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Artigos Educacionais

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REFLEXÕES SOBRE O RESULTADO DA PROVA BRASIL

Izabel Sadalla Grispino *

Estuda-se o porquê de o ensino no interior do Estado, principalmente nas pequenas cidades, ser melhor que nas escolas da capital. A Prova Brasil confirmou, no começo de julho, que as escolas públicas do interior têm, em média, desempenho melhor que as das cidades grandes.

A Prova Brasil, um importante mecanismo de avaliação do ensino básico, revelou, nos testes, que a grande maioria dos alunos apresenta um aproveitamento bem abaixo do desejado. Revelou, também, um ensino de melhor qualidade nas escolas do interior.

Essa Prova foi aplicada em novembro de 2005 a 3,3 milhões de alunos em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios. Competência, como domínio de linguagens, capacidade de comunicação e interpretação, construção de argumentos, ficaram fortemente a desejar. Uma grande parte de alunos não consegue identificar o tema de narrativas simples e entender textos com um mínimo de complexidade. O resultado foi deveras frustrador.

Os estudos, sobre a vantagem do ensino no interior do Estado, concluíram o que de velho já se sabe: baixa rotatividade de diretores e professores, participação dos pais e da comunidade, praticamente, no dia-a-dia da escola, professores, em grande escala, formados no ensino superior e freqüentando cursos de reciclagem profissional, tendo salários mais condizentes com a vida simples do interior.

Muitas escolas utilizam-se da metodologia de levar informações constantes aos pais, estimulando-os a participar da escola, do processo de avaliar constantemente o aluno e verificar em que ele pode estar falhando e aplicar a recuperação paralela. Além das provas, os alunos são avaliados por comportamento e participação em sala de aula.

As funções sociais assumidas pela escola devem vir acompanhadas da gestão pedagógica. Devem-se diminuir os encargos burocráticos do diretor de escola para não afastá-lo do foco principal, que é o acompanhamento do ensino-aprendizagem, que é saber se os alunos estão, realmente, aprendendo.

A idéia que vem dominando no Estado de São Paulo, como resultado dos estudos, é eliminar os três turnos diários da escola, deixando apenas dois, o que seria um grande passo.

É evidente que a atuação devotada e criteriosa da escola e do professor resulta no bom andamento do ensino. Sem uma boa escola, como formar capital humano necessário ao desenvolvimento da Nação?

* Supervisora de ensino aposentada        
(Publicado em agosto/2006)

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

Na semana passada abordei, sobre o processo de Avaliação da Aprendizagem, o item “Conceituação”. Hoje, teremos, também em forma de versos, o segundo item anunciado, “Aspectos do Desenvolvimento”.

Na conceituação, pudemos perceber que a avaliação é um processo contínuo de pesquisas, que visa estudar e interpretar os conhecimentos, habilidades e atitudes dos alunos, tendo em vista mudanças esperadas no comportamento, propostas nos objetivos da escola, a fim de que haja condições de decidir sobre alternativas no planejamento do trabalho do professor, da escola como um todo. Propõe-se, então, indagar o que avaliar? O que deve ser avaliado no aluno?

Não são só os aspectos cognitivos, as habilidades lingüísticas ou matemáticas, que devem ser avaliados, mas, também, os diferentes valores, os diferentes comportamentos, os amplos aspectos do desenvolvimento do aluno. A avaliação abrange as inteligências múltiplas, afloradas nas potencialidades do aluno. O professor, ao dar oportunidade a que os alunos se expressem, perceberá, em suas manifestações, as diversas habilidades – corporal, espacial, naturalista, interpessoal – que não podem deixar de ser acolhidas, consideradas.

O objetivo da escola vai além da transmissão do conhecimento, por isso outras áreas do comportamento devem ser avaliadas para que haja compreensão dos fatores que impedem o progresso do aluno nos estudos.

ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO

“A escola tem fins mais complexos,            Desenvolve amplas capacidades,
Que a construção do conhecimento,            O criar, o inventar, variado engenho,   
Avalia, em conteúdos anexos,                        No mundo atual, versatilidades
Aspectos do desenvolvimento.                       Se igualam ao intelectual empenho.            
Observa o aluno em aspectos amplos,        O mercado quer generalista,
O ligado ao físico-motor:                                  Saber eclético, articulado,  
Deficiências, visão, vários ângulos,              A época do régio especialista
Que influem no agente receptor.                   Ficou distante, hoje é passado.

Outro aspecto, o social-afetivo,                     A avaliação não é sempre igual,
Reflete a classe, a reação pessoal,              É usada em variada situação,
Liga-se ao aspecto cognitivo,                         Quanto mais prova sem ar formal,
Em entrelaçamento total.                                Mais rica será sua atuação.

Avalia tipos de aprendizagem,                       Ensino-aprendizagem contínuo
Às faculdades dá preferência,                       Requer avaliação permanente,
Promove ensino qualitativo,                           Objetivo claro, nada ambíguo,
Atenuando, assim, a repetência.                  Mestre e aluno em constante corrente.

Adota variados instrumentos,                       Padrões de rendimento aceitável
Lápis, papel, não são suficientes                 Eliminam discriminação,
Para avaliar desenvolvimentos,                   Teste com validade, confiável,
Com seus comportamentos reagentes.    Suaviza o ensino e evita evasão.

Ressalta aspectos qualitativos,                   Se o ensino-aprendizagem vai bem,
Habilidade e competência,                            O educando marcará vitória,
Insiste em métodos reflexivos,                    O professor se avalia também,
Trabalha atitudes com freqüência.              Louvor é dado à sua trajetória.”

 

* Supervisora de ensino aposentada           
(Publicado em agosto de 2000)

A ESCOLA NO REPASSE DE INFORMAÇÕES

Izabel Sadalla Grispino *

A Secretaria Estadual de Educação, no propósito de se aproximar mais da escola, inaugurou um canal direto de informação para pais e professores. Os professores podem tirar dúvidas, discutir assuntos delicados, como drogas, aids, sexo, como lidar com alunos violentos, com uma equipe de especialistas, através de e-mail. Segundo informações da Secretaria, o Centro de Excelência do Professor, composto por profissionais ligados à universidade, terá três dias para responder às perguntas feitas por meio do site www.educacao.sp.gov.br

Os pais têm um telefone para comunicar-se diretamente com a Secretaria e fazer observações, reclamações de problemas ocorridos na escola dos filhos. Poderão ligar para 0800-770012, enviar e-mail ou mesmo ir pessoalmente à Secretaria, numa espécie de ouvidoria. Este contato direto abre a oportunidade de reforço nas soluções dos problemas que, até então, eram apenas da competência das diretorias de ensino, sem condições reais de resolvê-los satisfatoriamente.

Um outro comunicado, agora aos alunos, diz respeito às Escolas de Ensino Superior que, burlando a legislação, oferecem cursos não legalizados, por falta do credenciado da instituição no Ministério da Educação e Cultura.

Nossos estudantes precisam estar a par das prerrogativas oficiais empreendidas a seu favor. Para protegê-los de faculdades inidôneas, o MEC elaborou um cadastro do Ensino Superior, que pode ser consultado na internet e que relaciona cursos ilegais. Através do cadastro, o aluno verifica a situação legal do curso, evitando matricular-se, por desconhecimento, em uma instituição superior de ensino sem o credenciamento no MEC.

Um curso novo obtém, inicialmente, apenas a autorização do Ministério. Depois de dois anos deve pedir o reconhecimento, que é renovável a cada cinco anos. Somente os cursos reconhecidos pelo Ministério podem emitir diplomas.

O cadastro especifica a data da criação do curso, as vagas para alunos, o tipo de diploma conferido e o endereço da universidade pública ou privada. As informações, pelo sistema, são passadas de imediato, ao estudante. Ao pesquisar uma instituição, aparecem na tela os links para as notas do Provão e para a sua relação de cursos. A nota do Provão é importante porque cursos com três resultados consecutivos D ou E no exame perdem o reconhecimento.

Na relação de cursos, o aluno pode, também, clicar em cada um deles e ter as informações legais sobre o seu reconhecimento e autorização. As instituições podem ser procuradas pelo nome ou pelo município onde atuam.

A partir da criação do Cadastro do Ensino Superior, disponível no endereço eletrônico www.educasuperior.inep.gov.br, o estudante não tem mais desculpas para freqüentar uma faculdade sem credenciamento no MEC.

