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Artigos Educacionais

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LEITURA, INTERPRETAÇÃO E REDAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino*

Os recentes dados do MEC mostram que uma boa parte dos jovens, cursando o fim do ensino médio, é incapaz de entender o que lê. Esses jovens aspiram, geralmente, entrar numa faculdade e a interpretação do texto é a habilidade mais cobrada nos vestibulares, não apenas em português, mas em todas as matérias.

As questões exigem cada vez menos memória e em seu lugar utiliza-se de trechos extraídos de livros, jornais, revistas, tiras de quadrinhos e mesmo de propaganda. Esse processo vem ganhando as escolas em seus sistemas de construção do conhecimento, quando se prepara o aluno para desenvolver a capacidade de resolver problemas, de raciocinar, de ligar o conhecimento formal aos fatos de sua vida diária.

Para desenvolver a interpretação, o melhor caminho é a leitura. Uma leitura diversificada, de gêneros literários diferentes, jornalísticos, publicitários, poesias etc. Uma leitura atenta ao conteúdo, à forma de escrever, às regras gramaticais, tentando captar o que está nas linhas e, também, nas entrelinhas, isto é, o que está implícito no texto. Para tanto, o aluno deve ser orientado a uma leitura cuidadosa, instigado a ver além do que está simplesmente escrito.

O vestibular tem proposto questões contextualizadas, o que significa que o estudante deve analisar a situação, o contexto em que aparecem, para depois respondê-las. Deve ler jornais para se atualizar, para tomar conhecimento do que se passa ao redor, ao País, ao mundo. Aluno que lê acaba tendo um bom entendimento de texto e desenvolve a capacidade de se expressar bem. A leitura é a chave de uma boa redação, de um bom aproveitamento intelectual. Quanto mais o aluno lê, maior será a sua desenvoltura diante do saber. Infelizmente, o aluno brasileiro lê muito pouco e cada vez menos.

A escola, conhecedora dessa grave distorção no ensino da língua, deve atacar de frente o problema, criando projetos integrados a todas as áreas, não se restringindo ao português. Projetos isolados não trazem o reforço e a amplitude desejável. O que se observa, largamente, nas escolas, são experiências desarticuladas, em recursos que não se aproveitam entre si, em conteúdos que não se interligam, compartimentando o conhecimento.

Programas integrados, além do reforço, da visão ampla do assunto, fixam melhor o conteúdo e produzem, conseqüentemente, pela abrangência, melhores benefícios ao educando. Um estímulo geral, em relação à leitura, em exercícios de interpretação de textos e em redação, deve ser pensado em todas as disciplinas do currículo.

Um outro ponto importante na aprendizagem é ensinar o aluno aprender a aprender. A dedicação pode ser o grande método de estudo para quem deseja aprender. Ensinar ao aluno que ser dedicado significa trabalhar alguma coisa com determinação para atingir um objetivo; também é preciso haver motivação e essa motivação é grandemente ajudada pelo professor, pois nem todo aluno aprende de forma igual. Uns aprendem todo o conteúdo em sala de aula, outros necessitam revisar a matéria em casa ou voltar ao assunto novamente, com o professor. Cada um tem um ritmo, um estilo próprio.

O quadro atual da escolaridade brasileira é lamentável, não só em termos de qualificação, como em termos de abandono à escola. Vejamos o que nos expõe a Geografia da Educação Brasileira 2001, divulgada em março de 2003, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), do Ministério da Educação: a cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, 41 deixam a escola sem completá-lo. Os que conseguem se formar gastam, em média, 10,2 anos. Praticamente o tempo que levariam para cursar as 8 séries do ensino fundamental e as 3 do ensino médio, se não houvesse repetência.

A relação entre alunos que iniciam e terminam é melhor no ensino médio. De cada 100 alunos que ingressam nesse ensino, 74 chegam a concluí-lo e gastam, em média, 3,7 anos para cursar as 3 séries desse nível. Do total de alunos matriculados na 1.ª série do ensino fundamental, apenas 40% conseguem se formar no ensino médio. Ao repetir, o aluno acaba desanimando e saindo da escola. A repetência é uma das principais causas da perda da auto-estima do aluno e da exclusão escolar.

Junto ao atraso na escolaridade, à perda da qualidade do ensino, perde-se, também, o status social do professor. Perdem-se alunos, perde-se a boa formação acadêmica, não por se ter esgotado o papel do professor, mas pela decadência de todo um sistema de ensino. A escola, no seu âmbito, não consegue coordenar os projetos pedagógicos, que acabam ficando desarticulados, com projeções diferentes. Não consegue alcançar uma metodologia diferenciada, capaz de inclusão, não consegue entrar no mundo desmotivado do aluno carente ou exercitar estratégias que introduzam a qualidade do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em fevereiro/2004)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em fevereiro/2004)

A ESCOLA FRENTE AO “EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO” (ENEM)

Izabel Sadalla Grispino *

Para dar boas respostas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a escola precisa aprender a desenvolver nos alunos habilidades e competências, no seu processo de ensino-aprendizagem. Aprender a colocar a formação acima da informação, fazer do aluno um cidadão participante consciente. Desenvolver-lhe a capacidade de raciocinar, de interpretar, de interferir na realidade, de resolver os problemas do dia-a-dia.

O aluno, ao construir o próprio conhecimento, ao partir da observação, da manipulação, da pesquisa, da análise, vai vivenciar o conceito ao invés de recebê-lo pronto. Vai internalizar, chegando com mais profundidade ao conhecimento.

A escola deve realizar um currículo com conteúdos contextualizados, próximos da realidade do aluno, e trabalhados de maneira indisciplinar, em conteúdos interligados. Deve ter presente que o objetivo do Enem é medir habilidades e não conteúdo, é processar uma avaliação interdisciplinar.

A título de informação, o Enem do ano passado foi interdisciplinar, apoiou-se em interpretações de textos, aferiu mais compreensão que conhecimento específico. O exame exigiu conhecimentos usados no cotidiano. Não exigiu do candidato muitas contas, mas que ele fosse capaz de aplicar o raciocínio. Não pediu fórmulas. Trouxe questões do dia-a-dia que estão nos jornais: analfabetismo, clonagem, vacinação, cadeia alimentar, ecologia e reciclagem de materiais foram as bases das questões de biologia. A redação teve como tema: “Cidadania e participação social” (o engajamento e a participação social do jovem.

Quanto à inscrição dos candidatos, orientá-los de que a mesma deve ser feita em qualquer agência dos Correios, munidos de um documento original de identidade, com foto. Ele preencherá uma ficha de inscrição no próprio local e pagará uma taxa estipulada, no momento, pelo MEC (com exceção dos alunos carentes). A inscrição pode ser feita em uma cidade e a prova em outra, bastando indicar, no formulário, o código do município desejado. Pode ser feita, também, via procuração.

De acordo com Maria Helena Guimarães de Castro, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC), o Enem avalia cinco competências e 21 habilidades gerais desenvolvidas pelo aluno ao longo da Educação Básica. Cada habilidade é medida por meio de três questões e a nota da prova objetiva, numa escala de 0 a 100, é atribuída a partir da avaliação de cada uma das cinco competências, que são as seguintes:

-- Domínio de linguagens: demonstrar domínio básico da norma culta da Língua Portuguesa e das diferentes linguagens.

-- Compreensão de fenômenos: construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.

-- Enfrentamento de situações-problema: selecionar, organizar, relacionar e interpretar dados e informações para enfrentar situações-problema com vista a tomadas de decisão.

-- Construção de argumentações: organizar informações e conhecimentos disponíveis em situações concretas para desenvolver argumentações consistentes.

-- Elaboração de propostas de intervenção na realidade: recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas criativas, considerando a diversidade sociocultural como inerente à condição humana no tempo e no espaço.

Com esta propositura, o Enem afasta a decoreba, derruba o hábito da cola de que tanto a escola se ressente. Reforça a interdisciplinaridade e a contextualização. Esses dois conceitos, no ensino médio, levarão à confecção de livros didáticos orientados mais para a história do contexto, remetendo ao uso de jornais e revistas no dia-a-dia do ensino. “Dificilmente, um livro poderá ser destinado a uma série específica, porque os conteúdos estarão muito relacionados. A liberdade de a escola dividir os 3 anos do curso, em séries ou módulos, impedirá a edição de livros para cada uma das séries, como ocorre hoje. A tendência é que as editoras ofereçam livros para o ensino médio, nos quais estarão os conceitos básicos, que serão tratados em sala de aula de forma diferentemente, de acordo com o nível escolar”, esclarece Ruy Berger, secretário da Educação Média e Tecnológica do MEC.

O “Exame Nacional do Ensino Médio” (Enem) é  uma   indicação  de como será o processo educacional nos próximos anos. Ele segue a atual tendência de ensinar os alunos como usar todas as informações aprendidas no dia-a-dia, na interpretação de informações e na situação de problemas.

