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Artigos Educacionais

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EDUCAR PELO CAMINHO DA RELIGIOSIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Fui solicitada, num encontro educacional, a proferir uma palestra sobre “Educação e Religião”. Após meditar sobre o tema, percebi a amplitude de abordagem que contém.

O ensino religioso, em si, é um aspecto complementar da educação e de importância capital. Ele alcança a educação da alma, da formação do caráter, da noção de solidariedade, dá ao homem a dimensão superior da vida. O importante não é a religião em si, é o senso religioso, sentimento carregado de amor, de justiça, de compreensão.

É preciso reconhecer que o progresso científico-tecnológico não foi acompanhado de um desenvolvimento centrado na pessoa humana. A própria escola foi se tornando uma entidade cada vez mais informativa, deixando de lado a formação do educando, na abrangência de sua educação integral. Hoje, voltamos a insistir, junto ao conhecimento, em uma escola cidadã, formadora de caráter, da participação comunitária.

Quando a escola fala em transversalidade, está falando em temas transversais, assuntos sociais que se incluem no currículo escolar. Ela observa a sociedade, o meio-ambiente, em seus amplos aspectos, ressalta os pontos que os vêm estrangulando, danificando, e se organiza em projetos educativos, socioculturais, em ações de intervenção social. Torna-se um agente ativo de prevenção. Ela se previne, se arregimenta, para afastar agressões inoportunas e violentas.

A escola não pode simplesmente refletir a sociedade; cabe a ela ser um elemento transformador e, ao lidar com mentes em formação, é a instituição mais apta para esse papel. Sabemos que a célula-mater da sociedade é a família, como nos ensinava Coelho Neto, mas a escola é sua grande coadjuvante. É preciso desestruturar o comportamento do ganha-fácil, provocar uma mudança radical no conceito de que, para se alcançar o que se quer, vale tudo. Para essas mudanças, a ciência pouco interfere. São mudanças de valores constitutivos da alma, mudança de mentalidade, o que não é fácil de se conseguir.

Vivemos um novo universo cultural, do prazer imediato, do descartável – usa-se e joga-se fora – da desvalorização dos sentimentos, da esperteza corrupta, do desrespeito generalizado. Respeito é um valor pedindo socorro. O que se presencia é a hipocrisia, a ironia, o deboche. Rompem-se os laços sociais. Aquele que, ao passar pelo outro, ergue os olhos ensejando um cumprimento, dizer um bom dia, uma boa tarde, é visto como ingênuo ou menos importante na escala social. É preciso “se valorizar”, “mostrar-se mais que o outro”, e, para tanto, caminha-se na arrogância, na individualidade, no afastamento das relações sociais, no preceito de que “eu sou mais eu”. Isola-se no egoísmo, no “dá lá, toma cá”.

Há estudos evidenciando a “cultura do individualismo”, tão disseminada na vida social. O professor Francis Kukuyama, no livro “A grande ruptura”, diz que a mesma sociedade que não admite limites em sua inovação tecnológica também “não percebe os limites em muitas formas de comportamento pessoal e a conseqüência é o aumento de crimes, famílias desfeitas, o malogro dos pais em exigir obrigação dos filhos, a recusa do vizinho de ter responsabilidade pelo outro e a retirada dos cidadãos da vida pública. Gosto, prazer, capricho, passam a impor o seu desejo cego”.

Os conceitos axiológicos, a formação da ética, da cidadania -- valores que a sociedade desesperadamente necessita – dizem respeito à alma, em seus componentes de amor, de verdade, de fraternidade. São atributos inerentes a Deus, onde o conhecimento pouco ou nada interfere.

Viver Deus é viver o amor, lato sensu, isto é, na extensão maior. O que verificamos é que muito se fala Deus, muito se reza Deus, mas pouco se vive Deus e esse pouco vem trazendo conseqüências terríveis para a vida humana. Aprendemos, com o sentido de religiosidade, que se somos filhos de um mesmo Pai, temos que nos chamar de irmãos, temos de ser solidários, aprender a dividir, a somar, não a diminuir.

O amor é, também, um aprendizado. Quem não recebeu amor em casa, quem foi hostilizado institucionalmente, dificilmente levará amor à sociedade; engrossará o caótico social. Temos que nos alertar para o amor, para esse grande alicerce da alma, combater sua ausência desde muito cedo, em casa e nas salas de aula.

Essa imagem é configurada na minha poesia: “Refúgio para o mundo infantil”.

REFÚGIO PARA O MUNDO INFANTIL

Saudade eu tenho da candura, da lealdade,
Do sentimento elevado que se via,
Saudade das mãos dadas, da sobriedade,
Do andar calmo que o mundo nos oferecia!

O ar, hoje, é pesado, envolto em hipocrisia,
Dominado por um ideal vazio, sem par,
Amizade ganha peso de joalheria,
Valor se amolda ao tamanho do paladar!

Confiante, bati à porta da instrução,
Esperando encontrar construção mais humana,
Triste foi ver que, no trato do coração,
Instrução, nesse ponto, é o que mais engana!

Diplomado ou rico se moldam nas mesmas barras,
Engrossam o saber, acumulam fortuna,
Mas, se igualam em pobreza, de áridas terras,
Deixando, no cultivo da alma, a maior lacuna!


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2005)

NOVOS TEMPOS, NOVAS METODOLOGIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Idéias revolucionárias surgem no horizonte social, na tentativa de alcançar o comportamento delinqüente. A psicologia, grande aliada da educação, dita novas normas de conduta, para essa nova era que vivemos.

Assumindo a realidade que se nos impõe – a desordenada violência, gente inocente morrendo, assaltos diários, as pessoas com medo de sair à rua, todo mundo sujeito a tomar um tiro em qualquer lugar – a sociedade repensa seus métodos de atuação. Todos sentem saudades das cadeiras na calçada, do bate-papo descontraído entre vizinhos, amigos. Isso ficou no passado e, queiramos ou não, temos que nos adaptar à realidade de um mundo violento e sem força de lei.

A bandidagem é uma realidade social, não podemos ignorá-la. Convivemos com ela no dia-a-dia. Assim sendo, precisamos encontrar caminhos que a alcancem, que a desestruturem. Sociólogos, psicólogos sugerem mudança radical no relacionamento de bandidos com autoridades locais. Chamá-los à mesa de conversação, ouvir o que têm a dizer, o que têm a reclamar e o que propõem. Tentar falar a sua linguagem para poder modificá-la, elaborar planos comuns, na perspectiva de objetivos comuns.

Deixá-los sozinhos já está comprovado que o esquema da violência prolifera. Tê-los, de alguma maneira por perto, pô-los em atividades que resultem em benefícios próprios. Criar iniciativas que sirvam de celeiro de novas idéias no combate à violência. Montar estratégias que os envolvam em ações coletivas, que os despertem para a autovalorização, para o auto-respeito, elevando a auto-estima.

O processo, agora, é da aproximação, da infiltração, da análise das carências que se escondem atrás dos atos da bandidagem. Sabe-se que entre os favelados há uma certa cumplicidade, um forte espírito de coletividade. Os poderes locais, abrindo um canal de diálogo com os líderes infratores, estão abrindo força de comunicação com todo o grupo e podem trabalhar para alterar a situação.

A integração é uma forma de transformar a realidade e esta transformação está intimamente ligada à conciliação, à condição e perspectiva de vida, à valorização pessoal. Atraí-los à participação, a interessar-se por algo que tenha significado e ligação direta com suas vidas. Incorporar a contribuição que possam dar. É preciso mudar a tática, estabelecer um novo padrão de atendimento, dando ao desajustado armas para que possa, ele mesmo, encontrar soluções para seus problemas, para que se sinta capaz de atuar com responsabilidade.  A revolta, o abandono reforçam a bandidagem e, segundo consta, nas favelas, em todo o mundo , existe sensação de perigo, de hostilidade.

