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Artigos Educacionais

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EDUCAR PELO CAMINHO DA RELIGIOSIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Fui solicitada, num encontro educacional, a proferir uma palestra sobre “Educação e Religião”. Após meditar sobre o tema, percebi a amplitude de abordagem que contém.

O ensino religioso, em si, é um aspecto complementar da educação e de importância capital. Ele alcança a educação da alma, da formação do caráter, da noção de solidariedade, dá ao homem a dimensão superior da vida. O importante não é a religião em si, é o senso religioso, sentimento carregado de amor, de justiça, de compreensão.

É preciso reconhecer que o progresso científico-tecnológico não foi acompanhado de um desenvolvimento centrado na pessoa humana. A própria escola foi se tornando uma entidade cada vez mais informativa, deixando de lado a formação do educando, na abrangência de sua educação integral. Hoje, voltamos a insistir, junto ao conhecimento, em uma escola cidadã, formadora de caráter, da participação comunitária.

Quando a escola fala em transversalidade, está falando em temas transversais, assuntos sociais que se incluem no currículo escolar. Ela observa a sociedade, o meio-ambiente, em seus amplos aspectos, ressalta os pontos que os vêm estrangulando, danificando, e se organiza em projetos educativos, socioculturais, em ações de intervenção social. Torna-se um agente ativo de prevenção. Ela se previne, se arregimenta, para afastar agressões inoportunas e violentas.

A escola não pode simplesmente refletir a sociedade; cabe a ela ser um elemento transformador e, ao lidar com mentes em formação, é a instituição mais apta para esse papel. Sabemos que a célula-mater da sociedade é a família, como nos ensinava Coelho Neto, mas a escola é sua grande coadjuvante. É preciso desestruturar o comportamento do ganha-fácil, provocar uma mudança radical no conceito de que, para se alcançar o que se quer, vale tudo. Para essas mudanças, a ciência pouco interfere. São mudanças de valores constitutivos da alma, mudança de mentalidade, o que não é fácil de se conseguir.

Vivemos um novo universo cultural, do prazer imediato, do descartável – usa-se e joga-se fora – da desvalorização dos sentimentos, da esperteza corrupta, do desrespeito generalizado. Respeito é um valor pedindo socorro. O que se presencia é a hipocrisia, a ironia, o deboche. Rompem-se os laços sociais. Aquele que, ao passar pelo outro, ergue os olhos ensejando um cumprimento, dizer um bom dia, uma boa tarde, é visto como ingênuo ou menos importante na escala social. É preciso “se valorizar”, “mostrar-se mais que o outro”, e, para tanto, caminha-se na arrogância, na individualidade, no afastamento das relações sociais, no preceito de que “eu sou mais eu”. Isola-se no egoísmo, no “dá lá, toma cá”.

Há estudos evidenciando a “cultura do individualismo”, tão disseminada na vida social. O professor Francis Kukuyama, no livro “A grande ruptura”, diz que a mesma sociedade que não admite limites em sua inovação tecnológica também “não percebe os limites em muitas formas de comportamento pessoal e a conseqüência é o aumento de crimes, famílias desfeitas, o malogro dos pais em exigir obrigação dos filhos, a recusa do vizinho de ter responsabilidade pelo outro e a retirada dos cidadãos da vida pública. Gosto, prazer, capricho, passam a impor o seu desejo cego”.

Os conceitos axiológicos, a formação da ética, da cidadania -- valores que a sociedade desesperadamente necessita – dizem respeito à alma, em seus componentes de amor, de verdade, de fraternidade. São atributos inerentes a Deus, onde o conhecimento pouco ou nada interfere.

Viver Deus é viver o amor, lato sensu, isto é, na extensão maior. O que verificamos é que muito se fala Deus, muito se reza Deus, mas pouco se vive Deus e esse pouco vem trazendo conseqüências terríveis para a vida humana. Aprendemos, com o sentido de religiosidade, que se somos filhos de um mesmo Pai, temos que nos chamar de irmãos, temos de ser solidários, aprender a dividir, a somar, não a diminuir.

O amor é, também, um aprendizado. Quem não recebeu amor em casa, quem foi hostilizado institucionalmente, dificilmente levará amor à sociedade; engrossará o caótico social. Temos que nos alertar para o amor, para esse grande alicerce da alma, combater sua ausência desde muito cedo, em casa e nas salas de aula.

Essa imagem é configurada na minha poesia: “Refúgio para o mundo infantil”.

REFÚGIO PARA O MUNDO INFANTIL

Saudade eu tenho da candura, da lealdade,
Do sentimento elevado que se via,
Saudade das mãos dadas, da sobriedade,
Do andar calmo que o mundo nos oferecia!

O ar, hoje, é pesado, envolto em hipocrisia,
Dominado por um ideal vazio, sem par,
Amizade ganha peso de joalheria,
Valor se amolda ao tamanho do paladar!

Confiante, bati à porta da instrução,
Esperando encontrar construção mais humana,
Triste foi ver que, no trato do coração,
Instrução, nesse ponto, é o que mais engana!

Diplomado ou rico se moldam nas mesmas barras,
Engrossam o saber, acumulam fortuna,
Mas, se igualam em pobreza, de áridas terras,
Deixando, no cultivo da alma, a maior lacuna!


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2005)

INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Izabel Sadalla Grispino *

O grande problema da frustração, que acompanha o ser humano a vida toda, tem sua origem, quase sempre, na infância: uma criança comparada com outra, tendo que se sair tão bem ou melhor que a outra!

As crianças entram numa competitividade desigual, fortemente desgastante e sem sentido. Elas são potencialmente diferentes e vão se aflorar em direções diferentes. Ninguém é igual a ninguém; difícil na educação é conduzir as individualidades, as especificidades.

O grande slogan das escolas atuais é o atendimento individual, o desenvolvimento das potencialidades. O avanço do método científico vem se apoiando, cada vez mais, no ensino diferenciado, personalizado, fundamentado nas diferentes habilidades de cada indivíduo. As mentes são diferentes e não há uma única inteligência capaz de comparar as crianças, diz a ciência. É preciso, pois, respeitar as diferenças.

A moderna pedagogia escolar apóia-se na teoria das inteligências múltiplas, estudadas, entre outros, pelo psicólogo e professor americano Howard Gardner, da Escola de Educação de Haward. Sua teoria diz que as pessoas são potencialmente múltiplas e possuem oito habilidades cada uma, ou seja, oito inteligências. São elas: inteligência musical, lógica – matemática, lingüística, corporal cinestésica, naturalista, intrapessoal, interpessoal e espacial.

A escola deve desenvolver a potencialidade de seus alunos, estimulá-los em todas essas inteligências, respeitar, porém, suas preferências, seus interesses.

Um outro aspecto importante da aprendizagem é a evolução natural dos processos psíquicos do educando. Professores e pais devem acompanhar, passo a passo, os avanços adquiridos e exigir das crianças apenas aquilo que elas podem conseguir fazer por si mesmas.

Um trabalho apresentado por uma criança que não corresponda ao seu nível de entendimento, ao seu nível de ensino, deve ser questionado sobe a real procedência. Teria tido o trabalho a participação de uma outra pessoa? Muitas vezes, os próprios pais, no afã de o filho vencer uma competição, de impressionar o professor ou visando a obtenção de notas altas, encarrega uma terceira pessoa  para “melhorar” o trabalho do filho.

Isso caracteriza um desvirtuamento da aprendizagem. A criança se refugia na ajuda, se encosta e se acomoda. Não evolui e se torna incapaz de avançar com autonomia e condições próprias, incapaz de transpor barreiras e enfrentar desafios, utilizando-se das próprias armas. Reforço na aprendizagem é de grande valia, contudo a elaboração dos textos é de exclusiva competência do aluno.

Pedir ou permitir que se façam exercícios, redações, resumos de livros, críticas literárias, para os filhos, é prejudicá-los, torna-los inseguros ao enfrentar, por si, algo a cumprir.

Ademais, esses pais estão ensinando os filhos a camuflar, a serem desonestos, perdendo, aos poucos, a sua autenticidade. Não os ensinam a crescer com responsabilidade, a fazer aquilo do que são capazes, a trilhar e desenvolver os próprios caminhos, a perceber a sua vocação, o seu limite, a sua tendência profissional. Essa criança não recebe estrutura mental compatível com as dificuldades da vida.

Um professor atento, zeloso do atendimento individual, perceberá, facilmente, as fraudes projetadas. Deverá conversar com os pais e elucidar a questão.

