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Artigos Educacionais

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MUDANÇAS NA REFORMA DO ENSINO

Izabel  Sadalla Grispino *

Muito já se tem falado ou escrito sobre a reforma do ensino, mas o que parece é que ela está sendo sofrivelmente entendida e aplicada, em boa parte das escolas. Hoje, se preconizam voluntários da educação, pessoas da comunidade, da sociedade em geral, que, de alguma forma, possam contribuir com a escola, enriquecer seu conhecimento, seu currículo, inclusive sob a forma de atividades aos alunos. Este artigo engloba o objetivo de fornecer às escolas subsídios à reflexão sobre a nova realidade escolar, inscrita nas proposições emanadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

A escola precisa fornecer parada para a meditação, para a reequilibração num processo de feed-back. “Um professor que não pára para rever sua prática pedagógica, se ver em atuação, trocar com seus pares, é um professor literalmente tragado pela “fazeção” do dia-a-dia, que acaba ficando sem sentido”. (Paulo Freire)

Surge uma nova concepção de currículo e, com ele, uma nova concepção de escola. Nova em seu formato, em seu funcionamento, em sua organização, requerendo uma profunda revisão das metodologias de ensino. Uma escola que deve estar apoiada em avaliações periódicas, renovando-se, ajustando-se a um mundo em permanente mutação, para o qual o ensino tradicional tornou-se inapropriado, obsoleto.

Revoluciona-se o conceito de currículo, que tem, agora, sua maior característica na flexibilização. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a flexibilização na organização de cursos e carreiras e por isso torna possível a mudança que vale tanto para as escolas públicas como para as privadas. A idéia central é substituir a atual estrutura curricular, baseada em disciplinas e carga horária fixa, por outros modos de organização. Na educação básica por: “séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência” e em outros critérios e formas diversas de organização, como módulos, reclassificação de alunos, aceleração da aprendizagem... No ensino superior a LDB prescreve que “alunos que tenham extraordinário aproveitamento nos estudos... podem ter abreviada a duração de seus cursos”.

O novo currículo substitui padronização por flexibilização. Vivemos numa sociedade plural, plural que deve ser usado para o enriquecimento, para o acréscimo, não para a unificação. A reforma adota currículos que buscam a cultura compartilhada, atualizada, incluindo a informal, onde a leitura de jornais e revistas deve ser pensada como uma de sua parte integrante. O currículo formal só é autêntico se apoiado no currículo oculto, oriundo da vida do aluno, sua cultura, suas variadas influências. O projeto pedagógico da escola precisa contemplar o contexto sociocultural, trabalhar a metodologia interativa, interdisciplinar, contextualizada, com o foco do currículo caracterizado mais por competência cognitiva de caráter geral que por informações. “No lugar de uma cabeça bem cheia, uma cabeça bem feita”, nos ensinava no século XVII o pensador francês Montaigne.

As modernas teorias pedagógicas têm suas raízes no passado, foram estruturadas ao longo dos séculos. Reforçam, entre outras, o pragmatismo lançado pelo educador norte-americano John Dewey, que antes da década de 30 dizia: “Escola é vida, não é preparação para a vida”. Propunha que a escola desenvolvesse aptidões e habilidades nos alunos por meio de experiências vividas; é o famoso “aprender fazendo”. Piaget e Bruner, influentes mentores da educação moderna, na 2ª metade deste século, possibilitaram-nos a formação de programas de ensino mais realistas, conteúdo mais acessível, métodos de ensino e de aprendizagem mais adequados aos alunos. “O aluno é um ser que interage com a realidade”, dizia Piaget.

As disciplinas tradicionais do currículo devem estar relacionadas aos aspectos essenciais da vida do cidadão, como ética, saúde, meio-ambiente,  movimentos  culturais,  sexualidade,  pluralidade  cultural,  mito  da democracia

social, vivência familiar, social e outros. Esses temas serão incluídos e trabalhados em associação às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais”. A escola abre oportunidade para que os alunos aprendam temas normalmente excluídos e atua propositadamente na formação de valores e atitudes.

O currículo de todos os níveis de ensino contém uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com as “características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB). Deve nortear-se pela interdisciplinaridade –  interligando as diversas áreas do saber  – pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação geral mais ampla e a contextualização buscará solução dos problemas sociais no seu trato com o cotidiano.

INTERDISCIPLINARIDADE – As disciplinas inter-relacionadas fornecem ao aluno um conhecimento globalizado do assunto. Na universalidade, por exemplo, vem corrigir distorções do ensino superior e da especialização excessiva dos cursos de graduação realizados em departamentos e cursos desintegrados dos demais. Hoje, os profissionais mais qualificados para o mercado de trabalho são os chamados especialistas generalizantes, que, junto ao conhecimento de sua área e especialização, devem ter a capacidade de adquirir informações sobre outras áreas, facilitando o conhecimento do papel de outras pessoas e uma melhor interação entre elas.

A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, o que faz repensar na forma atual do exame vestibular, que força o estudante à escolha precoce, a uma especialização com escolha preestabelecida.

CONTEXTUALIZAÇÃO – O ensino das disciplinas tradicionais deve estar relacionado aos contextos: trabalho, ambiente, convivência social, movimentos culturais e outros. Estes relacionamentos rompem com o modelo de educação, no qual o aluno não sabe aplicar na vida a teoria aprendida na escola.

Ao evitar conhecimentos descolados da realidade, a escola afasta o enciclopedismo dos currículos, colocando os objetivos do ensino próximos ao dia-a-dia da sala de aula. A nova proposta parte do pressuposto de que o conhecimento não está mais parado nas enciclopédias, ao contrário, sofre mudanças espantosas.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2000)

EDUCAR PARA OS DIREITOS HUMANOS

Izabel Sadalla Grispino *

O avanço no processo educacional ganha dimensões humanas inusitadas. A escola volta seu olhar para as pessoas de risco, buscando resgatar sua dignidade, na prática do exercício da cidadania. Em localidades carentes, a escola predispõe-se a regularizar a vida da criança, partindo do registro civil.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em 16 de dezembro de 2002, que em 2000, em um ano, mais de um milhão de crianças não têm certidão de nascimento. Em 2000, 3,2 milhões de crianças nasceram em hospitais brasileiros, mas apenas 2,5 milhões foram registradas em cartórios. Além desses bebês – 700 mil  que não entraram nas estatísticas oficiais -- o IBGE calcula que outros 370 mil nascimentos ocorreram em casa e não foram notificados, levando a um total de 1.070.000 de crianças sem certidão de nascimento, em apenas um ano.

Os chamados sub-registros afetam não só os dados de nascimentos, mas também os óbitos. O IBGE estima que,  nas regiões Norte e Nordeste, 48,2% e 35,6% dos nascimentos não foram registrados em 2000.

A escola, considerando que o sub-registro é um problema sério, envolve a questão da cidadania, entende que o primeiro passo é providenciar o registro dessas crianças. Afinal, quem não tem certidão de nascimento não existe e não pode exercer seus direitos.

Criou-se, assim, a concepção de sujeito de direito, conceito que a escola quer desenvolver nos alunos. Mostrar à criança novos caminhos, estimular a vontade de ser alguém, desenvolver nela a consciência de que tem direitos, tem direito a ser criança, de que é uma pessoa capaz. Estes aspectos são pontos de partida para a educação da cidadania.

Sujeito de direito é uma louvável vertente da escola que quer educar a criança para os direitos humanos, procedimento que atinge tanto a educação formal, como a informal. A educação dos direitos humanos é multidimensional, abrange não só a dimensão cognitiva do aluno, mas a dimensão comportamental, social, afetiva, emocional. Prepara o aluno para ser um cidadão cônscio de seus deveres, suas responsabilidades e dos direitos a que tem e que pode usufruir.

*    *    *

FELIZ  ANO  NOVO

É o que desejo a todos vocês, queridos leitores. Que 2003 os conduza em direção à estrela-maior, reinado do amor, da fé, da esperança. Que sua irradiação transforme a terra num oráculo de canto e de paz.

 

PASSAGEM DE ANO

PASSAGEM DA VIDA

A vida desponta:

Crescemos,

Lutamos,

Construímos,

Energia total.

Vivemos junto à esperança,

Futuro e sonho,

Escritos em aliança.


Eis que o sol poente aparece,

Quanta mágoa, quanta desilusão!

Ausência de fantasia,

Realidade e sangria.

A realização é inconsistente,

A vida é estreita demais,

Sempre se espera fazer mais.

Agora, pouco se olha pra frente,

O passado vira alimento,

A vida se torna lembranças,

Volta-se ao solar da criança.

A vida é canto sonoro,

Passos leves, sem esmagar,

A estrela que tanto brilha,

Lentamente se apaga ao luar,

Andamos tropeçando em túmulos,

Sabendo que haverá a hora de lá chegar!