Os modelos educacionais vêm sofrendo mudanças. As escolas mudam o foco do ensino, que dava ênfase à memória para contemplar a autonomia dos alunos na aprendizagem, dar-lhes uma maior compreensão de seu cotidiano, fazê-los capazes de tomar decisões e tornar-se mais aptos ao convívio social. Essas são, hoje, as principais tendências do ensino que deverão consolidar-se na próxima década.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

EDUCAR PARA A ARTE

Izabel Sadalla Grispino *

Reclama-se da escola um projeto sério sobre arte, arte vista em sua multifacetada manifestação. Um projeto que dê ao aluno uma cultura abrangente, que reforce e difunda os valores artísticos de nossa terra. Que ensine a história de nossa música, nossa pintura, nossa poesia, nossa dramaturgia, nossa dança através dos tipos.

Tendo em vista as comemorações que, durante todo este ano de 2002, celebrarão os 80 anos da Semana da Arte Moderna, e o centenário de Carlos Drummond de Andrade, a arte vem a se tornar um tema oportuno,  oportuno levantar e debater sobre a educação artística. O que se nota, hoje, é uma educação artística ineficaz, incapacitada de despertar um interesse maior pela arte, nos alunos, vista, de preferência, como mera recreação.

A importância da Semana da Arte Moderna, ocorrida em São Paulo, no Teatro Municipal, de 11 a 18 de fevereiro de l922, com o objetivo de difundir o novo ideário estético. Constou de três espetáculos em que se exibiram a prosa, o verso, a música, a dança de vanguarda e uma exposição de artes plásticas que expressava as modernas tendências da pintura, escultura e arquitetura. Ela foi um marco fundamental do movimento modernista, esperava renovar a mentalidade nacional, criar a autonomia artística e literária do Brasil, descortinando, para nós, o século XX, colocar o País na atualidade do mundo. Que a escola faça os jovens conhecerem os seus grandes expoentes, como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, a poesia de Cassiano Ricardo, Carlos Drummond  de Andrade,  Cecília  Meirelles, a escultura de Victor Brecheret, a expressão artística de Anita Malfatti, a pintura de Tarsila do Amaral, entre outros.

Que a escola faça os jovens conhecerem a nossa música, clássica e popular, passando por Vila Lobos, Ernesto Nazaré, Chiquinha Gonzaga, Zequinha de Abreu. Conhecerem a eclosão da bossa nova, com Vinícius de Morais, Tom Jobim, João Gilberto, a revolução tropicalista, com Caetano Veloso e Gilberto Gil, suas causas, seus efeitos. Que leve os jovens a conhecerem a importância dos Beatles para a juventude dos anos 60, seu legado, a ruptura causada nos valores e nos padrões estéticos da época.

A arte está ligada à história. Arte e história refletem-se, explicam-se. A boa formação do professor, nessa área, é essencial para que ele seja capaz de dominar conceitos e técnicas das diferentes manifestações artísticas, ampliando os horizontes culturais do aluno. A arte é uma forma de abrandar a alma, de aplacar a revolta, de conduzir o indivíduo para o culto do belo, do sublime, do humano, da solidariedade.

Da maneira como está sendo enfocada, a educação artística torna-se uma matéria inexpressiva, sem conexão com as demais disciplinas do currículo. O MEC e o Instituto Itaú Cultural uniram-se para divulgar a arte brasileira nas escolas, mostrando o passado, analisando o presente, revelando a caminhada que permitiu chegar onde chegou, dando aos jovens armas para distinguir o bom do ruim, valorizar o bom. A arte ajuda o professor a incentivar entre os alunos cooperação e não competição. Ajuda-os a desenvolver habilidades específicas, a descobrir o potencial do aluno para a arte. As características individuais sendo incentivadas formarão um ser humano mais realizado, com personalidade mais ajustada, mais confiante. Hoje, a escola prima pela individualidade, inclusive pela individualização do currículo.

O programa prevê a distribuição de cartilhas, orientando sobre o uso interdisciplinar da arte e instalação de museus em 1.500 escolas do ensino médio, que receberão exposições itinerantes. É o momento de a escola interessar-se pelo programa e buscar maiores informações.

O que se quer com a parceria MEC e Itaú Cultural são impulsionar a arte em todas as suas modalidades e de forma consistente. Só o conhecimento produz a verdadeira transformação, seja na arte, seja na ciência, seja na vida.

A psicologia cognitiva mostrou que os seres humanos possuem diferentes modos de representar os significados e de compreender a natureza. Estudos recentes sobre a inteligência e habilidades humanas tendem a concluir que possuímos várias formas de inteligência. Desde o começo do último século, os psicólogos acreditavam que havia uma única forma de inteligência que podia ser diretamente mensurada pelos tradicionais testes de QI (Quociente Intelectual). Atualmente, há inúmeras pesquisas sugerindo a existência de vários e diferentes tipos de inteligência. A teoria das inteligências múltiplas supõe a existência de 8 ou 9 formas de inteligência: lingüística,  lógico-matemática,  espacial musical, corporal cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalística e, ainda, a inteligência existencial. Segundo a teoria, nós possuímos todas estas formas de inteligência, mas nenhum de nós, mesmos os gêmeos idênticos, possuem o mesmo conjunto de inteligências num mesmo momento.

A maioria das escolas focaliza quase que exclusivamente só duas formas de inteligência: a lingüística e a lógico-matemática. Os sistemas de educação formal têm, de um modo geral, ignorado as outras formas de representação mental e de compreensão da natureza, tais como as formas artísticas (musical), atlética (corporal-cinestésica), pessoal (conhecimento de outros e de si próprio) que estão presentes e que devem ser ativadas.

Assim como para formamos leitores precisamos viver o livro na sala de aula, do mesmo modo para formarmos artistas, temos que viver a arte na sala de aula.

Desse modo, a música, a arte em geral, que é uma expressão, uma  face da inteligência, não pode ser esquecida, relegada, porque ela é um caminho cultural, caminho de solidariedade e de descoberta de vocação.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2002)

PARCERIA PROFESSOR-ALUNO. CONCEITOS BÁSICOS

Izabel Sadalla Grispino *

A parceria do professor com o aluno cria, na sala de aula, um clima interativo, um conhecimento articulado, facilitadores da comunicação e da abordagem da educação democrática e libertadora.

Ao trabalhar o aluno, sua matéria-prima, o professor marca sua presença na sociedade, quando lhe entrega o resultado de sua obra maior: um cidadão conscientizado de que o desenvolvimento do País é a soma do desenvolvimento individual.

Para chegar a esse bom termo, o professor precisa adequar o seu ensino ao tipo de aluno que recebe; precisa falar, como emissor, a língua do aluno, o receptor. Conhecê-lo bem, conhecer seu universo cultural, deve ser o ponto de partida, a fim de centrar a aprendizagem em bases no real, no concreto, preferentemente nas séries iniciais, e evitar, assim, uma possível inadaptação do aluno aos métodos da escola.

Escola é vida, é experiência de vida. Investigar o cotidiano do aluno, trazer sua vida à escola, relacioná-la, estrategicamente, aos conteúdos do currículo, vão tornar a aula mais atraente, mais condizente com esse aluno.

O ato pedagógico deve estar inserido nas condições psicossociais do aluno, dentro de sua faixa etária, e ministrado de forma prazerosa e afetiva. O professor deve encaminhar o seu ensino de modo a desenvolver habilidades paralelamente à aquisição do conhecimento. Estes preceitos já aprendíamos, na década de 60, com o Prof. Anísio Teixeira, na proposta de sua escola-parque.

É consenso entre os pedagogos de que “pacote pronto” leva à repetência e de que a apropriação do conhecimento historicamente constituído leva ao desinteresse, à apatia.

A função do professor é um questionar contínuo. Deve ser um pesquisador permanente. Para melhor se aproximar do aluno, questiona-se: quem é esse elemento humano que recebo? Como é o seu modo de vida? Quais são as suas condições financeiras? Quais as marcas culturais que traz de sua família? De sua comunidade? Mediante respostas obtidas, ressalta as variantes que deve considerar no seu planejamento de ensino e os meios para interagir com elas.

Todavia, a competência do professor está em superar gradativamente essa realidade e dar ao aluno uma formação compatível com o mundo moderno, remetendo à escola o seu caráter formal. É evidente que a preparação do professor tem reflexo na aprendizagem. Ele precisa mostrar qualidade, atualizar-se.

Uma das maneiras de conhecer o aluno é trocar informações com ele. Nessa troca, o professor não pode considerar, apenas, o seu saber, mas, também, o saber do aluno. Não fecha o conhecimento, não se coloca como o “detentor do saber”, ao contrário, abre-se para outras culturas, as pluriculturas, que, mesmo diferentes da sua, são igualmente válidas. É uma troca onde se transmitem e se recebem informações. Tem que “aprender a aprender”, como enfatizou o nosso Paulo Freire, saber interpretar as múltiplas linguagens, as falas heterogêneas, na constatação de que o saber é uma viagem, não um porto.

