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Artigos Educacionais

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AO JORNAL “TRIBUNA IMPRESSA”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “Tribuna Impressa”, deste valioso instrumento de comunicação que Araraquara aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, venho, há cerca de dois meses, publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporciona-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade araraquarense, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Estou me propondo, entre outros, a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional do ensino vigente.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Já tive a oportunidade de passar alguns conceitos, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida, a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “Tribuna Impressa” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e clareie a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Araraquara, já vem se tornando habitual, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “Tribuna Impressa”, nas pessoas de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população.  O jornal “Tribuna Impressa” cresce com Araraquara, coloca-se na vanguarda jornalística. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente, que vem se tornando marca consagrada. Pessoas que lutam por ideais salvaguardam a humanidade. Onde há uma vontade, há um caminho. Parabéns!

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Araraquara. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos.

A todos vocês, queridos leitores,/ Que esse dois mil e um lhes seja risonho,/ Caminhos abertos, muitos amores,/ Que se realize seu mais lindo sonho.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em dezembro/2000)

O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DO BEBÊ

Izabel Sadalla Grispino *

Hoje, há comprovação científica dos benefícios advindos dos carinhos espontâneos feitos pelas mães, ao cuidarem de seus bebês. Através de balbucios, caretas, brincadeirinhas, ruídos com chocalhos, as mães estimulam sensações com toques, ajudam a criança a explorar o espaço. Tudo feito de maneira lúdica, de mera distração.

A medicina neurológica, por instrumentos sofisticados, consegue detectar movimentos cerebrais mínimos e vem demonstrando que esses gestos maternos trazem efeitos, que vão muito além do lúdico. Na fase dos 0 a 3 anos, são considerados fundamentais e influenciam a vida toda do bebê. É nesse período que o cérebro desenvolve os sentidos, a linguagem, os movimentos, as emoções.

Essas descobertas científicas vêm reforçar comportamentos praticados naturalmente. As creches mais evoluídas mudaram, a partir de então, seus métodos de atendimento, transformando-os em atividades mais científicas que intuitivas. É uma nova visão que não diz respeito à escolarização precoce, mas à estimulação do cérebro. Desde o útero materno, os neurônios do bebê fazem contatos, transmitem informações entre eles, nas chamadas sinapses. Ao nascer, a maioria das conexões fica à espera de estímulos que darão continuidade a essas sinapses. É como um instrumento musical, pronto para produzir som, esperando que alguém o toque, surgindo a música.

Sem esses estímulos, muitas das conexões se perdem e dificilmente são recuperadas. As pesquisas revelaram que animais, privados de receber luz nos primeiros meses de vida, podem perder a visão para sempre. Considera-se que com os bebês haja o mesmo risco.

Os neurologistas explicam que, nos primeiros 3 anos de vida, quanto mais estímulo, mais e melhores conexões serão escolhidas. As que não são usadas sofrem um processo de regressão.

É preciso que fique claro ao educador que essa atitude não significa encher a criança de atividades, ensinar matemática, música, línguas, antes de completar 3 anos. Esse tipo de conhecimento não desperta nenhum interesse na criança pequena e não favorece seu desenvolvimento.

A professora Marieta Nicolau, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), orienta: “Não tem nada mais saudável para a criança do que brincar. É assim que ela aprende as palavras, faz comparações. Os cuidados rotineiros, como trocar a fralda ou dar banho, não podem ser automáticos. É importante conversar sempre com o bebê, mesmo que ele não entenda o que está sendo dito. Ele capta a sonoridade e se sente querido, porque tem a atenção do outro.”

Em escolas de educação infantil que adotam esse processo renovado, bebês convivem com crianças de 5 anos, ouvem música, histórias, brincam juntos. Ficam no berço só enquanto dormem. Aquários, salas temáticas, fantasias, ajudam nas atividades. As crianças de 0 a 3 anos divertem-se com as estimulações e aprendem limites, cuidam de si próprias, convivem socialmente, em um ambiente que nada se parece com a sala de aula. A criança fica mais ativa, mais comunicativa na convivência com outras crianças. As creches perdem, gradativamente, seu caráter assistencialista, colocando ao lado da necessária assistência, como trocar fralda, dar banho, comida, levar o bebê para dormir, a preocupação com a correta estimulação, propiciando a esta criança, amanhã, uma melhor escolaridade, uma melhor aprendizagem.

Quanto mais estímulo receber a criança, melhor. A ciência nos mostra que o cérebro humano, em seu desenvolvimento, passa por etapas. Antes do nascimento, os cerca de 100 bilhões de neurônios fazem a maioria das conexões, chamadas sinapses. Depois do nascimento, os estímulos recebidos  levam  o  cérebro  a  selecionar  as conexões que vão permanecer. Depois dos 3 anos de idade, o sistema nervoso entra no processo de maturação. Em um cérebro já amadurecido, novas conexões são muito mais difíceis.

O processo de valorização das atitudes, em relação à criança, ainda é muito recente. O desenvolvimento do bebê ainda é desconhecido por grande parte dos educadores. Foi só na metade do século XX que a pedagogia começou a voltar-se mais para a educação da criança pequena. Até pouco tempo, acreditava-se que qualquer pessoa podia cuidar da criança, havendo, inclusive, uma desvalorização da profissão e não se exigia do professor a formação correta. A exigência atual é de que os professores tenham, pelo menos, o ensino médio. Mas, a partir de 2007, segundo reza a LDB, todos devem ter concluído o ensino superior para serem admitidos em creches.

O professor de educação infantil precisa conhecer bem o desenvolvimento da criança e ter uma boa formação geral, porque o bebê aprende, também, pelo processo imitativo, o que quer dizer: se o adulto, que está com ele, fala errado, a criança vai falar errado também. A boa formação profissional influi diretamente na boa formação da criança.

No ano de 2003, as creches públicas de São Paulo sairão da responsabilidade da Secretaria de Assistência Social para integrar a Secretaria da Educação, conforme exige a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) desde 1997.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

CAMINHADA TRANSCENDENTAL DA CIÊNCIA E DA FÉ

Izabel Sadalla Grispino *

Ao longo da existência, foram constantes os confrontos entre fé e razão. A dualidade sempre existiu, entretanto, durante um bom período, o mundo ocidental permaneceu como que mergulhado num ambiente ditado pelo materialismo dialético, pregado pelos marxistas, e as teorias, sobre a origem e a natureza das coisas e do universo, ficaram, por assim dizer, submersas, especialmente se abordassem perspectivas transcendentais, com a idéia de Deus.

A Bíblia era deixada de lado, com sua teoria “criacionista”, que põe Deus na origem das coisas, do universo, em que tudo teria sido criado por Deus. Parecia que a tese defendida por Charles Darwin, sobre a evolução, se permanecia como definitiva, na qual a vida seria o resultado de uma combinação casual em que coincidem o instinto de perpetuação e reprodução das espécies, as suas características peculiares e as mutações genéticas, criando, ao longo dos anos, o perfil de todos os seres viventes. Mas, não se conhece, contudo, uma palavra de Darwin, que negasse a existência de Deus. Hoje, a antiga discussão volta a circular, fortemente, nos meios acadêmicos. De um lado, a convicção da existência de Deus ou a sua admissão; de outro, a dúvida de que exista uma inteligência superior governando o universo.

Mais cedo ou mais tarde, o homem acaba sentindo a necessidade de abrir diálogo com o infinito, de questionar o significado maior da vida, de refletir sobre as questões transcendentais que emergem de nossa finitude, de indivíduos destinados à morte. Quem somos nós? Como nos originamos? Por que nascemos? Para que vivemos? Para onde iremos? São questões que inquietam a ciência e que encontram respostas nas verdades da fé, reveladas por Cristo, há mais de 2.000 anos.