Vida e tarde que escurece,

O esperar, o desesperar,

Chorar a saudade,

Viver o conflito,

A dor que arrebenta,

Um amor que nos sustenta;

Vão-se as noites de verão,

O inverno chega de antemão.

A vida vale pela paz,

Águas mansas que deslizam devagar,

Não há tempo, nem espaço para a insensatez,

O universo dá a todos pouca vez.

 

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em dezembro/2002)

A BIBLIOTECA

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é da comunidade o seu mestre-sala abrindo alas para a entrada do caminho do sol, descortinando um horizonte de estrelas. Ela é a sua fada-madrinha, presenteando a população com a mais cara jóia da humanidade, o livro. Nela moram os gênios da humanidade, os grandes das ciências, das artes, da filosofia, nela está armazenada a nata da intelectualidade mundial, as obras dos maiores artistas, dos maiores pensadores de todas as civilizações. Ela nos põe em contato com séculos de sabedoria e “só depende de você, de sua vontade de crescer como ser humano, na companhia deles”.

É a biblioteca quem fornece a matéria-prima da cultura, do reforço escolar, quem propicia e fortalece na criança e no jovem o hábito da imperiosa leitura, o hábito de ler. Ela é um recurso didático imprescindível ao ensino-aprendizagem. Com a adoção, pela escola, do método construtivista, coloca-se a pesquisa na vanguarda da metodologia.

A familiaridade com os livros deve acontecer desde a mais tenra idade. Várias são as estratégias utilizadas, lembrando a já consagrada “hora do conto”. Deve-se valer do imaginário mágico da criança e estimular a curiosidade, passar imagens, conceitos, como de que em cada livro há um tesouro escondido e que os mais valiosos tesouros do mundo estão guardados na biblioteca. Extrair das histórias o conteúdo moral, educacional, relacionando-o ao tesouro escondido.

Se quisermos formar leitores temos que nos valer de procedimentos que convirjam para esse fim. Montar uma biblioteca, com atrativos visuais, em local amplo, espaçoso, arejado, mantendo-o sempre limpo, com livros, revistas e jornais que atendam as diferentes faixas etárias, dispostos de maneira atraente, de fácil alcance e manuseio, de retirada facilitada, inclusive estimulada, porque o mais comum é dificultar, desestimulando o seu uso.

A biblioteca deve se constituir num ambiente acolhedor, convidativo, o usuário ou o aluno orientados, reiteradas vezes, para colaborar com a ordem, serem responsáveis, ajudando a manter o livro em bom estado de conservação. É indispensável uma pessoa treinada, encarregada da organização, da manutenção, do atendimento à população como um todo.

Frases estimuladoras, incentivadoras, slogans, devem ser espalhados em volta e dentro da biblioteca. No final do artigo, passo aos interessados, em meus versos, considerações e imagens sobre biblioteca, que podem ser colocados nas portas ou nas paredes da biblioteca, como estímulo e reflexão.

Sem a educação de nada adiantaria o avanço social; ele perderia sua base de sustentação, de conservação. São os livros que fortificam e dão forma à educação. Uma biblioteca pública coloca, em seu regaço hospitaleiro, também o menino pobre, estendendo-lhe as mãos, ajudando-o a desbravar sua inóspita floresta, fazendo-o alcançar a clareira e com ela encontrar o seu vale do sol.

Já se disse que “os livros constroem as grandes pátrias”. Os povos ignorantes abdicam de si nos outros e voltam-se à servidão e ao desaparecimento. A biblioteca, por seus livros, é a saída honrosa para se erguer o nosso Brasil, é a saída honrosa para fazer seu povo ascender, com dignidade e sabedoria, na escala social. Ela é o salvo-conduto para o mundo do conhecimento, mundo este encarregado de trazer a compreensão e a paz, de equilibrar o desnível social.

Quanto mais livros à disposição da população, mais a certeza de que ela saberá como achar seu tesouro escondido, como encontrar o verdadeiro caminho da felicidade.

 

BIBLIOTECA

Quanto encanto numa biblioteca!

Nos livros, quanta sabedoria!

As histórias da criança sapeca

Acordam do sono a alegoria!

Guardemos, pelo livro, respeito,

Tenhamos, por ele, o maior conceito!

Há vida intensa na biblioteca,

Nela moram o poeta e o escritor,

É da língua escrita a discoteca,

A ousadia do grande inventor!

O livro é um caminho de luz,

Como a Bíblia, ensina ver Jesus!

Biblioteca é desenvolvimento,

Sinônimo de educação,

Representa, ao homem, crescimento,

Força pra mente e pro coração!

O livro ensina a viver em paz,

Ele guarda as jóias que o mundo faz.

 

*Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em março/2001)

DIA DOS MORTOS

Izabel Sadalla Grispino *

Engana-se quem pensa que os mortos não existem mais, que não mais pertencem a esse mundo. Eles continuam dirigindo nossos passos, indicando luzes no caminho, convivendo de perto com cada um de nós. Eles são o grande monumento que estruturou nossas vidas, o alicerce desse cabedal de conhecimentos que faz parte da existência humana. A cultura, por eles implantada e desenvolvida, regra e amplia nossos horizontes.

Quantas vezes ouvimos dizer: “Minha mãe dizia que...”; “Meu pai falava que...”; “Minha avó me ensinou que...”. Aprendemos, por exemplo, com a poetisa Gabriela Mistral, que para a criança – um ser em formação, fonte da vida – existe o hoje, o agora, para que lhe venha existir o amanhã. Não podemos abandoná-la, ela é a Pátria em seu futuro! Aprendemos com o nosso Rui Barbosa, como professores, o que significa plantar a couve para o dia de hoje, para o próximo amanhã, e o que significa plantar o carvalho para a posteridade, para a glória da Pátria, para o agasalho da humanidade!

As pessoas que amamos e que partiram continuam povoando nosso universo interior, são porto seguro nas encruzilhadas da estrada. Buscamos conforto e refrigério em suas lembranças, valemo-nos das experiências vividas, acariciamo-nos no calor advindo de seu amor. A passagem que tiveram pelo mundo nos ensina mais do que supomos. Aprendemos com seus erros e com seus acertos. Eles são, na verdade, o prolongamento, a reafirmação de nosso aprendizado, de nossos ideais, nossos sonhos de vida.

Os grandes inventores, cientistas, pensadores, poetas, músicos, deixaram exemplo de devotamento e exaltação à vida. Facilitaram, amenizaram, ensinaram, encantaram e adocicaram a existência.

Nossos antepassados, nossos avós, pais, irmãos, na labuta do dia-a-dia, deixaram imagem de força, de coragem, de muita fé na constituição da família. Ensinaram-nos como é importante participar da vida com responsabilidade, também, com alegria e prazer. Basta lembrar, pensar e concluir.

Os mortos e os vivos fazem parte de uma corrente, de um elo profundo, de uma estrutura que se perpetuam no tempo e no espaço. “Eles foram o que somos hoje, nós seremos amanhã o que são hoje”. Eles merecem nossa reverência!

Dia 5 de novembro marcou de tristeza minha família. Partiu para a mansão do além nosso querido José, um médico que amou muito a humanidade, deixou eternas lembranças. Esse irmão mora no mais profundo do coração, de recordações amadas, de acordes sonoros, pontilhados de oração. José nasceu num dia 12 de setembro, abençoado pelo esplendor de tardes primaveris, de poentes dourados, vivendo sob um céu, passando, no seu colorido, a idéia de Deus, do infinito. Para além do céu estrelado, existe a fonte da vida e do amor eterno.

 

ESPÍRITO DE LUZ

Quando desse mundo eu partir,

Não pensem que estarei morta,

Numa nova luz que há de vir,

Voarei nas asas da gaivota.

Quero a Deus falar,

Pedir-Lhe uma nova missão,

Com a dor me compactuar,

Espalhar, entre os mortais, compreensão.

Modificarei a visão do ser,

Farei de fantasia sua veste,

Deixarei o sonho prevalecer,

Sementes que lançarei no norte, sul, leste, oeste.

Abrandando os conflitos nos corações,

Ajudarei o homem a ser mais feliz,

A se ver em outra dimensão,

À simplicidade da vida pedir bis.

No inconsciente do saber acumulado,

Retornarei para iluminar a humanidade,

Fazendo da terra um mundo melhorado,

Caminhando de mãos dadas com a religiosidade.

A experiência que a vida me deu

Minha alma aprimorou,

A fé no homem, que dentro de mim não morreu,

Meu retorno ao mundo mortal profetizou.

Voltarei, nos meus versos, para a paz reascender,

Para a esperança nunca faltar,

Para no calor da união, o humano viver,

No amor, a vida se perpetuar.

Piedade terei para este mundo sem jeito,

Sentimento de injustiça

É o que mais impera nesse leito,

A imaturidade humana, a vaidade atiça!


* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em outubro/2004)

OS PRIMEIROS PASSOS DO MAGISTÉRIO

Izabel Sadalla Grispino *

Semana passada, participei de uma colação de grau de formandos do magistério. Fui solicitada a falar aos formandos e na oportunidade, junto às minhas felicitações, lancei reflexões a respeito do papel do professor. Considero oportuno passá-las a uma gama maior de professores, razão pela qual publico-as aos meus prezados leitores.

“Vocês, bravos formandos, me passam uma imagem bela de Brasil, imagem que me anima, de força viva, de confiança nos destinos desta terra. Vejo, em vocês, uma laboriosa colméia, abelhas produtivas, que irão espalhar, nesta terra, o saber, a grande arma da desigualdade social. Essa etapa, por vocês vencida, a conclusão do curso normal, é importante, mas não pode se constituir em definitiva; deve, antes, servir de trampolim para cursos mais avançados. O diploma do curso normal não tem o peso que tinha no passado; hoje, ele precisa ser complementado por um curso superior.

O governo anunciou, recentemente, ao lado da implantação dos Institutos Superiores de Educação, com a criação do Curso Normal Superior, um curso a distância de formação de professores em nível superior, justamente para os que têm dificuldades em freqüentar uma universidade. A avaliação nacional da educação básica , o Saeb, do ano passado, revelou uma considerável perda na qualidade do ensino, por isso, a idéia, para tentar reverter esse quadro, é oferecer um Curso Normal Superior a distância, para prefeituras e redes estaduais de ensino. Deverá ser lançado, ainda, um programa específico de formação de professores alfabetizadores, visto ter o MEC constatado que os atuais professores não aprenderam a alfabetizar os alunos.

É preciso, realmente, continuar a estudar quem quer se colocar no mercado de trabalho. Não há escolha, a época exige qualificação, trazendo, para tal, forte concorrência, premiando os melhores preparados. Vocês vão começar dar os primeiros passos no magistério, enfrentar a primeira classe, a primeira realidade profissional. Entrem com amor, com muito cuidado, com muita responsabilidade. De vocês dependerá a formação produtiva ou improdutiva da vida. Vocês irão trabalhar caráter, ilustrar inteligências, ajudar a criança se transformar num adulto saudável, realizado. Sua matéria-prima será o elemento humano, necessitado de compreensão, de atenção, de carinho. Em Pedagogia se diz que quando o professor conquista a confiança do aluno, quando fala, a ele, a linguagem do amor, esse professor tem, praticamente, a sua aprendizagem garantida.

Muita atenção, pois, à desumanização, ao preconceito. Não se deixem guiar pela aparência, pelo aluno vem vestido, bem nutrido. Tenham um olhar de preocupação pelo maltrapilho, pelo “sujinho”, de unhas sujas, de dentes mal escovados. Se querem atuar com consciência, com eqüidade social, são esses, verdadeiramente, os que mais precisam de vocês. São neles que vocês deverão exercer a solidariedade, o amor ao próximo. Pensem na missão que é a de educar, reflitam sobre suas expectativas, seus valores e em que condições vocês colocam a pobreza.

Constata-se que as crianças de classes baixas, geralmente, não produzem bons resultados na escola. Por que? É possível que a criança vá mal por que é isso que se espera dela. A pessoa passa a se desacreditar, quando se desacredita dela. Estudos realizados sobre o efeito das expectativas de professores, no rendimento escolar do educando, vieram comprovar a hipótese de que alunos conseguem resultados consideravelmente melhores quando seus professores esperam mais deles, quando os olham como alguém que pode.

É famoso, entre os educadores, o experimento realizado por Rosenthal e Jakobson. No começo do ano letivo, estes pesquisadores fizeram com que os professores, de uma escola, acreditassem que alguns de seus alunos teriam condição de apresentar grandes progressos. Os professores supunham que estas predições estavam baseadas em testes que haviam sido realizados com os alunos. Mas, na verdade, os alunos indicados foram escolhidos ao acaso, aleatoriamente, entre o grupo classe e não a partir de qualquer resultado nos testes. Apesar disso, os testes de inteligência aplicados, depois de vários meses, indicaram que, no conjunto, as crianças escolhidas ao acaso, tinham progredido mais do que as outras.

Experimentos como esse colocam em evidência a importância das percepções, dos valores que se têm sobre os alunos que estamos ensinando e avaliando no dia-a-dia escolar. Quanta inteligência se perde, deixa de se desenvolver por preconceito, por descaso, por falta de entrega dos professores, especialmente, os das primeiras letras. Iniciam-se, aí, as injustiças que irão se perpetuar vida afora.

É preciso ter olhos para ver, coração para sentir. Um grande pensamento filosófico diz que devemos lutar pela igualdade quando a desigualdade é injusta e lutar pela desigualdade quando a igualdade fere, machuca.

Entramos na era do conhecimento e a ordem do dia é a educação continuada. Para ser um bom professor é preciso estudar, ter competência para bem atuar. Hoje, a disciplina contextualizada conduz o professor à observação direta da realidade do aluno, à sua valorização. O professor precisa abranger a cultura viva do dia-a-dia e ao mesmo tempo deve ter a capacidade de deslocar-se da realidade próxima para a realidade distante, global, ter o olhar local, partindo para o olhar geral, ser “fundamentalmente particular e fundamentalmente universal”, como nos ensinou o educador paulista Antonio Severino.

Mais que toda organização curricular, mais do que programas bem elaborados, são os professores que, no contato direto com os alunos e suas famílias, vão, em última instância, ser os responsáveis diretos pela ação educativa. O currículo oficial, elaborado por teóricos, é sempre uma expectativa que, normalmente, não se alcança, porque a forma como o conteúdo é transmitido depende das condições do ensino, da boa formação do professor e da estrutura da escola, quase sempre deficitárias. É preciso ter escola e professor em condições de executar o currículo proposto, com capacidade de torná-lo acessível aos alunos.

Só a educação empurrará o Brasil para o crescimento econômico, para o desenvolvimento social. Vamos amparar, dar suporte, dignidade aos nossos professores, porque deles depende a grandeza ou a pobreza da pátria.

Boa sorte a vocês formandos, coragem para a luta, destemor e que Deus os acompanhe na escalada que ora se lhes inicia”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2000)

A ESCOLA DA SOLIDARIEDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Boa escola é aquela que não se preocupa, exclusivamente, em preparar o aluno para a faculdade, mas em formá-lo para enfrentar as situações de vida. Utiliza-se do método sócio-construtivista, faz do aluno o agente da aprendizagem e coloca o professor como mediador entre o aluno e o conhecimento. Estabelece as condições cognitivas necessárias à aquisição do conhecimento e trabalha atitudes e posturas éticas, humanas, objetivando a formação do cidadão crítico, responsável, participativo.

Esta escola vai além da transmissão do conhecimento, abrange a formação integral do aluno, inserindo-o no contexto social em que vive. É uma escola conectada com a comunidade, com o mundo, reduzindo a distância entre o que fala e o que faz, fazendo a diferença entre o texto e o contexto, conforme desejava o educador Paulo Freire, quando dizia: “Não sou um ser no mundo, sou um ser com o mundo”.

A situação caótica da sociedade está encaminhando a escola para formar o aluno em direção ao humanismo, ao altruísmo, à prática do voluntariado; um cidadão aberto ao convívio social. Alunos compromissados com o momento em que vive, com o termômetro social, capazes de ver e refletir sobre os males que afligem a sociedade e a  não fugir à sua colaboração.

A boa escola ultrapassa o assistencialismo, debate as causas sociais, forma consciência, faz perceber as conexões do mundo globalizado. É uma escola perspicaz, inteligente, que retira dos problemas sociais estímulos para a curiosidade intelectual. Uma escola que se prepara para as ações voluntárias, recebe e fornece, e que vincula a transmissão do patrimônio cultural à formação do caráter, da alma. Forma fileiras e encaminha a criança para a paz, para a cooperação e não para a competição. O mundo competitivo está gerando deformação, individualismo doentio, de conseqüências lastimáveis.

O programa de voluntariado da escola não deve ser encarado como simples caridade. Quando o voluntariado vem de fora para dentro, além dos aspectos de ajuda, de cooperação, traz, em si, também o objetivo de enriquecer as aulas, de descortinar para o aluno variadas experiências, inovando e aperfeiçoando o conhecimento. O voluntariado quebra paradigmas da sociedade capitalista, que vê na remuneração, no lucro, as únicas razões de luta. No trabalho voluntário, não há busca de interesses pessoais, ele estimula a articulação entre sociedade e compromisso social. Da parte dos alunos, a solidariedade pode ser exercida, criando-se projetos voluntários para asilos, creches, orfanatos, educandários.

