Payday loans uk
  1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>

Artigos Educacionais

  • Previous
  • Next
  • Stop
  • Play

ANALFABETISMO E DESNUTRIÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Em dezembro de 2002, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou as Estatísticas do Registro Civil, mostrando que entre 1990 e 2001 a taxa de mortalidade infantil diminuiu. Em 1991, os óbitos de crianças menores de 1 ano correspondiam a 11,2% do total de falecimentos registrados. Em 2000, caiu para 6,02%.

Pelo último Censo do IBGE, em 1991, para cada mil crianças nascidas vivas, 45,3 morriam antes de completar 1 ano de vida. Em 2000, esse índice, segundo o Censo, era de 29,6 óbitos para cada mil nascimentos.

Esse decréscimo poderia ter sido bem mais significativo. Quase 30 óbitos para cada mil nascimentos é um índice muito alto, quando comparado, nas mesmas condições, com os de países latino-americanos, como, por exemplo, o Chile, com 10,3.

Um fator positivo a ser considerado é a queda da mortalidade infantil ocorrida em regiões pobres do Nordeste. Em 1991, a proporção de menores de 1 ano no total de óbitos da região era de 14%. Em 2000, esse índice recuou para 6%.

Investir na melhoria das condições de vida das crianças, dos pais, criar planos de assistência básica, de incentivos à educação, são caminhos para a desnutrição. Uma pesquisa feita pela Pastoral da Criança da Igreja Católica, divulgada em 10 de dezembro de 2002, aponta como uma das principais causas da desnutrição infantil no País o analfabetismo das mães.

Estudo do IBGE – “Evolução e Perspectiva da Mortalidade Infantil no Brasil” – mostra que a maior escolaridade, entre as mulheres, é fator preponderante na saúde das crianças. Cada ano a mais de escolaridade média, entre elas, reduz em 15% o índice de mortalidade infantil. Esse estudo veio comprovar a correlação entre analfabetismo e falta de obediência às prescrições dadas pelos médicos às mães, também durante a gravidez.

A pesquisa da Pastoral da Criança – Saúde e Nutrição Infantil em Áreas Pobres do Norte e Nordeste do Brasil – abrangeu 1.528 crianças de zero a 5 anos, em três mil domicílios de 18 áreas rurais e urbanas. Foi feita em nove municípios tirados de uma lista de 32 com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Brasil.

Dentre as crianças pesquisadas, 8% apresentaram grau de desnutrição de moderado a grave, por estar abaixo do peso, e 16% eram portadoras de desnutrição crônica. Os pesquisadores encontraram 37,2% das mães e 45,9% dos pais analfabetos, sendo que apenas 35,6% das mães freqüentaram a escola de um a três anos.

A maioria das mães respondeu corretamente que o leite materno é um inibidor de doenças infecciosas em crianças de até 6 meses de vida, mas a maior parte confirmou que deu água (81,6%), chás (73,2%), sucos (73,2%) e leite em pó (50,2%) no primeiro mês de vida. Foi alto o índice de crianças alcançado pelo esquema de vacinação de massa (85%). A falta de alfabetização da mãe é fator forte para desnutrição, conclui o estudo.

Há uma opinião generalizada de que educação é a primeira necessidade do homem, depois do pão. Porém, como vimos, a educação vem junto ao pão, caminham paralelamente, concepção fortemente referendada por pesquisas científicas.

Sentimos a importância da educação na solução dos sérios problemas brasileiros. As políticas sociais têm relação com a educação. A educação é o elo que integra todos os programas, quer sociais, quer governamentais, não importando em que área.

Os dados do IBGE apontam o analfabetismo como entrave à reversão da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança propõe ao governo Lula combate reforçado ao analfabetismo.

O combate ao analfabetismo deve ser uma séria prioridade governamental. Estudo divulgado pelo Inep – Mapa do Analfabetismo no Brasil – apresenta um panorama da educação de todos os municípios brasileiros. Esse estudo reúne indicadores produzidos em 2000 pelo IBGE, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Paud) e pelo Inep. Revela que o Brasil possui cerca de 16 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais e 30 milhões de analfabetos funcionais, pessoas que têm menos de 4 anos de estudo. O mapa do analfabetismo fornece informações para reflexão, subsidiando a formulação de políticas públicas e privadas na área da educação.

Para tentar erradicar o analfabetismo, no período de 4 anos, o Brasil precisaria de cerca de 200 mil alfabetizadores. Os analistas do sistema educacional consideram um número, que embora alto, não é inviável, principalmente pelo fato de as matrículas de 1.ª à 4.ª série no ensino fundamental estarem em queda, vagando salas e professores.

Um fator que merece preocupação é a capacitação do alfabetizador e a formulação de programas de qualidade. Como lembra Paulo Freire, alfabetizar não é apenas ensinar o b, a, bá, é dar ao alfabetizando uma visão de mundo, fazê-lo alcançar uma interpretação crítica dos fatos, desenvolver uma consciência pessoal e social.

A improvisação, em educação, só gera fracasso. O que se nota, no Brasil como um todo, é um baixo desempenho do sistema escolar, especialmente das camadas pobres da população, onde o analfabetismo chega a ser 20 vezes maior. Em apenas 19 municípios brasileiros, a população possui mais de 8 anos de estudo, um índice que corresponde às 8 séries do ensino fundamental. Em outros 1.796 municípios do País, a escolarização média da população é inferior a 4 séries concluídas. Quadro realmente preocupante!

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em junho/2003)

EDUCAR PARA A AUTONOMIA

Izabel Sadalla Grispino *

Dando continuidade ao assunto tratado na semana passada, sobre as atividades extracurriculares dos jovens, gostaria, ainda, de acrescentar de que os pais devem saber diferenciar suas expectativas e as de seu filho. Na maioria dos casos, os filhos são induzidos a realizar os projetos que os pais não conseguiram concretizar e farão o máximo de seu investimento para que suas frustrações não se repitam na vida dos filhos.

Os pais devem, também, considerar que cada filho é um filho e que com cada um deve estabelecer diferentes tipos de relação. O fundamental aos pais é ouvir os filhos, dizem os psicólogos, entender, por exemplo, que para os filhos menores é mais fácil estabelecer uma rotina de tarefas; já para os filhos adolescentes, a partir dos 12 ou 13 anos, pode tornar-se mais difícil, porque eles querem fazer valer suas opiniões, seus desejos. Quando não são ouvidos, encontram meios para chamar-lhes a atenção, ou pelo abandono dos estudos, ou, então, por qualquer motivo, faltam às aulas de atividades escolhidas pelos pais. Buscar um equilíbrio nas multitarefas é essencial.

Educar é transmitir costumes, valores e normas vigentes na sociedade em que vivemos e essa educação deve ser feita com compreensão, com moderação. Manter uma educação não totalmente liberal, nem muito controladora. Na educação liberal, a criança não se sente apoiada, não tem uma referência segura e pode passar por experiências que venham lhe causar frustrações e sofrimento. Na educação controladora, a criança não tem independência para fazer nada, não consegue desenvolver iniciativa e criatividade, tem poucas chances de experiências, desconhecendo sua capacidade.

Em ambos os extremos, a criança sofre e pode desenvolver distúrbios de conduta, como birras, timidez excessiva, agressividade contra si e contra os outros. Atitudes diferentes dos pais, diante de uma mesma situação, também confundem a criança e quando existem problemas mais graves de relacionamento entre os cônjuges, muitas vezes os filhos são manipulados e aprendem a manipular, criando atitudes patológicas.

Um ambiente saudável propicia um bom desenvolvimento aos filhos, oferece apoio, suporte emocional, permite independência, escolha de opção, dando à criança consciência de suas possibilidades, tornando-a capaz de desenvolver segurança, estabelecer relação de troca e acreditar em si. Alguns fatores exercem grande influência na relação pais e filhos, como as expectativas dos pais em relação à criança, a demonstração positiva ou negativa sobre o ritmo pessoal, o tipo de personalidade e o comportamento observado.

Desde que a criança nasce até os anos pré-escolares, as metas essenciais são o ganho da confiança, da autonomia e da iniciativa. Para adquirir confiança, a proteção e a sensibilidade dos pais são fundamentais. Quanto à iniciativa, a criança descobre que há coisas possíveis e outras, também possíveis, mas proibidas e cabe aos pais demarcá-las e dar as devidas explicações. O diálogo fortifica a confiança, estimula a iniciativa e desemboca no comportamento autônomo.

