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Artigos Educacionais

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A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

O mundo todo desperta-se para a importância da educação infantil. Até pouco tempo atrás esse ensino era tido como de menor importância.

Hoje, sabemos que a estimulação precoce das crianças contribui e muito para o seu aprendizado futuro. Desenvolve suas capacidades motoras, afetivas e de relacionamento social. O contato das crianças com os educadores transforma-se em relações de aprendizado.

Uma outra concepção é o desenvolvimento da autonomia, considerando, no processo de aprendizagem, que a criança tem interesses e desejos próprios e que é um ser capaz de interferir no meio em que vive. Entender a função de brincar no processo educativo é conduzir a criança, ludicamente, para suas descobertas cognitivas, afetivas, de relação interpessoal, de inserção social. A brincadeira leva a criança ao conhecimento da língua oral, escrita, e da matemática.

Acompanhando a implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Ministério da Educação (MEC), com o objetivo de assessorar as escolas, elaborou referenciais para um ensino de qualidade da educação básica, os chamados Parâmetros Curriculares Nacionais.

Os Parâmetros não têm caráter obrigatório e servem de orientação às escolas públicas e particulares. Os Parâmetros, assessorando a competência profissional, contribuem para a elaboração de currículos de melhor nível, mais ajustados à realidade do ensino.

Os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Infantil” propõem critérios curriculares para o aprendizado em creche e pré-escola. Buscam a uniformização da qualidade desse atendimento. Os Parâmetros indicam as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças: de ordem física, cognitiva, ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social e fornecem os campos de ação. Nesses campos são especificados o conhecimento de si e do outro, o brincar, o movimento, a língua oral e escrita, a matemática, as artes visuais, a música e o conhecimento do mundo, ressaltando a construção da cidadania.

O então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, ao se referir aos Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental, ponderou: “Passamos a oferecer a perspectiva de que as creches passem a ter um conteúdo educacional e deixem de ser meros depósitos de crianças. Em todo o mundo está havendo a preocupação de desenvolver a criança desde o seu nascimento”.

Dados de 1998, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 25% da população de zero a 6 anos freqüentam creche ou pré-escola. São 5,5 milhões de crianças de um total de 21,3 milhões.

A educação infantil é definida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) como parte da educação básica, mas não da educação obrigatória. A lei define, também, nas disposições transitórias, a passagem das creches para o sistema educacional. O Ministério da Educação (MEC) determinou que, a partir de janeiro de 1999, todas as creches do País deveriam estar credenciadas nos sistemas educacionais.

Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, cabe aos sistemas municipais a responsabilidade maior por esses atendimento. A Constituição da República diz que “A educação é direito de todos e dever do Estado”. A emenda constitucional n.º 14/96 alterou dispositivos relativos à educação e estabeleceu que a educação infantil é atribuição prioritária dos municípios.

A educação infantil tem-se revelado primordial para uma aprendizagem efetiva. Ela socializa, desenvolve habilidades, melhora o desempenho escolar futuro, propiciando à criança resultados superiores ao chegar ao ensino fundamental.

A educação infantil é o verdadeiro alicerce da aprendizagem,  aquela  que deixa a criança pronta para aprender.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2006)

NO VESTIBULAR, SÓ PORTUGUÊS E MATEMÁTICA!

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando a abordar as propostas de mudanças, uma outra recente inovação do ministro Cristovam Buarque é mudar o processo seletivo nas universidades e faculdades brasileiras. Pela proposta, não importa o curso, o vestibular teria somente as disciplinas português e matemática. “Quem souber matemática e português aprende qualquer coisa. Para cursar a universidade, o aluno não precisa saber tudo de biologia, química ou geografia. Isso ele aprende lá dentro. Dependendo do curso, a pontuação seria diferente nas provas de português e matemática. Para quem vai fazer Jornalismo, é mais importante português, para quem vai fazer Física, matemática”, expôs o ministro. Cristovam Buarque apresentará a proposta aos reitores, mas as universidades têm autonomia para escolher seu processo seletivo.

Esse sistema de avaliação caminharia em consonância ao Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), realizada pelo Ministério, que só testa os conhecimentos em português e matemática dos alunos. Atualmente, os vestibulares das maiores universidades do País exigem o conhecimento geral do aluno, abordando questões de todas as disciplinas do ensino médio. A prova de redação é obrigatória.

Críticas a essa proposta vêm surgindo no sentido de argumentar, como foi feito na proposta de mudança do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ser a educação básica um ingrediente da formação integral do aluno, onde todas as disciplinas são importantes, cada uma com sua contribuição peculiar. A multidisciplinaridade alcança mais facilmente a potencialidade do aluno, desenvolve melhor suas faculdades mentais, além de fornecer uma visão globalizada do assunto tratado. Reduzir o vestibular a duas disciplinas, português e matemática, significa esvaziar as demais, reduzir a quantidade de informações, prejudicando, sobremaneira, a formação básica geral.

O estudante do ensino médio tem no vestibular um guia que regula sua dedicação às disciplinas. Vai, certamente, deixar de dar atenção maior a biologia e a química, por exemplo. E, como fica cursar uma faculdade de Medicina ou de Farmácia sem uma boa base, uma boa formação nessas disciplinas? O mesmo ocorre na defasagem de física, química ou desenho para a faculdade de Engenharia, ou história e geografia, nos cursos correspondentes.

Uma outra inovação seria ampliar o ensino médio de 3 para 4 anos. A proposta do MEC é oferecer um 4.º ano em que as matérias, dependendo da escolha da profissão, seriam dadas em função da opção do aluno. Cursar ou não essa 4.ª série, também uma opção do aluno. As escolas ficariam com a obrigação de oferecer a complementação a todos os que quisessem cursá-la.

Este projeto, igualmente, vem recebendo críticas. Nas condições em que se encontra o ensino público, um ano a mais não resolveria o problema, só o arrastaria para mais um ano. Levar para um 4.º ano o mesmo padrão de ensino dos anos anteriores significa, dizia eu no artigo “Mais um ano para o ensino médio”, simplesmente, repetir a façanha da decadência do ensino-aprendizagem. Educadores reforçam essa posição, na constatação de que o despreparo do aluno é resultado da qualidade e não da quantidade, tanto que Antonio Ibãnez Ruiz, secretário da Educação Média e Tecnológica, pronunciou-se dizendo que a oferta do 4.º ano deve ser obrigatória nas escolas públicas, as escolas particulares podem ficar isentas porque “o bom nível de ensino oferecido por elas faz com que o aluno não sinta a necessidade de uma série a mais”.

O foco do problema reside na melhoria da qualidade do ensino, não só do médio, mas da educação básica, como um todo.

Está havendo, por parte do sindicato dos professores da rede estadual de ensino, manifestação contra a municipalização do ensino, que, desde 1996, transfere escolas do Estado para as prefeituras. O repasse se dá apenas no ensino fundamental (1.ª à 8.ª série). O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), instituído em 1998, facilitou o processo de municipalização do ensino, com a transferência de recursos.

A municipalização do ensino está respaldada pelo parágrafo 2.º do artigo 211 da Constituição Federal, que determina: “Os municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e pré-escola”. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), definindo responsabilidades, diz que “os municípios deverão oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas e, com prioridade, o ensino fundamental”, os Estados encarregar-se-ão de assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio”.

A reivindicação do sindicato baseia-se, conforme expressão de seus representantes, no fato de “os municípios arrecadarem menos e não ter condições de manter o ensino fundamental”. Contudo, a municipalização já se encontra bem estruturada, adotada em mais de 80% dos municípios. É um sistema aceito pela sociedade, que traz reais vantagens ao ensino, especialmente pela aproximação da escola com a comunidade. A escola estando mais próxima da administração favorece a comunicação entre elas, enseja a participação dos pais e da comunidade em tarefas de cooperação e fiscalização.

É importante discutir as políticas de mudanças anunciadas para uma definição mais precisa, mais contundente das mesmas. São elas apenas modismos desnecessários, sem peso funcional, ou procedimentos capazes de resgatar processos desarticulados, superados ou inadequados?

É preciso investir, com acerto, sem gastos desnecessários, na educação pública brasileira, mantendo estratégias que atinjam a má qualidade de ensino e que evitem reproduzir, dentro das salas de aula, formandos analfabetos funcionais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2003)

UM ENFOQUE DA EDUCAÇÃO DE RIBEIRÃO PRETO NO PERCURSO DE SEUS 150 ANOS

Izabel Sadalla Grispino *

A escola pública em Ribeirão Preto teve em seus primórdios, como em todo o País, um início lento, desarticulado. Contudo, no início do século XX, surgiam escolas estaduais, como a E.E. Dr. Guimarães Júnior, em 1905, e, em 1907, a conceituada E.E. Otoniel Motta, seguida da E.E. Dr. Fábio Barreto. Essas escolas, desde o seu início, primavam por uma educação de qualidade. Otoniel Motta foi celeiro de professores de alta categoria.

