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Artigos Educacionais

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O HÁBITO DA LEITURA

Izabel Sadalla Grispino *

Retorno a um ponto capital da escola na formação do educando: o hábito da leitura.

A criança, para se tornar um leitor, deve ter uma relação de companheirismo com os livros, conviver com contos, romances, poesias, textos de teatro, obras populares, obras clássicas da literatura nacional e internacional, sempre ajustados à sua faixa etária. Esse convívio com os livros facilita o incentivo do hábito de ler.

A leitura freqüente leva a uma melhor escrita; quanto mais se lê, mais domínio se tem sobre o texto escrito; leva a um raciocínio mais apurado, a um mais alto nível de inteligência, a uma habilidade expressiva aprimorada. A psicologia vem demonstrando que existe uma correspondência estreita, uma forte correlação entre o nível de vocabulário e o quociente de inteligência, isto é, entre o domínio da linguagem e a inteligência. Quanto maior o número de palavras, quanto mais elaboradas as comunicações – por exemplo, entre as crianças e o adulto – mais potencializado fica o desenvolvimento da sua inteligência.

A qualidade do ensino passa pelo hábito da leitura e a escola não pode mais deixar o estímulo à leitura por conta da família, de sua herança cultural, conforme fazia no passado. Hoje, a rede pública conta com uma clientela bem diferente, de um nível sociocultural empobrecido e compete a ela encaminhar a criança, e até mesmo sua família, à leitura.

A escola precisa reservar em sua organização curricular, em seu projeto pedagógico, um lugar especial para a leitura, para a literatura. Ela deve promover atividades que intensifiquem a prática da leitura. Criar, inovar formas de tratar o texto literário. Idealizar espaços para a leitura, enriquecer o acervo de sua biblioteca, com variedade de textos que sejam representativos das diferentes faixas etárias e da cultura heterogênea de nosso povo. Emprestar os livros não só para os alunos, mas também para seus pais e para toda a comunidade, melhorando o seu ambiente, elevando o grau de cultura geral.

A escola deve criar a hora do conto, podendo, neste setor, obter, inclusive, a colaboração dos pais, que queiram dedicar um tempo para a escola, lendo ou contando histórias para as crianças. Nessas circunstâncias, o voluntariado exerce um papel tão importante, no despertar do gosto pela leitura, quanto o próprio especialista da educação. Nas histórias lidas ou contadas, deve-se ater à expressividade; ler ou falar com entonação, com ênfase em determinados momentos, respeitando as pontuações, as exclamações, as interrogações, as reticências, despertando emoções, provocando reflexão, criando verdadeiros recitais. Esse ambiente de representação recupera a arte, que foi deixada para trás, da récita.

A escola pode convidar escritores, contadores de histórias, declamadores de poesia, incentivando e motivando o universo imaginário da criança. Estas são algumas das ações que se transformam em efetivos instrumentos pedagógicos, capazes de conduzir o aluno ao prazer da leitura e a escola ao significado maior que a literatura empresta ao seu currículo.

Essa preocupação da escola com a leitura intensificou-se, principalmente, depois do resultado do “Programa Internacional da Avaliação de Alunos”, que mostrou o grande fracasso dos alunos brasileiros, em relação à leitura e  ao entendimento de texto. Só um longo descuido da escola explica esse desastroso resultado! É, como se diz: “Depois da porta arrombada coloca-se a tranca”.

Em 1997, através do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), o MEC coletou informações para averiguar se a escola estava ministrando um ensino de qualidade, se a educação estava formando cidadãos capazes, inseridos no mundo atual. O resultado foi bastante desolador. Revelou que o baixo aproveitamento e queda do nível de aprendizagem aumentavam à medida que as séries avançavam e isso vem se confirmando desde as avaliações feitas a partir de 1990. Em alguns casos, nenhum aluno conseguiu dominar os conteúdos mínimos da série em que estava.

Na análise de texto, não houve interpretação e raciocínio, revelou o estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), feito por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), chamados pelo MEC para avaliar o fraco desempenho dos alunos, constatado no último Saeb.

Essa entidade sugeriu mudanças. A título de exemplo, citaremos as mudanças no ensino de português: “O modelo de ensino de português deve ir além dos livros didáticos; o aluno deve ter contato com textos diferenciados, desde os literários aos mais comuns, contato com jornais, revistas e até mesmo com manuais de instrução”.

Um outro aspecto revelador da decadência do ensino veio do resultado do questionário aplicado aos alunos pelo Exame Nacional de Cursos, o Provão. Mostrou que os universitários brasileiros lêem pouco e, como conseqüência, são pouco criativos, pouco afeitos à pesquisa, à curiosidade científica.

No Brasil perpetua-se a cultura oral, de ouvir falar. A falta de hábito de leitura mostra que estamos formando profissionais medíocres, divorciados das fontes escritas da civilização. O Provão revelou que, na média nacional, 20% dos estudantes não leram nenhum livro no último ano (1998), exceto os escolares. Em São Paulo, o índice cai para 18%. Apenas 23,6% dos alunos leram mais de 4 livros em 12 meses.

O mais triste é que o aluno pode aprender, na escola, a não ir além do que o professor manda. Quando acontece de o aluno tomar a iniciativa de avançar, o professor interfere, possivelmente amedrontado, impedindo o seu crescimento pessoal. Usa da prerrogativa de que a orientação recebida é mais do que suficiente.

Jacinto Brandão, então coordenador do vestibular e vice-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, lamentou o baixo índice de leitura entre os universitários e concluiu: “Os que não lêem e não têm contato com os diversos tipos de texto, certamente, terão maior dificuldade no mercado de trabalho, em razão da falta de autonomia intelectual”.

A falta de curiosidade é a razão da falta de interesse pela busca da leitura, dizem os especialistas, e isso se refletirá na carreira profissional. Este profissional será, sem dúvida, mais passivo, mais acomodado.

A leitura é a chave que abre as portas da realização profissional, de seu sucesso.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

A EDUCAÇÃO ESPECIAL NA INCLUSÃO DO DEFICIENTE

Izabel Sadalla Grispino *

Recentemente, publiquei um artigo que revelava o resultado de uma pesquisa internacional, encomendada pelas Olimpíadas Especiais, mostrando resistência à integração de deficientes mentais, um forte apego ao preconceito.

No Brasil, as análises têm sido mais estimuladoras. As conquistas, na área da educação especial, são lentas, mas continuadas. O Censo Escolar 2003, divulgado pelo Ministério da Educação, mostrou um aumento do número de crianças, com necessidades especiais, em classes regulares, nas redes oficiais de ensino. Mostrou um acréscimo de 30,6% da chamada educação inclusiva, em relação ao Censo 2002. De cada 100 estudantes com deficiências, 29 assistem às aulas em classes comuns. Em 1998, avaliou-se pela primeira vez essa inclusão e somente 15% dos alunos com necessidades especiais freqüentavam classes regulares.

O Brasil vem avançando em direção ao direito da escolaridade das crianças deficientes. Para um reforço no cumprimento das normas legais, é importante tomar conhecimento dos seguintes procedimentos:

– A  Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, no seu artigo 4.º, inciso III, definiu como dever do Estado a garantia de atendimento especializado gratuito aos educandos “com necessidades especiais, preferencialmente, na rede regular de ensino”. Assim, segundo a LDB, a inclusão deve ser preferencialmente na rede regular de ensino. Para tanto, o educador deve receber a capacitação necessária para esse atendimento, lembrando que a política de inclusão exige um professor treinado, capacitado.