Estas reflexões são constantes entre cientistas e filósofos e sempre trazem alguma luz às nossas especulações. Ressaltamos entre elas, dois pensamentos: há os que dizem sermos nós entes binários: entes físicos (fisiológicos) inseridos na natureza e entes morais, de cunho ético e espiritual. Dupla estrutura desenvolvendo-se ora separadas, ora de maneira complementar. “Somos aquele que está aí, num determinado momento, para sentir, pensar e agir, durante um espaço de tempo... Somos lançados para viver os conflitos existenciais, viver a inevitável angústia, a inquietação, que são características inseparáveis do nosso existir" (do filósofo alemão Martin Heidegger).

O ser fisiológico ou natural não é um ser incondicionado, mas resultante de seu condicionamento genético, de seu próprio e inconfundível DNA. Essa concepção binária passa pelo domínio  da  crença.  Seus  adeptos  reconhecem ser  difícil  a  sua  comprovação,  em  relação  às  verdades  positivas  da  ciência,  e  se  enveredam  pelo  plano afetivo-transcendental, para encontrar o sentido de estarmos no mundo. Karl Popper nos fala em condições biológicas e condições axiológicas, as responsáveis pelas “predisposições éticas ou valorativas” que correspondem à vocação de cada ser espiritual.

Outro pensamento reduz o existir a um único pressuposto físico ou biológico. Encontram na fisiologia e na física resposta à sua concepção “naturalista” da vida. A parte ético-espiritual seria uma mera conseqüência ou reflexo do corpo físico. As formações do cérebro pressupõem a existência da consciência da vida interior, como quer o neurólogo John Ecclis. Esse grupo faz parte da ala racionalista, adeptos do racionalismo científico, que acham que a razão explica tudo.

Em nossos dias, ao que parece, ciência e fé caminham para um encontro, desmistificando o passado, que as separava, dizendo que ciência e fé não se entendiam. Há, ainda, hoje, os que assim acreditam, mas, o seu contrário ganha espaço e fortes convicções.

Em termos de fé, entramos no terreno da crença e da criatividade; em termos de tecnologia dos fatos e da física no terreno da razão, onde não valem visões proféticas, paixões. Mas, eis que surge uma forte corrente científica afirmando que só a fé capacita o homem a dar um salto avante e cria uma ponte entre ciência e fé. Diz que a fé está no centro de todo processo de inovação.

A ciência evolui e muda seu processo investigatório: imaginação, intuição e hipótese são os primeiros passos da criação técnica. Uma lei básica da criatividade intelectual estabelece que a crença precede o conhecimento. É preciso confiar na intuição e agir com fé, antes de poder saber realmente.

A fé religiosa assume várias formas, mas todas se vinculam à entrega, a idéias ou conceitos, que são, a princípio, improváveis, incalculáveis impiricamente. Podemos não nos caracterizarmos como religiosos, mas o ato de criação é um ato religioso, de fé, de crença, de intuição. Assim, a ciência muda de metodologia e a fé se abre para entender e se completar na ciência, que é, em última instância, uma iluminação vinda do Criador.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2001)

SAUDAÇÕES AO ANO LETIVO

Izabel Sadalla Grispino *

Convidada a proferir a aula inaugural de uma escola normal, teci considerações que, hoje, trago a você professor, num gesto de atenção, desejando, num grande abraço, abranger todo o magistério desta cidade.

Março é o mês em que a escola, já organizada, dá a sua largada ritmada, rumo ao cumprimento do dever que o ano letivo lhe impõe. Fevereiro é o mês dos preâmbulos, dos planejamentos, dos acertos, dos ajustes. Então, neste momento, quero dar aos professores, ao diretor da escola e a todos os seus funcionários as boas-vindas, desejar-lhes um trabalho auspicioso, produtivo, que tenham, ao longo do ano, força renovada, alento e apoio nas sinceras e procedentes reivindicações.

Em cada grau da pirâmide educacional, o professor correspondente tem uma importância capital, formando no conjunto a gleba florida. O professor das primeiras letras, o nosso querido professor primário, é marco nessa escalada da aprendizagem. Sua importância é grande e com os avanços da psicologia genética a educação infantil firma-se e se mantém como a grande fase formadora do alicerce educacional do indivíduo.

A educação infantil está sendo cada vez mais valorizada; sua ausência repercutirá desfavoravelmente em todo o percurso escolar posterior. Cabe ao professor primário a séria responsabilidade de, ao introduzir a criança no mundo da leitura e da escrita, torná-la um estudante animado, encorajado, confiante. A postura do professor, diante da criança, é bem mais representativa que o seu próprio saber. São a atenção, o cuidado, o carinho que levam essas crianças ao bom termo final. É o amor o maior ingrediente da educação, ou como dizia Pestalozzi, seu maior instrumento.

O início da atividade intelectual tanto pode fazer do aluno um continuador incentivado ou um ser desanimado, inculcado, com vícios de aprendizagem. Esse professor será ou a escada rolante, que o conduzirá ao topo, ou o chicote, a cortar-lhe durante todo o trajeto, e a escolinha primária ou uma colméia em que se fabricam as primeiras  gotas de mel, ou um vespeiro agitando a caminhada.

Escola é um organismo vivo, acompanha a evolução dos tempos e se modifica com ela. Não é uma entidade estática; cabe a nós, professores, atualizá-la, torná-la competente para responder à altura ao mundo tecnológico dos nossos dias.

A educação moderna vem exigindo competência e dedicação crescentes por parte do professor. Manda que se atenda à realidade do aluno, da comunidade em que se insere e que, ao lado da instrução, ministre a educação. Na instrução, o aluno abrange o saber; na educação, torna-se um ser consciente de suas responsabilidades morais, sociais, religiosas, torna-se um estudante que se desenvolve nas capacidades cognitivas de caráter geral.

A orientação pedagógica pede, hoje, bem mais ao professor. Ele não pode se descuidar da educação integral, porque só ela vai ajudar o aluno a vencer as barreiras do avanço científico-cultural. O aluno bem formado nos aspectos conceituais, atitudinais e comportamentais chega por si só à informação.

Dizemos que a atuação do professor é complexa, singular, contextualizada. Complexa, porque envolve vários fatores: exigências sociais, experiências de vida dos alunos, apropriação do conhecimento, desenvolvimento de habilidades e de atitudes; singular, porque não há duas classes, dois professores ou dois alunos iguais; e contextualizada, porque tem que abordar um currículo adequado ao contexto sócio-cultural.

Vimos que escola não é só “razão instrumental”, ela está comprometida com o pensar, com as relações humanas, o pensar com os outros dentro de um contexto intersubjetivo que proporciona a autonomia dos educandos.

O que é feito com amor, com entusiasmo, produz o melhor resultado. A decadência do ensino público afeta a todos nós, a todos diz respeito. Nenhum educador fica indiferente a esse quadro empobrecido do ensino público e o que mais queremos é vê-lo prosperar, abraçar patamares que dignifiquem o magistério de nossa terra. O que mais queremos é que ele seja coroado, porque nenhuma coroa pesa mais, nenhuma significa mais que a coroa do saber. Somos conscientes de que educação não é variável isolada. Com o aumento da marginalidade, do desemprego, da exclusão social, não se pode esperar milagres da educação. Contudo, com criatividade, com espírito de solidariedade, a escola pode muito colaborar.

O professor é uma necessidade social e ele deve tomar consciência desse seu papel. Ele é, no dizer poético, “o guieiro dos filhos da Pátria”. Quanto mais elevado o grau de instrução, de educação, mais forte será a cadeia da nacionalidade. A escola, juntamente com a família, é o núcleo da sociedade. Nelas aprimoram-se as virtudes, amolda-se o caráter, que é a expressão da alma. A escola continua o lar e ambas, unidas, lutam pela formação de homens honrados, idealistas, úteis à família, à sociedade, à Pátria e a Deus.

Professor caminhe firme em direção ao saber, mas não despreze as boas normas de conduta. Cultive a alma, atue com sabedoria e eqüidade social,  influenciando toda a comunidade escolar e, em especial, seu aluno. Ninguém é grande ou pequeno pela vida pomposa que ostenta ou pela vida simples que leva. A categoria em que temos de classificar a importância dos homens deduz-se do valor dos atos que eles praticam, das idéias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes.