Escolas particulares, renomadas até hoje, complementavam a educação dos jovens da época, como o Instituto Santa Úrsula, Nossa Senhora Auxiliadora, Metodista, Marista e outras.

Todas adotavam um ensino baseado na linha cartesiana, que ostentava bandeiras com lemas da elitizada escola da disciplina, austeridade, honra e excelência. Eram escolas que respondiam favoravelmente à sua clientela, seleta, oriunda de classes abastadas, dominantes, que aspiravam ao ingresso nas universidades, quer do País, quer da Europa.

Até a década de 70, Ribeirão irradiava conhecimento, era modelo de ensino público para toda a região, uma ilha de excelência. Depois, gradativamente, essa educação pública de qualidade foi cedendo lugar a uma educação ineficiente, Hoje, Ribeirão se faz representar, em termos de boa educação, por escolas particulares, tendo algumas, as mais consagradas, angariado o posto da vanguarda do saber, exercido no passado, pelas escolas públicas.

Atualmente, seguindo a tendência nacional, Ribeirão apresenta um ensino de dois níveis: um bom ou muito bom, destinado aos ricos, e um bastante sofrível, destinado aos pobres, jogando na sociedade uma leva de analfabetos funcionais. Precisa, como todo País, investir em uma educação com eqüidade social.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em junho/2006)

RESPOSTA A UMA ALUNA DO CURSO NORMAL

Izabel Sadalla Grispino *

Foi com satisfação que li a mensagem, enviada a mim, através do jornal Guariba Notícias, de Maria Aparecida Monteiro, em véspera de se formar professora.

Maria Aparecida é aluna do 3.º ano do Curso Normal do Instituto de Educação Professora Marisa Serrano, da cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Seu curso termina agora, em 30 de junho.

Citarei trechos de seu e-mail, enviado à redação do jornal: “ ... Venho agradecer as matérias da professora Izabel Sadalla Grispino, que têm sido de grande ajuda para o meu desempenho na escola. Levo os textos para a sala de aula para ser discutido com o grupo, pois, sempre, têm o que nós precisamos. Uso, também, para os meus portfólios os textos de meditação, que sempre nos trazem momentos de reflexão... Nós do Instituto de Educação Professora Maria Serrano, OMEP/BR/MS, agradecemos a sua colaboração, através de seus trabalhos, publicados no jornal Guariba Notícias, o qual recebo regularmente. Maria Aparecida Monteiro, Campo Grande/MS”. (Publico, semanalmente nesse jornal, junto ao artigo educacional, uma poesia para meditação).

Maria Aparecida, seu e-mail cativou-me pelo processo adotado na aquisição do conhecimento. Sua curiosidade leva-a ao método construtivista, de pesquisa e análise, ao encontro de uma metodologia ativa, concreta, interativa.

Você faz, exatamente, o que tem que ser feito: não é apenas ler o texto, mas discuti-lo em grupo, chegar a conclusões, fixar os conceitos emitidos e traduzi-los em práticas educativas, na sala de aula, junto aos alunos.

A sua vontade de aprender, a sua responsabilidade perante a função, a conduzirão às instâncias superiores do saber. Tenho fé em sua futura atuação docente. Você já desponta com brilho no cenário da educação, tal distinguida abelha obreira, fabricando mel para a colméia, tal soldado engajado na luta pelo engrandecimento da Pátria.

Que bom que meus estudos, frutos de suadas lavras, estejam caindo em terra fértil, adubando-a para a rica colheita! Avançar pelo critério de mérito, pela luz do conhecimento, é caminho que consolida toda e qualquer carreira profissional.

Parabéns pela iniciativa,  espero  que  esse processo de aprender a aprender percorra toda sua existência. Se quisermos nos manter em alto nível nessa sociedade do conhecimento, não podemos jamais deixar de lado a educação continuada.

Amanhã, a Nação, por suas famílias, seus jovens, pela sociedade, agradecerá seu ilustrado devotamento à causa da educação, na luta por um ensino de qualidade, o único capaz de dar respostas ao mundo globalizado, em que vivemos.

Abraços e louvores a você.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2007)

JABOTICABAL DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho o privilégio de saudar a “Cidade das Rosas”, a querida Jaboticabal em seu 172.° aniversário. Cumprimentá-la pela pujança dos ideais de seu povo ordeiro, pela força de alavanca que faz dela a cidade princesa da região.

O clamor das festividades reacendeu-me a memória emocional. Recordar é viver, reconhecer é dignificar, chorar saudade é reverenciar! Voltei, na 2.ª metade da década dos anos 40, para o tão decantado Colégio Estadual de Jaboticabal, hoje “Aurélio Arrobas Martins”, para rever, na mente fotografada, meus venerandos mestres, minha “galera”, a turma de classe, os queridos colegas, a Alairce de Oliveira Delgado, os folguedos do recreio, as aulas de ginástica, as aulas de música, com o amado maestro Biagio Cimino, que ensinava as notas musicais, o compasso, juntamente com o canto, insistindo nos hinos pátrios. Cantávamos corretamente o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino à Bandeira!

O passado explica o presente. Tive a felicidade de participar de um período áureo da história de Jaboticabal. Fiz as primeiras letras na cidade de Guariba, onde nasci, vindo, em seguida, juntamente com meu inesquecível irmão José, aqui continuar os estudos. Jaboticabal era o sonho do futuro, o centro cultural para onde convergiam estudantes de toda a região, na busca da escalada educacional. O então Colégio Estadual era o polo irradiador, o eixo que sustentava seu cognome de “Atenas Paulista”. Compunham seu corpo docente mestres de alta competência, que ministravam um saber à altura dos centros mais elevados do País. Era uma plêiade de iluminados!

O estabelecimento de ensino era dirigido pelo respeitado prof. Celino Pimentel, um administrador que, hoje, nada ficaria devendo aos mais apurados princípios da moderna educação escolar. Calmo, ponderado, tinha a doçura e a compreensão do diálogo espontâneo, a firmeza e a austeridade de quem não podia esmorecer nos momentos de decisão. Lembro-me de sua filha Lígia, um primor de beleza, que a todos encantava!

Caminhando para a sala de aula, deparávamos com verdadeiros baluartes da educação. Mestres precursores dos mais avançados métodos didáticos, com postura de orientadores da aprendizagem. Passam-se gerações e não é fácil encontrar um Mário de Campos, um Antônio Ruete!

Mário de Campos, o professor de Português, era o mais amado entre os amados, um intransigente defensor do vernáculo. Um professor que lecionava com o saber na mente e com o amor no coração. Numa época da escola soberana, onde se punha distância entre o professor e o aluno, entre escola e comunidade, ele era o amigo, dava ensejo a que os alunos se aproximassem. Mário de Campos seria hoje um desafio aos mais elevados conceitos da pedagogia atual. Usava da metodologia ativa, declamava-nos versos, punha-se emocionado, diante de uma classe paralisada, embevecida. Ele era a palmeira frondosa, a brisa suave que nos fazia sonhar, acreditar!

O filho Ayres de Campos também já lecionava. Era o jovem promissor, o herdeiro cultural do pai, a força nova que resplandecia. Era o filho ilustrando a imagem do pai, a garantia do texto elevado, apurado.

Um outro ícone do magistério foi o professor de latim Antônio Ruete. Um mestre de uma abrangência de conhecimentos invejável! Era a imagem da simpatia, muito querido pelos alunos. Na passagem do conteúdo, via-se, às vezes, interpelado pela alta erudição. Aprendemos muito com ele, sempre relacionando nossa língua com a língua mãe.

O professor Antônio Ruete deixou imensa saudade. Recordo com carinho de sua filha Cármen, uma colega alegre, empreendedora.

O professor de inglês, José França, risonho, extrovertido, mesclava suas aulas com música e poesia, procedimento didático muito apreciado pelos alunos. Quantos versinhos em inglês tenho, ainda, guardado de suas aulas!

Antônio Arrobas Martins, um fluente advogado, era nosso professor de ciências. Um mestre admirado pelos alunos, porém sem muito vínculo afetivo. Enérgico, um tanto eqüidistante, se colocava na docência com objetividade, porte severo.