– A Lei 7.853, de 1989, obrigou o Estado a apoiar os portadores de deficiência em sua integração social. Leis e decretos definiram normas gerais e critérios básicos para o atendimento às pessoas deficientes. Criou-se, no Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Direitos  da Pessoa Portadora de Deficiência.

– Através do Decreto 3.956, de 2001, foi ratificada a Convenção Interamericana para a eliminação de todas as formas de discriminação contra as pessoas portadoras de deficiências.

– A Câmara de Ensino Básico do Conselho Nacional de Educação (Parecer 2/01) definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para educação especial e o Parecer 17/01 estendeu essas diretrizes para toda a Educação Básica.

Era preciso que se cumprisse, na prática, o que essas leis determinavam. O Censo Escolar 2003 demonstrou que a aceitação do deficiente, em classes de escolaridade formal do ensino básico, avança favoravelmente. As instituições de ensino vêm, gradativamente, conscientizando-se e propagando a inclusão social, a promoção de acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida. O professores devem trabalhá-las tendo em vista suas potencialidades, na superação de suas dificuldades.

Hoje, já é consenso na educação de que a heterogeneidade, no ambiente escolar, só traz benefícios tanto para os deficientes como para os demais alunos, desde que ela seja acompanhada, assistida, por profissionais competentes e por condições necessárias ao seu bom desenvolvimento.

Uma outra pesquisa mostra que muitas empresas começam a criar programas de inclusão social, projetos que atendam às necessidades dos deficientes. Um estudo inédito da Fundação Banco do Brasil, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, divulgou, em outubro p. passado, resultados e apontou que o repasse de um salário mínimo a portadores de deficiência pelo governo, por meio do Benefício de Prestação Continuada (BPC), cresceu 350% entre 1996 e 2001. O estudo mostrou, ainda, que o número de deficientes no País varia de acordo com escolaridade, idade e renda. O relatório Diversidade – Retratos da Deficiência no Brasil – divulgado em 21/10/2003, considerou o grau de severidade das deficiências e revelou que 14,5% da população brasileira apresentam algum tipo de limitação. Que a metade da população com mais de 60 anos sofre de algum tipo de deficiência.

A média de renda das pessoas com limitações físicas é de R$ 529,00, enquanto a de quem não as tem fica em torno de R$ 628,00. Há, também, diferenças na escolaridade: 27,61% dos deficientes não são alfabetizados e há certa concentração de deficientes no Nordeste, justamente por ser a região mais pobre. A Paraíba lidera no número de deficientes: 18,76% da população.

O estudo feito pelas Fundações Banco do Brasil e Getúlio Vargas inova por apontar possibilidades de inclusão e de aplicação de políticas sociais, vindo de encontro aos anseios dos portadores de deficiência e de suas famílias. Abordando-se reiteradamente a problemática do deficiente, desvenda-se o véu da ignorância, retira o deficiente de seu isolamento, expande-se a humanidade, apontando para uma sociedade mais justa, menos preconceituosa.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2003)

EDUCAÇÃO FÍSICA NO 1.º CICLO

Izabel Sadalla Grispino *

A ciência tem revolucionado os entendimentos, os comportamentos referentes aos primeiros anos de vida do indivíduo.

A partir de descobertas comprovadas, desvendou-se o véu das reações cerebrais dessa faixa etária e percebeu-se o quanto é importante cuidar bem do desenvolvimento mental, físico, emocional da criança. Descobriu-se que há momentos propícios à estimulação do cérebro, que, uma vez perdidos, dificilmente serão recuperados. Percebeu-se o quanto o aperfeiçoamento futuro da criança depende de como ela foi cuidada, protegida, orientada nessa sua fase de vida, o quanto a transformação social está calcada por valores transmitidos e vivenciados pelas novas gerações.

É a criança que, interiorizando os ensinamentos, será o grande alicerce de uma sociedade sadia ou doentia, de uma civilização melhor ou pior. A experiência vivida pela criança na sua infância, os afagos ou o abandono, a esperança ou a falta de perspectivas, torná-la-á um adulto ajustado às normas sociais, equilibrado, produtivo ou um marginalizado, um rebelde sem conseqüência. Não há verdadeiro progresso social sem o desenvolvimento intelectual e o aperfeiçoamento moral, objetos da educação infantil. Repetirei, aqui, as palavras de Machado de Assis: “A criança é o pai do homem”.

Quanto à educação física, assunto deste artigo, entendeu-se, finalmente, a sua importância não só para o bom desenvolvimento físico da criança, para o seu condicionamento às atividades físicas salutares à saúde, como a um elemento a mais para elevar sua auto-estima, fazendo o que gosta, para descobrir potencialidades, identificar aptidões.

Parece estar chegando ao fim o desencontro do currículo escolar com a disciplina Educação Física. No 1.º Fórum de Educação Física Escolar, realizado em 27 de setembro do corrente ano, na presença de cerca de 700 professores, a Secretaria de Estado da Educação entusiasma os professores com sua nova orientação sobre as aulas de educação física.

Hoje, essas aulas que na 1.ª até a 4.ª série são ministradas pelo professor polivalente de matemática, português, ciências e das demais disciplinas, podem, a partir do ano de 2003, ser exercidas por docentes formados na área. Deverão seguir o exemplo das turmas que se iniciam na 5.ª série e vão até o último ano do ensino médio. Da 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental – o 1.º ciclo – todas as matérias são dadas pelo mesmo professor. No horário destinado à educação física, geralmente os professores, sem formação específica, limitam-se a atividades livres nas quadras e nos pátios  das escolas, vistas como meramente esportivas ou recreativas. Subtraem dos alunos os amplos benefícios da correta aplicação dessa educação.

Não há uma legislação que exija a presença de professores formados em Educação Física, no 1.º ciclo do ensino fundamental, mas a Secretaria de Educação pretende colocar especialistas também para os alunos desse período, apontando vantagens da mudança. Ela vem desenvolvendo um modelo de aula, onde, desde a infância, os alunos começam a aprender a importância da educação física, a ter contato com o básico sobre fisiologia, incluindo, também, aulas teóricas.

O que se pretende é que a criança, desde as séries iniciais, passe a conhecer conceitos sobre os efeitos benéficos da atividade física, possibilitando-lhe tornar-se um adulto ativo, não sedentário. Os especialistas concluíram, a partir de observações, de que a fase mais importante, para a formação do indivíduo em educação física, é justamente a compreendida entre a 1.ª e a 4.ª série.

A Secretaria da Educação planeja capacitar professores especializados da rede, que hoje atuam com alunos mais velhos, de acordo com o novo modelo. Os professores interessados deverão se inscrever no novo programa.

Em relação às crianças menores, as escolas de um modo geral, são desatentas à educação física, não oferecem material, nem boas condições para o seu exercício. Os meninos costumam ficar nas quadras e as meninas pulando cordas ou brincando de bambolê. O ideal para essa idade é uma mistura de modalidades esportivas e atividades lúdicas: montar, por exemplo, circuitos de exercícios, jogos de futebol, vôlei e atividades livres, fazendo a educação física ser levada a sério, dando, inclusive, noções de fisiologia.

