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Artigos Educacionais

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O PERFIL DA ADOLESCÊNCIA BRASILEIRA

Izabel Sadalla Grispino *

O relatório divulgado em 11 de dezembro de 2002 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostra mais de um terço de adolescentes brasileiros comprometido por seus níveis de escolaridade e renda. Num total de 21,2 milhões, cerca de 8 milhões de jovens entre 12 e 19 anos incompletos pertencem a famílias com renda per capita menor que meio salário mínimo e têm, pelo menos, 3 anos de defasagem em relação à escolaridade correspondente à sua faixa etária.

A redução, nos últimos anos, da mortalidade infantil perde sua expressividade perante as altas taxas de mortalidade entre adolescentes. As crianças que se salvam ao nascer correm o risco de morrer ao entrar na adolescência ou de se tornar um adulto excluído do mundo de trabalho ou um candidato a bolsas de assistência social do governo.

A baixa escolaridade e a falta de políticas públicas integradas para a juventude têm provocado um quadro social deplorável. A marginalização desses jovens, analisa o Fundo, provém de diferentes fatores. Em ordem decrescente de valores, surge primeiro o analfabetismo, que atinge 1,3 milhão de jovens, seguido do abandono escolar – 3,3 milhões não freqüentam a escola – e do trabalho infantil – 1,9 milhão entre 10 e 14 anos trabalham e, na faixa dos 15 aos 17 anos, 3,2 milhões. Segundo o relatório da Unicef, a maioria realiza trabalhos precários, mal remunerados e cumpre jornada excessiva, o que dificulta sua ida à escola.

Aliadas a esses fatores, há ainda a considerar a baixa qualidade de ensino recebida, as diferenças regionais e diferenças de raças. Esses jovens, sem uma direção a seguir, acabam descambando para a violência, para o uso das drogas. O alto índice de gravidez precoce, revelado no relatório, reproduz o ciclo de exclusão: baixa renda, escolaridade precária e inserção precoce no mercado de trabalho.

Para a Unicef, nosso País, que tem a marca de tantas desigualdades, enfrenta o grande desafio da criação de um plano nacional e articulado para o adolescente. “Não existem só desigualdades regionais. Também dentro dos municípios há diferenças nas regiões periféricas e entre zona rural e urbana. Por isso, defendemos a necessidade de uma política nacional e não de políticas setoriais ou localizadas”, diz o oficial da Unicef Sílvio Kaloustian.

O analfabetismo de adolescentes foi o principal índice usado para classificar os Estados e municípios, no relatório da Unicef. A razão está em que se um adolescente não sabe ler ou escrever não tem lugar no mundo do trabalho. Em Alagoas, o índice é de 18%, em Santa Cataria, de 1,3%. Essa disparidade reflete tanto a situação econômica quanto a educacional e de atitude. “O desafio, então, não é olhar para a cidade ou para o campo, centro ou periferia, Sul ou Norte, mas verificar se todas as crianças estão tendo oportunidades”.

Por causa da diversidade, o relatório fala em adolescências brasileiras. “Por um lado, encontramos no Brasil o fenômeno da adolescência prolongada, comum nas classes média e alta, em que a condição do adolescente tende a se prolongar em função das expectativas de uma formação cada vez mais especializada e exigente. Temos, igualmente, um significativo contingente de adolescentes que, pela pobreza de suas famílias, fica impedido de viver essa etapa preparatória, sendo obrigado a uma inserção precoce no mercado de trabalho, formal ou informalmente”, explica o documento.

O Censo 2000 do IBGE, publicado em 20/12/2002, mostra que, embora o País tenha alcançado a universalização do ensino fundamental, com 94,5% de crianças de 7 a 14 anos freqüentando a escola, não conseguiu acabar com a defasagem escolar. Os dados do Censo revelam que, de cada 10 alunos na faixa dos 13 anos, 6 não cursaram a série que deveriam; aos 14 anos, já eram 7.

No grupo de pessoas entre 10 e 14 anos, 1 milhão não sabe ler, nem escrever. A defasagem varia de acordo com o tamanho da cidade. É maior nos pequenos municípios. Um adolescente de 14 anos que mora em uma cidade com até 20 mil habitantes tem mais chance de não estar no ano correto do que o que mora em uma cidade grande. Nas pequenas, 78,8% das crianças  nessa faixa estão atrasadas, ante 63% nos grandes centros. A diferença entre rede pública e privada é grande. Nas escolas públicas, 74% dos alunos de 14 anos não freqüentavam a série que deveriam em 2000. Nas particulares, a porcentagem é de 43%.

O atraso na escola é um sério problema na educação, na vida pessoal e na sociedade. Desajusta-se a personalidade, trazendo desencontro nas realizações. Nessas condições, o normal é o aluno desanimar-se e desistir dos estudos, candidatando-se à marginalidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2003)

A GESTÃO ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A gestão escolar vem, cada vez mais, se ressaltando dentro da organização da escola. A qualidade da gestão tem respondido pelo bom desempenho dos alunos.

Economistas de renome, como Naércio Menezes Filho, da USP e do Ibmec, cruzando os dados dos resultados do último exame do Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) e da Prova Brasil, constataram que alunos tiveram o mesmo desempenho, apesar da expressiva diferença na quantidade de recursos destinados ao setor educacional entre os municípios analisados.

Muitos municípios, por terem uma gestão eficiente, mesmo gastando pouco, obtiveram mais retorno no investimento dado à educação que municípios que gastaram mais, tendo, porém, escolas mal geridas. Conclui-se, assim, que o desempenho escolar não é determinado apenas pelo orçamento, mas, principalmente, pela eficiência na administração das escolas. Conclui-se da necessidade de uma profissionalização da gestão, com cobranças de resultados. De um gerenciamento, que acompanhe e monitore o processo educacional, levando à elaboração, pela unidade escolar, de projetos que definam o que os alunos devem aprender.

Pesquisadores educacionais pronunciam-se por uma definitiva profissionalização na gestão escolar para se chegar a uma necessária revolução da educação Querem passar, entre os educadores, a idéia de que a educação é um serviço e que seus representantes devem prestar contas de seus resultados.

Reforçam o conceito de que um dos graves problemas da educação é a falta de gestão. Com isso, chamam a atenção da gestão escolar obtida na base da meritocracia e nunca pela indicação de partidos políticos, de lideranças comunitárias, ou de sindicatos, como acontece em muitos municípios.

A função de gestar deve recair, necessariamente, em profissionais capacitados. A qualidade da gestão escolar tem sido responsável pela melhora na apresentação de projetos escolares, na elaboração de plano de metas.

Uma gestão compartilhada entre escolas e secretarias de educação é capaz de refletir mudanças significativas no resultado da educação. Cada escola, dentro de sua autonomia, elabora seu projeto, definindo o que os alunos devem aprender. Não se trata mais de conduzir o ensino, seguindo apenas o livro didático e ensinar o que o professor acha que deve ser ensinado. É apoiar-se na necessidade do grupo-classe e conduzir a aprendizagem estabelecendo metas e ações.

Toda mudança na escola deve vir acompanhada de opiniões dos pais dos alunos, deve, com eles, ser discutida e concluída. A importância da participação da comunidade, na definição dos rumos da escola, é um aspecto bastante considerado na moderna gestão escolar. Outros aspectos, como o uso racional dos recursos e a melhora no desempenho do aluno, fazem parte de um plano, onde entram conselhos gestores das escolas.

Tenta-se, por diversos caminhos, desvendar o fracasso do sistema educacional, na mira de mudanças.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em maio/2007)

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

Na semana retrasada abordei, no artigo “Atividades extraclasses e extra-escolares”, tópicos gerais do processo de avaliação da aprendizagem. Foi estimulador o número de pedidos para que eu voltasse ao assunto, com mais especificações.

Em setembro do ano passado, ministrei um curso, para professores e especialistas da educação, sobre “Avaliação da Aprendizagem”. Ao final de cada encontro, eu levantava, com o grupo, os aspectos importantes da avaliação, estudados no dia. Fazia uma espécie de síntese dos assuntos tratados. No término do curso, reuni as conclusões, ordenei-as, coloquei-as, didaticamente, em forma de versos, uma maneira de apresentar o tema em formato prazeroso e que foi acolhido com muito agrado pelos participantes.

Enfoquei aspectos importantes do processo de avaliação da aprendizagem, subdividindo-o em 4 itens: Conceituação, Aspectos do desenvolvimento, Momentos da avaliação e Medidas educativas. Hoje, publico, para os prezados leitores, o primeiro item, deixando, em seqüência, os demais para as próximas semanas.