Quantos outros deveriam entrar nesse quadro, como o competente e dedicado secretário sr. Túlio Rampazo. Mas, voltarei a novas lembranças em outra oportunidade. Porém, um nome que se prende a todos e que em todos deixou um pouco de sua marcante personalidade, não poderia, de modo algum, deixar de ser citado: professor Juvenal Passos Nogueira. Professor Juvenal é uma emoção à parte. Era o esteio do alunado, seu orientador, seu porto seguro. Respeitado e muito querido, espelhava-nos honestidade, inteligência, estudo, alguém que passava exemplo na própria conduta, alguém que com sacrifício e determinação subia a rampa do sucesso. Era, na época, inspetor de alunos e professor da maioria deles, preparava alunos para enfrentar o rigoroso exame de admissão ao ginásio. Professor Juvenal não parou de estudar, alcançando vôos profissionais de monta. Chegou, por sua competência, a diretor efetivo da escola que cresceu muito com ele e que, ainda, o representa, a EE “Aurélio Arrobas Martins”, casa de ensino, que tenho a certeza, nunca o esquecerá. Professor Juvenal é referência, é sólido pilar, é certeza de que quem se esforça chega lá. Juvenal Passos Nogueira é gente que faz, é exemplo de vida!

Jaboticabal sempre me impulsiona a retornos. Tenho a honra de saudar a Universidade São Luiz, que cresce e se firma como um dos orgulhos da cidade, universidade da qual participei dos seus primeiros passos, início da década de 70, quando fui convidada pelo seu fundador, o emérito professor Afonso Carregari, a engrossar as fileiras de seu corpo docente, e, então, nessa conceituada instituição de ensino superior, passei a dar aulas de francês, no curso de Letras.

Uma cidade se projeta no presente, com olhos no futuro, guardando a experiência do passado.

Nas pessoas dos valorosos mestres, aqui lembrados, rendo minha homenagem a Jaboticabal, que ela, a exemplo do passado, continue a caminhar a passos largos em direção à modernidade, que mire as alturas, mantendo a estrutura de sustentação presa ao solo, Que Deus continue abençoando a “Cidade das Rosas, que as rosas permaneçam desabrochadas, florindo e perfumando a terra, sinalizando portas abertas ao progresso, maturidade administrativa e farta colheita. Que os ventos lhe sejam favoráveis e que, junto a seu céu estrelado, aos seus mananciais, entoem, para Jaboticabal, o divino salmo da natureza!

*Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2000)

O SÉCULO XXI REENCONTRANDO DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A volta calorosa do confronto entre racionalidade e crença, comentada no artigo anterior, despertou-me curiosidade. Pesquisas a respeito trouxeram-me ajuda e apraz-me dividi-la com vocês, prezados leitores.

No passado, cada descoberta da ciência parecia constituir-se em derrota para a Igreja, em suas teorias fundamentais, que sempre colocou Deus na origem de todas as coisas, do universo. Era o confronto do método experimental da razão com a fé. As leis da evolução tornariam a gênese, o bigue-bangue, a história de Adão e Eva ficções. Parecia que o Iluminismo triunfaria sobre a Revelação, contida na Bíblia. O fulcro da questão ficava entre fé e razão.

Em 1991, surge o livro “Dieu et la Science”, escrito pelo filósofo cristão Jean Guitton, em parceria com os irmãos Bogdanov, que contém toda uma tradição cientificista. Neste livro, eles mostram que a fé não é inimiga da razão e que os resultados das pesquisas mais atuais sobre a história do universo e da vida não são contrários aos ensinamentos das grandes religiões.

Os avanços da ciência, nas descobertas sobre a origem das coisas ou da vida, esbarram-se com significativos limites. Quanto mais se esclarecem alguns mistérios, outros vão ganhando forças. Já se repete a frase: “Nos avanços da ciência, a sombra de Deus”. Constata-se que a razão não consegue esclarecer tudo. Num determinado ponto, a sombra de Deus começa a pairar. Telescópio, microscópio, longe de derrotar a presença de um Deus, parece ainda mais fortificá-lo.

Albert Einstein, que chegara a reduzir os fenômenos do cosmo a uma equação, assombrou o mundo ao admitir que “algo existe atrás da matéria”. O grande cientista Louis Pasteur (século XIX) lançou uma interrogação instigante: “Podemos ainda dizer que se um pouco de ciência nos afasta de Deus, muita ciência nos reconduz a Ele?”.

Nos Estados Unidos, uma organização composta por inúmeros cientistas, que se utiliza da sigla IDEA – Intelligence Design and Evolution Awareness – abraça, fortemente, a questão. Mesmo não pondo em dúvida a evolução, considerando os estudos sobre os fósseis, mostra-se convicta de que atrás dela está a mão transcendente de um Criador.

Em Michigan, parlamentares pedem que se ensine nas escolas, ao lado da teoria da evolução, a teoria dos neocriacionistas. Estes dizem concordarem com a tese evolucionista, quando diz que o mundo não foi criado há apenas 6 mil anos, mas defendem, convictamente, a idéia de que o processo evolutivo foi criado por Deus, há bilhões de anos.

Mais recentemente, um renomado cientista, Michael J. Behe, pertencente a uma comunidade científica das mais respeitadas do mundo, após exaustivos programas de análise matemática à assombrosa complexidade da célula, chega a uma conclusão que difere da teoria de Darwin; “As estruturas celulares, com sua múltipla interdependência, não podem ser explicadas como resultantes do acaso, pelo menos com a matemática. Deve existir uma inteligência superior que dá forma e sentido à vida”.

Dr. Michael chega a uma conclusão parecida com a de Newton, na passagem dos séculos XVII e XVIII, quando formulou as leis da gravitação universal: “Os astros, de fato, se atraem com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa”. Dizia ele: “Por trás dessa elegante relação matemática, existe um elemento capaz de tê-lo formulado”.

Assim, para Newton, a ciência, longe de negar Deus, O confirmava.

Sob um outro aspecto, do diálogo entre a fé e a cultura, está surgindo a perspectiva de um encontro universal, unificando o senso religioso, o sentido da presença de Deus em todas as culturas. A Igreja católica vem dando significativas demonstrações de aproximação com todas as religiões. Busca relacionar-se às demais culturas, sejam africanas, asiáticas ou indígenas, mesmo sem formação cristã e distante da modernidade ocidental.

A Igreja encara a globalização vantajosa em vários aspectos, mas, rejeita a uniformização cultural. Legitima as diferentes culturas humanas, defende a diversidade cultural. Faz um apelo ao diálogo entre essas culturas e, nesse diálogo, quer expor sua visão cristã do mundo, em testemunho de amor à vida social, em preocupação com os povos mais pobres, mais sofridos.

A Igreja quer uma comunhão que promova a unidade na diversidade, uma convivência humana mais pacífica, que ostente a bandeira do amor, do perdão, da solidariedade. No início de junho, do corrente ano, houve em Puebla, no México, promovido pelo Vaticano, por seu Pontifício Conselho de Cultura, um encontro continental americano, que teve como tema geral o diálogo entre fé e cultura.

A base de toda cultura se assenta na existência de um Deus, por que, então, não se unir nos propósitos, nos valores fundamentados por Ele? O confronto do diálogo entre fé e cultura, entre fé e razão, entre fé e ciência, é o caminho para se atingir a união e, através dela, a paz.

Nas próximas semanas, continuarei a trazer o resultado das pesquisas sobre ciência e fé.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

A ESCOLA NO REPASSE DE INFORMAÇÕES

Izabel Sadalla Grispino *

A Secretaria Estadual de Educação, no propósito de se aproximar mais da escola, inaugurou um canal direto de informação para pais e professores. Os professores podem tirar dúvidas, discutir assuntos delicados, como drogas, aids, sexo, como lidar com alunos violentos, com uma equipe de especialistas, através de e-mail. Segundo informações da Secretaria, o Centro de Excelência do Professor, composto por profissionais ligados à universidade, terá três dias para responder às perguntas feitas por meio do site www.educacao.sp.gov.br

Os pais têm um telefone para comunicar-se diretamente com a Secretaria e fazer observações, reclamações de problemas ocorridos na escola dos filhos. Poderão ligar para 0800-770012, enviar e-mail ou mesmo ir pessoalmente à Secretaria, numa espécie de ouvidoria. Este contato direto abre a oportunidade de reforço nas soluções dos problemas que, até então, eram apenas da competência das diretorias de ensino, sem condições reais de resolvê-los satisfatoriamente.