Os professores devem tornar as aulas cada vez mais interessantes e estimulantes para as crianças, com a inserção de jogos e outros mecanismos que aproximem a teoria da prática.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2002)

VÍNCULOS ENTRE EDUCAÇÃO E POBREZA

Izabel Sadalla Grispino *

O estudante brasileiro de baixa renda tem no estudo seu passaporte para o mercado de trabalho, o qual consegue somente através de bolsas de estudo. Financiar os estudos dos estudantes carentes é lutar pelo desenvolvimento social da nação.

O jovem pobre, hoje, é consciente da necessidade de se freqüentar um curso superior para melhorar de vida. O Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ), divulgado em março de 2004, revela, surpreendentemente, que, ao contrario do que se fala, o jovem brasileiro gosta de trabalhar, quer estudar e luta para conseguir trabalho e conciliá-lo com os estudos.

Políticas afirmativas vêm surgindo, cada vez mais, nos meios educacionais. A educação começa a criar vínculos com a pobreza. A Universidade de São Paulo (USP), como alternativa à política de cotas para ingresso ao ensino superior, vai implantar um cursinho pré-vestibular gratuito. Deverá ser inaugurado em 1.º de julho do corrente ano, na zona leste da capital, uma das áreas mais carentes de São Paulo. Serão oferecidas 5 mil vagas para alunos da escola pública da região. As aulas do cursinho pré-vestibular e as apostilas serão supervisionadas por professores da USP, dadas por alunos da USP, que receberão capacitação e bolsa em dinheiro. O cursinho irá reforçar as 9 disciplinas do ensino médio e as aulas devem ser dadas em salas ociosas da rede estadual de ensino. A Secretaria Estadual de Educação entrou como parceira da USP, financiando o projeto.

Outra medida de ajuda da USP será a concessão, ainda para este ano, de 60 mil inscrições da taxa de vestibular da Fuvest para estudantes de baixa renda. No ano passado foram oferecidas 20 mil.

O cursinho pré-vestibular será de grande valia, porque irá socorrer alunos oriundos da rede pública, de um sistema de ensino decaído; alunos sem condições de pagar cursinhos particulares. Cinco mil vagas é um número insuficiente, o Educafro atende 9 mil alunos carentes, mas é, sem dúvida, uma iniciativa, um primeiro passo que será, certamente, seguido de outros. A tendência é crescer.

A formação de um cursinho pré-vestibular comunitário foi a alternativa que a USP encontrou, diante da política de cotas que o Ministério da Educação tenta implantar. A USP prefere ajudar na formação dos alunos do ensino médio, nas deficiências curriculares desse ensino, que aceitar aluno sem qualificação para os seus cursos, o que iria desestabilizar o seu padrão de ensino. Essa convicção foi reforçada após a primeira lei de cotas destinadas aos alunos da rede pública, aprovada pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2000. Na ocasião, os professores das universidades estaduais exigiram que se implantasse um Sistema de Acompanhamento do Desempenho dos Estudantes do Ensino Médio paralelo. Instituiu-se uma prova e os alunos que obtivessem conceitos D e E não poderiam pleitear a inclusão nas cotas. Em outubro de 2002, foi feita a primeira avaliação e 42,2% tiveram conceito E – menos  de 20% de acertos na prova – e 34%,  conceito D – menos de um terço de acertos na prova.

A avaliação preliminar às cotas mostrou uma precária formação, incapacitada à freqüência de uma universidade pública. Entendeu a USP que a desigualdade social não se corrigirá através de cotas e, sim, por melhorias no ensino público.

Ainda sobre o debate de cotas, o reitor Adolpho José Melfi revelou números do vestibular da USP de 2003, que mostram não ser apenas a origem racial ou pobreza os impedidores do ingresso à universidade. Entra aí, com peso considerável, a escolaridade dos pais. 34% dos inscritos no vestibular eram alunos do ensino médio público. Entre os aprovados, o índice foi de 18%. O que chamou a atenção foi o fato de, nesse montante, apenas 2% dos aprovados ter renda familiar mensal per capita inferior a R$ 500,00. Candidatos que conseguiram ingressar nas melhores universidades, tanto estaduais com federais, geralmente, têm pai e mãe com curso superior completo. Em alguns cursos, a porcentagem chega a 80% dos aprovados.

Esses dados vêm comprovar como o ambiente cultural interfere diretamente na aprendizagem do aluno. Analistas sociais citam a baixa escolaridade dos pais como forte fator de exclusão social, sobrepujando a faixa de renda familiar.

Quando se fala em baixo nível de escolaridade, a qualidade de vida surge como espelho refletor da realidade. Fatores culturais empobrecidos geram nível de ensino empobrecido. O ambiente cultural nativo tem peso considerável no desequilíbrio social. Que se arregimentem forças na ajuda ao aluno carente, seja por financiamentos, por bolsas de estudo, vagas estatizadas, vagas oficiais, cursinhos pré-vestibulares, isenção de taxas de inscrições ao exame vestibular, ou por outros mecanismos que venham facilitar o aluno pobre a estudar.

Que esses estudantes não sejam eles os pais, sem curso superior, a interferir negativamente na boa aprendizagem de seus futuros filhos. Que a médio prazo possamos reverter esse quadro, substituindo-o por um mais iluminado panorama educacional. Uma forte corrente de motivação deve percorrer os estratos mais pobres da população, provocar um renascimento, não deixando que o aluno pobre, ao concluir o ensino médio, pratique um ato de renúncia, de auto-exclusão. Esse aluno eleva sua autoconfiança quando percebe viabilizado economicamente o seu ingresso ao ensino superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2004)

AO PROFESSOR E AO MÉDICO

Izabel Sadalla Grispino *

Reverenciamos o 15 e o 18 de Outubro, louvando o dia do Professor e o dia do Médico.

O professor é a estrela-guia da humanidade, o suporte da sociedade, a esperança de um mundo de luz. A desigualdade social tem nele o seu grande ponto de equilíbrio.

Nosso desejo é que o professor volte ao seu posto de respeito e consideração usufruído no passado. Nossa prece é que ele nunca abdique de sua função, nunca desanime da árdua luta no intrincado caminho do ensinar. Que o mundo não o perca de vista, que lhe dê chances de continuar semeando o saber, espalhando, com seus ensinamentos, a dádiva do trabalho realizador!

Do mesmo modo, queremos nos confraternizar, prestar nossa homenagem à valorosa classe médica.

O médico, em sua missão de curar, de aliviar o sofrimento, é um profissional insubstituível. Ele alcança as raias divinas, quando alia ciência e sentimento de humanidade, quando tem o dom de olhar o doente, antes de chegar à doença, curando-a mais profundamente.

Que Deus nunca lhe falte, lhe dê forças para enfrentar os duros embates do exercício da medicina.

Ao professor e ao médico, estandartes da vida humana, minha poesia abaixo:

MAGISTÉRIO E MEDICINA

Todas as profissões têm no magistério
Seu ponto de articulação,
Após os 1.ºs passos, segue os próprios critérios,
Cada uma cumprindo sua nobre missão.

Magistério é tronco em ramificações,
Sua estrada tem começo, mas não tem fim,
Sustenta a linha divisória das profissões,
É vibração que circula em anéis de marfim.