A criança é levada a fazer muitas coisas de uma vez e, para que cresçam com noção de disciplina, para que adquiram confiança, os pais devem vigiar, orientar, porque ela não tem capacidade ou energia suficiente para obter êxito em todas as situações. Compete aos pais acompanhar o desabrochar da personalidade da criança, orientar, sem tolher as potencialidades afloradas.

Embora o ser humano, ao nascer, seja extremamente dependente de seus pais, ele já nasce com algumas capacidades, como a de inibir estímulos desagradáveis, tolerar frustrações. Ele vai atuando no ambiente e reivindicando a satisfação de suas necessidades, de acordo com o temperamento e com o ritmo próprios. Essas duas características, temperamento e ritmo, são determinantes para o bom desenvolvimento da personalidade, por isso, devem merecer atenção por parte dos pais.

As primeiras trocas afetivas entre mãe e filho, os cuidados básicos recebidos, as ações e reações da criança com seu meio-ambiente vão moldando o seu comportamento. E essas vivências, positivas ou negativas, serão, posteriormente, transferidas ao meio social mais amplo, favorecendo ou dificultando a sua adaptação.

A responsabilidade dos pais no ajuste ou no desajuste psicológico dos filhos é grande, e “não é preciso que os pais sejam perfeitos, eles apenas devem ser atentos, sensíveis e humanos” (Buscaglia).

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2001)

CAMINHOS CONSTRUTIVISTAS NA APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

As escolas partem para semear transformações na educação. Os alunos trabalham em projetos que eles criam  e desenvolvem, nos quais empregam conhecimentos adquiridos não só na escola como no seu dia-a-dia.

O computador, por exemplo, não se torna apenas uma fonte de dados, mas um instrumento de comunicação entre eles. Os alunos caminham com autonomia na aprendizagem. Discutem determinadas questões e eles próprios decidem o que fazer. Montam um projeto, pesquisam, fazem o acompanhamento e analisam os resultados, sempre sob a orientação dos professores.

Os professores são treinados para utilizar atividades de ensino construtivistas, que levam o aluno a construir o conhecimento. O filósofo e psicólogo suíço Jean Piaget descobriu que as crianças não pensam como os adultos, têm sua própria ordem e sua própria lógica. A pedagogia tradicional as tornava “recipientes” a serem preenchidos com conhecimento. Elas são, contudo, ativos construtores do conhecimento, tal como fazem os cientistas que criam e testam suas próprias teorias.

O aluno não é um ser passivo e o conhecimento é o resultado da interação entre ele e o mundo. O conhecimento não é cópia, mas resultado de uma construção/elaboração do mundo ou, como dizia Jean Piaget, “assimilação da realidade”.

Construir o conhecimento é aprender, numa estrutura em construção, algo que se quer conhecer. Para haver aprendizagem, não basta a transmissão da informação, por mais competente que ela seja. É o sujeito que, fazendo relações, associando o novo ao já conhecido, vai construindo o conhecimento, segundo a sua estrutura em formação. Novos sentidos serão construídos em cada sujeito, de acordo com os esquemas de compreensão que já adquiriu. Ao longo da vida, o sujeito terá oportunidades diversas de ressignificar o conteúdo de acordo com sua experiência.

No construtivismo dizemos que ser educador é possuir a sabedoria de fazer brotar a sabedoria do outro, fazendo-o tomar posse do verdadeiro saber, saber compreendido, assimilado de dentro para fora. Por isso, educar é ter o poder de ensinar a aprender, é trocar experiências vividas, fazendo surgir novas luzes. O método de ensino adotado pela escola e aplicado pelo professor tem efeito considerável sobre a aprendizagem. Um método distorcido, distanciado da realidade da sala de aula, sem o aprimoramento de seus passos, pode levar o aluno ao fracasso.

A escola deve ajustar-se ao perfil do aluno, às suas características de personalidade, ao seu ritmo de aprendizagem, ajudá-lo em suas buscas. Não deve lhe apresentar um conhecimento pronto, acabado, mas construir com ele o conhecimento, recriar conjuntamente a cultura. Hoje, a escola se distancia da visão culturalista, enciclopedista. Ela aborda a cultura do dia-a-dia, questões de relevância social, de interesse dos alunos, trazendo um conteúdo significativo, um conteúdo contextualizado.

A alfabetização é ponto-chave no processo de aprendizagem. Ela, também, deve partir do estudo da cultura da comunidade do aluno, em que nível lingüístico e cultural ele se encontra, quando chega no 1.º ano do ensino fundamental, e em que nível se quer fazê-lo chegar. A escola, reconhecendo e respeitando o universo de onde veio o aluno, adaptando-se a ele, fará uma adequação do universo cultural que ele trouxe com o universo oferecido por ela, evitando que ele se sinta um estranho no ninho. Dessa maneira, a escola provocará uma ruptura bem menor desses universos. O aluno, aceito em sua maneira de ser, vai percebendo que é possível articular a sua linguagem com a da escola.

Reivindica-se à escola que, a partir de uma cultura popular, ela crie uma consciência de sua necessidade de formar um elo, uma relação de articulação serena, entre o seu universo e o da criança. No momento em que essa articulação se concretizar, a aprendizagem estará garantida. A criança não se sentirá frustrada, olhada como alguém que fala um discurso estranho. Perceberá que não há discurso distinto entre o dela e o da escola. Vai evoluir com naturalidade, não vai decorar ou repetir aquilo que lhe mandam. A passagem entre o seu mundo e o das letras processou-se de modo tranqüilo, com respeito e valorização (trecho extraído da aba da contracapa do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola).

Esse é um grande passo para integrar o aluno no recinto da escola e motivá-lo a ela.

Um outro grande passo é respeitar o seu momento diante da aprendizagem, visto que o desenvolvimento infantil ocorre por fases. Esta foi uma das razões que se pensou em organizar as escolas da rede em ciclos, que coincidem com as fases do desenvolvimento, aumentando as possibilidades de aprendizagem, pois o ritmo das crianças é respeitado. Além disso, nesse processo são levados em conta os conhecimentos que as crianças trazem de casa e da convivência social.



* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em março/2006)

O RETRATO DO DESCASO EDUCACIONAL

Izabel Sadalla Grispino *

Pesquisas na área educacional divulgam a escassez de professores para o exercício do magistério. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) constatou um grande desequilíbrio entre a demanda por professores e o número existente de habilitados. O Ministério da Educação (MEC) informou, em maio deste ano, que no ensino médio e no 2.º ciclo do ensino básico, de 5.ª à 8.ª série, há uma carência de 250 mil professores com nível superior.

As pesquisas mostraram, também, que a falta de professores qualificados é mais grave nas áreas de ciências exatas. O Brasil, pelo levantamento do Inep, precisaria hoje de 55 mil professores de Física e de Química. Entre 1990 e 2001, formaram-se em cursos de licenciatura em Física 7.216 professores e em Química 13.559, um número maior, mas ainda distante das necessidades das escolas. Não havendo professores com a formação específica, atribuem-se as aulas, em caráter excepcional, a formandos em Pedagogia. Na disciplina Matemática, a situação de precariedade é grande. A Secretaria da Educação informou que, em 2001, apenas 12.600 professores, dos 36 mil, eram habilitados, tinham bacharelado e licenciatura em Matemática.

A falta de professores licenciados em ciências exatas, especialmente no ensino médio, tem trazido, como resultado, o que se denomina de “analfabetos tecnológicos”. Trabalhos têm mostrado que o estudo da ciência leva a um raciocínio mais desenvolvido, a um melhor desenvolvimento cognitivo, à curiosidade científica, ao gosto pela pesquisa nessa área. A distorção provocada por essa ausência dificulta o desenvolvimento do aluno, trazendo um menor desenvolvimento para o País. As vocações para a ciência são pouco despertadas. A deficiência em Matemática agrava-se pela enorme quantidade de ocupações que dependem de conhecimentos de informática, conhecimentos que se desenvolvem mais facilmente quando as bases do raciocínio matemático estão alicerçadas.

Constata-se uma evasão de professores de Física e Matemática para o mercado financeiro, de Química e Biologia para áreas de proteção ambiental das empresas e mesmo nas ONGs, por causa dos melhores salários e melhores condições de trabalho.

Na rede pública, a maioria dos professores de ciências exatas não domina os conceitos básicos de sua matéria. Essa situação vem de longa data, piorando a cada ano. Estudos realizados pelo Instituto de Química da USP, no ano de 1997, ao analisar laboratórios de 3.740 escolas estaduais, concluíram pela inutilidade de sua existência, constatando ser ilusório incentivar aulas de laboratório na grande maioria das escolas estaduais. “Com raríssimas exceções, as salas não têm condições físicas para acolher os alunos e, o mais importante, faltam professores especializados para organizar os laboratórios”.