Que Deus e a Pátria os protejam!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2001)

CURIOSIDADES NA APRENDIZAGEM ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), das 43 nações que participaram do exame em 2003, revelou que os meninos se saem melhor em matemática que as meninas. Dentre os países analisados, a única exceção ficou com a Finlândia, onde as meninas tiveram um melhor desempenho. O Brasil, lastimavelmente, obteve o pior resultado de todos os países na disciplina matemática. As meninas fizeram 348 pontos e os meninos 365. A avaliação adotou uma escala que pode passar de 660 pontos. Leitura, embora não tenha sido o foco principal, também foi avaliada. Agora, inverteu-se a posição: em todos os países, as meninas foram melhores, ficaram à frente.

Esse resultado confere com as observações escolares, das instituições de ensino, comprovando a superioridade masculina na matemática e a feminina na leitura. A consultora para o Pisa, na área de matemática, acredita que brincadeiras e afazeres de meninos e meninas na infância podem contribuir para essas diferenças. As meninas, geralmente, ainda assumem tarefas domésticas, cuidam dos irmãos. Os meninos saem mais de casa, jogam futebol e têm uma relação maior com espaço e forma. A área em que as meninas se saem melhor é a chamada quantidade, em que estão mais presentes informações da vida cotidiana. O Pisa constatou que elas conseguem melhor resultado em soluções de problemas que não estão ligados diretamente à disciplina de matemática, como taxas de câmbio e preços.

Essas observações, de cunho cultural e social, podem ajudar a escola a melhorar o contexto da disciplina e desenvolver o interesse e a confiança das meninas em matemática.

Há especialistas em neuropediatria, como o Dr. Luiz C. Vilanova, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que fala haver diferença no mecanismo de dominância cerebral de homens e mulheres. O predomínio do hemisfério esquerdo do cérebro – ligado à lógica, aos códigos – é maior no sexo masculino, que passa a ter mais noções espaciais. Pode ocorrer também no sexo feminino, mas em freqüência menor. Nesse sexo, há uma significativa influência no hemisfério direito, que é o da intuição, razão pela qual, na área da linguagem, as meninas levam vantagem.

Há predominância, não exclusividade, havendo mulheres que se dão bem em matemática e homens, em linguagem. O Pisa 2003 mostrou que os meninos fizeram 11 pontos a mais que as meninas nas provas de matemática, em todos os países; e fizeram 34 pontos a menos que as meninas, na área de leitura.

Em matemática, 16,9% estão nos níveis 5 e 6 de proficiência, os 2 mais altos. Eles somam 12,4% nesses níveis. O exame de matemática do Pisa é dividido em 4 áreas. A que é chamada de espaço e forma e com questões de geometria, raciocínio espacial e modelos bi e tridimensionais  registra as maiores diferenças a favor dos meninos.

A pontuação geral dos jovens brasileiros foi de 356, o que deixou o País abaixo do nível 1 de proficiência, o mais baixo. Isso quer dizer que eles não são capazes de compreender conceitos básicos ou calcular resultados combinatórios em uma situação limitada e bem definida. Para o MEC, a defasagem idade/série prejudicou os brasileiros. No Brasil, muitos alunos de 15 anos não estão no 1.º ano do ensino médio, como seria o correto, e sim na 7.ª ou 8.ª série, não  tendo, dessa forma, aprendido muitos conceitos pedidos nos exames. Os mais bem posicionados do ranking foram Finlândia e Hong Kong, que ficaram no nível 4, com cerca de 500 pontos.

Do ponto de vista social, o menino é canalizado para a individualização, baseado no afastamento. As meninas para o apego e verbalização, por isso têm mais facilidade nas comunicações. A sugestão de especialistas é de que melhores práticas educativas, principalmente das famílias, podem mudar essa situação. As diferenças inatas ente os gêneros, conforme fala a ciência, devem despertar na metodologia escolar caminhos criativos, situações de aprendizagem que incentivem a superação de dificuldades.

Do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) participam países-membros e convidados. São avaliados meninos e meninas de 15 anos de escolas públicas e particulares. A avaliação é feita a cada 3 anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE). A cada ano, o Pisa dá ênfase a uma área do conhecimento. Em 2000, foi leitura, em 2003, matemática, em 2006, será ciências e, em 2009, leitura novamente. As questões abordam resolução de problemas. A maior parte delas – 72% – é dissertativa e o restante de múltipla escolha. Os resultados se prendem à pontuação do total de alunos de cada país, classificado em níveis de proficiência, que vão de 1 (mais baixo) ao 6.

*Supervisora de ensino aposentada
(Publicado em dezembro/2005)

CONTROVÉRSIAS SOBRE A MUNICIPALIZAÇÃO DO ENSINO

Izabel Sadalla Grispino *

A municipalização do ensino foi bastante contestada, e ainda continua, pelas entidades de classe de professores e por setores da oposição. Consideram-na como um viável caminho à privatização do ensino público. Partidos de esquerda, como PT, PDT e PC do B, entraram no Supremo Tribunal Federal, no início de sua implantação – 1998 – com uma ação direta de inconstitucionalidade, tentando impedir sua aplicação. Alegavam não caber ao governo federal determinar como estados e municípios devam aplicar suas cotas dos fundos de participação.

Outra contestação surgiu por parte de professores da rede pública do ensino superior, que rejeitavam o modelo educacional adotado pelo MEC. Criticavam e denunciavam o sistema de parcerias com o setor privado adotado pelo governo para mudar o ensino. No ensino municipalizado, diziam, a reforma inclui a integração entre estado, iniciativa privada e comunidade, em modelos de parceria para criar novas fontes de financiamento. Essa relação deve ser intermediada pelas organizações não-governamentais (ONGs).

As entidades de docentes são contra a municipalização e afirmam que o projeto de políticas sociais serve de suporte para a municipalização do ensino fundamental. Com a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef), criticado pelas entidades, o governo quer abrir caminho para que haja um aumento da participação da sociedade no processo. Seguindo as regras do Banco Mundial (Bird), o governo aposta na municipalização do ensino de crianças de 7 a 14 anos, como ponto de partida para a reforma. Segundo essas entidades, o governo repassa, aos poucos, o controle da educação brasileira ao Banco Mundial, dando sinal verde para a privatização do ensino no Brasil.

Em documento-denúncia, professores da rede pública do ensino superior alertavam, em 1998, que “havia em andamento um amplo programa de reformulação da educação no país, com a transferência do controle da estrutura do ensino público para fundações e organizações de direito. O novo sistema deverá ser instituído de forma gradativa e segue um programa que o Banco Mundial (Bird) recomenda para países pobres, prevendo uma redução da participação do poder público no ensino e parcerias com o setor privado (...). O processo de transferência de controle da estrutura educacional, para fundações e organizações de direito privado, deverá ser gradativo (...). O ensino brasileiro caminha para um sistema no qual, cada vez mais, haverá a participação do setor privado e menos do estado (...). O novo sistema misto que deve surgir no país, com a reforma do ensino, tem apoio do Bird, que vê o reforço à municipalização do ensino como uma estratégia (...).

Dois dos esteios da reformulação administrativa do ministro Bresser Pereira, em vigor, são a redução dos gastos da folha de pagamento e o incentivo ao repasse do comando de setores públicos para organizações sociais de direito privado.

O governo alega que o setor educacional comporta uma integração entre os níveis de administração pública – união, estados e municípios – iniciativa privada e ONGs. Essa tendência ocorre hoje no setor ambiental, referendam os professores. É com esse sistema que funciona o Instituto Brasileiro do Meio-Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), cada dia mais operando com convênios e parcerias para criação de fontes de financiamento, que dão suporte às ações do órgão. O setor educacional, ao que tudo indica, deve passar por um processo que o governo chama de “flexibilização” e as entidades de classe de professores classificam de privatização, reafirma o documento-denúncia.

Só o desenrolar do processo trará clareza a essas questões. O ministro Paulo Renato Souza tem passado imagem de credibilidade, de atuação coerente entre os diversos graus do ensino. Contudo, a saúde da educação não vai bem, os rumos políticos da educação não são tão animadores, sempre conflitados em suas irrisórias verbas.