 

C O N C E I T U A Ç Ã O


Setembro, mês de noventa e nove,                      Sou processo de investigação,
Na escola Estadual “Professor Barros”,            Currículo ajustado ao momento,
Realiza-se um curso e se remove                        Mais formação que mensuração,
Nobre tema enlaçado em ferros.                          Com o sócio-cultural no implemento.

É a avaliação da aprendizagem,                            Entram em jogo, neste processo,
Uma teoria muito cortejada,                                   Aquele que ensina e o que aprende,
Rica em conceito e humana abordagem,           Conjunto de relações impresso,
Mas, sofrivelmente realizada!                                Onde a família, também, se empreende.

“Hoje sou centro de sua atenção,                        Ao elaborar seu planejamento,
Digo-me injustiçada, aleijada,                                Não pense apenas no aluno médio,
Clamo-lhe à reta compreensão,                           Expanda a visão, o sentimento,
Para não continuar desvirtuada.                          A escola pro fraco é seu remédio.

Põem-me roupagem autoritária,                          Mantenha expectativa melhor,
Colocam-me rédeas de feitor,                              Em relação ao aluno pobre,
Usam-me em medida arbitrária,                          Que alcançará resultado maior,
Postulado de mau promotor.                                Se o mestre de esperança lhe cobre.

Sou aversa a essas insígnias,                             Um programa refletindo a escola,
Em vez de temor quero harmonia,                      Com objetivo em adequação,            
Medo, pavor, são como ignomínias,                   O aluno aprende, não pensa em cola,
Crescer é minha filosofia.                                     Na auto-estima verá premiação.

Promover o sucesso é meu lema,                      Programa de avaliação montado,
Fazer o ser se desenvolver,                                  Por professores da mesma escola,
Se ver, conhecer-se a si mesmo,                       Em entendimento unificado,
São fins que não posso suspender.                  Ganha consistência, não atola.”

 

* Supervisora de ensino aposentada      
(Publicado em agosto/2000)

O ENSINO RELIGIOSO

Izabel Sadalla Grispino *

O momento conturbado, desencontrado, violento em que vive a sociedade, está referendando o retorno ao ensino religioso nas escolas, compreendido como reflexão sobre o mal, sobre a ética, valores e princípios de cidadania, sobre a relação do homem com Deus, sobre a valorização da vida.

O Conselho Estadual de Educação, pela deliberação CEE-16, de 27 de julho de 2001, regulamentou as aulas de religião, no ensino fundamental, das escolas estaduais de São Paulo, com seu início a partir de 2002. É um ensino religioso não confessional. Contudo, prevê aulas extracurriculares de religião confessional, dadas por voluntários das diferentes entidades religiosas, a partir da opção da família do aluno.

Segundo a Secretaria Estadual da Educação, professores de 1.ª a 4.ª série e docentes de história, filosofia e ciências sociais serão capacitados para essas aulas. Nas 1.ªs séries do ensino fundamental, a religião fará parte do conteúdo geral. Só na 7.ª e 8.ª séries, haverá uma aula específica por semana. Contudo, seu ensino iniciou-se com as 8.ªs séries.

Este ensino abrangerá a história das religiões, sua importância nas culturas dos povos, respeitando o pluralismo cultural e religioso, estimulando a prática do diálogo, levando a uma convivência de tolerância e de compreensão.

A Constituição brasileira de 1988, reconhecendo a importância de religião na vida das pessoas, estabelece, no parágrafo 1.º do artigo 210, a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.

A Lei n.º 9.475, de 1997, acrescentou: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurando o respeito à diversidade cultural, religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”.

Todos só têm a ganhar com a inclusão do ensino religioso no currículo escolar. Ganha o aluno, a família, a sociedade, o mundo, porque esse ensino é aquele que alcança a alma, que orienta à prática dos valores morais e espirituais, que expande o amor, com vistas à solidariedade, ao compromisso ético, à compreensão do homem e ao autoconhecimento.

A sociedade, marcada por desigualdades de condições referentes a bens essenciais, a juventude desassistida, buscando sentido para a própria vida, encontrarão, nos projetos educacionais, que visam o bem comum, que visam a conscientização da responsabilidade pessoal e social, amparo e vôos de esperança.

O ensino religioso passará a ter orientação de especialistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para o ano de 2003, as escolas contarão com livros didáticos e vídeos para serem usados em salas de aula, elaborados por professores e pesquisadores da Unicamp. A Unicamp programa, também, realizar cursos de capacitação e acompanhamento pedagógico aos professores, promovendo encontros com assistentes técnicos, pedagógicos e supervisores de ensino.

As orientações apoiam-se na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que estabelece um ensino supraconfessional, quando trata todas as religiões da mesma forma, distanciando-se do campo doutrinário. A visão pessoal do professor não deve contar e sim a visão multirreligiosa. Em muitos Estados, criam-se conselhos ecumênicos para reger o ensino, evitando doutrinas religiosas, das várias denominações.

O objetivo maior desse ensino é abordar valores universais. O artigo 33 da LDB, alterado em 1997, diz que o ensino religioso deve ter um conteúdo de caráter universal, sem privilegiar nenhuma religião. Os conteúdos das disciplinas devem promover o entendimento e a vivência dos valores universais, éticos, morais, religiosos e de cidadania.

Segundo informes, o projeto da Unicamp é fiel a esta orientação, não se resvalando para “chavões moralistas ou formação doutrinária”. Esse ensino deve passar as histórias das religiões, deixar entrever elementos semelhantes entre elas, numa análise enriquecedora, porém, imparcial. Os alunos vão percebendo as diversas convicções, as diferenças entre elas, alargando a compreensão da própria crença. Aprendem a respeitar e a valorizar as outras religiões, entendendo que, pela convicção, para cada pessoa a sua religião é a correta. O importante é fortalecer a alma, melhorar a formação do ser humano e ensinar a convivência pacífica. O importante é o aperfeiçoamento pessoal levando ao aperfeiçoamento social. É compreender que os novos tempos não surgem na virada dos séculos, dos milênios, mas no coração que se converte, que muda de rumo e descobre que ele e o próximo têm destino comum, morada comum, vivendo num mundo divino. A procura incessante do homem por Deus sinaliza a busca de um sentido maior para a existência.

A dimensão religiosa, no ser humano, é surpreendente, percorre todos os ângulos da alma, forma unidade no bem, juntando a moral, a justiça, o amor. O brasileiro, de índole religiosa, baterá às portas do reino da paz e espalhará, entre os homens, a virtuosa espiritualidade, com vistas à reversão dessa sociedade violenta.

Que a escola saiba como assentar esse ensino, no respeito à liberdade religiosa de cada estudante, extraindo das religiões sua essência maior, seu traço de união, que é Deus, e os seus ensinamentos. Ensinamentos que virão a ser, assim o esperamos, o alicerce de toda sociedade, eticamente constituída.

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

ENSINO MÉDIO EM FINS-DE-SEMANA

Izabel Sadalla Grispino *

O ensino médio passa por um processo alternativo. Agora, o aluno desse ensino poderá cursá-lo em fins-de-semana, em São Paulo. Jovens e adultos – de 18 a 29 anos – poderão, pelo projeto Escola da Juventude, lançado em fevereiro do corrente ano, cursar o ensino médio em até um ano e meio. Segundo informes da Secretaria da Educação, o curso terá uma dinâmica diferente dos cursos tradicionais de educação de jovens e adultos. Pretende-se usar novas tecnologias para acelerar o processo de aprendizagem, laboratórios de informática, salas de vídeos e um portal na internet.

Para participar, o aluno deve ter concluído o ensino fundamental e efetuar matrícula diretamente nas escolas participantes do projeto. Inicialmente, a Escola da Juventude atenderá 300 escolas estaduais da capital e alguns municípios da grande São Paulo e do interior do Estado, num total de 30 mil vagas, sendo 100 por unidade.

O curso de ensino médio da Escola da Juventude está dividido em três tipos de atividades: curriculares presenciais, organizados em 4 módulos, sendo um optativo no sábado pela manhã e um obrigatório à tarde. No domingo, a situação inverte-se. Haverá no mínimo uma hora e meia por final de semana de atividades de inclusão digital, e atividades individuais durante a semana, sugeridas em classe e constantes dos materiais impressos.

Na sala de aula, o aluno contará com um orientador de estudos e na sala ambiente de informática, com um monitor para auxiliá-lo a tirar suas dúvidas. O curso desenvolver-se-á em módulos e o aluno terá flexibilidade para freqüentá-lo segundo sua disponibilidade de tempo. A avaliação será contínua, havendo provas freqüentes e, ao final do semestre, exame para a conclusão do módulo. A certificação será dada após a aprovação em todos os módulos, depois de 18 meses de atividades.