Educar é processo complexo, de estudo e reflexão. É um colocar frente ao espelho e definir, para o seu educando, linhas honestas, coerentes, de atuação.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em novembro/2006)

ANALFABETISMO FUNCIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

As mudanças sociais acarretam mudanças funcionais, criam palavras e expressões que vão se incorporando e se firmando através da mídia. Temos lido e ouvido, freqüentemente, falar em analfabeto funcional. Pelo conceito tradicional, analfabeto é o indivíduo que não sabe ler e escrever. Hoje, saber ler e escrever, mas não ter capacidade para entender uma mensagem ou elucidar questões simples, é igualmente analfabeto, porque não há, no mercado de trabalho, função para ele.

A transformação no mercado de trabalho muda, radicalmente, o conceito do que é ser alfabetizado. A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 1996, revelou que 14,7% da população brasileira, acima de 15 anos, são, pela antiga conceituação, analfabetos.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pretendendo apurar um grau mínimo de conhecimento, perguntou em sua pesquisa: ”Você sabe ler ou escrever um bilhete simples?” Levantou, nesse nível, um total de 15 milhões de analfabetos. Analfabetos que, embora soubessem escrever o nome, não conseguiram responder questões básicas de aplicação diária. Esse índice coloca o Brasil entre os dez países com maior número de analfabetos absolutos.

Hoje, porém, não basta saber ler ou escrever um bilhete simples para se colocar, com alguma perspectiva, no mercado de trabalho. Os empregos exigem, cada vez mais, tarefas complexas, como processar informações, interpretar textos, usar mapas, cálculos matemáticos. Nesse grau, os problemas são mais sérios. A última pesquisa, realizada na capital de São Paulo, abordando essa capacidade, apurou que 1/3 da população é analfabeta funcional. Este termo inclui tanto aqueles que não sabem assinar seu nomes, quanto aqueles que freqüentam uma escola, mas não conseguem, por exemplo, localizar um endereço em um anúncio de emprego ou somar quantias, depositadas em cheque, num formulário bancário.

“A Ação Educativa”, uma organização não-governamental na área da educação de jovens e adultos, realizou, em agosto de 1997, uma pesquisa, usando questões do cotidiano para verificar as habilidades que os paulistanos apresentavam em interpretar textos, em fornecer informações, em raciocínio e cálculos matemáticos. Concluiu que 7,4% dos moradores da capital, entre 15 e 54 anos, seriam classificados, pelo IBGE, como analfabetos absolutos. Essa porcentagem bate com o índice, de 1991, de 7,5%. Outra parte dos habitantes, 25,5%, não passou nos testes que pedia o acerto de 5 entre 7 questões relativas ao assunto acima mencionado. Somando-se os dois resultados, chega-se a 32,9% da população da cidade de São Paulo como sendo analfabetos funcionais.

Tendo-se em conta que os habitantes do município de São Paulo possuem o maior índice de escolaridade do País, a taxa de analfabetismo funcional no Brasil deve ser bem mais elevada.

Um outro aspecto revelador, demonstrado pelo estudo das “Ações Educativas”, é de que quem pára de estudar ou mesmo de trabalhar “emburrece”. Em teste aplicado, apenas 50% das donas-de-casa são aprovadas contra 69% das mulheres que trabalham fora de casa – o mesmo percentual dos homens. Essa constatação vem confirmar o preceito de que a educação tem de ser continuada, permanente. Vem confirmar a máxima de que os profissionais do próximo milênio terão de estudar a vida toda.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) faz uma descrição operacional do novo perfil dos analfabetos brasileiros. Os “analfabetos pós-modernos” que não sabem usar cartão magnético, aparelhos eletrônicos, ler manuais ou contratos; os “analfabetos televisivos”, que  não conseguem ler jornal ou livro; os “analfabetos do economês”, que não entendem cobranças, balanços ou linguagem dos bancos e da mídia especializada no setor.

Na Avaliação do Ensino Básico (Saeb), feita pelo MEC, em 1998, considerou-se que, em português, o grau de

compreensão da grande maioria dos alunos da 4ª série do ensino fundamental foi muito baixo. Os alunos não conseguiram interpretar o texto contido num manual de um simples aparelho.

Com esta base, a escola está integrando ao mercado de trabalho analfabetos funcionais, pessoas marcadas para a marginalização por deficiência de comunicação. Perguntamos: de que adianta a escola expedir certificado ao aluno, se ele sai dela sem condições, por falta de conhecimento, para enfrentar as ocupações  atuais de trabalho? A escola deve ter sempre presente o seu compromisso com a aprendizagem. O saber deve estar acima de qualquer outra responsabilidade que possa vir a ter, porque é esse saber quem vai aprovar ou reprovar o aluno na prática profissional.

Vivemos uma nova etapa do capitalismo, que exclui, sem apelo, os que não conseguem um mínimo de educação. A baixa escolaridade da nossa população, de 4 anos em média, empobrece o País, arrasta a miséria, a insegurança e a negação de horizontes de vida digna. Repercute no conceito nacional, especialmente, quando comparado aos nossos países vizinhos. Em matéria de escolaridade, o Brasil “ocupa um lugar inferior ao Paraguai, ao Uruguai, à Venezuela, à Colômbia, à Argentina e é semelhante ao Peru” (CNBB). A Argentina, um dos nossos parceiros do Mercosul, tem média de 8,7 anos de escolaridade. Nela, até os trabalhadores portuários de Buenos Aires, outrora típicos trabalhadores braçais, hoje, têm nível de 2º grau completo. O Paraguai avança mais, com média de 9,2 anos. Entre os tigres asiáticos, a escolaridade média passa de 11 anos e, nos países do primeiro mundo, vai de 12 a 16 anos.

Níveis de escolaridade tão distantes de um país a outro sinalizam o grau de importância que foi atribuído à educação, nestas diferentes localidades.

VÍNCULOS ENTRE EDUCAÇÃO E POBREZA

Izabel Sadalla Grispino *

O estudante brasileiro de baixa renda tem no estudo seu passaporte para o mercado de trabalho, o qual consegue somente através de bolsas de estudo. Financiar os estudos dos estudantes carentes é lutar pelo desenvolvimento social da nação.

O jovem pobre, hoje, é consciente da necessidade de se freqüentar um curso superior para melhorar de vida. O Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ), divulgado em março de 2004, revela, surpreendentemente, que, ao contrario do que se fala, o jovem brasileiro gosta de trabalhar, quer estudar e luta para conseguir trabalho e conciliá-lo com os estudos.

Políticas afirmativas vêm surgindo, cada vez mais, nos meios educacionais. A educação começa a criar vínculos com a pobreza. A Universidade de São Paulo (USP), como alternativa à política de cotas para ingresso ao ensino superior, vai implantar um cursinho pré-vestibular gratuito. Deverá ser inaugurado em 1.º de julho do corrente ano, na zona leste da capital, uma das áreas mais carentes de São Paulo. Serão oferecidas 5 mil vagas para alunos da escola pública da região. As aulas do cursinho pré-vestibular e as apostilas serão supervisionadas por professores da USP, dadas por alunos da USP, que receberão capacitação e bolsa em dinheiro. O cursinho irá reforçar as 9 disciplinas do ensino médio e as aulas devem ser dadas em salas ociosas da rede estadual de ensino. A Secretaria Estadual de Educação entrou como parceira da USP, financiando o projeto.

Outra medida de ajuda da USP será a concessão, ainda para este ano, de 60 mil inscrições da taxa de vestibular da Fuvest para estudantes de baixa renda. No ano passado foram oferecidas 20 mil.

O cursinho pré-vestibular será de grande valia, porque irá socorrer alunos oriundos da rede pública, de um sistema de ensino decaído; alunos sem condições de pagar cursinhos particulares. Cinco mil vagas é um número insuficiente, o Educafro atende 9 mil alunos carentes, mas é, sem dúvida, uma iniciativa, um primeiro passo que será, certamente, seguido de outros. A tendência é crescer.

A formação de um cursinho pré-vestibular comunitário foi a alternativa que a USP encontrou, diante da política de cotas que o Ministério da Educação tenta implantar. A USP prefere ajudar na formação dos alunos do ensino médio, nas deficiências curriculares desse ensino, que aceitar aluno sem qualificação para os seus cursos, o que iria desestabilizar o seu padrão de ensino. Essa convicção foi reforçada após a primeira lei de cotas destinadas aos alunos da rede pública, aprovada pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2000. Na ocasião, os professores das universidades estaduais exigiram que se implantasse um Sistema de Acompanhamento do Desempenho dos Estudantes do Ensino Médio paralelo. Instituiu-se uma prova e os alunos que obtivessem conceitos D e E não poderiam pleitear a inclusão nas cotas. Em outubro de 2002, foi feita a primeira avaliação e 42,2% tiveram conceito E – menos  de 20% de acertos na prova – e 34%,  conceito D – menos de um terço de acertos na prova.