A professora Reiko Isuyama, que coordenou a avaliação, afirmou que há casos de extrema periculosidade. “Foram encontrados ácidos concentrados, solventes cancerígenos e frascos de sódio metálico, substância que pode explodir em contato com a água e atingir, por exemplo, um funcionário durante a limpeza da sala”. O relatório revela que do jeito que está é melhor fechar os laboratórios, “é inútil fornecer reagentes e vidrarias se os professores não sabem utilizá-los”.

Não se pode deixar a educação básica à mercê de si mesma. São constantes os apelos para que haja uma integração real entre as universidades e o ensino médio, de um modo especial. Apelos para que se criem mecanismos de vínculos entre as universidades e o ensino público, assessorando, estimulando o conhecimento, ajudando na formação docente, fator preponderante no desempenho positivo do aluno.

Aristóteles, 400 anos Antes de Cristo, já alertava a humanidade: “Todos que têm militado na arte de governar o gênero humano acabam por se convencer que a sorte dos impérios depende da educação da mocidade”.

Alertas não têm faltado à prática da boa educação, mas a escola, há muito, não é tida como prioridade nacional, tanto que hoje presenciamos um grande processo de incorporação ao magistério  de  novos  segmentos  sociais. Se antes a classe média e a média alta mandavam seus filhos, de preferência suas filhas, para abraçar a carreira de professor, hoje, o que temos, segundo pesquisas do Censo, são profissionais advindos de lares de baixa renda, de pais de baixa escolaridade, com uma baixa estrutura cultural. A isso acresce-se o deficiente ensino público, recebido por este novo segmento.

Os baixos salários, as condições precárias de ensino desestimulam a busca do magistério. Procuram-no, geralmente, quem não tem outra opção. Fazer a educação pública brasileira avançar é um exercício de liderança governamental, de vontade política, capaz de revolucionar e modernizar o sistema educacional, quebrar a corrente do faz-de-conta, assistindo-a técnica e financeiramente de modo eficaz.

A falta de professores constatada não é senão conseqüência do abandono, do discurso da prática vazia, da democracia no solar da demagogia. Há anos que vimos escrevendo sobre o descuido intelectual e institucional voltado à educação; há anos que vimos reclamando melhores condições de trabalho, melhores salários aos professores. Essa longa situação de penúria, em relação ao magistério, redundou em desânimo para essa carreira, acompanhado da má qualidade de todo o ensino público da educação básica. Revelou o frisante desprezo crônico de décadas a fio, refletindo a falta de compromisso, de responsabilidade governamental de levar educação de qualidade às classes menos favorecidas da população brasileira. Nesse abandono da escola e dos professores, o que ocorreu, realmente, foi uma discriminação de direitos às camadas de menor poder aquisitivo, às diferentes etnias brasileiras.

Ou se promove uma reviravolta vigorosa ou a educação zera de vez.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2003)

O LIVRO DIDÁTICO E O ORÇAMENTO FAMILIAR

Izabel Sadalla Grispino *

Início do ano letivo. Volta às aulas; a família mobilizando-se, replanejando-se, ajustando horários e orçamento. A compra do material escolar, em especial dos livros didáticos, onera-a. Solicitada a falar a respeito, em termos de colaboração, sugiro procedimentos já mantidos com sucesso por algumas escolas.

Quando se trata de escola particular, muitas são as queixas dos pais, em relação ao livro didático. Nas escolas da rede oficial a situação é mais branda, os alunos, no ensino fundamental, recebem gratuitamente os livros. Estes devem ser mantidos por um prazo mínimo de três anos, sendo absolutamente condenada a sua troca freqüente.

O aluno, por sua vez, é orientado a cuidar bem do livro, encapá-lo, de preferência com capa grossa, mantê-lo limpo, não rabiscá-lo, fazer os exercícios, não no livro, mas no caderno. Deve preservá-lo porque, ao passar para a série ou agrupamento subseqüente, esse livro permanecerá na escola e irá servir a outro colega da série correspondente. O aluno é conscientizado de que o livro não é, propriamente, dado e, sim, emprestado.

O mesmo procedimento verifica-se nos intercâmbios culturais, como o high school, nos Estados Unidos. O aluno, ao ir para uma escola estadual, vai encontrar um armário com todo material didático pronto, incluindo os livros, deixado pelo colega antecessor. Cabe-lhe, agora, a responsabilidade de zelar pelo material, deixando-o da mesma forma, em ordem, para o sucessor.

Quanto às escolas particulares, no que concerne ao livro didático, são constantes as reclamações dos pais, pelos gastos excessivos a respeito. Reclamam que, na grande maioria, os livros adotados, pelas escolas, sofrem trocas freqüentes. Os filhos que estudam na mesma escola, com diferença escolar de dois ou três anos, dificilmente aproveitam o livro do irmão.

Como ajudar, nesse sentido? O que propor para tornar o livro mais acessível? Inicialmente, que a escola tenha o cuidado de escolher um bom livro didático. Livro de apresentação estimulante, de conceitos corretos, pertinentes, de experiências abertas que permitam espaços à introdução de assuntos do momento, das questões do cotidiano do aluno, da sociedade, num trabalho de contextualização e de interdisciplinaridade. Livros com exercícios práticos, onde se possa exercitar o método construtivista, com conteúdos relacionados, com conceitos básicos que serão trabalhados, em sala de aula, de forma diferente, de acordo com o nível encontrado.

Um livro bem formulado deixa abertura para as eventualidades, não sendo necessário trocá-lo freqüentemente, com a argumentação da sua atualização. Princípios e normas não se alteram rapidamente. A gramática normativa da Língua Portuguesa não sofre alterações a dezenas e dezenas de anos. Os conceitos essenciais da Matemática, da Ciência, ou da História, vêm sendo aplicados de longa data. Acresce-se, ainda, que o livro didático é apenas uma ferramenta a mais nas mãos do professor. Ele é um material instrucional de valiosa ajuda para o seu plano de trabalho, um bom suporte operacional; importante sim, mas não absoluto. Deve conter o primordial, o arcabouço didático-pedagógico a ser recheado conforme as circunstâncias apresentadas.

Tendo em vista as reclamações, a escola deveria colocar como um de seus objetivos facilitar a aquisição do livro didático. Escola particular nem sempre significa ser freqüentada por alunos de famílias abastadas. Ao contrário, uma boa parte de sua clientela provém de famílias que arcam com dificuldade com as despesas escolares. São pais que mantêm a perspectiva de um bom futuro para o filho, sabendo que isso raramente encontrará nas precárias escolas oficiais.

A grande força de atração da escola está, indubitavelmente, na qualidade de ensino que ela oferece. Contudo, ao lado do qualificado padrão, há o atrativo da organização, voltado ao atendimento humano de sua clientela. Hoje, com o espírito crítico mais evoluído, os próprios pais se encarregam de divulgar, de propagar os aspectos positivos da instituição.

Esse prisma do livro didático é uma oportunidade a mais para a escola educar para a responsabilidade, para a organização, para o senso de ordem. Poder-se-ia pensar num processo paralelo às escolas oficiais, o aluno sendo orientado para a preservação do livro, nas linhas acima mencionadas, com a diferença de que não seria para doá-lo, mas para vendê-lo. Vendê-lo-ia por um preço bem mais convidativo, em livrarias da cidade, onde já, há algum tempo, se comercializam livros usados e das quais muitos pais se servem. Poder-se-ia, também, pensar num banco do livro, na própria escola, facilitando o processo.

Se houver entusiasmo, por parte do professor, se a comunicação fluir bem, esse entusiasmo passará ao aluno que, motivado, se sentirá um coadjuvante da economia familiar. Educar-se-á para a disciplina, para a responsabilidade coletiva na racionalização dos gastos, o aluno aprendendo a dosar, a dividir, a somar esforços na busca de soluções.

Crianças e jovens que têm as coisas fáceis serão adultos displicentes, autoritários, de uma exigência que tudo pede e nada ou quase nada dá em troca. A escola trabalharia conceitos, como o preconceito da coisa usada, desmobilizando o status do poder advindo do dinheiro, desfazendo preceitos falsos de propriedade. Não é mais quem tem mais, é mais quem sabe ser mais – correlação do ser e do ter.

Esse aspecto pode se reverter na propositura de fazer o aluno vivenciar a cidadania, alargando, no amanhã, a visão do contribuir, do comportamento solidário em âmbito da sociedade. Tal procedimento agradaria aos pais e teria um bom alcance educacional na formação do educando.