Há que se buscar alternativas, caminhos que alcancem os desníveis sociais, que minorem a fome, o desemprego, a ignorância alfabética. Uma pesquisa sobre trabalho voluntário na escola, pela comunidade, feita com 886 diretores, entre dezembro de 2000 e janeiro de 2001, pela empresa Enfoque, Pesquisa & Consultoria e Marketing, mostrou o seguinte resultado: 75% dos diretores afirmam que o trabalho voluntário na escola estimulou mais os alunos; para 40%, houve um desenvolvimento maior com atividades extraclasses; para 13%, houve melhora na disciplina; 11% acham que a evasão escolar diminuiu e para 10%, a presença do trabalho voluntário proporcionou a diminuição dos índices de repetência. Nenhum diretor apontou aspectos negativos, os marcadores foram todos positivos.

O triunfo da indiferença que impera na sociedade precisa ser trabalhado na escola, em casa, por todos. Impõe-se a recuperação do bom-senso no trato das relações humanas, da responsabilidade dos atos sociais, que parecem ter-se evaporados.

A crueldade não é fruto do acaso. As causas da violência são sempre citadas, mas pouco combatidas na esfera política. Resta valer-nos da pedagogia, mexer na estrutura da alma, exortando a ajuda mútua, a afetividade entre as pessoas. Sabemos que essa não é a função primeira da escola, mas ela não pode ser descuidada, a ponto de a função primeira ser invalidada pela outra. É um processo de resultado a médio e a longo prazo, mas que se faz necessário dar, com urgência, o primeiro passo.

A preocupação de educar para o altruísmo levou a ONG “Faça Parte” lançar, na Assembléia Legislativa de São Paulo, em 15 de março p. passado, o Projeto “Jovem Voluntário, Escola Solidária”. Vários outros projetos vêm sendo pensados e postos em prática, com o fim de assistir às crianças, aos jovens, educar-lhes para a cooperação, disseminando fraternidade. O grande propósito é combater a violência, difundir um mundo de paz.

A escola, hoje, prima por dupla competência: do conhecimento, na formação cognitiva, onde tem o seu grande papel, e da formação comportamental. Escola para formar cidadãos, da conquista do aluno não só pelo conhecimento, mas, também, pelo lado afetivo, incluindo conceitos de ética e de cidadania. Na função de transformadora social, a escola não pode fechar os olhos para as turbulências da vida atual. O professor, por sua vez, deve se conscientizar da grande força que possui diante do aluno e utilizá-la na consecução dos objetivos gerais e específicos da educação. É ele, o professor, a pessoa mais credenciada para desenvolver ações que busquem suportes à escalada do mal que toma conta do cotidiano. Ainda não se descobriu nada melhor para substituir o professor na missão de ensinar e de educar. Nenhuma máquina de dar aulas, nem a Internet, conseguem eliminar a presença do professor.

Mudar o rumo da educação impõe-se cada vez mais. Precisamos unir progressos científicos a progressos de alma. A civilização quanto mais progride, mais parece atingir, negativamente, a estrutura humana. Nunca tivemos guerras em proporções tão assombrosas, tão ferozes. Inventam-se, dominam-se máquinas, que, ao invés de contribuírem, aniquilam a humanidade.

O que resolve o avanço da ciência, se ele é usado na destruição do próprio ser humano?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2002)

A FACE DO ATUAL MAGISTÉRIO PÚBLICO

Izabel Sadalla Grispino *

O magistério, que há décadas atrás ainda atraía profissionais oriundos da classe média, da classe média-alta, com esmerada formação, hoje é representado, na grande maioria, especialmente nas escolas da rede oficial, por professores da classe pobre, com enfraquecida formação. São filhos de pais de baixa escolaridade, pais que nunca foram à escola ou não completaram os quatro primeiros anos do ensino fundamental. Foi o que demonstrou o questionário socioeconômico do provão 2001.

O questionário demonstrou que os formandos dos cursos para professores, como pedagogia, letras, matemática, biologia, física e química, têm perfil distinto dos formandos de cursos como medicina, engenharia ou mesmo os de oferta mais comum, como direito e administração. Em pedagogia, 9,8% dos pais nunca freqüentaram escola, contrapondo-se à medicina, onde apenas 0,9% dos pais estão na mesma situação. Em pedagogia, 54,7% não completaram a 4.ª série do ensino fundamental, em medicina, apenas 10,7%.

A renda mensal das famílias, em cursos de formação de professores, também destoa da média dos demais. Em letras, por exemplo, 23,1% e matemática 24,4% vivem em família com renda inferior a R$ 540,00, sendo que a média de todos os cursos gira em torno de 10,9%. Em algumas carreiras mais concorridas, como odontologia, essa proporção é de, apenas, 2,2%.

O magistério, hoje, é, com raras exceções, freqüentado por profissionais que conseguiram chegar até ele, com dificuldades financeiras e com deficiência de formação. A baixa escolaridade dos pais, o ambiente de pobreza, de falta de recursos, de boas condições de vida, não propiciam o desenvolvimento intelectual ou a apropriação de um saber mais elaborado. Também, os estímulos são reduzidos. Pesquisas demonstraram, por exemplo, ser a evasão e a repetência marcadas por alunos pobres, com pais de baixa ou nenhuma escolaridade.

Sem boa estrutura social, sem boa estrutura educacional, dificilmente os estudantes conseguirão freqüentar uma universidade de nível, arrastam-se por universidades privadas e freqüentemente de baixa qualificação. As universidades públicas não formam muitos professores, mostram as estatísticas. De acordo com o Exame Nacional de Cursos, o provão, comprovadamente, a qualidade das universidades privadas é inferior às universidades públicas. Rose Neubauer, em entrevista feita em dezembro de 2001, afirmou que 90% dos professores fizeram universidades particulares.

A decadência do ensino público está muito sustentada por essas características, que levam a uma base precária de formação de seus profissionais. A escola pública, a continuar com essa face empobrecida, sem os devidos cuidados por parte dos governos, que, em seus discursos, a colocam como prioridade, mas que, na prática, usam a tática do “deixa rolar”, muito dificilmente se erguerá. Essa nova leva de docentes necessita de assistência técnica reforçada para poder exercer bem a profissão.

Desassistida, a escola não se torna uma entidade convidativa e corre o risco de ter quebra em seus quadros docentes, o que, aliás, já vem ocorrendo Dificilmente,  um professor será um desempregado, nos próximos anos. Haverá vagas, mas, a manter esta situação, faltará formação.

Abandonada pelos cofres públicos, a escola ostenta baixos salários e condições deficientes de ensino. Uma pesquisa, intitulada “Retrato da Escola”, feita pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), com base nos dados do MEC, revelou que há carências de recursos pedagógicos, graves ou menos graves, em 65,3% das escolas públicas do ensino médio. Nas escolas de 8.ª série, as carências são de 53,2% e nas escolas de 4.ª série, de 46,2%. A pesquisa revelou, também, que em 73,5% das escolas públicas de 4.ª série, em 85,1% das de 8.ª série e em 87,2% das de ensino médio, havia problemas de insuficiência de recursos financeiros.

A escola pública vem se marcando por defasagens cada vez mais acentuadas. Os seus professores, que, no passado, representavam a elite cultural do País, hoje, têm a mesma origem social de seus alunos. Essa característica os leva a conhecer, a entender melhor a realidade social de seu aluno, fator que pode aproximá-los, mas que pouco pode ajudá-los, em termos de ascensão social, em termos de qualificação profissional.

Louva-se, contudo, o esforço desses pais que, com muita luta, muita garra, conseguem dar condições de estudo aos filhos e louva-se, também, o esforço dos filhos, que com dificuldade sobem a rampa, olhando para o alto, para um mundo melhor. Faltam a esses pais, a esses filhos uma melhor assistência por parte dos governos e da sociedade como um todo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2002)

BASE HUMANÍSTICA DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando o assunto sobre voluntariado, constatamos que escolas há que orientam os alunos para a participação voluntária. Muitas já incluem, em seus projetos pedagógicos, atividades de trabalho voluntário. Os exemplos começam a se multiplicar.

Alunos de escolas particulares de alto padrão estão se predispondo, com orientação, a oferecer ajuda, em diversas disciplinas, a alunos de escolas da rede oficial, com dificuldade de aprendizagem, ajudando a tirar dúvidas e a elevar o nível de conhecimento desses alunos. Eles integram a programação da escola contemplada, uma ou duas vezes por semana, em determinado período, participam de atividades extraclasses ou, então, a escola monta um horário especial para esse atendimento.

O entusiasmo atinge o emissor e o receptor: os alunos, com deficiência de aprendizagem, evoluem e os que ensinam fixam o conhecimento, adquirindo uma visão mais ampla do assunto.

Outras escolas incentivam os alunos à assistência hospitalar, às crianças doentes, internadas em hospitais. É o caso de adolescentes, de 16, 17 anos, geralmente do 3.º ano do ensino médio, que se dedicam, como voluntários, a brincar com crianças – na maior parte carentes – internadas em hospitais, exercitando o amor ao próximo.

Utilizam-se de livros infantis, tintas, lápis de cor, teatrinhos de fantoches e outros. Contam histórias, pintam, desenham, encenam peças infantis, organizam jogos, sempre com a supervisão de um técnico em recreação. Trabalham atividades educativas e recreativas.