Trabalhar na criação de associações comunitárias, de centros de esportes, cuidar da educação, da saúde, dar ao bandido condições de competir. Incentivar procedimentos comuns e de valia, como são, por exemplo, os mutirões. Ensinar as comunidades a se organizarem, a se mobilizarem para conseguir recursos e, sem dúvida, ajudar pessoas que se ajudam é bem mais fácil. Trabalhando os líderes, é possível formar bases comunitárias fortes, capazes de se enveredarem pela senda do trabalho. O entrosamento é uma esperança de transformação. O isolamento significa manter o “status quo” reinante, com tendência a aumentar.

Mostrar interesse, dar suporte, atender reivindicações na criação de políticas integradas, fazem a diferença na vida das pessoas. Sob o aspecto de melhoria de condições de vida, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o projeto força-tarefa que visa melhorar moradias precárias nas favelas, na tentativa de urbanizá-las. O objetivo dessa força-tarefa, uma das dez criadas pela Declaração do Milênio, é melhorar as condições de vida de 100 milhões de favelados até 2020.

Em setembro de 2000, a Declaração do Milênio estabeleceu uma agenda com os principais problemas que impedem o desenvolvimento sustentável, sob três enfoques: paz, meio ambiente e pobreza. O Projeto Milênio criou 10 forças-tarefas, entre elas a que mostra a importância da questão das favelas.

Dada a relevância da situação, espera-se que o compromisso de abrandar a violência não seja apenas do governo, mas da sociedade como um todo, criando no Brasil, dentro da mentalidade exposta no artigo, um pacto social. Pacto que se reverteria em projetos para melhorar as condições de pessoas carentes, marginalizadas, aproximando-as da comunidade.

Estamos começando uma nova era na história da humanidade com a quebra rígida do isolamento existente entre as classes sociais?

Para novos tempos, novas metodologias!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2003)

A CASA COMO ESCOLA DOS FILHOS

Izabel Sadalla Grispino *

Atinge as esferas judiciais e educacionais a discussão sobre a possibilidade de os pais ministrarem, aos filhos, o ensino em casa, sem que tenham que ir à escola e freqüentar a sala de aula. A mídia tem noticiado casos em que pais tentam, através de mandado de segurança, garantir, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o direito de educar os filhos em casa e levá-los a uma escola determinada apenas para realizar as provas, a fim de submeter-se à avaliação escolar.

O ALUNO EMPREENDEDOR

Izabel Sadalla Grispino *

Mudanças no mercado de trabalho, no vínculo empregatício referente a empregos convencionais, têm chamado a atenção de educadores, trazendo inovações, novas ponderações às universidades.

O educando continua sendo influenciado por sua família ou pela escola, pela falsa idéia de segurança, de status que o vínculo empregatício possa lhe assegurar, com um bom salário no fim do mês. Esta influência pode vir carregada, inclusive, de insatisfação pessoal, principalmente, quando valoriza uma relativa segurança, em prejuízo da verdadeira tendência profissional.

A família persiste no modelo do emprego convencional e a escola se retrai na orientação da livre iniciativa, não estimula o desenvolvimento, no estudante, do espírito empreendedor. Esta realidade foi constatada numa pesquisa em que se perguntou a um grupo de alunos, egresso do curso de graduação de uma renomada escola de administração do País, quais eram seus planos, suas ambições. 90% responderam que era conseguir um bom emprego numa grande empresa. Poucos alunos responderam que seu interesse estava em criar seu próprio negócio, no curto ou médio prazo.

Na verdade, não há estímulo para o aluno se desenvolver em trabalho por conta própria.  O  que chama a atenção é o fato de o mercado de trabalho ter mudado e a escola não ter se alertado para o seu papel de criar alternativas, que vão em direção oposta do convencional. É preciso acordar o aluno para a iniciativa pessoal e não só prepará-lo para ser empregado. Prepará-lo para enfrentar os desafios das mudanças do trabalho, estimular o desenvolvimento do espírito empreendedor, especialmente nos cursos de administração de empresas. Estimular no educando o espírito independente, conforme a época vem pedindo.

Universidades estrangeiras têm substituído o curso de administração geral pelo curso de administração empresarial, como a Universidade de Harward, dos Estados Unidos. A universidade processou a mudança depois de verificar que, em 1999, mais de 25% das matérias facultativas escolhidas pelos alunos eram do departamento de empreendimentos, que há 20 anos mantinha duas classes. A universidade não deixou de preparar executivos para a IBM, General Motors, Ford e outras grandes corporações, mas passou a preparar um número crescente de alunos, interessados em trabalhar em médias e pequenas empresas, onde as habilidades e conhecimentos necessários são diferentes. Ela encara o aluno como um produto que oferece ao mercado, a um mercado que não pede o mesmo produto de décadas atrás.

A escola precisa trabalhar e preparar para a diversidade, numa busca permanente de perguntas e respostas, ajustadas ao trabalho. No mundo todo, como em nosso País, as médias e pequenas empresas, os empreendedores, aumentam a cada ano, de modo considerável, e pedem um profissional mais ágil, mais ajustado à rapidez do mercado, menos preso às receitas e manuais de administração tradicional.

Os empresários estão apostando nessa nova tendência do mercado e praticamente anulando escolas tradicionais, que continuam na base da administração geral, baseada em fluxogramas, organogramas O&M. Escolas pouco antenadas ao comércio e que não se deram conta que cliente e mercado estão mudando a cada dia.

Especialistas do assunto destacam pontos importantes para serem considerados pela escola, quais sejam:

– “Educação e desenvolvimento são processos permanentes.

– Eles não terminam com o diploma ou formatura no final do período letivo. Também não se limitam às ativi-

dades em sala de aula ou presença de um professor.

– É preciso que se entenda que ninguém desenvolve ninguém. O processo é interior e o aprendizado decor-

re das disposições das pessoas em aprender. E se aprende tanto através da observação, da leitura,  dia-

logo, reflexão e tantas outras formas que aguçam nossos sentidos...”

Esses conceitos representam consciência de situação. Escolas e famílias devem se libertar da falsa idéia de segurança e status do vínculo empregatício. Devem encarar a modernidade, que vem pedindo uma nova linha de trabalho, desembocando no empreendedorismo, na necessidade de se formar um aluno empreendedor. Um aluno hábil em tomar iniciativas, em encontrar soluções práticas e rápidas para os problemas que possam surgir.

O desenvolvimento social muda a face da escola. As mudanças que ocorrem no seio da sociedade, no mercado de trabalho penetram o recinto escolar, força uma atualização na correspondência de respostas às necessidades do momento. Traz, entre outros, o desafio de inclusão social de jovens no trabalho, dentro do modelo de desenvolvimento econômico do País. A ascensão social está muito ligada à predisposição do indivíduo, ao seu potencial criador. A escola precisa agir como um leque, formar recursos humanos, mão-de-obra qualificada, tendo em vista as necessidades amplas do mercado, das empresas, da sua produtividade e das tendências profissionais do educando. Acionar metodologias diferenciadas para encarar a renovação, a mobilidade social requerida pela época.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2004)

A DIFÍCIL ARTE DE EDUCAR

Izabel Sadalla Grispino *

No meu artigo “A outra face da educação” abordei a crescente onda que se forma de crianças e jovens malcriados, em desencontro à boa educação. O grande mal-estar gerado leva os próprios jovens a solicitar o ensino da ética, da moral, nas escolas de ensino médio, segundo uma pesquisa realizada pela U.F.P.A.

UM OÁSIS NO MEIO DO DESERTO

Izabel Sadalla Grispino *

Num cenário de desolação do nível de ensino de grande parte das escolas oficiais, surgem, esporadicamente, escolas abraçando experiências educacionais promissoras, alentadoras. São escolas que não nos deixam esmorecer e nos fazem acreditar que a reabilitação do ensino pode ainda ser real.