A programação parece bem pensada, bem organizada, agora é torcer para que esse curso abreviado de ensino médio, dado em fins-de-semana, não venha frustrar quanto à qualidade, fazendo o ensino decair ainda mais. As escolas devem passar avante a informação, deixando os alunos a par dessa recente inovação.

Um ensino médio com carga horária assim reduzida é prato de balança que oscila entre duas perspectivas. Permite ao aluno avançar em anos de escolaridade, ultrapassando os graus de ensino, engrossando as estatísticas, mas pode pôr em cheque a meta qualitativa. O ensino médio de um ano e meio favorece, é verdade, o aluno continuar na escola, afastando-o da rua, da ociosidade. Ajuda-o a não interromper o processo de estudo e a se afastar da violência.

Segundo a Unicef, o aumento da violência é proporcional à queda da escolaridade do adolescente, considerando que a sua cidadania depende da conciliação da educação formal com cursos profissionalizantes. Aponta que apenas 33% de jovens brasileiros, com idade entre 15 e 17 anos, freqüentam o ensino médio. Dentre as crianças que trabalham, a taxa de analfabetismo é de 20,1%, contra 7,6% entre as que não trabalham. Conclui que o problema da violência requer ação efetiva de toda sociedade e que sua solução passa necessariamente pela melhoria da escolaridade e profissionalização dos jovens, dentre outras medidas coerentes com aplicações socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Estatísticas comprovam que no Brasil o número de adolescentes que morrem violentamente supera o número de mortes nos países em guerra, como no Iraque, onde se calcula que 150 mil civis morreram na invasão movida pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Entre nós, mais de 24 mil jovens de 15 a 19 anos tiveram morte violenta em 2004, marcando um sangrento recorde mundial. Revelam as pesquisas que os adolescentes são, em geral, mais vítimas que autores da violência que os destrói.

Cerca de 68% das mortes de adolescentes no Brasil, com idade entre 15 e 19 anos, são provocadas por causas externas, como homicídios, acidentes de trânsito e suicídios. Perto de 10% de todos os crimes e delitos praticados no País são cometidos por adolescentes, o que causa séria preocupação.

A juventude está morrendo e está matando, e há fortes convicções de que esse quadro se modificaria se mais jovens estivessem na escola. Sob esse prisma, o ensino médio em fins-de-semana, conjugando estudo e trabalho, poderá ajudar, se conduzido por professores habilitados e interessados no processo, porque o mercado de trabalho considera prioritariamente a qualidade e não a quantidade de anos passados pelo aluno na escola.

Exigências do mercado levam as empresas de pequeno e médio porte a contratar pessoal qualificado na mira da adoção do selo de boas práticas trabalhistas, acompanhando as grandes empresas. Atuar com qualidade favorece o diferencial competitivo da empresa como foco na responsabilidade social. As pequenas empresas são as que têm até 99 empregados, no caso da indústria, e até 49, no caso de comércio e serviços. As de médio porte têm até 499 trabalhadores na indústria e 99 no comércio e serviços. O selo SA 8000 se tornou um termômetro da importância que as práticas internas empresariais têm em uma economia competitiva. Sua importância é tal que será como avalista para o futuro. Vai excluir empresas do mercado. O selo SA 8000 cria um ambiente ético que vai além da empresa e chega à sociedade, vai além das exigências trabalhistas, dando condições dignas de trabalho a seus empregados.

A SA 8000 é um conjunto de padrões que asseguram melhorias nas condições de trabalho nas empresas, com base nos preceitos da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para obter a certificação, que tem a validade de 3 anos, a empresa deve estar em dia com a legislação trabalhista, banir os trabalhos escravo e infantil e assegurar o direito à associação sindical e salários justos.

Para fazer parte de uma empresa bem organizada, de porte e sucesso, para receber os benefícios da SA 8000, o pretendente deve ter freqüentado uma escola de qualidade, adquirido uma boa formação acadêmica e profissional. Caso contrário, não passará nos testes de avaliação.

Um ensino médio de bom nível é porta aberta para uma boa colocação no mercado de trabalho.  Os relatos acima são questões para se pensar.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em maio/2005)

A POBREZA E O ENSINO SUPERIOR

Izabel Sadalla Grispino *

A realidade brasileira é marcada por forte desigualdade social e um caminho a trilhar, nessa direção, é a educação. O acesso ao 3.º grau é uma das formas mais seguras de ascensão social no Brasil. A população carente começa a entender o processo, a necessidade de se cursar uma universidade para se afirmar socialmente.

 

UM PANORAMA DO ENSINO OFICIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A educadora Jane Wreford, da Comissão de Auditoria da Inglaterra, a pedido do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, passou um mês visitando escolas públicas na grande São Paulo, em 2002. Observou aspectos físicos, a organização do sistema escolar e os trabalhos docente e administrativo.

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) do Ministério da Educação não comprova progressos no aprendizado desde 1991. De cada 100 estudantes que iniciam o ensino fundamental, somente 59 o concluem. Todas as crianças podem freqüentar o ensino fundamental até os 16 anos e, hoje, a maioria o faz. Contudo, o desafio continua pela obtenção de um ensino de qualidade.

Jane apresentou um relato de suas observações, divulgado pela mídia, que merece, nos seus pontos-chave,  ser conhecido pelos profissionais da educação. Notou, por exemplo, constantes faltas dos professores, refletindo no interesse dos alunos pelos estudos: “Como os alunos poderão estar convencidos de que sua educação é importante se são tratados com tanta indiferença?” Notou falta de foco individual no aluno, resultado, em grande parte, da pesada carga horária dos professores, do número elevado de alunos por classe e do baixo salário que os levava a trabalhar em três períodos diários, em escolas diferentes.

“Há necessidade urgente de aumentar o compromisso dos professores com seus alunos e escolas. Vínculo difícil dentro da gigantesca máquina estadual. Um grande passo poderia ser a autonomia das escolas para concentrar o seu corpo docente.

Jane conclama a um esforço para melhorar a formação do professor para que se alcance um ensino de melhor nível e possa evitar a evasão e a repetência dos alunos. “Está documentado que os alunos que repetem o ano têm maior probabilidade de parar seus estudos”. Notou que o sistema de ciclos, na progressão continuada, era mencionado por diretores e professores de forma pejorativa, como promoção automática. Notou uma avaliação da aprendizagem falha, desconexa. Uma avaliação feita, em grande parte, informalmente em sala de aula e testes no fim do período. “Ela carece de análise comparativa de dados. A maioria dos professores não costuma prestar contas do rendimento de seus alunos”.

Jane dá uma visão de como é o ensino na Inglaterra. “Lá os alunos também são promovidos automaticamente, mas os professores se preparam para dar aula a um grupo heterogêneo. Professores de alunos abaixo de 11 anos podem agrupá-los dentro da sala por nível de habilidade, pelo menos numa parte do dia. Alunos com maiores dificuldades recebem atenção especial fora da sala de aula. A partir da 5.ª série, as escolas são maiores e os alunos encaminhados a grupos paralelos para as matérias básicas, às vezes com três níveis de capacidade, segundo o tamanho da escola. Porém, todos os professores devem ensinar para atingir vários níveis de habilidade”. Conclui Jane que na política da Secretaria da Educação falta essa abordagem para reduzir a repetição.

Quanto à aprendizagem, pareceu a Jane que os professores têm formação razoavelmente adequada na matéria específica, mas, pouco ou nenhum treinamento prático em didática. Os professores simplesmente não sabem ensinar de maneira eficiente. As aulas são como palestras. É raro haver planejamento de aulas, com a introdução de um tópico e discussão em classe, seguidas em atividades em pequenos grupos ou pesquisa individual e depois, por um debate final, para fixar as pesquisas prontas. A maioria dos professores não checa o progresso dos alunos, tampouco passa atividades de escrita. Dentre as aulas de ensino médio que observamos, menos da metade dos alunos estava de fato acompanhando a aula. O ensino da leitura na 1.ª série é crítico, como prova o analfabetismo funcional documentado entre alunos que completam a 4.ª série... A compreensão de texto pelo aluno fica muito atrás da sua habilidade para decodificar sons”.