A avaliação preliminar às cotas mostrou uma precária formação, incapacitada à freqüência de uma universidade pública. Entendeu a USP que a desigualdade social não se corrigirá através de cotas e, sim, por melhorias no ensino público.

Ainda sobre o debate de cotas, o reitor Adolpho José Melfi revelou números do vestibular da USP de 2003, que mostram não ser apenas a origem racial ou pobreza os impedidores do ingresso à universidade. Entra aí, com peso considerável, a escolaridade dos pais. 34% dos inscritos no vestibular eram alunos do ensino médio público. Entre os aprovados, o índice foi de 18%. O que chamou a atenção foi o fato de, nesse montante, apenas 2% dos aprovados ter renda familiar mensal per capita inferior a R$ 500,00. Candidatos que conseguiram ingressar nas melhores universidades, tanto estaduais com federais, geralmente, têm pai e mãe com curso superior completo. Em alguns cursos, a porcentagem chega a 80% dos aprovados.

Esses dados vêm comprovar como o ambiente cultural interfere diretamente na aprendizagem do aluno. Analistas sociais citam a baixa escolaridade dos pais como forte fator de exclusão social, sobrepujando a faixa de renda familiar.

Quando se fala em baixo nível de escolaridade, a qualidade de vida surge como espelho refletor da realidade. Fatores culturais empobrecidos geram nível de ensino empobrecido. O ambiente cultural nativo tem peso considerável no desequilíbrio social. Que se arregimentem forças na ajuda ao aluno carente, seja por financiamentos, por bolsas de estudo, vagas estatizadas, vagas oficiais, cursinhos pré-vestibulares, isenção de taxas de inscrições ao exame vestibular, ou por outros mecanismos que venham facilitar o aluno pobre a estudar.

Que esses estudantes não sejam eles os pais, sem curso superior, a interferir negativamente na boa aprendizagem de seus futuros filhos. Que a médio prazo possamos reverter esse quadro, substituindo-o por um mais iluminado panorama educacional. Uma forte corrente de motivação deve percorrer os estratos mais pobres da população, provocar um renascimento, não deixando que o aluno pobre, ao concluir o ensino médio, pratique um ato de renúncia, de auto-exclusão. Esse aluno eleva sua autoconfiança quando percebe viabilizado economicamente o seu ingresso ao ensino superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2004)

PAIS OPINAM SOBRE ESCOLAS PARTICULARES

Izabel Sadalla Grispino*

Conscientizar é o ponto de partida para o amadurecimento do bom comportamento. Conscientizar através do diálogo, através de situações montadas.

Uma pesquisa realizada pelo Ibope, a pedido da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), com pais de alunos de classes A e B, em oito regiões metropolitanas, com filhos entre 7 e 17 anos, chegou a conclusões curiosas. Foram entrevistados, em dezembro de 2005, cerca de 1.000 pais. 90% disseram estar satisfeitos com as escolas particulares escolhidas. Ressaltaram a qualidade de ensino (41%), a localização das escolas (23%), a proposta pedagógica (18%), como razões pelas quais optaram pela rede particular.

Os casais, ao serem questionados sobre quais seriam os valores para uma boa escola, ressaltaram a liberdade, a justiça e o diálogo. Poucos valorizaram o fator disciplina, desprezando a disciplina rígida e apenas 12% citaram religião. As respostas ficaram assim distribuídas: diálogo, liberdade, 34%; justiça, cidadania, 34%; compromisso social, 32%; avaliação permanente, 29%; criatividade, 23%; disciplina rígida, 19 %; religião, 12%; trabalho, 9%; e participação política, 4%.

A rejeição por disciplina rígida é compreensível, mas nunca pela disciplina em si. A disciplina rígida pode tolher a liberdade de expressão, chegar às vias das práticas autoritárias, prejudicial à aprendizagem e à personalidade. Contudo, a forma disciplinar de se colocar em tudo na vida é indispensável para a busca do equilíbrio. É a disciplina que leva à autodisciplina, à autonomia intelectual, fatores considerados, hoje, tão importantes ou mais, para o desenvolvimento cognitivo, que o próprio ambiente cultural do aluno. A disciplina é um parâmetro forte para se exercer a liberdade, valor tão priorizado pelos pais, não a deixando cair no liberalismo, onde tudo é permitido. Os pais deveriam ter feito uma distinção entre disciplina e disciplina rígida.

O que a escola precisa ficar atenta é com a utilização do saber como fonte de poder: o professor detém o poder porque é aquele que sabe, o aluno, aquele que não sabe. O saber, embora tenha o seu peso, não pode ser determinante do poder. O poder não pode estar monopolizado, restrito a uma pessoa ou a um grupo de pessoas, mas estender-se a todos, um poder compartilhado, do aluno para o professor, do aluno para a escola, onde todos devem ter voz e vez. Um poder que ressurge do grupo, nunca imposto de cima para baixo. Isso, desde a colocação de procedimentos disciplinares, dos limites, os quais deverão ser elaborados, analisados com os alunos, antes de serem adotados.

Outro valor valorizado pelos pais, com acerto, foi o diálogo, valor essencial a qualquer tipo de educação. O diálogo também deve ser desenvolvido num ambiente onde haja cumprimento de normas, de regras definidas, para convergir em respeito mútuo.

A opção hoje não é pela disciplina do silêncio, mas pela disciplina do diálogo, que conscientiza e, por isso mesmo, favorece o compromisso, a cumplicidade, a vontade de acertar. Desemboca na educação libertadora, que faz do aluno o agente e o centro da aprendizagem, formando um aluno crítico, participando da transformação da sociedade.

O que causou estranheza foi a baixa porcentagem de pais que valorizaram o ensino religioso. É indispensável ensinar a ética, a moral e outros valores de sobeja importância à vida. Valorizaram a justiça, a cidadania, o compromisso social, mas relegaram a um plano menor os valores da fé, que tanto sustentaram e sustentam as civilizações humanas. A religião desenvolve no aluno os sentidos de solidariedade, de fraternidade, de justiça, que tanto faltam aos dias de hoje. São esses sentimentos que conduzem a um plano superior da existência humana, que falam de valores eternos, como o amor, a bondade, a compreensão, e que levam à paz. A religiosidade traz um aprimoramento pessoal, acarretando o aprimoramento social.

Não deveriam os pais refletir melhor sobre esse posicionamento?

Liberdade e diálogo ressaltados por eles são realmente muito importantes, mas sempre dentro de um equacionamento, de princípios a serem desenvolvidos e praticados. A organização da escola, as normas educacionais, os métodos de trabalho, devem sempre resultar da parceria de regras, no estabelecimento de uma co-realização. O trabalho individual, hoje, cede espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado, traduzido em responsabilidades mútuas. Não é mais o sucesso de um, é o sucesso de todo o grupo. Aprende-se o sentido de compromisso, o sentido de interligação, de intercâmbio, entendendo que a vitória é resultado do conjunto.

É, pois, num ambiente de mútua interação que se trabalham valores como liberdade, diálogo, justiça, tão preconizados pelos pais. Semear sem preparo, sem responsabilidade e critério é semear inutilmente, é jogar semente em solo árido, sem preparar a terra.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2006)

A EDUCAÇÃO ESPECIAL NA INCLUSÃO DO DEFICIENTE

Izabel Sadalla Grispino *

Recentemente, publiquei um artigo que revelava o resultado de uma pesquisa internacional, encomendada pelas Olimpíadas Especiais, mostrando resistência à integração de deficientes mentais, um forte apego ao preconceito.

No Brasil, as análises têm sido mais estimuladoras. As conquistas, na área da educação especial, são lentas, mas continuadas. O Censo Escolar 2003, divulgado pelo Ministério da Educação, mostrou um aumento do número de crianças, com necessidades especiais, em classes regulares, nas redes oficiais de ensino. Mostrou um acréscimo de 30,6% da chamada educação inclusiva, em relação ao Censo 2002. De cada 100 estudantes com deficiências, 29 assistem às aulas em classes comuns. Em 1998, avaliou-se pela primeira vez essa inclusão e somente 15% dos alunos com necessidades especiais freqüentavam classes regulares.

O Brasil vem avançando em direção ao direito da escolaridade das crianças deficientes. Para um reforço no cumprimento das normas legais, é importante tomar conhecimento dos seguintes procedimentos:

– A  Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, no seu artigo 4.º, inciso III, definiu como dever do Estado a garantia de atendimento especializado gratuito aos educandos “com necessidades especiais, preferencialmente, na rede regular de ensino”. Assim, segundo a LDB, a inclusão deve ser preferencialmente na rede regular de ensino. Para tanto, o educador deve receber a capacitação necessária para esse atendimento, lembrando que a política de inclusão exige um professor treinado, capacitado.