A troca é democrática, forma o aluno para o diálogo. Democracia é treino. A parceria, a troca, são canais, por vezes, difíceis, que demandam tempo, mas que precisam acontecer.

Traçando o perfil do aluno, valorizando sua história, obedecendo a estrutura do pensamento – as fases específicas do desenvolvimento mental delineadas por Jean Piaget – o professor terá um aluno interessado, participativo, com um desempenho que irá, indubitavelmente, do grau bom ao excelente.

Um outro aspecto a ser considerado nessa linha de atuação é não se utilizar do saber como fonte de poder: o professor detém o poder porque é aquele que sabe, o aluno aquele que não sabe. O saber, embora tenha o seu peso, não pode ser o determinante do poder. O poder não pode estar monopolizado, restrito a uma pessoa ou a um pequeno grupo, mas estender-se a todos os membros da parceria; um poder compartilhado, do aluno para o professor, do professor para o diretor, da comunidade para a escola e vice-versa, onde todos devem ter voz e vez. Um poder que ressurge do grupo, nunca imposto de cima para baixo. Isso, desde a colocação de procedimentos disciplinares, dos limites, os quais deverão ser elaborados, analisados com os alunos, antes de serem adotados, até a escolha de cursos que serão ofertados pela escola.

A opção, hoje, não é pela disciplina do silêncio, mas pela disciplina do diálogo, que conscientiza e, por isso mesmo, favorece o compromisso, a cumplicidade, a vontade de acertar. Desemboca na educação libertadora.

A educação libertadora contempla o construtivismo, faz do aluno o agente e o centro da aprendizagem. No desenrolar de seu processo, o aluno, ao ser encorajado e valorizado em sua fala, libera o seu eu, caminha para a criatividade, para o espírito crítico, atingindo autonomia de expressão. É a pedagogia de um saber que resulta da observação, da pesquisa, da experimentação, do fazer e que, através desses passos, chega, criticamente, ao saber acumulado pela humanidade. Não se quer um aluno acrítico, acomodado, mas um indivíduo crítico, participando da transformação do mundo.

Ao pensar criticamente, o aluno vai aprendendo o sentido específico das palavras, o sentido, por exemplo, de liberdade, dos limites que se impõem para conquistá-la, diferenciando-a de libertinagem, de atos libertinos. A educação libertadora prioriza o ser pensante, o ser capaz de ousar para, no amanhã, enfrentar, com coragem, os desafios inerentes à própria vida.

Atuar profissionalmente, de modo a não sufocar a semente plantada, a regá-la, a arejá-la e no seu desabrochar poder dizer: “Eu fui, apenas, o jardineiro; a flor já estava lá”, é a grande realização do professor.

* Extraído do site www.izabelsadallagrispino.com.br

ATITUDE DISCRIMINATÓRIA DO TESTE

Izabel Sadalla Grispino *

Recentemente, os jornais trouxeram à tona a questão dos vestibulinhos para crianças pequenas. Especialistas da educação questionam a eficiência dos vestibulinhos para uma faixa de idade em que não se tem nenhuma bagagem acadêmica.

Já há algum tempo, escolas particulares da capital, onde o número de candidatos excede ao das vagas disponíveis, usam a prática dos vestibulinhos. Ao querer, para as escolas, um padrão elevado de ensino, selecionam, através de testes, os melhores candidatos. Porém, ao que tudo indica, a partir de então, terão de aplicar outros critérios na seleção dos seus candidatos.

O uso do vestibulinho para crianças que buscam uma vaga na 1.ª série do ensino fundamental é condenado por princípios pedagógicos e legais. O exame de seleção pode levar a criança a se considerar vitoriosa ou derrotada. No caso de derrotada, sentir-se perdedora, poderá ficar marcada por toda sua vida escolar. O teste, quando mal sucedido, frustra, discrimina, rebaixa a auto-estima, afeta o desenvolvimento educacional. Uma criança, tendo que enfrentar um teste, fica em estado de tensão, ansiosa, o que é ruim para tão pouca idade. Isso poderá torná-la refratária a situações de avaliação.

Algumas escolas particulares, interrogadas a respeito, disseram não apreciar tal comportamento, mas julgavam difícil mudar a situação. Suavizaram o processo de seleção, dizendo que a criança passa por um teste  lúdico, em que não há pressão, nem tem formato de prova. Só os pais sabem da finalidade, para a criança não passa de uma brincadeira.

O Conselho Nacional de Educação (CNE), após consulta feita pelo Ministério Público de São Paulo ao MEC, sobre a aplicação de testes, adotada por escolas particulares da capital, na admissão de crianças, proibiu a realização dos chamados vestibulinhos para seleção de crianças de 1.ª série, no ensino fundamental, e na educação infantil. O ministério público levantou a questão de os vestibulinhos ferirem o Estatuto da Criança e do Adolescente e são, em muitos casos, uma tentativa de barrar a inclusão de alunos com deficiência mental, nas escolas de ensino regular.

A Câmara de Educação Básica, em 29 de setembro p. passado, recomendou, por unanimidade, a realização de sorteios ou obediência à ordem cronológica de matrícula, sempre que a procura for maior que a oferta. O presidente da Câmara, Francisco Aparecido Cordão, sugere, entre outros critérios, que sejam privilegiados estudantes que já tenham irmãos matriculados na escola. O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) deverá ser homologado pelo ministro da Educação, Cristovam Buarque, para poder entrar em vigor.

Além da influência negativa no campo afetivo, psicológico do aluno, a escola, ao aplicar teste às crianças, não está propriamente avaliando. O teste não é senão um momento da avaliação. Avaliar é um processo bem mais amplo que medir, requer observação contínua dos aspectos conceituais, atitudinais e procedimentais. O teste é insuficiente para revelar potencialidades, fulcro do processo educativo. Santo Agostinho, já no século V, dizia que o professor é apenas o despertador das virtualidades do aluno, seu orientador na aprendizagem.

A escola deve conscientizar-se de que educação é muito mais que ensino, que aprendizagem não é igual a desempenho e que formação é algo bem mais complexo que mera capacitação técnica para o mercado ou mero treinamento para o vestibular. Esses conceitos nos levam à precariedade em que se vem entendendo o processo ensino-aprendizagem. A educação empobrece-se em nome de um ensino restrito, oportunista, enfocado numa direção única. A educação integral do aluno pede um envolvimento sério, afetivo, do corpo docente à instituição a que pertence.

O professor pode ser talentoso, capaz, mas se individualista, o seu ensino não produz ramificações, não emite raios de complementariedade, fortificando o estudo de outras disciplinas. Limitando-se ao seu conteúdo, ao não se entrosar com os demais colegas, esse professor não alcança o aluno na sua integralidade. Procedimentos interativos facilitam a participação ativa do aluno no processo global da aprendizagem. O engajamento escolar do professor repercute no engajamento escolar do aluno, que passa a se sentir parte integrante da escola. A freqüência às aulas é motivada por um sentimento de aceitação e amizade.

Escolas renomadas pedem ao corpo docente que passe mais tempo com os alunos, dentro e fora da sala de aula, que se torne seus amigos, que se envolva com colegas de visões divergentes de especialidade. Propõem  a passagem do “eu, eu mesmo”, para a participação, formando uma comunidade de profissionais estudiosos. Métodos e processos variados, adotados pela escola, culminam em resultados que jamais o teste revelaria. Transmitir conhecimento é ponto culminante para a escola, desde que não se descuide da formação integral e que se utilize de outros recursos de avaliação, que não só medida. Nos primeiros anos de escolaridade, na educação básica, a formação do educando é prioridade, podendo, dependendo da situação, dar um espaço maior ao treinamento, na série final do ensino médio.

A diferença no estudo está numa escola alegre, afetiva, de métodos atualizados, com um corpo docente engajado, no qual predominam disciplina, seriedade e sensibilidade.

Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em novembro/2003)

NOVAS EXPERIÊNCIAS EDUCACIONAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Atualização constante, reciclagem de conhecimentos, experiências educacionais em sintonia com as mudanças mundiais, são pré-requisitos para uma segura atuação docente.

A educação básica tem se preocupado cada vez mais com a educação integral. Na educação infantil, fase da formação do caráter, o ambiente escolar é focado na educação. Garantem-se todos os direitos da criança, especialmente o de brincar. Brincando, ela vai aprendendo regras, noções de ordem, espaço. Torna-se mais independente, sabe escolher e é mais sociável.

Escolas há que vêm adotando novas propostas educacionais. Nelas só se ouve, praticamente, a voz dos alunos. Entendem que o professor não precisa levantar o tom de voz para falar a uma criança. Ela compreende o que se quer dizer quando se fala olhando diretamente nos olhos. Nessas escolas, apesar de bem pequenas, as crianças não andam em filas, não sentam em carteiras enfileiradas e não são obrigadas a desenvolver nenhuma atividade que não queiram. Primam pela individualidade e independência. Contudo, observa-se que as crianças respondem prontamente aos chamados, o que, geralmente, são convites para atividades agradáveis, programadas.