O desolador é contestar que o Brasil, com seu enorme potencial de riqueza, nunca está em condições de se apoiar nas “próprias pernas”, tendo sempre que ser ajudado por “muletas”. Ainda estamos inseridos entre os países do terceiro mundo, países em desenvolvimento. Passam-se os anos e assim, como nos tempos de nossos pais e avós, somos o permanente país do futuro.

Precisamos não só de escolas para todos, mas de escolas de boa qualidade para todos, sejam ricos, sejam pobres, se querermos realmente uma pátria forte, menos injusta socialmente. Educação funciona com vontade política. Somos responsáveis pelos homens públicos que colocamos no poder. Necessário se faz formar consciência, despertar amor à terra natal, desde a tenra idade, porque os bons sentimentos, os bons propósitos, se desenvolvendo com a criança, consolidarão o caráter, o civismo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2000)

HABILIDADES DO ALUNO SUPERDOTADO

Izabel Sadalla Grispino *

O artigo “Alunos de desempenho excepcional” provocou interesse de algumas escolas. Queriam um detalhamento de como reconhecer o superdotado, pelo comportamento e pelas habilidades demonstradas. Pesquisando mais sobre o assunto, surgiu uma sistematização esclarecedora.

Esse interesse das escolas é sumamente inteligente e salutar. Para exemplificar, citarei os Estados Unidos, onde a prática de investir em jovens talentos tornou-se uma política de governo, já no século passado. Os dados revelados são de que, em 1957, quando os russos deram a largada à corrida espacial, ao lançar na órbita terrestre o Sputinik, o primeiro satélite criado pelo homem, colocaram em xeque a supremacia científica americana. Como reação, os Estados Unidos empreenderam uma política feroz de caça a seus melhores cérebros, que perdura até hoje.

Isso reverteu em conhecimento avantajado. Um estudo feito em 80 países por economistas da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que as políticas de formação de talentos empreendidas pelas nações mais ricas do planeta foram, em muitos casos, a chave para sua prosperidade econômica.

Investir em alunos de altas habilidades significa enriquecer a sociedade, dando-lhe meios para entrar na concorrência altamente proveitosa. Traz vantagens imediatas aos estudantes superdotados e a longo prazo beneficia o país.

A escola deve se preparar para receber esses alunos. Deve haver, por parte dela, receptividade a eles, alternativas pedagógicas criativas e orientação aos professores. Os professores têm necessidade de cursos, estar preparados para esse atendimento. Não vai acontecer a inclusão do superdotado se o professor não receber uma capacitação, um apoio técnico-didático competente. Muitos se sentem despreparados e se valem da ajuda de parcerias com faculdades, secretarias de Educação, também, de professores itinerantes, que trabalham com alunos de altas habilidades.

O professor não deve supervalorizar o aluno superdotado perante a classe, colocá-lo num pedestal, criando situações de rivalidade, de discórdia. Deve tirar de todos os alunos o que eles têm para oferecer. Desenvolver o superdotado sem desprezar os demais, afinal todos têm talento, a diferença está nos níveis, como diz Vigotsky. Criar um ambiente amigável, porque o superdotado tem que conviver com seus pares e deve haver uma adequação, um entrosamento, que afastem o preconceito.

Essa é uma das preocupações da gestão inclusiva, em como atender as peculiaridades do superdotado sem discriminar os demais.

Os professores, geralmente, têm dificuldades de identificar alunos como superdotados, mas apontam os que aprendem mais rápido, são mais curiosos, perguntam demais, características que levam ao superdotado. Os especialistas costumam apontar 6 habilidades:

• Intelectual geral: curiosidade intelectual, poder excepcional de observação, capacidade de abstração mais desenvolvida e atitude de questionamento;

• Talento acadêmico: desempenho excepcional na escola, ótima performance em testes de conhecimento e alta habilidade para tarefas acadêmicas;

• Pensamento criativo: idéias originais e divergentes, habilidade para elaborar e desenvolver suas idéias, capacidade de perceber de muitas formas diferentes um determinado tópico;

• Liderança: líderes sociais ou acadêmicos de um grupo e que se destacam pelo uso do poder, autocontrole e habilidade em desenvolver uma interação produtiva com os demais;

• Artes visuais e cênicas: habilidades superiores para pintura, escultura, desenho, filmagem, dança, canto, teatro e instrumentos musicais;

• Psicomotora: proezas atléticas e também o uso superior de habilidades motoras e refinadas e habilidades mecânicas.

Para identificar uma criança superdotada, os especialistas no assunto indicam as seguintes características:

• Aprende mais rapidamente que seus colegas da mesma idade;

• Faz muitas perguntas, demonstrando uma grande variedade de interesses e curiosidades;

• Tem um vocabulário inusitadamente avançado para sua idade ou série, riqueza de expressão, elaboração e fluência;

• Tem um senso de humor altamente desenvolvido;

• É persistente no empenho em satisfazer seus interesses;

• É crítica de si mesma e dos outros;

• É sensível a injustiças, tanto em nível pessoal quanto em nível social;

• Não é propensa a aceitar afirmações, respostas ou avaliações superficiais;

• Apresenta desempenho acima da média em testes de inteligência.

Trabalhar esses alunos não é fácil, mas necessário. Confirmam os especialistas de que se esse potencial não é desenvolvido, muitas vezes, ele pode se perder na fase adulta, por falta de incentivo. O superdotado é um grande desafio para o professor, que se torna pólo de referência do desenvolvimento desse aluno. Deve ser treinado para identificar as crianças com habilidades especiais, reconhecer e responder à diversidade, acolher as diferentes potencialidades, características, ritmos de aprendizagem. As cobranças não devem ser acima do normal e, principalmente, não se pode perder de vista de que, acima de tudo, se trata de crianças.

Enquanto que no Brasil o Ministério da Educação (MEC) não incentiva a existência de escolas especiais para superdotados, apenas estipula a convivência deles em escolas regulares, nos países avançados, a busca de cérebros é preceito fundamental. Esses alunos têm acompanhamento intensivo de uma equipe de pedagogos e de professores treinados, capacitados para lidar com o superdotado. A atualização do professor, sua competência e seu devotamento são requisitos obrigatórios.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2005)

A INTRANQUILIDADE DAS ESCOLAS

Izabel Sadalla Grispino *

Como gostaríamos de passar notícias boas sobre a educação pública brasileira, diferentes das que vêm sendo veiculadas pela imprensa. Porém, diante da realidade, revelada por pesquisas sérias, seria procedimento ingênuo, ilusório.

Pode até existir exceções, mas no final, a escola acaba sendo envolvida, arrastada, pelo meio social no qual se insere. Dificilmente, a escola hoje se sente segura. Tem medo do entorno, da violência das ruas que entra nela e da própria violência que existe dentro dela: brigas, furtos, rebeldia, alunos que não aceitam repreensão, seja por notas ou por comportamento e provocam estragos. Alunos que se espelham em traficantes e assaltantes, considerando-os heróis “porque eles andam de golf enquanto nós andamos a pé”.

A realidade das grandes cidades entrou nas escolas. Uma recente pesquisa, janeiro de 2006, coordenada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), sobre a realidade das escolas, mostra que estudantes e professores vêem a escola pública como um local para se tomar cuidado.

A intranqüilidade toma conta da escola. Ela deixou de ser, de 10 anos para cá, um lugar seguro, como era no passado. Segundo a pesquisa, a percepção da violência começa nas pequenas coisas, como furtos. Os furtos são freqüentes nas escolas e o pior é que os estudantes já vêem a situação como natural: “Se pega é porque não tem, é só comprar outro”. O furto sendo visto com normalidade, fica difícil para os professores encararem essa situação. O ato permanece sem conseqüências, comumente a direção não toma providências, e leva a violência para além dos prejuízos materiais. A pesquisa assinala que quase 20% dos jovens dizem já ter batido em alguém, dentro da escola. Cinco por cento admitiram já ter apanhado.