– A Lei 7.853, de 1989, obrigou o Estado a apoiar os portadores de deficiência em sua integração social. Leis e decretos definiram normas gerais e critérios básicos para o atendimento às pessoas deficientes. Criou-se, no Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Direitos  da Pessoa Portadora de Deficiência.

– Através do Decreto 3.956, de 2001, foi ratificada a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiências.

– A Câmara de Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação (Parecer 2/01) definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para educação especial e o Parecer 17/01 estendeu essas diretrizes para toda a Educação Básica.

Era preciso que se cumprisse, na prática, o que essas leis determinavam. O Censo Escolar 2003 demonstrou que a aceitação do deficiente, em classes de escolaridade formal do ensino básico, avança favoravelmente. As instituições de ensino vêm, gradativamente, conscientizando-se e propagando a inclusão social, a promoção de acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida. O professores devem trabalhá-las tendo em vista suas potencialidades, na superação de suas dificuldades.

Hoje, já é consenso na educação de que a heterogeneidade, no ambiente escolar, só traz benefícios tanto para os deficientes como para os demais alunos, desde que ela seja acompanhada, assistida, por profissionais competentes e por condições necessárias ao seu bom desenvolvimento.

Uma outra pesquisa mostra que muitas empresas começam a criar programas de inclusão social, projetos que atendam às necessidades dos deficientes. Um estudo inédito da Fundação Banco do Brasil, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, divulgou, em outubro p. passado, resultados e apontou que o repasse de um salário mínimo a portadores de deficiência pelo governo, por meio do Benefício de Prestação Continuada (BPC), cresceu 350% entre 1996 e 2001. O estudo mostrou, ainda, que o número de deficientes no País varia de acordo com escolaridade, idade e renda. O relatório Diversidade – Retratos da Deficiência no Brasil – divulgado em 21/10/2003, considerou o grau de severidade das deficiências e revelou que 14,5% da população brasileira apresentam algum tipo de limitação. Que a metade da população com mais de 60 anos sofre de algum tipo de deficiência.

A média de renda das pessoas com limitações físicas é de R$ 529,00, enquanto a de quem não as tem fica em torno de R$ 628,00. Há, também, diferenças na escolaridade: 27,61% dos deficientes não são alfabetizados e há certa concentração de deficientes no Nordeste, justamente por ser a região mais pobre. A Paraíba lidera no número de deficientes: 18,76% da população.

O estudo feito pelas Fundações Banco do Brasil e Getúlio Vargas inova por apontar possibilidades de inclusão e de aplicação de políticas sociais, vindo de encontro aos anseios dos portadores de deficiência e de suas famílias. Abordando-se reiteradamente a problemática do deficiente, desvenda-se o véu da ignorância, retira o deficiente de seu isolamento, expande-se a humanidade, apontando para uma sociedade mais justa, menos preconceituosa.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2003)

CONCLUSÕES SOBRE O RESULTADO DO ÚLTIMO ENEM

Izabel Sadalla Grispino *

Precisamos incentivar, reconhecer as boas escolas, não desanimar o ensino público.  Mas,  como  fechar os olhos diante de uma imensa rede de escolas públicas despreparadas, dotadas de fraca infra-estrutura, sem laboratórios de ciências, de informática, sem bibliotecas atualizadas, com jornais e revistas, com segurança ao deus-dará e com professores, na grande maioria, mal formados?

É preciso investir, de verdade, na classe popular, não apenas lançar discursos inflamados, em épocas de eleições. Na prática, usa-se a estratégia do tapa-buraco, dos arranjos e remendos provisórios.

Pesquisas têm mostrado que os professores da rede pública chegam a ser tão carentes quanto os seus alunos. Ganham mal, trabalham muito, não têm estímulo, nem dinheiro para investir na sua atualização, no seu aperfeiçoamento profissional. Os alunos, por sua vez, estão longe de conviver com um ambiente familiar que propicie a cultura, nem têm com quem falar sobre as coisas que acontecem ao seu redor e no mundo.

Essa falta de contacto do estudante com o conhecimento acaba por dificultar o pleno desenvolvimento de suas potencialidades, dificultar o desenvolvimento das competências e das habilidades. O mais comum é ele freqüentar a escola sem motivação por parte de sua família. É um quadro desolador que reforça a inferioridade educacional do estudante pobre e que acentua as desigualdades sociais.

Não nos causou surpresa o resultado do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), noticiando que alunos das grandes escolas particulares do País são os detentores das melhores notas. No ensino público, a média mais alta chega a 41%, no limite de que o Enem considera ruim (40%). No privado, quase atinge a excelência, com 68%, com algumas escolas conseguindo nota acima de 70%.

Os jornais estampavam a receita das escolas campeãs: bons professores e boa infra-estrutura. São professores bem informados, bem preparados, atualizados, utilizando-se de uma metodologia avançada, que leva o aluno a produzir. Os alunos dessas escolas vão às aulas motivados pelas famílias, que pensam em deixar para os filhos a educação como herança.

O Enem revelou não apenas a disparidade entre escola particular e escola pública, mas, desigualdade entre escolas públicas do País e desigualdade entre as escolas particulares. Em São Paulo, o resultado de 10 escolas públicas assemelha-se ao das escolas particulares. São escolas tidas como grupos de excelência, ligadas a universidades, centros tecnológicos ou a militares, escolas existentes também em outros Estados do País e que apresentam muito bons resultados. No ensino público, os alunos que obtiveram melhor desempenho são oriundos de escolas técnicas.

Outras conclusões do Enem são possíveis assinalar:

a) Na rede particular, a avaliação revela que vários colégios particulares, com mensalidades caras, oferecem ensino precário, tendo seus alunos obtido resultados semelhantes aos de escolas públicas, fator que revoltou muito os pais, que não viram resultado de seus sacrifícios!

b) As escolas públicas com pior desempenho são as situadas nas zonas rurais e as que oferecem ensino do antigo supletivo: alunos da Educação de Jovens e Adultos (Eja). Alunos do Eja não revelam perfil de quem quer cursar o ensino superior.

Os resultados do Enem também mostram as desigualdades entre as regiões do País. As 6 piores capitais, segundo as médias de seus alunos, estão na região Norte, das 7 melhores capitais, 6 estão nas regiões Sul e Sudeste, mostrando as disparidades regionais.

O Enem é um exame realizado pelo MEC para concluintes do ensino médio. Ele não é obrigatório e sua nota é aproveitada em vestibulares e no programa de bolsas do governo federal, o ProUni.

O Enem é elaborado segundo as novas diretrizes curriculares do ensino médio, não é dividido em disciplinas e afere habilidades e competências dos alunos. Não mede conteúdo; pede interpretação de textos, relações e leitura de gráficos.

Os resultados do Enem apresentaram uma radiografia desfavorável ao conhecimento dos alunos que terminaram o ensino médio. Fala-se em investir no ensino médio, mas de que valerá investir num ensino médio com alunos egressos de um ensino fundamental fragilizado da rede pública? Uma boa educação depende de um percurso bem feito ao longo de todo processo. Precisa de um bom alicerce e o nosso não é bom.

A má qualidade do ensino público fecha a principal via de ascensão social para estudantes de lares pobres! A nossa desigualdade educacional cria um sistema de ensino de, pelo menos, dois níveis, um beneficiando pessoas bem nascidas, projetando-as socialmente, e outro, das pessoas carentes, deixando-as no anonimato, na marginalização social.

* Supervisora de ensino aposentada.             
(Publicado em março/2006)

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A época atual tem sua atenção voltada para a sociedade. A desordem social, o alarmante desnível econômico, estão hoje, mais do que nunca, exigindo a necessidade de formar cidadãos conscientes. Uma comunidade consciente de seus direitos passa a agir na sociedade que, articulada, se mobiliza em direção à participação, à solidariedade, à inclusão. O indivíduo começa a entender que sua responsabilidade vai além do pessoal, do familiar, a ter consciência de que a sociedade não é compromisso só do governo e que todo cidadão é governo. A ter consciência de que sociedade é um organismo vivo, mutável, de desejo de realização, de auto-afirmação. A ter consciência da ajuda que necessita para se auto-realizar, criando recursos, meios, condições para isso e não, apenas, estender-lhe a mão, no sentido de filantropia, de paternalismo.

O indivíduo entende que a responsabilidade social deve se traduzir em crescimento para a cidade, em comunidades de sucesso. Entende que pode e deve agir na sociedade, dentro de seu universo, desenvolvendo o sentido de cidadania. Passa a viver no entendimento de que todos têm direitos, assim como têm deveres, igualdade de oportunidades, condenando regalias e privilégios.