Os estímulos para a aprendizagem estão por toda a parte, desde as pinturas no chão, até as cestas de lixo. A criança vai adquirindo visão das coisas, de modo mais saudável, mais ordeira. Elas se encarregam de transmitir à família, aos pais, conceitos adquiridos na escola, como, por exemplo, costumam chamar atenção quando alguém joga papel na rua ou quando alguém fala palavrão. A criança é um grande veículo de educação na comunidade.

As escolas trabalham muito integradas com os pais. A pintura dos desenhos do chão é, por exemplo, mudada periodicamente e os pais oferecem-se para fazer retoques, assim como participam diretamente de outras atividades.

Ultimamente, vem-se notando que os pais estão ficando cada vez mais dependentes da escola. Eles delegam à escola parte da responsabilidade que são deles e o reflexo dessa transferência é o aumento da procura pelo ensino em período integral. O que parece é que eles dão excesso de liberdade aos filhos, necessitando, depois, de freios externos. Outros não sabem como lidar com certos problemas, como o das drogas e necessitam da ajuda da escola.

É preciso que os pais se conscientizem de que a escola tem um papel complementar na educação de seus filhos, embora faça parte de seu papel discutir sexo, drogas, cidadania, valores morais, respeito ao meio ambiente...

Uma pesquisa realizada pelo Sistema Anglo de Ensino, no fim de agosto do corrente ano, com pais de alunos matriculados em escolas de educação infantil, até em cursinhos do País todo, revela que os pais querem uma escola disciplinadora, que discuta todo tipo de assunto com seus filhos, em especial as drogas. O estudo foi realizado com 16 mil famílias de classes A e B que têm filhos em escolas particulares e mostra essa dependência dos pais às escolas, fato que os educadores e psicólogos já haviam constatado na prática.

Quando questionados, em três itens principais, sobre o que os levariam a mudar o filho da escola, a resposta, em ordem decrescente, foi: a) problemas com drogas (68,9%), b) o aumento das mensalidades (43,8%) e c) o pouco rigor na disciplina (32,4%). Sobre as características mais importantes que os levariam a escolher uma escola, os pais colocaram, em primeiro lugar, o bom ensino e os bons professores (74,1% das respostas), em segundo, um “método moderno” (50,4%) e, em seguida, a mensalidade adequada ao orçamento (35%). Segundo o Sieesp, a mensalidade média, na rede particular em São Paulo, gira em torno de R$ 500,00.

Os pais ao serem consultados sobre o que esperam da escola com relação às drogas, deram as seguintes respostas: 71,6%, orientação e campanhas de combate ao uso; 64,5%, fazer parcerias para programas de prevenção; 27,9%, repelir duramente e 3,4%, não deve tratar do assunto.

Uma outra séria questão diz respeito à orientação de prevenção, para crianças de 4 a 6 anos, à aids e a doenças sexualmente transmissíveis. Até pouco tempo, discutia-se a viabilidade de tal precocidade, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) já aplica este novo modelo no Canadá, na Holanda, na Dinamarca e em Cuba, como medida de proteção à saúde, desde a educação infantil.

No Brasil, há uma proposta nesse sentido, quando, pela primeira vez, ela está sendo discutida pelos Ministérios da Saúde e da Educação, com o objetivo de criar uma política nacional de promoção à saúde nas escolas, que iria da educação infantil ao ensino médio. Entende-se que prevenção envolve o desenvolvimento, desde a infância, de competências para a vida, o que a OMS chama de life skills, como assertividade, auto-estima, capacidade de negociação, relações de gênero. Entende-se que prevenção a DSTs, aids e uso abusivo de álcool e outras drogas não pode se limitar à adolescência e deve ir além da abordagem específica desses assuntos.

As crianças que interiorizam esses conceitos desde cedo têm, segundo os especialistas, mais chances de chegar à adolescência menos vulneráveis. Para a consultora do Ministério da Saúde, Marina M. Valadão, “só se deve falar diretamente em camisinha, droga e aids para crianças de 4 anos se elas perguntarem. E elas perguntam e muito; estão sendo bombardeadas com mensagens erotizadas na TV e nos outdoors”. Como os pais não falam com facilidade de drogas e sexualidade, sobra para a escola abordar esses assuntos.

Para transmitir essas orientações, o Ministério da Saúde fornecerá aos professores, que lecionam desde a educação infantil, a partir de janeiro, amplo material de apoio, onde “aparecem sugestões de atividades específicas para estimular nos alunos formas de pensar que, no futuro, poderão se traduzir em prevenção”. O Ministério da Saúde vem buscando integrar-se ao MEC, para ilustrar conjuntamente os professores.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2003)

EQUOTERAPIA

Izabel Sadalla Grispino *

Os avanços na metodologia educacional alcançam dimensões criativas e surpreendentes. Em casos de atendimento específico, como do aluno com deficiência, a natureza trouxe o cavalo como um auxiliar poderoso na reabilitação motora e neurológica.

A prática da equoterapia traz benefícios físicos, como a melhora do tônus muscular, maior equilíbrio para andar, maior equilíbrio espacial e benefícios psicológicos e afetivos. A criança e o jovem aprendem a relaxar e melhora o medo que têm de tudo.

Esta é a grande vantagem da equoterapia,  alia o tratamento físico ao psicológico. O trabalho é com o cavalo e sobre o cavalo, traçado a partir de um plano individualizado. A terapia é acompanhada por uma equipe multidisciplinar, o trabalho é gradual e acompanhado de perto pela equipe de profissionais.

Quem estipula as metas é a equipe, que inclui psicólogo, fisioterapeuta, instrutor de equitação, condutor de cavalo e um profissional de educação. Os alunos interagem com o animal em várias situações e começam a reter melhor as informações, ajudando-os até no processo de alfabetização e na melhora da fala.

A prática é recomendada para crianças a partir de 2 anos, especialmente para casos de paralisia cerebral, síndrome de down, acidente vascular cerebral (AVC), traumas, autismo, déficit de atenção, estresse, síndrome de pânico, esquizofrenia, entre outros.

Há restrições para quadros de luxação de quadril e instabilidade severa  de pressão, mas, mesmo nesses casos, é possível determinar um bom programa de equoterapia, respeitando-se os limites.

Depois da Segunda Guerra Mundial,  os  médicos  começaram  a notar que o cavalo podia ser um aliado da saúde do homem. Na Europa, os homens mutilados ou depressivos, que praticavam equitação, tinham uma melhora mais rápida e logo voltavam à vida social.

Com o estudo desses benefícios, foram surgindo centros de equoterapia na França, Itália e Inglaterra. No Brasil, a prática é mais recente, chegou há 18 anos, com a Associação Nacional de Equoterapia (Ande-Brasil), cuja sede fica na Granja do Torto, em Brasília.

O número de adeptos brasileiros começou a crescer consideravelmente. Segundo a Ande-Brasil, em 1989 havia 6 alunos e o último levantamento, de 2005, aponta 13.760, com crescimento contínuo. No Estado de São Paulo, há 65 centros filiados às atividades, com uma média de 1.400 atendimentos por mês. No Brasil, são 250 centros filiados.

Os centros credenciados seguem as regras estipuladas: necessidade de uma equipe interdisciplinar e todos os membros com curso feito de equoterapia na Ande-Brasil. Os cavalos são treinados para ter um modo específico de andar. Para cada caso, a fisioterapeuta determina o ritmo do animal – o único animal que reproduz a marcha humana.

A equipe traça em conjunto os objetivos, levando em conta aspectos físicos, psicológicos, educacionais. Reavaliam o projeto a cada semestre.

Surpreendente descoberta no meio animal: o cavalo é uma valiosa ferramenta educacional e medicinal. É ajuda e remédio para muitos males.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2007)

A IGREJA FRENTE AO RACIONALISMO CIENTÍFICO

Izabel Sadalla Grispino *

Assistimos hoje a uma reconciliação da Igreja com a ciência. A Igreja mudou de semblante, mudou de postura diante das descobertas da ciência. Em outros tempos, admitir o encontro da fé com a razão era considerado fraqueza, capitulação. O papa João Paulo II lançou, no ano de 2000, a encíclica “Fides et Ratio” (Fé e Razão), onde faz verdadeira apologia da razão. Reabilita os princípios filosóficos e científicos do racionalismo. “Não existe, não pode e não deve haver contradição entre a verdade que Deus nos revela em Jesus Cristo e as verdades pela filosofia. Deus não tem nada a temer com a descoberta progressista dos segredos da natureza. Não existe oposição entre Revelação e Razão, entre Fé e Pensamento, mas uma complementariedade indispensável”.

A Igreja caminha agora com Galileu Galilei, um cientista de sólida convicção religiosa, que dizia “Deus se revela a cada instante na majestade das leis naturais, que só podemos enxergar através da “luneta” da ciência e a ciência, assim, não pode deixar de progredir...”.