Um outro comunicado, agora aos alunos, diz respeito às Escolas de Ensino Superior que, burlando a legislação, oferecem cursos não legalizados, por falta do credenciado da instituição no Ministério da Educação e Cultura.

Nossos estudantes precisam estar a par das prerrogativas oficiais empreendidas a seu favor. Para protegê-los de faculdades inidôneas, o MEC elaborou um cadastro do Ensino Superior, que pode ser consultado na internet e que relaciona cursos ilegais. Através do cadastro, o aluno verifica a situação legal do curso, evitando matricular-se, por desconhecimento, em uma instituição superior de ensino sem o credenciamento no MEC.

Um curso novo obtém, inicialmente, apenas a autorização do Ministério. Depois de dois anos deve pedir o reconhecimento, que é renovável a cada cinco anos. Somente os cursos reconhecidos pelo Ministério podem emitir diplomas.

O cadastro especifica a data da criação do curso, as vagas para alunos, o tipo de diploma conferido e o endereço da universidade pública ou privada. As informações, pelo sistema, são passadas de imediato, ao estudante. Ao pesquisar uma instituição, aparecem na tela os links para as notas do Provão e para a sua relação de cursos. A nota do Provão é importante porque cursos com três resultados consecutivos D ou E no exame perdem o reconhecimento.

Na relação de cursos, o aluno pode, também, clicar em cada um deles e ter as informações legais sobre o seu reconhecimento e autorização. As instituições podem ser procuradas pelo nome ou pelo município onde atuam.

A partir da criação do Cadastro do Ensino Superior, disponível no endereço eletrônico www.educasuperior.inep.gov.br, o estudante não tem mais desculpas para freqüentar uma faculdade sem credenciamento no MEC.

Ainda, sobre um outro aspecto, a escola, na sua função social, deve fazer chegar à comunidade, através das Reuniões de Pais e Mestres, de comunicados afixados em lugares apropriados, divulgação nos jornais da cidade, assuntos relevantes, ao conhecimento geral.  É  o  caso do Censo 2000 do IBGE, que detalha informações de vários interesses, que facilitam a escolha de iniciativas a serem empreendidas e a avaliar os fatores de riscos. Essas pessoas podem acessar um programa do computador que o IBGE está vendendo. É um software que oferece dados do Censo 2000 referentes a cada rua e a cada quarteirão de 1.058 municípios brasileiros com mais de 25 mil habitantes.

O software oferece informações sobre economia, informações sociais e culturais em cada um dos chamados “setores censoriais”, isto é, dos grupos de 200 domicílios, em média, que ficaram a cargo de um mesmo recenseador no último censo. São dados minuciosos, que permitem análises detalhadas, como, por exemplo, o grau de escolaridade de seus moradores, as faixas etárias, o perfil de consumo e, até mesmo, o grau de incidência de determinadas moléstias. Os dados coletados de cada setor censitário – grupo de 200 domicílios – permitem 1.659 cruzamentos diferentes, a respeito de quem mora naquela área.

O software permite um melhor planejamento de políticas públicas – uma antiga propriedade do IBGE – como o estudo de mercado de áreas geográficas específicas, um empreendimento que se pretenda abrir na região. O interessado encontra um conjunto substancial de dados, capazes de referendar ou não o empreendimento. Assim, quem pretende abrir uma escola num determinado local, pelo Censo 2000, pode identificar em que áreas de cada bairro está a maior demanda por pré-escola, com família de renda suficiente para pagar o atendimento. São cruzamentos de dados, como este, que o novo programa do IBGE permite fazer, possibilitando informações mais precisas para o sucesso do empreendimento.

Um outro exemplo esclarecedor da utilidade do programa, divulgado pela imprensa, refere-se a bens de consumo, como o carro. Os macrodados do Censo 2000 mostraram que no Sul e no Sudeste mais de 40% dos domicílios têm carro, enquanto que no Norte e no Nordeste não chegam a 15%. Esse fato é interessante para o planejamento empresarial e mesmo para o planejamento do trânsito, que acabam tomando conhecimento em que áreas de cada cidade há a maior concentração de domicílios com automóveis.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2002)

LIBERTAR A CRIANÇA PELA ARTE

Izabel Sadalla Grispino *

O professor Divo Marino, escritor eclético, versátil, de variada cultura, presenteou-me, recentemente, com dois livros de sua autoria. Um, da área educacional, cujo título fala por si, “Libertar a criança pela arte”, outro, de cunho bem diferente: “Orquídeas para Lincoln Gordon” (depoimento sobre o golpe de 64).

Neste livro, Divo, com comovida surpresa para mim, premiou-me com essa dedicatória: “Para a colega de Magistério e do jornal “A Cidade”, professora Izabel Sadalla Grispino, ofereço o “Orquídeas para Lincoln Gordon”, como homenagem pelo seu trabalho de educadora”. Uma homenagem vinda de Divo Marino é ponto acrescido na realização profissional!

Na obra “Libertar a criança pela arte”, Divo mostra-se um grande estudioso, um pesquisador penetrante, um especialista em arte. O livro traz um embasamento teórico e prático de alto alcance para educadores e para todos os que se interessam por arte. Preconiza a arte livre, espontânea, capaz de revelar a criança, a arte como meio de expressão, como meio para a criança exteriorizar suas idéias, seus sentimentos, suas percepções.

O livro foi lançado em 1960 e os conceitos sobre arte, sobre sua metodologia de trabalho, sobre a noção de criança, que transmite, são absolutamente atuais. Lendo o livro pude sentir o quanto a preocupação da escola, no encaminhamento do ensino da arte, encontra respostas no livro. Nessa época havia  já todo um movimento de educadores – não podendo esquecer Anísio Teixeira, um dos que se manifestaram com louvor ao livro – tentando implantar as idéias da escola nova, com seus princípios psicopedagógicos, que culminaram na escola de hoje. Contudo, a passagem da metodologia renovada, aos educadores, deu-se de maneira lenta e parcial. Mas, Divo absorveu-a em sua integralidade e com competência passou orientações às escolas.

Ao publicar o livro “Libertar a criança pela arte”, ele foi considerado, pela crítica especializada, um pioneiro no gênero, no País, um vanguardista, um criador de mentalidade nova na educação da arte da criança.

O livro trata da arte, em seus variados aspectos e conceitos, em riqueza de informação. Deixa claro a importância do desenho espontâneo, da importância de se cultivá-lo como forma de expressão da personalidade e como colaborador da socialização. Vivemos, presentemente, uma crise de expressão, as crianças, os jovens se expressando mal, tendo dificuldade de liberar os seus sentimentos e a arte, iniciada já na infância, o desenho infantil, são mecanismos eficazes para a criação de perspectivas, de formas novas e diferentes de expressão, de comunicação. O autor estuda a arte desde as suas origens, sua história, sua evolução através dos tempos, sempre no enfoque da arte infantil. Analisa-a sobe a ótica da psicologia, da metodologia libertadora, reveladora de aptidões, de potencialidades. No livro, quando Divo trata da escolha da cor, da busca da harmonia, ele assim se expressa: “As preferências para determinadas cores, tendo origem no subconsciente, nas associações psicológicas, nos temperamentos, não têm relação com o problema estético das cores”. Essas preferências revelam o indivíduo.

Deparamo-nos no livro com o conceito de criança concebido através dos tempos. A criança era tida como um adulto em miniatura: “É recente, na chamada civilização, a valorização da criança, como ser diferente do adulto”. “A criança tem necessidades suas, próprias e uma mentalidade relacionada a tais necessidades “ (Rousseau). Explana as fases específicas do desenvolvimento mental da criança.

A arte infantil demorou a ser entendida pelo adulto, que via nela uma atividade menor, uma atividade nula. O importante, na conceituação da época, era estudar apenas as matérias básicas do currículo, como geografia, história, matemática e letras. Nas escolas, os professores obrigavam as crianças a copiarem os desenhos, roubando-

lhes a criatividade, o estímulo à iniciativa, à livre expressão. Ainda hoje encontramos professores que se regem por este comportamento! “A arte, ensina-nos o livro, na idade da pedra, era exercício espontâneo de uma faculdade inata. A arte, na criança, também é prática livre, intuitiva, de uma disposição existente de maneira inata”. A arte

 

infantil é relacionada à arte dos primitivos. “As crianças não apresentam disposições para o desenho como cópia do natural. Não a reproduzem, criam a obra artística, baseadas na realidade mental, não no realismo visível, concreto, extraído da própria natureza”.