Ainda, sobre um outro aspecto, a escola, na sua função social, deve fazer chegar à comunidade, através das Reuniões de Pais e Mestres, de comunicados afixados em lugares apropriados, divulgação nos jornais da cidade, assuntos relevantes, ao conhecimento geral.  É  o  caso do Censo 2000 do IBGE, que detalha informações de vários interesses, que facilitam a escolha de iniciativas a serem empreendidas e a avaliar os fatores de riscos. Essas pessoas podem acessar um programa do computador que o IBGE está vendendo. É um software que oferece dados do Censo 2000 referentes a cada rua e a cada quarteirão de 1.058 municípios brasileiros com mais de 25 mil habitantes.

O software oferece informações sobre economia, informações sociais e culturais em cada um dos chamados “setores censoriais”, isto é, dos grupos de 200 domicílios, em média, que ficaram a cargo de um mesmo recenseador no último censo. São dados minuciosos, que permitem análises detalhadas, como, por exemplo, o grau de escolaridade de seus moradores, as faixas etárias, o perfil de consumo e, até mesmo, o grau de incidência de determinadas moléstias. Os dados coletados de cada setor censitário – grupo de 200 domicílios – permitem 1.659 cruzamentos diferentes, a respeito de quem mora naquela área.

O software permite um melhor planejamento de políticas públicas – uma antiga propriedade do IBGE – como o estudo de mercado de áreas geográficas específicas, um empreendimento que se pretenda abrir na região. O interessado encontra um conjunto substancial de dados, capazes de referendar ou não o empreendimento. Assim, quem pretende abrir uma escola num determinado local, pelo Censo 2000, pode identificar em que áreas de cada bairro está a maior demanda por pré-escola, com família de renda suficiente para pagar o atendimento. São cruzamentos de dados, como este, que o novo programa do IBGE permite fazer, possibilitando informações mais precisas para o sucesso do empreendimento.

Um outro exemplo esclarecedor da utilidade do programa, divulgado pela imprensa, refere-se a bens de consumo, como o carro. Os macrodados do Censo 2000 mostraram que no Sul e no Sudeste mais de 40% dos domicílios têm carro, enquanto que no Norte e no Nordeste não chegam a 15%. Esse fato é interessante para o planejamento empresarial e mesmo para o planejamento do trânsito, que acabam tomando conhecimento em que áreas de cada cidade há a maior concentração de domicílios com automóveis.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2002)

UMA PROPOSTA DE MUDANÇA

Izabel Sadalla Grispino *

Num debate sobre educação e capital humano, após análise e conclusão da inoperante educação básica brasileira, surgiu por parte do emérito prof. Eduardo Giannetti da Fonseca, economista PhD, pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, professor titular e coordenador do Ibmec, em São Paulo, uma proposta de mudança, de valorização do ensino fundamental, que vale a pena divulgá-la, levar os educadores a tomar conhecimento e a refletir sobre ela.

Constata-se que no Brasil chega ao limiar do ensino superior uma camada de alunos que mal conseguiu atingir o nível de competência necessário para passar de ano e se formar no ensino médio. Esses alunos não adquiriram, em sua formação, as qualificações necessárias ao grau de educação básica e vão freqüentar o ensino superior carregando uma defasagem significativa.

O Pisa, uma avaliação internacional, comparativa entre países, mostrou que não apenas o Brasil ficou em último lugar, como apontou algo incrível: “As crianças que vêm da elite brasileira entendem menos o que está escrito no papel do que os filhos de operários em países da Europa”. Isso torna evidente que a questão da escolaridade, em nosso País, está mal resolvida.

A sociedade brasileira desperta lentamente para a importância da educação. É preciso, pois, avançar nesse terreno e aperfeiçoar a visão docente sobre a necessidade de mudança. Apoiado nesse pressuposto, Giannetti propõe um exame nacional unificado, no final do ensino fundamental. Propõe uma avaliação que mostre que quem passou por esse processo educacional demonstre que adquiriu habilidades e capacidades associadas a este grau de ensino.

O estudante não terá o ensino fundamental completo, simplesmente por ter cumprido os anos determinados por esse ensino. Ele o terá se passar num exame nacional, que vai testar se adquiriu as competências educacionais próprias desse grau.

É um processo semelhante ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil. O formando não se torna advogado se não for aprovado no exame da Ordem. Assim, não terá ensino fundamental completo o aluno que não passar no exame.

Pondera Giannetti que o exame vai dar uma indicação da qualidade do ensino, mostrar onde estão as deficiências e por onde começar sua correção. Será um termômetro, fornecendo informações, incentivando as escolas a cumprirem bem o seu papel de ensinar e os alunos a se dedicarem ao estudo, visando sua aprovação no exame.

O exame será um credencial para os concluintes do ensino fundamental na hora de se conseguir um bom emprego. Comprova o grau acadêmico correspondente ao curso. A sociedade terá informações para saber se o aluno, em sua formação, adquiriu as qualificações próprias desse grau escolar.

Os estudantes que não passarem no exame deverão ter toda oportunidade de voltar a estudar, deverá ser criado algum tipo de curso extra, uma reforçada preparação e novas chances de participar dos próximos exames.

Para que não haja esfacelamento de provas, Giannetti propõe acabar com todos os demais exames oficiais – Neb, Prova Brasil –,  ficando apenas esse, de final de curso.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2006)

ANALFABETISMO FUNCIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

As mudanças sociais acarretam mudanças funcionais, criam palavras e expressões que vão se incorporando e se firmando através da mídia. Temos lido e ouvido, freqüentemente, falar em analfabeto funcional. Pelo conceito tradicional, analfabeto é o indivíduo que não sabe ler e escrever. Hoje, saber ler e escrever, mas não ter capacidade para entender uma mensagem ou elucidar questões simples, é igualmente analfabeto, porque não há, no mercado de trabalho, função para ele.

A transformação no mercado de trabalho muda, radicalmente, o conceito do que é ser alfabetizado. A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 1996, revelou que 14,7% da população brasileira, acima de 15 anos, são, pela antiga conceituação, analfabetos.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pretendendo apurar um grau mínimo de conhecimento, perguntou em sua pesquisa: ”Você sabe ler ou escrever um bilhete simples?” Levantou, nesse nível, um total de 15 milhões de analfabetos. Analfabetos que, embora soubessem escrever o nome, não conseguiram responder questões básicas de aplicação diária. Esse índice coloca o Brasil entre os dez países com maior número de analfabetos absolutos.

Hoje, porém, não basta saber ler ou escrever um bilhete simples para se colocar, com alguma perspectiva, no mercado de trabalho. Os empregos exigem, cada vez mais, tarefas complexas, como processar informações, interpretar textos, usar mapas, cálculos matemáticos. Nesse grau, os problemas são mais sérios. A última pesquisa, realizada na capital de São Paulo, abordando essa capacidade, apurou que 1/3 da população é analfabeta funcional. Este termo inclui tanto aqueles que não sabem assinar seu nomes, quanto aqueles que freqüentam uma escola, mas não conseguem, por exemplo, localizar um endereço em um anúncio de emprego ou somar quantias, depositadas em cheque, num formulário bancário.

“A Ação Educativa”, uma organização não-governamental na área da educação de jovens e adultos, realizou, em agosto de 1997, uma pesquisa, usando questões do cotidiano para verificar as habilidades que os paulistanos apresentavam em interpretar textos, em fornecer informações, em raciocínio e cálculos matemáticos. Concluiu que 7,4% dos moradores da capital, entre 15 e 54 anos, seriam classificados, pelo IBGE, como analfabetos absolutos. Essa porcentagem bate com o índice, de 1991, de 7,5%. Outra parte dos habitantes, 25,5%, não passou nos testes que pedia o acerto de 5 entre 7 questões relativas ao assunto acima mencionado. Somando-se os dois resultados, chega-se a 32,9% da população da cidade de São Paulo como sendo analfabetos funcionais.

Tendo-se em conta que os habitantes do município de São Paulo possuem o maior índice de escolaridade do País, a taxa de analfabetismo funcional no Brasil deve ser bem mais elevada.