Na verdade, Deus não perde terreno com os avanços da ciência e o papa propõe como que um acordo entre fé e razão, num comportamento bem diferente do passado, quando cientistas, considerados hereges, eram excomungados, como as teses de Galileu ou Giordano Bruno, este queimado vivo, em Roma, no ano de 1600. Períodos negros, sombrios da Inquisição, são superados, ficando no passado. A história foi bastante tempestuosa nas relações da Igreja com a pesquisa científica, quando aquela se mostrou hostil às descobertas de novas verdades pela razão. Isso porque muitas descobertas científicas questionavam seriamente as afirmações literais da Bíblia, consideradas, durante séculos, como verdades intocáveis. Por essa razão, os racionalistas ficaram surpresos, quando, em 31 de outubro de 1992, o Vaticano, com a maior seriedade, reabilitou Galileu, nas questões do heliocentrismo. O mesmo em relação às descobertas de Darwin, sua teoria evolucionista, em contraposição à teoria criacionista, da Igreja, em que todas as espécies teriam sido criadas de uma só vez por Deus. Na teoria da evolução, os seres vivos seriam feitos de matéria comum, derivados, em toda a sua diversidade, de uma primeira e única forma de vida, enquanto a gênese e a configuração da arca de Noé nos ensinam que Deus criou, como querem os criacionistas, toda a diversidade das espécies animais ao mesmo tempo.

A crença da Igreja repousa sobre uma revelação que não depende de demonstração científica, do método experimental, porque Deus está além da ciência; impõe uma fé, uma confiança que deve escapar ao exame crítico e à dimensão racional. A ciência, por sua vez, evoluiu; emancipou-se dos limites rígidos do racionalismo cientificista, das formas distorcidas da razão “positivista”, mantidas, ainda, no século de Júlio Verne. O emergir da bioética constrói uma nova cultura e, neste particular, os cientistas estão menos  seguros de si, menos otimistas e menos confiantes que seus antecessores, nos inevitáveis benefícios do progresso. Eles se questionam sobre a moral, sobre o sentido e a sabedoria que convêm às suas descobertas.

Hoje, o Vaticano está menos preocupado com as descobertas da ciência do que com suas repercussões práticas, especialmente no campo das ciências da vida. Faz apelos à ciência e à medicina para que não se esqueçam da dimensão ética, que não se transformem em manipuladores da vida. Pois, se a Igreja não dúvida de Deus, desconfia do Homem que pensa sem Deus. Para a Igreja é indiferente que o Homem tenha surgido do “evolucionismo” ou do “criacionismo”, conforme ela acredita, porque é no momento em que Deus outorga uma alma ao ser humano que ele ganha essa dimensão. Na verdade, não há oposição entre ciência e fé.

A partir de 1860, as teorias de Darwin seriam energicamente condenadas pela Igreja, até que o próprio Darwin foi excomungado. Esse comportamento da Igreja, em relação à ciência, despertou, nos adeptos do racionalismo, uma certa prevenção contra os ensinamentos religiosos, em relação às descobertas do universo. A Igreja católica, reconhecendo seus erros, resolveu celebrar um grande jubileu, no ano de 2000, e numa atitude que muito vem ensinar os cristãos, num exame profundo de consciência, pede perdão pelas falhas ocorridas no passado, pelo abuso de autoridade, decorrentes de erros humanos, falhas humanas, não da Igreja em suas verdades fundamentais anunciadas por Cristo. A Igreja é representada por homens e todos nós, enquanto humanos, somos passíveis de falhas.

O jubileu tem a ver com o perdão, e o grande jubileu, do ano passado, comemorou os 2000 anos do nascimento de Jesus Cristo e sua obra redentora. Comemorou o perdão, o louvor a Deus e a peregrinação.

O perdão foi amplamente comentado pelo papa João Paulo II, que estimulou os cristãos a examinar a história do último milênio do cristianismo e pedir perdão. Mas, ao mesmo tempo, estimulou os cristãos a louvar a Deus, pelos imensos frutos que a fé cristã trouxe à história da humanidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2001)

A FORMAÇÃO DO NOVO CURRÍCULO

Izabel Sadalla Grispino *

Fui solicitada a escrever sobre a formação do novo currículo do Ensino Fundamental e Médio.

A nova concepção de currículo traz uma nova concepção de escola, requerendo mudanças profundas nas metodologias de ensino. A velocidade das inovações, trazidas pela época presente, faz com que a escola aplique o conhecimento em situações do cotidiano, articulando teoria e prática no ensino de cada disciplina. Com o acesso às informações – mesmo as mais sofisticadas estão disponíveis na internet – o papel do professor mudou radicalmente. Sua função essencial agora é a de “desafiar o aluno para que ele consiga hierarquizar e organizar de forma crítica as informações às quais tem acesso”, palavras do ministro Paulo de Souza.

Tomaremos o termo currículo no seu sentido restrito, da relação de conteúdos e da forma como são tratados – currículo pleno é a escola toda em funcionamento. A escola, de todos os níveis, passa por significativas mudanças, que incluem, prioritariamente, alterações da estrutura curricular de todos os seus cursos. O conceito de currículo mudou; tem como maior característica a flexibilização, À rigidez dos currículos engessados, surgem os currículos flexíveis diversificados.

O currículo de todos os níveis de ensino terá uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada que variará de conformidade com “as características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela” (LDB).

A reforma regulamentou o dispositivo da LDB, que aumentou de 180 para 200 dias o número de dias letivos no sistema de ensino do País, com a exigência de 800 horas por ano. “A jornada escolar do ensino fundamental incluirá, pelo menos, 4 horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola”. Com esse acréscimo, a carga horária mínima no ensino médio passou de 2.200 para 2.400 horas, divididas na base comum e na parte diversificada. O aluno terá que cumprir 75% da nova carga horária – 1.800 horas – com as disciplinas tradicionais, a base comum, e poderá escolher o enfoque dos 25% -- 600 horas – da parte diversificada. Cada estabelecimento de ensino poderá escolher, entre as disciplinas, 4 ou 5 opções para cumprir a parte diversificada. Poderá intensificar, nesta parte variada, a preparação para o vestibular ou a preparação para o mercado de trabalho ou aprofundar em áreas específicas, como arte, secretariado... O aluno, que optou por um módulo no 1.º ano, poderá mudar de idéia no 2.º, sem prejuízo das disciplinas cumpridas.

As escolas não recebem mais uma grade curricular básica para todo o País, com os nomes das disciplinas e número de horas. Recebem as diretrizes curriculares básicas – áreas do conhecimento – iguais para todo o território nacional, que darão as grandes linhas, para que cada escola elabore seu projeto pedagógico e que dirão quais as competências e habilidades que o aluno deve ter no final do curso. Compete à escola indicar os parâmetros do resultado que se espera do aluno no término do curso, uma vez que o MEC definirá, apenas, as habilidades e as competências a serem alcançadas.

No ensino médio, a heterogeneidade dos alunos, especialmente quanto à idade e classe social, vai criar, pela flexibilização,  muitos tipos de ensino na forma de organizar o currículo.

Não é mais o aluno se ajustando à escola, mas esta se adaptando para receber o aluno e motivá-lo a aprender.

As escolas incluirão no currículo as áreas do conhecimento,  mas  a  forma  de como serão aplicadas ficará por

conta dos sistemas de ensino. É a escola quem irá escolher a forma de organizar tanto a base comum quanto a parte diversificada.


A maior liberdade conferida à escola não vai dificultar o processo de transferência do aluno de uma escola para outra, porque ela será feita baseando-se nas competências e habilidades definidas nacionalmente e iguais para todas as escolas.

ENSINO FUNDAMENTAL – A Câmara de Ensino Básico determinou as diretrizes  a serem seguidas na formulação do currículo, indicou as áreas do conhecimento, já habituais – língua portuguesa, matemática, história, geografia, ciências naturais, artes e educação física e os temas transversais – que a escola deve considerar. As áreas de conhecimento tradicionais devem ser relacionadas aos “aspectos essenciais da vida do cidadão”, como ética, saúde, meio-ambiente, sexualidade, pluralidade cultural, vida familiar e social. A grande novidade no currículo do ensino fundamental é a inclusão desses novos temas, a serem trabalhados, associados às áreas convencionais, conforme recomendam os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental”, que dizem: “A escola deve abrir a oportunidade para que os alunos aprendam sobre temas normalmente excluídos e deve atuar propositalmente na formação de valores e atitudes”.

A LDB, nos artigos 26, 27 e 28 com seus parágrafos e  incisos, coloca a fundamentação para a elaboração dos currículos do ensino fundamental.