Magistério é educação, é saúde,
É astro que irradia com convicção,
Ensinamento, que vai do berço ao ataúde.

A educação tem no magistério a força, o caminho,
A saúde tem na medicina o sol, a lua,
Não haveria o amanhã, sem a união das duas!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2006)

AO JORNAL “TRIBUNA IMPRESSA”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “Tribuna Impressa”, deste valioso instrumento de comunicação que Araraquara aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, venho, há cerca de dois meses, publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporciona-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade araraquarense, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Estou me propondo, entre outros, a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional do ensino vigente.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Já tive a oportunidade de passar alguns conceitos, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida, a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “Tribuna Impressa” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e clareie a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Araraquara, já vem se tornando habitual, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “Tribuna Impressa”, nas pessoas de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população.  O jornal “Tribuna Impressa” cresce com Araraquara, coloca-se na vanguarda jornalística. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente, que vem se tornando marca consagrada. Pessoas que lutam por ideais salvaguardam a humanidade. Onde há uma vontade, há um caminho. Parabéns!

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Araraquara. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos.

A todos vocês, queridos leitores,/ Que esse dois mil e um lhes seja risonho,/ Caminhos abertos, muitos amores,/ Que se realize seu mais lindo sonho.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em dezembro/2000)

UM PARALELO ENTRE O ENSINO OFICIAL E O ENSINO PRIVADO

Izabel Sadalla Grispino *

Pesquisa da Unesco, sobre o ensino médio, em 13 capitais brasileiras, mostrou o desinteresse dos alunos pelo aprendizado da escola. Mostrou sonhos diferenciados ente alunos de classe abastada e de classe pobre. Alunos de escola particular estão preocupados com o vestibular e os da escola pública, em arrumar emprego ao terminar o ensino médio.

Os alunos da escola pública estão em desvantagem na aprendizagem, especialmente no que se refere ao acesso à informática, ao uso de laboratórios e às atividades extracurriculares. A grande maioria não tem computador em casa. Nas escolas públicas 76% não usam computador em classe, na particular apenas 14%.

O livro “Ensino Médio: Múltiplas Vozes”, lançado em abril de 2003, coordenado pelos pesquisadores da Unesco Miriam Abramovay e Mary Garcia Castro, traz um retrato do ensino médio. Foram entrevistados mais de 7 mil professores e 50.740 alunos de 673 escolas públicas e privadas em 2001. Um dado triste e que revela falta de auto-estima é o fato de os alunos mostrarem tendência a se culpar pelo fracasso na escola. Os professores, também, atribuem ao desinteresse do aluno os maus resultados obtidos. Em São Paulo, os professores disseram que 71% dos problemas da escola são o desinteresse dos alunos e a maioria dos alunos, 57%, concordou.

A pesquisa revela que para os professores a repetência está simplesmente ligada a causas externas à escola, como família e condições socioeconômicas. Não há, entre eles, um questionamento sobre as falhas do sistema, ou a ausência de um ensino de qualidade, capaz de atrair e motivar o aluno. A repetência é grande, metade dos alunos já foi reprovada pelo menos uma vez nas escolas públicas. Nas particulares, o percentual fica em 25%. A reprovação é maior entre os estudantes do período noturno, 65%, do diurno, 40%. Entre a escola pública e a particular, a pública registra uma porcentagem bem maior de repetência: 43% por 19%.

Quanto à infra-estrutura, a escola pública perde de longe das privadas. Os alunos da escola pública ressentem-se da falta de um centro de informática, de laboratórios e de mais computadores. Os alunos das escolas particulares pedem mais liberdade, mais atividades extraclasses e mais esporte, reivindicando mais espaço. Segundo o relatório da pesquisa, numa escala de 0 a 10, os alunos das escolas públicas deram notas entre 4,7 e 6,3 para as salas de aula e os das escolas particulares, entre 6,4 e 7,8.

Uma grande ausência das escolas públicas é o computador. Dados do Ministério de 2003 mostram que o número de computadores nas escolas públicas é bem inferior ao das escolas  particulares. Se essa distância for mantida, a informatização das escolas públicas pode demorar 40 anos para terminar. Segundo o MEC, para que todas as escolas tenham uma média de um computador para cada 50 estudantes, são necessárias 800 mil máquinas. A rede pública recebeu apenas 42 mil computadores.

Entre 1999 e 2002, a quantidade de micros no ensino público subiu de 111.986 para 226.986. O setor privado, com muito menos alunos, as máquinas passaram de 184.371 para 263.001. Temos 179.935 escolas públicas e 34.258 estabelecimentos particulares. Na rede pública, o percentual das escolas que contam com computadores subiu de 13% (25.705) para apenas 23% (42.488) nos últimos três anos. Nas escolas particulares, a relação cresceu de 60% (17.735) para 70% (24.008) no mesmo período.

As escolas públicas estão ainda em defasagem bem maior no que se refere à disponibilidade de acesso à Internet. O número de escolas públicas, onde se pode usar a rede, em 1999, era de 1,3% (2.528) e em 2002, 8,2% (14.773). No ensino particular, os estabelecimentos com conexão à Internet subiram de 17% (5.157) em 1999 para 32% (13.320) em 2002. Essa defasagem será de difícil correção, estampando na rede oficial um ensino de baixa qualidade e uma fraca formação em informática. Como concorrer em igualdade de condições no mercado de trabalho, no ingresso ao ensino superior de uma boa faculdade?

Enquanto o setor privado forma cidadãos aptos a enfrentar os desafios que lhes vêm pela frente, o setor público vem formando não-cidadãos, fracassados por falta de conhecimento. O setor privado está bem próximo, segundo a pesquisa, de conseguir dar acesso à informática a todos os seus alunos; o ensino público coloca-se à margem, bem distante desse objetivo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2004)

CONSCIÊNCIA DA REALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Voltamos à análise do sistema educacional brasileiro. Análise de ângulos diferentes, por vezes repetitiva, porém necessária como alerta. A radiografia do ensino básico mostra um sistema ruim, pedindo socorro, com políticas direcionadas à educação.

O grande desafio é entender o que se passa com a qualidade do ensino brasileiro e dar prioridade absoluta à educação básica. Não se constrói  uma casa pelo teto. São as estacas enfincadas no chão que lhe dão estrutura, sustentação.

Todas as vezes que o Brasil participa de avaliações comparativas internacionais, nossos estudantes ocupam, sistematicamente, as últimas colocações, em língua, matemática e ciência, sem falar dos péssimos resultados obtidos em exames internos, feitos pelo Saeb, hoje Neb, pela Prova Brasil, pelo Enem e outros. “O ensino básico cresceu de modo espetacular no Brasil, mas a qualidade dele nos põe na rabeira do mundo”, diz o virtuoso Cláudio de Moura e Castro.

É preciso desenvolver a consciência nacional de que nosso sistema de ensino é ruim, olhar de frente, encarar a situação, tentar consertá-la. Enfrentar a diversidade cultural que toma conta da escola. Ensinar o que o aluno pode aprender e não o que o professor gostaria de ensinar. Abraçar uma pedagogia que alcance o aluno fraco e não descuide do aluno forte. Uma pedagogia concreta, real, distante do abstracionismo, aplicada à sala de aula. A tecnologia ajuda, mas não resolve, não substitui a boa aula.