O cidadão se forma desde que nasce. A criança, sentindo-se respeitada pelo adulto, tendo suas necessidades atendidas, vai adquirindo a noção de respeito e o respeito vai fazer parte de sua vida. Uma criança que vive, por exemplo, o drama de ter que se afastar da escola para trabalhar e poder comer, como vai entender democracia ou cidadania? Se gritar, apelar, não será ouvida e, não sendo ouvida, não ouvirá também, transgredirá. Essa criança que se vê anulada em seus direitos, em suas necessidades básicas, não entenderá de respeito.

Conceituar cidadania e não praticá-la é perder, para o aprendiz, o seu significado. São pelas atitudes dos adultos que as crianças passam a entender o conceito de justiça. Quando ouvidas, atendidas, vão se colocar na sociedade democraticamente, desenvolver a sociabilidade. É a experiência de vida quem vai lhe ditar a idéia de cidadania e, como reflexo dessa idéia, ela repetirá as atitudes, passando-as avante. O exemplo do adulto é fundamental. Se o adulto é respeitoso, solidário, a criança o terá como referência.

A chave da responsabilidade social está nos atos praticados pelos adultos; se esses atos passarem uma imagem favorável à prática do bem comum, do compromisso com o outro, essa imagem propagar-se-á, do mesmo modo o seu contrário. Além da ação consciente, o adulto deve aprender a ouvir, principalmente em contato com os jovens. Conversar, dialogar, formular normas conjuntamente, não impondo, mas conscientizando, para que esses jovens se sintam responsáveis por suas atitudes. O contato com o adulto determinará sua visão de mundo, seu relacionamento com a sociedade.

A escola contribui com a responsabilidade social, desenvolvendo a consciência crítica da realidade, a compreensão de que o interesse social é mais importante que o individual, a fazer o aluno ver a realização como fruto do esforço comum. Ela deve se tornar um espaço de realização, criar formas de intervenção social, despertando interesse por atividades sociais.

A adolescência é uma fase em que o jovem é idealista, tem necessidade de acreditar em alguma coisa, a fase em que quer mudar o mundo, quando abraça os ideais de liberdade e de igualdade em profundidade. É o momento de a escola canalizar essa energia para ações produtivas no seio da comunidade, montando projetos que o envolva nessas ações. O jovem na adolescência, como diz a psicologia, deixa de ser filho do casal para ser ele próprio e as instituições de ensino devem ser catalisadoras desse potencial juvenil.

Cidadania é reflexo, é vivência, cabe aos pais, aos educadores dar o exemplo no entendimento de que só existe cidadania praticando-a. Começa em casa, na escola, com a educação recebida e vai para a rua com a prática do respeito. Educar para agir com consciência todos os dias; cobrando deveres das autoridades, cuidando da cidade, respeitando as regras sociais. Assim, a criança compreenderá que nasceu para viver e não sobreviver, tendo seus direitos respeitados.

Um aspecto que fere a consciência e imprime fortemente o traço da injustiça social é o trabalho infantil. Crianças e adolescentes que trabalham freqüentam menos a escola. No passado, esse número foi maior, mas, mesmo assim, hoje ainda é grande. Há trabalhadores infantis nas áreas urbanas e rurais. Pesquisas têm mostrado que cerca de metade das crianças e adolescentes que estão trabalhando utiliza produtos químicos, máquinas e ferramentas, com riscos constantes de sofrer acidentes. Esta parcela é maior entre os trabalhadores do campo, que somam 43% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que têm alguma atividade.

Também, serviço doméstico, distância e falta de vagas são outros motivos que afastam crianças e jovens da escola. Segundo O IBGE, o nível de escolaridade, entre pessoas de 5 a 17 anos, cresce de acordo com a faixa do rendimento familiar. Em famílias que ganham até ½ salário mínimo, esta faixa ficou em 83,1%. Já em famílias com rendimento até 10 salários mínimos ou mais, o nível de escolaridade sobe para 97,9%.

A má distribuição de renda responde pela sofrida desigualdade social. Crianças que deveriam estar na escola ou brincando arcam, prematuramente, com a responsabilidade de sustentar-se e ajudar no sustento da família.

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos, a menos que seja na condição de aprendiz. São aprendizes os adolescentes que recebem formação técnico-profissional, que deve ser dada sem prejudicar o ensino regular. Os maiores de 14 anos que trabalham têm assegurado o seu estudo. Os aprendizes maiores de 14 anos devem receber direitos trabalhistas como os adultos. Nenhuma criança ou adolescente pode trabalhar à noite, nem realizar atividades perigosas ou em ambientes que sejam prejudiciais ao seu desenvolvimento. O Estatuto também garante o direito à educação: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, o direito de ser respeitado pelos educadores, o acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.

A realidade social é pesada, profundamente desigual. Entre nós, um terço da população vive na miséria. O pressuposto da cidadania é a igualdade de direitos e diante de tamanha desigualdade, para conquistá-la, haverá ainda muitas léguas a percorrer, muita estrada pela frente. Contudo, estaremos dando uma grande contribuição se educarmos a criança e o jovem dentro dos princípios de justiça, de ética, de solidariedade, se os ensinarmos a enfronhar-se nas causas sociais, aprendendo, na prática, o sentido de democracia e de cidadania.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2003)

A COMPETITIVIDADE DOS MERCADOS GLOBAIS

Izabel Sadalla Grispino *

A sociedade, líderes empresariais, começam a se preocupar seriamente com a educação no Brasil. Buscam se comprometer com ações concretas para melhorar o ensino, especialmente em língua materna e matemática. Procuram criar para o problema da educação um envolvimento nacional, num desafio extraordinário.

ATENDIMENTO À CRIANÇA DEFICIENTE

Izabel Sadalla Grispino *

Nas semanas anteriores abordei o desafio das escolas no trato da criança hiperativa e do aluno superdotado. Junto a esse desafio, um outro problema vem se revelando na inclusão da criança com deficiência.

Os pais quase sempre perambulam de uma escola a outra, buscando uma que acolha, com carinho e interesse a inclusão de crianças portadoras de deficiências, necessitando de uma educação especial..

A grande maioria das escolas rejeita essa criança, argumentando que não tem espaço, nem condições apropriadas para o seu atendimento. Passa por cima da Constituição Brasileira e de diversas leis que garantem a universalização do ensino em detrimento da discriminação.

Na verdade, essas escolas não estão preparadas, nem física, nem pedagogicamente, para entender o aluno com deficiência e ajudar no seu desenvolvimento cognitivo, motor ou comportamental. Forçar a permanência desse aluno, que precisa de diferentes métodos de aprendizagem, de estímulo a um ensino que utiliza de formas diferenciadas, numa escola despreparada, desmotivada, só irá contribuir para o seu desalento.

O correto seria toda escola regular, particular ou pública, estar habilitada à inclusão, formando seus educadores, na base da conscientização de que toda criança tem capacidade de aprender. O que precisa é respeitar o tempo cognitivo da criança, ensinar com entusiasmo, acreditar no seu potencial.

Hoje se sabe que para uma criança deficiente é importante conviver com outras crianças. Essa convivência é proveitosa para todas elas, deficientes ou não. Para a criança com deficiência, o convívio estimula o seu desenvolvimento e cria parâmetros de comportamento social. Para as outras é uma forma de desenvolver o companheirismo e derrubar preconceitos advindos da falta de informação. No decorrer da vida, as crianças que conviverem com as diferenças na escola, aprenderam, desde cedo, a olhar o deficiente com mais compreensão, com mais senso de realidade.

Quanto à escola, os pais nem sempre sabem como proceder: colocar o filho em escolas regulares, mesmo havendo discriminação, ausência de metodologia apropriada, ou coloca-lo em escolas especiais onde será atendido adequadamente, mas prejudicado pelo convívio social? O bom seria que escolas regulares buscassem a formação de seu professores, tendo as escolas especiais como coadjuvantes na orientação do ensino. Bom seria que as escolas regulares incluíssem em seus projetos pedagógicos temas relacionados à inclusão, metodologias que propiciassem a observação das dificuldades, de desenvolvimento das potencialidades, dentro do ritmo próprio da criança com deficiência.

Há municípios que criam programas de inclusão, fornecendo embasamento pedagógico a todas as unidades escolares. Programas em que professores habilitados itinerantes dão apoio à escola, programas que oferecem salas de apoio e acompanhamento ao aluno. É um atendimento complementar realizado fora do horário normal da escola.

Empunhar a bandeira da inclusão leva ao amor a essas crianças e ao estímulo à sua aprendizagem.