Também, nas séries mais avançadas, no ensino médio, um curso bem planejado, bem estruturado, montado e ministrado por um corpo docente competente, poderia ser oferecido, aos alunos, apostilado, barateando o produto.

É importante que a escola reflita a respeito, que compatibilize a situação, valorize a posição da família e que caminhos sejam encontrados de modo a favorecer a gregos e troianos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2001)

ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS E DE CRIANÇAS

Izabel Sadalla Grispino *

A competência profissional é fator de sucesso em qualquer setor da atividade. Há anos, a fala governamental se dirige aos analfabetos adultos, na pretensão de eliminar o analfabetismo, programando-lhes passaporte para a escrita e a leitura.

Mas, os analfabetos continuam e cada vez mais em número crescente. Acontece que os programas governamentais partem de um pressuposto falho. Acha o governo que qualquer pessoa que saiba ler e escrever pode alfabetizar um adulto. O adulto, já cristalizado em seus hábitos, quer por vergonha, quer por falta de tempo, quer por medo de não conseguir aprender, reluta em se alfabetizar. Acaba por desistir. Muitos já tentaram sem sucesso e chegam a se considerar incapazes, sem inteligência.

Alfabetização de adultos não é mera obra de voluntários, mesmo que tenham boa vontade. Sem o sentido de profissionalismo, sem o devido preparo pedagógico para entender as bifurcações que levam à alfabetização, não chegarão lá. Pelo fato de o adulto ter alcançado a última fase do desenvolvimento cognitivo, capaz de raciocínio, de abstração, de reversibilidade, o processo do conhecimento não é tão simples. Esse adulto não foi estimulado na fase própria da aprendizagem, tem a inteligência pouco trabalhada e, quase sempre, interiorizado um sentimento de incompetência, de vergonha, quando não, de culpa por não saber ler.

Aí é que entra a força da didática centrada na formação do alfabetizador. É preciso capacitação específica para alfabetizar. Um professor que leciona em cursos mais avançados e que nunca alfabetizou, não recebeu treinamento nessa área, vai ter, inclusive, dificuldade em alfabetizar. Na formação do professor, reside o maior entrave para os cursos de alfabetização de adultos. Um professor, com conhecimento em alfabetização, saberá conduzir, facilitar o aprendizado e passar estímulo, para que o aluno continue aprendendo pela vida afora.

A LDB impõe a necessidade do curso normal superior como formação mínima para o exercício do magistério na área de educação infantil. O professor precisa ter uma boa formação para não atropelar o processo de desenvolvimento da criança e conduzi-la, com serenidade, à aprendizagem. Vários são os métodos adotados, porém, em todos, o atendimento individual, a observância da autonomia na aprendizagem, a participação ativa da criança na construção do conhecimento, são procedimentos comuns a todos. Privilegiam os métodos ativos que mantenham uma interação fecunda professor/aluno.

O socioconstrutivismo tem sido um dos métodos mais praticados nas escolas. Emília Ferreiro é o ponto de partida da orientação socioconstrutivista, que se encontra mesclada pelas linhas básicas de pensamento de  teóricos, que defendem uma visão integrada do desenvolvimento humano, como Jean Piaget e Lev Vigotsky. Vigotsky atuou mais na área da psicologia e da neurologia. Piaget descobriu que as crianças não pensam como adultos, têm sua própria ordem e sua própria lógica. Para a pedagogia tradicional, elas eram como “recipientes” a serem preenchidos com conhecimentos. Piaget demonstrou que as crianças são ativos construtores do conhecimento. Para ele, o conhecimento resulta da interação entre o sujeito e o mundo. Mundo em que o sujeito não é passivo e o conhecimento não é cópia, mas construção ou elaboração do mundo, é “assimilação da realidade”. O sujeito e o conhecimento se constroem. Para haver aprendizagem não basta a transmissão da informação por mais competente que ela seja, como fazia a escola tradicional. É o sujeito quem, fazendo relações, associando o novo ao já conhecido, vai construindo o conhecimento, segundo a sua estrutura de formação. Piaget procurou decifrar as fases do desenvolvimento mental. A criança é um ser que interage com a realidade e assim forma suas estruturas mentais. É referência obrigatória.

O método Montessori, criado pela médica italiana Maria Montessori (1870-1952), iniciou-se com o desenvolvimento de técnicas para ensinar crianças excepcionais. Parte do pressuposto de que a criança é dotada de infinitas potencialidades e é capaz de autocrescimento. Seu método foi chamado de "Escola do Silêncio”, por estimular a concentração, a introspecção e a integração social. As atividades são propostas levando-se em consideração as peculiaridades da criança. Na relação professor/aluno, as atividades são sugeridas e orientadas, deixando que a própria criança se corrija.

Um outro método que vem ganhando espaço é o Waldorf, também chamado de antroposófico. O nome Waldorf surgiu pelo fato de as primeiras alunas de seu fundador, o alemão Rudolf Waldorf (1861-1925), serem funcionários da fábrica Waldorf Astoria, na Alemanha. O método trabalha a criança conjuntamente no seu desenvolvimento físico, social e individual. As turmas se dividem por faixa etária e não por série. Não há repetência e a relação da escola com os pais é muito grande. Evita-se o máximo a troca de professores, que devem acompanhar a mesma turma por um período de 7 anos.

Essa pequena explanação elucida o quanto o professor deve conhecer, estudar, praticar, para exercer, em bom nível, a alfabetização.

A alfabetização de adultos atingiria o seu objetivo se pudesse contar com professores preparados para esse fim, como já se faz com a alfabetização das crianças.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em fevereiro/2004)

MEMÓRIA E PROCESSO PEDAGÓGICO

Izabel Sadalla Grispino *

Os avanços da ciência sobre o funcionamento do cérebro continuam clareando o procedimento pedagógico. No cérebro humano, dizem os cientistas, a memória vem em primeiro lugar.

A memória retém informações, arquiva-as e elas surgirão quando as apelamos. Divide-se em memória declarativa e memória processual. Declarativa, quando nos lembramos de algo, de algum acontecimento, de um número de telefone, de um nome..., e processual, quando ligada à habilidade de se fazer alguma coisa, por exemplo, andar de bicicleta.

Na memória declarativa, gravamos informações com mais facilidade, mas, também, com o tempo, esquecemos mais depressa. Na memória processual, a dificuldade para gravar é maior, mas, depois que aprendemos como se faz, como a coisa se processa, dificilmente esqueceremos. São exemplos: dirigir, ler, escrever, contar...

Inteirando-me das características e funcionamento da memória, passei a relacioná-los ao processo pedagógico, visto ter aí encontrado forte sustentação da metodologia renovada apregoada para o ensino-aprendizagem.

A escola utiliza-se bem mais da memória processual, que é onde se realiza, onde se constrói o conhecimento. Essa memória vai, aos poucos, gravando os passos adquiridos, em direção ao conhecer. Ela vem referendar o método construtivista, quando a criança, para chegar ao conhecimento, observa, manuseia, experimenta, analisa, formando conceito do assunto visado. É ela quem vai propiciar a interiorização, a formação das habilidades, quem desenvolve as faculdades de pensar, criar, inventar, agir...

A memória processual, em sua função, confirma a característica imprimida à aprendizagem, em termos de praticidade. Precisa ser prática, dar ao aluno a oportunidade de elaborar, de criar, ele próprio, o conhecimento. Hoje, a metodologia privilegia a autonomia na aprendizagem, a auto-educação, o caminho da ida e o caminho da volta, num processo de reversibilidade do conhecimento, enfatizado por Jean Piaget.

A memória processual consolida o preceito educacional de fazer do aluno o agente de sua aprendizagem. É o esforço próprio, a persistência que vai levar à fixação do conhecimento. É como diz Pedro Demo: “Tem que ralar, tem que maiar”.

Um outro prisma da memória é que ela pode ter curta ou longa duração. Curta, quando guardamos na lembrança por pouco tempo, havendo, nesse caso, um limite em reter as informações. Para uma memória longa, melhor, para que retenha algo por mais tempo, é preciso treinar muito e repetir bastante.

Essa é uma outra confirmação do que a escola já fazia empiricamente, ou seja, a importância, na aprendizagem, da repetição, dos exercícios continuados na seqüência do currículo, da utilização do processo de retorno ao assunto, de tempos em tempos, para que haja uma boa fixação da matéria.