A sala de aula não vai bem, o professor não aprendeu a ensinar. O aluno aprende pouco, perde muito tempo ou decorando ou copiando do quadro negro, em aula expositiva, ao invés de aprender a pensar, a pesquisar, a chegar às próprias conclusões.

A associação entre a capacidade do professor e a aprendizagem do aluno ainda não impregnou a classe docente. Classe, aliás, sofrida,  padecendo de baixa estima e, também, de severas lacunas na formação profissional. Como conseqüência, surge a falta de qualidade, incidindo sobre todos os graus de ensino. Essa falta prejudica a qualidade da mão-de-obra, ditando para o futuro uma queda mais lenta da desigualdade social.

É a escola que detém a manutenção ou a diminuição da desigualdade social. Um bom ensino repercute em emprego, em melhores condições de vida, sustentando a correlação entre educação e desenvolvimento. Um mal ensino só reproduz essas desigualdades no País.

Nesse quadro de valores, como pode o Brasil formar o capital humano necessário ao crescimento econômico, do qual dependem a redução de pobreza e a inclusão social das camadas menos favorecidas da população?

A qualidade de ensino advém de professores que dominam o conteúdo e aprenderam a dar aula. De currículos claros, explícitos, contextualizados. Do uso de bons livros didáticos, que acompanham o professor na sala de aula, da avaliação contínua, da recuperação paralela e da exigência de disciplina em aula.

O interesse dos pais pelo estudo dos filhos, um bom diretor, são fatores que corroboram com a qualidade de ensino. Costuma-se dizer que a escola tem a cara do diretor.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em novembro/2006)

MARCAS DA DESIGUALDADE EDUCACIONAL

Izabel Sadalla Grispino*

A política de reserva de vagas, além de inconstitucional, não é o meio mais adequado para garantir acesso ao ensino superior, conforme argumentei no artigo anterior. Continuarei, neste, a abordar o assunto, trazendo maiores esclarecimentos.

Ampliando a visão a respeito, vejamos o que nos expõe o estatístico Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, em seu “Estudo do desempenho dos candidatos da Fuvest/USP”. Diz ele que a reserva de vagas acarreta forte redução nas notas de corte do vestibular, nota que o candidato precisa alcançar para entrar na segunda fase do exame. Em conseqüência, alunos mais bem preparados perderiam o lugar para os despreparados, que viriam prejudicar o desempenho acadêmico.

O Estudo analisou o desempenho dos candidatos nos dois últimos vestibulares e concluiu que a política de quotas viria trazer um rebaixamento no nível do ensino, afetando sua qualidade. “Nas carreiras mais concorridas, um conjunto de alunos com média total de 661 (escala de 0 a 1000) seria excluído e substituído por outro grupo, com média 481, ou seja, seriam impedidos de entrar na USP alunos que tiveram um desempenho, no vestibular, de 37% superior”.

Explicou, ainda, que, em relação à nota de corte da primeira fase, haveria duas listas de convocados, uma para egressos das escolas públicas e outra para as privadas, com nota de corte diferente. “No caso do curso de engenharia, por exemplo, a nota de corte seria 81 para os primeiros e para os demais 131, isto é, uma diferença de 50 pontos numa prova. Assim, alunos de escolas privadas com 131 não seriam convocados, sendo substituídos por outros com nota 81”.

Na minha primeira abordagem, sobre este assunto, no artigo:  “Educação:  confusão  entre  ordem  direta  e inversa”, fiz as seguintes considerações: “Tenho, em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi, exaustivamente, delineada em várias ocasiões”.

No Rio de Janeiro, com a aprovação do projeto de reserva de vagas, surgiu todo um processo de reparação aos possíveis males ao ensino. Visando garantir a qualidade do ingresso, previu-se, na regulamentação da lei, que trata da reserva na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), de que ela só terá validade para o aluno que se submeter a testes ao longo do ensino médio. O documento prevê, ainda, que a reserva seja adotada somente para o vestibular de 2003, oportunizando as condições preestabelecidas.

Serão programadas avaliações durante o ensino médio, avaliações continuadas que funcionarão como indicadores de qualidade. Os alunos serão submetidos a quatro provas durante o ensino médio (duas no último ano). “Somente alunos que obtiveram um coeficiente mínimo de aproveitamento nos testes terão direito à reserva de vagas”.

Será também instituída uma comissão de representantes das secretarias de Ciência e Tecnologia e da Educação e do movimento estudantil para acompanhar a aplicação das provas. Foi estabelecido, também, como critério de que o aluno deva cursar toda a vida escolar em instituições públicas.

Se o projeto vier a ser aprovado no Estado de São Paulo, seguramente, será, na sua regulamentação, acompanhado de critérios de rigidez. Se forem adotados procedimentos similares aos do Rio de Janeiro, o ensino médio, também, no Estado de São Paulo, caracterizar-se-á por uma seqüência de provas preparatórias para o ingresso ao ensino superior.

Contudo, esse processo de avaliação, montado durante todo o ensino médio, não obtém consenso entre os especialistas da educação. É a chamada “Avaliação Progressiva”, também, já formulada em projeto de lei e que chegou a tramitar no Conselho Nacional de Educação, mas que parece não ter chegado a um bom termo. É um processo de seleção ao ensino superior feito ao longo dos três anos do ensino médio. Seria um escalonamento do vestibular em três séries, transformando o ensino médio numa transição para o ensino superior.

Essa proposta tem suscitado controvérsias entre os educadores, assinaladas por mim, no artigo “Sistemas diferenciados de avaliação para o ingresso ao ensino superior”. Os educadores questionam o conceito maior da educação desse nível de ensino, ou seja, a formação básica da cultura geral e dizem que esse processo de seleção acarretaria a obstrução das etapas normais do desenvolvimento das faculdades intelectuais, das faculdades formativas de valores e atitudes. Sobre o aspecto amplo da formação do aluno, dir-se-ia que esse processo de avaliação periódica seria prejudicial ao ensino médio. “Roubaria do aluno o tempo destinado à leitura suplementar, à pesquisa, à atenção destinada às potencialidades, pré-requisitos essenciais à formação integral e à atuação do futuro profissional”.

Com essa política de reserva de vagas, cria-se um impasse na educação. É como diz a letra da música: “Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

EDUCAÇÃO: CONFUSÃO ENTRE ORDEM DIRETA E INVERSA

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi exaustivamente delineada, em várias ocasiões.

A preocupação abrange o particular e o geral, o indivíduo e a nação. Enquanto o mundo se ilustra, países, como o Brasil, se deslustrando, acabam por cair em descrédito internacional, no estado de pobreza. Como fica o país despreparado frente à globalização? Como fica a concorrência com os países fortes, com seu povo culto, evoluído? Que patamar, no “ranking” mundial, alcançará nosso Brasil, nessa avalanche de conhecimento que toma conta do planeta?

Todos os países do primeiro mundo cultuam seus centros de excelência, que abrangem as melhores universidades. No Brasil, ao que parece, a tendência é a de desperdiçar esse potencial, eixo gerador de grandezas. Existe um projeto de lei, de autoria do senador Antero Paes de Barros, que determina a reserva de 50% das vagas nas universidades estaduais para alunos das redes públicas. Este projeto já fora aprovado na Comissão de Educação do Senado,  em caráter terminal – sem votação em plenário – por acordo entre os partidos. Na semana passada, para espanto dos educadores, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto semelhante, quase que por unanimidade; dos 68 deputados presentes, apenas um deixou de votar a favor.