Um outro aspecto revelador, demonstrado pelo estudo das “Ações Educativas”, é de que quem pára de estudar ou mesmo de trabalhar “emburrece”. Em teste aplicado, apenas 50% das donas-de-casa são aprovadas contra 69% das mulheres que trabalham fora de casa – o mesmo percentual dos homens. Essa constatação vem confirmar o preceito de que a educação tem de ser continuada, permanente. Vem confirmar a máxima de que os profissionais do próximo milênio terão de estudar a vida toda.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) faz uma descrição operacional do novo perfil dos analfabetos brasileiros. Os “analfabetos pós-modernos” que não sabem usar cartão magnético, aparelhos eletrônicos, ler manuais ou contratos; os “analfabetos televisivos”, que  não conseguem ler jornal ou livro; os “analfabetos do economês”, que não entendem cobranças, balanços ou linguagem dos bancos e da mídia especializada no setor.

Na Avaliação do Ensino Básico (Saeb), feita pelo MEC, em 1998, considerou-se que, em português, o grau de

compreensão da grande maioria dos alunos da 4ª série do ensino fundamental foi muito baixo. Os alunos não conseguiram interpretar o texto contido num manual de um simples aparelho.

Com esta base, a escola está integrando ao mercado de trabalho analfabetos funcionais, pessoas marcadas para a marginalização por deficiência de comunicação. Perguntamos: de que adianta a escola expedir certificado ao aluno, se ele sai dela sem condições, por falta de conhecimento, para enfrentar as ocupações  atuais de trabalho? A escola deve ter sempre presente o seu compromisso com a aprendizagem. O saber deve estar acima de qualquer outra responsabilidade que possa vir a ter, porque é esse saber quem vai aprovar ou reprovar o aluno na prática profissional.

Vivemos uma nova etapa do capitalismo, que exclui, sem apelo, os que não conseguem um mínimo de educação. A baixa escolaridade da nossa população, de 4 anos em média, empobrece o País, arrasta a miséria, a insegurança e a negação de horizontes de vida digna. Repercute no conceito nacional, especialmente, quando comparado aos nossos países vizinhos. Em matéria de escolaridade, o Brasil “ocupa um lugar inferior ao Paraguai, ao Uruguai, à Venezuela, à Colômbia, à Argentina e é semelhante ao Peru” (CNBB). A Argentina, um dos nossos parceiros do Mercosul, tem média de 8,7 anos de escolaridade. Nela, até os trabalhadores portuários de Buenos Aires, outrora típicos trabalhadores braçais, hoje, têm nível de 2º grau completo. O Paraguai avança mais, com média de 9,2 anos. Entre os tigres asiáticos, a escolaridade média passa de 11 anos e, nos países do primeiro mundo, vai de 12 a 16 anos.

Níveis de escolaridade tão distantes de um país a outro sinalizam o grau de importância que foi atribuído à educação, nestas diferentes localidades.

GERAÇÕES DE BRASILEIROS SEM-DOCUMENTOS

Izabel Sadalla Grispino *

Um ponto sério de reflexão é a geração, que o País tem formado, dos sem-documentos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) manifestou-se, em janeiro de 2003, dizendo não ter idéia de quantos brasileiros estão nessa situação. O Instituto não tem dados sobre quantas são essas pessoas; oficialmente elas não existem. São pessoas que não têm nenhum documento, nem mesmo o registro de nascimento. Não têm carteira de identidade, CPF, carteira de trabalho, PIS, nem título de eleitor. São adultos e crianças sem documentos! É desumanidade sem tamanho!

O demógrafo da pesquisa estatística sobre os registros civis, Antônio Tadeu de Oliveira, diz que o IBGE não tem um dado sobre os brasileiros adultos sem documentos. “Essa é uma estatística inexistente e é justamente entre os adultos que o problema é mais difícil de ser combatido”. Sem documentos, uma pessoa não pode votar, fazer o alistamento militar, receber qualquer benefício, como aposentadoria ou pensão. Também não pode ser incluída nos programas sociais do governo federal.

O cadastro único para identificar os beneficiários de programas do governo federal exige pelo menos um documento para que a pessoa possa ser inscrita. A orientação dada para as prefeituras é de registrar em arquivos à parte, para quem não tem documentos e de como regularizar a documentação. Exige-se pelo menos um documento para evitar pessoas fictícias ou duplicidade. Até o fim de dezembro de 2002, havia 5,5 milhões de famílias cadastradas e 5.400 pessoas notificadas como sem nenhum documento.

Os dados mais aproximados são os dos cartórios, mostrados pelo IBGE em “Estatísticas do Registro Civil”, em dezembro de 2000, quando 21,3% das crianças nascidas no País não foram registradas no mesmo ano, o que equivale entre 700 mil e 1 milhão de crianças. Em 2000, a estimativa era de 3,4 milhões de nascimentos. Cerca de 3,2 milhões de crianças nasceram em hospitais, mas houve apenas 2,5 milhões de registros. Poderiam  ter sido registradas pelo menos mais 700 mil crianças nascidas em hospitais, fora as que nasceram em casa.

Os chamados sub-registros afetam não só os dados de nascimento, mas também os óbitos. O IBGE, em seu levantamento de 16 de dezembro de 2002, estima que, nas regiões Norte e Nordeste, 48,2% e 35,6% dos nascimentos não foram registrados em 2000. O sub-registro de mortes tem proporções semelhantes, 33,2% para o Norte e 42,7% para o Nordeste. Essa ausência de registros interfere negativamente em outras estatísticas que são calculadas, baseando-se nos registros. É o caso da taxa de mortalidade infantil, com cálculo que surge estimado pelo IBGE, pela falta de dados reais. Em alguns Estados do Nordeste, o sub-registro de óbitos chega a 60%!

São nas regiões mais pobres do País que se encontram as maiores taxas de sub-registro de crianças. No Sudeste, a taxa cai para 6,3%, no Sul é de 11,3% e no Centro-Oeste, 19,7%.

Os dados do Registro Civil divulgados mostram que, na década de 90, houve aumento dos registros tardios, aqueles feitos depois de 3 meses do nascimento do bebê. Registros com até 10 anos de atraso eram de 25,6% em 1991. Subiu para 30,3% em 2000. Mas, mesmo notificando com atraso, muitos brasileiros passaram a registrar seus filhos. Essa situação evidencia-se melhor, segundo o IBGE, em anos de eleição, quando os políticos têm interesse em ampliar o eleitorado, ou em anos em que há campanhas de registro civil gratuito, como ocorreu em 1999.

A lei 9.534, de dezembro de 1997, determina que sejam gratuitos os registros de nascimento e morte. Outra lei, a 6.015, determina que a criança seja registrada até 15 dias depois do nascimento, sendo que o prazo é ampliado para 3 meses, em lugares que estejam a mais de 30 km da sede do cartório.

Embora ainda altas, as taxas de sub-registro melhoraram nos últimos anos. Em 1991, 29,2% das crianças brasileiras não eram registradas. Até 12 anos de idade, a certidão pode ser tirada sem problemas, desde que os pais estejam com os documentos em ordem. Depois há dificuldades suplementares.

O sub-registro é uma questão que precisa ser tratada com muito interesse pelos organismos competentes. É uma parte triste de nossa história, onde a miséria e a ignorância se completam. O sub-registro envolve o problema da cidadania. Quem não tem certidão de nascimento não existe oficialmente e não pode exercer seus direitos. Sobrevive sem existir legalmente, dependendo de favores para qualquer atividade formal.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em janeiro/2004)

BRASIL ALFABETIZADO

Izabel Sadalla Grispino *

O governo federal lançou em 8 de setembro do corrente ano, no Palácio do Planalto, o Programa Brasil Alfabetizado. Para se assegurar da viabilidade do programa, fechou convênios com prefeituras, organizações não-governamentais e universidades, que garantem a alfabetização de cerca de 1 milhão de jovens e adultos. O ministro da Educação, Cristovam Buarque, também assinou documentos com entidades representativas de universidades públicas e particulares para que elas se comprometam a estimular seus alunos a serem alfabetizadores, dando, inclusive, créditos em disciplinas para esses alunos. Segundo o ministro, o estudante que é um alfabetizador será um melhor profissional.

Não haverá uma metodologia única de ensino. O método será escolhido pelo educador, porém, o governo dará uma orientação para os cursos de alfabetização, 200 horas/aula, divididas em 10 horas semanais, ou 6 meses de cursos. Espera-se que os jovens e adultos, acima de 15 anos, sejam alfabetizados em cursos de 6 a 8 meses. Confederações nacionais da indústria, comércio e agricultura também se comprometeram a alfabetizar funcionários de seus filiados e adotar processos de seleção para a contratação e dar preferência a candidatos que tiverem o certificado de alfabetização do MEC.