*Supervisora de ensino aposentada.           
(Publicado em abril/2007)

CONSCIÊNCIA DA REALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Voltamos à análise do sistema educacional brasileiro. Análise de ângulos diferentes, por vezes repetitiva, porém necessária como alerta. A radiografia do ensino básico mostra um sistema ruim, pedindo socorro, com políticas direcionadas à educação.

O grande desafio é entender o que se passa com a qualidade do ensino brasileiro e dar prioridade absoluta à educação básica. Não se constrói  uma casa pelo teto. São as estacas enfincadas no chão que lhe dão estrutura, sustentação.

Todas as vezes que o Brasil participa de avaliações comparativas internacionais, nossos estudantes ocupam, sistematicamente, as últimas colocações, em língua, matemática e ciência, sem falar dos péssimos resultados obtidos em exames internos, feitos pelo Saeb, hoje Neb, pela Prova Brasil, pelo Enem e outros. “O ensino básico cresceu de modo espetacular no Brasil, mas a qualidade dele nos põe na rabeira do mundo”, diz o virtuoso Cláudio de Moura e Castro.

É preciso desenvolver a consciência nacional de que nosso sistema de ensino é ruim, olhar de frente, encarar a situação, tentar consertá-la. Enfrentar a diversidade cultural que toma conta da escola. Ensinar o que o aluno pode aprender e não o que o professor gostaria de ensinar. Abraçar uma pedagogia que alcance o aluno fraco e não descuide do aluno forte. Uma pedagogia concreta, real, distante do abstracionismo, aplicada à sala de aula. A tecnologia ajuda, mas não resolve, não substitui a boa aula.

A sala de aula não vai bem, o professor não aprendeu a ensinar. O aluno aprende pouco, perde muito tempo ou decorando ou copiando do quadro negro, em aula expositiva, ao invés de aprender a pensar, a pesquisar, a chegar às próprias conclusões.

A associação entre a capacidade do professor e a aprendizagem do aluno ainda não impregnou a classe docente. Classe, aliás, sofrida,  padecendo de baixa estima e, também, de severas lacunas na formação profissional. Como conseqüência, surge a falta de qualidade, incidindo sobre todos os graus de ensino. Essa falta prejudica a qualidade da mão-de-obra, ditando para o futuro uma queda mais lenta da desigualdade social.

É a escola que detém a manutenção ou a diminuição da desigualdade social. Um bom ensino repercute em emprego, em melhores condições de vida, sustentando a correlação entre educação e desenvolvimento. Um mal ensino só reproduz essas desigualdades no País.

Nesse quadro de valores, como pode o Brasil formar o capital humano necessário ao crescimento econômico, do qual dependem a redução de pobreza e a inclusão social das camadas menos favorecidas da população?

A qualidade de ensino advém de professores que dominam o conteúdo e aprenderam a dar aula. De currículos claros, explícitos, contextualizados. Do uso de bons livros didáticos, que acompanham o professor na sala de aula, da avaliação contínua, da recuperação paralela e da exigência de disciplina em aula.

O interesse dos pais pelo estudo dos filhos, um bom diretor, são fatores que corroboram com a qualidade de ensino. Costuma-se dizer que a escola tem a cara do diretor.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em novembro/2006)

LOUVOR AO 15 DE OUTUBRO – DIA DO PROFESSOR

Izabel Sadalla Grispino *

Façamos, hoje, uma pausa para meditação. Pensemos, com carinho e consciência, na figura do professor, do “magister”, na força de alavanca social de que é portador. Deus é do universo o grande arquiteto e o professor é o seu grande aliado, aquele que ajuda a manter e a conservar a sua obra humana e cósmica. Não importa em que sociedade vivemos, em que cultura nos inserimos, em que época da vida nos reportamos, é ele, o professor, o insubstituível protagonista de todo o desenrolar das atividades humanas, a mola-mestra do desenvolvimento sustentável do planeta. É para ele, para a sua educação, que se volta a esperança de vida de nossa mãe-terra, a esperança da quebra do desnível social, da afirmação da ciência, em sua evolução.

Homenageamos, hoje, a todos que se dispõem a ensinar, não só o professor institucional, mas, também, o informal, a todos que passam o seu saber para as novas gerações, colaborando com o crescimento do outro, com a construção de um mundo melhor.

Embora o papel do professor, nessa nova sociedade tecnológica, tenha mudado, ele continua sendo o elemento indispensável para a promoção humana e social. Durante muito tempo, o professor mobilizou um saber disciplinar – apoiado nas disciplinas do currículo – era o transmissor do conhecimento científico. A escola era o lugar privilegiado do saber, a instituição responsável pela transmissão da memória social e cultural e o professor, a principal fonte do conhecimento. Esse conhecimento, centralizado na sua pessoa, colocava-o como um capital profissional, um capital de saberes. Hoje, ele perdeu a vanguarda do conhecimento – detêm-no a mídia, o computador, a internet.

A escola não é mais o lugar propriamente da informação, mas o lugar do que fazer da informação, e o professor, a pessoa capaz de gerenciar toda uma sociedade de conhecimento. A escola vem assumindo, progressivamente, um papel mais educativo que informativo. Associa-se, hoje, mais que ontem, à função do professor, a do educador. Se ele  não é mais um “capital de saberes”, é, contudo, um “capital de formação”, função tão importante quanto. Ele é o carro-chefe do avanço tecnológico.

A escola deve vir antes da tecnologia. Ela tem o encargo de formar o aluno, de dar-lhe as armas psicológicas, morais, intelectuais, necessárias para o recebimento das tecnologias. No contexto tecnológico, o que vale mesmo é a boa formação, o conjunto desenvolvido das capacidades do indivíduo, tanto nos aspectos cognitivos, como nos atitudinais e procedimentais. Formar o indivíduo para a criticidade é o grande alvo. Nesses aspectos, a pessoa do professor é imprescindível. Ele foi, é e sempre será o fulcro do processo educativo.

Nessa linha, avança-se para o conceito de capital humano, conforme a ciência da ergonomia, quando fala em investimentos, não só de equipamentos, de tecnologia, mas, também, e, sobretudo, da pessoa humana, da sua qualificação, melhorando sua atuação, suas condições de trabalho, sua qualidade de vida.

Que a ergonomia ganhe a educação, que nela faça valer seus princípios, que sociedade e governo encarem o professor como real capital humano que é e não um faz-de-conta. Só, então, poderemos alimentar a sonhada esperança de que a boa educação resplenderá, seguida do sentido de igualdade de que fala a nossa Constituição.

Ao sofrido professor, ao monumento que denominamos magistério, em meus versos, a expressão de reconhecimento e de amor.

MAGISTÉRIO

*Izabel Sadalla Grispino

Magistério, luz da civilização,                                       Magistério é reinado das profissões   
Deusa Minerva de alta sabedoria,                               Mestre, médico, engenheiro, padeiro,
Eu te proclamo em sentida profusão,                        Cada um, dele se vale com distinções,
Te reverencio em nome da maioria.                           Para formar, com luta, um mundo ordeiro.

És a esperança da vida igualitária,                            Ele é o grande aliado do Criador,
A niveladora da desigualdade,                                    Ultrapassa a nossa dimensão humana,
A força que agrega, nunca solitária,                         Beira as raias do divino Inventor,
Sustento da ciência em sua prosperidade.             Guarda o ambiente, impede ação desumana.

Espalhas na terra o senso humanitário,                  Só ele nos livra do mundo escuro,
Carregas, no ventre, o ideal da humanidade,         Só ele é capaz do homem libertar,
Exaltas o viver do homem solidário,                         Só ele nos arremessa pro futuro,
Não te descuidas da religiosidade.                           Só ele é capaz do universo salvar.

Arrancas o ser das trevas da ignorância,               Magistério é resplendor do horizonte,
Erradicas do solo o analfabetismo,                          Sabedoria da fé e da razão,
Educas o adulto, o jovem e a criança,                      Edifício e pilar da saga gigante,
Propiciando ao aprendiz sendas do ecletismo.     Estrada do sol, nobre constituição!

Desces da grandiosidade do teu trono,                  O professor é o seu grande apóstolo,
Freqüentas palacetes, tristes cabanas,                 Tem no ensino o seu evangelho,
Embora sendo nosso grande patrono,                   Magistério é ação, não é rótulo,
Humildemente puxas as caravanas.                       É o sacerdote do jovem, do velho

Gloriemos o mestre, hoje tão esquecido,
Já viveu tempos áureos, lindo troféu,
Agora, com seu salário empobrecido,
Tem o amor de quem lhe tira o chapéu!


* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em outubro/2000)

 

MAGISTÉRIO

Izabel Sadalla Grispino

Magistério, luz da civilização,                                      Magistério é reinado das profissões          

Deusa Minerva de alta sabedoria,                              Mestre, médico, engenheiro, padeiro,

Eu te proclamo em sentida profusão,                         Cada um, dele se vale com distinções,

Te reverencio em nome da maioria.                           Para formar, com luta, um mundo ordeiro.

És a esperança da vida igualitária,                             Ele é o grande aliado do Criador,

A niveladora da desigualdade,                                    Ultrapassa a nossa dimensão humana,

A força que agrega, nunca solitária,                          Beira as raias do divino Inventor,

Sustento da ciência em sua prosperidade.                  Guarda o ambiente, impede ação desumana.

Espalhas na terra o senso humanitário,                     Só ele nos livra do mundo escuro,

Carregas, no ventre, o ideal da humanidade,            Só ele é capaz do homem libertar,

Exaltas o viver do homem solidário,                           Só ele nos arremessa pro futuro,

Não te descuidas da religiosidade.                              Só ele é capaz do universo salvar.

Arrancas o ser das trevas da ignorância,                   Magistério é resplendor do horizonte,

Erradicas do solo o analfabetismo,                             Sabedoria da fé e da razão,

Educas o adulto, o jovem e a criança,                        Edifício e pilar da saga gigante,

Propiciando ao aprendiz sendas do ecletismo.           Estrada do sol, nobre constituição!

Desces da grandiosidade do teu trono,                       O professor é o seu grande apóstolo,

Freqüentas palacetes, tristes cabanas,                        Tem no ensino o seu evangelho,

Embora sendo nosso grande patrono,                                   Magistério é ação, não é rótulo,

Humildemente puxas as caravanas. É o sacerdote do jovem, do velho

Gloriemos o mestre, hoje tão esquecido,

Já viveu tempos áureos, lindo troféu,

Agora, com seu salário empobrecido,

Tem o amor de quem lhe tira o chapéu!

EXAME NACIONAL DE CERTIFICAÇÃO DE PROFESSORES

Izabel Sadalla Grispino *

O Ministério da Educação e Cultura (MEC), implementando a cultura de avaliação, lança a proposição, que, se confirmada e estendida a todo magistério, poderá reverter em real benefício à educação, no sentido de trazer a tão desejada melhoria da qualidade do ensino. Trata-se do Exame Nacional de Certificação de Professores da Educação Básica, no qual, em calendário já determinado, janeiro e fevereiro de 2004, os professores da 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental serão submetidos a teste de avaliação de seu desempenho profissional.

O Ministério, por essa linha de conduta, abraça um procedimento concreto, capaz de atingir uma suculenta raiz do fracasso do ensino público, qual seja, a precária formação docente. Pelo encaminhamento desse Exame, conforme especifico abaixo, o professor será estimulado a uma atualização e reforço do conhecimento, numa seqüência que abarga um caráter permanente da educação. O MEC fala em uma rede de formação continuada, com apoio de universidades, para atingir o aperfeiçoamento profissional.

A participação dos professores será voluntária e os que participarem e forem aprovados receberão do Ministério da Educação uma bolsa mensal no valor de R$ 100,00. Segundo o anunciado, a partir de 2005, todos os formandos de cursos de licenciatura deverão passar pelo Exame Nacional de Certificação para a obtenção do diploma. Renata Braga Santos, chefe do gabinete da Secretaria do Ensino Fundamental do MEC, pronunciou-se dizendo que “todos os aprovados terão um documento do Estado brasileiro atestando sua qualidade diferenciada”.

O abono mensal de R$ 100,00, embora de pouca monta, não deixa de ser um atrativo na adesão ao Exame para um profissional que ganha pouco,  e a estimativa inicial do MEC é que 40% dos docentes, cerca de 500 mil  professores, compareçam à primeira prova. A  aprovação  do  professor  ao  teste  dar-lhe-á  gabarito, auto-estima, atributos perdidos nos últimos anos. A proposta do MEC é que o certificado obtido nesse exame tenha validade por 5 anos e a nota seja utilizada como critério em processos seletivos e de promoção no magistério.

A adesão do magistério ao Exame é um grande passo no caminho da escola renovada, capitaneada por profissionais qualificados. É uma pedra enfincada no alicerce do saber, o único verdadeiramente capaz de formar um aluno competente, premiá-lo com um ensino de qualidade. Esse processo traz esperança de que o penoso resultado das pesquisas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), referente ao ano 2001, venha, a médio e longo prazo, trazer alento ao falido sistema educacional vigente. Essas pesquisas mostraram que cerca de 1 milhão de alunos (980 mil) da 4.ª série não sabe ler e mais de 1,6 milhão são apenas capazes de ler frases simples. Os alunos da 4.ª série, na grande maioria, não adquiriram competências básicas de leitura.

O Exame Nacional de Certificação de Professores da Educação Básica, se acompanhado de outros reforços educacionais, principalmente de um significativo aumento de salário dos professores, da diminuição de alunos por classe, poderá trazer de volta o nível das antigas escolas públicas dos idos anos 30 a 60. O número elevado de alunos em sala de aula prejudica, sobremaneira, a atuação didática do docente, dificulta a interação professor/aluno, centro irradiador de todo processo de ensino-aprendizagem.

A iniciativa do Ministério da Educação (MEC) de se implantar formas de avaliação do trabalho docente, reforçando a cultura da avaliação, mostra que o ponto mais nevrálgico da educação brasileira está sendo tocado. O analfabetismo é um dos nossos problemas sérios, quer o absoluto, quer o funcional. O MEC divulgou, recentemente, que a cada ano cerca de 1 milhão de pessoas é alfabetizada sem nenhuma participação do poder público, com o esforço de entidades não-governamentais, igrejas e instituições, com eficiência de difícil mensuração.

Por sua vez, o ministro Cristovam Buarque entregou ao Senado um resumo dos dados sobre a situação na educação básica do País. Mais de 15 milhões de brasileiros com mais de 15 anos são analfabetos; 2,2 milhões de jovens entre 14 e 17 anos estão fora da escola; 57% das crianças com 10 anos não sabem ler e 34% lêem, mas não conseguem interpretar o texto; 52% dos alunos da 4.ª série não têm noções elementares de matemática; 30% dos alunos têm idade superior à adequada para a série que cursam; 41% dos alunos abandonam a escola.

A este quadro preocupante, acresce-se o resultado do campeonato mundial da ciência em que o Brasil aparece colocado na segunda divisão, afastando-se da divisão especial onde estão, entre outros, Estados Unidos, Alemanha, Grã-Bretanha e Coréia do Sul. O pesquisador Antonio Carlos Martins de Camargo, professor titular de farmacologia da USP, desabafou, dizendo: “Não temos uma cultura de que conhecimento gera riqueza. Aqui, conhecimento só gera conhecimento”.

Ainda temos muito o que fazer para mudar a mentalidade reinante, na compreensão de que não há crescimento sem investir na educação, no aperfeiçoamento da ciência, da tecnologia.

Vamos torcer para que o governo consiga erradicar o analfabetismo, implantar a “escola ideal”, conforme palavras do ministro, escola onde o aluno receba um ensino de qualidade, através de um profissional competente, atualizado. A formação do professor tem estreita relação com o aproveitamento escolar do aluno.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em julho/2003)

RESERVA DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

Já, há algum tempo, escrevi a respeito da reserva de 50% das vagas nas universidades públicas para alunos oriundos do ensino médio das escolas oficiais. Na ocasião, o projeto tramitava na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, é a vez do Estado de São Paulo passar pela mesma situação.

Tramita, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um projeto apresentado pelo deputado Celso Tanaui, do PTB, que destina 50% das vagas das universidades do Estado a estudantes que tenham cursado o ensino médio em escola pública.

O ingresso à universidade não seria, pois, por mérito acadêmico, mas por destinação prévia de vagas, o que viria acarretar perda da qualidade de ensino da universidade. A argumentação do deputado é de que o acesso às universidades públicas é privilégio dos ricos e que os pobres, os que mais precisam, só conseguem entrar em universidades pagas. Realmente, é uma verdade e configura um contra-senso, um desequilíbrio da balança social. Acontece que os ricos freqüentam escolas particulares de boa qualidade, tornam-se melhores preparados, melhores capacitados e competem com vantagem, conseguindo melhores posições em tudo.

Mas, será a destinação pura e simples de vagas, sem o seu principal componente, a boa formação, o caminho para se consertar essa injustiça? As diferenças educacionais estariam resolvidas pela aprovação de um decreto? Convenhamos ser esse um pensamento equivocado, pois o processo é bem mais amplo, bem mais complexo, envolvendo mudanças estruturais de base, significativas.