Como admitir reserva de vagas por decreto, não importa a que tipo de aluno, sem um critério de qualidade, sem uma prévia avaliação do conhecimento? Que conseqüências socioculturais e econômicas advirão desse procedimento infundado? Um aluno sem boa formação terá condições de acompanhar um curso de alto nível? Ou se espera o contrário, que a universidade de desqualifique, arrebaixe seu padrão, aviltando seus critérios? Se essa última hipótese não vier acontecer, a conseqüência será o desânimo do aluno, sua desistência, seu fracasso profissional. Para atender ao perfil do novo ingressante, a universidade terá de criar programas de adequação curricular e, sem dúvida, com impacto na estrutura dos cursos.

O projeto parte do pressuposto de que só alunos das escolas particulares conseguem entrar nas universidades públicas, gratuitas, o que é absolutamente verdade. Mas, por que isso acontece? O que gera a injustiça? Dedução óbvia: a péssima formação recebida nos graus de ensino anteriormente freqüentados por esse aluno. Uma etapa vencida, num determinado padrão, gera outra, no mesmo padrão. Há coerência no trajeto percorrido.

Saltar de repente, sem base de sustentação, é se desfacelar na caída. Pulo de gato só em alpinistas sociais, em educação não funciona. O ingresso à universidade se constitui na legitimação de um processo de seleção anterior. Vamos pensar sério, agir sério, deixar a demagogia, o populismo inconseqüente. Vamos qualificar o aluno pobre, dando mais atenção, mais verba para a educação básica; vamos investir, equiparar, humana e materialmente, nossas escolas oficiais às escolas particulares, melhorando o seu ensino. Assim, não precisaremos inverter a ordem natural das coisas e dos fatos, camuflar valores, colocando a carroça diante dos bois e criando confusão entre ordem direta e inversa.

O ensino superior deve ser seletivo, deve receber os melhores preparados, na perspectiva do maior padrão possível de ensino. É preciso que os educadores se alertem, que reajam contra essa incongruência, que vai acabar no mesmo poço fundo da desigualdade social, com a agravante de arrastar junto as nossas melhores universidades.

Já se denunciou a inconstitucionalidade do projeto, quando a Constituição Federal, em seu inciso I, artigo 26, reza preceito contraditório a esse procedimento: “O ensino será ministrado no Brasil com base no princípio da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. O correto é, pois, dar igualdade de condições a ricos e a pobres e deixar que as vagas sejam daqueles que as conquistarem pela competência, pelo conhecimento adquirido. Sem uma educação de qualidade qualquer esforço por igualdade social é inútil.

Não se forma uma grande nação por decreto; forma-se pelos passos que essa nação desenvolve, pelas oportunidades que cria, pelos olhares, competentes e honestos, que dirige ao desequilíbrio da balança social, buscando justiça na eqüidade. A reserva de vagas, a alunos supostamente despreparados, só faz transferir o problema para a universidade, reflete negativamente sobre o nível superior oficial, nivelando-o por baixo.

Amanhã é Natal.  A todos meus prezados leitores votos de um dia feliz, extensivos ao ano inteiro. Que os sentimentos de paz, de amor, de fé, de que é portador, permaneçam junto a nós para sempre. Este ano, o Natal inspirou-me os versos, que publico a seguir.

NESTE NATAL

Quero, neste Natal, mãos que se tocam,

Vidas que, na alma, bondade estocam,

Quero a poesia alimentando a ilusão,

Sabendo que Jesus é coração.

Do papai-noel quero ajuda à pobreza,

Crianças sem fome, sem ar de tristeza,

Que partilham da mesa farta,

Junto ao presente, a esperançosa carta.

Neste Natal não quero iguaria,

Não quero a ceia ornamental,

Nem pedras enfrentando a artilharia.

Quero a graça de ver o mundo em paz,

Criança palestina em terra natal,

O amor expulsando satanás.

 

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em dezembro/2000)

ALERTA UNIVERSAL SOBRE A EDUCAÇÃO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

O mundo, como um todo, desperta para a educação infantil. Pesquisas mostram  a importância do maternal e da pré-escola. A conclusão, hoje, é  de que a educação infantil é um dos mais poderosos instrumentos para combater a pobreza e a desigualdade.

O poder da educação das crianças pobres nos primeiros anos de vida – as ricas já possuem –  norteia a opinião universal. Crianças pobres de 3 a 4 anos, numa sala de aula rica em palavras, são munidas de condições básicas para aprender, para aprimorar as potencialidades, para resolver problemas. Um ambiente instrutivo cria situações em que crianças pobres e ricas passam a ter as mesmas chances, não só no jardim da infância, mas na vida inteira.

Constatam os estudiosos de que o principal fator da pobreza são as diferenças familiares acarretando influências no desempenho escolar. Constatam que essas influências se manifestam não apenas nos primeiros meses de vida, como são mais poderosas nessa fase.

James Heckman, Prêmio Nobel de Economia, presente, no Rio de Janeiro, no seminário sobre educação, organizado, em novembro de 2005, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apresentou números mostrando que a maior parte das defasagens entre o desempenho de ricos e pobres, em testes, por exemplo, de matemática, já existe aos 6 anos, antes da 1.ª série do ensino fundamental. Pesquisas divulgadas no seminário, pela Fundação Getúlio Vargas, a freqüência a creches também se concentra na classe mais rica, atingindo, de 0 a 3 anos, 21,64% das crianças entre os 20% mais ricos, e apenas 5,2%, entre os 20% mais pobres.

A Educação Infantil constrói melhores cidadãos, concluem as pesquisas. O histórico estudo do Projeto Pré-Escolar Perry acompanhou as vidas de crianças pobres que freqüentaram escolas-modelo na infância (nos EUA, pré-escola corresponde ao maternal e ao jardim de infância daqui). Este projeto acompanhou um grupo de crianças afro-americanas pobres desde o maternal, no início dos anos 60, até a meia-idade. As conclusões foram consideradas assombrosas: um retorno de US$ 17 para o indivíduo e à sociedade, para cada dólar gasto, nesta etapa.

As crianças que estudaram no Programa Perry mostraram possibilidade de se formar no ensino médio e se casar bem maior que entre as crianças que não freqüentaram a pré-escola. A probabilidade de serem presas e dependerem de assistência pública mostrou-se significativamente menor. Ganham em média 25% a mais que as crianças que não passaram pela pré-escola. Uma diferença que permitiu que elas superassem a linha da pobreza.

O Ensino Infantil, além de melhorar o desempenho futuro no mercado de trabalho, melhora e muito o desempenho acadêmico posterior. Um outro estudo, de uma organização americana, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas em Educação Infantil, examinou os efeitos de uma boa experiência em pré-escola. Em testes de vocabulário, as crianças, que freqüentaram maternais estaduais tiveram notas 31% mais altas que as de um grupo similar de crianças que não freqüentaram o equivalente a 3 meses de aprendizado. Em testes de habilidades matemáticas, as que freqüentaram o maternal estadual tiveram notas 41% mais altas.

As iniciativas estaduais nos EUA vêm valorizando cada vez mais a freqüência de crianças na pré-escola, ressaltando no ensino as habilidades em leitura, interpretação e aritmética.