É um movimento pioneiro, uma alfabetização em massa, de alcance educacional um tanto precário, onde surgirão inevitavelmente analfabetos funcionais, mas que não deixa de ser um primeiro passo para os que nunca freqüentaram uma escola. Alfabetizar uma criança é bem mais delicado, requer um professor bem formado, conhecedor de métodos de alfabetização, das etapas do desenvolvimento infantil, das especificidades que cada ano de idade da criança requer, quando então se parte do concreto caminhando para o abstrato. Alfabetizar a criança exige competência técnica aprimorada. Alfabetizar o adulto é processo mais simplificado. O adulto já atingiu a etapa final do seu desenvolvimento mental, sem ter tido, contudo, as estimulações precoces da educação infantil. Ao adulto, o importante é ajustar o conhecimento ao perfil e ao ritmo do aluno a ser alfabetizado. O objetivo é ensinar a ler e a escrever e não ministrar educação integral, pouco se envolvendo em atitudes e comportamentos.

Pesquisas têm demonstrado que apenas 29% da população brasileira possuem um bom nível de alfabetização. O déficit educacional do brasileiro é grande, cerca de 60% da população não teve 8 anos de estudo. As pesquisas mostram que em apenas 19 municípios brasileiros a população possui um índice que corresponde às 8 séries do ensino fundamental. Em outros 1.796 municípios do País a escolarização média da população é inferior a 4 séries concluídas, não atingindo o término do 1.º ciclo do ensino fundamental.

Os estudos revelam a existência de uma forte correlação entre o grau de instrução e a taxa de analfabetismo. Em Niterói (RJ), cuja população possui o maior número médio de séries concluídas do País, de 9,5 anos, a taxa de analfabetismo é de 3,6%. No outro extremo está a cidade de Guaribas (PI), na qual a população tem, em  média, apenas 1,1 série concluída. No município, a taxa de analfabetismo é de 59% e o analfabetismo funcional alcança quase 93% da população.

As diferenças regionais evidenciam-se quando se leva em conta o grau de instrução da população. Todos os 10 municípios com melhores indicadores estão nas regiões Sul e Sudeste e as 10 cidades com o menor número médio de séries concluídas estão nas regiões Norte e Nordeste. O País continua marcado pela desigualdade. Os índices de analfabetismo em famílias com renda acima de 10 salários mínimos chega a ser 20 vezes menor dos que ganham 1 salário mínimo.

Um outro agravante no País é o número cada vez maior de analfabetos funcionais. A pesquisa Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), da Fundação Paulo Montenegro/Ibope e Ação Educativa, revela que 67% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Temos, é verdade, avançado na alfabetização absoluta, com 97% das crianças na escola, mas o analfabetismo funcional continua crescendo. A escola vem oferecendo aos alunos um ensino de tão baixa qualidade que eles não sabem como usar na, vida real, o pouco que aprenderam. Isso indica dupla preocupação: com os 20 milhões de analfabetos absolutos, que nunca freqüentaram uma escola, e com os que, apesar de saberem ler e escrever, são analfabetos funcionais, incapazes de entender um texto simples. A leitura é truncada, lenta e cansativa. Não conseguem escrever sobre o que leram. Estão em total desvantagem na educação. Eles são reflexos de uma escola decadente, que reflete um atraso acumulado dos últimos 30 anos. Uma escola que alfabetiza, mas não se preocupou em estimular a leitura e para uma boa alfabetização a leitura é indispensável. A leitura fortalece o conhecimento, amplia a visão de mundo.

Pelo exposto, percebemos o quanto a sociedade deve ser mobilizada, conscientizada, para o nosso falido sistema educacional, que marca um forte retrocesso nas condições sociais do País. A lacuna entre trabalhadores e inclusão no mercado de trabalho se faz sentir fortemente. Como, por exemplo, a indústria poderá conviver com o funcionário analfabeto diante de um mecanismo robotizado?

* Supervisora de ensino aposentada.             
(Publicado em outubro/2003)

LEITURA, INTERPRETAÇÃO E REDAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino*

Os recentes dados do MEC mostram que uma boa parte dos jovens, cursando o fim do ensino médio, é incapaz de entender o que lê. Esses jovens aspiram, geralmente, entrar numa faculdade e a interpretação do texto é a habilidade mais cobrada nos vestibulares, não apenas em português, mas em todas as matérias.

As questões exigem cada vez menos memória e em seu lugar utiliza-se de trechos extraídos de livros, jornais, revistas, tiras de quadrinhos e mesmo de propaganda. Esse processo vem ganhando as escolas em seus sistemas de construção do conhecimento, quando se prepara o aluno para desenvolver a capacidade de resolver problemas, de raciocinar, de ligar o conhecimento formal aos fatos de sua vida diária.

Para desenvolver a interpretação, o melhor caminho é a leitura. Uma leitura diversificada, de gêneros literários diferentes, jornalísticos, publicitários, poesias etc. Uma leitura atenta ao conteúdo, à forma de escrever, às regras gramaticais, tentando captar o que está nas linhas e, também, nas entrelinhas, isto é, o que está implícito no texto. Para tanto, o aluno deve ser orientado a uma leitura cuidadosa, instigado a ver além do que está simplesmente escrito.

O vestibular tem proposto questões contextualizadas, o que significa que o estudante deve analisar a situação, o contexto em que aparecem, para depois respondê-las. Deve ler jornais para se atualizar, para tomar conhecimento do que se passa ao redor, ao País, ao mundo. Aluno que lê acaba tendo um bom entendimento de texto e desenvolve a capacidade de se expressar bem. A leitura é a chave de uma boa redação, de um bom aproveitamento intelectual. Quanto mais o aluno lê, maior será a sua desenvoltura diante do saber. Infelizmente, o aluno brasileiro lê muito pouco e cada vez menos.

A escola, conhecedora dessa grave distorção no ensino da língua, deve atacar de frente o problema, criando projetos integrados a todas as áreas, não se restringindo ao português. Projetos isolados não trazem o reforço e a amplitude desejável. O que se observa, largamente, nas escolas, são experiências desarticuladas, em recursos que não se aproveitam entre si, em conteúdos que não se interligam, compartimentando o conhecimento.

Programas integrados, além do reforço, da visão ampla do assunto, fixam melhor o conteúdo e produzem, conseqüentemente, pela abrangência, melhores benefícios ao educando. Um estímulo geral, em relação à leitura, em exercícios de interpretação de textos e em redação, deve ser pensado em todas as disciplinas do currículo.

Um outro ponto importante na aprendizagem é ensinar o aluno aprender a aprender. A dedicação pode ser o grande método de estudo para quem deseja aprender. Ensinar ao aluno que ser dedicado significa trabalhar alguma coisa com determinação para atingir um objetivo; também é preciso haver motivação e essa motivação é grandemente ajudada pelo professor, pois nem todo aluno aprende de forma igual. Uns aprendem todo o conteúdo em sala de aula, outros necessitam revisar a matéria em casa ou voltar ao assunto novamente, com o professor. Cada um tem um ritmo, um estilo próprio.

O quadro atual da escolaridade brasileira é lamentável, não só em termos de qualificação, como em termos de abandono à escola. Vejamos o que nos expõe a Geografia da Educação Brasileira 2001, divulgada em março de 2003, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), do Ministério da Educação: a cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, 41 deixam a escola sem completá-lo. Os que conseguem se formar gastam, em média, 10,2 anos. Praticamente o tempo que levariam para cursar as 8 séries do ensino fundamental e as 3 do ensino médio, se não houvesse repetência.

A relação entre alunos que iniciam e terminam é melhor no ensino médio. De cada 100 alunos que ingressam nesse ensino, 74 chegam a concluí-lo e gastam, em média, 3,7 anos para cursar as 3 séries desse nível. Do total de alunos matriculados na 1.ª série do ensino fundamental, apenas 40% conseguem se formar no ensino médio. Ao repetir, o aluno acaba desanimando e saindo da escola. A repetência é uma das principais causas da perda da auto-estima do aluno e da exclusão escolar.