É preciso haver curiosidade, vontade de conhecer, de aprender. Aparentemente, uma escola igual às demais torna-se realce nos processos de ensino-aprendizagem. É uma escola que tem muito a mostrar, a ilustrar, o passar experiências e ajudar os professores no trajeto da sua prática didático-pedagógica.

A pesquisadora educacional Jane Wreford, a serviço do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, analisou várias escolas públicas da Grande São Paulo, em 2002. Meio a muitos desencantos, como a falta de preparo do professor da rede oficial para atrair a atenção dos alunos, ela se deparou com uma escola estadual, na periferia de São Paulo, que computou excelente. A Escola Parque Piratininga II, escola de comunidade pobre, em Itaquaquecetuba, extremo leste da metrópole, chamou-lhe a atenção pelo bom estado de conservação e pelo seu processo de aprendizagem.

Logo, ao entrar, observou um salão de entrada pintado, decorado com trabalhos dos alunos, mobiliado com cadeiras e mesa de junco, aspecto de sala de espera. A escola possui uma organização pedagógica capaz de servir de modelo. Nas paredes da sala dos professores, havia gráficos expostos, um para cada série, que mostravam as mais recentes avaliações de professores de cada matéria. Ao observá-los, notavam-se as áreas preocupantes por classe e por disciplina. Junto aos gráficos, no lado oposto, estavam os planos de trabalho de cada uma dessas áreas.

A diretora da escola conta com indicadores de rendimento próprios. O ensino é planejado e avaliado. Os novos professores são treinados para usar método de ensino interativo, aplicar projetos que atraem o interesse dos alunos e possibilitam trabalhos originais. Ficam à disposição dos professores substitutos os dados sobre cada classe, com planos de ensino em andamento e cópia da ficha de cada aluno.

Os alunos depositam sugestões numa caixa que serão, semanalmente, avaliadas pelos professores. Os períodos escolares são organizados por faixa etária, propiciando um convívio mais harmonioso e salas de aula montadas com materiais e livros apropriados. Nelas encontram-se expostos trabalhos dos alunos, desenhos, numa apresentação agradável. Incentivam-se os alunos a permanecerem na escola após o término das aulas. A biblioteca da escola, embora modesta, com cerca de 6 mil livros, é muito bem organizada. Todos os livros são identificados por títulos, na lombada, e expostos de modo atraente. A biblioteca fica aberta aos alunos e à comunidade por todo o horário de aula. Os atendentes são voluntários, entre eles alunos mais velhos, fora do período de aulas.

Os maiores problemas, relatados pela direção, são a grande rotatividade e as faltas dos professores. A maioria vem de outras regiões da cidade, sem incentivo para trabalhar na periferia. Ao lidar com tantos funcionários novos, a escola despende muito tempo treinando-os para o método adotado.

Esse treinamento dado a todos os professores, novos e antigos, é uma forte característica positiva, da escola, a ser ressaltada. Outras características são a ênfase ao trabalho de equipe, à auto-estima dos profissionais e  currículo e gráficos da avaliação dos alunos, expostos nas paredes da sala da diretoria.

Apesar de a escola estar inserida numa região assolada pela violência, não havia paredes pichadas. A escola, ao trabalhar a comunidade, passou a ser respeitada e protegida por ela. Os alunos limpam a sola do sapato, tiram o barro quando chove, para entrar na escola. São alunos envolvidos com a aprendizagem, não faltam às aulas e interessam-se pelo material didático; muitas salas têm TVs e vídeos, bastante usados pelos alunos. Os professores aprendem que nessa escola “as aulas precisam chamar a atenção dos alunos”. Vem daí, em grande parte, a presença maciça dos alunos em sala de aula. O nível de conhecimento dos alunos é tido como muito bom, assemelhando-se ao das escolas particulares. Cultiva-se um ambiente escolar cooperativo, evitando a competição, gerando calma, ausência de brigas. A orientação dada é para que todos os alunos se sintam igualmente importantes na escola.

O rendimento dos alunos é discutido em reuniões semanais e mensais, em conselhos formados por professores e estudantes. O aluno participa da avaliação e conscientiza-se da importância de estudar.

A escola aprimora-se na oferta da merenda escolar. É feita com alimentos frescos, de qualidade e preparada diariamente. Servem-se verduras, legumes e frutas todos os dias. Carne e ovos regularmente. A higiene da cozinha e do refeitório é notável. É oferecido aos alunos um complemento nutricional que os revigora e os deixa mais aptos às aulas. Os alunos elogiam a comida que comem.

Dentre os projetos da escola, há projetos-piloto destinados a promover a inclusão social, fortificar as relações comunidade/escola, criando entre elas cumplicidade e ajuda mútua. Os pais começam a entender a importância da participação direta na escola do filho, passando, inclusive, a ela a sensação de mais segurança. Quando os filhos têm problemas no estudo estes são discutidos por pais e professores, evitando que um culpe o outro, mas fazendo com que cada um dê  o melhor de si para a aprendizagem do aluno. Cria-se um pacto de responsabilidade mútua pelo comportamento e pela aprendizagem do aluno.

Essa é uma escola que deve ser preservada. É uma referência educacional que precisa ser cuidada, referência que reverterá em benefício dos estudantes, recursos de que a nação precisa para se desenvolver.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em março/2004)

PARÂMETROS DE QUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

O Estado de São Paulo, por sua Secretaria Estadual da Educação, realiza mudanças no seu sistema de ensino. Iniciou, em maio p.p., com um novo sistema de avaliação. Todas as escolas da rede estadual passaram a adotar um mesmo padrão de médias bimestrais, com notas em números inteiros que vão de zero a 10. Os valores decimais são arredondados para cima. A proposição foi mudar a avaliação da progressão continuada, do ensino fundamental, que passou a ser de cada 2 anos e não mais de 4.

Recentemente, um mês depois, em junho, a Secretaria montou um esquema de controle de qualidade de ensino: a partir de 2008, o ensino médio receberá um material didático, elaborado pelo Estado, para cada uma de suas séries. Após essa primeira etapa, a Secretaria fará o material para o ensino fundamental, de 5.ª à 8.ª série; uma versão para professores e outra para alunos. Para a 1.ª à 4.ª série, o Estado vai utilizar o material já produzido pela Prefeitura de São Paulo, com seu enfoque em leitura e escrita.

Essas preparações fazem parte do projeto intitulado “Percurso de Aprendizagem”. O objetivo do projeto é delinear o conteúdo mínimo que os alunos das escolas públicas devem aprender, conteúdo que será cobrado em exames, como no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), avaliação externa à escola que visa aferir o rendimento escolar da rede pública de ensino.

Os materiais didáticos têm como suporte os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) no fim dos anos 90. Os Parâmetros foram criados para servir de referência, de orientação, à elaboração de currículos às escolas públicas e privadas do País.Fornecem recomendações gerais para as disciplinas, enfatizam a ministração do conteúdo, sem fim em si mesmo, trabalhado por meio do desenvolvimento das competências e das habilidades dos alunos.

Os materiais elaborados pelo Estado abordam áreas de estudos semelhantes às dos Parâmetros. Não são divididos em disciplinas e sim em três grandes áreas: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, que incluem matemática, física, química e biologia; Ciências Humanas e suas Tecnologias – história, geografia, sociologia e filosofia; e Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – língua portuguesa e literatura, artes, educação física, língua estrangeira.

Esses materiais serão como guias e trarão síntese de conteúdos, indicações bibliográficas, recomendações de estudos e exercícios. Segundo a Secretaria, eles não substituirão o livro didático. Diferentemente dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), o material, elaborado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, vai além das recomendações gerais para as disciplinas, vai conferir, posteriormente, em avaliações, sua aplicabilidade.

O professor deverá fazer uma adequação do livro didático ao novo material, processo, hoje, nada fácil ao professor. Buscam-se caminhos revigoradores do processo ensino-aprendizagem, mas essas inovações cairão em terreno fértil, adubado para a nova colheita?

Continua-se o processo de reformar a casa pelo teto, deixando as paredes trincadas, o alicerce abalado!