O Brasil precisa aparelhar-se para investir com força na pré-escola. Aqui, a matrícula de crianças de 4 a 6 anos, em famílias com renda superior a 20 salários mínimos, é de quase 90%, cai para menos de 30% nas que ganham menos de 1 salário mínimo (dados do MEC).

Um ponto alentador encontra-se no Nordeste, região com maior penetração da pré-escola. Dos 10 primeiros municípios brasileiros com maior proporção de crianças de 4 a 6 anos sendo escolarizadas, 8 são nordestinos. O governo espera a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que substituirá o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), para ampliar a abrangência do programa para pré-escola, a partir dos 4 anos. A necessidade de ampliar o atendimento à educação infantil é ponto pacífico, porém, é indispensável pensar em preparar o professor para o correto atendimento à faixa etária correspondente a esse período.

Desenvolver instrumentos pedagógicos para auxiliar os professores a ensinar práticas corretas, que alcancem o desenvolvimento das habilidades cognitivas, psicomotoras das crianças, não pode representar ao governo um objetivo menor. Diplomar sem qualificar é jogar no mercado de trabalho pessoas despreparadas, que, mais cedo ou mais tarde, causarão graves prejuízos para si mesmas e para a sociedade.

Um país justo não deve ter uma educação de primeira para os ricos e uma de segunda para os pobres.

A BIBLIOTECA

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é da comunidade o seu mestre-sala abrindo alas para a entrada do caminho do sol, descortinando um horizonte de estrelas. Ela é a sua fada-madrinha, presenteando a população com a mais cara jóia da humanidade, o livro. Nela moram os gênios da humanidade, os grandes das ciências, das artes, da filosofia, nela está armazenada a nata da intelectualidade mundial, as obras dos maiores artistas, dos maiores pensadores de todas as civilizações. Ela nos põe em contato com séculos de sabedoria e “só depende de você, de sua vontade de crescer como ser humano, na companhia deles”.

É a biblioteca quem fornece a matéria-prima da cultura, do reforço escolar, quem propicia e fortalece na criança e no jovem o hábito da imperiosa leitura, o hábito de ler. Ela é um recurso didático imprescindível ao ensino-aprendizagem. Com a adoção, pela escola, do método construtivista, coloca-se a pesquisa na vanguarda da metodologia.

A familiaridade com os livros deve acontecer desde a mais tenra idade. Várias são as estratégias utilizadas, lembrando a já consagrada “hora do conto”. Deve-se valer do imaginário mágico da criança e estimular a curiosidade, passar imagens, conceitos, como de que em cada livro há um tesouro escondido e que os mais valiosos tesouros do mundo estão guardados na biblioteca. Extrair das histórias o conteúdo moral, educacional, relacionando-o ao tesouro escondido.

Se quisermos formar leitores temos que nos valer de procedimentos que convirjam para esse fim. Montar uma biblioteca, com atrativos visuais, em local amplo, espaçoso, arejado, mantendo-o sempre limpo, com livros, revistas e jornais que atendam as diferentes faixas etárias, dispostos de maneira atraente, de fácil alcance e manuseio, de retirada facilitada, inclusive estimulada, porque o mais comum é dificultar, desestimulando o seu uso.

A biblioteca deve se constituir num ambiente acolhedor, convidativo, o usuário ou o aluno orientados, reiteradas vezes, para colaborar com a ordem, serem responsáveis, ajudando a manter o livro em bom estado de conservação. É indispensável uma pessoa treinada, encarregada da organização, da manutenção, do atendimento à população como um todo.

Frases estimuladoras, incentivadoras, slogans, devem ser espalhados em volta e dentro da biblioteca. No final do artigo, passo aos interessados, em meus versos, considerações e imagens sobre biblioteca, que podem ser colocados nas portas ou nas paredes da biblioteca, como estímulo e reflexão.

Sem a educação de nada adiantaria o avanço social; ele perderia sua base de sustentação, de conservação. São os livros que fortificam e dão forma à educação. Uma biblioteca pública coloca, em seu regaço hospitaleiro, também o menino pobre, estendendo-lhe as mãos, ajudando-o a desbravar sua inóspita floresta, fazendo-o alcançar a clareira e com ela encontrar o seu vale do sol.

Já se disse que “os livros constroem as grandes pátrias”. Os povos ignorantes abdicam de si nos outros e voltam-se à servidão e ao desaparecimento. A biblioteca, por seus livros, é a saída honrosa para se erguer o nosso Brasil, é a saída honrosa para fazer seu povo ascender, com dignidade e sabedoria, na escala social. Ela é o salvo-conduto para o mundo do conhecimento, mundo este encarregado de trazer a compreensão e a paz, de equilibrar o desnível social.

Quanto mais livros à disposição da população, mais a certeza de que ela saberá como achar seu tesouro escondido, como encontrar o verdadeiro caminho da felicidade.

 

BIBLIOTECA

Quanto encanto numa biblioteca!

Nos livros, quanta sabedoria!

As histórias da criança sapeca

Acordam do sono a alegoria!

Guardemos, pelo livro, respeito,

Tenhamos, por ele, o maior conceito!

Há vida intensa na biblioteca,

Nela moram o poeta e o escritor,

É da língua escrita a discoteca,

A ousadia do grande inventor!

O livro é um caminho de luz,

Como a Bíblia, ensina ver Jesus!

Biblioteca é desenvolvimento,

Sinônimo de educação,

Representa, ao homem, crescimento,

Força pra mente e pro coração!

O livro ensina a viver em paz,

Ele guarda as jóias que o mundo faz.

 

*Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em março/2001)

DESESTÍMULO À CARREIRA DE PROFESSOR

Izabel Sadalla Grispino *

O número de candidatos ao ingresso ao ensino superior, na formação de professores do 1.º e 2.º graus, vem paulatinamente decrescendo. Já há falta de professores, desse nível, em diversas localidades do Brasil e, ao que tudo indica, a tendência é aumentar. A desvalorização da carreira do magistério, nos últimos anos, tem sido uma constante, suscitando, em relação a ele, um sentimento de descrédito.

Se não se injetar recursos, tentar reverter a imagem desfavorável que hoje se tem da escola e do professor, a situação, com o passar dos anos, pode tornar-se insustentável, analisam os especialistas em educação. O desânimo parece ter tomado conta do professor, diante de seu baixo salário, de classes superlotadas, em média de 40 alunos no ensino médio, e ainda o pior, sem expectativa de melhora na carreira.

O professor tem sua auto-estima em baixa, sente-se desprestigiado pela sociedade que o vê como um profissional despreparado, incapaz de acompanhar as inovações, os avanços tecnológicos da época e, conseqüentemente, incapaz de elevar o nível de ensino, de trazer a qualidade tão necessária aos dias atuais. Esse professor precisa de ajuda, de suporte, de educação continuada, de melhores condições de trabalho, de uma melhor qualidade de vida, para encarar as mudanças e dar respostas que o reabilite perante seus alunos e perante a sociedade como um todo. Se essa visão falhar, se a vontade política não se acentuar, os jovens buscarão, certamente, outras profissões mais compensadoras, mesmo sabendo que, como professor, ele não ficará desempregado.