Um outro aspecto da pesquisa foi notar a agressividade das meninas. Quase 10% delas dizem ter agredido alguém e 3% admitem ter apanhado. Geralmente, elas andam em grupos e agridem colegas que estão usando uma roupa diferente, um tênis da moda ou material escolar mais caro.

As meninas estão tendo reações típicas dos meninos, brigam por xingamentos ou por estar olhando feio uma para a outra. Nesse ambiente de confronto, a violência, às vezes, surge como uma maneira de aprender a se defender. A grande tarefa é melhorar o ambiente escolar.

Há, também, com muita freqüência, invasão, por pessoas de fora da escola. A pesquisa fala que em 55,8% das instituições pesquisadas houve invasões e em muitos casos o objetivo era bater em estudantes. O ambiente no entorno é pesado e colabora com a desordem. Há relatos de roubos, tiroteios e brigas perto das escolas.

Esse cenário de violência traz conseqüências de convivência, de relacionamento entre os alunos  e alunos e professores, dificultando a aprendizagem e até mesmo a permanência na escola. Alunos e professores sentem medo da criminalidade no ambiente escolar.

O clima de insegurança no pátio e na sala de aula arrefece o ensino-aprendizagem. A violência abala os fundamentos das práticas pedagógicas.

A conclusão da pesquisa é de triste situação. Diz a pesquisadora: “Vejo a escola profundamente infeliz, que não se consegue pensar, se relacionar com a juventude, que tem de ensinar. Sobre uma enorme frustração”.

Num ambiente como esse, marcado pela violência, pelo medo, como ressurgir para o desenvolvimento, ostentado pelas grandes nações? Como investir nessa direção? Como mudar as condições sociais que atingem educação e criminalidade?

Essas questões têm suscitado posicionamentos de educadores. Uma grande idéia vem surgindo, a do pertencimento. Levar o estudante a engajar-se em problemas sociais de sua comunidade, fazendo-o sentir um membro integrante dessa comunidade. Integrá-lo ao modo de vida do lugar onde vive, buscando melhorá-lo. Atrelando-se o estudante a compromissos sociais, é um valioso instrumento que vai refletir sua auto-estima, na sua identidade.

Esse é um dos encaminhamentos a que a escola deve postular. Incluir, ao conhecimento, o sentido de pertencimento, de abraçar os valores da comunidade, de melhorar o ambiente, o aluno enfincando raízes no seu passado. Não é educação só em escola, mas no meio em que vive o aluno.

Diz Gilberto Dimenstein que uma pessoa que não tem o senso de pertencimento pode aproximar-se com muito mais facilidade das drogas e está muito mais predispostas à utilização da violência, porque não tem nada a perder. Reforça o seu pensamento, dizendo: “As universidades precisam inserir os jovens rapidamente em estágios, em trabalhos comunitários, para que o estudante comece a lidar com a realidade”.

Sabemos que esse é um processo a médio e a longo prazo, mas é também uma grande possibilidade de redimir a juventude, de fazê-la sentir que, por detrás dela, há uma estrutura de vida, de família que ela precisa preservar. Essa propositura deve vir acompanhada de um policiamento sério, de um sério combate à violência, ao crime.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2006)

O ENSINO DE CIÊNCIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Constata-se uma crise mundial do ensino de ciência. Especialistas da área começam a discutir, mais freqüentemente, como melhorar o aprendizado dessa disciplina.

Na revisão, a ciência sai da abstração das salas de aula e parte para um processo mais ativo, mais especulativo, desenvolvendo na criança a curiosidade pela informação.

O ensino de ciências cria condições para estabelecer critérios de riscos e benefícios, no trato da realidade das coisas, preparando o indivíduo a não acreditar demais e também a não desacreditar. É o enfoque da ciência real. É um ensino que leva ao exercício da reflexão pelo domínio do conhecimento científico, intrinsição relacionado aos riscos enfrentados pela sociedade, como aids, vaca louca, buraco na camada de ozônio, destruição nuclear...

Estudos têm mostrado que a diminuição da habilidade em ciências leva à perda, no ensino médio, de ganhos acadêmicos obtidos no fundamental.

Assinalam os especialistas que a ciência, às vezes, se torna difícil de ensinar, porque os resultados são exatos, sem interpretações. A ênfase fica em passar informações, sem anular a discussão das idéias. Deve levar os alunos a formular hipóteses, fazer pesquisas e registrar suas conclusões. Um ponto que  vem sendo ressaltado é não fazer ciência só no laboratório, mas fora dele, para que a criança perceba que ela faz parte da vida do dia-a-dia.

O ensino de ciências agrava-se pela falta de professores bem formados e interessados na disciplina. Em decorrência, o que se verifica é o número de cientistas cada vez menor. Ademais, pessoas que têm bons conhecimentos em física, química ou biologia enveredam-se por outras oportunidades de emprego, bem mais vantajosas economicamente.

Surge no momento uma grande expectativa com a avaliação internacional de educação o Pisa, previsto para agosto, em 57 países, incluindo o Brasil.

O Pisa, realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é feito a cada três anos, por vários países. Avalia habilidades de leitura, matemática e ciência. Cada ano o foco é uma delas. Este ano será ciência. A prova é feita por alunos de 15 anos, que estejam pelo menos na 7.ª série.

No Brasil serão 633 escolas de todos os Estados, escolhidos por sorteio. Nossas escolas não são bem equipadas em materiais e os professores não foram bem formados e não incentivam o ensino na rede pública. Levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), só 5,4% das escolas públicas de ensino fundamental e 37% das do ensino médio têm laboratório de ciências. No setor privado, os índices são de 31% e 66%, respectivamente.

O resultado do Pisa, que já preocupa o mundo todo, sairá em 2007. Este ano, os alunos responderão questões sobre assuntos, como a razão da escuridão e da claridade na Terra e sobre clonagem. Nos exames anteriores, o Brasil foi o último colocado em leitura e matemática.

Esse resultado nos fere sobremaneira, especialmente por sabermos que há uma estreita relação entre escolaridade, nível de conhecimento e taxa de desenvolvimento de um país. É preciso pensar em educação também como desenvolvimento. Hoje, de acordo com o IBGE, a escolaridade dos trabalhadores brasileiros é de menos 5,4%.

Lembrando a Coréia do Sul, país assolado por uma longa guerra civil, há 30 anos, registrava a mesma média brasileira de escolarização formal dos trabalhadores, 4,7 anos. Nessas três décadas, a Coréia do Sul investiu fortemente na educação, elevando esse índice para 12 anos, saltando em disparada ao indicador brasileiro.

Um outro agravante fator da baixa escolaridade é a violência, rondando, sobretudo, as periferias das grandes cidades.

No processo da educação, é indispensável acompanhar as novas descobertas de ensino, avaliar as informações, sempre na mira de uma pedagogia transformadora, a serviço do social.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em setembro/2006)

CONCLUSÕES SOBRE O RESULTADO DO ÚLTIMO ENEM

Izabel Sadalla Grispino *

Precisamos incentivar, reconhecer as boas escolas, não desanimar o ensino público.  Mas,  como  fechar os olhos diante de uma imensa rede de escolas públicas despreparadas, dotadas de fraca infra-estrutura, sem laboratórios de ciências, de informática, sem bibliotecas atualizadas, com jornais e revistas, com segurança ao deus-dará e com professores, na grande maioria, mal formados?

É preciso investir, de verdade, na classe popular, não apenas lançar discursos inflamados, em épocas de eleições. Na prática, usa-se a estratégia do tapa-buraco, dos arranjos e remendos provisórios.

Pesquisas têm mostrado que os professores da rede pública chegam a ser tão carentes quanto os seus alunos. Ganham mal, trabalham muito, não têm estímulo, nem dinheiro para investir na sua atualização, no seu aperfeiçoamento profissional. Os alunos, por sua vez, estão longe de conviver com um ambiente familiar que propicie a cultura, nem têm com quem falar sobre as coisas que acontecem ao seu redor e no mundo.