ENSINO MÉDIO – Quanto  ao seu currículo, a base nacional comum será organizada em torno de três grandes áreas do conhecimento, que nuclearão as disciplinas, então, isoladas: Linguagens e Códigos, Ciências da Natureza e Matemática, e Ciências Humanas, todas englobando as tecnologias de cada área. Os assuntos serão agrupados em disciplinas ou módulos e a dosagem das disciplinas, nessas áreas, será feita mediante avaliação das necessidades da clientela. Mais que informações, a base curricular comum, definida nas diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE), é caracterizada por competências cognitivas de caráter geral.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2002)

EDUCAÇÃO: CONFUSÃO ENTRE ORDEM DIRETA E INVERSA

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi exaustivamente delineada, em várias ocasiões.

A preocupação abrange o particular e o geral, o indivíduo e a nação. Enquanto o mundo se ilustra, países, como o Brasil, se deslustrando, acabam por cair em descrédito internacional, no estado de pobreza. Como fica o país despreparado frente à globalização? Como fica a concorrência com os países fortes, com seu povo culto, evoluído? Que patamar, no “ranking” mundial, alcançará nosso Brasil, nessa avalanche de conhecimento que toma conta do planeta?

Todos os países do primeiro mundo cultuam seus centros de excelência, que abrangem as melhores universidades. No Brasil, ao que parece, a tendência é a de desperdiçar esse potencial, eixo gerador de grandezas. Existe um projeto de lei, de autoria do senador Antero Paes de Barros, que determina a reserva de 50% das vagas nas universidades estaduais para alunos das redes públicas. Este projeto já fora aprovado na Comissão de Educação do Senado,  em caráter terminal – sem votação em plenário – por acordo entre os partidos. Na semana passada, para espanto dos educadores, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto semelhante, quase que por unanimidade; dos 68 deputados presentes, apenas um deixou de votar a favor.

Como admitir reserva de vagas por decreto, não importa a que tipo de aluno, sem um critério de qualidade, sem uma prévia avaliação do conhecimento? Que conseqüências socioculturais e econômicas advirão desse procedimento infundado? Um aluno sem boa formação terá condições de acompanhar um curso de alto nível? Ou se espera o contrário, que a universidade de desqualifique, arrebaixe seu padrão, aviltando seus critérios? Se essa última hipótese não vier acontecer, a conseqüência será o desânimo do aluno, sua desistência, seu fracasso profissional. Para atender ao perfil do novo ingressante, a universidade terá de criar programas de adequação curricular e, sem dúvida, com impacto na estrutura dos cursos.

O projeto parte do pressuposto de que só alunos das escolas particulares conseguem entrar nas universidades públicas, gratuitas, o que é absolutamente verdade. Mas, por que isso acontece? O que gera a injustiça? Dedução óbvia: a péssima formação recebida nos graus de ensino anteriormente freqüentados por esse aluno. Uma etapa vencida, num determinado padrão, gera outra, no mesmo padrão. Há coerência no trajeto percorrido.

Saltar de repente, sem base de sustentação, é se desfacelar na caída. Pulo de gato só em alpinistas sociais, em educação não funciona. O ingresso à universidade se constitui na legitimação de um processo de seleção anterior. Vamos pensar sério, agir sério, deixar a demagogia, o populismo inconseqüente. Vamos qualificar o aluno pobre, dando mais atenção, mais verba para a educação básica; vamos investir, equiparar, humana e materialmente, nossas escolas oficiais às escolas particulares, melhorando o seu ensino. Assim, não precisaremos inverter a ordem natural das coisas e dos fatos, camuflar valores, colocando a carroça diante dos bois e criando confusão entre ordem direta e inversa.

O ensino superior deve ser seletivo, deve receber os melhores preparados, na perspectiva do maior padrão possível de ensino. É preciso que os educadores se alertem, que reajam contra essa incongruência, que vai acabar no mesmo poço fundo da desigualdade social, com a agravante de arrastar junto as nossas melhores universidades.

Já se denunciou a inconstitucionalidade do projeto, quando a Constituição Federal, em seu inciso I, artigo 26, reza preceito contraditório a esse procedimento: “O ensino será ministrado no Brasil com base no princípio da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. O correto é, pois, dar igualdade de condições a ricos e a pobres e deixar que as vagas sejam daqueles que as conquistarem pela competência, pelo conhecimento adquirido. Sem uma educação de qualidade qualquer esforço por igualdade social é inútil.

Não se forma uma grande nação por decreto; forma-se pelos passos que essa nação desenvolve, pelas oportunidades que cria, pelos olhares, competentes e honestos, que dirige ao desequilíbrio da balança social, buscando justiça na eqüidade. A reserva de vagas, a alunos supostamente despreparados, só faz transferir o problema para a universidade, reflete negativamente sobre o nível superior oficial, nivelando-o por baixo.

Amanhã é Natal.  A todos meus prezados leitores votos de um dia feliz, extensivos ao ano inteiro. Que os sentimentos de paz, de amor, de fé, de que é portador, permaneçam junto a nós para sempre. Este ano, o Natal inspirou-me os versos, que publico a seguir.

NESTE NATAL

Quero, neste Natal, mãos que se tocam,

Vidas que, na alma, bondade estocam,

Quero a poesia alimentando a ilusão,

Sabendo que Jesus é coração.

Do papai-noel quero ajuda à pobreza,

Crianças sem fome, sem ar de tristeza,

Que partilham da mesa farta,

Junto ao presente, a esperançosa carta.

Neste Natal não quero iguaria,

Não quero a ceia ornamental,

Nem pedras enfrentando a artilharia.

Quero a graça de ver o mundo em paz,

Criança palestina em terra natal,

O amor expulsando satanás.

 

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em dezembro/2000)

REALIDADE CONFLITANTE

Izabel Sadalla Grispino *

Constata-se em nosso País o estabelecimento de conexões do crime aqui praticado com o crime organizado internacional, deixando a sociedade nas mãos de bandidos de alta periculosidade.

Os descuidos políticos na área da segurança estão sendo dolorosos para o País. Poderes advindos do crime vão se firmando no mundo todo, com forte representatividade no Brasil. São as sombras do mal rondando a terra. Prendem-se à alça da ganância, do terror, da destruição, transformam-se num mercado sumamente lucrativo.

Vive-se no preceito de que vale mais quem tem mais, criando nessa inversão de valores estímulos a contravenção. O gérmen do crime está muito nesses valores invertidos, subvertidos, antiéticos e, sob esse prisma, o seqüestro atua numa sociedade onde os poderes se encontram.

Há, segundo consta, vários esquemas no País visando criar uma grade de proteção contra o crime. Porém, ao que tudo indica, as causas mais profundas, mais reveladoras da violência são de caráter social, como a miséria, o desemprego, a concentração de renda, cada vez maior e sem condições de fomentar o crescimento dessa renda em favor da população mais pobre.

O capitalismo selvagem, o mundo do grosso dinheiro, vêm trazendo comportamentos agregados, com um capital girando em torno de si mesmo e produzindo um consumismo exagerado. Paralelo a esse regime, surge o estabelecimento de poderosas organizações, possuidoras de um portentoso aparelho criminal, enfrentando com grande desigualdade e grande vantagem o desestruturado e arcaico aparelho policial do País.

A descrença é geral, a proteção, praticamente, inexistente ao cidadão. A epidemia de violência demonstra, claramente, que os bandidos estão soltos, dão pouca importância aos encarregados de manter as leis. O que tudo indica é que o crime organizado tem muito dinheiro para alimentar essa negra situação.

Diante de tanto desalento, a imagem da educação surge como o grande lenitivo, o grande socorro. A passagem, dos jovens, dos valores morais, éticos, a formação humanística, a visão de felicidade que advém de uma vida simples, solidária, o apego à religiosidade, são conceitos que, em seqüência, trarão a esperança da reversão.

Elevar o nível de ensino das escolas públicas, aparelhando-as condignamente, ministrando um ensino de qualidade, resgatam compromissos com a sociedade, no sentido da exclusão dos despossuídos Criar frentes de trabalho, dar condições de vida digna aos necessitados, são saídas que, sem dúvida, trarão o equilíbrio social tão necessário. Creio serem esses os melhores caminhos a trilhar, começando já, sem perda de tempo, para que, a médio e a longo prazo, possamos sair dessa assustadora realidade social.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2006)

OS RUMOS DO ANALFABETISMO NO BRASIL

Izabel  Sadalla  Grispino *

Os avanços no campo educacional no Brasil, em termos de alfabetização, são praticamente nulos. Recentemente, dia 10 de fevereiro p. passado, aconteceu em São Domingos, capital da República Dominicana, a “Reunião das Américas para Avaliação da Educação para Todos”, contando com a presença do ministro Paulo Renato Souza. Os dados educacionais, do relatório apresentado pela Unesco, não são favoráveis para muitos países, inclusive para o Brasil, que, em 1999, manteve na escola uma porcentagem menor de alunos no 5º ano de escolaridade do que no começo da década.

Na conferência de 1990, houve, por parte dos países latinos, solene promessa de reduzir pela metade o analfabetismo antes do ano 2000. Essa promessa não foi cumprida, excetuando o Peru, que conseguiu derrubar a taxa de analfabetismo  de 23%,  em 1990, para 6,5%, dez anos depois.