Outra séria anotação é de que os próprios professores não dão o devido valor aos livros e outros materiais impressos, como mapas, gráficos, globo, ou meios de comunicação. Além da insuficiência de materiais didáticos, notou pouco interesse dos professores em utilizá-los. As bibliotecas estavam quase sempre trancadas, raramente as escolas possuíam laboratórios com pias ou recursos específicos para aulas de ciências. No ensino fundamental, não havia, nas salas de aula, livros de leitura para diferentes graus de habilidade, isto é, com vocabulário adequado à habilidade de leitura do aluno, nem mesmo simples livros de história.

Quando professores, de qualquer série, escreviam as perguntas na lousa, os alunos copiavam e achavam que a tarefa estava completa. O aproveitamento do aluno acaba sendo insatisfatório e no fim do ano letivo é promovido mesmo que não tenha alcançado um rendimento mínimo.

Junto aos aspectos negativos, a pesquisadora do Instituto Braudel diz ter encontrado, também, professores devotados, com vontade de crescer, diretores preocupados com a segurança da escola, enfrentando grandes desafios no compromisso de melhorar o ensino. Ela perguntou, em cada uma das escolas visitadas, quais seriam os três desejos dos profissionais, com relação ao ensino  público. Baseada nas respostas, Jane Wreford elaborou cinco recomendações: 1.ª) Desenvolver melhores métodos de ensino para professores, com demonstração em vídeo e pessoalmente, nas escolas; 2.ª) Melhorar os métodos para estimular o hábito da leitura; 3.ª) Tratar fatores que conduzem à falta de orgulho profissional e aos níveis alarmantes de ausências de professores: oportunidades para avanço na carreira, monitoramento e avaliação das práticas de ensino, revisão do sistema de nomeação dos profissionais para evitar a rotatividade excessiva; 4.ª) Desenvolver novas maneiras de abordar a segurança escolar; e 5.ª) Treinar supervisores escolares para ajudar a escolas a fazerem  autodiagnóstico  e  promoverem  o auto-aperfeiçoamento e separar a supervisão da administração escolar.

Não faltam subsídios esclarecedores sobre o decadente ensino no Brasil; estudos que mostram a nossa triste realidade educacional. O que faltam são conscientização e mão na massa, por quem de direito!.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em março/2004)

A QUANTAS ANDA O VESTIBULAR?

Izabel Sadalla Grispino *

O vestibular tem sido questionado ao longo de sua existência. Já passou por várias modificações e, na presente data, a Fuvest – o maior vestibular do País – acaba com as questões divididas por disciplina. Quer medir os conhecimentos gerais do aluno.

O vestibular vem se aproximando do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),  uma prova nacional, gratuita, anual, interdisciplinar, realizada pelo Ministério da Educação, aos alunos do 3.º ano, em que cobra habilidades e competências e não conteúdo.

Além do fator psicológico que envolve o aluno, deixando-o ansioso, tendo que resolver seu futuro por uma única prova, o vestibular é focado no conhecimento acumulado, sem chances de avaliar as capacidades e o potencial do aluno. Ainda, pelo vestibular, o estudante tem que definir sua carreira, numa escolha, muitas vezes, feita sem convicção, pela inexperiência, pela falta de maturidade em virtude da pouca idade. O estudante abraça um caminho que posteriormente venha desistir.

Algumas universidades já oferecem alternativa ao vestibular. A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, foi a pioneira em aplicar um vestibular seriado, com avaliações feitas ao longo dos três anos do ensino médio. A própria Fuvest admite a possibilidade de criar vestibular seriado, onde o aluno escolheria entre as três avaliações feitas durante o ensino médio e o vestibular tradicional.

Recentemente, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) ponderou ser este ano de 2006 o último a realizar vestibular nos moldes habituais. Quer uma outra forma de seleção de seus alunos. O pensamento corrente é usar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Mudanças na estrutura do curso de graduação estão sendo estudadas pela universidade, apresentadas em um novo projeto. Haverá a criação de um ciclo básico de três anos, igual para todos os alunos, independentemente de carreira pretendida. O aluno terá liberdade para escolher as disciplinas de todas as áreas, permitindo uma abertura maior entre elas.

Dessa maneira, o aluno não ficará limitado às suas áreas, desconhecendo as demais. Os cursos ficarão mais longos. Após o ciclo básico, o aluno escolherá o seu curso, que será de mais três anos. Contudo, será admitido ao curso pretendido o aluno que tiver acumulado uma boa nota ao longo do ciclo básico. Os alunos, que não obtiveram notas suficientes para começar os cursos específicos, terão um diploma de bacharelado pelos três anos cursados.

Esse modelo de universidade já havia sido proposto pelo grande educador Anísio Teixeira, para a Universidade de Brasília (UnB), que por razões políticas não fora aceito. Nos EUA e em países da Europa, o sistema é parecido. A Universidade Federal do ABC, em Santo André, recentemente inaugurada, aplica sistema semelhante.

Esse modelo de universidade ganhou os meios educacionais. Foi bem recebido, bastante discutido. O ponto central recai sobre o projeto pedagógico dos três anos do ciclo básico. Deve ser bem equilibrado, conectado com as diversas áreas, apresentar um currículo articulado, interligado, sendo, ao mesmo tempo, específico e generalista.

A escolha das disciplinas, sua dosagem, abrangência e especificidade, é tida como chave para o sucesso desse período de ciclo básico, encaminhando o aluno, com base e visão  suficiente, para uma acertada escolha da profissão.

Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em outubro/2006)

OS DESMANDOS DA CORRUPÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Os caminhos abertos, a que proporciona a democracia, vêm conduzindo o povo a manifestações explícitas, a favor da moralização do nosso sistema nacional carcomido. A mídia esclarecida vem alertando a população para os desmandos da corrupção, para os prejuízos que ela causa ao País, empobrecendo-o.  As denúncias de corrupção, veiculadas pelos meios de comunicação, encontram forte ressonância junto à população, que começa a exigir transparência de atos e de fatos.

A conjuntura nacional vem se transformando, realinhando-se com vistas à moralização. Caminhando nessa direção, será ela, a corrupção, quem, em breve, entrará em crise, com estreitamento das possibilidades de sua ocorrência e com exigência de sua punição.

Sob forma clara ou velada, a corrupção se instala na educação, na saúde, na segurança, marca presença maciça no comércio. Ela chegou num grau extremo de aceitação e, conforme nos ensina a própria vida, os extremos tendem a chocar-se, trazendo o verso da moeda. Nesse preceito reside a grande esperança.

Ao penetrar no interior das instituições, poucas são as que se mantêm impolutas. No artigo da semana passada, abordei a desmoralização reinante nos cursos supletivos particulares a distância e os passos enérgicos tomados pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) de São Paulo, a respeito. Nem mal a decisão do Conselho saiu publicada no Diário Oficial, já se iniciavam tentativas de driblá-la.

Uma escola foi flagrada cobrando R$ 4 mil para cada nível de ensino, com certificado pronto em sete dias. Para os 1.º e 2.º graus juntos, o preço subiria para R$ 5 mil. A atendente insistia que se fechasse o negócio o mais rápido possível, porque com o passar dos dias, devido à nova regra, a coisa ficaria mais difícil. Ela, ainda, se oferecia para responder à prova. “Você só precisa assinar”.

Inteirando-se dessa situação, Arthur Fonseca Filho, presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), desabafou: “Foge até da esfera da educação, passa para a policial”. Acrescentou: “Os vendedores de diploma devem estar adulterando documentos e cadastrando os novos alunos como se tivessem sido matriculados há 90 dias”. Uma fiscalização rigorosa faz-se necessária para identificar os alunos que se matricularam antes da nova regra.

Um outro segmento educacional que começa a preocupar são os recém-criados cursos de pós-graduação, por inúmeras faculdades. Está havendo grande procura por esses cursos. Apenas o diploma de graduação não é mais suficiente para se ter, hoje, uma carreira de sucesso. No mercado competitivo, o grau de exigência vem crescendo e coloca nos cursos de pós-graduação o diferencial. A especialização abre caminho no trabalho.

Até uns anos atrás, fazer uma pós-graduação requeria passar por uma seleção em uma universidade pública ou em uma grande instituição particular. A realidade mudou. As faculdades, percebendo a correlação, passaram a manter estruturas de pós-graduação, oferecendo cursos em várias modalidades.

Está havendo uma verdadeira proliferação e já começa a suscitar dúvidas sobre a honestidade e a qualidade de ensino dos cursos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão responsável por esse nível educacional, defende uma ampla avaliação do segmento: “A expansão precisa ser acompanhada de qualidade. Está na hora de fazer um mapeamento para ver onde e como a expansão está ocorrendo para evitar um crescimento desordenado”, arrematou Arthur Roquete de Macedo, presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho.