Essa falta de contacto do estudante com o conhecimento acaba por dificultar o pleno desenvolvimento de suas potencialidades, dificultar o desenvolvimento das competências e das habilidades. O mais comum é ele freqüentar a escola sem motivação por parte de sua família. É um quadro desolador que reforça a inferioridade educacional do estudante pobre e que acentua as desigualdades sociais.

Não nos causou surpresa o resultado do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), noticiando que alunos das grandes escolas particulares do País são os detentores das melhores notas. No ensino público, a média mais alta chega a 41%, no limite de que o Enem considera ruim (40%). No privado, quase atinge a excelência, com 68%, com algumas escolas conseguindo nota acima de 70%.

Os jornais estampavam a receita das escolas campeãs: bons professores e boa infra-estrutura. São professores bem informados, bem preparados, atualizados, utilizando-se de uma metodologia avançada, que leva o aluno a produzir. Os alunos dessas escolas vão às aulas motivados pelas famílias, que pensam em deixar para os filhos a educação como herança.

O Enem revelou não apenas a disparidade entre escola particular e escola pública, mas, desigualdade entre escolas públicas do País e desigualdade entre as escolas particulares. Em São Paulo, o resultado de 10 escolas públicas assemelha-se ao das escolas particulares. São escolas tidas como grupos de excelência, ligadas a universidades, centros tecnológicos ou a militares, escolas existentes também em outros Estados do País e que apresentam muito bons resultados. No ensino público, os alunos que obtiveram melhor desempenho são oriundos de escolas técnicas.

Outras conclusões do Enem são possíveis assinalar:

a) Na rede particular, a avaliação revela que vários colégios particulares, com mensalidades caras, oferecem ensino precário, tendo seus alunos obtido resultados semelhantes aos de escolas públicas, fator que revoltou muito os pais, que não viram resultado de seus sacrifícios!

b) As escolas públicas com pior desempenho são as situadas nas zonas rurais e as que oferecem ensino do antigo supletivo: alunos da Educação de Jovens e Adultos (Eja). Alunos do Eja não revelam perfil de quem quer cursar o ensino superior.

Os resultados do Enem também mostram as desigualdades entre as regiões do País. As 6 piores capitais, segundo as médias de seus alunos, estão na região Norte, das 7 melhores capitais, 6 estão nas regiões Sul e Sudeste, mostrando as disparidades regionais.

O Enem é um exame realizado pelo MEC para concluintes do ensino médio. Ele não é obrigatório e sua nota é aproveitada em vestibulares e no programa de bolsas do governo federal, o ProUni.

O Enem é elaborado segundo as novas diretrizes curriculares do ensino médio, não é dividido em disciplinas e afere habilidades e competências dos alunos. Não mede conteúdo; pede interpretação de textos, relações e leitura de gráficos.

Os resultados do Enem apresentaram uma radiografia desfavorável ao conhecimento dos alunos que terminaram o ensino médio. Fala-se em investir no ensino médio, mas de que valerá investir num ensino médio com alunos egressos de um ensino fundamental fragilizado da rede pública? Uma boa educação depende de um percurso bem feito ao longo de todo processo. Precisa de um bom alicerce e o nosso não é bom.

A má qualidade do ensino público fecha a principal via de ascensão social para estudantes de lares pobres! A nossa desigualdade educacional cria um sistema de ensino de, pelo menos, dois níveis, um beneficiando pessoas bem nascidas, projetando-as socialmente, e outro, das pessoas carentes, deixando-as no anonimato, na marginalização social.

* Supervisora de ensino aposentada.             
(Publicado em março/2006)

SISTEMA ÚNICO DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Inúmeras propostas de sugestões de mudança infiltram-se na área da educação. O ministro Cristovam Buarque tem se revelado um profissional irrequieto, inconformado com o decadente ensino oficial brasileiro.

Por vezes, assusta-nos pela quantidade de inovações lançadas, como reformulações no Exame Nacional de Cursos, o Provão, no Exame Vestibular, no Exame Nacional do Ensino Médio, com realização anual, na Universalização do Ensino Médio, seguido do acréscimo de um quarto ano, opcional para o aluno, ou alfabetizar todo mundo.

Tantas e complexas propostas, muitas de difícil concretização, chamam, contudo, a atenção e colocam na pauta de discussões a causa da educação oficial, que no Brasil beira à raia da falência. As freqüentes considerações de mudança podem despertar consciências, movimentar opiniões, transformar-se em assunto prioritário, criar um fortalecimento político em torno da falência da escola pública. Cria-se, também, a expectativa de se formar uma escola preparada para lidar com o problema crucial da dificuldade de aprender.

Como uma de suas últimas propostas, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, fala da criação de um sistema único da educação, inspirado nos Sistemas Únicos da Saúde (SUS) e da Segurança Pública (Susp). Essa nova forma de organização teria a participação da União, Estados e municípios, também de sindicatos e organizações não-governamentais (ONGs).

As sugestões do ministro foram bem acolhidas por Estados e municípios, que apoiam em compor com o governo federal o sugerido sistema integrado de educação. Aliás, a Constituição Federal, no seu artigo 211, define como a União, Estados, Distrito Federal e municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino.

O ministro Cristovam Buarque propõe, ainda, um grande projeto, que chamou de sistema solidário de educação, visando melhorar a qualidade da formação do profissional da educação. Fazem parte desse projeto quatro propostas: instituir um piso salarial para o professor e implantar a avaliação permanente do seu trabalho; garantia de vaga a todas as crianças a partir de 4 anos; ensino médio obrigatório; quatro anos de ensino médio, sendo um deles profissionalizante.

É patente a louvável intenção do ministro de criar uma mobilização, envolvendo governo, sociedade, sobre o sério problema que o Brasil enfrenta na área do ensino público.

Terá ele condições de viabilizar a contento tantas iniciativas? Estruturas deficitárias, falta de verba, falta de professores, vão requerer muita criatividade e objetividade, para uma real operacionalização dessas propostas.

 

15 DE OUTUBRO, DIA DO PROFESSOR

Antecipando-me ao 15 de Outubro, Dia do Professor, não posso deixar de render minha homenagem ao professor. Irmano-me à causa do ensino, à luta por melhores condições de trabalho e, particularmente, por melhores salários. Que a Nação passe a compreender que sem professor não há ensino e sem ensino não há pátria altaneira. Que haja uma consciência nacional sobre a função insubstituível do professor para a sociedade e para a vida como um todo.

A você, professor, com carinho e respeito, meus versos abaixo:

AO  PROFESSOR

Querido professor,
Não desanime, vá avante,
Da humanidade é luz do esplendor,
É sol que brilha em terra exuberante,
Estrada iluminada,
Luzeiro de escuras madrugadas!

Sem você, a sociedade esmorece,
A criança perde seu futuro,
Você é, de todos, a mais bela prece,
O sonho que surge prematuro,
A fé que a esperança carece,
O brilho que nunca desaparece.

Embora pouco reconhecido,
E, pouco prestígio alcança,
Com Jesus é parecido;
Seu devotamento, transpassado de lança,
Tem como maior recompensa
A luta, para que seu aluno vença.

Assemelha-se ao pesado arado,
Que remove a terra, prepara o plantio,
Joga-se o grão adubado,
Que vencerá o inverno e o estio,
Com a chuva, a colheita é abundante,
A terra sorri em seu veludo verdejante!

Você, professor, vai além,
Prepara, aduba, planta, conquista,
Trata da semente como ninguém,
Da mente e da alma é um especialista;
Você é o amanhã de suave brisa,
O construtor, que a sociedade mobiliza ou paralisa!