Um fato interessante da memória é que ela não é um tipo de órgão, glândula ou coisa parecida e nem está localizada em local determinado no cérebro. A memória, confirma a ciência, é uma reação biológica e psicológica que acontece dentro da cabeça. Daí a importância de aliar a pedagogia à psicologia. De se ressaltar, no ensino-aprendizagem, os estímulos, o interesse, de despertar a confiança, trabalhar a auto-estima, considerar, em cada aluno, o seu limite, o seu potencial, as suas virtualidades e o seu ritmo. Estes são os fatores que garantem a ausência do fracasso. Todo professor sabe que, ganhando a afetividade e a confiança do aluno, ele já está ganhando uma porcentagem alta na aprendizagem. Esta surge em decorrência.

Há, contudo, o chamado lobo temporal – um pouco acima das orelhas – caracterizado pelos cientistas como um importante reservatório de acontecimentos passados. Esse lobo temporal costuma ser muito ativado na idade adulta, razão pela qual os idosos lembram de coisas muito antigas. Há, também, o neocórtex temporal, que se acredita ser a região envolvida com a memória longa e memória declarativa.

O que surpreende é a extensão da memória, que chega até a amígdala, região da garganta, que tem, inclusive, importante função.

A cada passo vamos percebendo os fundamentos científicos dos métodos ativos, consagrados pela nova escola. Eles  não  trazem  apenas  o resultado  de uma observação contínua, de uma comprovação prática de seu uso no dia-a-dia, mas o resultado de pesquisas científicas, da lógica racional.

Ao abordar o tópico “Métodos ativos para a aprendizagem”, no meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), na pág. 243, eu digo: “A escola não se sustenta mais como transmissora, ela deve ser construtora do saber. A disciplina não é mais imposta, mas discutida e estabelecida juntamente com os alunos.

Os métodos ativos são uma necessidade da nossa época. Não são novos na literatura pedagógica. Ao longo dos tempos, eles vêm sendo citados, mas pouco usados. Não havia uma conscientização geral de sua aplicabilidade. Hoje, porém, são indispensáveis, consagrados. Eles começaram a se despontar, com mais vigor, no final do século XVIII”.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em setembro/2005)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em setembro/2005)

A FORMAÇÃO DE CICLOS NAS ESCOLAS DA REDE ESTADUAL

Izabel  Sadalla  Grispino*

O Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) realizado, em sua 1.ª fase no ano de 1997, a alunos de 3.ª e 7.ª séries do 1.º grau, em escolas oficiais e particulares – as que quiseram aderir ao programa – permitiu chegar, segundo o MEC, a conclusões fundamentais.

As provas foram feitas com base no programa curricular do ciclo básico – união de 1.ª e 2.ª séries – e da 6.ª série, respectivamente. O melhor resultado foi observado nas 3.ªs séries, provenientes do ciclo básico. Os alunos das escolas públicas, afirma o MEC, nessas séries, apresentaram rendimento muito semelhante ao das escolas particulares.

A 2.ª fase da avaliação abrangeu alunos de 4.ª e de 8.ª séries, sempre com base no currículo da série anterior. Essa avaliação e mais a que incluiu alunos do ensino médio demonstraram que o ensino decresce em qualidade à medida que a série avança, que a qualidade de conhecimento, absorvido pelo aluno de 1.ª à 4.ª série, é grande, de 5.ª à 8.ª  série cai um pouco e, no 2.º grau, é muito pequena.

De acordo com o MEC, as avaliações revelaram vantagens – em relação às demais séries do 1.º grau – nos agrupamentos das 1.ªs e 2.ªs séries do ensino fundamental, o ciclo básico, tanto referente à aprendizagem, quanto à repetência. Constatou-se que de cada 100 alunos matriculados, apenas 60 terminam os 8 anos do ensino fundamental.

Essas avaliações, a nível nacional, forneceram dados que permitiram uma radiografia geral da educação, diagnósticos globais, detectando os grandes problemas. Mas, cada região pode torná-las mais eficientes, mantendo seus próprios sistemas de avaliação. Algumas secretarias estaduais e municipais já têm seus processos de avaliação. Entre as estaduais, estão: Minas Gerais, São Paulo, Ceará, Paraná, Pernambuco, Rio Grade do Norte, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Entre as municipais: Curitiba (PR), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ).

São Paulo montou, no ano de 1997, o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado (Saresp), planejando fazer uma prova por ano, série a série.

ENSINO FUNDAMENTAL EM CICLOS – No Estado de São Paulo, o Conselho Estadual de Educação, apoiando-se nos resultados das avaliações e na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que diz ser “facultado aos sistemas de ensino desdobrar o ensino fundamental em ciclos”, autorizou a organização do ensino fundamental, na rede do Estado, em ciclos, ou seja, o reagrupamento das séries em ciclos de maior duração, nos quais não haverá reprovação anual.

A LDB diz ainda: “Os estabelecimentos que utilizam progressão regular por série podem adotar no ensino fundamental o regime de progressão continuada sem prejuízo da avaliação do processo de ensino-aprendizagem, observadas as normas do respectivo sistema de ensino”.

A filosofia adotada pela nova Lei trocou a uniformidade e a rigidez do sistema de ensino pela diversificação, flexibilidade e até regionalização. Recomenda que não se leve em conta apenas os resultados das provas bimestrais na avaliação dos alunos e, sim, seu desempenho global, ao longo do ano.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo estabeleceu, para as escolas de sua rede, dois ciclos para o ensino fundamental – para alunos da faixa etária dos 7 aos 14 anos – o primeiro da 1.ª à 4.ª série e o segundo, da 5.ª à 8.ª série, em vigor a partir de 1998. As escolas municipais do ensino fundamental terão liberdade para organizar o seu ensino, seguindo o modelo das estaduais ou permanecendo com um ciclo só.

O sistema chamado de “regime de progressão continuada” é a ampliação do ciclo básico da 1.ª à 2.ª série, existente na rede estadual desde 1984. O objetivo maior é combater a repetência, utilizando-se da adoção de avaliações permanentes, paralelas ao ensino-aprendizagem, com grupos de reforço, grupos de recuperação para o aluno, que, ao longo do processo, apresentou dificuldades na aquisição dos conceitos básicos.

O ciclo de 1.ª à 4.ª série terá sua avaliação conclusiva na 4.ª série, o de 5.ª à 8.ª série, a avaliação conclusiva será na 8.ª série.

PRESSUPOSTOS DO REGIME DE PROGESSÃO CONTINUADA – O ensino na progressão continuada parte do princípio de que todo aluno é capaz de aprender e de que a escola deve ser capaz de atender à diversidade, oferecendo um currículo adequado ao progresso do aluno. A metodologia deve privilegiar o aluno como sujeito de sua aprendizagem, abandonar o sistema tradicional da transmissão dos conhecimentos prontos e acabados. Os conteúdos são dados continuadamente e não por série.

A atual conduta pedagógica adotada pela Secretaria Estadual da Educação estabelece que a solução para o baixo rendimento do aluno está na escola. É ela que tem de oferecer os recursos para o estudante recuperar-se. Deve assumir a responsabilidade pela aprendizagem. “Não adianta dizer que se o aluno não aprendeu o problema é dele”, diz a Secretaria da Educação e acrescenta: “Não há alunos com barreiras intransponíveis de conhecimento; o que varia é o ritmo do aprendizado de cada um”.

Para evitar o fracasso do aluno, a escola deve verificar como se equaciona identidade cultural e itinerário educativo. Ela é condutora da potencialidade do aluno. Deve recriar a cultura, transformar a informação em conhecimento.

Na próxima semana, abordarei o processo de avaliação desse ensino-aprendizagem.

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2001)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

FACES DA VIOLÊNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

A criminalidade está crescendo e o povo está em pânico. Ela se expande, evolui de tal modo que vivemos por ela cercados, em período integral.

Há alguns meses, escrevi sobre violência no artigo “A violência nas escolas”, revelando a face da miséria, do abandono, do desemprego, da exclusão social. Retratava a classe pobre, crianças e jovens das favelas, das periferias. Dizia eu: “A violência, entretanto, não é fruto da escola, não se origina nela. A escola trabalha com o efeito, as causas lhe são externas. A violência nasce nos becos das favelas, nas ruelas escuras das periferias, na urbanização desenfreada, desordenada. Ela nasce da miséria, do desajuste familiar, da ausência de condições razoáveis de vida, da ausência de educação. A violência é fruto de um conjunto de fatores socioculturais, por isso a escola sozinha não tem como resolver o problema. É necessário uma ação de todas as instituições, ações multidisciplinares, interdisciplinares, envolvendo escola, família, igreja, judiciário, polícia e governo”. Pesquisa feita pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São Paulo demonstra a relação direta entre pobreza e violência. Demonstra, ainda, que a violência se concentra em áreas de maior população, com moradores de menor renda e de baixa escolaridade.