A cada dia nos deparamos com diferentes denúncias de corrupção, nos mais diferentes setores. Presentemente, confrontamo-nos com uma produção e um comércio ilícito de cópias piratas de softwares, discos, livros e fitas de áudio e vídeo, em todo o País. O mercado de fitas de áudio estima-se ser, praticamente, pirata. O desrespeito aos direitos autorais chega a um patamar absurdo e vem prejudicando as relações comerciais do Brasil com outros países, especialmente com os Estados Unidos.

O mercado de produtos pirateados impõe barreiras comerciais, causando perdas consideráveis. As campanhas antipirataria, feitas por indústrias, têm trazido algum resultado. Mas, infelizmente, está sendo de muito difícil reprimenda; burlam-se os regulamentos, em variadas estratégias.

A desonestidade reinante nos alerta para a necessidade de uma contínua vigilância, nos mostra que postergar problemas é aumentar  a dificuldade em corrigi-los.

Para conseguirmos vencer situações lastimáveis como essas, é preciso investir-se, e muito, na educação, as escolas abordando educação politizada, educando para a cidadania, para a participação consciente dos problemas político-sociais, no engajamento do sentimento patriótico.

Foi com pesar que escrevi os versos abaixo: “Corrupção viciada”.

CORRUPÇÃO  VICIADA

Que lástima, esse nosso amado País!
Só CPIs cavando a podre raiz,
Gritante aberração e deformação
Do ideal de um povo em busca de afirmação.

Se lá em cima há muita roubalheira,
Que freio botar no batedor de carteira?
Que exemplo passar a fim de educar
E conseguir intento em moralizar?

Essa terra fértil, rica em mil produtos,
Na pilhagem embarga variados frutos,
Nunca se tem dinheiro para o social,
Saúde e educação sempre em baixo astral.

O povo indignado se revolta,
Apavorado anseia proteção, escolta,
CPI não salva, não marca confiança,
Deixa, contudo, laivos de esperança.

Sistema viciado em gatunagem
Arrasta a plebe pra triste engrenagem,
Cria cultura propícia à vil esperteza,
E sintoniza formas de safadeza.

Como sair dessa aviltante emboscada?
Como trocar sufoco por gargalhada?
-- A educação, a mudança cultural,
São saídas pra essa vergonha nacional!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

LEI DO APRENDIZ

Izabel Sadalla Grispino *

Uma salutar iniciativa é a Lei do Aprendiz, quando adolescentes de 14 a 18 anos podem ganhar treinamento técnico em uma empresa, sem deixar de estudar. O aluno torna-se um aprendiz, adquire experiência em empresas, cujo trabalho é regulado por uma lei antiga, que foi reformulada em 2000 como Lei n.º 10.097. Essa lei foi abraçada pela Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, no enfrentamento do desafio da exclusão de milhões de adolescentes. A fundação lançou em 12 de maio p.p. uma campanha publicitária para divulgar a lei e conscientizar empresas, sociedade civil, Sistema S, envolver entidades como Febraban e sindicatos, sensibilizá-los para a causa do adolescente carente.

A Lei de Aprendizagem obriga as empresas a reservarem no mínimo 5% das vagas, e no máximo 15%, para os adolescentes. Através de um contrato de trabalho, os empresários comprometem-se a matricular os aprendizes em cursos profissionalizantes do Sistema S, como Senai, Senac, Senar, Senat e Sescoop,  escolas técnicas ou ONGs registradas nos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente. Em contrapartida, os adolescentes assumem o compromisso de executar, “com zelo e diligência”, suas tarefas.

A estimativa é de que podem ser beneficiados entre 650 mil e 2 milhões de adolescentes. Segundo o Ministério do Trabalho e do Emprego, no ano passado, 41.445 adolescentes conseguiram ocupação.

A lei não tem nada a ver com trabalho infantil. A legislação proíbe o trabalho de menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz. Eles terão uma carga horária de 6 horas e o contrato não pode passar de dois anos, assegura direitos trabalhistas, como registro em carteira e salário mínimo/hora. Para o empregador, há redução de encargos: a alíquota do FGTS cai de 8% para 2%. As empresas que desrespeitarem a lei podem ser multadas.

Essa lei é um grande incentivo para os adolescentes que conseguem trabalhar, aprender, receber salário e, o mais importante, continuar estudando. O jovem que pára de estudar – para  trabalhar e ajudar a família – dificilmente voltará aos estudos. A lei  tem caráter educativo e proíbe o aluno de deixar de estudar.

Atualmente, há 3,2 milhões de adolescentes entre 15 e 17 anos que estão no mercado informal ou estão sem trabalho. Apesar de o Brasil proibir o trabalho de jovens antes dos 16 anos, a não ser como aprendizes, no ano de 2001, uma pesquisa do IBGE revelou que mais de 2 milhões de meninos e meninas de 5 a 14 anos estavam trabalhando, comprometendo os estudos e a saúde.

A divulgação e a conscientização da lei, por parte das empresas, da sociedade civil, dos governos, devem merecer a atenção de todos. É uma atitude de relevância social, de qualificação profissional. Os meios de comunicação têm abraçado a causa, divulgando inclusive a diferença entre aprendiz e estagiário.

Aprendiz

• Tem vínculo empregatício;

• Tem carteira de trabalho especial assinada para aprendizagem, com duração de, no máximo, 2 anos;

• Recebe salário mínimo/hora;

• A empresa contratante tem encargos trabalhistas e previdenciários com redução do recolhimento do FGTS de                                   8% para 2%;

• Recebe formação técnico-profissional metódica, com atividades teóricas e práticas e tarefas de complexidade                          progressiva;

• ter de 14 a 18 anos incompletos e estar cursando ou ter concluído o ensino fundamental.

Estagiário

• Não há vínculo empregatício;

• Assina termos de compromisso por período não inferior a um semestre letivo;

• Pode receber bolsa ou outra forma de remuneração a combinar;

• Tem seguro de acidentes pessoais;

• Complementa o ensino, é acompanhado e avaliado conforme currículos, programas e calendários escolares;

• É aluno do ensino superior, do ensino médio, da educação profissional de nível médio ou superior e de escolas de educação especial.

No Estado de São Paulo, 220 empresas buscam aprendizes na ONG Ensino Social Profissionalizante (Espro), que forma 1.200 por ano. A ONG Movimento Degrau, fundada em 2002 para inserir jovens no mercado, está presente em 78 cidades. Esta ONG propôs, em março deste ano, no 48.º Congresso Estadual de Municípios, um “Pacto pela Juventude”. Esse número de aprendizes pode ser aumentado e muito pelo trabalho de divulgação e conscientização. O estudante, após o período de aprendiz, após ter concluído o ensino fundamental e estar cursando o ensino médio ou, mais tarde, uma faculdade, pode retornar à empresa, agora como estagiário.

Professores, diretores de escola, devem inteirar-se sobre esse assunto de importância social e orientar seus alunos, suas famílias, falar à sociedade civil, aos empresários, fazendo valer a Lei do Aprendiz.

O adolescente, como aprendiz, sente que ali, na empresa, começa um mundo novo para ele. Ele recebe um preparo para entrar no mercado de trabalho e é um grande incentivo para que se dedique, se empenhe cada vez mais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2004)

FUNDEF REAJUSTADO EM 20,5%

Izabel Sadalla Grispino *

A decadência do ensino das escolas oficiais é registrada a cada passo das avaliações efetuadas, quer do Vestibular, do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), do Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb) e de outras modalidades.

No Vestibular, a freqüência à escola privada torna-se pré-requisito para o seu sucesso. No Enem do ano passado foi feito um estudo comparativo das notas obtidas por alunos da escola pública e alunos da rede privada. Estes tiveram significativa vantagem sobre aqueles. Os resultados do último Saeb, realizado em 2001, revelaram que a grande maioria dos alunos, que termina a 3.ª série do ensino médio, sai sem saber matemática e língua portuguesa. Na edição do Saeb de 2003 (resultado ainda não divulgado), a avaliação coletou dados sobre a exaustão emocional e o baixo comprometimento dos professores da educação básica, com seu trabalho, problema batizado por Síndrome da Desistência Simbólica do Educador. O que se quer saber é a influência dessa síndrome no desempenho dos alunos.