Junto ao atraso na escolaridade, à perda da qualidade do ensino, perde-se, também, o status social do professor. Perdem-se alunos, perde-se a boa formação acadêmica, não por se ter esgotado o papel do professor, mas pela decadência de todo um sistema de ensino. A escola, no seu âmbito, não consegue coordenar os projetos pedagógicos, que acabam ficando desarticulados, com projeções diferentes. Não consegue alcançar uma metodologia diferenciada, capaz de inclusão, não consegue entrar no mundo desmotivado do aluno carente ou exercitar estratégias que introduzam a qualidade do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em fevereiro/2004)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em fevereiro/2004)

ENSINO A DISTÂNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

A educação a distância caminha, no Brasil, lentamente. Esse ensino se faz há muito tempo, mas, a ausência do professor, em sala de aula, tem colocado empecilho à freqüência do curso. Todos querem um professor dando aula, por isso o modelo da aula virtual, em que o conteúdo exposto está à espera que os alunos se interajam, não funciona bem. Eles não dispensam a figura do professor. Há uma forte resistência por parte dos alunos à passagem da aula presencial para a aula a distância.

Porém, surge um novo sistema que vem reforçar a aula virtual, aliando TV, internet, telefone celular, estimulando as faculdades a evoluir, deixando de ser conservadoras. As novas tecnologias de ensino a distância, criadas pela Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP) com as empresas Ibir Inteligent Business Solutions, de Campinas (SP), e Sector Tecnologia, de Blumenau (SC), revolucionam as aulas via satélite.

Utilizam-se de computador básico, TV, webcom, mesa de edição simples e acesso à internet em banda larga e esses equipamentos fornecem várias possibilidades para montar cursos. O sistema permite ao aluno, junto à presença do professor, se ele estiver acompanhando a aula pela internet no momento em que está sendo ministrada, usar um ícone na tela e interpelar virtualmente e fazer perguntas ao professor. Há, ainda, a possibilidade de assistir a aulas gravadas.

O novo sistema quer conquistar o aluno, dando-lhe várias oportunidades de participar ativamente da aula. Com uma webcam simples, o estudante poderá, também, aparecer ao vivo para os colegas virtuais. Se estiver estudando por meio da TV a cabo, poderá usar o próprio controle remoto para interagir ou o telefone celular, por meio de mensagens de texto, tipo SMS. Os pesquisadores estão desenvolvendo uma nova ferramenta que vai possibilitar a participação do aluno por telefone, com voz e vez de mensagens de texto.

Nessa aula virtual, o professor pode lançar uma questão, por exemplo, de múltipla escolha. Quando os alunos responderem, ele terá em sua tela um gráfico que aponta os erros e os acertos da classe. Tem, assim, uma resposta imediata sobre o aproveitamento dos alunos e a partir, de então, decidir a seqüência do conteúdo.

O foco do projeto Escola do Futuro está, por todo País, em cerca de 90 canais universitários. Mas, a tecnologia pode ser usada por empresas que queiram treinar funcionários ou até mesmo pequenas comunidades que possuem um canal de transmissão. No caso de instituições de ensino privadas, o projeto é vantajoso, segundo os desenvolvedores do sistema. Uma instituição que decida criar duas mil vagas pode economizar até R$ 5,4 milhões em investimento em infra-estrutura. O ponto crucial fica revertido à qualidade do programa, fazendo inclusão social com uma educação eficiente.

A educação a distância atua em vários universos. O Telecurso 2000 tem 500 mil alunos. Temos, atualmente, cerca de 1,5 milhão de pessoas fazendo uso da educação a distância dentro de empresas, como a Petrobrás. Temos 3 milhões de pessoas fazendo algum tipo de curso a distância, no Brasil. O novo sistema ajuda a criar novos cursos em áreas que não eram exploradas.

Esses recursos virtuais, movimentando e estimulando a participação do aluno, têm a propriedade de atrair candidatos a essa modalidade de ensino a distância. As novas tecnologias propiciam uma nova mentalidade e trazem a esperança da sonhada democratização do conhecimento.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2007)

OS DESMANDOS DA CORRUPÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Os caminhos abertos, a que proporciona a democracia, vêm conduzindo o povo a manifestações explícitas, a favor da moralização do nosso sistema nacional carcomido. A mídia esclarecida vem alertando a população para os desmandos da corrupção, para os prejuízos que ela causa ao País, empobrecendo-o.  As denúncias de corrupção, veiculadas pelos meios de comunicação, encontram forte ressonância junto à população, que começa a exigir transparência de atos e de fatos.

A conjuntura nacional vem se transformando, realinhando-se com vistas à moralização. Caminhando nessa direção, será ela, a corrupção, quem, em breve, entrará em crise, com estreitamento das possibilidades de sua ocorrência e com exigência de sua punição.

Sob forma clara ou velada, a corrupção se instala na educação, na saúde, na segurança, marca presença maciça no comércio. Ela chegou num grau extremo de aceitação e, conforme nos ensina a própria vida, os extremos tendem a chocar-se, trazendo o verso da moeda. Nesse preceito reside a grande esperança.

Ao penetrar no interior das instituições, poucas são as que se mantêm impolutas. No artigo da semana passada, abordei a desmoralização reinante nos cursos supletivos particulares a distância e os passos enérgicos tomados pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) de São Paulo, a respeito. Nem mal a decisão do Conselho saiu publicada no Diário Oficial, já se iniciavam tentativas de driblá-la.

Uma escola foi flagrada cobrando R$ 4 mil para cada nível de ensino, com certificado pronto em sete dias. Para os 1.º e 2.º graus juntos, o preço subiria para R$ 5 mil. A atendente insistia que se fechasse o negócio o mais rápido possível, porque com o passar dos dias, devido à nova regra, a coisa ficaria mais difícil. Ela, ainda, se oferecia para responder à prova. “Você só precisa assinar”.

Inteirando-se dessa situação, Arthur Fonseca Filho, presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), desabafou: “Foge até da esfera da educação, passa para a policial”. Acrescentou: “Os vendedores de diploma devem estar adulterando documentos e cadastrando os novos alunos como se tivessem sido matriculados há 90 dias”. Uma fiscalização rigorosa faz-se necessária para identificar os alunos que se matricularam antes da nova regra.

Um outro segmento educacional que começa a preocupar são os recém-criados cursos de pós-graduação, por inúmeras faculdades. Está havendo grande procura por esses cursos. Apenas o diploma de graduação não é mais suficiente para se ter, hoje, uma carreira de sucesso. No mercado competitivo, o grau de exigência vem crescendo e coloca nos cursos de pós-graduação o diferencial. A especialização abre caminho no trabalho.

Até uns anos atrás, fazer uma pós-graduação requeria passar por uma seleção em uma universidade pública ou em uma grande instituição particular. A realidade mudou. As faculdades, percebendo a correlação, passaram a manter estruturas de pós-graduação, oferecendo cursos em várias modalidades.

Está havendo uma verdadeira proliferação e já começa a suscitar dúvidas sobre a honestidade e a qualidade de ensino dos cursos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão responsável por esse nível educacional, defende uma ampla avaliação do segmento: “A expansão precisa ser acompanhada de qualidade. Está na hora de fazer um mapeamento para ver onde e como a expansão está ocorrendo para evitar um crescimento desordenado”, arrematou Arthur Roquete de Macedo, presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho.

A cada dia nos deparamos com diferentes denúncias de corrupção, nos mais diferentes setores. Presentemente, confrontamo-nos com uma produção e um comércio ilícito de cópias piratas de softwares, discos, livros e fitas de áudio e vídeo, em todo o País. O mercado de fitas de áudio estima-se ser, praticamente, pirata. O desrespeito aos direitos autorais chega a um patamar absurdo e vem prejudicando as relações comerciais do Brasil com outros países, especialmente com os Estados Unidos.

O mercado de produtos pirateados impõe barreiras comerciais, causando perdas consideráveis. As campanhas antipirataria, feitas por indústrias, têm trazido algum resultado. Mas, infelizmente, está sendo de muito difícil reprimenda; burlam-se os regulamentos, em variadas estratégias.

A desonestidade reinante nos alerta para a necessidade de uma contínua vigilância, nos mostra que postergar problemas é aumentar  a dificuldade em corrigi-los.

Para conseguirmos vencer situações lastimáveis como essas, é preciso investir-se, e muito, na educação, as escolas abordando educação politizada, educando para a cidadania, para a participação consciente dos problemas político-sociais, no engajamento do sentimento patriótico.

Foi com pesar que escrevi os versos abaixo: “Corrupção viciada”.

CORRUPÇÃO  VICIADA

Que lástima, esse nosso amado País!
Só CPIs cavando a podre raiz,
Gritante aberração e deformação
Do ideal de um povo em busca de afirmação.