O livro mostra as influências que ocorrem sobre a arte e traça pontos de ligação entre sexualidade e desenho infantil.

A valorização estética e psicológica do desenho infantil veio bem mais tarde, no século XIX, com o professor Cizek, de Viena, relata-nos o autor. A partir de então, o educador passou a entender a relação existente entre  a linguagem e o desenho, a entender que a criança prefere o desenho da imaginação ao desenho natural. A escola passou a reconhecer a prática da arte infantil como um processo de libertação da estética, e da auto-expressão da criança.

Passeando pelo livro, encontramos citações interessantes, quando, por exemplo, no capítulo sobre a “Origem das artes”, ele cita Darwin, que condiciona seu aparecimento ao instinto sexual, “relacionando a fecundação dos vegetais ao belo colorido das flores”, embora, essa concepção seja refutada pelos biologistas, que dizem: “O que atrai o inseto não é a beleza da flor; é o açúcar da mesma. Entre os animais, a força física é mais importante que os ornamentos”.

O livro é repleto de curiosidades, um denso tratado sobre arte, espaço onde o professor, o especialista em arte, encontrarão rico subsídio à sua ilustração.

O trecho final do livro, escolhido por Divo, reproduz o espírito da obra: cita Cizek, quando pede ao professor que deixe as crianças aprenderem por si mesmas. “Eu suplico aos professores que livrem as escolas do clássico “mestre-escola” e que estas sejam jardins, onde cresçam as flores como o jardim de Deus. O professor deve cobrir com asas seus discípulos, como um espírito invisível, e terá de estar sempre disposto a dar ânimos, mas nunca a forçar ou exercer pressão”.

Cizek afirmava, fala-nos Divo, que os melhores trabalhos infantis foram, na maioria inconteste das vezes, encontrados nas “classes” dos professores não especializados em estética, mas que tinham na alma o amor intenso às crianças”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2002)

O LIVRO DIDÁTICO E O ORÇAMENTO FAMILIAR

Izabel Sadalla Grispino *

Início do ano letivo. Volta às aulas; a família mobilizando-se, replanejando-se, ajustando horários e orçamento. A compra do material escolar, em especial dos livros didáticos, onera-a. Solicitada a falar a respeito, em termos de colaboração, sugiro procedimentos já mantidos com sucesso por algumas escolas.

Quando se trata de escola particular, muitas são as queixas dos pais, em relação ao livro didático. Nas escolas da rede oficial a situação é mais branda, os alunos, no ensino fundamental, recebem gratuitamente os livros. Estes devem ser mantidos por um prazo mínimo de três anos, sendo absolutamente condenada a sua troca freqüente.

O aluno, por sua vez, é orientado a cuidar bem do livro, encapá-lo, de preferência com capa grossa, mantê-lo limpo, não rabiscá-lo, fazer os exercícios, não no livro, mas no caderno. Deve preservá-lo porque, ao passar para a série ou agrupamento subseqüente, esse livro permanecerá na escola e irá servir a outro colega da série correspondente. O aluno é conscientizado de que o livro não é, propriamente, dado e, sim, emprestado.

O mesmo procedimento verifica-se nos intercâmbios culturais, como o high school, nos Estados Unidos. O aluno, ao ir para uma escola estadual, vai encontrar um armário com todo material didático pronto, incluindo os livros, deixado pelo colega antecessor. Cabe-lhe, agora, a responsabilidade de zelar pelo material, deixando-o da mesma forma, em ordem, para o sucessor.

Quanto às escolas particulares, no que concerne ao livro didático, são constantes as reclamações dos pais, pelos gastos excessivos a respeito. Reclamam que, na grande maioria, os livros adotados, pelas escolas, sofrem trocas freqüentes. Os filhos que estudam na mesma escola, com diferença escolar de dois ou três anos, dificilmente aproveitam o livro do irmão.

Como ajudar, nesse sentido? O que propor para tornar o livro mais acessível? Inicialmente, que a escola tenha o cuidado de escolher um bom livro didático. Livro de apresentação estimulante, de conceitos corretos, pertinentes, de experiências abertas que permitam espaços à introdução de assuntos do momento, das questões do cotidiano do aluno, da sociedade, num trabalho de contextualização e de interdisciplinaridade. Livros com exercícios práticos, onde se possa exercitar o método construtivista, com conteúdos relacionados, com conceitos básicos que serão trabalhados, em sala de aula, de forma diferente, de acordo com o nível encontrado.

Um livro bem formulado deixa abertura para as eventualidades, não sendo necessário trocá-lo freqüentemente, com a argumentação da sua atualização. Princípios e normas não se alteram rapidamente. A gramática normativa da Língua Portuguesa não sofre alterações a dezenas e dezenas de anos. Os conceitos essenciais da Matemática, da Ciência, ou da História, vêm sendo aplicados de longa data. Acresce-se, ainda, que o livro didático é apenas uma ferramenta a mais nas mãos do professor. Ele é um material instrucional de valiosa ajuda para o seu plano de trabalho, um bom suporte operacional; importante sim, mas não absoluto. Deve conter o primordial, o arcabouço didático-pedagógico a ser recheado conforme as circunstâncias apresentadas.

Tendo em vista as reclamações, a escola deveria colocar como um de seus objetivos facilitar a aquisição do livro didático. Escola particular nem sempre significa ser freqüentada por alunos de famílias abastadas. Ao contrário, uma boa parte de sua clientela provém de famílias que arcam com dificuldade com as despesas escolares. São pais que mantêm a perspectiva de um bom futuro para o filho, sabendo que isso raramente encontrará nas precárias escolas oficiais.

A grande força de atração da escola está, indubitavelmente, na qualidade de ensino que ela oferece. Contudo, ao lado do qualificado padrão, há o atrativo da organização, voltado ao atendimento humano de sua clientela. Hoje, com o espírito crítico mais evoluído, os próprios pais se encarregam de divulgar, de propagar os aspectos positivos da instituição.

Esse prisma do livro didático é uma oportunidade a mais para a escola educar para a responsabilidade, para a organização, para o senso de ordem. Poder-se-ia pensar num processo paralelo às escolas oficiais, o aluno sendo orientado para a preservação do livro, nas linhas acima mencionadas, com a diferença de que não seria para doá-lo, mas para vendê-lo. Vendê-lo-ia por um preço bem mais convidativo, em livrarias da cidade, onde já, há algum tempo, se comercializam livros usados e das quais muitos pais se servem. Poder-se-ia, também, pensar num banco do livro, na própria escola, facilitando o processo.

Se houver entusiasmo, por parte do professor, se a comunicação fluir bem, esse entusiasmo passará ao aluno que, motivado, se sentirá um coadjuvante da economia familiar. Educar-se-á para a disciplina, para a responsabilidade coletiva na racionalização dos gastos, o aluno aprendendo a dosar, a dividir, a somar esforços na busca de soluções.

Crianças e jovens que têm as coisas fáceis serão adultos displicentes, autoritários, de uma exigência que tudo pede e nada ou quase nada dá em troca. A escola trabalharia conceitos, como o preconceito da coisa usada, desmobilizando o status do poder advindo do dinheiro, desfazendo preceitos falsos de propriedade. Não é mais quem tem mais, é mais quem sabe ser mais – correlação do ser e do ter.

Esse aspecto pode se reverter na propositura de fazer o aluno vivenciar a cidadania, alargando, no amanhã, a visão do contribuir, do comportamento solidário em âmbito da sociedade. Tal procedimento agradaria aos pais e teria um bom alcance educacional na formação do educando.

Também, nas séries mais avançadas, no ensino médio, um curso bem planejado, bem estruturado, montado e ministrado por um corpo docente competente, poderia ser oferecido, aos alunos, apostilado, barateando o produto.

É importante que a escola reflita a respeito, que compatibilize a situação, valorize a posição da família e que caminhos sejam encontrados de modo a favorecer a gregos e troianos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2001)

VINTE E TRÊS DE MAIO – DIA DO SOLDADO CONSTITUCIONALISTA

Izabel Sadalla Grispino *

A escola não pode deixar de reviver, nesta época, os episódios da Revolução Constitucionalista. Reverenciar os heróis da Pátria é despertar no educando o sentimento patriótico, é resgatar os valores humanos de nossa terra e preparar as novas gerações para o amor e para as responsabilidades sociais, que a Pátria impõe.