Essa introdução é para situar uma questão que chamou a atenção de educadores – fui solicitada a me pronunciar a respeito – sobre uma nota do Informativo MEC – julho – n.º 1 – do reajuste de 20,5% efetuado pelo Fundef. Diz a nota: “Com um reajuste de 20,5% dos valores do Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), em janeiro de 2004, o Governo Federal cumpriu, pelo segundo ano consecutivo, o compromisso de elevar as verbas da educação. Essa decisão é um diferencial em relação ao que aconteceu até o final de 2002, quando os recursos do fundo eram reajustados apenas para cobrir a inflação do período. O reajuste obrigou estados e municípios a investir, no mínimo, R$ 537,71 por aluno matriculado em suas redes da 1.ª a 4.ª série e R$ 564,60 para os alunos da 5.ª a 8.ª série. A previsão do Governo Federal é de que o Fundef movimente, em 2004, cerca de R$ 28,2 bilhões, contra R$ 25,2 bilhões em 2003”.

“O Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef), denominado Fundão, é um fundo de natureza contábil, instituído em cada Estado e no Distrito Federal, através do qual passarão a ser distribuídos os recursos para o ensino fundamental. É constituído de 15% das receitas do ICMS, dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios e do IPI-Exportação. O dinheiro irá para o fundo estadual e será distribuído em cada Estado e para seus municípios proporcionalmente ao número de alunos matriculados na rede de ensino fundamental... O governo federal vai participar apenas nas localidades onde a união de recursos estaduais e municipais não for suficiente para garantir a aplicação mínima por aluno estabelecida anualmente. Neste caso, o governo federal complementará o fundo para que seja atingido o investimento mínimo”. (do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), págs. 106 e 107).

Quando se fala em baixo nível de ensino, a questão da verba se ressalta. Esse percentual de valor monetário irá proporcionar um relaxamento maior das escolas. Se não houver desvios, se vier acompanhado de eficiência administrativa, há relativa esperança no fortalecimento da infra-estrutura, da segurança, das melhorias de condições de trabalho docente. Contudo, são “n” os fatores impedidores de uma educação de qualidade. Muitas escolas particulares, de um bom padrão, não lidam, também, com cifras vantajosas. É preciso haver, entre outros fatores, capacidade administrativa, organizacional, compromisso que se assume com a escola, com o ensino, com a comunidade. Um ponto crucial é a formação do professor e, conforme relatamos acima, pesquisa mostra que o professor da rede pública se encontra em “exaustão emocional”. Essa exaustão leva ao desânimo, à baixa auto-estima, ao desestímulo ao aperfeiçoamento profissional, ao desapego à instituição escolar. Cansaço resultante de classes superlotadas, da violência que vem se infiltrando nas escolas, com pouca ou nenhuma segurança e o professor lutando com suas próprias armas para se defender. A isso acrescem-se os baixos salários, arrastando o docente a trabalhar em 3 períodos, em 2 ou mais escolas. Distante está a chamada dedicação exclusiva.

Cuida-se da árvore para se cuidar dos frutos. A Síndrome da Desistência Simbólica afeta o humor, a predisposição do educador, que, por sua vez, reflete na predisposição do educando. Educador e educando naufragando no mesmo barco. Essa lastimável constatação não é senão resultado de anos e anos de descuido ao magistério oficial, de problemas que foram se acumulando, formando, no conjunto, uma difícil reversibilidade.

Num paralelo entre escola particular e oficial, as condições de ensino, nas particulares, são visivelmente superiores: infra-estrutura, professores capacitados, utilizando centros de informática, laboratórios, computadores, internet, colocando o aluno na modernidade. São escolas que oferecem atividades extracurriculares e, sobretudo, têm uma clientela de nível socioeconômico mais elevado. Estudo feito no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) confirma o que, de há muito, já sabíamos: o nível socioeconômico das famílias, o acesso a bem culturais, a escolaridade dos pais, interferem diretamente na aprendizagem, têm forte influência no desempenho escolar.

A escola particular tem a seu favor a garra, a vontade de crescer, detém a vanguarda do conhecimento, recicla seus profissionais, exige atualização, métodos de ensino renovados, que, ao invés de transmitir conhecimento, cria possibilidades para a sua produção, sua construção, métodos ajustados ao momento da época. São escolas que superam as falhas do sistema público e que, com determinação, enfrentando a concorrência, conseguem manter-se num bom padrão de ensino, atrair e motivar o aluno, garantindo a evolução social.

*  Supervisora de ensino aposentada.   
(Publicado em setembro/2004)

O ANALFABETISMO RONDANDO A POLÍTICA

Izabel Sadalla Grispino *

Será que está havendo o despertar de uma nova aurora para o Brasil? Já sentimos um pipocar de consciência sobre as ramificações que exerce a educação em todos os setores da economia do País.

Passo a passo, medidas vêm surgindo na reabilitação da educação, na moralização de padrões de conhecimento para o exercício de cargos políticos. O Ministério Público Eleitoral (MPE) do Ceará, pressupondo a existência de candidatos analfabetos a prefeito, vice-prefeito e vereador, pediu à justiça a impugnação do registro de 826 candidatos, sendo mais da metade pela condição de analfabetos. Esses candidatos deveriam fazer um teste simples de conhecimento de leitura e escrita ou contestar o Ministério Público Eleitoral, apresentando um documento que comprovasse a escolaridade mínima exigida, qual seja o término do ensino fundamental. Na falta desse comprovante, haveria, ainda, a opção de redigir, de próprio punho, uma declaração provando que sabe escrever.

Tem ocorrido o absurdo da declaração do candidato não ser redigida por ele mesmo, quando a declaração não é feita na presença dos juízes eleitorais. Por isso, a importância do teste. O MPE apóia-se no artigo 14 da Constituição, que diz que analfabetos podem votar, mas não são elegíveis. O prazo para recorrer ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) vai até 4 de setembro e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 28 do mesmo mês.

Para as provas, não há um padrão a ser seguido. Elas são aplicadas em sessão pública e agendadas pelos juízes dos municípios. Pela jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o teste deve ser compatível com o ambiente cultural, social e econômico do município. Testes para comprovar se os candidatos sabem ler e escrever vêm sendo aplicados em diversos Estados, como Alagoas, Bahia, São Paulo, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul, Piauí e Minas Gerais.

Em Aracati, no Ceará, a juíza eleitoral aplicou a prova em 18 dos 20 candidatos convocados. Eles tiveram que ler um trecho do livro infantil “O menino mágico”, de Rachel de Queirós. Dos 18 candidatos, 3 não conseguiram fazer a prova, alegando estar nervosos, e a juíza marcou-lhes outra data para um novo teste.

Em São Gabriel do Oeste (MS), 22 candidatos fizeram uma prova de uma hora, para escrever 20 palavras de um ditado, fazer as 4 operações matemáticas e interpretar um texto simples. Apenas metade foi aprovada, 11 reprovados, tendo alguns tirado nota zero. No ditado das palavras, houve erros chocantes como “demogracia (democracia) “senvergonhise” (sem-vergonhice). Na interpretação de texto, respostas sem nenhuma ligação com o texto e nas operações matemáticas, o absurdo de respostas como esta: 1.218+29 = 1.546.

A decisão de aplicar o teste dos juízes eleitorais tem amparo na resolução 21.606 do TSE, mas tem criado polêmica entre partidos, candidatos e especialistas em legislação. Argumentam ser o teste eletista, ridiculariza e humilha o candidato, ao invés de questionar o analfabetismo dos candidatos. Por que não apelar ao candidato que se prepare, que se alfabetize, antes de se candidatar? Como pode um prefeito, um vereador, exercer funções administrativas, legislativas, praticar uma infinidade de atos, sem saber o que assina? Como governar, legislar, representar a comunidade, sem um conhecimento mínimo de leitura e escrita, para exercer a função pública?

Há muito já se sabia da existência de políticos analfabetos. O diagnóstico era contundente, mas o problema parecia não apresentar solução, até que, finalmente, surgiu uma frente corajosa e passou a encarar a questão.

O povo se mira em seus governantes. Quem está no poder deve dar exemplo, estudar, aperfeiçoar-se, estimulando tal comportamento. “Educa-se bem mais pelo exemplo que pelas palavras”, já nos ensinava Rui Barbosa. O metalúrgico Vicentinho de Paula, prevendo a possibilidade de ascensão em cargos públicos, passou a abraçar os estudos, fazendo cursos supletivos, prestando vestibular e ingressando em uma universidade.

“Uma nação se faz de livros e de homens”, nos dizia Monteiro Lobato. Ao enunciar a frase, colocou livro antes de homem: primeiro estudar, estruturar-se no conhecimento, para depois enfrentar o cargo pretendido. Afinal, como atingir os objetivos, essenciais que sejam, sem desenvoltura lingüística? Sem a capacidade de interpretar atos, formular projetos, elaborar leis, tomar decisões importantes?