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em agosto/2007)

ESCOLA E FORMAÇÃO DE VALORES, POR SUA EDUCAÇÃO INTEGRAL

Izabel  Sadalla Grispino *

Tem-se hoje que a evolução humana é basicamente cultural. O fator genético permite posturas biológicas iguais, mas só é possível alterar o futuro de uma criança investindo em sua educação. Segundo estudos do Genoma, tudo o que somos tem razão genética, porém, costumes, características de vida são incorporados a partir de uma herança cultural local.

Educação é um processo constante de renovação. Educador é a pessoa compromissada com o outro. Para se achegar ao outro e ajudá-lo, deve inserir-se num mundo que exige atualização constante, revisão sucessiva de métodos e técnicas. Ele tem a função da pesquisa, da reflexão contínua sobre sua prática pedagógica do dia-a-dia, colocando-a a serviço da exigência atual.

O ensino escolar não pode estar desvinculado do que acontece no mundo. O mundo ficou muito complexo e tem, com razão, intimidado o professor. Transformar a escola é uma grande revolução. O professor, em geral, tem deficiência de formação, tem dificuldade para adequar o programa à realidade vivida pelos alunos, e fica, assim, preso ao livro didático. Ele é um profissional gravemente injustiçado, desvalorizado. Aviltantes salários forçam-no a uma sobrecarga de trabalho, roubando-lhe tempo precioso à sua reciclagem. O próprio MEC revela que baixos salários, falta de infra-estrutura das escolas e baixa qualidade de vida constroem o quadro de fracasso escolar que se vê hoje.

Johan H. Pestalozzi (1740-1827), um clássico da Pedagogia e considerado o pai da educação integral, dizia: “O amor é o instrumento da educação”. É esse amor que inspira o professor, que o leva a sublimar sua função, caminhando em correspondência ao pensamento: “Mesmo correndo entre pedras, as águas cumprem sua missão. As árvores plantadas são testemunhas disso”.

Recentes pesquisas têm mostrado que a grande maioria das escolas vem-se negligenciando da parte formativa do aluno, com reflexos negativos no comportamento social. A escola tornou-se uma entidade repetitiva de informação, sem priorizar a educação integral, nos aspectos: cognitivo, afetivo, psicomotor. A educação integral engloba comportamento e conhecimento. A construção do conhecimento, o desenvolvimento das habilidades, devem processar-se paralelamente à formação do educando. Formação das capacidades cognitivas de caráter geral e formação de valores, de ordem ética, moral e religiosa.

A abordagem holística do homem é hoje prioritária em todos os setores. No diagnóstico da doença, examinam-se componentes genéticos, emocionais e ambientais. Saber ler, escrever, contar, raciocinar, é pouco, tem que haver a cultura mais profunda da alma, do sonho, da criatividade.

A escola precisa repensar sua atuação e, num processo de reeducação, tornar-se uma unidade formadora de caráter, de cidadania.

Cidadania não é ensinada como uma disciplina, ela se aprende na vivência, na convivência. É um exercício que se conquista na exigência da ética, da justiça. É o respeito que se tem pelo outro, por sua identidade, pelos bens alheios, pelo patrimônio coletivo, pelo sentido de igualdade de condições. Implica em comportamento responsável, em noção de limite, dentro do preceito de que o direito de cada um termina onde começa o do outro. Já dizia Rui Barbosa: “Educa-se muito mais pelo exemplo que pela doutrina”.

Estamos vivendo uma sociedade violenta, individualista, arbitrária. Formam-se grupos oportunistas, que não têm outra finalidade senão a de se promover e a de tirar proveito do outro. O outro só existe como elemento de conveniência. Uma sociedade onde os fins justificam meios ilícitos, desumanos, onde Deus é uma presença vaga, indefinida, distante. Uma sociedade sem luz, sem fé.

É, principalmente, neste quadro social que se pensou na volta do ensino religioso como obrigatório, não mais como facultativo, conforme reza a Constituição.Por tudo isso, começa haver uma preocupação de educadores de que valores sociais, como amizade, amor, solidariedade, cooperação, lealdade... devam fazer parte dos currículos escolares. Montam projetos que vêm de encontro à proposta do MEC, quando fala em currículos transversais. Permeiam a educação com temas transversais, como política, sociedade, sexualidade, droga, ética, cidadania e outros.

São temas tratados não como disciplina específica, mas como um espaço a ser discutido em sala de aula, por um componente ou por vários. Dependendo da abrangência do tema, projetam atividades interdisciplinares, como um leque de assuntos ofertados. Cada disciplina encontrará um conteúdo correspondente.

É a escola exercendo sua função social na orientação dos jovens, na formação de uma sociedade mais humana, mais ordeira, criando vínculos de inter-relações humanas.

Até recentemente, o grande objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro. Hoje, o grande intento é prepará-lo para o presente, para a resolução de seus problemas imediatos, de suas necessidades atuais. Preocupa-se com sua inserção em uma sociedade produtiva, ética, solidária, capaz de ajudá-lo, de maneira saudável, a se realizar. A escola faz uma ponte, ligando a percepção do aluno entre o que aprendeu e a vida. Ele se apodera do saber e aplica-o à sua vida do dia-a-dia, vivencia na escola comportamentos salutares e os desenvolve na comunidade, na sua vida social. A  aprendizagem vai se processando a partir de sue próprio interesse e das condições ambientais que o cercam.

A escola trabalha o presente, ousa, alça vôos, para alcançar o futuro. Busca integrar-se no conceito apregoado pelo consultor americano Michael Hammer: “O segredo do sucesso não é prever o futuro. É preparar-se para um futuro que não pode ser previsto”.

Para tanto, diferentemente do passado, o aluno não consome, mas produz o conhecimento e, assim, como o professor, torna-se um pesquisador permanente, um observador zeloso das relações interpessoais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2000)

HABILIDADES DO ALUNO SUPERDOTADO

Izabel Sadalla Grispino *

O artigo “Alunos de desempenho excepcional” provocou interesse de algumas escolas. Queriam um detalhamento de como reconhecer o superdotado, pelo comportamento e pelas habilidades demonstradas. Pesquisando mais sobre o assunto, surgiu uma sistematização esclarecedora.

Esse interesse das escolas é sumamente inteligente e salutar. Para exemplificar, citarei os Estados Unidos, onde a prática de investir em jovens talentos tornou-se uma política de governo, já no século passado. Os dados revelados são de que, em 1957, quando os russos deram a largada à corrida espacial, ao lançar na órbita terrestre o Sputinik, o primeiro satélite criado pelo homem, colocaram em xeque a supremacia científica americana. Como reação, os Estados Unidos empreenderam uma política feroz de caça a seus melhores cérebros, que perdura até hoje.

Isso reverteu em conhecimento avantajado. Um estudo feito em 80 países por economistas da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que as políticas de formação de talentos empreendidas pelas nações mais ricas do planeta foram, em muitos casos, a chave para sua prosperidade econômica.

Investir em alunos de altas habilidades significa enriquecer a sociedade, dando-lhe meios para entrar na concorrência altamente proveitosa. Traz vantagens imediatas aos estudantes superdotados e a longo prazo beneficia o país.

A escola deve se preparar para receber esses alunos. Deve haver, por parte dela, receptividade a eles, alternativas pedagógicas criativas e orientação aos professores. Os professores têm necessidade de cursos, estar preparados para esse atendimento. Não vai acontecer a inclusão do superdotado se o professor não receber uma capacitação, um apoio técnico-didático competente. Muitos se sentem despreparados e se valem da ajuda de parcerias com faculdades, secretarias de Educação, também, de professores itinerantes, que trabalham com alunos de altas habilidades.