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2003)

CURRICULUM VITAE

CURRICULUM VITAE

DE

IZABEL SADALLA GRISPINO

PRINCIPAIS ASPECTOS DO CURRÍCULO

  • Licenciada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo, ano de 1954;
  • Curso de pós-graduação em Língua e Literatura Francesa, a nível de mestrado, quando defendeu a tese: “O Simbolismo Francês e a poesia de Paul Verlaine e Arthur Rimbaud”;
  • Pós-graduação em Língua e Literatura Espanhola, em Filologia Portuguesa e Literatura Brasileira;
  • Licenciada no Curso de Pedagogia, com especializações em Administração, Supervisão, Orientação Educacional e Coordenação Pedagógica;
  • Ocupou, por concurso, na educação básica, as cadeiras de Português e de Francês e no ensino superior de Língua e Literatura Francesa;
  • Na área de administração e supervisão, exerceu, por concurso, os cargos de diretor de escola e de supervisor de ensino;
  • Foi membro integrante da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP) da Secretaria da Educação, onde monitorou e coordenou cursos de atualização, de aperfeiçoamento e de especialização em língua portuguesa, de 125 horas, para professores e especialistas da educação do ensino fundamental e médio, então, 1.º e 2.º graus;
  • Preparou, treinou, pela CENP, monitores, dos cursos montados, para todo o Estado de São Paulo;
  • Foi membro da equipe designada pelo Departamento de Recursos Humanos, da Secretaria da Educação, no Projeto “Capacitação de Recursos Humanos para o Ensino de 1.º e 2.º graus”, para proceder à análise crítica do texto-base, elaborado por insignes professores da Unesp, Araraquara: Cacilda de Oliveira Camargo, Maria Helena de Moura Neves, Najla Lauand e Sebastião Expedito Ignácio, designados que foram pelo MEC. Análise crítica no sentido da adequação do texto ao nível pretendido. A equipe foi, também, responsável pelo treinamento dado aos professores da rede.
  • Foi colaboradora do livro de Instrução Programada “Língua Portuguesa” – 5.ª à 8.ª série – 1.º grau – Secretaria de Estado da Educação;
  • Orientadora, pela USP-São Paulo, de estágios supervisionados do Curso Normal e de Letras;
  • Ao longo da carreira, participou de uma gama considerável de cursos de atualização, de aperfeiçoamento e de especialização, na perspectiva da educação continuada;
  • Autora de crônicas, de centenas de artigos educacionais, comportamentais, sociais, religiosos, publicados em jornais e revistas. Atualmente, está se propondo a registrar uma fase histórica da educação brasileira, ou seja, os principais passos da implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), n.º 9394/96, em seus diversos e amplos aspectos e a realidade do ensino no momento dessa implantação.
  • Poetisa, que reflete em seus versos as grandes questões humanas, os estados de alma, a problematização do ser. Retrata a alma em suas características universais, em suas inquietações diante dos enigmas da existência. Há momentos de muito lirismo, da exaltação do amor, da dor da saudade, das ilusões e desilusões, das amarguras e dos encantos da vida e há momentos de muita reflexão, de observação imparcial da realidade social e política, quando passa, então, sua visão de mundo, sua interpretação dos fatos, numa análise objetiva e subjetiva, porém, sempre crítica. No fundo, freqüentemente, é a poesia didática, é a mestra preocupada em ajudar, em orientar, em alertar, buscando suavizar o sofrimento da humanidade e contribuir para um mundo melhor. Há poesias de versos livres, mas, a sua formação clássica fala mais alto, quando observa com rigor, na grande maioria dos versos, a métrica e a rima;
  • Compositora musical – letra e música – de dezenas de obras sacras e populares;
  • Dentre as valiosas experiências, exercidas no magistério, ao longo da carreira, destaca os cursos ministrados, em larga escala, para professores e especialistas da educação, regando e adubando o terreno para melhor fazer brotar a semente educacional.

(Publicado em novembro/2000)

A VIDA PASSA PELO CAMINHO DA ESPIRITUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Passeando um pouco pela literatura, pela cultura, em seus diversos domínios, e em diferentes épocas, constatamos em grandes pensadores, cientistas e teólogos um encontro espetacular de ideais de espiritualidade, de convicções, abordadas numa coerência que chega às linhas da sistematização.

A existência não nos é um pano de fundo ou apenas uma inspiração; é parte viva de nós mesmos, nela caminhamos com seu fluxo incessante e contínuo. Ela nos remete a freqüentes reflexões, põe em constante evidência a superioridade das riquezas do espírito sobre as glórias mundiais. Ela nos força a um conhecer a si mesmo e a conhecer, por extensão, o homem em geral.

Relendo Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI (1533-1592), o filósofo que dialogava com a humanidade, em seus temas universais, revivi mensagens absolutamente atuais. A sua capacidade de percepção, de análise e compreensão da alma humana e da natureza, como um todo, vence as barreiras do tempo e se projeta no dia de hoje como, certamente, se projetará no dia de amanhã. Montaigne relacionava o homem à natureza; dizia ser o homem parte da natureza, devendo, portanto, entender que mesmo os animais e as plantas merecem respeito e consideração. Hoje, debate-se a idéia da proximidade estreita do homem com a natureza. A teoria evolucionista de Darwin e as pesquisas genéticas identificaram a pequena diferença que existe entre nós e os outros seres vivos. Imaginemos o impacto provocado por essas reflexões na sua época!

Ressalta-se, também, em Montaigne, nos “Ensaios”, a abordagem superatual, que ele faz sobre razão e fé. Põe a razão em xeque. Analisa-a, não como o teólogo que a critica pela presunção de querer prescindir da idéia de Deus, mas como um observador realista, que não vê na razão caminho para a felicidade.

Sua indagação é no sentido de tentar entender porque a racionalidade não fez do homem um ser mais sensato e equilibrado. Não se trata de confrontar fé e razão, mas de criticar os nossos valores, a razão, como meios de alcançar a verdade e o bem. “Os homens se acreditam superiores e racionais, mas quase sempre se mostram escravos das superstições e repletos de vícios. Poucos homens são verdadeiramente guiados pela razão, pela justiça”. A fé deve estar sempre aliada à razão, em equilíbrio.

Dizia que a única maneira de não se estar ao “sabor dos ventos”, “ao acaso dos encontros”, é sendo senhor de si mesmo. O indivíduo deve libertar-se da mesquinhez do cotidiano e do fanatismo, deixar seduzir-se pelos bens espirituais. Montaigne preconizava a paz, a harmonia e a tolerância, mas não se mostrou muito inclinado a acreditar na concretização de um mundo pacífico.

Passemos a entender a espiritualidade no grande cientista Albert Einstein, séculos XIX e XX (1879-1955), que assim se expressou: “Sei que os homens jamais poderão saber tudo, que a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. Deus é sutil, mas não é malicioso, por isso tenho certeza de que a solução será encontrada sempre. Foi uma espécie de fé que me ajudou, durante toda a minha vida, a não desesperar em face das grandes dificuldades da investigação”. Acerca de suas próprias conclusões, Einstein se perguntava: “Terá sido deste modo que Deus criou o universo?”

O grande líder que foi da comunidade católica, o grande guia espiritual, o  papa João Paulo II, na encíclica “Fides et Ratio”, lança o desafio de iluminar a razão e as ciências da modernidade com a luz da fé. Num primor de considerações, diz: “A engenharia genética necessita de fé para não instrumentalizar o Dom divino da vida. A política precisa do Evangelho para tornar-se serviço desinteressado do bem comum. A economia moderna precisa converter-se em justiça e solidariedade. A instituição familiar carece de visão cristã do matrimônio para não se desfigurar. Não há dimensão importante da modernidade que não possa prescindir de uma profunda reflexão e diálogo entre razão e fé”. Acrescenta: “A razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus”.

Em sua carta apostólica, intitulada “No Início do Novo Milênio”, João Paulo II diz: “A Igreja não pode perder de vista o rosto de Jesus”. Onde encontrar esse rosto? Ele responde: “Nos Evangelhos, que oferecem uma visão de fé sustentada por um testemunho histórico concreto”. No limiar do novo milênio, a Igreja tem “confiante otimismo em que não será uma fórmula a nos salvar, mas uma pessoa, Cristo”. Não há, pois, que inventar um “programa novo, porque Cristo é seu programa definitivo para o terceiro milênio e para sempre. Compete às Igrejas locais, ou seja, às dioceses, realizá-lo... Vamos em frente, com esperança”.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em novembro/2005)



Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em novembro/2005)

A ESCOLA EM SEU NOVO DIRECIONAMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

Penetrando no mundo de valores diferenciados, na tentativa de alcançar as diversidades culturais, a escola expande seus horizontes, ultrapassa fronteiras e, num comportamento menos elitista, chega às camadas mais necessitadas da população.