Esse teste para políticos analfabetos deve servir de alerta à Nação, afinal num País tão desigual, como o nosso, a baixa escolaridade da população só faz diminuir o nível de desenvolvimento social.O espelho deve refletir cultura e não ignorância. Só a educação é capaz de gerar novos e promissores avanços sociais.

Pelos poucos exemplos citados, das respostas ao teste, podemos constar a validade da existência dos mesmos, para candidatos que não comprovem a escolaridade mínima exigida. Acorda Brasil, comece a pôr os pingos nos “is”, a fazer os inconseqüentes se tocarem, se prepararem antes de aspirar funções de comando, de grande responsabilidade e de difícil mensuração das repercussões negativas. Esses políticos representarão a coletividade, responderão pelo patrimônio público, numa função altamente importante.

O espírito crítico, que nutre a sociedade, não pode ser anulado, tragado pela irresponsabilidade de alguns. Hoje, o sonho do brasileiro é exportar conhecimento, não apenas produtos in natura e de matéria-prima. Para tanto a educação é decisiva, a plenitude do desenvolvimento social e econômico só virá com ela. Os políticos devem dar exemplo!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2004)

ALUNOS EM DESAJUSTE DE IDADE E SÉRIE

Izabel Sadalla Grispino *

Em 23 de maio de 2002, o Ministério da Educação (MEC) divulgou dados do Censo Escolar de 2001, onde demonstrou que uma parcela significativa de alunos está atrasada em relação à série ideal. Demonstrou um aumento do número de estudantes que concluem o ensino fundamental e médio com desajuste entre idade/série. A idade ideal para terminar a 8.ª série é 14 anos. Dos 35,3 milhões de alunos matriculados no ensino fundamental 22% têm mais de 14 anos, mas 31%, dos 2,6 milhões de alunos que chegaram ao fim do ensino fundamental em 2000, têm mais de 18 anos. A situação piora no ensino médio: dos 8,4 milhões de jovens matriculados, 54% têm mais de 17 anos e entre os concluintes, em 2000, 49% tinham mais de 20 anos.

O atraso escolar é um problema para a continuidade dos estudos. O aluno ou acaba evadindo-se da escola, abandonando os estudos, ou vai para o ensino supletivo. O crescimento de matrículas, na educação de jovens e adultos, é um indicador da passagem da escola regular para o ensino supletivo. O censo mostra outra parte das distorções quando registra 240,7 mil alunos com mais de 29 anos matriculados na 1.ª à 4.ª série. Esses alunos não deveriam estar freqüentando um curso como o ensino fundamental, mas recebendo um tratamento educacional mais adequado às suas condições.

O censo de 2000 registrou 3,4 milhões de estudantes, o censo de 2001, 3,8 milhões, com um aumento de 11%. Somando-se todos os níveis da educação básica, há mais de 54 milhões de alunos, em 2002, matriculados. Esses dados vêm demonstrar uma explosão de matrículas, uma ênfase na quantidade e não na qualidade.

O número de matrículas no ensino fundamental é bem maior do que a população de 7 a 14 anos, o que mostra o desencontro entre idade e série, ocasionando distúrbios na aprendizagem. São 26 milhões de crianças nessa faixa etária ante 35,3 milhões de matriculados. Essa distorção deve servir de alerta às autoridades da educação, na proposição da criação de modalidades de ensino que equacionem a situação.

Em contrapartida, há uma outra discrepância que deve ser revista: a maior parte dos alunos que fazem o supletivo tem entre 18 e 24 anos. Dos 3,8 milhões, 1,2 milhão estão nessa faixa etária. Mas, o censo mostrou que há crianças em idade para freqüentar a escola regular fazendo supletivo. São 79 mil alunos de até 14 anos matriculados nos supletivos e 530,7 mil de 15 a 17 anos.

O censo constatou, o que já se sabia, que a pobreza é um fator que influi na evasão e na repetência escolar. Comprova o número de ingressantes e concluintes do ensino fundamental. No Nordeste, região mais pobre do País, apenas 38% dos 2,3 milhões de alunos que ingressam na 1.ª série chegam ao fim do ensino fundamental. No Sudeste, região mais rica, 76% chegam ao fim do ensino fundamental.

Abriu-se vaga para todos nesse grau de ensino e a camada mais pobre da população começou a adentrar a sala de aula. Alunos que, provenientes de lares de renda mínima, de pais de baixa ou de nenhuma escolaridade, sem a freqüência à pré-escola, sem estimulação familiar aos estudos, vivendo num ambiente de pobreza financeira e cultural, se esbarram no caminho do aprender e acabam por desistir da escola.

A escola, por sua vez, atua com professores de precária formação, incapazes de uma metodologia que entre no mundo desmotivado desses alunos e os conduzam ao universo do saber. Embora o censo tenha demonstrado um aumento de professores, sobretudo na pré-escola, com curso superior completo – aumento de 40% -- ainda prevalecem os docentes com ensino médio completo: são 169,6 mil de um total de 248,6 mil. Em 2001, 61,3 mil professores de pré-escola tinham cursado uma faculdade.

A mesma situação repete-se com os professores das creches, em que prevalece a formação de nível médio. Dos 63 mil professores de creche, 68% têm diploma de 2.º grau. Na 1.ª à 4.ª série, nível em que 67% dos 809,2 mil professores têm magistério, houve um aumento de 47 mil professores lecionando com  diploma de grau superior.

O aumento de professores cursando o ensino superior é, sem dúvida, fator positivo, a redução de professores leigos, que não concluíram o ensino médio – a qualificação mínima para se dar aulas – foi significativa, de mais de 50%, mas não o suficiente para se reverter a situação da má qualidade do ensino. Em 1998, havia 95 mil docentes leigos, ante 46 mil constatados em 2001.

Duas grandes lições podemos tirar do censo 2001. A necessidade de se programar ações efetivas para a aprendizagem de jovens e adultos, colocando-os frente a uma metodologia que dê conta dessa faixa etária, considerando seus perfis, seus ritmos, e a de investir-se na formação dos professores, criando condições a uma formação continuada e em serviço.

Assistir a pobreza, criar boas condições de trabalho, diminuir o número de alunos por classe, cuidar melhor da escola, são combinações que trarão melhorias na qualidade de ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.           
(Publicado em novembro/2002)

* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em novembro/2002)

FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

A função da escola é complexa, ampla, diversificada. Tem necessidade de dedicação exclusiva por parte do professor, necessidade de acompanhar as mudanças que se processam aceleradamente no campo de trabalho, atualizando o seu currículo e sua metodologia.

Para dar sustentação às contínuas evoluções, a escola precisa ressaltar um ensino que crie conexão entre o que o aluno aprende nela e o que ele faz fora dela; conexão entre o ensino formal e o mundo do trabalho, entre o conhecimento e a vida prática do aluno. Vincula a educação escolar com o mundo do trabalho.

Os conteúdos curriculares devem estabelecer a relação entre teoria e prática, através de situações próximas da realidade do aluno, permitindo que os conhecimentos adquiridos melhorem sua atuação na vida cotidiana. A metodologia aplicada deve ensejar ao aluno fazer ligações entre o que aprende em sala de aula e o que exercita na prática diária.

A escola contextualiza o currículo, ministrando um conhecimento que faça sentido à vida do aluno. Estabelece uma relação entre o conhecimento e as ações do dia-a-dia. Em sala de aula, os alunos são caminhos a serem traçados e o professor, o agente condutor dessa ação, sempre na mira de papel auto-regulador dos mercados. Na sua função social, o professor desenvolve competências para a vida, levando o aluno a interagir com o meio em que vive.

A escola, abraçando a transformação, encara a educação como um ato social de mudança e avanço tecnológico. É fundamental a relação entre conclusão de escolaridade e inclusão no mercado de trabalho. O entorno sociocultural, quando percebido pelo aluno, o motiva para o estudo. Hoje, os jovens sabem que sem educação não se colocarão no mundo do trabalho. As empresas exigem o nível médio de escolaridade para qualquer função, por mais simples que seja. Essa atualidade da educação na sociedade é uma característica não só brasileira, mas mundial.

Contudo, a escolaridade deve vir acompanhada de qualidade. Nesse item, o Brasil engatinha; enquanto os países desenvolvidos já têm sistema educacional de qualidade acessível a todos e estável, nós beiramos à periferia da educação. Nosso ensino fundamental tornou-se universal (+ de 90%), há menos de uma década, nosso ensino médio ainda não chega à metade dos estudantes e apenas 9% dos jovens estão nas universidades. Esses dados foram fornecidos, no início do mês de setembro de 2005, pelo relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Mostra, ainda, que o País aplica 4,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação. Gasta menos do que deveria.