O professor não deve supervalorizar o aluno superdotado perante a classe, colocá-lo num pedestal, criando situações de rivalidade, de discórdia. Deve tirar de todos os alunos o que eles têm para oferecer. Desenvolver o superdotado sem desprezar os demais, afinal todos têm talento, a diferença está nos níveis, como diz Vigotsky. Criar um ambiente amigável, porque o superdotado tem que conviver com seus pares e deve haver uma adequação, um entrosamento, que afastem o preconceito.

Essa é uma das preocupações da gestão inclusiva, em como atender as peculiaridades do superdotado sem discriminar os demais.

Os professores, geralmente, têm dificuldades de identificar alunos como superdotados, mas apontam os que aprendem mais rápido, são mais curiosos, perguntam demais, características que levam ao superdotado. Os especialistas costumam apontar 6 habilidades:

• Intelectual geral: curiosidade intelectual, poder excepcional de observação, capacidade de abstração mais desenvolvida e atitude de questionamento;

• Talento acadêmico: desempenho excepcional na escola, ótima performance em testes de conhecimento e alta habilidade para tarefas acadêmicas;

• Pensamento criativo: idéias originais e divergentes, habilidade para elaborar e desenvolver suas idéias, capacidade de perceber de muitas formas diferentes um determinado tópico;

• Liderança: líderes sociais ou acadêmicos de um grupo e que se destacam pelo uso do poder, autocontrole e habilidade em desenvolver uma interação produtiva com os demais;

• Artes visuais e cênicas: habilidades superiores para pintura, escultura, desenho, filmagem, dança, canto, teatro e instrumentos musicais;

• Psicomotora: proezas atléticas e também o uso superior de habilidades motoras e refinadas e habilidades mecânicas.

Para identificar uma criança superdotada, os especialistas no assunto indicam as seguintes características:

• Aprende mais rapidamente que seus colegas da mesma idade;

• Faz muitas perguntas, demonstrando uma grande variedade de interesses e curiosidades;

• Tem um vocabulário inusitadamente avançado para sua idade ou série, riqueza de expressão, elaboração e fluência;

• Tem um senso de humor altamente desenvolvido;

• É persistente no empenho em satisfazer seus interesses;

• É crítica de si mesma e dos outros;

• É sensível a injustiças, tanto em nível pessoal quanto em nível social;

• Não é propensa a aceitar afirmações, respostas ou avaliações superficiais;

• Apresenta desempenho acima da média em testes de inteligência.

Trabalhar esses alunos não é fácil, mas necessário. Confirmam os especialistas de que se esse potencial não é desenvolvido, muitas vezes, ele pode se perder na fase adulta, por falta de incentivo. O superdotado é um grande desafio para o professor, que se torna pólo de referência do desenvolvimento desse aluno. Deve ser treinado para identificar as crianças com habilidades especiais, reconhecer e responder à diversidade, acolher as diferentes potencialidades, características, ritmos de aprendizagem. As cobranças não devem ser acima do normal e, principalmente, não se pode perder de vista de que, acima de tudo, se trata de crianças.

Enquanto que no Brasil o Ministério da Educação (MEC) não incentiva a existência de escolas especiais para superdotados, apenas estipula a convivência deles em escolas regulares, nos países avançados, a busca de cérebros é preceito fundamental. Esses alunos têm acompanhamento intensivo de uma equipe de pedagogos e de professores treinados, capacitados para lidar com o superdotado. A atualização do professor, sua competência e seu devotamento são requisitos obrigatórios.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2005)

AO JORNAL “A CIDADE”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “A Cidade”, deste valioso instrumento de comunicação que Ribeirão Preto aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, há, exatamente, um ano, venho publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporcionou-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade ribeirão-pretana, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Neste ano que se finda, propus-me a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional das escolas oficiais.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Inúmeros conceitos nele passei, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “A Cidade” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e ilumine a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Ribeirão Preto, já é tradicional, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “A Cidade”, que beira um século de existência, nas pessoas da família Camargo, de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população. O jornal “A Cidade” cresce com Ribeirão e com ele se faz pioneiro na região. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente de que é marca  consagrada.

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Ribeirão Preto. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos. A todos, meus versos sobre o Terceiro Milênio.


TERCEIRO MILÊNIO, ANO 2001

Izabel Sadalla Grispino

Surge um novo milênio, uma outra aurora,
A ciência comprovando Jesus,
Ventos do infinito indicam que agora
É chegada a hora de viver a luz.

Demos um salto para o espiritual,
Conciliamos ciência e fé,
Confraternizamos real e virtual,
A razão se achegou à Santa Sé.

A face de Deus deixa o lado escuro,
Terceiro milênio é porta de frente,
Mostra o claro que vem pelo futuro,
Ressalta o homem na alma e na mente.

Que saibamos entender o momento,
Que em coro, rezemos à Mãe Maria,
Ligando oração e comportamento,
Livraremos o mundo da orgia.

O homem terá um novo semblante,
Virá aterrorizante avanço,
A ciência criando um semelhante,
A bioética entrando em balanço.

A todos vocês, queridos leitores,
Que esse dois mil e um lhes seja risonho,
Caminhos abertos, muitos amores,
Que se realize seu mais lindo sonho.

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2000)

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A época atual tem sua atenção voltada para a sociedade. A desordem social, o alarmante desnível econômico, estão hoje, mais do que nunca, exigindo a necessidade de formar cidadãos conscientes. Uma comunidade consciente de seus direitos passa a agir na sociedade que, articulada, se mobiliza em direção à participação, à solidariedade, à inclusão. O indivíduo começa a entender que sua responsabilidade vai além do pessoal, do familiar, a ter consciência de que a sociedade não é compromisso só do governo e que todo cidadão é governo. A ter consciência de que sociedade é um organismo vivo, mutável, de desejo de realização, de auto-afirmação. A ter consciência da ajuda que necessita para se auto-realizar, criando recursos, meios, condições para isso e não, apenas, estender-lhe a mão, no sentido de filantropia, de paternalismo.

O indivíduo entende que a responsabilidade social deve se traduzir em crescimento para a cidade, em comunidades de sucesso. Entende que pode e deve agir na sociedade, dentro de seu universo, desenvolvendo o sentido de cidadania. Passa a viver no entendimento de que todos têm direitos, assim como têm deveres, igualdade de oportunidades, condenando regalias e privilégios.

O cidadão se forma desde que nasce. A criança, sentindo-se respeitada pelo adulto, tendo suas necessidades atendidas, vai adquirindo a noção de respeito e o respeito vai fazer parte de sua vida. Uma criança que vive, por exemplo, o drama de ter que se afastar da escola para trabalhar e poder comer, como vai entender democracia ou cidadania? Se gritar, apelar, não será ouvida e, não sendo ouvida, não ouvirá também, transgredirá. Essa criança que se vê anulada em seus direitos, em suas necessidades básicas, não entenderá de respeito.

Conceituar cidadania e não praticá-la é perder, para o aprendiz, o seu significado. São pelas atitudes dos adultos que as crianças passam a entender o conceito de justiça. Quando ouvidas, atendidas, vão se colocar na sociedade democraticamente, desenvolver a sociabilidade. É a experiência de vida quem vai lhe ditar a idéia de cidadania e, como reflexo dessa idéia, ela repetirá as atitudes, passando-as avante. O exemplo do adulto é fundamental. Se o adulto é respeitoso, solidário, a criança o terá como referência.

A chave da responsabilidade social está nos atos praticados pelos adultos; se esses atos passarem uma imagem favorável à prática do bem comum, do compromisso com o outro, essa imagem propagar-se-á, do mesmo modo o seu contrário. Além da ação consciente, o adulto deve aprender a ouvir, principalmente em contato com os jovens. Conversar, dialogar, formular normas conjuntamente, não impondo, mas conscientizando, para que esses jovens se sintam responsáveis por suas atitudes. O contato com o adulto determinará sua visão de mundo, seu relacionamento com a sociedade.