Hoje, outra face da violência se descortina. De suas origens maltrapilhas, ela avança e atinge a classe média e a classe média-alta. Notamos, com freqüência, em noticiário policial, crimes, vandalismo, consumo e tráfico de drogas, estampando jovens de perfil revelador de classes abastadas. O novo delinqüente veste roupa de grife, freqüenta colégios caros, tem carro próprio. É jovem bem-nascido, que se caracteriza por comportamento anti-social. Os fatores apontados para esse desajuste recaem, prioritariamente, sobre a desestruturação da família. Pais separados, desestabilizando o emocional dos filhos, a perda de referência ou pais, mesmo juntos, que pecam pela falta do exercício da paternidade. Pais excessivamente preocupados com sua ascensão profissional, sem tempo e nem vontade para conversar, para interessar-se pelo dia-a-dia do filho ou simplesmente sem vontade de abraçar, fazer o filho sentir-se amado e importante. Esse distanciamento derruba pilares na estrutura da alma, cria vazios afetivos. Esses pais procuram compensar suas ausências com valores materiais, carro, boa mesada, jóias, celular, empurrando o jovem para o consumismo. Na ânsia de querer bens, cada vez mais sofisticados, os jovens acabam enveredando por sendas ilícitas.

Os pais, sempre distantes, sempre “ocupados”, abrem caminho para que a permissividade aconteça, para uma educação sem limites, sem balizas éticas. Os jovens começam por transgredir normas e valores e acabam caindo num consumismo agressivo. Filhos precisam de pais por perto, de carinho, de atenção, de companheirismo. Precisam de uma mão firme, conduzindo, orientando. A falta do suporte emocional gera insegurança, fragiliza e torna o jovem presa fácil do ilícito. O fortalecimento da família, as relações pais e filhos devem ser aprimoradas e pais conscientizados da importância do diálogo, do amor na criação dos filhos e do sentimento de religiosidade.

Entre outros agravantes da violência, citam-se a influência via TV, cinema, os delírios dos shows de auditório, a valorização do sucesso, independente do meio utilizado, ou os desvios comportamentais, vistos com aparência de normalidade.

O crime evoluiu em toda a sua dimensão. A criminalidade atinge todas as camadas sociais. Agiganta-se e tem sua outra face nas megas organizações nacionais e internacionais, que se apoiam no próprio progresso tecnológico e empresarial. O crime organizado atua com eficiência, portando poderoso arsenal bélico. Confronta-se, entre nós, com uma polícia depauperada, tanto em recursos humanos quanto instrumentais, sempre havendo grande possibilidade de o bandido não ser apanhado e, quando preso, se evadir. Ele foge pelo subsolo, por terra, pelo ar, quando não, garante sua impunidade através de um esperto advogado, que encontra no Código de Processo Penal chances de recurso e de prescrição da pena. A violência tem, também, a face das táticas de guerrilhas, dos movimentos armados, que se especializam em assaltos a bancos e, mais freqüentemente, em seqüestros milionários.

Tráfico de drogas, contrabando de armas e seqüestros saem dos  bilhões de dólares que se sustentam, largamente, pela lama das favelas. Hoje, populações inteiras de  favelas vivem à custa das drogas, único emprego ali existente. A miséria, material ou espiritual, é o instrumento que sustenta o banditismo, que lhe dá suporte financeiro.

Voltando à escola, direi que ela precisa conhecer para combater, para conscientizar. Deve aproveitar as reuniões de Pais e Mestres, os Conselhos de Escola, oportunizar outros encontros, para esclarecer, para discutir e atuar, conjuntamente, na prevenção da violência. A escola exercerá um papel fundamental no combate à criminalidade, na medida em que conclamar pais, comunidade a se juntarem a ela, nessa luta de extrema gravidade e que exige a participação de todos nós. Este artigo inspirou-me os versos abaixo:

 

SOCIEDADE AO DEUS-DARÁ

 

Abro o jornal; morte, violência,

É o caos, uma irreverência!

São barbáries tão recorrentes,

Que passam como inexistentes!

O homem parece anestesiado,

Prostra-se, não tem mais reação,

É um ser vivendo angustiado,

Sofrendo, sem apelação!

Miséria e lama nas favelas,

Todo um pessoal desempregado,

Coabitando à luz de velas,

Num viver marginalizado!

Brutal inversão de valores,

Cultiva dores, nunca flores,

Cidadania que é bem comum,

Torna-se privilégio de alguns!

O grito rouco de socorro

Fica congelado no morro,

Ensurdecido ao governante,

Com seu discurso humanizante!

De oratória em oratória,

Fica mais negra a trajetória,

E essa vida, que é tão bela,

Está virando triste cela!

 


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2005)

A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

FILHOS RECEBENDO ENSINO EM CASA

Izabel Sadalla Grispino *

Atinge as esferas judiciais e educacionais a discussão sobre a possibilidade de os pais ministrarem, aos filhos, o ensino em casa, sem que tenham que ir à escola e freqüentar a sala de aula. A mídia tem noticiado casos em que pais tentam, através de mandado de segurança, garantir, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o direito de educar os filhos em casa e levá-los a uma escola determinada apenas para realizar as provas, a fim de submeter-se à avaliação escolar.

O pedido dos pais será decidido pelos ministros – em número de dez – da 1.ª Secção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), especializada em direito público. Os ministros julgarão a procedência, após o Ministério Público Federal encaminhar parecer sobre ele.

O caso chegou à justiça depois que a Câmara de Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação (CNE) negou o pedido, alegando que a pretensão dos pais, em ser professor dos filhos, esbarra na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). O Conselho Nacional de Educação (CNE) determina que as crianças devem freqüentar regularmente uma escola.

O mandado de segurança apoiou-se na própria Constituição Federal, quando reza que cabe aos pais assistir, educar e criar seus filhos menores. Também, foi baseado em artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo o qual os pais têm, prioritariamente, o direito de escolher o tipo de educação que querem dar aos filhos.

Os pais, em questão, estão convictos quanto ao ensino dos filhos em casa, tanto que “estão dispostos a correr o risco de fazer com que as crianças prestem demonstração de seus conhecimentos por meio de exame supletivo”. Argumentam de que as crianças estão adiantadas para a idade, bem acima do nível da média.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) estabelece que o ensino fundamental seja obrigatoriamente presencial. Contudo, essa mesma lei, no artigo 24, em seu inciso II, alíneas a, b e c, atenua a exigência, ao criar a “reclassificação e a classificação”, possibilitando ao aluno a matrícula em série determinada pela avaliação escolar.

O inciso II diz: “A classificação em qualquer série ou etapa, exceto a 1.ª do ensino fundamental, pode ser feita:

  1. por promoção, para alunos que cursaram, com aproveitamento, a série ou fase anterior na própria escola;
  2. por transferência, para candidatos procedentes de outra escola;

c)   independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola,  que  defina o grau   de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino”.

A reclassificação permite à escola avaliar e determinar a série de alunos oriundos de outras instituições – e por que não da instituição familiar? – e, mesmo, de outros países, sem levar em conta documentos escolares. A classificação permite a promoção avaliando conhecimentos, sem considerar a série cursada.

Baseando-se na alínea “c”, não importa onde e como o aluno adquiriu o conhecimento. Ele pode sempre ser avaliado pela escola, que determinará a série adequada a seu grau de conhecimento.

Mas, mesmo que se encontre respaldo na lei, afastar a criança do convívio escolar é, pedagógica e psicologicamente, um procedimento salutar? Já tecemos considerações a respeito, quando abordamos o tema  “Escola virtual”, no aspecto concernente à educação básica.

Reforcemos o pensamento: educar não é apenas informar; é, principalmente, formar; não é só passar conhecimento; é processo bem mais amplo, envolvendo o ser humano como um todo, na sua integralidade, em corpo, em mente, em alma. Para um desenvolvimento harmonioso da personalidade, a convivência com crianças da mesma faixa etária é imprescindível. Afastar a criança dessa convivência poderá significar distúrbios no seu comportamento. O indivíduo cresce com o outro, aprende com o outro, com o outro amplia a visão de mundo, equilibra suas emoções. O grupo-classe favorece o pensar com o outro, o pensar num contexto intersubjetivo. A escola ajuda a socialização, ensina conviver, desenvolver o relacionamento interpessoal.

O contato entre humanos é como um espelho, onde um se mira no outro, se revê, analisa as falhas e se corrige com o outro. Entre eles, ocorre um aprendizado mútuo, uma crítica, que reverte favorável ao próprio comportamento.