Através dos grandes vultos de sua História, ensina-se a exortar o lugar onde nasceu ou onde vive, ensina-se a enaltecê-lo, a defendê-lo e, acima de tudo, a amá-lo. Ensina-se a respeitar os seus princípios, crenças e tradições, ensina-se a valorizar os atos de bravura devotados à Pátria, como o que aconteceu com a morte dos 4 estudantes: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, dando a própria vida pela redenção democrática do País – os seus despojos foram colocados, para orgulho do povo brasileiro, no Mausoléu do Ibirapuera. Ensina-se aos alunos o valor de uma Constituição, da Carta Magna de um país.

Como preâmbulo à poesia abaixo, lembro que em 1930 deveria haver eleição para presidente da República. Eram candidatos Júlio Prestes e Getúlio Vargas. Este, gaúcho, em 3 de novembro de 1930, sob o pretexto de que uma fraude eleitoral (antigo PRP) elegera Júlio Prestes, desencadeou no Sul a Revolução, conhecida como de 1930.

Tropas vieram do Sul e chegaram até o Rio de Janeiro, onde tomaram o poder. Getúlio Vargas tornou-se o chefe da Nação e nomeou interventores para governar os Estados, sendo em São Paulo interventor o embaixador Pedro de Toledo.

SOLDADO  CONSTITUCIONALISTA


Glorioso Soldado Constitucionalista,
Herói que lutou pela Revolução Paulista,
Bradou forte por uma nova Constituição,
Acirrada luta travou pela republicana redenção.

A rebelião teve origem na Revolução de 1930,
Tropas sulistas, sangrentas tintas derramaram sobre o País,
Se apossaram do poder, tendo à frente Getúlio Vargas,
Destituindo e prendendo o presidente Washington Luiz.

O governo provisório foi se tornando permanente,
O Estado de São Paulo não aceitava essa situação,
Em maio de 1932, por uma Constituição premente,
O povo saiu às ruas, contra a ditadura fez exortação.

Os estudantes aderiram bravamente ao movimento,
À democracia se prenderam em juramento,
No dia 23, na Praça da República,
Quatro jovens tombaram pela nobre causa pública.

Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo
Foram os primeiros mortos na luta pela Constituição,
Lavaram com seu sangue a afronta nacional,
Ídolos se tornaram no coração social!

Ergueu-se a sigla MMDC, como um estandarte,
Representa a data, traz as primeiras letras dos estudantes,
Cujo sacrifício pela Pátria não foi em vão,
O País teve, em 1934, a sua propalada Constituição!

Esta Constituição vigorou até 10 de novembro de 1937,
Quando Getúlio impôs nova ditadura ao povo,
Farsa que denominou “Estado Novo”,
Encomendando outra Constituição, a de 1937.

Em 9 de julho de 1932, em São Paulo,
Foi declarada a Revolução Constitucionalista,
Trazia o lema: “Tudo pela Constituição”,
O povo exaltado exigia a reparação.

Em homenagem aos quatro estudantes, de ardor nacionalista,
23 de maio foi consagrado ao Soldado Constitucionalista,
MMDC sintetiza para a Nação o gesto heróico,
A força que marcou o exemplo patriótico.

No Estado de São Paulo, por esse episódio,
O pendor de bravura ficou notório,
Pela Justiça, São Paulo revelou-se o primeiro,
Pela Democracia, impôs-se como pioneiro!

 

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em maio/2005)

DIFERENÇAS NO SISTEMA DE COTAS RACIAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Parece estar surgindo um novo raiar quanto à consciência da questão de cotas raciais. Começa-se a entender a interferência negativa que elas provocariam na qualidade do ensino, atrapalhando o processo da igualdade social. “A educação é o grande fator de desigualdade na sociedade brasileira”. (Simon Schwartzman)

Tem, sim, que haver políticas afirmativas em direção às minorias, aos pobres, aos negros, aos índios. Mas, políticas que vão de encontro à qualificação profissional e não a um remendo instrucional. As cotas têm, sem dúvida, chamado a atenção sobre as camadas mais carentes da população, sobre a necessidade de estas camadas  ascenderem-se socialmente.

Elas não são, porém, caminho revitalizador. Dissemos, no artigo anterior, do reforço educacional que se deve dar à educação básica do aluno pobre, capacitá-lo para o exercício da função escolhida, do fator mérito que se impõe para o ingresso ao ensino superior. Boa escola é o que está faltando aos pobres.

As convicções a respeito das cotas não se firmam. As universidades divergem quanto à sua aplicação. Não há uma regularidade no sistema de cotas. Cada instituição dá a sua versão. No fundo, falta credibilidade ao processo.

A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira universidade federal do País a adotar  o  sistema  de  cotas raciais, antes mesmo de o Ministério da Educação (MEC) definir como seria sua aplicação. Desse modo, terminou por adotar critérios diferentes do que pretende o MEC. Um desses critérios é não levar em conta a renda do candidato ou o fato de ter ele estudado ou não em escolas públicas. Entendeu a Universidade de Brasília (UnB) que os negros estão principalmente entre a camada mais pobre da população. Por essa razão, as cotas raciais automaticamente beneficiam quem mais precisa. Outro item, estabelecido pela UnB, é de que o seu sistema não é para afrodescendentes, mas para brasileiros que tenham o genótipo dos negros, isto é, aparentem fisicamente ser negros.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) elaborou o Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social. Pelo Programa, os candidatos que cursaram o ensino médio em escola pública terão um bônus de 30 pontos no vestibular da Unicamp. Eles serão somados à média da prova da 2.ª fase. O propósito é aumentar, em pelo menos 27%, o ingresso dos estudantes da rede pública nos cursos de graduação. Negros, pardos e indígenas autodeclarados ganharão mais 10 pontos, somando 40.

O reitor da Universidade diz que “não é cota, trata-se de uma ação afirmativa para incentivar e facilitar que estudantes de escolas públicas entrem na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)”. Estima-se que o número de aprovados vindos de escolas públicas aumente dos 30,3% registrados no corrente ano para 38% em 2005. O projeto prevê, também, que seja ampliado o número de bolsas para estudantes carentes.

O governo federal, contudo, insiste na adoção de cotas raciais para negros e índios. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai enviar ao Congresso projeto de lei para garantir a reserva de metade das vagas das universidades federais a alunos que concluíram o ensino médio em escolas públicas.

Os reitores das universidades mostram-se cautelosos. O reitor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ulysses Fagundes Neto, considerou que 50% de reservas de vagas na universidade constituem uma tragédia. A instituição tem cerca de 300 vagas a cada vestibular e já aprovou projeto de cotas para negros e estudantes de escolas públicas, mas com percentual de 10%.

São poucas as universidades públicas no País que adotam o sistema. Estatísticas falam que em 2003 só três estabelecimentos tinham uma política de cotas. Este ano, surgiram mais dois. O Ministério da Educação revela que, atualmente, 41,8% dos estudantes que se formam em universidades federais cursaram o ensino médio em escola pública. Nesse percentual, entretanto, existem grandes diferenças regionais. Nos Estados do Norte e Nordeste, onde há poucas universidades privadas, esta taxa passa dos 50%, enquanto que na Universidade de Brasília (UnB) apenas 30%, dos 25 mil alunos, vieram de escolas públicas. Há ainda a registrar que a concentração de estudantes carentes está em cursos de licenciatura; estudantes que vêm de escolas particulares conseguem vencer as concorridas vagas de Medicina, Engenharia, Administração, Direito, entre outras.

As universidades, preocupadas, estão se revestindo de cautela para que a inclusão não venha piorar a qualidade de seu ensino, a qualidade de ensino voltada à parcela da população de renda mais baixa. O melhor instrumento de inclusão seria expandir o número de vagas, principalmente dos cursos noturnos, e valorizar a escola pública, investindo no ensino médio e na educação básica como um todo.

Milagres no terreno educacional não existem. Ou se tem uma boa estrutura para se avançar ou se fica à margem da sociedade. Um diploma que não qualifica leva igualmente à exclusão social.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2004)

ENSINO FUNDAMENTAL DE 9 ANOS -- (2)

Izabel Sadalla Grispino *

O ensino fundamental de 9 anos de duração é assunto que ronda a preocupação dos pais. Como vai ser? Meu filho vai ter que estudar mais 1 ano para completar esse ensino?

Na verdade, sim, só que será um acréscimo inicial. Ao invés de o aluno ingressar aos 7 anos de idade, vai fazê-lo aos 6. O ensino fundamental será, então, não mais dos 7 aos 14 anos, mas dos 6 aos 14, continuando o aluno a sair do ensino básico – infantil, fundamental e médio – com os mesmos 17 anos.