As crianças doentes sentem-se animadas com o ganho dessas parceiras para brincar. O ganho dos adolescentes é de outra natureza: tornam-se pessoas mais solidárias, com sentimentos mais elevados, com um olhar voltado ao infortúnio humano. A presença deles, no hospital, contribui para a humanização do atendimento, diminuindo o impacto da internação da criança.

Os resultados, segundo consta, são surpreendentes. As crianças aceitam melhor o tratamento, curam-se mais depressa. Muitas choram quando recebem alta, por não querer se afastar dos novos amiguinhos, mais velhos.

Um outro grupo dedica-se ao atendimento de idosos. Os adolescentes buscam sentido nesse trabalho, ganham experiência, avançam para a maturidade emocional e engrossam a ação solidária da sociedade.

Na abrangência do trabalho voluntário, outras luzes surgem na educação, quais sejam, os cursinhos comunitários. Alunos da classe pobre, oriundos de escolas públicas de má qualidade, poucas chances têm de ingressar numa boa universidade. Ainda recentemente, esse dado foi comprovado, quando as universidades públicas de São Paulo anunciaram isenção da taxa do vestibular para alunos carentes, alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas e que pertencem a famílias de baixa renda.

As universidades decidiram sobre a isenção, “apesar de terem tido uma experiência considerada insatisfatória, quando nem todas as isenções foram utilizadas”. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aumentou o número de candidatos isentos, porém poucos beneficiados passaram no seu vestibular. A USP também divulgou que os isentos não tiveram bom desempenho.

As barreiras desses alunos para atingir um nível razoável de conhecimento são grandes. Trazem defasagem de longa data, que vai, no tempo, se acumulando, e ainda não só não podem pagar um bom cursinho preparatório para o ingresso a uma boa universidade, como não têm base suficiente para absorver o conteúdo por ele ministrado.

Atuações altruístas surgem na área educacional e vêm criando oportunidades de um ensino complementar de bom nível aos alunos, como são os cursinhos comunitários. Estes constituem uma rede alternativa de ensino, mantida por voluntários, que investe, especialmente, na auto-estima dos alunos. O Educafro, por exemplo, é uma rede que agrupa quase 70% dos cursinhos comunitários dirigida pelo frei David dos Santos, um fervoroso defensor do aluno necessitado.

Os cursinhos comunitários são uma nova opção à população estudantil de baixa renda. Em geral, surgem da própria comunidade, que se organiza e monta um núcleo, ou de grêmios estudantis, onde todos os funcionários são pagos.

Abrir um cursinho comunitário exige muita vontade e trabalho, pois todos os seus integrantes são voluntários. A mensalidade equivale a 10% do salário mínimo, valor simbólico comparado aos grandes cursinhos. Esses cursinhos têm se revelado de grande utilidade e têm trazido resultados animadores, em termos de melhora da qualidade de ensino. Muitos alunos, hoje estudando em universidades, passaram por cursinhos comunitários. Torcemos para que o exemplo se prolifere, para que, daqui há algum tempo, não precisemos nos deparar com o resultado divulgado, no início de setembro de 2005, do Ibope, sobre analfabetismo funcional, mostrando que 75% da população não consegue ler e escrever direito.

A solidariedade é, sem dúvida, um caminho de reabilitação da escolaridade, evitando os profundos desníveis sociais. Reabilitação não só da parte que recebe a ajuda, mas, e muito, da parte que estende a mão e influencia o vizinho, para o comportamento cristão do pão repartido.

A preocupação em desenvolver uma base humanística e solidária entre os estudantes dos vários graus de ensino, hoje, é uma constante, um conhecimento a favor da cidadania. É um trabalho de educação que tem, a médio e longo prazo, perspectivas de sensibilizar alunos para que se envolvam em trabalhos voluntários.

É preciso pensar no conjunto da população, porque ninguém pode ser feliz vivendo no seio de uma comunidade desventurada. O ambiente geral é reflexo ou de uma sociedade bem constituída, bem repartida, ou de uma sociedade onde o desequilíbrio traz profundas marcas de dor.

Vamos educar  nossos alunos, os responsáveis pelo mundo que se formará amanhã, vamos conscientizá-los em direção à eqüidade social! Eqüidade em trabalho, em capacitação profissional, em realização pessoal, na linha construtiva do ensinar a pescar. Não é dar gratuitamente, é dar condições de vida própria, de vida de qualidade!

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em setembro/2005)

FUNDO DE DESENVOLVIMENTO DO ENSINO BÁSICO

Izabel Sadalla Grispino *

O Ministério da Educação elaborou um projeto de emenda constitucional, que institui um novo fundo para a educação no País, o Fundeb, que deverá substituir o atual Fundef. Quer garantir que toda a verba para a educação dos Estados e dos municípios seja aplicada no ensino básico e não só no fundamental, englobando, dessa maneira, a creche, a educação infantil, o ensino fundamental, o médio e incluindo o supletivo.

O Fundeb, que se chamará Fundo de Desenvolvimento do Ensino Básico, será enviado ao Congresso Nacional para discussão.

O Fundef, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério, com início de funcionamento em 1.º de janeiro de 1998, teve forte contribuição no aumento de número de alunos, dos 7 aos 14 anos, no ensino fundamental.

O que se quer, agora com o Fundeb, é ampliar as matrículas para todo o ensino básico, fazendo crescer, com o aumento do número de alunos, a quantidade de recursos para o fundo. Segundo Francisco Chagas, responsável pelo recém-criado Departamento de Financiamento da Educação do MEC, o Fundeb terá 25% da receita dos Estados e municípios (não mais 15% do Fundef), que pela Constituição, devem ser vinculados à educação. A idéia é, também, diminuir as diferenças regionais, que permaneceram com o Fundef. A lei que criou o Fundef dizia que o valor anual mínimo por aluno, determinado pela União, deveria ser reajustado periodicamente, para que nunca fosse inferior à razão entre a receita do fundo e a quantidade total de alunos e isso, segundo consta, nunca foi respeitado. O projeto, de acordo com Chagas, vai propor um piso salarial nacional para professores. Hoje, 60% dos recursos do Fundef são direcionados para os salários dos professores e o restante para o custeio.

A aprovação do Fundeb  vai depender da  discussão com governadores e com prefeitos. Há, ainda, o problema com o financiamento do ensino superior, que, em alguns Estados, é incluído na verba da educação.

O Fundeb e o Fundef têm estrutura semelhante. As diferenças fundamentais consistem em que: O Fundef atende apenas alunos do ensino fundamental e 15% da arrecadação dos quatro principais impostos dos Estados e municípios são destinados ao fundo. O Fundeb atenderá alunos desde a creche até o ensino médio e inclui a educação de jovens e adultos, via supletivo. Todo o dinheiro vinculado à Educação, 25% da arrecadação dos Estados e municípios, vai para o Fundo. Em ambos, a partilha dos recursos é feita em cada Estado e todos os municípios recebem um mesmo valor por aluno. Quando o Estado não atinge um valor mínimo estipulado por aluno, o MEC repassa o restante.

O Fundeb se bem formulado e bem aplicado será, sem dúvida, uma iniciativa de relevância. Poderá contribuir para colocar mais crianças e mais adolescentes em salas de aula, aumentando, em todos os níveis da educação básica, o número de vagas a serem preenchidas. A movimentação financeira, segundo consta, será a mesma do Fundef, ou seja, a divisão do dinheiro ocorreria dentro de cada Estado. Os recursos depositados no Fundo seriam distribuídos para todos os municípios, de acordo com o número de alunos matriculados no ensino básico das redes estadual ou municipal. Essa divisão contaria, também, com o valor anual mínimo por aluno, estipulado pela União.

O Fundef criou, com propriedade, o chamado controle social e acompanhamento das verbas a ele destinadas. É um conselho formado por representantes de pais de alunos, professores, servidores, prefeitura e conselhos de educação. Mas, o que ocorre é que, em muitos municípios, ele não vem funcionando a contento. Em fins de julho, encerrou-se o prazo para que os municípios enviassem os dados sobre os conselheiros, como nomes, telefones e outras credenciais. Das 5.561 cidades brasileiras, 4.717 atenderam a solicitação.

Francisco Chagas, por informações recebidas, conclui que “muitos conselhos não funcionam por vinculações com a prefeitura, mas, também, por serem formados por pessoas que não foram indicadas pelos seus pares – pais ou professores – ou porque a prefeitura não libera a documentação necessária para o acompanhamento efetivo”.

O conselho é um importante canal de fiscalização e de controle das verbas destinadas, por lei, à educação. Deve ser respeitado, estimulado a um bom desempenho em todos os municípios e por todos envolvidos no projeto em questão. São constantes as denúncias de desvio de verbas ou de repasse de verbas a outras instâncias, que não a educacional.

O Fundeb é o amadurecimento do processo desenvolvido no Fundef. Como serão distribuídas as verbas, pelos graus de ensino, ainda não foi divulgado.