Segundo o novo secretário do Ensino Médio do Ministério da Educação (MEC), Antonio Ibãnez, faltam 200 mil professores nesse ensino, com déficit maior nas áreas de ciência: física, química, biologia e matemática. Nos últimos anos, o número de alunos no ensino fundamental cresceu de 92 para 97% do total das crianças em idade escolar. São atualmente 35 milhões de estudantes com índice de conclusão também cada vez maior. O aumento considerável de alunos no ensino médio foi uma decorrência inevitável. Hoje, tem quase 9 milhões de adolescentes e, para atendê-los, o País possui apenas 468 mil professores divididos entre os três anos do ensino médio.

Um estudo da Unesco, divulgado em fins de 2002, apoiado em dados de 1999, obtidos em 38 países, revela que os professores brasileiros da educação básica cumprem até tripla jornada e seu salário médio em início de carreira está entre os mais baixos dos países em desenvolvimento. O salário médio inicial do professor brasileiro só está um pouco acima apenas do Peru e da paupérrima Indonésia. A defasagem ressalta-se quando se compara com a Argentina, com o Uruguai e, principalmente, com a Suíça, que lidera os  países desenvolvidos. Ainda, entre 43 países, o Brasil tem a sexta maior média de aluno/professor (28,9) no ensino fundamental e a maior no ensino médio (38,6). O máximo recomendado pela Unesco e Organização Internacional do Trabalho está entre 20 e 30 alunos/professor. O número excessivo de alunos leva o professor a um estresse, prejudicando o seu rendimento e o rendimento do aluno.

O desestímulo ao magistério abarga, de maneira degradante, diversos ângulos, trazendo imagens de penúria, de desconsideração ao ser humano. Valendo-se da prerrogativa de atender, com emergência a demanda de matrículas, Estado e Prefeitura construíram escolas de aço pré-moldado, modelo semelhante a contêineres. São as chamadas escolas de lata, condenadas como medida antipedagógica. No verão passam um calor sufocante que atrapalha alunos e professores. O rendimento de ambos cai bastante e é preciso tirar as crianças das salas de aula com mais freqüência para tomarem ar. Vão várias vezes para o recreio, suando e com mal-estar. Quando chove forte, o barulho é tanto que atrapalha as aulas. Mal se ouve o que o outro está falando e, segundo relato de professores, as crianças se assustam e começam a chorar.

Quadro desolador do magistério público! Se a educação é tratada nesse nível, como esperar incentivo à carreira do professor? Como esperar que os jovens se entusiasmem e se enveredem nessa direção? Se quisermos professores e bons professores tratemos de nos preocupar, sem subterfúgios, à causa da educação. Investirmos mais na qualidade das licenciaturas e cursos de formação de professores, elevarmos os salários progressivamente, para que consigamos dar um salto para o futuro.

Valendo-me deste valioso veículo de comunicação, lembro de que já estão à disposição das escolas públicas e particulares de ensino médio do País os resultados do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 2002. O boletim mostra a nota média do conjunto dos estudantes da escola e a média brasileira.

O documento é gratuito para as escolas públicas. As particulares devem pagar uma taxa de R$ 5,00 por aluno. As instituições podem solicitar os resultados pelo e-mail do Inep – enem@inep.gov.br. O Inep é o órgão do Ministério da Educação responsável pelo teste.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em julho/2003)

SOCIEDADE DO CONHECIMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

A educação, a boa educação, é o elemento primordial para se viver e se atuar na atual sociedade. O conhecimento tornou-se a mola-mestra do progresso, condição sine qua non para uma boa colocação profissional.

Essa sociedade exige que a criança seja não apenas educada, mas bem educada, o aluno capaz de pensar, de analisar, de criticar, de interferir na realidade circundante.

O desenvolvimento das habilidades e das capacidades intelectuais passou a ser o foco da educação, sendo o ensino ministrado através de projetos, onde o aluno, elemento ativo do processo de construção do conhecimento, é o centro de todas as atenções, de todas as atividades desenvolvidas.

A era do conhecimento chegou e a escola precisa ensinar esse aluno a buscar o saber, a aprender a aprender, a ter iniciativa, a desbravar a floresta. Para tanto, é preciso que ele tenha autonomia na aprendizagem, armas psicológicas, embasamento científico-cultural e que avance no terreno educacional e social com critério e lucidez. A função educativa da escola se fortaleceu, fortalecendo o conhecimento do aluno.

Um outro fator, que chama atenção da época atual é o domínio de línguas, da língua nacional e de línguas estrangeiras. Para se colocar na sociedade globalizada, o indivíduo precisa dominar, no mínimo, duas línguas. Se antigamente o francês foi o alvo, hoje é o inglês.

Com a chegada do Mercosul, bloco comercial da união dos países da América Latina, a esperança de trabalho, de empregos, suscitou a importância do estudo do espanhol. Hoje, embora o Mercosul não tenha alcançado o vôo que se sonhava é ainda esperança, se não tanto de trabalho, mas de encontro de idéias de nossos irmãos patrícios, de sua rica cultura, seus costumes e tradições que se colocam ao nosso alcance e nos fazem entender melhor a nossa realidade, a nossa terra.

O entusiasmo pelo estudo da língua espanhola tomou conta da nação brasileira. Muitas escolas já ensinam o espanhol e o que se pretende é torná-lo obrigatório em todo território nacional. O espanhol é, talvez, depois do inglês, a língua mais estudada no mundo todo.

Tenho em minhas mãos um livro de histórias, “Vagalumes da Infância”, de Ledercy Gigante de Oliveira, trazendo, em si, a idéia original de escrever as histórias em português e, na segunda metade do livro, colocá-las em espanhol. São histórias curtas, ligeiras, conforme recomenda a boa didática, que mexem com a imaginação, com o devaneio.

Pelo título, aliás sugestivo, supõe-se que são lembranças suas do passado, reminiscências da infância, se bem que em alguns contos o passado traz lances do presente.

O pensamento voa solto. Alguns contos apresentam um fino humor e certos detalhes, que permitem visualizar a cena descrita. São textos bem montados, bem escritos, com propriedade de linguagem, com a surpresa da apresentação, de uma obra bilíngüe. Seu estilo leve convida à leitura continuada.

Personalidade vibrante, alma irrequieta, Ledercy passeia pela vasta área pedagógica, deixando heranças diversificadas, lições de aprendizagem. Foi minha colega de supervisão e quem trabalhou com ela sabe da seriedade com que enfrenta tudo que faz.

Além de despertar o gosto pela leitura, “Vagalumes da Infância” tem o mérito de incentivar, de atrair o aluno para o estudo da língua espanhola. Passa-se de uma língua a outra, com a facilidade do suporte da língua-mãe.

Ledercy tem faro profissional, traço que faz o diferencial nas realizações de sucesso. Esse traço, apresentando contos bilíngües, trará ressonância, no momento atual da educação.

*Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2007)

A CASA COMO ESCOLA DOS FILHOS

Izabel Sadalla Grispino *

Atinge as esferas judiciais e educacionais a discussão sobre a possibilidade de os pais ministrarem, aos filhos, o ensino em casa, sem que tenham que ir à escola e freqüentar a sala de aula. A mídia tem noticiado casos em que pais tentam, através de mandado de segurança, garantir, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o direito de educar os filhos em casa e levá-los a uma escola determinada apenas para realizar as provas, a fim de submeter-se à avaliação escolar.

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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