A tendência atual é educar para a coletividade. A diversidade cultural hoje é mais acentuada que ontem e as crianças, desde cedo, entram em contato com ela. Como se situar nessa diversidade? Como se ajustar a ela sem confrontos desgastantes?

A educação direcionada ao coletivo leva ao enfraquecimento da competitividade. Educa para o entendimento da realidade circundante, do entorno, para conhecer a história do outro, suas tradições, seus costumes, seus anseios e limitações. Esse conhecimento aproxima uns dos outros, relaxa as rivalidades, convida às mãos estendidas.

Vivemos um outro momento, em que se faz necessário uma educação de valores abrangentes, uma compreensão de padrões de comportamento, de normas subjacentes aos diferentes grupos de convivência social. Uma educação que alcance a formação de uma consciência moral.

Crianças de origens diferentes, agindo de forma coordenada, colaboram para o equilíbrio, para uma convivência mais pacífica, desarmando intenções. A escola passa a educar para a responsabilidade social, ensinando a criança a participar da construção de uma sociedade cidadã, onde se trabalha o respeito aos direitos do outro e a consciência dos próprios deveres.

A escola passa a educar par a construção de uma sociedade comunitária, onde um sente a necessidade do outro, onde se aprende a não mais ignorar o outro, num aproveitamento de mente, de alma e de braços, no reerguimento da paz e da própria economia da Nação.

Já é tempo de se olhar, como aprendizes, às comunidades pobres. Saber ver o seu potencial, o imenso capital de conhecimento que essa comunidade herdou de pais, de avós, ver os valores socialmente criativos que expressam.

Nesse aspecto, a escola passa a ser uma instituição da coletividade, seguindo o relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Unesco), que estabeleceu quatro pilares, como eixos estruturais da Educação na sociedade contemporânea: Aprender a Aprender – buscar o saber, alcançar os seus objetivos;  Aprender a Fazer – relacionando o ensino à prática; Aprender a Viver e Conviver – desenvolver o conhecimento do outro, formar uma nova mentalidade, que vai gerar mais união e diminuição da competitividade, vai gerar o desejo de criar, de elaborar projetos conjuntos, de viver juntos; e Aprender a Ser – desenvolver a capacidade de autonomia e julgamento, fortalecendo a responsabilidade pessoal pelo destino coletivo.

Hoje, a escola reforça a visão de que a educação deve se dirigir ao convívio coletivo, ao desenvolvimento humano, no encontro das diferentes culturas, aproximando os povos e os segmentos da sociedade.

Transformar o meio em que se vive passa, necessariamente, pela sala de aula. Já passou a época da alienação aos menos favorecidos. Terá que haver um esforço para conciliar a destinação com a esperança. Um esforço para anular o sintoma da desigualdade e acreditar na capacidade de recuperação.

 

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em dezembro/2006)

FORMAS DIFERENCIADAS DE ORGANIZAÇÃO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

O nosso sistema escolar enseja uma variedade de formas de ensino. Além das escolas públicas, que seguem normas oficiais, há escolas particulares com diferentes formatos, diferentes modalidades, em projetos de permanente construção e reconstrução.

Surgiram na década de 90 as chamadas cooperativas educacionais, uma atividade empresarial dirigida por um conselho de pais-cooperados, eleitos em períodos regulares. A gestão administrativa, incluindo contratação de pessoal, e a gestão  educacional são feitas por profissionais de cada uma das áreas, escolhidos por competência, por mérito, afastando o protecionismo. Essas escolas vêm mostrando alto desempenho, muito boa organização e se multiplicando no Estado de São Paulo. Atestam que escola não é só um espaço físico, mas, sobretudo, resultado de um projeto educacional.

O IBGE, num levantamento feito em 2004, mostrou queda na renda das famílias, com influência negativa na procura por educação diferenciada. As escolas particulares, como outras atividades do setor de serviços, estão enfrentando dificuldades. A crise enfrentada pelas escolas mostra caminhos diferentes em sua solução. Algumas passaram a se preocupar menos com a qualidade do ensino, evitando maiores gastos e se concentrando no fluxo de caixa. Outras não se descuidaram da atividade-fim, tentando resguardar a credibilidade adquirida ao longo dos anos, na tarefa de educar. A inadimplência foi contornada, buscou-se proteger e conservar o seu patrimônio pedagógico, seus professores competentes, comprometidos com a boa educação.

Há grupos de escolas partindo para soluções mais imediatas para resolver o problema de evasão de alunos e a inadimplência. Estão se reunindo em uma “holding” que oferece mensalidades reduzidas, porque os professores são terceirizados. Desse modo, livram-se dos encargos da legislação trabalhista, como a remuneração do descanso semanal e as férias. O professor ganha pelo número de alunos que tem em sala de aula. O proprietário da escola apenas aluga espaço e instalações para uma cooperativa de docentes. A escola vende serviço educacional aos interessados.

A holding, chamada Colégio Brasil Novo, que em 2004 contava com adesão de 49 escolas, definiu o critério de remuneração: 25% da receita fica para os professores locatários e o restante para o locador. A holding propõe que os professores se empenhem e sejam fatores determinantes na atração e manutenção de alunos para evitar sua evasão.

Manter os filhos numa escola mantida por uma holding é uma opção dos pais, que preferem educar os filhos de forma diferenciada, preferindo o ensino privado ao público. A questão que se coloca, em relação a professores itinerantes, locatários de salas de aula, remunerados conforme o número de alunos que possuem, é a validade dessa organização escolar, da atuação docente, em termos educacionais e pedagógicos.

Escola é uma organização formal, necessita de um dirigente que responda por ela, que é responsável perante os alunos, os pais, a comunidade. Não é só um lugar que recebe alunos, mas representa uma filosofia educacional, uma linha pedagógica abrangente a toda instituição, capaz de responder pela execução de seu currículo, mantendo programas de educação compartilhada com toda comunidade escolar. É necessária uma coordenação das atividades docentes, planos pedagógicos interligados, correlacionados, integrados e jamais se colocar em projetos individualizados, representativos de cada professor. O ensino, há muito, deixou de ser  compartimentado.  As fronteiras do conhecimento se diluem cada vez mais na comunicação entre as disciplinas do currículo.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), no seu parágrafo único do artigo 25, define responsabilidade das autoridades educacionais. “Com essa Lei surgiu uma nova concepção de currículo e com ele uma nova concepção de escola. Nova em seu formato, em seu funcionamento, em sua organização, requerendo uma profunda revisão das metodologias de ensino... Revoluciona-se o conceito de currículo, que tem, agora, sua maior característica na flexibilização. A Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê  a flexibilização na organização de cursos e carreiras e por isso torna possível a mudança que vale tanto para as escolas públicas como para as privadas. A idéia central é substituir a estrutura curricular, baseada em disciplinas e carga horária fixa, por outros modos de organização. Na educação básica por: séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios e formas diversas de organização, como módulos, reclassificações de alunos, aceleração da aprendizagem”. (do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), págs. 39 e40).

Após a promulgação da nova LDB, inovações vêm surgindo a cada passo. Contudo, necessário se faz avaliar bem as condições das inovações, o contexto do trabalho desenvolvido, a metodologia aplicada e os resultados obtidos, em termos acadêmicos e educacionais. As mudanças precisam ser bem pensadas, bem regidas, bem estruturadas pedagogicamente.

Uma das principais características da moderna administração escolar é a de avaliar continuamente os resultados, mantendo ou redefinindo seus planos de ação. Estamos vivendo a época do diálogo, tempos de parcerias, especialmente da escola com os pais de alunos, onde as decisões são, em parte, compartilhadas com responsabilidade. Nas mudanças, os pais devem ser esclarecidos e ouvidos em suas reivindicações.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2005)

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