* Supervisora de ensino aposentada.  
(Publicado em agosto/2003)

MELHORAR O ENSINO PELA APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

Para  a  atual  sociedade,  a  escola precisa desenvolver no aluno a capacidade de pensar e de aprender. Aprender será uma característica constante, evoluindo ao longo de toda a vida.

Essa é uma condição básica de que a escola não pode se furtar na sociedade do conhecimento, no mundo globalizado. Nos últimos anos processou-se uma verdadeira revolução na ciência pedagógica, reforçando os conceitos referentes às habilidades e às competências dos alunos, no processo de aprendizagem. Passou-se à adoção de critérios objetivos para fixar metas ao ensino, aperfeiçoando os sistemas de avaliação que permitem comparar o desempenho dos alunos e das escolas com outras escolas, com outros municípios, Estados ou País, com o desenvolvimento que houve da Teoria de Resposta ao Item.

As novas dimensões pedagógicas, ao que tudo indica, não foram, ainda, devidamente absorvidas pelos profissionais da educação. Os indicadores do desempenho dos alunos não mostram evolução satisfatória, revelando que as políticas educacionais não estão vindo de encontro ao efeito desejado. Os programas de estímulos à melhoria do desempenho das escolas concentram-se nas condições de ensino, em relação aos meios, para se desenvolver uma boa aprendizagem. Referem-se ao funcionamento das escolas, à formação dos professores, em reciclagem de estudos e melhoria salarial ou equipamentos, como laboratórios e computadores.

Embora as condições de ensino sejam importantes, chega-se, hoje, à conclusão de que os resultados de avaliações da aprendizagem dos alunos são os caminhos mais seguros para se promover uma melhoria do desempenho estudantil. Os programas, que, até então, vêm focando apenas as condições de ensino, devem deslocar o foco para a aprendizagem, considerando os resultados de avaliações, seguidas dos resultados de pesquisas sérias, sobre educação.

Partindo para um exemplo prático, analisando o resultado de uma recente pesquisa, feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, que mostra uma preocupante evasão escolar, chegamos à sala de aula, à passagem do conteúdo. Segundo a pesquisa, 18% dos jovens entre 15 e 17 anos não freqüentam a sala de aula. O principal motivo alegado pelos jovens, e que sobrepuja em muito os demais,  é o desinteresse pela escola – 45%;  seguido de trabalho – 22%;  e dificuldade de transporte – 10%.

Percebemos que o ponto capital está na falta de motivação aos estudos, ponto que recai sobre o processo de aprendizagem. Faz-se necessário pensar em um outro modelo de escola; esse não está despertando interesse dos alunos. A aprendizagem tem que estar próxima a um conteúdo pedagógico mais afinado à realidade dos jovens, mais identificado com suas vidas e mais eficiente em relação ao mercado de trabalho, de preferência visando à escola técnica.

Ao lado de se trabalhar a consciência da necessidade da educação, junto aos jovens e suas famílias, há a necessidade de uma revisão curricular e novos métodos de ensino, o que significa programar para a aprendizagem, na busca de melhorias de ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em abril/2007)

ESCOLAS DE LÍNGUAS

Izabel Sadalla Grispino *

Nota-se um aquecimento de escolas de línguas no mundo todo, influenciado pelo desenvolvimento de negócios. Pessoas que buscam aprender bem idiomas, distanciando-se do período em que a economia era fechada. Pessoas que descobrem novos negócios, que cuidam das relações internacionais de grandes empresas, aperfeiçoam-se no estudo de idiomas.

À medida que a globalização quebra barreiras, o ensino de línguas se expande, afinal a língua está relacionada com o comércio. Li, a respeito, o pronunciamento do presidente mundial da Berlitz Centro de Idiomas, Mark W. Harris, rede presente em 63 países, com 450 unidades, e que ensina 42 idiomas, do inglês ao tagalo, das Filipinas. Harris diz que o ensino de idioma incomum cresce para negócios. Professores americanos têm ido a Hong Kong ensinar mandarim aos chineses! Esclarece que está cada vez mais comum os americanos, em missões especiais de trabalho, recorrerem, às pressas, ao aprendizado do Português, o idioma oficial do País, não mais visto somente como a nação do futebol e do carnaval.

Polônia, Eslovênia, República Tcheca, antes ex-satélites soviéticos e restritas ao idioma russo, abrem-se para novas culturas. O crescimento da Berlitz está bastante concentrado na Ásia. De 1965 para cá, foram abertas, só no Japão, 56 unidades. Estão previstas 22 novas unidades lá, mais duas na Coréia. Na Tailândia, a Berlitz inaugura, este ano, o 6.º centro, na China, o 5.º, e em Xangai o 1.º.

Na Inglaterra, o processo avança. O departamento de Inglês da Universidade de Warwick, localizado na área central da Inglaterra, conta com cursos diferenciados para grupos específicos. O departamento, ao invés de turmas fechadas e programas prontos, adapta os cursos às necessidades dos estudantes, necessidades ligadas ao aperfeiçoamento do inglês, por causa do trabalho. O Centro de Língua Inglesa promove, entre outros, cursos para grupos de executivos chineses, analistas de sistemas mexicanos, professores da Malásia e profissionais japoneses da área de saúde.

Vivemos num mundo cercado por interesses econômicos, alastrando-se a cada passo. A globalização, se por um lado oprime, sob certos ângulos, os países em desenvolvimento, por outro, oferece perspectivas amplas de trabalho e comércio. A área financeira é o grande tema deste novo século e o domínio do mundo é sua finalidade. Embora Lincoln dissesse que democracia é o governo do povo pelo povo e para o povo, ela caracteriza uma participação que acontece por meio de eleições, somente até a escolha de um governante. O poder determinante está mais acima, como fala o escritor português José Saramago, que são os poderes econômicos. São estes que  impulsionam e que determinam novas posturas, novos caminhos.

Representantes de escolas de idiomas reafirmam, no estudo das línguas, a tendência a áreas que dão vantagens internacionais, como hotelaria, seguido de ramos como telecomunicações e informática. Esses setores são os que mais oferecem oportunidades de carreira internacional.

É, principalmente, por meio da aprendizagem de idiomas que se galgam espaços para avançar nas carreiras internacionais. Para quem gosta de viajar, conhecer o mundo, conhecer o modo de viver de outras pessoas, a cultura do diferente, o primeiro passo é estudar bem idiomas. O desenvolvimento de negócios, a visão globalizada do mundo exigem fluência no uso das línguas. Um executivo do setor de hotelaria, relatando sua caminhada profissional, contou que morou em onze países, por conta do trabalho. Entre eles, Taiti, Polinésia, Kuwait, Egito, Estados Unidos e Nepal. “Conheci uns 50 países em viagem, a maior parte a trabalho”. Ele domina bem os idiomas inglês, francês e espanhol. Hotelaria é um ramo em expansão. O turismo é outra profissão em moda, uma área aberta do mundo, onde o domínio de idiomas é indispensável.

No Brasil, o estudo de idiomas cresce e atinge uma população jovem considerável. O interesse, a procura pelo estudo de línguas fazem as escolas de línguas incrementarem-se, tornando um mercado rendoso, também, por aqui. Nas faculdades, os cursos de letras não parecem manter essa concorrência, quando se focaliza o ingresso ao magistério. Os jovens buscam os cursos com vistas a uma maior exposição internacional, e menos a uma carreira docente.

Esse, como outros temas que possam alargar os horizontes profissionais do educando, deve fazer parte do compromisso informativo das escolas.  Os professores devem estar antenados à época, podendo demonstrar mais amplamente as várias ocupações que vêm surgindo, abrindo o leque das oportunidades atuais do mercado de trabalho.

Sob uma outra faceta, a escola deve inteirar-se de inovações, como a desestruturação de muitos cursos, para atender uma demanda de profissionais, ainda inexistente, principalmente na área de elaboração de negócios. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), por exemplo, prepara, já para o ano que vem, seu vestibular para seu primeiro curso de graduação em Direito, que funcionará em 2005. Esse novo curso de graduação modifica o modelo tradicional de ensino hoje existente no Direito, uma sinergia entre Administração, Economia e Direito, sendo que Administração e Economia são cursos de graduação já existentes na FGV.

A falta de profissionais com uma formação mais ampla levou a Fundação a idealizar um currículo, no curso de Direito, onde se incluem as áreas de finanças, contabilidade, microeconomia, macroeconomia, meio ambiente e informática. A proposta é oferecer, já na graduação, toda a qualificação profissional existente, dando ao aluno as credenciais que geralmente ele busca, após a graduação, no exterior em cursos de mestrado.

Acompanhar essas inovações dá à escola um caráter institucional gabaritado, de considerável valia aos seus educandos.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em julho/2003)

EDUCAÇÃO FÍSICA NO 1.º CICLO

Izabel Sadalla Grispino *

A ciência tem revolucionado os entendimentos, os comportamentos referentes aos primeiros anos de vida do indivíduo.