Por isso, em termos de personalidade, de crescimento pessoal, a criança que aprende sozinha em casa fica prejudicada, perde ao invés de ganhar, isto é, mesmo que ganhe nos aspectos conceituais, perde nos atitudinais, nos comportamentais. Ela necessita da companhia de outras crianças, precisa circular por outros espaços para se desenvolver bem e aprender a lidar com a diversidade, ajustando-se melhor à vida em sociedade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2001)

RESERVA DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

Já, há algum tempo, escrevi a respeito da reserva de 50% das vagas nas universidades públicas para alunos oriundos do ensino médio das escolas oficiais. Na ocasião, o projeto tramitava na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, é a vez do Estado de São Paulo passar pela mesma situação.

Tramita, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um projeto apresentado pelo deputado Celso Tanaui, do PTB, que destina 50% das vagas das universidades do Estado a estudantes que tenham cursado o ensino médio em escola pública.

O ingresso à universidade não seria, pois, por mérito acadêmico, mas por destinação prévia de vagas, o que viria acarretar perda da qualidade de ensino da universidade. A argumentação do deputado é de que o acesso às universidades públicas é privilégio dos ricos e que os pobres, os que mais precisam, só conseguem entrar em universidades pagas. Realmente, é uma verdade e configura um contra-senso, um desequilíbrio da balança social. Acontece que os ricos freqüentam escolas particulares de boa qualidade, tornam-se melhores preparados, melhores capacitados e competem com vantagem, conseguindo melhores posições em tudo.

Mas, será a destinação pura e simples de vagas, sem o seu principal componente, a boa formação, o caminho para se consertar essa injustiça? As diferenças educacionais estariam resolvidas pela aprovação de um decreto? Convenhamos ser esse um pensamento equivocado, pois o processo é bem mais amplo, bem mais complexo, envolvendo mudanças estruturais de base, significativas.

A reversão do quadro acima descrito não é tão simples assim. É preciso, antes, melhorar o estudo do pobre, dar-lhe armas intelectuais para enfrentar, em par de igualdade, a concorrência com o rico. Investir maciçamente na escola pública é a saída correta para esse impasse. Aparelhá-la, instrumentalizá-la, reciclar os seus professores, dotá-los de competência, nivelando o ensino por cima.

A reserva de vagas é uma farsa, só camufla a situação e trabalha contra o próprio aluno pobre, que continuará defasado no conhecimento e marginalizado na sociedade, por falta de formação adequada. Essa reserva de vagas levará a um desnível do ensino superior, a um sucateamento, como já aconteceu com a educação básica pública, pois a tendência é baixar o nível, para não excluir os menos preparados.

Abriram-se vagas, no ensino fundamental, para todos, abargando alunos das mais diferentes camadas sociais, mas não foram dadas condições efetivas de um bom trabalho pedagógico. Não se preparou o professorado, que se vê meio perdido a tanta inovação, não se investiu num ensino de qualidade. Hoje, o aluno sai da escola, com algumas exceções, semi-analfabeto. A universalização da oferta de vagas não foi acompanhada da universalização da oferta de educação de qualidade para todos. Deixou-se inclusive de priorizar a educação infantil.

Garantir vagas, ao aluno pobre, nas universidades públicas,  de boa qualidade, requer estender essa boa qualidade a toda a educação básica. Requer que as metas quantitativas sejam juntadas às qualitativas. É um processo que demanda tempo, mas, quando chegar lá, será com consistência, com validade e sem discriminação. Esse é o trajeto a se percorrer para se garantir o acesso às universidades públicas a quem não tem recursos para pagar uma instituição particular.

Com a reserva de vagas, a USP abrigará dois segmentos de alunos, de formação e de capacitação, bem diferentes, o que comprometerá o bom ensino. Terá dois grupos de ingressantes, com perfis muito distintos um do outro. “Um deles não conseguirá acompanhar as disciplinas previstas para o 1.º ano do curso, já que poderá haver aprovados com nota zero em matérias fundamentais”, esclarece Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, e acrescenta: “O preparo de um possível candidato beneficiado não estaria dentro dos padrões desejáveis para uma universidade de excelência como a USP”.

A médio prazo esse ensino sofrerá um forte impacto negativo, refletindo-se na graduação, com repercussão na pós-graduação e na pesquisa. Como ficará o conhecimento científico? Como acelerar nosso desenvolvimento tecnológico? Seremos os dependentes, cada vez mais acentuados, da tecnologia importada?

Pelo Índice de Avanço Tecnológico das Nações Unidas, o Brasil que ocupa o 43.º lugar, atrás da Tailândia, da Argentina, da Costa Rica e do México, ficará mais abaixo ainda!

É preciso olhar para mais longe, desapegar-se do aqui, agora. A tecnologia avançada surge do conhecimento das pessoas, dos profissionais em ação. O aluno pobre, defasado no conhecimento, não terá seu problema resolvido por uma reserva de vagas. Ele, marginalizado, marginalizará o conhecimento tecnológico, prejudicando o nível de excelência que as universidades públicas vêm mantendo. Por esse processo de facilitação, estaremos arrastando a pobreza científica e tecnológica do País.

O deputado Celso Tanaui, ao ser questionado sobre seu projeto, respondeu: “Inteligência não é atributo exclusivo dos ricos”. O desavisado deputado misturou alhos com bugalhos. Inteligência todos têm, a diferença está no encaminhamento dessa inteligência, na assistência, no trato psico-pedagógico de seu desenvolvimento, que é o que, justamente, falta ao aluno pobre na fase anterior ao ingresso do nível superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

O TRANSTORNO DA HIPERATIVIDADE NA CRIANÇA

Izabel Sadalla Grispino *

Na segunda década do século XX, houve um forte despertar sobre o estudo da criança. Sua forma de agir, sua evolução psíquica, aspectos fundamentais da personalidade. A cada dia, a ciência, a psicopedagogia, nos enviam recados. Registrei alguns aspectos que devem fazer parte do conhecimento da educação infantil, quer pela família, quer pela escola.

Vejamos o caso de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), uma doença infantil, conhecida apenas como hiperatividade. É uma doença que causa uma agitação acima do normal, transtornos de aprendizagem, dificuldade de concentração e instabilidade emocional, entre outros sintomas. Os psicólogos a definem como doença neuropsiquiátrica, caracterizada, essencialmente, por distração, inquietação e baixa tolerância à frustração, que, geralmente, vem associada à impulsividade comportamental.

É comum essas crianças apresentarem dificuldades de atenção, percepção, planejamento e organização, além de falhas de comportamento. Essas dificuldades podem causar prejuízos na formulação de sentenças, tarefas que envolvem memória seqüencial, percepção viso-especial, síntese de idéias e coordenação motora.

O psiquiatra Ênio Roberto de Andrade diz que a criança se distrai com tudo, não consegue avaliar o que é mais importante, porque o cérebro trabalha mais lentamente. Ele é o fundador do Ambulatório para TDAH do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), primeiro ambulatório especializado no Brasil. Nesse serviço, a criança é encaminhada para tratamento, que, geralmente, envolve a administração de medicamentos estimulantes, para que o cérebro volte à atividade normal. “Dependendo do caso, também é indicada terapia individual, familiar ou acompanhamento de um fonoaudiólogo”.

Segundo Dr. Ênio, o TDAH atinge de 3 a 5% da população mundial, de acordo com os estudos internacionais. Acomete, porém, mais em meninos que em meninas. No ambulatório do HC, são nove casos em meninos, contra uma ocorrência no sexo feminino (out. de 2004). Por definição, esse distúrbio aparece por volta dos 7 anos e afeta pelo menos duas outras áreas da vida infantil escolar, como o convívio social e familiar.

Hiperatividade não é uma doença associada à deficiência na inteligência. Há casos de hiperativos com inteligência bem desenvolvida. A principal causa apontada por especialistas é o fator genético. Geralmente, o pai da criança hiperativa também já apresentou a doença. Raramente, o TDAH pode estar relacionado a traumas no sistema nervoso, devido a algum acidente em que a criança tenha sofrido um choque na cabeça. Tabagismo e álcool durante a gravidez aumentam o risco, de duas ou três vezes, de a criança, já propensa, adquirir a doença, diz o Dr. Ênio.

A necessidade de medicamentos deve ser avaliada individualmente por profissionais credenciados, para não produzir efeitos negativos, quando o humor da criança pode vacilar da euforia alegre para um estado de muita tristeza, beirando à depressão. A gravidade também se acentua em escolas despreparadas para lidar com o problema. Escolas que, por desconhecer a doença e a melhor forma de educar essa criança, através de broncas e constantes observações pejorativas, acabam por provocar queda na sua auto-estima.