Se lá em cima há muita roubalheira,
Que freio botar no batedor de carteira?
Que exemplo passar a fim de educar
E conseguir intento em moralizar?

Essa terra fértil, rica em mil produtos,
Na pilhagem embarga variados frutos,
Nunca se tem dinheiro para o social,
Saúde e educação sempre em baixo astral.

O povo indignado se revolta,
Apavorado anseia proteção, escolta,
CPI não salva, não marca confiança,
Deixa, contudo, laivos de esperança.

Sistema viciado em gatunagem
Arrasta a plebe pra triste engrenagem,
Cria cultura propícia à vil esperteza,
E sintoniza formas de safadeza.

Como sair dessa aviltante emboscada?
Como trocar sufoco por gargalhada?
-- A educação, a mudança cultural,
São saídas pra essa vergonha nacional!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

A VIDA PASSA PELO CAMINHO DA ESPIRITUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Passeando um pouco pela literatura, pela cultura, em seus diversos domínios, e em diferentes épocas, constatamos em grandes pensadores, cientistas e teólogos um encontro espetacular de ideais de espiritualidade, de convicções, abordadas numa coerência que chega às linhas da sistematização.

A existência não nos é um pano de fundo ou apenas uma inspiração; é parte viva de nós mesmos, nela caminhamos com seu fluxo incessante e contínuo. Ela nos remete a freqüentes reflexões, põe em constante evidência a superioridade das riquezas do espírito sobre as glórias mundiais. Ela nos força a um conhecer a si mesmo e a conhecer, por extensão, o homem em geral.

Relendo Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI (1533-1592), o filósofo que dialogava com a humanidade, em seus temas universais, revivi mensagens absolutamente atuais. A sua capacidade de percepção, de análise e compreensão da alma humana e da natureza, como um todo, vence as barreiras do tempo e se projeta no dia de hoje como, certamente, se projetará no dia de amanhã. Montaigne relacionava o homem à natureza; dizia ser o homem parte da natureza, devendo, portanto, entender que mesmo os animais e as plantas merecem respeito e consideração. Hoje, debate-se a idéia da proximidade estreita do homem com a natureza. A teoria evolucionista de Darwin e as pesquisas genéticas identificaram a pequena diferença que existe entre nós e os outros seres vivos. Imaginemos o impacto provocado por essas reflexões na sua época!

Ressalta-se, também, em Montaigne, nos “Ensaios”, a abordagem superatual, que ele faz sobre razão e fé. Põe a razão em xeque. Analisa-a, não como o teólogo que a critica pela presunção de querer prescindir da idéia de Deus, mas como um observador realista, que não vê na razão caminho para a felicidade.

Sua indagação é no sentido de tentar entender porque a racionalidade não fez do homem um ser mais sensato e equilibrado. Não se trata de confrontar fé e razão, mas de criticar os nossos valores, a razão, como meios de alcançar a verdade e o bem. “Os homens se acreditam superiores e racionais, mas quase sempre se mostram escravos das superstições e repletos de vícios. Poucos homens são verdadeiramente guiados pela razão, pela justiça”. A fé deve estar sempre aliada à razão, em equilíbrio.

Dizia que a única maneira de não se estar ao “sabor dos ventos”, “ao acaso dos encontros”, é sendo senhor de si mesmo. O indivíduo deve libertar-se da mesquinhez do cotidiano e do fanatismo, deixar seduzir-se pelos bens espirituais. Montaigne preconizava a paz, a harmonia e a tolerância, mas não se mostrou muito inclinado a acreditar na concretização de um mundo pacífico.

Passemos a entender a espiritualidade no grande cientista Albert Einstein, séculos XIX e XX (1879-1955), que assim se expressou: “Sei que os homens jamais poderão saber tudo, que a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. Deus é sutil, mas não é malicioso, por isso tenho certeza de que a solução será encontrada sempre. Foi uma espécie de fé que me ajudou, durante toda a minha vida, a não desesperar em face das grandes dificuldades da investigação”. Acerca de suas próprias conclusões, Einstein se perguntava: “Terá sido deste modo que Deus criou o universo?”

O grande líder que foi da comunidade católica, o grande guia espiritual, o  papa João Paulo II, na encíclica “Fides et Ratio”, lança o desafio de iluminar a razão e as ciências da modernidade com a luz da fé. Num primor de considerações, diz: “A engenharia genética necessita de fé para não instrumentalizar o Dom divino da vida. A política precisa do Evangelho para tornar-se serviço desinteressado do bem comum. A economia moderna precisa converter-se em justiça e solidariedade. A instituição familiar carece de visão cristã do matrimônio para não se desfigurar. Não há dimensão importante da modernidade que não possa prescindir de uma profunda reflexão e diálogo entre razão e fé”. Acrescenta: “A razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus”.

Em sua carta apostólica, intitulada “No Início do Novo Milênio”, João Paulo II diz: “A Igreja não pode perder de vista o rosto de Jesus”. Onde encontrar esse rosto? Ele responde: “Nos Evangelhos, que oferecem uma visão de fé sustentada por um testemunho histórico concreto”. No limiar do novo milênio, a Igreja tem “confiante otimismo em que não será uma fórmula a nos salvar, mas uma pessoa, Cristo”. Não há, pois, que inventar um “programa novo, porque Cristo é seu programa definitivo para o terceiro milênio e para sempre. Compete às Igrejas locais, ou seja, às dioceses, realizá-lo... Vamos em frente, com esperança”.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em novembro/2005)



Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em novembro/2005)

RESERVA DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

Já, há algum tempo, escrevi a respeito da reserva de 50% das vagas nas universidades públicas para alunos oriundos do ensino médio das escolas oficiais. Na ocasião, o projeto tramitava na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, é a vez do Estado de São Paulo passar pela mesma situação.

Tramita, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um projeto apresentado pelo deputado Celso Tanaui, do PTB, que destina 50% das vagas das universidades do Estado a estudantes que tenham cursado o ensino médio em escola pública.

O ingresso à universidade não seria, pois, por mérito acadêmico, mas por destinação prévia de vagas, o que viria acarretar perda da qualidade de ensino da universidade. A argumentação do deputado é de que o acesso às universidades públicas é privilégio dos ricos e que os pobres, os que mais precisam, só conseguem entrar em universidades pagas. Realmente, é uma verdade e configura um contra-senso, um desequilíbrio da balança social. Acontece que os ricos freqüentam escolas particulares de boa qualidade, tornam-se melhores preparados, melhores capacitados e competem com vantagem, conseguindo melhores posições em tudo.

Mas, será a destinação pura e simples de vagas, sem o seu principal componente, a boa formação, o caminho para se consertar essa injustiça? As diferenças educacionais estariam resolvidas pela aprovação de um decreto? Convenhamos ser esse um pensamento equivocado, pois o processo é bem mais amplo, bem mais complexo, envolvendo mudanças estruturais de base, significativas.

A reversão do quadro acima descrito não é tão simples assim. É preciso, antes, melhorar o estudo do pobre, dar-lhe armas intelectuais para enfrentar, em par de igualdade, a concorrência com o rico. Investir maciçamente na escola pública é a saída correta para esse impasse. Aparelhá-la, instrumentalizá-la, reciclar os seus professores, dotá-los de competência, nivelando o ensino por cima.

A reserva de vagas é uma farsa, só camufla a situação e trabalha contra o próprio aluno pobre, que continuará defasado no conhecimento e marginalizado na sociedade, por falta de formação adequada. Essa reserva de vagas levará a um desnível do ensino superior, a um sucateamento, como já aconteceu com a educação básica pública, pois a tendência é baixar o nível, para não excluir os menos preparados.

Abriram-se vagas, no ensino fundamental, para todos, abargando alunos das mais diferentes camadas sociais, mas não foram dadas condições efetivas de um bom trabalho pedagógico. Não se preparou o professorado, que se vê meio perdido a tanta inovação, não se investiu num ensino de qualidade. Hoje, o aluno sai da escola, com algumas exceções, semi-analfabeto. A universalização da oferta de vagas não foi acompanhada da universalização da oferta de educação de qualidade para todos. Deixou-se inclusive de priorizar a educação infantil.