A reversão do quadro acima descrito não é tão simples assim. É preciso, antes, melhorar o estudo do pobre, dar-lhe armas intelectuais para enfrentar, em par de igualdade, a concorrência com o rico. Investir maciçamente na escola pública é a saída correta para esse impasse. Aparelhá-la, instrumentalizá-la, reciclar os seus professores, dotá-los de competência, nivelando o ensino por cima.

A reserva de vagas é uma farsa, só camufla a situação e trabalha contra o próprio aluno pobre, que continuará defasado no conhecimento e marginalizado na sociedade, por falta de formação adequada. Essa reserva de vagas levará a um desnível do ensino superior, a um sucateamento, como já aconteceu com a educação básica pública, pois a tendência é baixar o nível, para não excluir os menos preparados.

Abriram-se vagas, no ensino fundamental, para todos, abargando alunos das mais diferentes camadas sociais, mas não foram dadas condições efetivas de um bom trabalho pedagógico. Não se preparou o professorado, que se vê meio perdido a tanta inovação, não se investiu num ensino de qualidade. Hoje, o aluno sai da escola, com algumas exceções, semi-analfabeto. A universalização da oferta de vagas não foi acompanhada da universalização da oferta de educação de qualidade para todos. Deixou-se inclusive de priorizar a educação infantil.

Garantir vagas, ao aluno pobre, nas universidades públicas,  de boa qualidade, requer estender essa boa qualidade a toda a educação básica. Requer que as metas quantitativas sejam juntadas às qualitativas. É um processo que demanda tempo, mas, quando chegar lá, será com consistência, com validade e sem discriminação. Esse é o trajeto a se percorrer para se garantir o acesso às universidades públicas a quem não tem recursos para pagar uma instituição particular.

Com a reserva de vagas, a USP abrigará dois segmentos de alunos, de formação e de capacitação, bem diferentes, o que comprometerá o bom ensino. Terá dois grupos de ingressantes, com perfis muito distintos um do outro. “Um deles não conseguirá acompanhar as disciplinas previstas para o 1.º ano do curso, já que poderá haver aprovados com nota zero em matérias fundamentais”, esclarece Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, e acrescenta: “O preparo de um possível candidato beneficiado não estaria dentro dos padrões desejáveis para uma universidade de excelência como a USP”.

A médio prazo esse ensino sofrerá um forte impacto negativo, refletindo-se na graduação, com repercussão na pós-graduação e na pesquisa. Como ficará o conhecimento científico? Como acelerar nosso desenvolvimento tecnológico? Seremos os dependentes, cada vez mais acentuados, da tecnologia importada?

Pelo Índice de Avanço Tecnológico das Nações Unidas, o Brasil que ocupa o 43.º lugar, atrás da Tailândia, da Argentina, da Costa Rica e do México, ficará mais abaixo ainda!

É preciso olhar para mais longe, desapegar-se do aqui, agora. A tecnologia avançada surge do conhecimento das pessoas, dos profissionais em ação. O aluno pobre, defasado no conhecimento, não terá seu problema resolvido por uma reserva de vagas. Ele, marginalizado, marginalizará o conhecimento tecnológico, prejudicando o nível de excelência que as universidades públicas vêm mantendo. Por esse processo de facilitação, estaremos arrastando a pobreza científica e tecnológica do País.

O deputado Celso Tanaui, ao ser questionado sobre seu projeto, respondeu: “Inteligência não é atributo exclusivo dos ricos”. O desavisado deputado misturou alhos com bugalhos. Inteligência todos têm, a diferença está no encaminhamento dessa inteligência, na assistência, no trato psico-pedagógico de seu desenvolvimento, que é o que, justamente, falta ao aluno pobre na fase anterior ao ingresso do nível superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

O ENSINO RELIGIOSO

Izabel Sadalla Grispino *

O momento conturbado, desencontrado, violento em que vive a sociedade, está referendando o retorno ao ensino religioso nas escolas, compreendido como reflexão sobre o mal, sobre a ética, valores e princípios de cidadania, sobre a relação do homem com Deus, sobre a valorização da vida.

O Conselho Estadual de Educação, pela deliberação CEE-16, de 27 de julho de 2001, regulamentou as aulas de religião, no ensino fundamental, das escolas estaduais de São Paulo, com seu início a partir de 2002. É um ensino religioso não confessional. Contudo, prevê aulas extracurriculares de religião confessional, dadas por voluntários das diferentes entidades religiosas, a partir da opção da família do aluno.

Segundo a Secretaria Estadual da Educação, professores de 1.ª a 4.ª série e docentes de história, filosofia e ciências sociais serão capacitados para essas aulas. Nas 1.ªs séries do ensino fundamental, a religião fará parte do conteúdo geral. Só na 7.ª e 8.ª séries, haverá uma aula específica por semana. Contudo, seu ensino iniciou-se com as 8.ªs séries.

Este ensino abrangerá a história das religiões, sua importância nas culturas dos povos, respeitando o pluralismo cultural e religioso, estimulando a prática do diálogo, levando a uma convivência de tolerância e de compreensão.

A Constituição brasileira de 1988, reconhecendo a importância de religião na vida das pessoas, estabelece, no parágrafo 1.º do artigo 210, a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.

A Lei n.º 9.475, de 1997, acrescentou: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurando o respeito à diversidade cultural, religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”.

Todos só têm a ganhar com a inclusão do ensino religioso no currículo escolar. Ganha o aluno, a família, a sociedade, o mundo, porque esse ensino é aquele que alcança a alma, que orienta à prática dos valores morais e espirituais, que expande o amor, com vistas à solidariedade, ao compromisso ético, à compreensão do homem e ao autoconhecimento.

A sociedade, marcada por desigualdades de condições referentes a bens essenciais, a juventude desassistida, buscando sentido para a própria vida, encontrarão, nos projetos educacionais, que visam o bem comum, que visam a conscientização da responsabilidade pessoal e social, amparo e vôos de esperança.

O ensino religioso passará a ter orientação de especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para o ano de 2003, as escolas contarão com livros didáticos e vídeos para serem usados em salas de aula, elaborados por professores e pesquisadores da Unicamp. A Unicamp programa, também, realizar cursos de capacitação e acompanhamento pedagógico aos professores, promovendo encontros com assistentes técnicos, pedagógicos e supervisores de ensino.

As orientações apoiam-se na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que estabelece um ensino supraconfessional, quando trata todas as religiões da mesma forma, distanciando-se do campo doutrinário. A visão pessoal do professor não deve contar e sim a visão multirreligiosa. Em muitos Estados, criam-se conselhos ecumênicos para reger o ensino, evitando doutrinas religiosas, das várias denominações.

O objetivo maior desse ensino é abordar valores universais. O artigo 33 da LDB, alterado em 1997, diz que o ensino religioso deve ter um conteúdo de caráter universal, sem privilegiar nenhuma religião. Os conteúdos das disciplinas devem promover o entendimento e a vivência dos valores universais, éticos, morais, religiosos e de cidadania.

Segundo informes, o projeto da Unicamp é fiel a esta orientação, não se resvalando para “chavões moralistas ou formação doutrinária”. Esse ensino deve passar as histórias das religiões, deixar entrever elementos semelhantes entre elas, numa análise enriquecedora, porém, imparcial. Os alunos vão percebendo as diversas convicções, as diferenças entre elas, alargando a compreensão da própria crença. Aprendem a respeitar e a valorizar as outras religiões, entendendo que, pela convicção, para cada pessoa a sua religião é a correta. O importante é fortalecer a alma, melhorar a formação do ser humano e ensinar a convivência pacífica. O importante é o aperfeiçoamento pessoal levando ao aperfeiçoamento social. É compreender que os novos tempos não surgem na virada dos séculos, dos milênios, mas no coração que se converte, que muda de rumo e descobre que ele e o próximo têm destino comum, morada comum, vivendo num mundo divino. A procura incessante do homem por Deus sinaliza a busca de um sentido maior para a existência.

A dimensão religiosa, no ser humano, é surpreendente, percorre todos os ângulos da alma, forma unidade no bem, juntando a moral, a justiça, o amor. O brasileiro, de índole religiosa, baterá às portas do reino da paz e espalhará, entre os homens, a virtuosa espiritualidade, com vistas à reversão dessa sociedade violenta.

Que a escola saiba como assentar esse ensino, no respeito à liberdade religiosa de cada estudante, extraindo das religiões sua essência maior, seu traço de união, que é Deus, e os seus ensinamentos. Ensinamentos que virão a ser, assim o esperamos, o alicerce de toda sociedade, eticamente constituída.

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

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Izabel Sadalla Grispino *

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