nos avanços da ciência a chave do desenvolvimento do País. Vivemos num mundo altamente conectado, espalhando conhecimento a todos os continentes e conhecimento significa desenvolvimento, significa ciência aplicada ao mercado, com grande força impulsionadora do progresso.

Uma educação de alto nível é a arma eficiente para o desenvolvimento das civilizações, que, utilizando-se das inovações trazidas pela ciência, se sobrepujam e dominam suas épocas.

Como conseguir um alto padrão científico, tecnológico, sem uma consistente formação educacional? Na área do agronegócio, por exemplo, quanta renovação tecnológica trazida pela pesquisa aos produtores rurais.  A produtividade aumenta a cada ano, a qualidade do produto aprimora-se, apóia-se no mapeamento genético de espécies, na reprodução e clonagem animal.

A sociedade do conhecimento, com suas aplicações intensivas no cotidiano dos negócios, não pode mais esperar, sem grandes atrasos nos resultados, que o País, por falta de uma escola de qualidade, retarde ou anule essa alavanca do seu desenvolvimento global. Sérios compromissos governamentais à promoção de mudanças deveriam ser tomados, estabelecendo, se necessário, uma política de intervenção qualitativa no processo de ensino-aprendizagem das escolas públicas. Já surge a idéia da criação da Lei de Responsabilidade Educacional, apregoando o direito de recursos condicionados às melhorias de qualidade obtidas, partindo da fase de alfabetização, fase que é o alicerce de toda aprendizagem futura.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2005)

CURSINHOS COMUNITÁRIOS

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando o assunto do artigo anterior, constatamos que escolas há que orientam os alunos para a participação voluntária. Muitas já incluem, em seus projetos pedagógicos, atividades de trabalho voluntário. Os exemplos começam a se multiplicar.

Alunos de escolas particulares de alto padrão estão se predispondo, com orientação, a oferecer ajuda, em diversas disciplinas, a alunos de escolas da rede oficial, com dificuldade de aprendizagem, ajudando a tirar dúvidas e a elevar o nível de conhecimento desses alunos. Eles integram a programação da escola contemplada, uma ou duas vezes por semana, em determinado período, participam de atividades extraclasses ou, então, a escola monta um horário especial para esse atendimento.

O entusiasmo atinge o emissor e o receptor: os alunos, com deficiência de aprendizagem, evoluem e os que ensinam fixam o conhecimento, adquirindo uma visão mais ampla do assunto.

Outras escolas incentivam os alunos à assistência hospitalar, às crianças doentes, internadas em hospitais. É o caso de adolescentes, de 16, 17 anos, geralmente do 3.º ano do ensino médio, que se dedicam, como voluntárias, a brincar com crianças – na maior parte carentes – internadas em hospitais, exercitando o amor ao próximo.

Utilizam-se de livros infantis, tintas, lápis de cor, teatrinhos de fantoches e outros. Contam histórias, pintam, desenham, encenam peças infantis, organizam jogos, sempre com a supervisão de um técnico em recreação. Trabalham atividades educativas e recreativas.

As crianças doentes sentem-se animadas com o ganho dessas parceiras para brincar. O ganho das adolescentes é de outra natureza: tornam-se pessoas mais solidárias, com sentimentos mais elevados, com um olhar voltado ao infortúnio humano. A presença delas, no hospital, contribui para a humanização do atendimento, diminuindo o impacto da internação da criança.

Os resultados, segundo consta, são surpreendentes. As crianças aceitam melhor o tratamento, curam-se mais depressa. Muitas choram quando recebem alta, por não querer se afastar das novas amiguinhas mais velhas.

Um outro grupo dedica-se ao atendimento de idosos. Os adolescentes buscam sentido nesse trabalho, ganham experiência, avançam para a maturidade emocional e engrossam a ação solidária da sociedade.

Na abrangência do trabalho voluntário, outras luzes vêm surgindo na educação, quais sejam, os cursinhos comunitários. Alunos da classe pobre, oriundos de escolas públicas de má qualidade, poucas chances têm de ingressar numa boa universidade. Ainda recentemente, esse dado foi comprovado, quando as universidades públicas de São Paulo anunciaram isenção da taxa do vestibular para alunos carentes, alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas e que pertencem a famílias de baixa renda.

As universidades decidiram sobre a isenção, “apesar de terem tido uma experiência considerada insatisfatória em 2000, quando nem todas as isenções foram utilizadas”. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aumentou o número de candidatos isentos de 4 mil para 5.528, embora, no ano passado, apenas 329 dos beneficiados passaram no seu vestibular. A USP também divulgou que os isentos não tiveram bom desempenho.

As barreiras desses alunos para atingir um nível razoável de conhecimento são grandes. Trazem defasagem de longa data, que vai, no tempo, se acumulando, e ainda não só não podem pagar um bom cursinho preparatório para o ingresso a uma boa universidade, como não têm base suficiente para absorver o conteúdo por ele ministrado.

Atuações inusitadas, criativas, altruístas, surgem na área educacional e vêm criando oportunidades de um ensino complementar de bom nível aos alunos. São os chamados cursinhos comunitários, uma rede alternativa de ensino, mantida por voluntários, que investe, especialmente, na auto-estima dos alunos. O Educafro, por exemplo, é uma rede que agrupa 64 cursinhos comunitários dirigida pelo frei David dos Santos, um fervoroso defensor do aluno necessitado.

Os cursinhos comunitários tentam equilibrar os desníveis educacionais das diferentes classes sociais, diminuir o abismo entre a educação do pobre e a do rico que concorrem ao vestibular. São uma nova opção à população estudantil de baixa renda. Em geral, surgem da própria comunidade, que se organiza e monta um núcleo, ou de grêmios estudantis, onde todos os funcionários são pagos.

Abrir um cursinho comunitário exige muita vontade e trabalho, pois todos os seus integrante são voluntários. A mensalidade equivale a 10% do salário mínimo, valor simbólico comparado aos grandes cursinhos. Esses cursinhos têm se revelado de grande utilidade e têm trazido resultados animadores, em termos de melhora da qualidade de ensino. Muitos alunos, hoje estudando em universidades, passaram por cursinhos comunitários. Torcemos para que o exemplo se prolifere.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em agosto/2001)

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