Garantir vagas, ao aluno pobre, nas universidades públicas,  de boa qualidade, requer estender essa boa qualidade a toda a educação básica. Requer que as metas quantitativas sejam juntadas às qualitativas. É um processo que demanda tempo, mas, quando chegar lá, será com consistência, com validade e sem discriminação. Esse é o trajeto a se percorrer para se garantir o acesso às universidades públicas a quem não tem recursos para pagar uma instituição particular.

Com a reserva de vagas, a USP abrigará dois segmentos de alunos, de formação e de capacitação, bem diferentes, o que comprometerá o bom ensino. Terá dois grupos de ingressantes, com perfis muito distintos um do outro. “Um deles não conseguirá acompanhar as disciplinas previstas para o 1.º ano do curso, já que poderá haver aprovados com nota zero em matérias fundamentais”, esclarece Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, e acrescenta: “O preparo de um possível candidato beneficiado não estaria dentro dos padrões desejáveis para uma universidade de excelência como a USP”.

A médio prazo esse ensino sofrerá um forte impacto negativo, refletindo-se na graduação, com repercussão na pós-graduação e na pesquisa. Como ficará o conhecimento científico? Como acelerar nosso desenvolvimento tecnológico? Seremos os dependentes, cada vez mais acentuados, da tecnologia importada?

Pelo Índice de Avanço Tecnológico das Nações Unidas, o Brasil que ocupa o 43.º lugar, atrás da Tailândia, da Argentina, da Costa Rica e do México, ficará mais abaixo ainda!

É preciso olhar para mais longe, desapegar-se do aqui, agora. A tecnologia avançada surge do conhecimento das pessoas, dos profissionais em ação. O aluno pobre, defasado no conhecimento, não terá seu problema resolvido por uma reserva de vagas. Ele, marginalizado, marginalizará o conhecimento tecnológico, prejudicando o nível de excelência que as universidades públicas vêm mantendo. Por esse processo de facilitação, estaremos arrastando a pobreza científica e tecnológica do País.

O deputado Celso Tanaui, ao ser questionado sobre seu projeto, respondeu: “Inteligência não é atributo exclusivo dos ricos”. O desavisado deputado misturou alhos com bugalhos. Inteligência todos têm, a diferença está no encaminhamento dessa inteligência, na assistência, no trato psico-pedagógico de seu desenvolvimento, que é o que, justamente, falta ao aluno pobre na fase anterior ao ingresso do nível superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

UM QUADRO DO ENSINO SUPERIOR NO BRASIL

Izabel Sadalla Grispino*

O Censo do Ensino Superior divulgado, em 22 de novembro de 2002, pelo Ministério da Educação (MEC) mostra um crescimento de matrículas nesse nível de ensino. O número de alunos freqüentando o ensino superior privado foi quase três vezes maior do que nas instituições públicas, em 2001. No total de 3 milhões de alunos na graduação, mais de 2 milhões estudam em escolas particulares. 395 mil alunos se formaram no ensino superior, sendo o curso de Direito o que mais concedeu diplomas, graduando 44.202 bacharéis.

Entre os formandos, 35.149 concluíram o curso de Administração, pouco abaixo de Pedagogia, com 37.083. De acordo com o censo, as universidades formaram 8.004 médicos e 12.767 jornalistas. Do total, 263 mil cursaram a rede privada de ensino superior, enquanto 55 mil estudaram em instituições estaduais, 65 mil em federais e 12 mil em municipais.

A expansão é bem mais rápida na área privada. Nas universidades federais, o número de alunos cresceu 4,2%, em 2001, enquanto a taxa de expansão das instituições privadas foi quatro vezes maior: 15,7%. O censo revela a predominância do sexo feminino sobre o masculino na freqüência às faculdades. Os universitários são na maioria mulheres e estudam em cursos noturnos.

O crescimento em larga escala no ensino superior da área privada não trouxe correspondência quanto ao quesito qualidade dos profissionais formados. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tem sido uma das entidades mais combativas contra o surgimento do que classifica de “fábricas de diplomas”, pelo baixo nível de conhecimento generalizado dos bacharéis.

O conjunto das instituições de ensino superior brasileiras oferecia, em 2001, 12.155 cursos de graduação. Porém, estudar numa universidade pública e gratuita é um sonho quase impossível para a maioria dos estudantes brasileiros, estudantes que freqüentam ou freqüentaram a educação básica pública, com seu baixo nível de ensino. Como sabemos, a expansão quantitativa do sistema educacional brasileiro não foi acompanhada da qualidade e a maior escolaridade, ou seja, o maior número de anos na escola, não se traduz em mais renda e melhor qualidade de vida para os futuros profissionais. Sem uma educação de qualidade, no sistema geral de ensino, não se pode esperar, de fato, um equilíbrio social, um contexto capaz de criar oportunidades iguais para todos.

Além da qualidade, existe, também, a falta da educação infantil, um grande fator da dificuldade de alfabetização do ensino fundamental. Segundo o Censo do IBGE, das crianças que chegam analfabetas à 4.ª série desse nível, 81% não passaram pela pré-escola. Pelas avaliações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC, uma considerável parcela dos estudantes sabe menos do que deveria, na série escolar em que se encontra, e, outro tanto está atrasado quanto à idade e série. Freqüentam uma série que não tem correspondência com a idade.

Há muito, pois, que fazer para que o sistema escolar público represente fator de oportunidades para a classe social menos favorecida.

Os alunos devem prestar atenção às características que indicam  uma boa faculdade, quais sejam:

n  Turmas com, no máximo, 50 alunos;

n  Maioria dos professores com títulos de mestres e doutores;

n  Maioria dos professores em tempo integral;

n  Boas instalações de laboratórios e bibliotecas;

n  Além de graduação, cursos de pós-graduação.

Contudo, no ensino superior, surge uma luz através dos cursos de graduação de serviços do Senac. As Faculdades Senac, que se expandiram no fim dos anos 90, com seus cursos técnicos, oferecem graduação de alto nível, ligada aos serviços e comércio. Encontra-se em fase final de construção um moderno complexo educacional, um campus, em Santo Amaro/SP, de 120 mil metros quadrados para o ensino superior. Em áreas nada tradicionais, oferecem cursos de Moda, Hotelaria, Turismo, Gastronomia, Fotografia, Meio Ambiente, entre outros. O campus terá biblioteca, quase do tamanho de um campo de futebol e com um acervo especial sobre moda. Grandes espaços serão destinados a laboratórios e a um centro para estudo de gastronomia. A meta é ampliar o número de alunos de 4.200 existentes hoje para 14 mil até 2010.

A preocupação maior dos dirigentes do Senac é com a qualidade dos cursos, com a aprimorada formação dos educandos e colocar esses cursos em sintonia com o mercado de trabalho. Preocupa, também ao Senac, oferecer uma formação profissional sólida, humana e ética.

Em algumas áreas, o Brasil precisa mais de técnicos do que de acadêmicos e sua maior viabilidade é que os cursos do Senac seguem a demanda do mercado de trabalho e, caso este mude, mudam-se também os cursos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2003)

UNIVERSITÁRIOS EM EXEMPLO DE AMOR AO PRÓXIMO

Izabel Sadalla Grispino *

Nunca é demais repetir que educação é mola-mestra do desenvolvimento humano e social, embrião que se ramifica por todas as atividades do saber. Por isso, a escola mais que um centro de estudo deve transformar-se num centro educativo de formação, de diálogo, de orientação, de convivência comunitária. É preciso resgatar a importância da escola na abrangência de ações que envolvem todo o comportamento humano.

A Síntese de Indicadores Sociais de 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em abril de 2004, assinala que educação influi no índice de morte na infância. O IBGE encontrou em 2000, entre mulheres com nível de instrução superior a 8 anos, uma taxa de 20 óbitos por mil nascidos vivos; no grupo com até 3 anos de estudo, a mortalidade foi muito maior: 49,3 por mil.

O Nordeste apresentou quadro mais revelador: a taxa, entre os filhos de mulheres de baixa escolaridade, chegou a 70,3 mortes por mil, uma diferença de 151% em relação às crianças de mães com mais de 8 anos de instrução. Mostra o relatório que no Brasil as taxas de mortalidade infantil – menores de 1 ano – e  na infância estão muito acima do nível considerado “civilizado”, ou seja, 5 óbitos por mil nascidos vivos. Em 2002, o índice entre crianças de 1 a 364 dias foi de 27,8 por mil. Já entre os menores de 5 anos, o indicador foi ainda mais elevado: 34 por mil.