É um enriquecimento inicial que virá fortalecer as etapas posteriores da alfabetização. Ao invés da 1.ª à 8.ª série, a criança cursará do 1.º ao 9.º ano mudando, apenas, a nomenclatura. Começará o novo 1.º ano aos 6 anos. Todos “pulam” uma série, mas só na nomenclatura. Os conteúdos do 2.º ao 9.º ano devem continuar os mesmos que eram dados de 1.ª à 8.ª série. Quem estará, por exemplo, na 3.ª série cursará o 4.º ano com o mesmo conteúdo do 3.º ano.

A mudança será na estrutura da escola, preparando-se para atender crianças mais novas, na faixa etária dos 6 anos. O importante não é apenas a obrigatoriedade em oferecer vagas, mas como essas crianças serão atendidas. Um novo projeto pedagógico deverá cobrir a mudança. Não é só transferir o conteúdo que era dado aos 7 anos para os 6 anos.

O novo 1.º ano terá de incorporar características do ensino infantil, passando a funcionar com o mesmo conteúdo que já era dado na pré-escola. A alfabetização não será adiantada, começa na idade adotada pelo ensino infantil.

A instituição terá que adaptar salas de aula e parte da escola para receber crianças menores. Atividades lúdicas, de arte e recreação, precisam continuar para essas crianças, assim como experiências já iniciadas de ler e escrever, como ouvir histórias, nos cantinhos de leitura, escrever cartinhas, bilhetes. Inclui-se, aí, brinquedoteca e também a preocupação com a motricidade da criança. Os banheiros são um outro ponto a se considerar, a se ajustar.

Esses preparativos levam a rede pública a mudar só em 2008. A rede particular, a maioria – 90% -- já funcionando com educação infantil, tem condições apropriadas para fazer funcionar o ensino fundamental de 9 anos em 2007. Algumas redes já haviam mudado, por critério próprio, antes da lei.

A ampliação do ensino fundamental de 8 para 9 anos, prevista pela lei 11.274 e sancionada em fevereiro de 2006, pelo presidente Lula, torna obrigatório o início desse ensino aos 6 anos de idade e dá um prazo até 2010 para que todas as escolas de ensino fundamental se adaptem ao novo formato de ensino.

O ensino fundamental, sendo o único considerado obrigatório pela Constituição, vai obrigar, agora, crianças de 6 aos 14 anos, incluindo crianças pobres de 6 anos que estão fora da escola e que nela passarão um ano a mais. Este aspecto foi o principal objetivo da lei, favorecendo, especialmente a rede pública, os alunos carentes, porque os mais abonados já têm a seu dispor a educação infantil de 6 anos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2007)

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DE 1.ª À 4.ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL

Izabel  Sadalla Grispino *

Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental se dividem em Parâmetros de 1.ª à 4.ª série e de 5.ª à 8.ª série. Os de 1.ª à 4.ª série são uma coleção de 10 livros, enviados às escolas no final de 1997.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1.ª à 4.ª série cobrem as matérias obrigatórias dessas séries, o núcleo comum, para língua portuguesa, matemática, ciências, história, geografia, artes e educação física. Trazem roteiros de que deve, de como deve e para que ensinar aos alunos de 1.ª à 4.ª série. Propõem que os conteúdos das disciplinas se aproximem do dia-a-dia da vida dos alunos, que haja correspondência entre o que o professor fala em sala de aula e o que o aluno faz lá fora. O trabalho escolar não pode estar desvinculado da vida do aluno e deve ressaltar problemas cotidianos. A realidade vivida pelo aluno deve servir de ponte entre o dizer e o fazer, deve unir o currículo formal e o currículo oculto.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais trabalham o aluno como um todo, em sua formação integral, de tal modo que informação e formação caminhem em movimento circular. Dedicam amplo espaço aos chamados temas transversais – sexualidade, droga, saúde, valores morais, sociais e outros – que devem permear as matérias do currículo e ser incorporados à prática, em sala de aula, sempre que a dinâmica da classe comportar.

Os Parâmetros entrelaçam as matérias obrigatórias com educação, sociedade, escola e cidadania. Reforça a importância da ética – ética democrática que afasta a arraigada cultura autoritária – da formação moral, do convívio escolar – na ação de um perante o outro – da participação e co-responsabilidade pela vida social. Há um extenso capítulo: convívio social e ética, cidadania, ética e pluralidade cultural.

Sensibilidade, respeito, coerência e idoneidade são qualidades que se adquirem em casa, mas que a escola ajuda a desenvolver. Respeito é um valor pedindo socorro! Diferentemente do passado, quando o respeito dos filhos pelos pais fundamentava o comportamento respeitoso, hoje, o que impera é o cinismo, o deboche, a agressividade. A criança precisa aprender desde cedo que, quando seu comportamento interferir na vida do outro, ela deve colocar, acima de tudo, o seu compromisso com a ética.

Os Parâmetros oferecem, dentro do processo de construção do conhecimento, formas de estimular e de avaliar os alunos. Propõem uma avaliação ampla, investigativa e final, onde se consideram os aspectos conceituais, procedimentais e atitudinais. Eles ampliam o papel do professor e reforçam a importância do trabalho coletivo. O ensino-aprendizagem deve fazer do aluno um ser pensante, criativo, essencialmente crítico, deve proporcionar-lhe oportunidades de “aprender a aprender” e se tornar um cidadão.

PLURALIDADE CULTURAL – Pluralidade cultural é um tema que vem sendo considerado como de grande importância à aprendizagem. Ele conscientiza o aluno dos valores diferenciados do homem. A diversidade cultural é um patrimônio da humanidade, uma forma de afirmação étnica e da cidadania. Deve ser explorada pelo professor, porque é na compreensão dessa pluralidade que se mantém o respeito mútuo, o respeito aos valores alheios, que se criam sentimentos de tolerância. Num País como o Brasil, com seu quadro sociológico composto da multiplicidade étnica e cultural, não há lugar para a uniformização. A uniformização leva à discriminação, ao preconceito, ao racismo, à anulação de povos e de grupos minoritários.

“Pluralidade cultural” propõe amplo estudo das religiões, não como ensino religioso em si, mas como parte da cultura, da história, da arte dos povos. O documento insiste no caráter laico do Estado e na necessidade de laicidade do ensino público para se garantir o livre-arbítrio e os valores das diferentes religiões. Esse item reforça conceitos apregoados pela renomada educadora Emília Ferrero, quando registrou a importância das diferentes culturas, do multilingüismo, das variações dialetais, variações da fala, no processo ensino-aprendizagem. A escola, ao respeitar a cultura dos alunos, seus costumes, suas tradições, promove a idéia de plural da sociedade, estimula e dá autenticidade à aprendizagem. Utilizar-se do plural para diversificar, não para unificar.

Os modelos educacionais mudaram nas últimas décadas. Deixando de lado a ênfase na memorização, as escolas passaram a adotar propostas pedagógicas destinadas a dar mais autonomia aos alunos na aprendizagem, a torná-los pessoas com maior compreensão de seu cotidiano, mais capazes de tomar decisões e mais aptos ao convívio social. Esses procedimentos são, hoje, as principais tendências do ensino, que deverão se consolidar na próxima década.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2000)

REFLEXOS DA CULTURA SOBRE O MUNDO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

No mundo atual, nota-se uma precocidade marcante entre a geração de meninas de 9 a 12 anos.

As meninas querem crescer logo e, segundo os médicos, vêm enfrentando o crescimento hormonal da puberdade mais cedo que as do passado. Citam como causas a melhoria da alimentação, das condições sanitárias e de saúde. Dentre essas, estão os estímulos sensoriais, influenciando o encurtamento da infância e o conseqüente alargamento da adolescência.

A sociedade atual provoca mudanças no modo de se conceber o universo infanto-juvenil. As gerações antigas diferenciavam a cultura dos adultos e a cultura infantil. Esse conceito vem se modificando, provocando uma transformação acentuada da infância no alcance precoce da juventude.

As meninas, estimuladas socialmente, querem crescer logo, viver a adolescência antes do tempo, um comportamento adulto. A televisão, a tecnologia, a internet, imprimem mudança de conceito, difundindo informações, regras de etiqueta, produtos de beleza, roupas, sapatos, que ajudam a firmar a nova identidade juvenil. Além disso, as crianças assistem a programas recomendados para adultos, têm ao seu redor acesso a todas as novidades, modismos, jogos de computador, informações apropriadas à sua vaidade.