“Continua  tudo  como  dantes  no  quartel-general d’Abrantes”. Parece mesmo que a educação nesses países, ressalvando o Peru, não configura como prioridade, como condição absoluta para o país emergir, se inserir entre os mais civilizados. Enquanto esses países falam em erradicar o analfabetismo, os países do 1º mundo, como os Estados Unidos, por exemplo, investem em maior tempo de permanência do aluno na escola, em período prolongado, com programação de atividades depois das aulas. “Se o país quiser estar preparado à competitividade não é mais suficiente ter apenas um dia letivo regular”, comentam os especialistas.

Sérgio Haddad, presidente da Associação Brasileira de ONGs, presente à “Reunião”, cobrou uma “educação pública como direito do cidadão”. Apontou que até a década de 90, a exclusão social “ocorria pela falta de vagas, mas, agora, acontece pela má qualidade de ensino. Hoje, a criança fica na escola, mas não aprende”,

O professor mexicano Carlos Zarco, secretário-geral do Conselho de Educação de Adultos da América Latina e Caribe (Ceal), entidade que reúne organizações não-governamentais (ONGs), causou impacto na “Reunião”, ao declarar: “A educação é vista, hoje, só como investimento, em termos de custo-benefício, e não como exercício de direito”.

É a conscientização desse exercício de direito que dará, um dia, a supremacia à educação, que despertará o patriotismo de filhos lutando pelo engrandecimento da pátria-mãe. Enquanto vivermos no palanque das vaidades, do discurso, não da ação, da exibição das somas, a educação continuará nesse “faz de conta”, apoiada em números, em anos de escolaridade que podem até avançar, mas o faz num grau que nos deprecia, que nos desalenta. É bem verdade que é preferível algum nível de escolaridade que nenhum, mas, também é bem verdade que há um limite para essa aceitação.

A escola, com exceções, vem colocando na sociedade analfabetos funcionais, despejando, no mercado de trabalho, levas de despreparados, que acabam frustrados, marginalizados profissionalmente.

Um outro agravante nos rumos da educação é a evasão escolar. Considerando dados da Unesco de 1998, quanto à conclusão do 1º grau, no Brasil apenas 33% dos que entram na escola concluem o 1º grau, na Bolívia o índice é de 64%, no Peru 70%, no Chile 85%, no Uruguai 86% e em Cuba 92%.

A escolaridade média do brasileiro é de 4 anos. “Para exemplificar como estamos mal, na América Latina, só o Haiti possui uma média inferior à nossa. Até o Paraguai consegue ser melhor”. (Pedro Demo).

A evasão engrossa a lista dos que estão fora da escola, justamente numa época em que a exigência da escolaridade é condição absoluta para se colocar na sociedade. Contudo, cada vez mais, as mudanças no mercado de trabalho têm forçado a permanência nas escolas e aumentado a procura pelo ensino médio. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho demonstrou, em novembro do ano passado, que se abriram mais postos de trabalho do que se fecharam para os que têm ensino médio completo. Abaixo desse padrão de escolaridade a situação se inverte: fecham-se mais postos de trabalho do que se abrem. Os metalúrgicos, por exemplo, enfrentam uma luta para conseguir o diploma do ensino médio. Quem não tiver, pelo menos, esse nível de ensino, ficará excluído do mercado de trabalho industrial.

“A experiência profissional, principal exigência das empresas na década de 80, passou para segundo plano. A partir dos anos 90 isso mudou e o conhecimento passou a ser o mais importante”, disse Walter Trigo, gerente de Relações Trabalhistas e de Operação de Recursos Humanos da Ford, em São Bernardo do Campo.

O professor Fernando Ferreira, coordenador técnico da Escola de Qualificação Profissional, acompanha de perto o drama dos trabalhadores experientes, mas desempregados por falta de escolaridade. Uma das condições impostas às fábricas pela ISSO 9000, segundo o metalúrgico Eleno José Bezerra, diretor da Escola de Qualificação Profissional, é ter quase todo o quadro de pessoal com o ensino médio completo.

Para obter o selo de qualidade, as empresas estão preferindo escolaridade à experiência. Sem o 2º grau, os trabalhadores dos setores primário e secundário não terão condições de participar dos programas de profissionalização, nem de dominar as novas tecnologias. No setor terciário, ou de prestação de serviços, onde se encontra a maioria dos empregos futuros, dificilmente surgirão oportunidades para profissionais que não tenham, pelo menos, curso superior. Até vagas de faxineiro estão sendo preenchidas por quem tem, no mínimo, o 1º grau.

Menos da metade da mão-de-obra empregada na indústria brasileira completou a 4ª série do 1º grau. Dados do Ministério do Trabalho de 1998 revelaram que apenas 16,7% dos trabalhadores nas indústrias têm o 1º grau completo, 12,1% o 2º grau completo e somente 4,16%  completaram um curso superior.

Para o País se expandir comercialmente tem que haver grande preparação. Os países detentores de tecnologia mais avançada são os que mais estocam conhecimento. Novos padrões mundiais se consolidam dia-a-dia, padrões bem distantes de países como o Brasil, onde as estatísticas disfarçam o analfabetismo funcional.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2000)

ANALFABETISMO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

São vários os aspectos a serem enfocados sobre o analfabetismo no País, em crianças na faixa de 10 anos. Ressaltaremos alguns. Segundo pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgadas em 29 de novembro de 2002, 11,4% da população infantil são analfabetos. As cidades de médio porte levam grande desvantagem no quesito educação. São 383 mil crianças, dos sexos masculino e feminino, de 10 anos, a maioria de municípios de médio porte.

Considera-se um dos melhores indicadores para medir o nível educacional a taxa de analfabetismo das crianças de 10 anos. O índice varia de 5,4% nas grandes cidades, percentual considerado aceitável pelas Nações Unidas, até 18,7% nas cidades que têm entre 20 mil e 50 mil habitantes. O IBGE demonstrou que os municípios pequenos têm taxas de alfabetização infantil melhores que os médios, porque as prefeituras conseguem controlar com mais facilidade seus moradores. As baixíssimas taxas de analfabetismo no Sul contribuem, segundo o IBGE, para diminuir a média nacional.

O analfabetismo infantil varia de taxas altas, como 33% em Alagoas, para baixíssimos, como 1,7% em Santa Catarina. Em nível de escolaridade, a média vai de 8,1 anos de estudos em Brasília, a apenas 1,8 ano nas cidades de até 5 mil habitantes no Piauí. Há diferença entre municípios de um mesmo Estado, como no Maranhão, onde na capital a média de escolaridade é de 7,5 anos de estudos e nas cidades com até 5 mil habitantes cai para apenas 2 anos de estudos.

Em termos de analfabetismo infantil, temos ainda muito que avançar, que quebrar barreiras. O analfabetismo condena milhares de pessoas a uma vida sem perspectivas, vivendo miseravelmente.

Além do analfabetismo, temos ainda que considerar a má qualidade do ensino. O exame do Ministério da Educação, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), não mostra melhora significativa no desempenho médio dos alunos desde 1991, e piorou nos dois últimos anos. O Saeb mostrou que os alunos de 8.ª série dominam, na média, os conteúdos esperados dos da 4.ª série, e os da 4.ª série mal sabem decodificar as palavras que lêem.

Um teste aplicado pela Fundação Carlos Chagas em escolas de 52 municípios de 25 Estados demonstrou que os conhecimentos dos professores são próximos dos esperados dos alunos da 4.ª série.

Uma pesquisa que nos coloca na realidade brutal do nosso processo educacional é a intitulada “A Escola vista por dentro”, feita pelo ex-secretário do Ministério da Educação, João Batista Araújo e Oliveira, e pelo ex-presidente do IBGE, Simon Schwartzman. Estes autores sintetizaram, pelas respostas dadas a um questionário, o que é considerado “normal” entre professores, escolas e sistemas de ensino. Para os que não tomaram conhecimento da pesquisa, vale a pena conferir: “É normal não cumprir o ano letivo; é normal perder de 30 a 40% dos alunos sem que eles adquiram os conhecimentos para prosseguir os estudos; é normal enturmar alunos em classes onde eles não conseguem acompanhar o conteúdo e os ritmos dos trabalhos; é normal passar dever de casa que necessita de ajuda dos pais, mesmo sabendo que eles não podem ajudar; é normal começar o ano letivo sem professores designados para as turmas; é normal destacar professores sem habilitação para lecionar e sem conhecimentos elementares de português ou matemática; é normal operar escolas sem coordenação pedagógica, sem bibliotecas; é normal culpar os alunos e pais pelo fracasso dos filhos”.