A escola com atendimento às crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) deve ter uma metodologia especial, professores preparados para lidar com o quadro hiperativo.

Há casos de descontrole emocional da criança, que embora, às vezes, beira ao patológico, geralmente não têm nada a ver com anomalias de comportamento. É o caso da birra, crianças que se jogam no chão aos berros por querer algo que a mãe está negando, seja em casa, numa loja de brinquedos ou na rua. Provoca constrangimentos aos pais, quando a criança grita cada vez mais alto, chora, soluça.

Em muitas situações, a birra é comum e inevitável. Logicamente que há motivações, graus e dimensões diferentes, mas, normalmente, faz parte do processo de desenvolvimento da criança. Dizem os psicólogos que é errado seguir para o lado da avaliação moral, acusando a criança de ser mal-educada. Estamos no domínio do sofrimento psicológico. Não mimar muito a criança, ponderar, dialogar em diversas situações são aconselháveis. A birra expressa o sentimento de impotência perante o adulto, é conseqüência da intolerância. Através da birra é possível avaliar a capacidade da criança para tolerar a contrariedade, até que ponto ela sabe lidar com as frustrações. Quando ajudada a resolver o sentimento frustrante, a birra passa.

A psicologia fala nos primeiros desafios à autoridade, aos 18 meses. Nesse período, a criança é totalmente egocêntrica, não sabe dividir seus pertences, nem seu espaço com ninguém. Não deve ser forçada a dividir, porque ainda ela não entende. É momento para se começar a apresentar alternativas, como trocar um brinquedo por outro, fazer um desenho, ao invés de jogar, mas de uma maneira que não pareça uma substituição. Com um ano e meio, a capacidade de concentração da criança é muito pequena. Diante da birra, não adianta forçar ou colocá-la de castigo, porque ela não entende. O melhor a fazer é explicar o que se faz, o que não se faz e dar o porquê.

Aos dois anos, a criança já entende o que o adulto lhe diz e aos três anos já sabe distinguir o certo do errado. Mas, se a birra continuar, dos três aos cinco anos as estratégias das crianças, para enfrentar os adultos, são intensificadas. Diante da contrariedade, crianças explodem e chegam a bater nos adultos. Tornam-se temperamentais e descontrolam os pais.

Os pais ao ceder fortalecem, na criança, a capacidade da manipulação, afastando-a da capacidade de aceitação, de equilíbrio. A birra pode traduzir situações delicadas que devem ser encaradas com naturalidade e ponderação, ensinando a criança a lidar com o sentimento de frustração.

A hiperatividade e a birra são dois aspectos importantes a serem considerados no desenvolvimento da criança pela Educação Infantil.

O ANALFABETISMO RONDANDO A POLÍTICA

Izabel Sadalla Grispino *

Será que está havendo o despertar de uma nova aurora para o Brasil? Já sentimos um pipocar de consciência sobre as ramificações que exerce a educação em todos os setores da economia do País.

Passo a passo, medidas vêm surgindo na reabilitação da educação, na moralização de padrões de conhecimento para o exercício de cargos políticos. O Ministério Público Eleitoral (MPE) do Ceará, pressupondo a existência de candidatos analfabetos a prefeito, vice-prefeito e vereador, pediu à justiça a impugnação do registro de 826 candidatos, sendo mais da metade pela condição de analfabetos. Esses candidatos deveriam fazer um teste simples de conhecimento de leitura e escrita ou contestar o Ministério Público Eleitoral, apresentando um documento que comprovasse a escolaridade mínima exigida, qual seja o término do ensino fundamental. Na falta desse comprovante, haveria, ainda, a opção de redigir, de próprio punho, uma declaração provando que sabe escrever.

Tem ocorrido o absurdo da declaração do candidato não ser redigida por ele mesmo, quando a declaração não é feita na presença dos juízes eleitorais. Por isso, a importância do teste. O MPE apóia-se no artigo 14 da Constituição, que diz que analfabetos podem votar, mas não são elegíveis. O prazo para recorrer ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) vai até 4 de setembro e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 28 do mesmo mês.

Para as provas, não há um padrão a ser seguido. Elas são aplicadas em sessão pública e agendadas pelos juízes dos municípios. Pela jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o teste deve ser compatível com o ambiente cultural, social e econômico do município. Testes para comprovar se os candidatos sabem ler e escrever vêm sendo aplicados em diversos Estados, como Alagoas, Bahia, São Paulo, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul, Piauí e Minas Gerais.

Em Aracati, no Ceará, a juíza eleitoral aplicou a prova em 18 dos 20 candidatos convocados. Eles tiveram que ler um trecho do livro infantil “O menino mágico”, de Rachel de Queirós. Dos 18 candidatos, 3 não conseguiram fazer a prova, alegando estar nervosos, e a juíza marcou-lhes outra data para um novo teste.

Em São Gabriel do Oeste (MS), 22 candidatos fizeram uma prova de uma hora, para escrever 20 palavras de um ditado, fazer as 4 operações matemáticas e interpretar um texto simples. Apenas metade foi aprovada, 11 reprovados, tendo alguns tirado nota zero. No ditado das palavras, houve erros chocantes como “demogracia (democracia) “senvergonhise” (sem-vergonhice). Na interpretação de texto, respostas sem nenhuma ligação com o texto e nas operações matemáticas, o absurdo de respostas como esta: 1.218+29 = 1.546.

A decisão de aplicar o teste dos juízes eleitorais tem amparo na resolução 21.606 do TSE, mas tem criado polêmica entre partidos, candidatos e especialistas em legislação. Argumentam ser o teste eletista, ridiculariza e humilha o candidato, ao invés de questionar o analfabetismo dos candidatos. Por que não apelar ao candidato que se prepare, que se alfabetize, antes de se candidatar? Como pode um prefeito, um vereador, exercer funções administrativas, legislativas, praticar uma infinidade de atos, sem saber o que assina? Como governar, legislar, representar a comunidade, sem um conhecimento mínimo de leitura e escrita, para exercer a função pública?

Há muito já se sabia da existência de políticos analfabetos. O diagnóstico era contundente, mas o problema parecia não apresentar solução, até que, finalmente, surgiu uma frente corajosa e passou a encarar a questão.

O povo se mira em seus governantes. Quem está no poder deve dar exemplo, estudar, aperfeiçoar-se, estimulando tal comportamento. “Educa-se bem mais pelo exemplo que pelas palavras”, já nos ensinava Rui Barbosa. O metalúrgico Vicentinho de Paula, prevendo a possibilidade de ascensão em cargos públicos, passou a abraçar os estudos, fazendo cursos supletivos, prestando vestibular e ingressando em uma universidade.

“Uma nação se faz de livros e de homens”, nos dizia Monteiro Lobato. Ao enunciar a frase, colocou livro antes de homem: primeiro estudar, estruturar-se no conhecimento, para depois enfrentar o cargo pretendido. Afinal, como atingir os objetivos, essenciais que sejam, sem desenvoltura lingüística? Sem a capacidade de interpretar atos, formular projetos, elaborar leis, tomar decisões importantes?

Esse teste para políticos analfabetos deve servir de alerta à Nação, afinal num País tão desigual, como o nosso, a baixa escolaridade da população só faz diminuir o nível de desenvolvimento social.O espelho deve refletir cultura e não ignorância. Só a educação é capaz de gerar novos e promissores avanços sociais.

Pelos poucos exemplos citados, das respostas ao teste, podemos constar a validade da existência dos mesmos, para candidatos que não comprovem a escolaridade mínima exigida. Acorda Brasil, comece a pôr os pingos nos “is”, a fazer os inconseqüentes se tocarem, se prepararem antes de aspirar funções de comando, de grande responsabilidade e de difícil mensuração das repercussões negativas. Esses políticos representarão a coletividade, responderão pelo patrimônio público, numa função altamente importante.

O espírito crítico, que nutre a sociedade, não pode ser anulado, tragado pela irresponsabilidade de alguns. Hoje, o sonho do brasileiro é exportar conhecimento, não apenas produtos in natura e de matéria-prima. Para tanto a educação é decisiva, a plenitude do desenvolvimento social e econômico só virá com ela. Os políticos devem dar exemplo!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2004)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

Leia Mais

A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

Leia Mais

A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

Leia Mais


Reconhecimento

Premiado pelo Buscaki

buscaki

I.S.G

izabel1

Colaboração

Slideshow Image 1

Novos Jogos

eduespc

Vídeos

videos

Visitante Número