A escola contribui com a responsabilidade social, desenvolvendo a consciência crítica da realidade, a compreensão de que o interesse social é mais importante que o individual, a fazer o aluno ver a realização como fruto do esforço comum. Ela deve se tornar um espaço de realização, criar formas de intervenção social, despertando interesse por atividades sociais.

A adolescência é uma fase em que o jovem é idealista, tem necessidade de acreditar em alguma coisa, a fase em que quer mudar o mundo, quando abraça os ideais de liberdade e de igualdade em profundidade. É o momento de a escola canalizar essa energia para ações produtivas no seio da comunidade, montando projetos que o envolva nessas ações. O jovem na adolescência, como diz a psicologia, deixa de ser filho do casal para ser ele próprio e as instituições de ensino devem ser catalisadoras desse potencial juvenil.

Cidadania é reflexo, é vivência, cabe aos pais, aos educadores dar o exemplo no entendimento de que só existe cidadania praticando-a. Começa em casa, na escola, com a educação recebida e vai para a rua com a prática do respeito. Educar para agir com consciência todos os dias; cobrando deveres das autoridades, cuidando da cidade, respeitando as regras sociais. Assim, a criança compreenderá que nasceu para viver e não sobreviver, tendo seus direitos respeitados.

Um aspecto que fere a consciência e imprime fortemente o traço da injustiça social é o trabalho infantil. Crianças e adolescentes que trabalham freqüentam menos a escola. No passado, esse número foi maior, mas, mesmo assim, hoje ainda é grande. Há trabalhadores infantis nas áreas urbanas e rurais. Pesquisas têm mostrado que cerca de metade das crianças e adolescentes que estão trabalhando utiliza produtos químicos, máquinas e ferramentas, com riscos constantes de sofrer acidentes. Esta parcela é maior entre os trabalhadores do campo, que somam 43% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que têm alguma atividade.

Também, serviço doméstico, distância e falta de vagas são outros motivos que afastam crianças e jovens da escola. Segundo O IBGE, o nível de escolaridade, entre pessoas de 5 a 17 anos, cresce de acordo com a faixa do rendimento familiar. Em famílias que ganham até ½ salário mínimo, esta faixa ficou em 83,1%. Já em famílias com rendimento até 10 salários mínimos ou mais, o nível de escolaridade sobe para 97,9%.

A má distribuição de renda responde pela sofrida desigualdade social. Crianças que deveriam estar na escola ou brincando arcam, prematuramente, com a responsabilidade de sustentar-se e ajudar no sustento da família.

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos, a menos que seja na condição de aprendiz. São aprendizes os adolescentes que recebem formação técnico-profissional, que deve ser dada sem prejudicar o ensino regular. Os maiores de 14 anos que trabalham têm assegurado o seu estudo. Os aprendizes maiores de 14 anos devem receber direitos trabalhistas como os adultos. Nenhuma criança ou adolescente pode trabalhar à noite, nem realizar atividades perigosas ou em ambientes que sejam prejudiciais ao seu desenvolvimento. O Estatuto também garante o direito à educação: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, o direito de ser respeitado pelos educadores, o acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.

A realidade social é pesada, profundamente desigual. Entre nós, um terço da população vive na miséria. O pressuposto da cidadania é a igualdade de direitos e diante de tamanha desigualdade, para conquistá-la, haverá ainda muitas léguas a percorrer, muita estrada pela frente. Contudo, estaremos dando uma grande contribuição se educarmos a criança e o jovem dentro dos princípios de justiça, de ética, de solidariedade, se os ensinarmos a enfronhar-se nas causas sociais, aprendendo, na prática, o sentido de democracia e de cidadania.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2003)

ALTERNATIVAS PARA O ENSINO PÚBLICO

Izabel Sadalla Grispino *

Escolas de cidades do interior, na busca da qualidade do ensino, começam a empregar metodologia e material didático de escola particular, na rede municipal, dotando-as de sistema didático do ensino privado. Em vez dos livros enviados pela Secretaria de Estado da Educação, essas escolas usam apostilas do sistema adotado.

Pela pesquisa, mais de 30 prefeituras paulistas, que municipalizaram o ensino fundamental, substituem os livros, comprados com os recursos do Ministério da Educação (MEC) pelas apostilas. O MEC envia às prefeituras, que administram a rede de ensino fundamental, livros didáticos e de literatura. São livros avaliados pelo Ministério e títulos escolhidos pelas próprias escolas. No Estado de São Paulo, especificamente, o MEC remete os recursos à Secretaria Estadual, que compra e envia o material.

Nas prefeituras conveniadas a sistema particular de educação as escolas recebem apenas os livros paradidáticos, servindo de apoio às apostilas.

As prefeituras, através de parcerias, firmam contratos com sistemas particulares de educação. Três sistemas da iniciativa privada vêm firmando convênio com as secretarias municipais: o sistema COC, o maior deles, o Positivo e o Objetivo. Além do material, esses sistemas montam o projeto de ensino, encarregam-se de capacitar os professores para o uso do material e fazem o acompanhamento pedagógico das escolas públicas. Os três sistemas fornecem as apostilas às escolas e esse material não passa por avaliações do MEC, nem da Secretaria Estadual da Educação, antes de chegar à sala de aula.

As prefeituras, para as parcerias com o sistema privado, pagam os serviços prestados com uma parcela do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (Fundef). Pela Lei 9.424, que instituiu o Fundef em 1998, 60% dos recursos são destinados à remuneração dos docentes. Os 40% restantes podem ser aplicados na construção, ampliação, reforma de escolas, capacitação de pessoal e compra de material.

Ao que tudo indica, os convênios das prefeituras com os sistemas privados de ensino vêm tendo uma repercussão positiva no conceito da população. Os alunos aprendem mais, os pais sentem-se reconfortados ao saber que o filho usa o mesmo material, recebe o mesmo ensino das boas escolas particulares. O ensino se mostra mais estruturado, mais qualificado e a auto-estima do aluno mais elevada. O método é mais dinâmico e professor e aluno devem se adaptar ao novo ritmo. O ensino médio continua a seguir a metodologia curricular do Estado. A inovação vem sendo processada apenas nos graus inferiores do ensino.

Contudo, o MEC vê esses convênios com alguma reserva. Sugere que se analisem bem as apostilas adotadas para se certificar da qualidade. Também contesta o fato de o treinamento, pelos sistemas, estar ligado ao uso de um material didático. "Preferia uma capacitação na qual os professores aprendessem a alfabetizar e não simplesmente sobre como usar o material”. “Hoje, os prefeitos podem contratar capacitação de universidades públicas que não relacionam seu trabalho com qualquer material específico”, diz o presidente do Conselho Estadual de Educação, Francisco José Carbonari.

A presidente da União dos Dirigentes Municipais, Vera Lúcia Hilst, alerta que o assédio às prefeituras que municipalizaram o ensino fundamental vem sendo constante por parte dos sistemas privados e aconselha: “Há coisas boas e outras nem tanto. Recomendamos que as prefeituras avaliem o conteúdo pedagógico do projeto e vejam se haverá ganhos qualitativos”.

Há prefeituras que rejeitam a parceria por entenderem que os sistemas particulares enfocam muito o trabalho do vestibular, e mais a área de exatas, e deixam a formação do educando mais de lado, como cidadania e educação para a vida. Mas, o que se constata, de um modo geral, é a validade desses convênios, com apurada melhoria da qualidade do ensino. Segundo resultado de pesquisas, eles conseguem elevar o nível técnico e profissional dos professores e obter um resultado mais qualificado do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em dezembro/2002)

UNIVERSITÁRIOS EM EXEMPLO DE AMOR AO PRÓXIMO

Izabel Sadalla Grispino *

Nunca é demais repetir que educação é mola-mestra do desenvolvimento humano e social, embrião que se ramifica por todas as atividades do saber. Por isso, a escola mais que um centro de estudo deve transformar-se num centro educativo de formação, de diálogo, de orientação, de convivência comunitária. É preciso resgatar a importância da escola na abrangência de ações que envolvem todo o comportamento humano.