O Brasil vem perdendo conceito geral e o trágico desempenho das escolas públicas ameaça o futuro do País, afirmam os especialistas. Não é redundante relembrar o vexame sofrido em 2000, quando os estudantes brasileiros, entre alunos de 15 anos de 32 países, ficaram em último lugar em capacidade de ler e escrever, na avaliação feita pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris. O exame foi supervisionado por uma técnica brasileira, que observou que muito dos alunos brasileiros nem sequer conseguiam ler as perguntas.

Diante do quadro exposto, como promover justiça social dentro de tanta desigualdade educacional? Soluções para as deficiências das escolas não são simples e nem rápidas. Educação boa é cara, é preciso real investimento, acompanhado de real mobilização da vontade política. Melhorar o ensino público é ponto capital para promover a justiça social. A má qualidade de ensino atinge gerações de jovens, leva-os a uma vida de apagado horizonte.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em janeiro/2003)

UM NOVO EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO

Izabel Sadalla Grispino *

Iniciei o artigo anterior abordando mudanças sugeridas, pelo atual governo, para a reforma do ensino. Terminei o artigo falando da proposta do ministro Cristovam Buarque de tornar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) uma avaliação de final de cada ano desse ensino e não só no seu término, como é hoje. Quer estender para os Estados a linha adotada, por ele, em Brasília, o Programa de Avaliação Seriada (PAS).

A princípio, parece ser uma boa proposta quanto ao ingresso ao ensino superior. Tomando o vestibular como referência, este projeto é mais flexível, menos estressante e oferece mais oportunidades ao aluno, eliminando, com suas avaliações periódicas, o temor da avaliação única. Ademais, a apuração do conhecimento limitar-se-ia ao conteúdo, especificadamente, ministrado, ano a ano, no ensino médio. Não haveria necessidade de o aluno recorrer a estudos extras ou a cursinhos.

Todavia, quando se aprofunda na sua análise, depara-se com o conceito maior da educação desse nível de ensino, qual seja, a formação básica da cultura geral. A educação integral é bem mais importante que uma preparação técnica para o vestibular. É preciso formar o cidadão e não apenas o profissional e o Enem, sendo aplicado a cada final de ano, estaria prejudicando a formação em favor do treinamento. Ele viria a ser um escalonamento do vestibular em três séries, transformando o ensino médio numa transição para o ensino superior. Haveria um reforço nas matérias do vestibular e um afrouxamento das disciplinas complementares que integram a educação geral.

Esse processo de seleção obstruiria as etapas normais do desenvolvimento das faculdades intelectuais, das faculdades formativas de valores e atitudes. Sob o aspecto amplo da formação do aluno, este processo de avaliação periódica seria um aniquilador do ensino médio. Roubaria do aluno o tempo destinado à leitura suplementar, à pesquisa, ao desenvolvimento das potencialidades, pré-requisitos essenciais à formação integral e à atuação plena do futuro profissional.

Sabe-se, hoje, que atrás do bom desempenho de qualquer função está, grandemente, o bom domínio do conhecimento geral. Por exigência do mercado, é freqüente, em nossos dias, a extinção de uma função e o surgimento de outra e é justamente o conhecimento amplo e diversificado que vai ajudar o profissional passar de uma ocupação para outra.

Nessa linha de raciocínio, conclui-se que, com o sistema de avaliação seriada, o ensino médio reduzir-se-ia a um curso preparatório para o ensino superior, com uma sucessão de provas e adestramento para elas,  o que acarretaria, ao aluno, mais prejuízo que o tão decantado vestibular.

A preocupação com a deformação do ensino-aprendizagem vem de longe. Francisco Campos escrevia em 1931, a respeito do então ensino secundário: “O ensino secundário tem sido considerado como um simples instrumento de candidatos ao ensino superior, desprezando-se, assim, a sua função eminentemente educativa, que consiste, precisamente, no desenvolvimento das faculdades de apreciação, de juízo e de critério, essenciais a todos os ramos da atividade humana. (...) Assim, o ensino secundário (...) perdeu as suas características próprias e específicas (...) passando a ser de finalidade exclusivamente utilitária, despido de finalidade interna, fundamentalmente educativa. A última fase desse processo de degeneração do ensino secundário (...)  o transformou em mera chancelaria de exames”.

Se a avaliação progressiva vingar, o Enem perde a finalidade para a qual foi criado. O exame iniciou-se em 1998 pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) com o objetivo de avaliar as habilidades e competências adquiridas  pelo aluno no fim da educação básica. É uma indicação de como será o processo educacional nos próximos anos. Quer verificar se o aluno assimilou as informações repassadas na educação básica e se sabe utilizá-las no dia-a-dia. O Enem quer uma escola que vai dar formação ao aluno, não apenas informação. Vai desenvolver o raciocínio, o espírito crítico, o relacionar conceitos, transferir conhecimentos em situações concretas. Não quer medir conteúdo, mas a capacidade de resolver problemas dos fatos do cotidiano. Porém, há quem ache que o Enem peca por privilegiar processos de pensamento em vez do conhecimento e que ele deve se aproximar mais do vestibular. Mas, eu me pergunto: o aluno bem formado, com o seu raciocínio desenvolvido, não chega mais fácil ao conhecimento? São justamente os processos de pensamento que levam ao conhecimento, é só saber fazer uma adequação.

O Enem é um exame que se aproxima da realidade do aluno, mas ao que parece a prova deste ano, marcada para 31 de agosto, será a última a ser realizada nos moldes tradicionais. “Mudança seguramente vai ter”, garantiu a diretora-responsável pelo exame, Dirce Gomes, pertencente ao Ministério da Educação (MEC). Uma mudança é fazer do Enem uma avaliação obrigatória a todos os alunos e não facultativa como é hoje. O propósito do ministro é mudar o sistema de vestibular, adotando nos Estados o PAS, método de avaliação pelo qual os estudantes com os melhores desempenhos nos três anos do ensino médio têm vaga assegurada na Universidade de Brasília (UnB). Essa universidade faz avaliação ao fim de cada um dos três anos do ensino médio.

Essa inovação terá um gasto três vezes maior do aplicado no  Exame  Nacional  do Ensino Médio, do Enem atual. Valerá à pena?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2003)

LONGO DESCASO À EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Em nosso País, economistas encontram no prolongado descaso à educação a explicação para a desigualdade de renda brasileira. Descaso secular, em que a cada década os problemas se agravam, se avolumam e arrastam o País para um futuro incerto, desordenado. A baixa escolaridade levou à baixa produtividade da mão-de-obra, aos baixos salários, à favelização, à criminalidade.

Diferenciais de salário estão diretamente relacionados a diferenciais educacionais. Em meados dos anos 90, o ensino fundamental universalizou-se e com ele se agravou a qualidade. O IBGE mostra que, praticamente, 3 de cada 5 jovens lêem e escrevem mal.

Confirmam os economistas que cada ano a mais na escola  representa  um  investimento  para a sociedade equivalente a uma aplicação financeira que rende 15% de juros reais ao ano. O nosso atraso educacional é responsável, reforçam eles, por no mínimo 1/3 da diferença de produtividade do trabalho que há entre o Brasil e os Estados Unidos.

Os resultados recentes, em economia da educação, apontam o ambiente doméstico como um dos determinantes do mau desempenho dos alunos, da queda de qualidade da educação pública.  Esse fator é facilmente comprovado observando os alunos que freqüentam escolas particulares. Essa conclusão tem empurrado a escola a olhar para o meio onde está inserida, no preceito de educação não só para dentro dela, mas para o seu entorno. Ao contribuir para que os pais, os lares, sejam melhores, a escola estará contribuindo para melhorar a escola de amanhã e para melhorar a renda familiar.

A atenção voltada às famílias é uma maneira de compensar, em parte, as carências do ambiente familiar. Ao criar programas de orientação, a escola eleva a qualidade dos pais, elevando a dos filhos. A universalização do ensino fundamental, embora tenha agravado a qualidade do ensino, trará, contudo, para as futuras gerações de alunos, pais em melhores condições culturais para educar os seus filhos, revertendo em qualidade de ensino.

Países no estágio de desenvolvimento como o Brasil precisam se voltar à pobreza, ao ambiente desestruturado, de pais separados, analfabetos ou semi-analfabetos em que vivem uma boa parte das crianças que vão à escola pública.

Acordaremos, um dia, para a realidade educacional em que vivem os brasileiros? O descaso prolongado à educação, de décadas e décadas, é muito presente, de triste resultado, precisando de outras tantas décadas de políticas públicas consistentes para se conseguir uma solução plausível para a educação, em sua qualidade de ensino.

Poucas são as regiões do Brasil que apresentam um maior avanço na educação. Uma cidade destacada pela qualidade e apontada como exemplo é Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, próxima a Campinas. A persistência de anos de políticas públicas  caracterizou o diferencial da educação de qualidade.

Águas de São Pedro possui os maiores índices de crianças matriculadas do País. Não possui escolas particulares e as escolas públicas garantem o nível elevado do ensino.

Teremos, em Águas de São Pedro, uma luz capaz de irradiar seu modelo para o resto do País?

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro de 2007)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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