Conclui o estudo do IBGE que o caminho para a redução de mortes na infância – menores de 5 anos – passa pela educação da mãe. O nível educacional influencia a atitude da mulher em relação ao acompanhamento da gravidez, à higiene e à saúde da criança.

A consciência do valor da educação toma vulto. Parece que estamos conseguindo despertar os estudantes para a realidade social. A reativação do Projeto Rondon, abordado por mim no último artigo, partiu da União Nacional dos Estudantes (UNE). A visão de mundo está se alargando, as necessidades sociais se visualizando e os estudantes começam a chegar às comunidades carentes. Ao querer ser-lhes útil, idealizam projetos, no sentido de colaborar com elas, desenvolvendo ações educativas, preventivas de áreas, como da saúde.

Tomamos conhecimento, através da mídia, de jovens universitários, alunos da Faculdade de Farmácia de Araraquara (Unesp), que se embrenham pelas sendas das comunidades carentes. Sentem que a faculdade propicia pouco contato com a realidade e elaboraram, eles mesmos, programação de intervenção social. Receberam treinamento no Centro de Referência do Jovem e do Adolescente, da Prefeitura, e entenderam que esse projeto não poderia ser confundido com os programas assistencialistas, como, por exemplo, doação de alimentos. Interessam-se pela saúde da população e, num grande gesto de humanidade, colocam, com dificuldade no projeto, recursos próprios. Visitam as famílias no último domingo de cada mês, utilizando-se do ônibus da Unesp. Orientam sobre remédios, saúde, higiene e medem a pressão arterial. Na faculdade, promovem exibição de filmes, debates para jovens, abordando temas como drogas, sexualidade e cidadania.

Essas ações sociais são voluntárias e praticadas com entusiasmo e dedicação, tanto que não existe problema de continuidade. Os alunos do 1.º ano aderem maciçamente, substituindo os que vão se formando, criando uma corrente ininterrupta.

O projeto surgiu em 2001, através do Centro Acadêmico, com o nome de Atenção Farmacêutica Estudantil Permanente (Afep), fez parceria com a Associação Amigos da Vida, que trabalha com dependentes químicos.

Aguardamos que estudantes de outras faculdades se mirem no exemplo desses beneméritos universitários e partam para novas ações de utilidade pública, dando sua parcela de contribuição na construção de um mundo  mais igual, mais justo.

A esperança de um mundo melhor no amanhã surge, hoje, com as crianças da educação infantil, dando a elas não só um bom alicerce cognitivo, mas formando-as para a solidariedade, para a compreensão, no enfraquecimento da competição, para o exercício da cidadania. Essas crianças, abrigando valores, serão jovens mais participativos, mais solidários ao sofrimento humano, e estenderão, sem dúvida, seu olhar à comunidade necessitada. São esses jovens que, preparados para o sentido de humanidade, abraçam também, com vontade, o trabalho. Alegra-nos tomar conhecimento de jovens, na idade entre 15 e 24, que cursaram pelo menos o ensino médio,  estarem entrando no mercado de trabalho com carteira assinada. É o que mostra um levantamento feito pela Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo, com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Esse levantamento considera as 827 mil vagas formais criadas nos cinco  primeiros meses de 2004 em todo o País, tidas como recorde, desde 1992. Mostra que 60% dos novos empregos são ocupados por jovens de 15 a 24 anos, com, pelo menos, 8 anos de escolaridade.

Esses jovens fazem parte de uma juventude que nos passa novo alento, na crença de um futuro melhor para a humanidade. É preciso crer para ver. Continuemos implantando na criança e no jovem valores éticos, morais, humanos, comportamento solidário, participativo e, assim, poderemos esperar um mundo mais produtivo, de mais paz, de mais justiça social.

As crianças de hoje serão os comandantes serenos ou atropelados do amanhã. Elas são as sementes do futuro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2004)

CONCLUSÕES SOBRE O RESULTADO DO ÚLTIMO ENEM

Izabel Sadalla Grispino *

Precisamos incentivar, reconhecer as boas escolas, não desanimar o ensino público.  Mas,  como  fechar os olhos diante de uma imensa rede de escolas públicas despreparadas, dotadas de fraca infra-estrutura, sem laboratórios de ciências, de informática, sem bibliotecas atualizadas, com jornais e revistas, com segurança ao deus-dará e com professores, na grande maioria, mal formados?

É preciso investir, de verdade, na classe popular, não apenas lançar discursos inflamados, em épocas de eleições. Na prática, usa-se a estratégia do tapa-buraco, dos arranjos e remendos provisórios.

Pesquisas têm mostrado que os professores da rede pública chegam a ser tão carentes quanto os seus alunos. Ganham mal, trabalham muito, não têm estímulo, nem dinheiro para investir na sua atualização, no seu aperfeiçoamento profissional. Os alunos, por sua vez, estão longe de conviver com um ambiente familiar que propicie a cultura, nem têm com quem falar sobre as coisas que acontecem ao seu redor e no mundo.

Essa falta de contacto do estudante com o conhecimento acaba por dificultar o pleno desenvolvimento de suas potencialidades, dificultar o desenvolvimento das competências e das habilidades. O mais comum é ele freqüentar a escola sem motivação por parte de sua família. É um quadro desolador que reforça a inferioridade educacional do estudante pobre e que acentua as desigualdades sociais.

Não nos causou surpresa o resultado do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), noticiando que alunos das grandes escolas particulares do País são os detentores das melhores notas. No ensino público, a média mais alta chega a 41%, no limite de que o Enem considera ruim (40%). No privado, quase atinge a excelência, com 68%, com algumas escolas conseguindo nota acima de 70%.

Os jornais estampavam a receita das escolas campeãs: bons professores e boa infra-estrutura. São professores bem informados, bem preparados, atualizados, utilizando-se de uma metodologia avançada, que leva o aluno a produzir. Os alunos dessas escolas vão às aulas motivados pelas famílias, que pensam em deixar para os filhos a educação como herança.

O Enem revelou não apenas a disparidade entre escola particular e escola pública, mas, desigualdade entre escolas públicas do País e desigualdade entre as escolas particulares. Em São Paulo, o resultado de 10 escolas públicas assemelha-se ao das escolas particulares. São escolas tidas como grupos de excelência, ligadas a universidades, centros tecnológicos ou a militares, escolas existentes também em outros Estados do País e que apresentam muito bons resultados. No ensino público, os alunos que obtiveram melhor desempenho são oriundos de escolas técnicas.

Outras conclusões do Enem são possíveis assinalar:

a) Na rede particular, a avaliação revela que vários colégios particulares, com mensalidades caras, oferecem ensino precário, tendo seus alunos obtido resultados semelhantes aos de escolas públicas, fator que revoltou muito os pais, que não viram resultado de seus sacrifícios!

b) As escolas públicas com pior desempenho são as situadas nas zonas rurais e as que oferecem ensino do antigo supletivo: alunos da Educação de Jovens e Adultos (Eja). Alunos do Eja não revelam perfil de quem quer cursar o ensino superior.

Os resultados do Enem também mostram as desigualdades entre as regiões do País. As 6 piores capitais, segundo as médias de seus alunos, estão na região Norte, das 7 melhores capitais, 6 estão nas regiões Sul e Sudeste, mostrando as disparidades regionais.

O Enem é um exame realizado pelo MEC para concluintes do ensino médio. Ele não é obrigatório e sua nota é aproveitada em vestibulares e no programa de bolsas do governo federal, o ProUni.

O Enem é elaborado segundo as novas diretrizes curriculares do ensino médio, não é dividido em disciplinas e afere habilidades e competências dos alunos. Não mede conteúdo; pede interpretação de textos, relações e leitura de gráficos.

Os resultados do Enem apresentaram uma radiografia desfavorável ao conhecimento dos alunos que terminaram o ensino médio. Fala-se em investir no ensino médio, mas de que valerá investir num ensino médio com alunos egressos de um ensino fundamental fragilizado da rede pública? Uma boa educação depende de um percurso bem feito ao longo de todo processo. Precisa de um bom alicerce e o nosso não é bom.

A má qualidade do ensino público fecha a principal via de ascensão social para estudantes de lares pobres! A nossa desigualdade educacional cria um sistema de ensino de, pelo menos, dois níveis, um beneficiando pessoas bem nascidas, projetando-as socialmente, e outro, das pessoas carentes, deixando-as no anonimato, na marginalização social.

* Supervisora de ensino aposentada.             
(Publicado em março/2006)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

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