A Síntese de Indicadores Sociais de 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em abril de 2004, assinala que educação influi no índice de morte na infância. O IBGE encontrou em 2000, entre mulheres com nível de instrução superior a 8 anos, uma taxa de 20 óbitos por mil nascidos vivos; no grupo com até 3 anos de estudo, a mortalidade foi muito maior: 49,3 por mil.

O Nordeste apresentou quadro mais revelador: a taxa, entre os filhos de mulheres de baixa escolaridade, chegou a 70,3 mortes por mil, uma diferença de 151% em relação às crianças de mães com mais de 8 anos de instrução. Mostra o relatório que no Brasil as taxas de mortalidade infantil – menores de 1 ano – e  na infância estão muito acima do nível considerado “civilizado”, ou seja, 5 óbitos por mil nascidos vivos. Em 2002, o índice entre crianças de 1 a 364 dias foi de 27,8 por mil. Já entre os menores de 5 anos, o indicador foi ainda mais elevado: 34 por mil.

Conclui o estudo do IBGE que o caminho para a redução de mortes na infância – menores de 5 anos – passa pela educação da mãe. O nível educacional influencia a atitude da mulher em relação ao acompanhamento da gravidez, à higiene e à saúde da criança.

A consciência do valor da educação toma vulto. Parece que estamos conseguindo despertar os estudantes para a realidade social. A reativação do Projeto Rondon, abordado por mim no último artigo, partiu da União Nacional dos Estudantes (UNE). A visão de mundo está se alargando, as necessidades sociais se visualizando e os estudantes começam a chegar às comunidades carentes. Ao querer ser-lhes útil, idealizam projetos, no sentido de colaborar com elas, desenvolvendo ações educativas, preventivas de áreas, como da saúde.

Tomamos conhecimento, através da mídia, de jovens universitários, alunos da Faculdade de Farmácia de Araraquara (Unesp), que se embrenham pelas sendas das comunidades carentes. Sentem que a faculdade propicia pouco contato com a realidade e elaboraram, eles mesmos, programação de intervenção social. Receberam treinamento no Centro de Referência do Jovem e do Adolescente, da Prefeitura, e entenderam que esse projeto não poderia ser confundido com os programas assistencialistas, como, por exemplo, doação de alimentos. Interessam-se pela saúde da população e, num grande gesto de humanidade, colocam, com dificuldade no projeto, recursos próprios. Visitam as famílias no último domingo de cada mês, utilizando-se do ônibus da Unesp. Orientam sobre remédios, saúde, higiene e medem a pressão arterial. Na faculdade, promovem exibição de filmes, debates para jovens, abordando temas como drogas, sexualidade e cidadania.

Essas ações sociais são voluntárias e praticadas com entusiasmo e dedicação, tanto que não existe problema de continuidade. Os alunos do 1.º ano aderem maciçamente, substituindo os que vão se formando, criando uma corrente ininterrupta.

O projeto surgiu em 2001, através do Centro Acadêmico, com o nome de Atenção Farmacêutica Estudantil Permanente (Afep), fez parceria com a Associação Amigos da Vida, que trabalha com dependentes químicos.

Aguardamos que estudantes de outras faculdades se mirem no exemplo desses beneméritos universitários e partam para novas ações de utilidade pública, dando sua parcela de contribuição na construção de um mundo  mais igual, mais justo.

A esperança de um mundo melhor no amanhã surge, hoje, com as crianças da educação infantil, dando a elas não só um bom alicerce cognitivo, mas formando-as para a solidariedade, para a compreensão, no enfraquecimento da competição, para o exercício da cidadania. Essas crianças, abrigando valores, serão jovens mais participativos, mais solidários ao sofrimento humano, e estenderão, sem dúvida, seu olhar à comunidade necessitada. São esses jovens que, preparados para o sentido de humanidade, abraçam também, com vontade, o trabalho. Alegra-nos tomar conhecimento de jovens, na idade entre 15 e 24, que cursaram pelo menos o ensino médio,  estarem entrando no mercado de trabalho com carteira assinada. É o que mostra um levantamento feito pela Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo, com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Esse levantamento considera as 827 mil vagas formais criadas nos cinco  primeiros meses de 2004 em todo o País, tidas como recorde, desde 1992. Mostra que 60% dos novos empregos são ocupados por jovens de 15 a 24 anos, com, pelo menos, 8 anos de escolaridade.

Esses jovens fazem parte de uma juventude que nos passa novo alento, na crença de um futuro melhor para a humanidade. É preciso crer para ver. Continuemos implantando na criança e no jovem valores éticos, morais, humanos, comportamento solidário, participativo e, assim, poderemos esperar um mundo mais produtivo, de mais paz, de mais justiça social.

As crianças de hoje serão os comandantes serenos ou atropelados do amanhã. Elas são as sementes do futuro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2004)

EXAME NACIONAL DE CURSOS, O “PROVÃO”

Izabel  Sadalla Grispino *

Fui solicitada, por estudantes universitários, a escrever sobre o Exame Nacional de Cursos (ENC), o chamado “Provão”. Os estudantes queriam saber o porquê do Provão e qual sua real finalidade. Já discorri, anteriormente, sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando, então, abordei, de passagem, o Exame Nacional de Cursos, o “Provão”: “O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é totalmente diferente do Exame Nacional de Cursos, o “Provão”. O “Provão” não dá conseqüências individuais, é feito para avaliar o curso superior. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as conseqüências são individuais, possibilita o acesso ao ensino superior, embora não dê direito garantido como dá, por exemplo, o vestibular. Vai depender do critério adotado pela escola”.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, foi instituído pelo MEC, em 1996, com a finalidade de avaliar, através do desempenho do aluno, a qualidade de ensino das instituições de nível superior. Esse exame tem como função principal induzir a qualidade de ensino dos cursos de graduação. É uma prova aplicada todos os anos nos alunos que estão concluindo o curso de graduação. O exame mede as habilidades e as competências adquiridas pelo aluno durante o curso. O aluno é obrigado a fazer a prova, sob pena de não receber o diploma de conclusão de curso. As comissões que elaboram os exames definem os objetivos, o perfil ideal do graduando, as habilidades exigidas ao longo do curso e os conteúdos que o estudante precisa dominar ao fim da graduação.

O “Provão” visa preparar uma prova abrangente, que verifique mais a capacidade do aluno, desenvolvida no período de formação, o raciocínio, que os conteúdos memorizados, ou as fórmulas decoradas. O que se busca não são as especificidades, mas a formação geral, os conhecimentos e as habilidades fundamentais. Não se restringe ao conhecimento, quer avaliar também a capacidade de o aluno aplicar o que aprendeu.

O “Provão”  está preocupado com a formação acadêmica, com a qualidade dos cursos de graduação. O que se constata é que, freqüentemente, se colocam os profissionais mais inexperientes na graduação, diz o MEC. Os exames devem refletir o que a comunidade acadêmica pensa sobre a formação profissional na graduação.

Além da prova, o formando responderá um questionário-pesquisa sobre o perfil socioeconômico, através do qual é possível saber a avaliação que ele faz do próprio curso. O questionário é uma espécie de levantamento de opinião; traz a opinião do aluno, que se reverte numa informação importante, porque, “quando 60% dos alunos dizem que tal curso é fraco, quem vai planejar o curso terá de levar em consideração esse dado. A opinião dos alunos é um instrumento de análise”, reforça o ministro da Educação.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, tem por objetivo complementar as avaliações mais abrangentes das instituições e dos cursos de ensino superior – como análise do corpo docente e da infra-estrutura – visando a melhoria dos cursos de graduação. Ele é parte do processo de avaliação das instituições. Outros itens compõem a avaliação: grau de titulação – especialização, mestrado, doutorado – nível de dedicação dos professores, volume de publicações, adequação dos métodos pedagógicos, nível de proximidade com o mercado de trabalho, qualidade de laboratórios, bibliotecas e correlatos. São, portanto, três aspectos de universo pesquisado: qualificação do corpo docente, organização didático-pedagógica e instalações.