A partir de descobertas comprovadas, desvendou-se o véu das reações cerebrais dessa faixa etária e percebeu-se o quanto é importante cuidar bem do desenvolvimento mental, físico, emocional da criança. Descobriu-se que há momentos propícios à estimulação do cérebro, que, uma vez perdidos, dificilmente serão recuperados. Percebeu-se o quanto o aperfeiçoamento futuro da criança depende de como ela foi cuidada, protegida, orientada nessa sua fase de vida, o quanto a transformação social está calcada por valores transmitidos e vivenciados pelas novas gerações.

É a criança que, interiorizando os ensinamentos, será o grande alicerce de uma sociedade sadia ou doentia, de uma civilização melhor ou pior. A experiência vivida pela criança na sua infância, os afagos ou o abandono, a esperança ou a falta de perspectivas, torná-la-á um adulto ajustado às normas sociais, equilibrado, produtivo ou um marginalizado, um rebelde sem conseqüência. Não há verdadeiro progresso social sem o desenvolvimento intelectual e o aperfeiçoamento moral, objetos da educação infantil. Repetirei, aqui, as palavras de Machado de Assis: “A criança é o pai do homem”.

Quanto à educação física, assunto deste artigo, entendeu-se, finalmente, a sua importância não só para o bom desenvolvimento físico da criança, para o seu condicionamento às atividades físicas salutares à saúde, como a um elemento a mais para elevar sua auto-estima, fazendo o que gosta, para descobrir potencialidades, identificar aptidões.

Parece estar chegando ao fim o desencontro do currículo escolar com a disciplina Educação Física. No 1.º Fórum de Educação Física Escolar, realizado em 27 de setembro do corrente ano, na presença de cerca de 700 professores, a Secretaria de Estado da Educação entusiasma os professores com sua nova orientação sobre as aulas de educação física.

Hoje, essas aulas que na 1.ª até a 4.ª série são ministradas pelo professor polivalente de matemática, português, ciências e das demais disciplinas, podem, a partir do ano de 2003, ser exercidas por docentes formados na área. Deverão seguir o exemplo das turmas que se iniciam na 5.ª série e vão até o último ano do ensino médio. Da 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental – o 1.º ciclo – todas as matérias são dadas pelo mesmo professor. No horário destinado à educação física, geralmente os professores, sem formação específica, limitam-se a atividades livres nas quadras e nos pátios  das escolas, vistas como meramente esportivas ou recreativas. Subtraem dos alunos os amplos benefícios da correta aplicação dessa educação.

Não há uma legislação que exija a presença de professores formados em Educação Física, no 1.º ciclo do ensino fundamental, mas a Secretaria de Educação pretende colocar especialistas também para os alunos desse período, apontando vantagens da mudança. Ela vem desenvolvendo um modelo de aula, onde, desde a infância, os alunos começam a aprender a importância da educação física, a ter contato com o básico sobre fisiologia, incluindo, também, aulas teóricas.

O que se pretende é que a criança, desde as séries iniciais, passe a conhecer conceitos sobre os efeitos benéficos da atividade física, possibilitando-lhe tornar-se um adulto ativo, não sedentário. Os especialistas concluíram, a partir de observações, de que a fase mais importante, para a formação do indivíduo em educação física, é justamente a compreendida entre a 1.ª e a 4.ª série.

A Secretaria da Educação planeja capacitar professores especializados da rede, que hoje atuam com alunos mais velhos, de acordo com o novo modelo. Os professores interessados deverão se inscrever no novo programa.

Em relação às crianças menores, as escolas de um modo geral, são desatentas à educação física, não oferecem material, nem boas condições para o seu exercício. Os meninos costumam ficar nas quadras e as meninas pulando cordas ou brincando de bambolê. O ideal para essa idade é uma mistura de modalidades esportivas e atividades lúdicas: montar, por exemplo, circuitos de exercícios, jogos de futebol, vôlei e atividades livres, fazendo a educação física ser levada a sério, dando, inclusive, noções de fisiologia.

Os professores devem tornar as aulas cada vez mais interessantes e estimulantes para as crianças, com a inserção de jogos e outros mecanismos que aproximem a teoria da prática.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2002)

O ENTENDIMENTO QUE DEVE SER ALCANÇADO

Izabel Sadalla Grispino *

O nosso sistema de ensino, no grau debilitado em que se encontra, vem minando a estabilidade e o desenvolvimento futuro do País. A falta de conhecimento da população está diretamente ligada à desordem social.

Que sociedade teremos, daqui a alguns anos, se nossas crianças não conseguem aprender? Enfrentar o fracasso de nossas escolas requer uma análise profunda das falhas de estrutura e incentivos ao sistema. Pensa-se, hoje, numa ação conjunta, integrada de todos os Estados e municípios.

As universidades e institutos de pedagogia preparam mal o professor para o exercício em sala de aula. Ainda, observa-se pouco interesse na solução de problemas sistêmicos do ensino público. O sistema tem negligenciado os resultados acadêmicos, voltando-se mais aos benefícios de infra-estrutura que do produto de seu ensino, levando os nossos jovens ao analfabetismo e a nação à pobreza.

Desenvolver capacidades institucionais, nos diversos domínios da educação escolar, vem alcançando o entendimento geral, a fim de viabilizar soluções de ordem pedagógica e da desordem crônica das escolas.

Uma consistente reforma educacional deve ser providenciada se quisermos salvar nossos jovens do analfabetismo e a não da pobreza. A coisa é mais preocupante do que se apresenta. Entram em jogo o desenvolvimento econômico, a desordem social, gerando violência e perturbações de toda ordem.

Na constatação de que a baixa escolaridade – o jovem, em média, tem 8,5 anos de estudo – é entrave ao desenvolvimento, o Banco Mundial (Bird) apresenta um trabalho em que demonstra o tamanho do estrago que ela traz ao social e ao sistema econômico. Apresenta um relatório “Jovem em situação de risco no Brasil”, divulgado em 25 de julho p.p., mostrando que os custos para o País são muito mais amplos: violência, aids, gravidez precoce, desemprego, abuso de drogas e álcool. Custos não só em despesas diretas do País, quanto no que esse jovem deixará de produzir para si e para o País.

O Banco Mundial conclui que o Produto Interno Bruto (PIB) deixa de crescer meio ponto percentual por ano, porque um grande contingente de jovens não consegue terminar a escola, não consegue aprender. Essa porcentagem, explica o Banco, significa que em uma geração (30 ou 40 anos, neste caso) o Brasil deixa de ganhar R$ 300 bilhões, o equivalente a 16% do Produto Interno Bruto.

O Banco conclui que “a baixa acumulação de capital humano permite antecipar uma futura geração que não será competitiva nem na região, nem no mundo”. Mostra que o número de jovens, que chega ao ensino superior no Brasil, é o menor da América Latina. A pobreza, aliada à incompetência escolar, faz com que todos os demais riscos aumentem.

Assim, uma nova escola deverá surgir, na conscientização da boa educação a ser dada aos jovens, a essa parcela da população mais importante do processo de desenvolvimento do País. Se se conseguir avançar nessa direção, os demais problemas decorrentes serão amenizados.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

O HÁBITO DA LEITURA

Izabel Sadalla Grispino *

Retorno a um ponto capital da escola na formação do educando: o hábito da leitura.

A criança, para se tornar um leitor, deve ter uma relação de companheirismo com os livros, conviver com contos, romances, poesias, textos de teatro, obras populares, obras clássicas da literatura nacional e internacional, sempre ajustados à sua faixa etária. Esse convívio com os livros facilita o incentivo do hábito de ler.

A leitura freqüente leva a uma melhor escrita; quanto mais se lê, mais domínio se tem sobre o texto escrito; leva a um raciocínio mais apurado, a um mais alto nível de inteligência, a uma habilidade expressiva aprimorada. A psicologia vem demonstrando que existe uma correspondência estreita, uma forte correlação entre o nível de vocabulário e o quociente de inteligência, isto é, entre o domínio da linguagem e a inteligência. Quanto maior o número de palavras, quanto mais elaboradas as comunicações – por exemplo, entre as crianças e o adulto – mais potencializado fica o desenvolvimento da sua inteligência.

A qualidade do ensino passa pelo hábito da leitura e a escola não pode mais deixar o estímulo à leitura por conta da família, de sua herança cultural, conforme fazia no passado. Hoje, a rede pública conta com uma clientela bem diferente, de um nível sociocultural empobrecido e compete a ela encaminhar a criança, e até mesmo sua família, à leitura.

A escola precisa reservar em sua organização curricular, em seu projeto pedagógico, um lugar especial para a leitura, para a literatura. Ela deve promover atividades que intensifiquem a prática da leitura. Criar, inovar formas de tratar o texto literário. Idealizar espaços para a leitura, enriquecer o acervo de sua biblioteca, com variedade de textos que sejam representativos das diferentes faixas etárias e da cultura heterogênea de nosso povo. Emprestar os livros não só para os alunos, mas também para seus pais e para toda a comunidade, melhorando o seu ambiente, elevando o grau de cultura geral.