Há um forte apelo consumista, uma exigência no modo de vestir, de pentear, que se firma como uma forma de integração social dos pré-adolescentes. O mercado lança uma série de produtos, linhas de cosméticos para meninas, roupas provocantes, celulares coloridos, que podem trocar de capa e combinar com a roupa...

A esse fator, há outros, como o desejo das mães, de que as filhas sejam bem torneadas, magras, elegantes como as modelos. É um conjunto de fatores que propicia uma pré-adolescência precoce.

As brincadeiras tradicionais da infância estão desaparecendo. As crianças vivem o mundo da tecnologia, do computador, dos CDs, dos “shoppings centers”. Preferem os jogos de computador às bonecas.

Meninas de 9, 10, 11 e 12 anos freqüentam salão de beleza, fazem unhas e cabelo, usam blusas que deixam ver o piercing colocado no umbigo, usam salto plataforma e estão, sempre, levemente maquiadas. São meninas que deixam de lado o sonho lúdico, para abraçar a vaidade e as curiosidades dos adultos. Esmeram-se na imagem bela e bem cuidada, vivem sob o domínio de estímulos de consumo e comportamento, podendo, até certo ponto, despertar mais cedo a curiosidade em relação ao sexo.

A infância de hoje imita esse modelo disponível, diferente do modelo de outrora. Segundo os psicólogos, a menina apenas imita, exterioriza um corpo desenvolvido, modulado, mas continua com uma mentalidade infantil. São modificações aparentes, são modelos que seguem, mas não estão mais maduras intelectualmente, nem mais preparadas para os apelos sexuais que procuram mostrar. Copiam um padrão de moda, considerado moderno. No fundo, essas meninas continuam sendo crianças.

Dizem os hebiatras – especialistas que cuidam de pré-adolescentes e adolescentes – que não adianta proibir ou reprimir. As meninas juntam-se aos seus grupos, comunicam-se, interagem-se.

Pais e professores precisam encarar essa realidade, entrar nesse mundo para melhor compreender, melhor orientar, refreando o abuso do comportamento adulto. As escolas vêm acompanhando de perto esse novo modelo que a sociedade imprime às meninas e procura ajustar a sua metodologia ao momento dessa criança.

Em entrevista, numa pesquisa sobre o assunto, o diretor de uma escola de informática relatou o seguinte: “Temos um curso infantil, para crianças de 6 a 11 anos. Os pais as trazem para fazer a matrícula e elas se recusam, porque não querem fazer nada de criança. Querem entrar direto no programa dos adultos e o interessante é que conseguem acompanhar muito bem as aulas”.

Esse fenômeno da precocidade infantil verifica-se no mundo todo. Observar, compreender e orientar são preceitos que se impõem. Ter, sobre esse processo da aceleração da puberdade, um olhar capaz de ajudar as meninas a caminhar mais lentamente, a perder a ansiedade do mundo adulto.

Pais e professores devem filtrar o que chega aos olhos da criança, desenvolver-lhe valores internos, preparando-a com calma para a vida adulta. Buscar criar no grupo estímulos próprios, condizentes à fase em que vive a criança, na linha da disciplina e da formação de novos paradigmas.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2006)

O EXAME VESTIBULAR

Izabel  Sadalla  Grispino *

O exame vestibular continua sendo o grande processo de seleção ao ensino superior, o que responde, ainda, pela formação de calouros nas universidades públicas. É um processo que acaba por discriminar as classes populares, revelando o desnível existente entre a boa e a má educação.

O vestibular já se firmou como a oportunidade dos bem-nascidos, como o trampolim da elite para o melhor do ensino superior. Ele se constitui na última etapa de uma seleção que começou bem antes, na aprendizagem das primeiras letras. Seu afunilamento é preenchido por alunos que receberam a melhor educação, que freqüentaram a melhor escola. Ele é um termostato de todo o conhecimento adquirido anteriormente. Não é, pois, o 3.º ano do ensino médio, ou o próprio ensino médio que aprova ou reprova o candidato no vestibular. Ele, também, não é uma tentativa tão aleatória, como querem alguns, chegando a classificá-lo como um jogo de sorte ou de azar. A um professor do 3.º ano do ensino médio não é difícil prever quem passará na 1.ª tentativa, quem conseguirá na 2.ª e quem nunca chegará lá.

A “Folha de S. Paulo”, em 1999, denunciava o fracasso dos estudantes da rede pública no vestibular da Fuvest. Nesse vestibular, a rede pública teve o pior desempenho da USP. O perfil socioeconômico, traçado pela FUVEST, que faz levantamento de dados desde 1977, mostra que a grande maioria dos alunos freqüentou escola particular e pertence à classe média/alta e que os alunos da rede pública estão desaparecendo da Universidade de São Paulo. Em 1977, 57,3% dos novos alunos vinham da rede pública e 29,3% das escolas particulares. No ano de 1999, 62,4% dos calouros cursaram o 2.º grau em colégios privados e apenas 20,7% não pagaram pela educação secundária.

A queda tem sido gradual e contínua. Os resultados dos últimos 5 anos são preocupantes, em termos de probabilidade de extinção desse alunado na USP – tal o grau de decadência do ensino público. Entre 1993 e 1998, houve uma queda de 12 pontos percentuais; alunos vindos de escolas públicas passaram de 32,5% do total de novos alunos para 20,7%. Presentemente, o alunado que sai da escola particular entra na universidade pública; o que sai da escola pública só consegue entrar na universidade particular. Um contra-senso. Uma distorção da realidade socioeconômica da população, provocada pela desigualdade cultural. Nessa conjuntura, escola particular tornou-se, praticamente, “pré-requisito” para entrar em uma universidade pública e esta – a melhor do País, a que oferece melhores empregos do mercado de trabalho – fica reservada aos ricos.

Há, ainda, um outro ponto a considerar nesta desigualdade. Investe-se no ensino fundamental, o que é muito louvável e caracteriza um avanço, mas deixa-se no vazio a educação infantil, denominada de pré-escola. É, aí, nesta fase inicial de estimulação às primeiras aprendizagens que se inicia a grande defasagem cultural das classes menos favorecidas. É aí, nesta faixa etária, que as crianças de famílias de baixa renda ficam, costumeiramente, de fora.

A pré-escola sociabiliza, desenvolve mais habilidades, melhora o desempenho escolar futuro, propiciando à criança resultados superiores ao chegar ao ensino fundamental. A educação infantil é o verdadeiro alicerce da aprendizagem, aquela que deixa a criança pronta para aprender. A ausência desse ensino, pelas crianças pobres, completa o ciclo da desigualdade escolar dessas crianças, futuros adultos, futuros concorrentes à marginalização profissional.

Felizmente, a preocupação com a pré-escola começa a ganhar força na área governamental. Em São Domingos, capital da República Dominicana, de 10 a 12 de fevereiro do ano 2000, realizou-se, com a participação de representantes dos ministérios da Educação da América Latina e do Caribe, além dos Estados Unidos e Canadá, a “Reunião das Américas para Avaliação da Educação para Todos”. O documento “Marco de Ação Regional”, elaborado por técnicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e do Banco Mundial, sintetizou as decisões, nas quais foi ressaltado o investimento na pré-escola, considerado como a nova prioridade em todas as ações educacionais nas Américas. O documento concluiu que a “insuficiente atenção ao desenvolvimento integral das crianças na 1.ª infância era o principal responsável pelas “altas taxas de evasão e repetência” na escolaridade básica. A prioridade de investimentos na pré-escola deve ser a 1.ª, dentre as outras, por garantir o direito universal de uma “educação de qualidade desde o nascimento”.

Considerou-se que os investimentos   devem contar com ampla participação social que assegure a transparência e devem ser descentralizados. Os governos aceitaram, também, o compromisso de que “os docentes têm lugar insubstituível na transformação da educação”. O uso dos novos recursos didáticos e tecnológicos na Educação não substitui o professor. A Unesco mostrou preocupações com a melhoria da formação docente, considerando que a valorização da profissão docente está associada à “melhoria das condições de vida e trabalho” do educador. Ainda, pelo documento, os governos assumiram o compromisso de “converter políticas assistencialistas em políticas de promoção de capacidades das pessoas”. O que seria extremamente louvável, pois deslocaria da escola o foco assistencialista, passando para o da competência.

Enquanto persistirem, em grau significativo, as desigualdades educacionais, acarretando desigualdades sociais, permanecerá, com raras exceções, a elite no comando do País. Perpetua-se no poder, desde a época imperial, apesar da propalada democracia, a classe abastada, dominando pelo dinheiro e pela cultura.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2001)

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