Considera-se que mais importante do que os resultados das provas, no entanto, serão os efeitos do “Provão” sobre as faculdades. Haverá, sem dúvida, um espaço maior em direção à qualidade da aprendizagem. O ensino superior só tem a ganhar com as avaliações. Elas promovem uma salutar concorrência entre as instituições e possibilitam, inclusive, identificar cursos conhecidos como “fábricas de diplomas”.

Os resultados acumulados em 5 anos de Exame Nacional de Cursos (ENC) serão fundamentais para o recredenciamento das instituições universitárias, pelo Conselho Nacional de Educação. Serão credenciadas a cada 5 anos como universidades, centros universitários, faculdades integradas, faculdades, instituições superiores ou escolas superiores. Se por 3 anos consecutivos esses cursos tiverem conceitos D ou E e se o MEC verificar que as providências não foram tomadas, elas podem ser descredenciadas. Em contrapartida, as faculdades que tiverem bons resultados consecutivos poderão obter a concessão para abertura de vagas e criação de novos cursos.

O MEC publicou portaria vinculando os resultados do “Provão” a uma maior autonomia das universidades e centros universitários em criar cursos ou expandir suas redes. Com o objetivo de premiar a qualidade das instituições, as universidades e centros universitários, com 2 anos de conceitos A e B, na maioria dos indicadores de avaliação, podem abrir cursos de graduação fora de suas sedes, sem autorização prévia. Já instituições com conceito A, por 2 anos, podem ampliar seus cursos em até 3 municípios, dentro do estado no qual estão instaladas.

As instituições poderão sofrer um início de processo de fechamento dos cursos se revelarem, em seqüência, mau desempenho do “Provão”. Já há casos de cursos superiores que iniciam o processo de fechamento de cursos que já receberam os piores conceitos (D ou E) nas duas últimas edições do “Provão”. Caso obtenham um terceiro resultado negativo, serão submetidos a processo de renovação do reconhecimento pelo MEC, sob o risco de serem fechados. Se vierem a repetir o mau desempenho, serão visitados por comissões de especialistas para verificar a qualidade de ensino. Com base no relatório dessas comissões, o Conselho Nacional de Educação (CNE) decidirá se renova o reconhecimento dos cursos. Ser reconhecido é condição indispensável para a validade dos diplomas. Também são submetidos à renovação, com risco de fechamento, os cursos com conceito insuficiente em pelo menos 2 ou 3 itens da “Avaliação das Condições de Oferta” – em que especialistas visitam as instituições para analisar os professores, as instalações e os currículos.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, teve o mérito de colocar na pauta da discussão a qualidade dos cursos de graduação. Sinaliza, sem dúvida, política de melhoria do sistema. É forte argumento de mobilização dos universitários e de reflexão dos dirigentes escolares para a necessidade de mudanças, de atualização dos cursos, da qualidade do ensino.

*Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em junho/2000)

FORMAS DIFERENCIADAS DE ORGANIZAÇÃO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

O nosso sistema escolar enseja uma variedade de formas de ensino. Além das escolas públicas, que seguem normas oficiais, há escolas particulares com diferentes formatos, diferentes modalidades, em projetos de permanente construção e reconstrução.

Surgiram na década de 90 as chamadas cooperativas educacionais, uma atividade empresarial dirigida por um conselho de pais-cooperados, eleitos em períodos regulares. A gestão administrativa, incluindo contratação de pessoal, e a gestão  educacional são feitas por profissionais de cada uma das áreas, escolhidos por competência, por mérito, afastando o protecionismo. Essas escolas vêm mostrando alto desempenho, muito boa organização e se multiplicando no Estado de São Paulo. Atestam que escola não é só um espaço físico, mas, sobretudo, resultado de um projeto educacional.

O IBGE, num levantamento feito em 2004, mostrou queda na renda das famílias, com influência negativa na procura por educação diferenciada. As escolas particulares, como outras atividades do setor de serviços, estão enfrentando dificuldades. A crise enfrentada pelas escolas mostra caminhos diferentes em sua solução. Algumas passaram a se preocupar menos com a qualidade do ensino, evitando maiores gastos e se concentrando no fluxo de caixa. Outras não se descuidaram da atividade-fim, tentando resguardar a credibilidade adquirida ao longo dos anos, na tarefa de educar. A inadimplência foi contornada, buscou-se proteger e conservar o seu patrimônio pedagógico, seus professores competentes, comprometidos com a boa educação.

Há grupos de escolas partindo para soluções mais imediatas para resolver o problema de evasão de alunos e a inadimplência. Estão se reunindo em uma “holding” que oferece mensalidades reduzidas, porque os professores são terceirizados. Desse modo, livram-se dos encargos da legislação trabalhista, como a remuneração do descanso semanal e as férias. O professor ganha pelo número de alunos que tem em sala de aula. O proprietário da escola apenas aluga espaço e instalações para uma cooperativa de docentes. A escola vende serviço educacional aos interessados.

A holding, chamada Colégio Brasil Novo, que em 2004 contava com adesão de 49 escolas, definiu o critério de remuneração: 25% da receita fica para os professores locatários e o restante para o locador. A holding propõe que os professores se empenhem e sejam fatores determinantes na atração e manutenção de alunos para evitar sua evasão.

Manter os filhos numa escola mantida por uma holding é uma opção dos pais, que preferem educar os filhos de forma diferenciada, preferindo o ensino privado ao público. A questão que se coloca, em relação a professores itinerantes, locatários de salas de aula, remunerados conforme o número de alunos que possuem, é a validade dessa organização escolar, da atuação docente, em termos educacionais e pedagógicos.

Escola é uma organização formal, necessita de um dirigente que responda por ela, que é responsável perante os alunos, os pais, a comunidade. Não é só um lugar que recebe alunos, mas representa uma filosofia educacional, uma linha pedagógica abrangente a toda instituição, capaz de responder pela execução de seu currículo, mantendo programas de educação compartilhada com toda comunidade escolar. É necessária uma coordenação das atividades docentes, planos pedagógicos interligados, correlacionados, integrados e jamais se colocar em projetos individualizados, representativos de cada professor. O ensino, há muito, deixou de ser  compartimentado.  As fronteiras do conhecimento se diluem cada vez mais na comunicação entre as disciplinas do currículo.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), no seu parágrafo único do artigo 25, define responsabilidade das autoridades educacionais. “Com essa Lei surgiu uma nova concepção de currículo e com ele uma nova concepção de escola. Nova em seu formato, em seu funcionamento, em sua organização, requerendo uma profunda revisão das metodologias de ensino... Revoluciona-se o conceito de currículo, que tem, agora, sua maior característica na flexibilização. A Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê  a flexibilização na organização de cursos e carreiras e por isso torna possível a mudança que vale tanto para as escolas públicas como para as privadas. A idéia central é substituir a estrutura curricular, baseada em disciplinas e carga horária fixa, por outros modos de organização. Na educação básica por: séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios e formas diversas de organização, como módulos, reclassificações de alunos, aceleração da aprendizagem”. (do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), págs. 39 e40).

Após a promulgação da nova LDB, inovações vêm surgindo a cada passo. Contudo, necessário se faz avaliar bem as condições das inovações, o contexto do trabalho desenvolvido, a metodologia aplicada e os resultados obtidos, em termos acadêmicos e educacionais. As mudanças precisam ser bem pensadas, bem regidas, bem estruturadas pedagogicamente.

Uma das principais características da moderna administração escolar é a de avaliar continuamente os resultados, mantendo ou redefinindo seus planos de ação. Estamos vivendo a época do diálogo, tempos de parcerias, especialmente da escola com os pais de alunos, onde as decisões são, em parte, compartilhadas com responsabilidade. Nas mudanças, os pais devem ser esclarecidos e ouvidos em suas reivindicações.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2005)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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