A escola deve criar a hora do conto, podendo, neste setor, obter, inclusive, a colaboração dos pais, que queiram dedicar um tempo para a escola, lendo ou contando histórias para as crianças. Nessas circunstâncias, o voluntariado exerce um papel tão importante, no despertar do gosto pela leitura, quanto o próprio especialista da educação. Nas histórias lidas ou contadas, deve-se ater à expressividade; ler ou falar com entonação, com ênfase em determinados momentos, respeitando as pontuações, as exclamações, as interrogações, as reticências, despertando emoções, provocando reflexão, criando verdadeiros recitais. Esse ambiente de representação recupera a arte, que foi deixada para trás, da récita.

A escola pode convidar escritores, contadores de histórias, declamadores de poesia, incentivando e motivando o universo imaginário da criança. Estas são algumas das ações que se transformam em efetivos instrumentos pedagógicos, capazes de conduzir o aluno ao prazer da leitura e a escola ao significado maior que a literatura empresta ao seu currículo.

Essa preocupação da escola com a leitura intensificou-se, principalmente, depois do resultado do “Programa Internacional da Avaliação de Alunos”, que mostrou o grande fracasso dos alunos brasileiros, em relação à leitura e  ao entendimento de texto. Só um longo descuido da escola explica esse desastroso resultado! É, como se diz: “Depois da porta arrombada coloca-se a tranca”.

Em 1997, através do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), o MEC coletou informações para averiguar se a escola estava ministrando um ensino de qualidade, se a educação estava formando cidadãos capazes, inseridos no mundo atual. O resultado foi bastante desolador. Revelou que o baixo aproveitamento e queda do nível de aprendizagem aumentavam à medida que as séries avançavam e isso vem se confirmando desde as avaliações feitas a partir de 1990. Em alguns casos, nenhum aluno conseguiu dominar os conteúdos mínimos da série em que estava.

Na análise de texto, não houve interpretação e raciocínio, revelou o estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), feito por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), chamados pelo MEC para avaliar o fraco desempenho dos alunos, constatado no último Saeb.

Essa entidade sugeriu mudanças. A título de exemplo, citaremos as mudanças no ensino de português: “O modelo de ensino de português deve ir além dos livros didáticos; o aluno deve ter contato com textos diferenciados, desde os literários aos mais comuns, contato com jornais, revistas e até mesmo com manuais de instrução”.

Um outro aspecto revelador da decadência do ensino veio do resultado do questionário aplicado aos alunos pelo Exame Nacional de Cursos, o Provão. Mostrou que os universitários brasileiros lêem pouco e, como conseqüência, são pouco criativos, pouco afeitos à pesquisa, à curiosidade científica.

No Brasil perpetua-se a cultura oral, de ouvir falar. A falta de hábito de leitura mostra que estamos formando profissionais medíocres, divorciados das fontes escritas da civilização. O Provão revelou que, na média nacional, 20% dos estudantes não leram nenhum livro no último ano (1998), exceto os escolares. Em São Paulo, o índice cai para 18%. Apenas 23,6% dos alunos leram mais de 4 livros em 12 meses.

O mais triste é que o aluno pode aprender, na escola, a não ir além do que o professor manda. Quando acontece de o aluno tomar a iniciativa de avançar, o professor interfere, possivelmente amedrontado, impedindo o seu crescimento pessoal. Usa da prerrogativa de que a orientação recebida é mais do que suficiente.

Jacinto Brandão, então coordenador do vestibular e vice-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, lamentou o baixo índice de leitura entre os universitários e concluiu: “Os que não lêem e não têm contato com os diversos tipos de texto, certamente, terão maior dificuldade no mercado de trabalho, em razão da falta de autonomia intelectual”.

A falta de curiosidade é a razão da falta de interesse pela busca da leitura, dizem os especialistas, e isso se refletirá na carreira profissional. Este profissional será, sem dúvida, mais passivo, mais acomodado.

A leitura é a chave que abre as portas da realização profissional, de seu sucesso.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

CAMINHOS CONSTRUTIVISTAS NA APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

As escolas partem para semear transformações na educação. Os alunos trabalham em projetos que eles criam  e desenvolvem, nos quais empregam conhecimentos adquiridos não só na escola como no seu dia-a-dia.

O computador, por exemplo, não se torna apenas uma fonte de dados, mas um instrumento de comunicação entre eles. Os alunos caminham com autonomia na aprendizagem. Discutem determinadas questões e eles próprios decidem o que fazer. Montam um projeto, pesquisam, fazem o acompanhamento e analisam os resultados, sempre sob a orientação dos professores.

Os professores são treinados para utilizar atividades de ensino construtivistas, que levam o aluno a construir o conhecimento. O filósofo e psicólogo suíço Jean Piaget descobriu que as crianças não pensam como os adultos, têm sua própria ordem e sua própria lógica. A pedagogia tradicional as tornava “recipientes” a serem preenchidos com conhecimento. Elas são, contudo, ativos construtores do conhecimento, tal como fazem os cientistas que criam e testam suas próprias teorias.

O aluno não é um ser passivo e o conhecimento é o resultado da interação entre ele e o mundo. O conhecimento não é cópia, mas resultado de uma construção/elaboração do mundo ou, como dizia Jean Piaget, “assimilação da realidade”.

Construir o conhecimento é aprender, numa estrutura em construção, algo que se quer conhecer. Para haver aprendizagem, não basta a transmissão da informação, por mais competente que ela seja. É o sujeito que, fazendo relações, associando o novo ao já conhecido, vai construindo o conhecimento, segundo a sua estrutura em formação. Novos sentidos serão construídos em cada sujeito, de acordo com os esquemas de compreensão que já adquiriu. Ao longo da vida, o sujeito terá oportunidades diversas de ressignificar o conteúdo de acordo com sua experiência.

No construtivismo dizemos que ser educador é possuir a sabedoria de fazer brotar a sabedoria do outro, fazendo-o tomar posse do verdadeiro saber, saber compreendido, assimilado de dentro para fora. Por isso, educar é ter o poder de ensinar a aprender, é trocar experiências vividas, fazendo surgir novas luzes. O método de ensino adotado pela escola e aplicado pelo professor tem efeito considerável sobre a aprendizagem. Um método distorcido, distanciado da realidade da sala de aula, sem o aprimoramento de seus passos, pode levar o aluno ao fracasso.

A escola deve ajustar-se ao perfil do aluno, às suas características de personalidade, ao seu ritmo de aprendizagem, ajudá-lo em suas buscas. Não deve lhe apresentar um conhecimento pronto, acabado, mas construir com ele o conhecimento, recriar conjuntamente a cultura. Hoje, a escola se distancia da visão culturalista, enciclopedista. Ela aborda a cultura do dia-a-dia, questões de relevância social, de interesse dos alunos, trazendo um conteúdo significativo, um conteúdo contextualizado.

A alfabetização é ponto-chave no processo de aprendizagem. Ela, também, deve partir do estudo da cultura da comunidade do aluno, em que nível lingüístico e cultural ele se encontra, quando chega no 1.º ano do ensino fundamental, e em que nível se quer fazê-lo chegar. A escola, reconhecendo e respeitando o universo de onde veio o aluno, adaptando-se a ele, fará uma adequação do universo cultural que ele trouxe com o universo oferecido por ela, evitando que ele se sinta um estranho no ninho. Dessa maneira, a escola provocará uma ruptura bem menor desses universos. O aluno, aceito em sua maneira de ser, vai percebendo que é possível articular a sua linguagem com a da escola.

Reivindica-se à escola que, a partir de uma cultura popular, ela crie uma consciência de sua necessidade de formar um elo, uma relação de articulação serena, entre o seu universo e o da criança. No momento em que essa articulação se concretizar, a aprendizagem estará garantida. A criança não se sentirá frustrada, olhada como alguém que fala um discurso estranho. Perceberá que não há discurso distinto entre o dela e o da escola. Vai evoluir com naturalidade, não vai decorar ou repetir aquilo que lhe mandam. A passagem entre o seu mundo e o das letras processou-se de modo tranqüilo, com respeito e valorização (trecho extraído da aba da contracapa do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola).

Esse é um grande passo para integrar o aluno no recinto da escola e motivá-lo a ela.

Um outro grande passo é respeitar o seu momento diante da aprendizagem, visto que o desenvolvimento infantil ocorre por fases. Esta foi uma das razões que se pensou em organizar as escolas da rede em ciclos, que coincidem com as fases do desenvolvimento, aumentando as possibilidades de aprendizagem, pois o ritmo das crianças é respeitado. Além disso, nesse processo são levados em conta os conhecimentos que as crianças trazem de casa e da convivência social.



* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em março/2006)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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