Em junho de 2005, o governo lançou um conjunto de programas e projetos intitulado: “Ações para a qualidade da Educação”. Nosso passivo histórico precisa de um esforço muito grande para tentar recuperar a dívida brasileira na educação. Uma das medidas dessas ações é a elevação de 8 para 9 anos a duração do ensino fundamental, favorecendo a inclusão educacional de alunos das camadas populares.

Outras medidas louváveis são: a) a criação de bolsas de estudo para os programas de formação de professores do ensino básico da rede pública; b) a criação do Programa de Educação Tutorial (PET), que visa fomentar iniciação científica de estudantes de graduação, por meio de bolsas concedidas a alunos e professores-tutores; c) a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb); d) a criação do programa Escola de Fábrica, que prevê a abertura de cursos profissionalizantes dentro de empresas, favorecendo o ingresso de alunos pobres no mercado de trabalho.

Esses projetos se vierem respaldados por consistentes implementações, com precisão na ordenação de sua execução, poderão, sem dúvida, trazer benefícios salutares. Tem que haver uma boa estruturação e um acompanhamento eficaz de suas aplicações.

A verdade é que há, ainda, muito que se fazer para elevar o nível educacional de nossas escolas públicas, tendo em vista aumentar a renda da população. Um corolário se forma: a educação influi nas condições de vida da população e essas mesmas condições de vida interferem na educação. A Organização das Nações Unidas (ONU), pelo programa Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), vem demonstrando que as condições de vida dos cidadãos de cada país são importantes quando se fala em desenvolvimento. O Índice, publicado em 6 de setembro de 2005, avalia longevidade, renda e educação e o Brasil melhorou muito pouco no IDH. Mantém a 63.ª colocação no ranking das Nações Unidas. O índice brasileiro subiu de 0,790 para 0,792, permanecendo com grandes diferenças sociais. É o oitavo mais desigual do mundo e está na companhia de países extremamente pobres, como Lesoto, Namíbia e Suazilândia. Na América Latina, apenas a Guatemala tem um índice pior.

A conclusão é de que é preciso estimular o crescimento em favor dos pobres. Sem crescimento, um país como o Brasil, não consegue suprir as necessidades de sua população e esse crescimento precisa vir acompanhado de escolarização que ressalte a qualidade. Precisa assegurar um mínimo de qualidade num setor de suma importância para o desenvolvimento social e econômico do País. Precisa assistir com afinco o nosso sistema educacional, deixar de olhar os trincos da casa e se dar conta do alicerce que pode ruir.

A escola, em sua função social, tem um olhar constante voltado à sociedade, conectando seu saber com a prática cotidiana do aluno, preparando-o para o exercício profissional. A experiência de vivenciar as situações de aprendizagem ensina o convívio em grupo, indispensável para a vida e o trabalho.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2006)

ESCOLA E FORMAÇÃO DE VALORES, POR SUA EDUCAÇÃO INTEGRAL

Izabel  Sadalla Grispino *

Tem-se hoje que a evolução humana é basicamente cultural. O fator genético permite posturas biológicas iguais, mas só é possível alterar o futuro de uma criança investindo em sua educação. Segundo estudos do Genoma, tudo o que somos tem razão genética, porém, costumes, características de vida são incorporados a partir de uma herança cultural local.

Educação é um processo constante de renovação. Educador é a pessoa compromissada com o outro. Para se achegar ao outro e ajudá-lo, deve inserir-se num mundo que exige atualização constante, revisão sucessiva de métodos e técnicas. Ele tem a função da pesquisa, da reflexão contínua sobre sua prática pedagógica do dia-a-dia, colocando-a a serviço da exigência atual.

O ensino escolar não pode estar desvinculado do que acontece no mundo. O mundo ficou muito complexo e tem, com razão, intimidado o professor. Transformar a escola é uma grande revolução. O professor, em geral, tem deficiência de formação, tem dificuldade para adequar o programa à realidade vivida pelos alunos, e fica, assim, preso ao livro didático. Ele é um profissional gravemente injustiçado, desvalorizado. Aviltantes salários forçam-no a uma sobrecarga de trabalho, roubando-lhe tempo precioso à sua reciclagem. O próprio MEC revela que baixos salários, falta de infra-estrutura das escolas e baixa qualidade de vida constroem o quadro de fracasso escolar que se vê hoje.

Johan H. Pestalozzi (1740-1827), um clássico da Pedagogia e considerado o pai da educação integral, dizia: “O amor é o instrumento da educação”. É esse amor que inspira o professor, que o leva a sublimar sua função, caminhando em correspondência ao pensamento: “Mesmo correndo entre pedras, as águas cumprem sua missão. As árvores plantadas são testemunhas disso”.

Recentes pesquisas têm mostrado que a grande maioria das escolas vem-se negligenciando da parte formativa do aluno, com reflexos negativos no comportamento social. A escola tornou-se uma entidade repetitiva de informação, sem priorizar a educação integral, nos aspectos: cognitivo, afetivo, psicomotor. A educação integral engloba comportamento e conhecimento. A construção do conhecimento, o desenvolvimento das habilidades, devem processar-se paralelamente à formação do educando. Formação das capacidades cognitivas de caráter geral e formação de valores, de ordem ética, moral e religiosa.

A abordagem holística do homem é hoje prioritária em todos os setores. No diagnóstico da doença, examinam-se componentes genéticos, emocionais e ambientais. Saber ler, escrever, contar, raciocinar, é pouco, tem que haver a cultura mais profunda da alma, do sonho, da criatividade.

A escola precisa repensar sua atuação e, num processo de reeducação, tornar-se uma unidade formadora de caráter, de cidadania.

Cidadania não é ensinada como uma disciplina, ela se aprende na vivência, na convivência. É um exercício que se conquista na exigência da ética, da justiça. É o respeito que se tem pelo outro, por sua identidade, pelos bens alheios, pelo patrimônio coletivo, pelo sentido de igualdade de condições. Implica em comportamento responsável, em noção de limite, dentro do preceito de que o direito de cada um termina onde começa o do outro. Já dizia Rui Barbosa: “Educa-se muito mais pelo exemplo que pela doutrina”.

Estamos vivendo uma sociedade violenta, individualista, arbitrária. Formam-se grupos oportunistas, que não têm outra finalidade senão a de se promover e a de tirar proveito do outro. O outro só existe como elemento de conveniência. Uma sociedade onde os fins justificam meios ilícitos, desumanos, onde Deus é uma presença vaga, indefinida, distante. Uma sociedade sem luz, sem fé.

É, principalmente, neste quadro social que se pensou na volta do ensino religioso como obrigatório, não mais como facultativo, conforme reza a Constituição.Por tudo isso, começa haver uma preocupação de educadores de que valores sociais, como amizade, amor, solidariedade, cooperação, lealdade... devam fazer parte dos currículos escolares. Montam projetos que vêm de encontro à proposta do MEC, quando fala em currículos transversais. Permeiam a educação com temas transversais, como política, sociedade, sexualidade, droga, ética, cidadania e outros.

São temas tratados não como disciplina específica, mas como um espaço a ser discutido em sala de aula, por um componente ou por vários. Dependendo da abrangência do tema, projetam atividades interdisciplinares, como um leque de assuntos ofertados. Cada disciplina encontrará um conteúdo correspondente.

É a escola exercendo sua função social na orientação dos jovens, na formação de uma sociedade mais humana, mais ordeira, criando vínculos de inter-relações humanas.

Até recentemente, o grande objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro. Hoje, o grande intento é prepará-lo para o presente, para a resolução de seus problemas imediatos, de suas necessidades atuais. Preocupa-se com sua inserção em uma sociedade produtiva, ética, solidária, capaz de ajudá-lo, de maneira saudável, a se realizar. A escola faz uma ponte, ligando a percepção do aluno entre o que aprendeu e a vida. Ele se apodera do saber e aplica-o à sua vida do dia-a-dia, vivencia na escola comportamentos salutares e os desenvolve na comunidade, na sua vida social. A  aprendizagem vai se processando a partir de sue próprio interesse e das condições ambientais que o cercam.

A escola trabalha o presente, ousa, alça vôos, para alcançar o futuro. Busca integrar-se no conceito apregoado pelo consultor americano Michael Hammer: “O segredo do sucesso não é prever o futuro. É preparar-se para um futuro que não pode ser previsto”.

Para tanto, diferentemente do passado, o aluno não consome, mas produz o conhecimento e, assim, como o professor, torna-se um pesquisador permanente, um observador zeloso das relações interpessoais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2000)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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